quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

O Guardião de Memórias, de Kim Edwards

Editora: Sextante

ISBN: 978-85-9929-614-1

Tradução: Vera Ribeiro

Opinião: ★★★★☆

Páginas: 368

Sinopse: Com mais de três milhões de exemplares vendidos nos Estados Unidos, O Guardião de Memórias é uma fascinante história sobre vidas paralelas, famílias separadas pelo destino, segredos do passado e o infinito poder do amor verdadeiro.

Inverno de 1964. Uma violenta tempestade de neve obriga o Dr. David Henry a fazer o parto de seus filhos gêmeos. O menino, primeiro a nascer, é perfeitamente saudável, mas o médico logo reconhece na menina sinais da síndrome de Down. Guiado por um impulso irrefreável e por dolorosas lembranças do passado, Dr. Henry toma uma decisão que mudará para sempre a vida de todos e o assombrará até a morte: ele pede que sua enfermeira, Caroline, entregue a criança para adoção e diz à esposa que a menina não sobreviveu. Tocada pela fragilidade do bebê, Caroline decide sair da cidade e criar Phoebe como sua própria filha. E Norah, a mãe, jamais consegue se recuperar do imenso vazio causado pela ausência da menina. A partir daí, uma intrincada trama de segredos, mentiras e traições se desenrola, abrindo feridas que nem o tempo será capaz de curar.

A força deste livro não está apenas em sua construção bem amarrada ou no realismo de seus personagens, mas, principalmente, na sua capacidade de envolver o leitor da primeira à última página. Com uma trama tensa e cheia de surpresas, O Guardião de Memórias vai emocionar e mostrar o profundo – e às vezes irreversível – poder de nossas escolhas.


“Parecia não haver fim para as mentiras que uma pessoa era capaz de dizer, depois de começar.”

 

 

“David tinha tentado proteger o filho das coisas que sofrera quando criança: pobreza, preocupações, tristezas. Mas seus próprios esforços haviam criado perdas que ele nunca tinha previsto. A mentira crescera entre eles como uma rocha, obrigando-os a também crescerem de forma estranha, como árvores retorcidas em volta de um pedregulho.”

 

 

“Nas montanhas, e talvez no mundo em geral, havia uma teoria da compensação que dizia que, para tudo que era dado, outra coisa se perdia, de maneira imediata e visível. Bom, você herdou a cabeça, mesmo que sua prima tenha herdado a beleza. Elogios sedutores como flores, mas espinhosos com seus opostos: É, você pode ser esperto, mas é feio como o diabo; você pode ser bonito, mas não tem cérebro. Compensação, equilíbrio do universo. David ouvia acusações em cada comentário sobre seus estudos – ele havia recebido demais, havia tirado tudo – e, nos carros e caminhões, o silêncio se avolumava até parecer impossível que algum dia uma voz humana pudesse rompê-lo.”

 

 

“A luz refletiu nas lâminas da tesoura. David lembrou-se do brilho do bisturi ao fazer a episiotomia, lembrou-se de como havia flutuado para fora de si, para assistir à cena do alto, de como os acontecimentos daquela noite haviam desencadeado o rumo de sua vida, uma coisa levando a outra, portas se abrindo onde não havia nenhuma, enquanto outras se fechavam, até ele chegar a esse momento específico, com uma estranha procurando o desenho intrincado que se escondia no papel e esperando a resposta dele, e não havia nada que ele pudesse fazer nem qualquer lugar para onde pudesse ir.”

 

 

“Paul não tinha tomado banho, estava com o cabelo grosso e engordurado, e o forte cheiro de suor, cigarro e roupa suja grudara-se à sua pele. Odores acres, marcantes, cheiros de homem.”

 

 

“Ele nunca havia compreendido a tristeza da mãe, embora mais tarde houvesse passado a carregá-la consigo, para onde quer que fosse.”

