Editoras: Fósforo e Seiva
ISBN: 978-65-6000-141-1
/ 978-65-83239-10-5
Organização: Daniel Lameira
Opinião: ★★★☆☆
Páginas: 208
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Sinopse: A
trajetória de Jair Bolsonaro, do poder a prisão: Juízo final documenta a história recente do Brasil.
Deputado do baixo clero, Jair Bolsonaro ficou conhecido
pelo discurso tóxico com elogios ao regime militar e a torturadores. Aos
poucos, passou a ser tolerado como personagem folclórico em uma democracia que
se imaginava estável e consolidada. Aproveitando-se da crise política do
momento, Bolsonaro transformou-se no candidato viável da extrema direita à
presidência da República.
Enquanto esteve no poder, promoveu a militarização do
Estado e o desmonte de órgãos de proteção ambiental e de combate à corrupção.
Além de ter conduzido a pandemia de covid-19 de maneira criminosa, desferiu ataques
diários à democracia e às instituições, articulando uma tentativa de golpe de
Estado, a ser julgada pelo Supremo Tribunal Federal.
A fim de retratar tais episódios recentes, Juízo final conta a história desse
período por meio de imagens e textos. É um fotolivro, mas também um manifesto
estético, uma colagem simbólica do esforço coletivo para interpretar e retratar
o país, lançado numa parceria entre as editoras Fósforo e Seiva.
Elaborado pela fotojornalista Gabriela Biló, em parceria
com Cristiano Botafogo e Pedro Daltro, apresentadores do podcast Medo e Delírio
em Brasília, e o designer Pedro Inoue ― também autores de A verdade vos libertará (Fósforo,2023), vencedor do prêmio Jabuti
na categoria Artes ―, Juízo final
reúne mais de oitenta imagens impactantes, manchetes e interpretações visuais
que ajudam a compreender a condenação política e criminal de Jair Bolsonaro.
“O sol seguiu brilhando, mas alguma coisa ficou opaca, um véu de fuligem
política cobria tudo, das conversas de bar às janelas fechadas. Evangélicos
radicais, homofóbicos, racistas, o tiozão do zap, das teorias conspiratórias,
xenofobia e misoginia, eram ratos que saíam dos esgotos, como num freak show
patrocinado por bets.
Os anos Bolsonaro foram uma travessia pelas
trevas. Não uma escuridão homogênea, compreensível, mas uma noite mal iluminada
por faróis trêmulos, onde em cada esquina se escondia um grito, um insulto, uma
dúvida sobre o que poderia piorar e o que era real. O país se acostumou a
acordar com a estranha sensação de que a sanidade tinha se rompido.
A ciência passou a ser tratada como
superstição. A educação, como inimiga. A floresta, como estoque de lenha. E a
vida, bem, a vida virou um detalhe estatístico que atrapalhava a narrativa heroica
do líder que lutava contra “tudo isso que tá aí”, expressão vaga o suficiente
para esconder a falta de qualquer projeto que não fosse ele e sua família.
A palavra que antes dava a síntese se tornou
lâmina. Apenas uma verdade era aceita, a do culto. Deus acima de tudo permitia
o atraso. Familiares deixaram de se olhar. Amigos se transformaram em retratos
amarelados. A política virou um campo minado em que cada passo exigia
prudência. E, no centro da praça, o líder de olhos vidrados vociferava certezas
feitas de sombras, procurando inimigos onde tinha cidadãos, conterrâneos,
contemporâneos.
A Amazônia e o Pantanal ardiam como livros
atirados na fogueira por nazistas. O ar estava carregado no sentido figurado e
literal. A fumaça das queimadas viajava para longe. E nos perguntávamos
intoxicados se tinha saída, já que milhares lotavam as ruas aplaudindo os
slogans do seu mito.
Foram dias em que o Brasil pareceu mais um
labirinto do que uma nação. A cada manhã, um novo susto. A cada noite, a
suspeita de que tínhamos regredido um século.
Era como se a própria História protestasse em
silêncio. Mas continuamos ali. Ninguém larga a mão de ninguém. Um projeto
descabido se popularizava. O brasileiro reprimido viu numa figura menor o seu
representante. E os avanços de uma sociedade tolerante, sustentável, que aceita
o debate, da Constituição Cidadã?
