quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Epistemologia das ciências sociais – Susana Salete Raymundo Chinazzo

Editora: InterSaberes
ISBN: 978-85-8212-611-0
Opinião: ★★★☆☆
Páginas: 184

“A epistemologia ou teoria do conhecimento é um ramo da filosofia “que indaga pela possibilidade, origem, essência, limites, pelos elementos e pelas condições do conhecimento” (Urbano Zilles, A teoria do conhecimento, 1994, p 11). Composta de dois termos gregos — episteme (“ciência”) e logia (“conhecimento”) —, a palavra epistemologia significa “conhecimento filosófico sobre a ciência”.
Como seu próprio nome indica, a teoria do conhecimento tem como objetivo explicar ou interpretar filosoficamente o conhecimento humano. Busca um critério de certeza sobre ele, ou seja, a adequação entre o objeto do conhecimento e seu conteúdo, a coerência entre o pensamento e a realidade por ele intencionada. (...)
As questões clássicas da teoria do conhecimento foram apresentadas de forma sucinta por Johanes Hessen, em sua obra Teoria do conhecimento:
1. Pode o sujeito apreender ou conhecer realmente o objeto? Questão da possibilidade.
2. De onde se originam os conteúdos da consciência cogniscente: da razão ou da experiência? Questão da origem do conhecimento humano.
3. Em que consiste o conhecimento? Questão da essência do conhecimento.
4. Há outro conhecimento além do racional? Questão das formas de conhecimento humano.
5. Que critério nos diz se conhecimento é ou não verdadeiro? (Hessen, 1987)
A teoria do conhecimento permite que a metodologia possa analisar as condições e os limites de realidade dos meios de investigação e dos instrumentos linguísticos do saber científico.”


“A filosofia grega teve no diálogo a sua origem e a sua forma literária, e a pesquisa filosófica encontrou no diálogo uma forma de realização perfeita. O essencial no diálogo é conversar, discutir, perguntar; responder. A comunicação se torna o espetáculo mais belo da Terra. O diálogo tem como princípio a tolerância. Nele, aprende-se a liberdade de respeitar e de suportar outros pontos de vista e de propor os seus princípios sem impô-los.”


“A dialética pode ser vista como uma teoria das leis gerais do movimento, do desenvolvimento do mundo e do conhecimento do homem. É definida como um modelo mental dos processos de modificações e de desenvolvimento do mundo. Enfim, é o diálogo das coisas entre si, das coisas com os homens e dos homens consigo mesmos e com os outros homens. Em parte, ela faz renascer na consciência a importância do diálogo, que já se verificava na Grécia Antiga.”


“A ciência moderna, independentemente da sua área de estudo, constitui-se a partir de um conjunto de proposições comparadas e relacionadas entre si, formando um todo. Tanto a razão como a experiência contribuem para a construção desse conhecimento. Com o uso da razão, o cientista imagina, inventa ou descobre as leis; pela experiência, confirma-as ou rejeita-as. Pela razão procura explicar, compreender e unificar os fatos observados; pela experiência e por experimentos, tenta mostrar que suas explicações são, de fato, verdadeiras ou que são falsas, produzindo, então, uma nova teoria. Para que uma teoria ou lei possa ser reconhecida cientificamente, tem de estar de acordo com determinadas exigências, estabelecidas nas regras do método científico.
Epistemólogos e cientistas já atribuíram várias características ou propriedades à ciência moderna. Seguem alguns exemplos dessas características: OBJETIVA, porque estuda objetos concretos; EXPERIMENTAL, porque necessita estar baseada na experiência e nos experimentos; PRECISA, porque deve ser exata o máximo possível; METÓDICA, porque deve observar cuidadosamente todas as regras do método científico; RESÍVEL, porque pode modificar-se e corrigir-se; PRÁTICA, porque pode ter aplicações concretas por meio da técnica; PROVÁVEL, porque muita coisa que está sendo verificada pode ser tomada como muito próxima da verdade; SISTEMÁTICA, porque uma verdade científica está relacionada com outra, formando um todo.
O conhecimento científico é uma construção lógica e intelectual que está solidificada nas regras científicas da coerência dos princípios teóricos, da observação e da experimentação. Espera-se que os resultados obtidos possam contribuir para a mudança dos princípios teóricos ou construir novos. Mas isso não significa que esses princípios apresentam a realidade em si mesma. Eles apenas revelam a estrutura e o modelo de funcionamento da realidade, por meio das explicações sobre os fenômenos observados. Portanto, a ciência não afirma nenhuma verdade absoluta, e sim uma verdade próxima da realidade, que está sujeita a modificações, complementos teóricos ou até mesmo à substituição por outra teoria mais apropriada.
O discurso científico apropria-se do poder do evento, coisa que o discurso mítico não fazia. Isso gerou no homem moderno a convicção de que o discurso da ciência é poderoso e que o conhecimento mais recente é o mais poderoso, porque lutou contra os outros, refutou-os e venceu. Mais do que um progresso na compreensão da experiência humana, as ciências demonstram a vontade do homem de ampliar seu poder sobre a natureza e sobre a própria condição humana. Com isso, espera-se que o homem vença aspectos angustiantes, tendo uma existência mais jubilosa. (...)
Com a revolução científica, a ciência buscou novos modelos e métodos para assegurar sua cientificidade e credibilidade, nos moldes da matemática, vista como exata, rigorosa, objetiva, universal, necessária e desprendida da subjetividade e do valor. Passou, assim, a ser definida como produtora de um conhecimento que se apropria do real e explica-o de forma objetiva, por meio de leis universais.”