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

A Descoberta da América pelos Turcos – Jorge Amado

Editora: Record
ISBN: 8501041610
Opinião: ★★★☆☆
Páginas: 172
Sinopse: Raduan Murad e Jamil Bichara descobriram a América juntos: vieram no mesmo barco de imigrantes e desembarcaram na Bahia em 1903. No litoral sul do Estado, eram chamados de “turcos”, forma brasileira de designar todos os árabes, fossem eles da Síria, do Líbano ou de fato da Turquia. Definido pelo autor como um “romancinho”, A descoberta da América pelos turcos é uma narrativa breve sobre a contribuição dos descendentes de árabes na civilização do cacau, durante a época em que coronéis e jagunços disputavam as terras virgens da região de Ilhéus.
O libanês Raduan e o sírio Jamil decidiram então tentar a sorte no eldorado do cacau. Jamil se estabeleceu no povoado de Itaguassu, onde abriu um pequeno comércio. Raduan preferiu permanecer em Itabuna, onde frequentava as mesas de pôquer, os botequins, os cabarés e as pensões de mulheres.
O enredo, curto e hilariante, apresenta a história de um casamento arranjado, mas de difícil realização. Ibrahim Jafet, viúvo e pai de três beldades (Samira, Jamile e Fárida), quer casar sua última filha solteira, a severa e mal-ajambrada Adma. Ao pretendente, oferece sociedade no armarinho O Barateiro, estabelecimento de tradição e administração familiar.
Tentado por Shitan, o tinhoso dos muçulmanos, e pelo amigo Raduan, o sírio Jamil vai pensar seriamente no negócio: para herdar O Barateiro, faria o sacrifício de se casar com Adma?
Escrito com humor desbocado e o enlevo narrativo próprio do autor, A descoberta da América pelos turcos faz um elogio da mestiçagem dos sangues árabe e baiano, em seus elementos de fraternidade, alegria e erotismo.



“Raduan Murad, fugitivo da justiça que o perseguia por vadiagem e jogatina, letrado de prosa aliciante, revelara ao sírio Jamil Bichara, companheiro de porão, que, tendo se debruçado noites insones sobre alfarrábios relativos à primeira viagem de Colombo, descobrira, na relação de marujos que compunham a equipagem de uma das três caravelas da festiva excursão, o nome de um certo Alonso Bichara. O mouro Bichara, engajado quem sabe a pulso, um dos tantos heróis esquecidos na hora das celebrações e das recompensas: o almirante cobre-se de glória, os marinheiros cobrem-se de merda – apesar de erudito, Raduan Murad tinha a boca suja.
Verdade ou intrujice? Raduan Murad era imaginoso, inventivo, e, quanto a escrúpulos, não os cultivava.”


“A referência à descoberta da América vai por conta das comemorações atuais, onipresentes: hoje em dia não pode o pacato cidadão dar o menor passo, soltar o menor peido sem que lhe tombe sobre a cabeça o Quinto Centenário. Da Descoberta, dizem os descendentes dos impávidos que descobriram o outro lado do mar, da Conquista, exclamam os descendentes dos índios massacrados, dos negros escravizados, das culturas arrasadas à passagem de mercenários e missionários conduzindo a Cruz de Cristo e a pia batismal.”


“Quanto a dizer, como alguns diziam, despeitados, ser Raduan Murad ferrenho adversário do trabalho, ter-lhe santo horror, o que sucede com frequência aos letrados, trata-se de injustiça e má vontade, evidentes. Se de fato durante a primeira juventude o Professor – assim muitos o tratavam com deferência – recusara-se com obstinação a misteres pouco condizentes com sua capacidade intelectual, não havia trabalhador mais assíduo e pontual em mesa de pôquer ou der qualquer outro jogo de azar.”


“Norberto de Faria, sergipano amulatado, homem de honra e de visão, colocou a quantia necessária à disposição de Jamil por nele confiar e dispensou os juros por lhe ter estima. Dizia-o sócio de mesa e cama, pois haviam traçado as mesmas raparigas, comido no mesmo prato, possuíam gostos semelhantes: mamas pequenas, bundas grandes, xoxotas apertadas – concordâncias gratas reforçam os laços de amizade.”


