segunda-feira, 29 de julho de 2013

Cadernos do cárcere (Volume 1) – Antonio Gramsci

Editora: Civilização brasileira
ISBN: 978-85-2000-511-8
Tradutor: Carlos Nelson Coutinho
Opinião: ★★☆☆☆
Páginas: 496
Sinopse: Escritos por Gramsci no longo período em que esteve preso nos porões da ditadura fascista italiana, os Cadernos do Cárcere constituem uma das obras mais importantes da teoria política deste século pois, entre outras coisas, são a fonte de conceitos e expressões que se integrariam ao nosso vocabulário cotidiano como “intelectual orgânico”, “hegemonia”, “sociedade civil” e outros.



“O materialismo histórico, compreendido corretamente, não é um mero economicismo, mas é sim uma dialética real, que compreende a história superando-a com a ação, e que não separa história e filosofia, mas – colocando os homens sobre seus pés – faz destes os artífices conscientes da história, e não os joguetes da fatalidade, na medida em que os seus princípios, isto é, os seus ideais, centelhas que brotam das lutas sociais, são precisamente estímulos à práxis que, mediante a sua ação, se subverte.”


“Pode-se observar como o elemento determinista, fatalista, mecânico, tenha sido um “aroma” ideológico imediato da filosofia da práxis, uma forma de religião e de excitante (mas ao modo dos narcóticos), tornada necessária e justificada historicamente pelo caráter “subalterno” de determinados estratos sociais. Quando não se tem a iniciativa na luta e a própria luta termina assim por identificar-se com uma série de derrotas, o determinismo mecânico transforma-se em uma formidável força de resistência moral, de coesão, de perseverança paciente e obstinada. “Eu estou momentaneamente derrotado, mas a força das coisas trabalha por mim a longo prazo, etc.” A vontade real se disfarça em um ato de fé, numa certa racionalidade da história, numa forma empírica e primitiva de finalismo apaixonado, que surge como um substituto da predestinação, da providência, etc., próprias das religiões confessionais. Deve-se insistir sobre o fato de que, também nesse caso, existe realmente uma forte atividade volitiva, uma intervenção direta sobre a “força das coisas”, mas de uma maneira implícita, velada, que se envergonha de si mesma; portanto, a consciência é contraditória, carece de unidade crítica, etc. Mas, quando o “subalterno” se torna dirigente e responsável pela atividade econômica de massa, o mecanicismo revela-se num certo ponto como um perigo iminente; opera-se, então, uma revisão de todo o modo de pensar, já que ocorreu uma modificação no modo social de ser. Os limites e o domínio da “força das coisas” se restringiram. Por quê? Porque, no fundo, se o subalterno era ontem uma coisa, hoje não o é mais: tornou-se uma pessoa histórica, um protagonista; se ontem era irresponsável, já que era “resistente” a uma vontade estranha, hoje sente-se responsável, já que não é mais resistente, mas sim agente e necessariamente ativo e empreendedor . Mas, mesmo ontem, será que ele era apenas simples “resistência”, simples “coisa”, simples “irresponsabilidade”? Não, por certo; deve-se, aliás, sublinhar que o fatalismo é apenas a maneira pela qual os fracos se revestem de uma vontade ativa e real. É por isso que se torna necessário demonstrar sempre a futilidade do determinismo mecânico, o qual, explicável como filosofia ingênua da massa e, somente enquanto tal, elemento intrínseco de força, torna-se causa de passividade, de imbecil autossuficiência, quando é elevado a filosofia reflexiva e coerente por parte dos intelectuais; e isto sem esperar que o subalterno torne-se dirigente e responsável. Uma parte da massa, ainda que subalterna, é sempre dirigente e responsável, e a filosofia da parte precede sempre a filosofia do todo, não só como antecipação teórica, mas também como necessidade atual.”


“Coloca-se a questão: não seria necessário, ao contrário, referir-se apenas aos grandes intelectuais adversários, deixando de lado os secundários, os repetidores de frases feitas? Tem-se a impressão, precisamente, de que se pretende combater apenas contra os mais débeis e, até mesmo, contra as posições mais débeis (ou mais inadequadamente sustentadas pelos mais débeis), a fim de obter fáceis vitórias verbais (já que é impossível falar de vitórias reais). Cria-se a ilusão de que existe uma semelhança qualquer (que não formal e metafórica) entre uma frente ideológica e uma frente político-militar. Na luta política e militar, pode ser conveniente a tática de penetrar nos pontos de menor resistência para ganhar condições de investir sobre o ponto mais forte com o máximo de forças, colocadas à disposição precisamente por causa da eliminação dos auxiliares mais débeis, etc. As vitórias políticas e militares, dentro de certos limites, têm um valor permanente e universal, podendo o fim estratégico ser alcançado de uma maneira decisiva com efeitos gerais para todos. Na frente ideológica, ao contrário, a derrota dos auxiliares e dos seguidores menores tem uma importância quase insignificante; nela, é preciso lutar contra os mais eminentes. Se não for assim, confunde-se o jornal com o livro, a pequena polêmica cotidiana com o trabalho científico; os menores devem ser abandonados à casuística infinita da polêmica jornalística.”
Uma nova ciência alcança a prova da sua eficiência e fecunda vitalidade quando demonstra saber enfrentar os grandes campeões das tendências opostas, quando resolve com os próprios instrumentos as questões vitais colocadas por estas tendências ou quando demonstra peremptoriamente que tais questões são falsos problemas.
É verdade que uma época histórica e uma determinada sociedade são representadas sobretudo pela média dos intelectuais e, consequentemente, pelos medíocres; mas a ideologia difusa, de massa, deve ser diferenciada das obras científicas, das grandes sínteses filosóficas, que são, ademais, as suas verdadeiras culminações, as quais devem ser nitidamente superadas, ou negativamente, demonstrando-lhes a falta de fundamento, ou positivamente, contrapondo-lhes sínteses filosóficas de maior importância e significação. Lendo o Ensaio Popular de Bukharin, temos a impressão de alguém que não pode dormir por causa da claridade da lua e que se esforça por matar a maior quantidade possível de vaga-lumes, convencido de que assim a claridade diminuirá ou desaparecerá.”


“A filosofia da práxis “basta a si mesma”, contendo em si todos os elementos fundamentais para construir uma total e integral concepção do mundo, não só uma total filosofia e teoria das ciências naturais, mas também os elementos para fazer viva uma integral organização prática da sociedade, isto é, para tornar-se uma civilização total e integral.”


“No prefácio de O Capital, está dito: “Na produção social da sua vida, os homens contraem determinadas relações necessárias e independentes de sua vontade, relações de produção, que correspondem a uma determinada fase de desenvolvimento das suas forças produtivas materiais. O conjunto destas relações de produção forma a estrutura econômica da sociedade, a base real sobre a qual se levanta a superestrutura jurídica e política e à qual correspondem determinadas formas de consciência social... Ao chegar a uma determinada fase de desenvolvimento, as forças produtivas materiais da sociedade se chocam com as relações de produção existentes, ou, o que não é senão a sua expressão jurídica, com as relações de propriedade dentro das quais se desenvolveram até aqui. De formas de desenvolvimento das forças produtivas, estas relações se convertem em obstáculos a elas. E se abre, assim, uma época de revolução social. Ao mudar a base econômica, revoluciona-se, mais ou menos rapidamente, toda a imensa superestrutura erigida sobre ela... Nenhuma formação social desaparece antes que se desenvolvam todas as forças produtivas que ela contém, e jamais aparecem relações de produção novas e mais altas antes de amadurecerem no seio da própria sociedade antiga as condições materiais para a sua existência”.”