E então, lentamente, como quem reaprende a
andar, o país começou a levantar poeira e, para dar a volta por cima, botou o
bloco na rua. Percebeu que democracia não é enfeite nem prateleira, é músculo.
Exige uso. Exige cuidado. Exige voz.
Os anos Bolsonaro parecem uma fábula sombria,
escrita às pressas, com tinta derramada e personagens exagerados. E, para
evitar que se repita, é necessário mantermos a memória e os registros vivos,
expostos, como neste livro, Juízo Final.
Foram anos em que a mediocridade virou
método. A ignorância, projeto. A grosseria, política pública. Um país inteiro
reduzido ao vocabulário de emojis: arma, riso debochado, fogo. Enquanto isso, o
presidente desfilava sua convicção de que o mundo era um playground para
machões e terraplanistas.
E nós, reféns dessa imaginação pobre,
assistíamos ao retrocesso e aos desfiles de tanques militares exalando fumaça.
Por vezes, eu conseguia que cinco vizinhos gritassem comigo: “Fora Bolsonaro!”.
Nos panelaços contra Dilma Rousseff, eram dezenas. No final da eleição de 2018,
soltaram até fogos.
No fim das contas, os anos Bolsonaro nos
deixaram com algo parecido com uma ressaca moral. Acordamos zonzos, com gosto
amargo, tentando nos lembrar como chegamos tão baixo.
Oito de Janeiro foi o dia em que o Brasil
acordou, olhou para o espelho, e viu um rosto que preferia não reconhecer. Uma
multidão marchou para Brasília com a sutileza de um boi em loja de cristais.
Era para ser “patriotismo”. Parecia mais um saque emocional coletivo. A
estupidez era tamanha que vandalizaram o busto do líder do Golpe de 1964, o
ditador-general Castello Branco.
Invadiram monumentos da República como quem
invade a própria imaturidade: quebrando tudo, achando bonito, transmitindo ao
vivo. O país assistiu incrédulo. A realidade resolveu brincar de distopia. Que
bom que as imagens de Gabriela Biló nos provam que sim, aconteceu. Entulharam
móveis, afanaram a Constituição, picharam a escultura da Justiça.
E, no ápice, trataram a democracia como
descartável. Jogaram fora cadeiras, símbolos, quebraram vidraças. Depredaram os
Três Poderes, para um projeto de destruição.
A era da república do vandalismo
institucional foi eternizada. Os “heróis”, numa catarse, puseram em prática seu
carnaval da estupidez: quebraram relógio histórico, rasgaram obras, urinaram na
democracia. A boiada passou.
O mais trágico é que não foi espontâneo. Foi
o capítulo final da novela que o bolsonarismo roteirizou durante anos: desconfiança
sistemática, paranoia alimentada, mito em lugar de argumento, sede de golpe, de
vingança, de sangue. Oito de Janeiro foi a ressaca violenta de um país
intoxicado por discursos inflamáveis, mal digeridos e perigosos como gasolina
perto de fósforo.
A imagem dos vândalos sentados em cadeiras de
poder, tirando selfies, é o retrato exato do curto-circuito cognitivo da época.
Para que nunca mais se repita, precisamos lembrar, eternizar, escrever sobre,
criar memes, ensinar nas escolas, resgatar fotos, mostrar imagens. Papel que
cabe a todos, todas. (...)
O que foi aquele dia? Uma tentativa tardia de
punhalada? Uma micareta fora do pasto? Uma crise existencial coletiva? Talvez
tudo isso ao mesmo tempo. Um espetáculo dantesco em que cada janela quebrada
dizia mais sobre o governo anterior do que sobre seus seguidores: plantar ódio
dá frutos.
Oito de Janeiro será lembrado como o dia em
que o Brasil quase escorregou na própria casca de banana — e, por milímetros,
não caiu de vez. Um dia que expôs a fragilidade da nossa democracia, mas também
sua obstinação. E que nos ensinou, com brutalidade pedagógica, que não se
brinca com golpismo como quem compartilha corrente de rede social.