“Quanto à caçula, Fárida, diziam-na a mais formosa entre as turcas do armarinho. Um pitéu, na cúpida designação de Alfeu Bandeira, aprendiz de alfaiate sob as vistas de mestre Ataliba Reis, dono da Alfaiataria Inglesa, cujas portas se abriram em frente às do sobrado dos Jafet. Alfeu degustou o pitéu, que diga-se a verdade, se oferecia num descaro condenado com vigor pelas famílias da vizinhança: tamanho agarramento, tanta esfregação, tinha de acabar mal. Acabou bem, em casamento às pressas. Véu de tule esvoaçando sobre a intrépida barriguinha de Fárida, prenha de quatro meses, flores de laranjeira na grinalda, símbolo de pureza e virgindade. Virgem, só se for no sovaco, comentou mestre Ataliba, escolhido padrinho pelo noivo. No sovaco, será?, duvidou Raduan Murad, padrinho da noiva, cético como convém a um erudito.”


“Raduan porém descarou a objeção: diferença de idade pouco ou nada significa para o êxito do matrimônio. Rapaz moço, começando a vida, necessita ter a seu lado esposa ajuizada para orientá-lo. Em casamento de velho com menina, o marido corre perigo de corno, mas no vice-versa não há o que temer, mulher não pega chifre, não é mesmo? Argumentação irrespondível.”


“Aprendiam boa educação no aconchego do lar e ao léu das ruas. Ainda adolescentes, adotavam e praticavam os artigos dos códigos dominantes na região, leis não-escritas mas incontestes. Chegada a ocasião de tomar esposa, deve-se escolher mulher virgem e virtuosa, trabalhadora e honesta, pois a ela caberá parir e criar os filhos, cuidar da casa, viver no recato e na modéstia, submissa. Beleza e juventude são dotes secundários, sobretudo se o dote principal da noiva se medir em léguas de terra ou em portas de casa de comércio – O Barateiro abria três portas para a rua. Formosura, graça e mocidade são preferências quando se busca amásia, xodó ou companhia para uma noite na cama, para uma cacetada. Nesses casos sim, prescreve-se rapariga linda, moderninha, xoxota nova e aconchegante. Sadios princípios, alicerces da família e da sociedade.
– Mas se a dita cuja for um par de anos mais velha do que tu? – prosseguiu Raduan em seu inquérito.
– E que tem isso, professor? Nunca ouvi dizer que idade seja defeito. Só não serve se for furada. Tapar buraco aberto por outro, isso eu não faço. Tem que ser donzela.”


“E por que não? Adma era parada dura, indigesta. Enfrentá-la exigia decisão, coragem e estômago de camelo. Alto, seco de corpo, musculoso, lanzudo, Adib assemelhava-se a um dromedário. A juventude e a cobiça faziam-no capaz de mastigar palha e achar gostoso, de enfrentar solteirona velhusca e avinagrada, arrombar-lhe os tampos com deleite, levá-la ao desvario, à beatitude, à paz com a vida. Bem fodida, Adma deixaria de aporrinhar a humanidade.”


“– Deixe comigo, professor. Mulher a gente amansa no mimo ou na porrada. Ou bem variando as duas coisas.”

terça-feira, 28 de outubro de 2008

As pequenas memórias – José Saramago

Editora: Companhia das Letras
ISBN: 978-85-3590-929-6
Opinião: ★★★☆☆
Páginas: 144
Sinopse: Em As pequenas memórias, José Saramago põe em prática o antigo projeto de compor um relato autobiográfico. São histórias familiares, ora alegres ora dilacerantes, sobre os primeiros quinze anos de vida do escritor.