“A superstição científica traz consigo ilusões tão ridículas e concepções tão infantis que a própria superstição religiosa termina enobrecida. O progresso científico fez nascer a crença e a espera em um novo Messias, que realizará nesta terra o Eldorado; as forças da natureza, sem nenhuma intervenção do esforço humano, mas através de mecanismos cada vez mais perfeitos, darão em abundância à sociedade todo o necessário para satisfazer seus carecimentos e viver com fartura. Contra este fanatismo, cujos perigos são evidentes (a supersticiosa fé abstrata na força taumatúrgica do homem conduz paradoxalmente à esterilização das próprias bases desta força e à destruição de todo amor pelo trabalho concreto e necessário, em troca de fantasias, como se se tivesse fumado uma nova espécie de ópio), é necessário combater com vários meios, dos quais o mais importante deveria ser um melhor conhecimento das noções científicas essenciais, divulgando a ciência através de cientistas e de estudiosos sérios e não mais de jornalistas oniscientes e de autodidatas presunçosos. Na realidade, por se esperar muito da ciência, ela é concebida como uma bruxaria superior e, por isso, torna-se impossível valorizar com realismo o que a ciência oferece de concreto.”


“Mas não podem impedir, nem o devem, que cada geração use a linguagem que melhor se adapte ao seu modo de pensar e de compreender o mundo.”


“De Man tem a pedante pretensão de trazer à luz e ao primeiro plano os chamados “valores psicológicos e éticos” do movimento operário; mas pode significar isso, como pretende De Man, uma refutação peremptória e radical da filosofia da práxis? Isso seria como afirmar que o fato de deixar claro que a grande maioria dos homens ainda se encontra na fase ptolomaica signifique refutar as doutrinas de Copérnico, ou que o folclore deva substituir a ciência. A filosofia da práxis sustenta que os homens adquirem consciência de sua posição social no terreno das ideologias; ela excluiu o povo, por acaso, deste modo de tomar consciência de si? É uma observação óbvia, contudo, a de que o mundo das ideologias é (em seu conjunto) mais atrasado do que as relações técnicas de produção: um negro recém-chegado da África pode se tornar um trabalhador de Ford, mesmo mantendo-se por muito tempo um fetichista e mesmo permanecendo persuadido de que a antropofagia é uma maneira de alimentação normal e justificada. De Man, feita uma investigação a respeito, que conclusões poderia extrair deste fato? Que a filosofia da práxis deva estudar objetivamente o que os homens pensam de si mesmos e dos outros é indubitável; mas isto implica aceitar passivamente, como eterno, este modo de pensar? Não seria isto uma manifestação do pior dos mecanicismos e fatalismos? A tarefa de toda iniciativa histórica é modificar as fases culturais precedentes, tornar a cultura homogênea, em um nível superior ao precedente, etc. Na realidade, a filosofia da práxis trabalhou sempre naquele terreno que De Man acredita ter descoberto, mas trabalhou buscando inová-lo, não conservá-lo passivamente. A “descoberta” de De Man é um lugar-comum; e sua refutação, uma ruminação pouco saborosa.”


“O elemento popular “sente”, mas nem sempre compreende ou sabe; o elemento intelectual “sabe”, mas nem sempre compreende e, menos ainda, “sente”. Os dois extremos são, portanto, por um lado, o pedantismo e o filisteísmo, e, por outro, a paixão cega e o sectarismo. Não que o pedante não possa ser apaixonado, ao contrário; o pedantismo apaixonado é tão ridículo e perigoso quanto o sectarismo e a mais desenfreada demagogia. O erro do intelectual consiste em acreditar que se possa saber sem compreender e, principalmente, sem sentir e estar apaixonado (não só pelo saber em si, mas também pelo objeto do saber), isto é, em acreditar que o intelectual possa ser um intelectual (e não um mero pedante) mesmo quando distinto e destacado do povo-nação, ou seja, sem sentir as paixões elementares do povo, compreendendo-as e, portanto, explicando-as e justificando-as em determinada situação histórica, bem como relacionando-as dialeticamente com as leis da história, com uma concepção do mundo superior, científica e coerentemente elaborada, com o “saber”; não se faz política-história sem esta paixão, isto é, sem esta conexão sentimental entre intelectuais e povo-nação. Na ausência deste nexo, as relações do intelectual com o povo-nação são, ou se reduzem, a relações de natureza puramente burocrática e formal; os intelectuais se tornam uma casta ou um sacerdócio (o chamado centralismo orgânico). Se a relação entre intelectuais e povo-nação, entre dirigentes e dirigidos, entre governantes e governados, é dada graças a uma adesão orgânica, na qual o sentimento-paixão torna-se compreensão e, desta forma, saber (não de uma maneira mecânica, mas vivida), só então a relação é de representação, ocorrendo a troca de elementos individuais entre governantes e governados, entre dirigentes e dirigidos, isto é, realiza-se a vida do conjunto, a única que é força social; cria-se o “bloco histórico”.”


“A afirmação de Hegel de que na história todo fato se repete duas vezes; correção de Marx, segundo a qual na primeira vez o fato se verifica como tragédia, na segunda como farsa. Este conceito já fora delineado por Marx na Contribuição à crítica da filosofia do direito: “Os deuses da Grécia, já tragicamente feridos de morte no Prometeu acorrentado de Ésquilo, tiveram de morrer novamente de forma cômica nos diálogos de Luciano. Por que essa marcha da história? Para que a humanidade possa alegremente separar-se do seu passado. Este alegre destino histórico é o que reivindicamos para os poderes políticos da Alemanha”.


“A objeção de senso comum que pode ser feita ao ceticismo é esta: que, para ser coerente consigo mesmo, o cético não deveria fazer mais do que viver como um vegetal, sem se misturar aos assuntos da vida comum. Se o cético intervém na discussão, isso significa que acredita que pode convencer, ou seja, não é mais cético, pois representa uma determinada opinião positiva, que frequentemente é má e só pode triunfar na medida em que convence a comunidade de que as outras são ainda piores, já que são inúteis.”


“Não se leva suficientemente em conta que muitos atos políticos são motivados por necessidades internas de caráter organizativo, isto é, ligados à necessidade de dar coerência a um partido, a um grupo, a uma sociedade. Isto é evidente, por exemplo, na história da Igreja Católica. Se alguém pretendesse encontrar, para todas as lutas ideológicas no interior da Igreja, a explicação imediata, primária, na estrutura, estaria perdido: muitos romances político-econômicos foram escritos por esta razão. É evidente, ao contrário, que a maior parte destas discussões são ligadas a necessidades sectárias, de organização. Na discussão entre Roma e Bizâncio sobre o estatuto do Espírito Santo, seria ridículo buscar na estrutura da Europa Oriental a afirmação de que o Espírito Santo procede apenas do Pai, e, na do Ocidente, a afirmação de que ele procede do Pai e do Filho. As duas Igrejas, cuja existência e cujo conflito estão na dependência da estrutura e de toda a história, colocaram questões que são princípio de distinção e de coesão interna para cada uma, mas poderia ter ocorrido que cada uma delas tivesse afirmado precisamente o que a outra afirmou: o princípio de distinção e de conflito teria se mantido idêntico e este problema da distinção e do conflito é que constitui o problema histórico, não a casual bandeira de cada uma das partes.”


“A estrutura e as superestruturas formam um “bloco histórico”, isto é, o conjunto complexo e contraditório das superestruturas é o reflexo do conjunto das relações sociais de produção.”