“A pergunta que fica é a seguinte: Será que existe algum critério que permite separar as proposições científicas das demais proposições? Para o epistemólogo Karl Raimund Popper (1902-1994), é possível. Segundo ele, devem ser chamados de científicos somente os enunciados que podem ser relacionados, confrontados e julgados pelos fatos.
Segundo Popper, o que faz uma proposição ser científica é seu conteúdo experimental, e não sua veracidade ou falsidade. Ou seja, tudo aquilo que, de um modo ou de outro, pode ser colocado diante dos fatos para ser julgado é científico, mesmo que seja falso. Científico é sinônimo de testável, experimentável, falsificável.
É importante salientar que existem muitos temas que não têm natureza experimental e, portanto, não podem ser submetidos a uma abordagem pela ciência experimental. Não é possível aplicar o método científico aos conhecimentos filosóficos, teológicos e matemáticos.
O fato de o conhecimento científico estar baseado em fatos não garante que seja mais certo e mais objetivo que outros tipos de conhecimento. É interessante ressaltar que o conhecimento científico é somente uma forma de conhecimento. Não é a única nem a melhor nem a mais certa. A sua vantagem é poder ser julgado pelos fatos mais facilmente.
O filósofo Karl Popper fez uma reelaboração do conceito filosófico-científico da verdade. Durante muitos séculos, considerou-se que a correspondência exata, ou a verdade entre uma ideia e a realidade, estava na coerência interna dos conceitos. No período moderno, tinha-se a concepção de que o falso ou a inverdade de uma teoria significava falta de coerência e que a contradição entre seus princípios ou entre seus conceitos era sinônimo de falta de confiabilidade. A proposta do autor era ver a teoria científica por outro ângulo, ou seja, pela possibilidade de uma teoria ser falsa ou falsificada.
Segundo Popper, a riqueza de uma teoria científica está justamente na possibilidade de estar aberta a novos fatos, desconstruindo, assim, princípios e conceitos tidos como verdadeiros. Nessa nova leitura de ciência, o valor de uma teoria não se restringe à verdade, mas à sua falseabilidade. A ideia de progresso científico é essencialmente ver uma teoria se constituindo e se corrigindo por meio de novos fatos, e não enclausurada dentro de conceitos e de princípios fechados. Em outras palavras, uma teoria é um conceito.”


“A crise atual com que as ciências humanas e sociais se deparam diz respeito à constituição do sujeito, isto é, a qual é a sua identidade, a qual grupo pertence. Como dizem os cientistas políticos,
Globalização diz respeito à multiplicidade de relações e interconexões entre Estados e sociedades, conformando o moderno sistema mundial. Focaliza o processo pelo qual os acontecimentos, as decisões e as atividades em uma parte do mundo podem vir a ter consequências significativas para indivíduos e coletividades em lugares distintos do globo. (McGrow, Conceptualizing Globas Politics, 1992, p. 23)
A globalização modela a subjetividade segundo os interesses e as disputas dos capitais e das hegemonias políticas, tornando a relação da sociedade com o indivíduo extremamente complexa. Hoje, invadem-se culturas inteiras com pacotes de informações, entretenimentos e ideias, rompendo-se fronteiras e desconsiderando-se a história e as ideias que caracterizam o modo de ser de cada pessoa, ou seja, a sua individualidade. Como diz Marshall McLuhan, citado por Octavio Ianni (1996, A sociedade global, p. 48), “A cultura eletrônica da aldeia global coloca-nos ante uma situação na qual sociedades inteiras comunicam-se mediante uma espécie de ‘gesticulação macroscópica’, que não é em absoluto linguagem no sentido usual”.
O reflexo dessa situação global está presente nas mídias de massa, que impõem padrões estéticos, éticos e políticos. Segundo Foucault, essas mídias têm tal poder sobre a subjetividade que assumem o controle sobre certos comportamentos, determinando, assim, certos movimentos sociais e interferindo, sobretudo, no consumo de determinados produtos, em suma, invadindo a subjetividade e gerenciando a vida do indivíduo. (...)
O maior desafio hoje é a ideia de autonomia em relação ao sujeito e ao objeto, visto que o objeto se autoconstrói. Faz-se necessária uma reorganização democrática da sociedade, perpassando pelo desenvolvimento da ciência e da técnica. Essas transformações estão diretamente ligadas à questão da subjetividade; modificando a visão de que as diferenças sociais não significam desigualdade social, mas pluralidade.
É preciso uma diversidade de experiências em diferentes grupos e indivíduos, dando espaço para que os grupos ditos excluídos possam mostrar suas identidades específicas, tornando-se sujeitos de suas vidas. O desafio maior com que os cientistas se deparam no contexto atual é com a hierarquização das diferenças sociais e culturais.
As ciências humanas e sociais buscam a constituição dos sujeitos contemporâneos para que possam desenvolver socialmente seus potenciais de diferença e preservar, assim, a sua individualidade e seu modo de ser; considerando sexo, raça, religião, cultura e as formas de manifestação de seus desejos e comportamentos. Objetivam também que essa individualização ou subjetividade, ou identidade cultural, não seja legitimada como desigualdade social. A envergadura científica está justamente no âmbito das fronteiras mundiais, isto é, implica resgatar; pesquisar as nacionalidades, as regionalidades de cada povo e cultura, retomando, com isso, a criatividade e a subjetividade humana.”

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