Foi grotesco. Foi deprimente. Foi histórico. E
continua sendo um aviso: a estupidez política, quando organizada, faz barulho. Fez
na Alemanha nazista. Fez na Itália fascista. Mas não faz futuro. Sejamos fortes.
¡No pasarán!”
(Prefácio de Marcelo
Rubens Paiva)
“Traidor da Constituição é traidor da pátria.
Conhecemos o caminho maldito. Rasgar a Constituição, trancar as portas do
Parlamento, garrotear a liberdade, mandar os patriotas para a cadeia, o exílio
e o cemitério. [...]
Temos ódio à ditadura.
Ódio e nojo. Amaldiçoamos a tirania onde quer
que ela desgrace homens e nações. Principalmente na América Latina.” (Ulysses Guimarães, 1988)
“O Oito de Janeiro não foi raio em céu azul. Antes de Jair Bolsonaro
chegar à Presidência, o sistema político brasileiro já dava sinais de profundo
desgaste.
A combinação de crise econômica, escândalos
de corrupção, judicialização intensa da política e perda de confiança nos
partidos tradicionais por parte da população criou um ambiente propício à
ascensão de discursos antissistêmicos. A operação Lava Jato, ao mesmo tempo que
revelou a corrupção estrutural do Brasil, contribuiu para uma percepção difusa
de que as instituições como um todo haviam falhado. A mídia, com poucas
exceções, embarcou nesse discurso.
Nesse caldeirão, a sede por ruptura encontrou
terreno fértil. A deslegitimação da política passou a ser confundida com
virtude moral. A retórica da força, da punição exemplar e da simplificação
autoritária ganhou espaço. Jair Bolsonaro já não era, então, um corpo estranho,
mas o produto de um processo de erosão institucional que vinha sendo
normalizado.
As eleições presidenciais de 2018 se deram
nesse contexto. A combinação de antipetismo, uso desgovernado das redes
sociais, disseminação de desinformação e rejeição explícita ao sistema
democrático produziu um resultado que não era mais uma simples alternância do
poder, mas uma mudança qualitativa no poder. Pela primeira vez desde a
redemocratização, um presidente eleito exaltava abertamente a ditadura militar
e chamava torturadores de heróis da pátria.
Com esse pano de fundo, é possível entender
por que a tentativa de golpe do Oito de Janeiro pôde ser gestada ao longo dos
anos sem que o sistema político a repelisse, uma vez que ela contava com o
entusiasmo de parte expressiva da sociedade nesse caldo.”
“Acusado de tramar um atentado terrorista em 1987 como forma de protestar contra o baixo soldo dos militares, Bolsonaro não foi expulso do Exército e acabou sendo absolvido pelo Superior Tribunal Militar. O plano de explodir bombas em locais estratégicos (entre eles, uma adutora responsável pelo abastecimento de água do Rio de Janeiro) nunca saiu do papel. Em 1990, já vereador, o terrorista frustrado se elegeu deputado federal. Seria o primeiro de sete mandatos consecutivos na Câmara. Sua trajetória, obscura e irrelevante na maior parte do tempo, foi marcada por apologias à ditadura militar. Ao chegar à Presidência da República, suas declarações sobre fraude eleitoral se tornaram sistemáticas:
“Eu fui eleito no primeiro turno.
Tenha provas materiais disso.”
“A fraude está no TSE, pra não ter
dúvida.”
“Quase impossível nós perdermos essas eleições agora. Só tem uma maneira. Vocês sabem qual.”
Não se tratava apenas de retórica agressiva,
mas também de uma estratégia deliberada de corrosão da confiança pública. Lives
semanais, falas improvisadas, ataques pessoais e desinformação reiterada não
eram ruídos de comunicação, e sim instrumentos de poder.
Ao desacreditar sistematicamente a imprensa
profissional, o sistema eleitoral e o Poder Judiciário, Bolsonaro buscava
construir uma realidade paralela, na qual apenas sua narrativa fosse considerada
legítima. A repetição constante de acusações sem prova funcionava como
mecanismo de desgaste: mesmo quando desmentidas, deixavam resíduos de dúvida.