“Deve-se observar que, com muita frequência, o otimismo não é mais do que um modo de defender a própria preguiça, as próprias irresponsabilidades, a vontade de não fazer nada. É também uma forma de fatalismo e de mecanicismo. A pessoa conta com fatores alheios à própria vontade e operosidade, exalta-os, incendeia-se aparentemente num sagrado entusiasmo. E o entusiasmo não é mais do que adoração exterior dos fetiches. Reação necessária, que deve ter como ponto de partida a inteligência. O único entusiasmo justificável é aquele que acompanha a vontade inteligente, a operosidade inteligente, a riqueza inventiva em iniciativas concretas que modificam a realidade existente.”


“O freudianismo é mais uma “ciência” a ser aplicada às classes superiores, e se poderia dizer que o “inconsciente” só começa depois de algumas dezenas de milhares de liras de renda.”


“Durante a guerra o Papa era o chefe dos bispos que benziam as armas dos alemães e dos austríacos, e dos bispos que benziam as armas dos italianos e dos franceses, sem que nisto houvesse contradição.”


“A religião é uma concepção da realidade com uma moral conforme a esta concepção, apresentada em forma mitológica.” (Croce)


“Interessa bem pouco à propriedade o trabalho socialmente necessário, mesmo para as finalidades da própria construção científica; o que interessa é o trabalho particular, nas condições determinadas por um dado aparato técnico e por um dado mercado imediato de víveres, bem como por um dado ambiente imediato ideológico e político, pelo que, quando alguém quiser fundar uma empresa, tentará identificar essas condições mais adequadas à finalidade do lucro máximo “particular” e não raciocinará por “médias” socialmente necessárias. Mas, quando o próprio trabalho se tornar gestor da economia, também ele deverá, por causa dessa mudança fundamental de posição, preocupar-se com as utilidades particulares e com as comparações entre essas utilidades, com o objetivo de extrair delas iniciativas de movimento progressista.”


“Quando é possível falar de um início para a ciência econômica? Pode-se falar desse início desde quando se fez a descoberta de que a riqueza não consiste no ouro (e, portanto, ainda menos na posse do ouro), mas sim no trabalho.”


“Um preconceito típico de intelectuais é o de medir os movimentos históricos e políticos com o metro do intelectualismo, da originalidade, da “genialidade”, ou seja, da completa expressão literária e das grandes personalidades brilhantes, e não, ao contrário, com o metro da necessidade histórica e da arte política, isto é, da capacidade concreta e atual de adequar o meio ao fim.”


“O homem, neste sentido, é vontade concreta, isto é, aplicação efetiva do querer abstrato ou do impulso vital aos meios concretos que realizam esta vontade. Cria-se a própria personalidade: 1) dando uma direção determinada e concreta (“racional”) ao próprio impulso vital ou vontade; 2) identificando os meios que tornam esta vontade concreta e determinada e não arbitrária; 3) contribuindo para modificar o conjunto das condições concretas que realizam esta vontade, na medida de suas próprias forças e da maneira mais frutífera. O homem deve ser concebido como um bloco histórico de elementos puramente subjetivos e individuais e de elementos de massa e objetivos ou materiais, com os quais o indivíduo está em relação ativa. Transformar o mundo exterior, as relações gerais, significa fortalecer a si mesmo, desenvolver a si mesmo. É uma ilusão e um erro supor que o “melhoramento” ético seja puramente individual: a síntese dos elementos constitutivos da individualidade é “individual”, mas ela não se realiza e desenvolve sem uma atividade para fora, transformadora das relações externas, desde aquelas com a natureza e com os outros homens em vários níveis, nos diversos círculos em que se vive, até a relação máxima, que abarca todo o gênero humano. Por isso, é possível dizer que o homem é essencialmente “político”, já que a atividade para transformar e dirigir conscientemente os outros homens realiza a sua “humanidade”, a sua “natureza humana”.”


“Se se observa bem, deve-se chegar à conclusão de que o ideal de todo elemento da classe dirigente é o de criar as condições nas quais os seus herdeiros possam viver sem trabalhar, de renda. Como é possível que uma sociedade seja sadia quando se trabalha para estar em condições de não mais trabalhar? Dado que este ideal é impossível e malsão, isto significa que todo o organismo está viciado e doente. Uma sociedade que afirma trabalhar para criar parasitas, para viver do chamado trabalho passado (que é uma metáfora para indicar o trabalho atual dos outros), destrói, na realidade, a si mesma.”


O que é o homem? É esta a primeira e principal pergunta da filosofia. Como respondê-la? A definição pode ser encontrada no próprio homem, isto é, em cada homem singular. Mas é correta? (...) Se observarmos bem, veremos que, ao colocarmos a pergunta “o que é o homem”, queremos dizer: o que é que o homem pode se tornar, isto é, se o homem pode controlar seu próprio destino, se ele pode “se fazer”, se pode criar sua própria vida. Digamos, portanto, que o homem é um processo, precisamente o processo de seus atos. Observando ainda melhor, a própria pergunta “o que é o homem” não é uma pergunta abstrata ou “objetiva”. Ela nasce do fato de termos refletido sobre nós mesmos e sobre os outros; e de querermos saber, em relação com o que vimos e refletimos, aquilo que somos, aquilo que podemos vir a ser, se realmente e dentro de que limites somos “criadores de nós mesmos”, da nossa vida, do nosso destino. E nós queremos saber isto “hoje”, nas condições de hoje, da vida “de hoje”, e não de uma vida qualquer e de um homem qualquer. A pergunta nasceu e recebeu seu conteúdo de determinadas e especiais maneiras de considerar a vida e o homem. A mais importante delas é a “religião” e uma determinada religião: o catolicismo. Na realidade, ao perguntarmos “que é o homem”, qual é a importância que tem a sua vontade e a sua atividade concreta na criação de si mesmo e de sua vida, queremos dizer: “o catolicismo é uma concepção exata do homem e da vida? Sendo católicos, isto é, fazendo do catolicismo uma norma de vida, erramos ou acertamos?” Todos têm a vaga intuição de que fazer do catolicismo uma norma de vida é um equívoco, tanto assim que ninguém se atém ao catolicismo como norma de vida, mesmo declarando-se católico. Um católico integral – isto é, que aplicasse em cada ato de sua vida as normas católicas – pareceria um monstro, o que é, se pensarmos bem, a crítica mais rigorosa e mais peremptória do próprio catolicismo. Os católicos dirão que nenhuma outra concepção é seguida rigorosamente, no que têm razão. Mas isto demonstra apenas que não existe de fato, historicamente, uma maneira de conceber e de agir igual para todos os homens e nada mais que isso; não há nenhuma razão favorável ao catolicismo, se bem que este modo de pensar e de agir esteja organizado há séculos com esta finalidade, o que ainda não ocorreu com nenhuma outra religião com os mesmos meios, com o mesmo espírito de sistema, com a mesma continuidade e centralização. Do ponto de vista “filosófico”, o que não satisfaz no catolicismo é o fato de, não obstante tudo, ele colocar a causa do mal no próprio homem individual, isto é, conceber o homem como indivíduo bem definido e limitado. É possível dizer que todas as filosofias que existiram até hoje reproduziram esta posição do catolicismo, isto é, conceberam o homem como indivíduo limitado à sua individualidade e o espírito como sendo esta individualidade. É neste ponto que o conceito do homem deve ser reformado. Ou seja, deve-se conceber o homem como uma série de relações ativas (um processo), no qual, se a individualidade tem a máxima importância, não é todavia o único elemento a ser considerado. A humanidade que se reflete em cada individualidade é composta de diversos elementos: 1) o indivíduo; 2) os outros homens; 3) a natureza. Mas o segundo e o terceiro elementos não são tão simples quanto poderia parecer. O indivíduo não entra em relação com os outros homens por justaposição, mas organicamente, isto é, na medida em que passa a fazer parte de organismos, dos mais simples aos mais complexos. Desta forma, o homem não entra em relações com a natureza simplesmente pelo fato de ser ele mesmo natureza, mas ativamente, por meio do trabalho e da técnica. E mais: estas relações não são mecânicas. São ativas e conscientes, ou seja, correspondem a um grau maior ou menor de inteligibilidade que delas tenha o homem individual. Daí ser possível dizer que cada um transforma a si mesmo, modifica-se, na medida em que transforma e modifica todo o conjunto de relações do qual ele é o centro estruturante. Neste sentido, o verdadeiro filósofo é – e não pode deixar de ser – nada mais do que o político, isto é, o homem ativo que modifica o ambiente, entendido por ambiente o conjunto das relações de que todo indivíduo faz parte. Se a própria individualidade é o conjunto destas relações, construir uma personalidade significa adquirir consciência destas relações; modificar a própria personalidade significa modificar o conjunto destas relações. Mas estas relações, como vimos, não são simples. Enquanto algumas delas são necessárias, outras são voluntárias. Além disso, ter consciência mais ou menos profunda delas (isto é, conhecer mais ou menos o modo pelo qual elas podem ser modificadas) já as modifica. As próprias relações necessárias, na medida em que são conhecidas em sua necessidade, mudam de aspecto e de importância. Neste sentido, o conhecimento é poder. Mas o problema é complexo também por outro aspecto: não é suficiente conhecer o conjunto das relações enquanto existem em um dado momento como um dado sistema, mas importa conhecê-los geneticamente, em seu movimento de formação, já que todo indivíduo é não somente a síntese das relações existentes, mas também da história destas relações, isto é, o resumo de todo o passado. Dir-se-á que o que cada indivíduo pode modificar é muito pouco, com relação às suas forças. Isto é verdadeiro apenas até certo ponto, já que o indivíduo pode associar-se com todos os que querem a mesma modificação; e, se esta modificação é racional, o indivíduo pode multiplicar-se por um elevado número de vezes, obtendo uma modificação bem mais radical do que à primeira vista parecia possível.”