“Foi nestes lugares que vim ao mundo, foi daqui, quando ainda não tinha dois anos, que meus pais, migrantes empurrados pela necessidade, me levaram para Lisboa, para outros modos de sentir, pensar e viver, como se nascer eu onde nasci tivesse sido consequência de um equívoco do acaso, de uma casual distracção do destino, que ainda estivesse nas suas mãos emendar. Não foi assim. Sem que ninguém de tal se tivesse apercebido, a criança já havia estendido gavinhas e raízes, a frágil semente que então eu era havia tido tempo de pisar o barro do chão com seus minúsculos e mal seguros pés, para receber dele, indelevelmente, a marca original da terra, esse fundo movediço do imenso oceano do ar, esse lodo ora seco, ora húmido, composto de restos de vegetais e animais, de detritos de tudo e de todos, de rochas moídas, pulverizadas, de múltiplas e caleidoscópicas substâncias que passaram pela vida e à vida retornaram, tal como vêm retornando os sóis e as luas, as cheias e as secas, os frios e os calores, os ventos e as calmas, as dores e as alegrias, os seres e os nadas. Só eu sabia, sem consciência de que o sabia, que nos ilegíveis fólios do destino e nos cegos meandros do acaso havia sido escrito que ainda teria de voltar à Azinhaga para acabar de nascer.”


“Então digo à minha avó: “Avó, vou dar por aí uma volta.” Ela diz “Vai, vai”, mas não me recomenda que tenha cuidado, nesse tempo os adultos tinham mais confiança nos pequenos a quem educavam. Meto um bocado de pão de milho e um punhado de azeitonas e figos secos no alforje, pego num pau para o caso de ter de me defender de um mau encontro canino, e saio para o campo.”


“Quem pela primeira vez me visita (vendo os vários adereços equinos de enfeite) pergunta-me quase sempre se sou cavaleiro, quando a única verdade é andar eu a sofrer dos efeitos da queda de um cavalo que nunca montei (porque não me deixaram montá-los). Por fora não se nota, mas a alma anda-me a coxear há setenta anos.”


“... chamava-se António, usava bigode e estava casado com uma Conceição por causa de quem, anos mais tarde, terá havido problemas, pois minha mãe suspeitou, ou teve prova suficiente, de certas intimidades entre o meu pai e ela, exageradas à luz de qualquer critério de apreciação, incluindo os mais tolerantes.”


“Suponho que terá sido por causa desta recordação que não suporto as fumigações de pauzinhos do Oriente com que hoje é costume empestarem-nos as casas, julgando que assim as espiritualizam...”


“Meu avô era um homem como tantos outros nesta terra, neste mundo, talvez um Einstein esmagado sob uma montanha de impossíveis, um filósofo, um grande escritor analfabeto.”


“Tu estavas, avó, sentada na soleira da tua porta, aberta para a noite estrelada e imensa, para o céu de que nada sabias e por onde nunca viajarias, para o silêncio dos campos e das árvores assombradas, e disseste, com a serenidade dos teus noventa anos e o fogo de uma adolescência nunca perdida: “O mundo é tão bonito e eu tenho tanta pena de morrer.” Assim mesmo. Eu estava lá.”

Pequena explicação

     Antes que se confundam, “pequena explicação” não é o título do último livro que li...
     Só gostaria de salientar que as partes dos livros de não-ficção, especialmente os dois últimos, foram bem maiores do que o normal, assim como muitos dos que possivelmente virão por aí, porque não gostaria de me esquecer das idéias que tinha absorvido - o que fatalmente ocorrerá com o andar dos anos - e não poder relê-las com maior precisão.
     A própria teoria da relatividade geral, por exemplo, é um exemplo peremptório: já li sobre ela várias vezes, e a falta de alguém com quem comentar o assunto, ou mesmo de quem pudesse me explicar mais sobre a mesma, faz com que vagarosamente os ensinamentos percam-se nos escaninhos da mente. Daí a necessidade de textos maiores nos livros de não-ficção, o que não implica que sejam melhores ou piores. Apenas gostaria de levar os principais conceitos comigo – se é que isto é possível – mesmo nos livros deste calibre.
     Bem, este não é o blog adequado para eu escrever, ao contrário, orgulho-me de nele não digitar minhas palavras...
     Termino por aqui, antes que haja demasiada incoerência no título da postagem.