“O fato de que a “sociedade industrial” não seja constituída apenas por “trabalhadores” e “empresários”, mas também por “acionistas” vagantes (especuladores), complica todo o raciocínio de Agnelli: ocorre que, se o progresso técnico permite uma maior margem de lucro, este não será distribuído racionalmente, mas “sempre” irracionalmente, aos acionistas e afins. Ademais, hoje é impossível dizer que existam “empresas sadias”. Todas as empresas se tornaram malsãs, o que não é dito por prevenção moralista ou polêmica, mas objetivamente. Foi a própria “grandeza” do mercado acionário que criou a doença: a massa dos portadores de ações é tão grande que ela obedece agora às leis de “multidão” (pânico, etc., que tem seus termos técnicos especiais no boom, no run, etc.); e a especulação se tornou uma necessidade técnica, mais importante do que o trabalho dos engenheiros e dos operários.
A observação sobre a crise americana de 1929 iluminou precisamente este ponto: a existência de fenômenos irrefreáveis de especulação, que arrastam também as “empresas sadias”, pelo que é possível dizer que não mais existem “empresas sadias”; portanto, pode-se usar a palavra “sadia” acompanhando-a de uma referência histórica, no sentido do “era uma vez”, isto é, quando existiam certas condições gerais que permitiam certos fenômenos gerais, não apenas em sentido relativo, mas também em sentido absoluto.”

domingo, 30 de junho de 2013

1808: como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a história de Portugal e do Brasil (Parte I) – Laurentino Gomes

Editora: Planeta

ISBN: 978-85-7665-320-2

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Opinião: ★★☆☆☆

Páginas: 368

Sinopse: O propósito deste livro, resultado de dez anos de investigação jornalística, é resgatar e contar a história da corte lusitana no Brasil e tentar devolver seus protagonistas à dimensão mais correta possível dos papéis que desempenharam duzentos anos atrás. 1808 – Como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a História de Portugal e do Brasil é o relato sobre um dos principais momentos históricos brasileiros.



“Em 1807, o imperador francês era o senhor absoluto da Europa. Seus exércitos haviam colocado de joelhos todos os reis e rainhas do continente, numa sucessão de vitórias surpreendentes e brilhantes. Só não haviam conseguido subjugar a Inglaterra. Protegidos pelo Canal da Mancha, os ingleses tinham evitado o confronto direto em terra com as forças de Napoleão. (...) Fazia três anos que tinha se autodeclarado imperador dos franceses. “Eu não sou herdeiro de Luís XIV”, escreveu ao seu ministro das Relações Exteriores, Charles Maurice de Talleyrand, em maio de 1806. “Sou herdeiro de Carlos Magno.” A comparação é reveladora de suas pretensões. Luís XIV foi um dos mais poderosos reis da França. Carlos Magno, o fundador do Sacro Império Romano, cujos domínios abrangiam a maior parte do continente europeu. Ou seja, para Napoleão não bastava governar a França. Seu plano era ser o imperador de toda a Europa. Na prática, esse título já lhe pertencia. Um ano mais tarde, em 1808, com a virtual anexação da Espanha e de Portugal, ele praticamente dobrou o tamanho do território original da França. Seus domínios agora incluíam a Bélgica, a Holanda, a Alemanha e a Itália.

Ao longo de uma década, Napoleão travou inúmeras batalhas contra os mais poderosos exércitos da Europa sem conhecer nenhuma derrota. Uma dinastia de reis até então considerada imbatível, a dos Habsburgos do Império Austro-Húngaro, fora batida repetidas vezes nos campos de batalha. Russos e alemães tinham sido subjugados em Austerlitz e Jena, duas das mais memoráveis batalhas das chamadas guerras napoleônicas. Reis, rainhas, príncipes, duques e nobres foram expulsos de seus tronos e substituídos por membros da própria família Bonaparte.

“Se lançarmos os olhos para a Europa de 1807, veremos um extraordinário espetáculo”, escreveu o historiador pernambucano Manoel de Oliveira Lima. “O rei da Espanha mendigando em solo francês a proteção de Napoleão; o rei da Prússia foragido de sua capital ocupada pelos soldados franceses; o [...] quase rei da Holanda, refugiado em Londres; o rei das Duas Sicílias exilado de sua linda Nápoles; as dinastias da Toscana e Parma, errantes; [...] o czar em Petersburgo; a Escandinávia prestes a implorar um herdeiro dentro dos marechais de Bonaparte; o imperador do Sacro Império e o próprio Pontífice Romano obrigados de quando em vez a desamparar seus tronos que se diziam eternos e intangíveis”.

Nos últimos duzentos anos, mais livros foram escritos sobre Napoleão do que sobre qualquer outra pessoa na História, com exceção apenas de Jesus Cristo. Mais de 600 obras fazem referência direta ou indireta a ele. Homem de ambição e vaidade desmedidas, inversamente proporcionais a sua baixa estatura, de 1,67 metro, Napoleão gostava de chamar a si mesmo de “Filho da Revolução”. Era um gênio militar por natureza, mas foi a Revolução que lhe deu a oportunidade de demonstrar seus talentos nos campos de batalha. Era, portanto, o homem certo, no lugar certo e na hora certa. Nascera em 1769, filho de uma família da pequena nobreza da Córsega. Aos dezesseis anos, ainda na adolescência, já era tenente do exército francês. Na escola militar ganhou reputação como republicano e estabeleceu ligações com as futuras lideranças revolucionárias.

Foram essas conexões que o puseram à frente da artilharia na Batalha de Toulon, cidade rebelde defendida pelos ingleses, em 1793. Sua participação foi tão decisiva que nas oito semanas seguintes seria promovido de capitão a general. Tinha só 24 anos. Três anos mais tarde, era comandante do exército na Itália, onde se destacou pela bravura e pela ousadia das manobras militares. Mais três anos, era o primeiro cônsul da França, cargo que lhe dava poderes irrestritos. Em 1804, se autoproclamou imperador, aos 35 anos de idade.

Napoleão promoveu uma transformação na arte da guerra. Seus exércitos se moviam com mais rapidez e agilidade do que qualquer outro. Sempre tomavam a ofensiva e assumiam as posições mais vantajosas no campo de batalha, surpreendendo o inimigo que, muitas vezes, se retirava ou se rendia sem trocar um só tiro. Em dezembro de 1805, na véspera da Batalha de Austerlitz, a mais memorável de suas vitórias, parte das tropas que comandou percorreu mais de cem quilômetros em apenas dois dias – isso numa época em que não havia caminhões, tanques motorizados, aviões ou helicópteros para transportar homens e equipamentos. A grande mobilidade de homens, cavalos e canhões permitia que seus exércitos surpreendessem o inimigo com manobras inesperadas em batalhas que, às vezes, já pareciam perdidas. Essas táticas inesperadas foram devastadoras para os inimigos, habituados a manobras lentas e convencionais.” (...)

Napoleão gabava-se de conseguir repor as perdas nos campos de batalha ao ritmo de 30.000 soldados por mês. Em 1794, a França contava com 750.000 homens treinados, equipados e altamente motivados para a defesa das ideias difundidas pela Revolução. Isso lhe deu um exército em escala nunca vista desde o Império Romano. O imperador era um general prático, frio e metódico. O que importava para ele era o resultado do conjunto de suas forças e não o destino individual do soldados que tombavam pelo caminho. Suas batalhas eram planejadas de forma meticulosa. Não dividia o comando com ninguém. “Na guerra, um general ruim é melhor do que dois bons”, dizia. Era carismático e capaz de inflar rapidamente o ânimo de seus oficiais e soldados. “O moral e a opinião do exército são meia batalha ganha”, afirmava. (...)

No auge do seu poder, Napoleão despertava medo e admiração tanto nos seus inimigos quanto nos seus admiradores. Lord Wellington, que em 1815 o derrotou definitivamente em Waterloo, dizia que, no campo de batalha, Napoleão sozinho valia por 50.000 soldados. O escritor François René de Chateaubriand, que era seu adversário, o definiu como “o mais poderoso sopro de vida humana que já tinha passado pela face da Terra”.

Foi esse homem que o indeciso e medroso D. João, príncipe regente de Portugal, teve de enfrentar em 1807.”

 

 

“‘Na guerra entre a França e a Inglaterra, Portugal fazia o papel do marisco na luta entre o rochedo e o mar’ assinalou o historiador brasileiro Tobias Monteiro.”

 

 

“No dia 6 de novembro, a esquadra inglesa apareceu na foz do Rio Tejo, em território português, com uma força de 7000 homens. Seu comandante, o almirante Sir Sidney Smith (o mesmo oficial que havia bombardeado Copenhague dois meses antes), tinha duas ordens, aparentemente contraditórias. A primeira, e prioritária, era proteger o embarque da família real portuguesa e escoltá-la até o Brasil. A segunda, caso a primeira não acontecesse, era bombardear Lisboa.”

 

 

“A riqueza de Portugal era resultado do dinheiro fácil, como os ganhos de herança, cassinos e loterias, que não exigem sacrifício, esforço de criatividade e inovação, nem investimento de longo prazo em educação e criação de leis e instituições duradouras. Numa época em que a Revolução Industrial britânica começava a redefinir as relações econômicas e o futuro das nações, os portugueses ainda estavam presos ao sistema extrativista e mercantilista, sobre o qual tinham construído sua efêmera prosperidade três séculos antes. Baseava-se na exploração pura e simples das colônias, sem que nelas fosse necessário investir em infraestrutura, educação ou melhoria de qualquer espécie. “Era uma riqueza que não gerava riqueza”, escreveu a historiadora Lilia Schwarcz. “Portugal se contentava em sugar suas colônias de maneira bastante parasitária.” Sérgio Buarque de Holanda, autor do clássico Raízes do Brasil, mostrou que no Brasil colônia se tinha aversão ao trabalho. Segundo ele, o objetivo da aventura extrativista era explorar rapidamente toda a riqueza disponível com o menor esforço e sem nenhum compromisso com o futuro: “O que o português vinha buscar era, sem dúvida, a riqueza, mas riqueza que custa ousadia, não riqueza que custa trabalho”.

A dependência da economia extrativista fez com que a manufatura nunca se desenvolvesse em Portugal. Tudo era comprado de fora. “A tendência de a abundância de riquezas naturais enfraquecer as instituições e solapar o desenvolvimento sustentado das nações é quase uma maldição”, apontou a economista Eliana Cardoso, Ph.D. pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e professora visitante da Fundação Getúlio Vargas em São Paulo. “Os países cuja economia se assenta principalmente sobre o comércio de produtos naturais são levados [...] a cometer uma série de erros e desmazelos que impedem a modernização da sociedade.”

 

 

“(No meio da fuga desesperada da corte de Portugal), apareceu a rainha Maria I, de 73 anos. Para o povo português aglomerado no cais para assistir à partida, a presença da rainha era uma grande novidade. Devido aos seus acessos de loucura, fazia dezesseis anos que D. Maria I vivia reclusa no Palácio de Queluz e não era vista nas ruas de Lisboa. Enquanto seu coche se aproximava do porto em disparada, ela teria gritado ao cocheiro: “Mais devagar. Vão pensar que estamos fugindo!”.”

 

 

“A população da colônia era analfabeta, pobre e carente de tudo. Na cidade de São Paulo de 1818, já no governo de D. João VI, apenas 2,5% dos homens livres em idade escolar eram alfabetizados. A saúde era absurdamente precária. “Mesmo nos centros mais importantes da costa era impossível encontrar um médico que tivesse feito um curso regular”, conta Oliveira Lima, baseando-se nos relatos do comerciante inglês John Luccock, que a partir de 1808 viveu dez anos no Rio de Janeiro. “As operações mais fáceis costumavam ser praticadas pelos barbeiros sangradores e para as mais difíceis recorria-se a indivíduos mais presunçosos, porém no geral igualmente ignorantes de anatomia e patologia.” A autorização para fazer cirurgia e clinicar era dada mediante um exame perante o juiz comissário, ele próprio um ignorante da ciência da Medicina. Os candidatos eram admitidos nessa prova se comprovassem um mínimo de quatro anos de prática numa farmácia ou hospital. Ou seja, primeiro se praticava a Medicina e depois se obtinha a autorização para exercê-la.(...)

O pesquisador carioca Nireu Cavalcanti encontrou no Arquivo Nacional documentos que ajudam a dar uma noção do que era a saúde e a medicina no Rio de Janeiro na época de D. João VI. São inventários post-mortem de dois médicos, que relacionam os bens deixados pelos falecidos. Um deles, do cirurgião-mor Antônio José Pinto, falecido em 1798, inclui esta assustadora relação de “instrumentos cirúrgicos”: um serrote grande, um serrote pequeno, uma chave de dentes, duas facas retas, duas tenazes, uma unha de águia, dois torniquetes uma chave inglesa e uma tesoura grande. O outro inventário do boticário Antônio Pereira Ferreira, morto também em 1798, serve para dar uma ideia de como era o sortimento de uma farmácia da época. A lista inclui cascas, emplastos, fungos, minerais, óleos, raízes, sementes e um item chamado “animais e suas partes”, com ”óleo humano”, “lixa de lagarto”, “olhos de caranguejos brutos”, “raspas de ponta de veado” e “dentes de javali”.”

 

 

“Observada do mar, enquanto os navios se aproximavam do porto, o Rio de Janeiro era uma cidadezinha tranquila, de aparência bucólica, perfeitamente integrada ao esplendor da natureza que a cercava. De perto, a impressão mudava rapidamente. Os problemas eram a umidade, a sujeira e a falta de bons modos dos moradores. “Vistas de fora, as casas têm a mesma aparência de limpeza que observamos nas residências dos melhores vilarejos da Inglaterra”, relatou em 1803 o oficial da Marinha britânica James Tuckey. “A boa impressão, contudo, desvanece à medida que nos aproximamos. Logo que se metem os pés para dentro, constata-se que a limpeza não passa de um efeito da cal que reveste as paredes exteriores e que, nos interiores, habitam a sujeira e a preguiça. As ruas, apesar de retas e regulares, são sujas e estreitas, ao ponto de o balcão de uma casa quase se encontrar com o da casa em frente.

“A limpeza da cidade estava toda confiada aos urubus”, escreveu o historiador Oliveira Lima. Alexander Caldcleugh, um estrangeiro que viajou pelo Brasil entre 1819 e 1821, ficou impressionado com o número de ratos que infestavam a cidade e seus arredores. “Muitas das melhores casas estão de tal forma repletas deles que durante um jantar não é incomum vê-los passeando pela sala”, afirmou. Devido à pouca profundidade do lençol freático, a construção de fossas sanitárias era proibida. A urina e as fezes dos moradores, recolhidas durante a noite, eram transportadas de manhã para serem despejadas no mar por escravos que carregavam grandes tonéis de esgoto nas costas. Durante o percurso, parte do conteúdo desses tonéis, repleto de amônia e ureia, caía sobre a pele e, com o passar do tempo, deixava listras brancas sobre suas costas negras. Por isso, esses escravos eram conhecidos como “tigres”. Devido à falta de um sistema de coleta de esgotos, os “tigres” continuaram em atividade no Rio de Janeiro até 1860 e no Recife até 1882. O sociólogo Gilberto Freyre diz que a facilidade de dispor de ”tigres” e seu baixo custo retardou a criação das redes de saneamento nas cidades litorâneas brasileiras.” (...)

Convidado para um desses jantares na casa de uma família rica, Luccock surpreendeu-se ao descobrir que cada pessoa deveria comparecer com a própria faca, “em geral larga, pontiaguda e com cabo de prata”. À mesa, observou que “os dedos são usados com tanta frequência quanto o próprio garfo”. Mais do que isso, era comum uma pessoa se servir do prato do vizinho com as mãos. “Considera-se como prova incontestável de amizade alguém servir-se do prato de seu vizinho; e, assim, não é raro que os dedos de ambos se vejam simultaneamente mergulhados num só prato”, anotou. A refeição era acompanhada “de uma espécie de vinho fraco”, que era bebido em copos, em vez de taças. Devido ao efeito do álcool, ao final todos os convivas se tornavam barulhentos. “Exagera-se a gesticulação [...] e desfecham punhadas no ar, de faca ou garfo, de tal maneira que um estrangeiro pasma que olhos, narizes e faces escapem ilesos”, observou o inglês. “Quando facas e garfos se acham em repouso, ficam em cada uma das mãos, em posição vertical e descansando sobre a extremidade do cabo. Quando dela não se tem mais necessidade, limpa-se ostensivamente a faca na toalha de mesa e devolve-se à bainha por detrás das costas”.”

 

 

“Príncipe regente e, depois de 1816, rei do Brasil e de Portugal, D. João tinha medo de siris, caranguejos e trovoadas. Durante as frequentes tempestades tropicais do Rio de Janeiro, refugiava-se em seus aposentos na companhia do roupeiro predileto, Matias Antônio Lobato. Ali, com uma vela acesa, ambos faziam orações a santa Bárbara e são Jerônimo até que cessassem os trovões. Certa vez, foi picado por um carrapato na fazenda de Santa Cruz, onde passava o verão. O ferimento inflamou e causou febre. Os médicos recomendaram-lhe banho de mar. Como temia ser atacado por crustáceos, mandou construir uma caixa de madeira, dentro da qual era mergulhado nas águas da Praia do Caju, nas proximidades do Palácio de São Cristóvão. A caixa era uma banheira portátil com dois varões transversais e furos laterais por onde a água do mar podia entrar. O rei permanecia ali dentro por alguns minutos, com a caixa imersa e sustentada por escravos, para que o iodo marinho ajudasse a cicatrizar a ferida.

Esses mergulhos improvisados na Praia do Caju, a conselho médico, são a única notícia que se tem de um banho de D. João nos treze anos em que permaneceu no Brasil. Quase todos os historiadores o descrevem como um homem desleixado com a higiene pessoal e avesso ao banho. “Era muito sujo, vício de resto comum a toda a família, a toda a nação”, afirmou Oliveira Martins. “Nem ele, nem D. Carlota, apesar de se odiarem, discrepavam na regra de não se lavarem.” A relutância da corte portuguesa em tomar banho contrastava com os costumes da colônia brasileira, onde o cuidado com o asseio pessoal chamava a atenção de quase todos os viajantes que por aqui passaram nessa época. “Apesar de certos hábitos que aproximam da vida selvagem os brasileiros da classe baixa, qualquer que seja a sua raça, é para notar que todos eles são notavelmente cuidadosos com a limpeza do corpo”, escreveu o inglês Henry Koster, que morou no Recife entre 1809 e 1820.”

 

 

“Os dois mundos que se encontraram no Rio de Janeiro em 1808 tinham vantagens e carências que se complementavam. De um lado, havia uma corte que se julgava no direito divino de mandar, governar, distribuir favores e privilégios, com a desvantagem de não ter dinheiro. De outro, uma colônia que já era mais rica do que a metrópole, mas ainda não tinha educação, refinamento ou qualquer traço de nobreza. (...)

D. João precisava do apoio financeiro e político dessa elite rica em dinheiro porém destituída de prestígio e refinamento. Para cativá-la, iniciou uma pródiga distribuição de honrarias e títulos de nobreza que se prolongaria até seu retorno a Portugal, em 1821. Apenas nos seus oito primeiros anos no Brasil, D. João outorgou mais títulos de nobreza do que em todos os trezentos anos anteriores da história da monarquia portuguesa. Desde sua independência, no século XII, até o final do século XVIII, Portugal tinha computado dezesseis marqueses, 26 condes, oito viscondes e quatro barões. Ao chegar ao Brasil, D. João criou 28 marqueses, oito condes, dezesseis viscondes e quatro barões. Segundo Sérgio Buarque de Holanda, além desses títulos de nobreza, D. João distribuiu 4048 insígnias de cavaleiros, comendadores e grã-cruzes da Ordem de Cristo, 1422 comendas da Ordem de São Bento de Avis e 590 comendas da Ordem de São Tiago. “Em Portugal, para fazer-se um conde se pediam quinhentos anos; no Brasil, quinhentos contos”, escreveu Pedro Calmon. “Indivíduos que nunca usaram esporas foram crismados cavaleiros, enquanto outros que ignoravam as doutrinas mais triviais do Evangelho foram transformados em comendadores da Ordem de Cristo”, acrescentou John Armitage.”

 

 

“Numa outra decisão pitoresca, D. João VI declarou guerra contra os índios botocudos que infernizavam a vida de fazendeiros e colonos na Província do Espírito Santo. Segundo o relato do inglês John Mawe, “o príncipe regente publicou uma proclamação na qual convida os índios a habitar nas aldeias, a se fazerem cristãos, prometendo-lhes, se viverem em boa inteligência com os portugueses, que seus direitos serão reconhecidos e, como os outros vassalos, gozarão da proteção do Estado; mas, se persistirem em sua vida bárbara e feroz, os soldados do príncipe terão ordem de lhes fazer guerra de extermínio”. De Londres, Hipólito da Costa ironizou a medida num editorial do Correio Braziliense: “Há muito tempo não leio um documento tão célebre; e o publicarei quando receber a resposta de Sua Excelência o Secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Guerra da Nação dos Botocudos”.”

 

 

“Quando a corte portuguesa chegou ao Brasil, navios negreiros vindos da costa da África despejavam no Mercado do Valongo entre 18.000 e 22.000 homens, mulheres e crianças por ano. Permaneciam em quarentena, para serem engordados e tratados das doenças. Quando adquiriam uma aparência mais saudável, eram comercializados da mesma maneira como hoje boiadeiros e pecuaristas negociam animais de corte no interior do Brasil. A diferença é que, em 1808, a “mercadoria” destinava-se a alimentar as minas de ouro e diamante, os engenhos de cana-de-açúcar e as lavouras de algodão, café, tabaco e outras culturas que sustentavam a economia brasileira.

O desembarque, a compra e a venda de escravos faziam parte da rotina da colônia brasileira havia quase três séculos. Para os estrangeiros que, pela primeira vez, foram autorizados a visitar o Brasil depois da chegada da corte, era sempre uma visão constrangedora.

O cônsul inglês James Henderson, descreveu assim o desembarque dos escravos no porto do Rio de Janeiro:

Os navios negreiros que chegam ao Brasil apresentam um retrato terrível das misérias humanas. O convés é abarrotado por criaturas, apertadas umas às outras tanto quanto possível. Suas faces melancólicas e seus corpos nus e esquálidos são o suficiente para encher de horror qualquer pessoa não habituada a esse tipo de cena. Muitos deles, enquanto caminham dos navios até os depósitos onde ficarão expostos para venda, mais se parecem com esqueleto ambulantes, em especial as crianças. A pele, que de tão frágil parece ser incapaz de manter os ossos juntos, é coberta por uma doença repulsiva, que os portugueses chamam de sarna.

 

Um terceiro relato é o do diplomata inglês Henr Chamberlain. Ele conta como era a compra de um escravo no Valongo:

Quando uma pessoa quer comprar um escravo, ela visita os diferentes depósitos, indo de uma casa a outra, até encontrar aquele que lhe agrada. Ao ser chamado, o escravo é apalpado em várias partes do corpo, exatamente como se faz quando se compra um boi no mercado. Ele é obrigado a andar, a correr, a esticar seus braços e pernas bruscamente, a falar, a mostrar a língua e os dentes. Esta é a forma considerada correta para avaliar a idade e julgar o estado de saúde do escravo.”

 

 

“Na África, cerca de 40% dos negros escravizados morriam no percurso entre as zonas de captura e o litoral. Outros 15% morreriam na travessia do Atlântico, devido às péssimas condições sanitárias nos porões dos navios negreiros. As perdas eram maiores nas cargas que vinham de Moçambique e outras regiões da África oriental. Da costa atlântica, uma viagem até o Brasil durava entre 33 e 43 dias. De Moçambique, no Oceano Índico, até 76 dias. Por fim, ao chegar ao Rio de Janeiro, entre 10% e 12% dos desembarcados pereciam em depósitos, como os do Mercado do Valongo, antes de serem vendidos. Em resumo, de cada cem negros capturados na África, só 45 chegavam ao destino final. Significa que, de dez milhões de escravos vendidos nas Américas, quase outro tanto teria morrido no percurso, num dos maiores genocídios da história da humanidade.”

domingo, 23 de junho de 2013

Clockers: no mundo dos pequenos traficantes – Richard Price

Editora: Rocco

ISBN: 978-85-3250-596-5

Tradutor: Haroldo Netto

Opinião: ★★★★☆

Páginas: 586

Sinopse: Na periferia de Nova York, um traficante de drogas é assassinado. Um réu improvável confessa o crime. Tem início a via-crúcis de Rocco Klein, o detetive que investiga o caso, e Strike, o suspeito número um. Em Clockers, Richard Price não faz apenas mais um romance policial. Clockers é o retrato sem retoque de um mundo em que violência é sinônimo de sobrevivência.



“A garota de carinha de bebê começou a falar com O Verbo, dizendo qualquer coisa que Strike não era capaz de ouvir mas sabia que era destinada a seduzi-lo, porque O Verbo começou a dançar e a sorrir como um idiota. A garota estava tentando descolar a coca de graça e O Verbo teria cedido em um minuto se Strike não estivesse ali. Sempre tinha que estar ali, sempre. Pensou em dizer a Futon para ir até lá e dizer à garota que ia contar à sua mãe, mas decidiu que não era Jesus Cristo para querer salvar os outros. A garota quer se drogar, este é um país livre. Desde que tenha dez dólares.”

 

 

“Não se pode confiar em ninguém: todo mundo era sério numa hora, trapaceiro no minuto seguinte, sempre falando sobre serem irmãos, sobre não deixar que fossem atacados pelas costas, mas quando chegava a hora da verdade, Strike preferia os inimigos aos amigos. Pelo menos os inimigos a gente sabe o que estão a fim de fazer.”

 

 

“A cada dois blocos um avião qualquer da JFK acenava, reconhecendo Strike, ou gritava seu nome, ou alguma garota viciada dos conjuntos ficava toda alegrinha em vê-lo, se metia por entre os carros e tentava engambelá-lo para conseguir o pó antes que o sinal abrisse. A despeito de sua cautela, havia uma parte nele que adorava a carga de emoção que gerava nos outros: o olhar brilhante dos viciados, a saudação dos viciados, os “clockers” do pedaço. Um dia aquilo seria o seu fim, aquele reconhecimento, aquele poder, mas, a não ser pelo cabo-de-guerra que disputara a vida inteira com a mãe, aquilo era a coisa mais próxima do amor que já experimentara.”

 

 

“Strike suspirou enojado; todo mundo estava mais do que sujo naquele jogo. Os tiras sacaneavam uns aos outros, os traficantes idem, os tiras enganavam os traficantes e vice-versa, os tiras aceitavam suborno e os traficantes deduravam uns aos outros. Ninguém sabia ao certo de que lado os demais estavam; ninguém sabia realmente a quantidade de dinheiro, muita ou pouca, que qualquer outro estava ganhando. Tudo fumaça. Tudo eram telefones públicos no meio da noite. Estar naquele negócio era como caminhar de olhos vendados por um campo minado. Era difícil saber o que fazer ou o que não fazer, mas, para sobreviver, Strike seguia três regras inquebrantáveis: não confiar em ninguém, não ser ganancioso e nunca usar o produto.”

 

 

“Enquanto você não for um pai, não será nada a não ser um filho.”

 

 

“Às vezes, Strike ficava mal-humorado pensando que talvez Crystal gostasse dele mais pelo que não era do que pelo que era: não era viciado em drogas, não estava a fim de bater nela, não tirava o seu dinheiro e não ia lhe transmitir o vírus. Perguntava-se às vezes se a razão por que ela saía com ele não seria o fato de ele preencher um vazio sem causar-lhe dor.”

 

 

“Era estranho andar com um revólver por aí logo depois de ter falado em realmente atirar em alguém. A pequena pistola .25 sempre lhe parecera irreal, alguma coisa entre um brinquedo e um símbolo, mas naquele instante, ao passar por toda aquela gente, a arma dava a impressão de estar respirando encostada na sua barriga, os dentes crescendo. Strike viu-se imaginando pela primeira vez, desde que deixara a casa de Rodney, se teria mesmo dentro de si ou a frieza ou o calor de apontar uma arma para a cabeça de alguém e puxar o gatilho.”

 

 

“Rocco (que junto com outro policial, Mazilli, conversava com o ator Sean Touhey) virou-se para ele e sorriu. – E então, Sean, qual é a história do filme, você sabe, o enredo?

– Hum? Estamos trabalhando nele.

– Então o que é que vocês têm, algo tipo um conceito? – Conceito: Rocco sentiu-se como se estivesse às voltas com uma garota com quem saía pela primeira vez, tentando conversar para melhorar o clima.

Touhey não se deu ao trabalho de responder. Virou-se para Mazilli.

– Vou lhe dar um conceito, você me dá uma resposta, OK?

Mazilli deu de ombros e acendeu um cigarro.

– Reabilitação? – disse Touhey.

– O que é isso? O jogo da palavra? – Mazilli jogou o fósforo em cima da toalha. – Você quer saber em que acredito? Eu acredito em punição, eu acredito em medo e eu acredito em vingança.

Os lábios movendo-se silenciosamente, Touhey inclinou a cabeça e olhou para Mazilli como se quisesse memorizá-lo.

Rocco suspirou, anunciando-se para si mesmo, minha vez.

– Sim, bem. Você diz reabilitação. Você sabe, nós somos humanos, quer dizer, a maioria de nós, e ninguém começa durão. Vim trabalhar há vinte anos. Queria ser tira. Para quê, para espancar as minorias? Não, eu queria ajudar as pessoas. Alguém grita: “Polícia”, sou eu. Saio correndo: branco, preto, amarelo, seja o que for.

Rocco arriscou uma olhada em Mazilli e espantou-se ao ver que ele não estava rolando os olhos para cima.

– Ok? Mas reabilitação... – Rocco fez uma pausa, ganhando fôlego para a História.

– É como quando eu usava uniforme. Na minha primeira semana eu tinha um parceiro, Sapo Phelan. Maz, você se lembra do Sapo?

Mazilli encolheu os ombros.

– Sapo Phelan começou a trabalhar quando Truman era Presidente. Eu tinha vinte e um, vinte e dois anos, e recebemos um chamado. Conjunto habitacional Lafayette, há um garoto gritando dentro de um apartamento, a porta está trancada. O elevador está quebrado, de modo que o Sapo me manda subir sozinho, ele não está a fim de subir seis andares com as suas pernas, de qualquer modo está de porre. Vou até lá em cima, o pessoal do conjunto tinha acabado de pipocar a fechadura. Entramos, lá está um garoto de três anos algemado a um radiador superquente, não tem mais ninguém em casa. A algema é de metal, certo? O metal conduz o calor? Não sei há quanto tempo estava preso daquele jeito, mas o fato é que tinha um anel de carne assada em torno do pulso, OK?

Touhey parecia vidrado.

– Chamamos a ambulância, cortamos a algema, eles levam o garoto para o hospital. O pessoal do conjunto se manda, mas eu fico ali ao lado do radiador. Sentado ali no peitoril da janela. Fico sentado ali quarenta minutos, e finalmente chega a mãe. Seriam mais quarenta minutos em que a criança teria ficado cozinhando se a gente não entra, OK? Ela entra, posso ver nos seus olhos que está chapada de heroína, certo? Ela entra, nada de criança. Olha para mim. Eu olho para ela. O momento passa, e de repente ela se arranca, caço a filha da puta descendo seis lances de escada. Ela consegue chegar no saguão, bate de frente com Pelan, ele a agarra mas ali estou eu, bancando o anjo vingador, a cento e vinte por hora. O Sapo se atira na minha direção. Bum, vou bater nas caixas de correspondência. Minha cara é tipo: “Que merda é essa?”. Ele a leva para fora, a entrega para o outro carro de polícia, eles a levam. Ele volta, me pega. Estamos sentados no carro, ele diz para mim: “Rocco, essa mulher que você ia quebrar a cabeça, vinte anos atrás, quando era uma garotinha, prendi o pai dela por ter espancado o seu irmão menor até a morte. O cara era realmente um merda. Agora que ela é uma mulher adulta, ela é realmente uma merda. O garoto que você salvou hoje, se viver bastante, se chegar a ser um homem adulto, vai ser um outro merda.” “Rocco”, o Sapo me diz “é o ciclo da merda e você não pode fazer nada a respeito. De modo que a solução é ir com calma e fazer o seu trabalho.”

Touhey, pasmo com a história de Rocco, sacudiu a cabeça.

– Uau... uau.

– Você tem o mesmo tipo de experiência vezes sem conta neste trabalho. De modo que quando você diz reabilitação, Sean, o que descobre no correr de todos esses anos é que é preciso toda sua força só para manter o estado de coisas.

– O ciclo da merda – anunciou Mazilli, mas Rocco não conseguiu interpretar o seu tom de voz.

Rocco não tinha a menor ideia do que acontecera com o garoto e estava na dúvida se devia inventar algo quando Mazilli entrou na conversa:

– Hoje ele é prefeito de Dempsy e na semana passada instituiu corte nos salários de todos os detetives da cidade.”

 

 

“Rocco saltou do Chevy e espreguiçou-se. O ar tresandava a matéria em combustão. A fumaça oleosa, as carcaças de metal calcinadas, os montes de cinzas de antigas fogueiras de pneus e o jeito de andar de zumbis daqueles catadores de lixo, tudo aquilo fazia com que se sentisse como se estivesse visitando um importante campo de batalha três dias depois de os soldados terem enterrado seus mortos e debandado.

Ele não sabia muita coisa mais sobre a vida alheia, mas sabia com certeza que aquela gente estava situada no elo mais baixo da cadeia de drogados, fracos demais para reagirem com violência ou reflexos rápidos e doentes demais para sobreviver à prisão. A maioria tinha o vírus, embora Rocco imaginasse que nem um só tivesse se submetido a exame. Ninguém queria saber da doença com certeza, mas todos andavam por ali como se já estivessem mortos, como se nada mais restasse para temer, como se aquela novidade em seus ossos finalmente os tivesse libertado, permitindo que abraçassem sem desculpas ou fingimentos a única coisa que já lhes havia confortado, muito embora fosse a mesma que os matara: as drogas intravenosas.”

 

 

“Strike não teria posto uma tranca se não desconfiasse da amiga de Herman, uma oriental de cinquenta anos que fazia a limpeza e preparava as refeições do velho. Tudo o que Strike sabia sobre orientais é que trabalhavam duro e não riam, mas imaginava que fossem ambiciosos e traiçoeiros como todo mundo.”

 

 

“Já ouviu dizer que quando Deus detesta um cara lhe concede o seu mais profundo desejo?”

 

 

“O apartamento parecia silencioso. Strike examinou os pés da cama, estraçalhados, e lembrou do Doberman que comprara seis meses atrás para guardar a casa. Nunca se dera ao trabalho de treiná-lo e o cão roera toda a mobília do quarto, reduzindo todos os postes de bambu e laterais a gigantescos palitos esfrangalhados. O cachorro, como a maioria das coisas, parecia ser melhor do que era realmente.”

 

 

“A distância mais curta entre dois pontos é a verdade.”

 

 

“Quando o pau levanta a cabeça não pensa mais.”