As redes sociais foram centrais nesse
processo. O presidente falava diretamente à sua base, sem mediação
institucional, criando um circuito fechado de informação. Nesse universo
autorreferente, a noção de verdade passou a ser substituída pela ideia de
lealdade. Questionar a narrativa presidencial era sinônimo de traição.
Discordar era ser cúmplice do “sistema”.
Esse método não visava convencer a maioria,
mas mobilizar uma minoria suficientemente engajada para manter aceso o
conflito. A estratégia era produzir tensão permanente, empurrando as
instituições a reagirem, de modo que pudessem ser tachadas de autoritárias —
ou, no limite, que suas atitudes fossem pretexto para a ruptura.”
“5. A
AGENDA
Durante
as investigações relativas ao Oito de Janeiro, a Polícia Federal encontrou
anotações e arquivos digitais ligados a Augusto Heleno, general que construiu
sua carreira à sombra de figuras da linha dura do regime militar, como Sylvio
Frota, e nunca escondeu a nostalgia pelo período autoritário. As anotações
traçavam os planos e as linhas de ação para atacar o sistema eleitoral.
Esses registros coincidiam com documentos encontrados em posse de Alexandre Ramagem, então diretor-geral da Abin. Arquivos como “Presidente TSE Informa.docx” e “Bom Dia Presidente.docx” reuniam argumentos contra as urnas eletrônicas e estratégias organizadas de deslegitimação do processo eleitoral, posteriormente usadas em discursos públicos de Jair Bolsonaro.
“6. TANQUES NAS RUAS
Parte central do ataque às urnas foi a
campanha pelo voto impresso. Apresentada a princípio como defesa da “auditabilidade”,
ela tinha outra função prática: atrasar o processo eleitoral, criar tensão
institucional e abrir espaço para a contestação dos resultados.
A votação da PEC 135/19 no Congresso estava
marcada para agosto de 2021. Na mesma data, o comandante da Marinha, almirante
Garnier, foi a Brasília com o intuito de entregar a Bolsonaro um convite para
um exercício militar em Goiás. Para isso, organizou um desfile de tanques em
frente ao Congresso Nacional.
O Brasil não via tal cena desde a ditadura.
Apesar de grotesco, o desfile teve ares de chanchada. Um dos blindados soltou
uma intensa fumaça preta ao se exibir na avenida, transformando-se numa espécie
de metáfora do despreparo dos militares ou, ainda, em prova material do
sucateamento das Forças Armadas.
Questionado sobre a aparente ameaça do
desfile na data da votação, Bolsonaro desconversou, dizendo que era só uma
coincidência, classificando-a como casual. A proposta do voto impresso foi
derrotada no Congresso. O presidente, porém, não recuou.”
“Em uma nova reunião no Palácio da Alvorada, ainda em dezembro,
Bolsonaro, Braga Netto e militares discutiram como convencer o comandante
Freire Gomes a aderir ao golpe. Em 9 de dezembro, Bolsonaro apareceu em público
pela primeira vez em mais de quarenta dias. No gramado do Palácio da Alvorada,
falou aos seus apoiadores:
“Hoje estamos vivendo um momento crucial, uma
encruzilhada. [...] Quem decide o meu futuro e para onde eu vou são vocês. Quem
decide para onde vão as Forças Armadas são vocês. [...] Nada está perdido.
Ponto final, somente com a morte”.”
“Com a volta do comandante Baptista Júnior a Brasília, ainda na segunda
semana de dezembro, o ministro da Defesa, Paulo Sérgio Nogueira, convocou uma
reunião no próprio ministério com todos os comandantes das Forças Armadas. O
ambiente era de tensão. Após inúmeras alterações, o decreto do golpe estava,
segundo os articuladores, “pronto”, aguardando apenas a anuência dos dois
comandantes que ainda resistiam a ele: Freire Gomes e Baptista Júnior. Segundo
consta, o diálogo teria sido assim:
“Trouxe aqui um documento para vocês verem”,
disse o ministro.
“Esse documento prevê a não assunção do
presidente eleito?”, perguntou Baptista Júnior.
O ministro permaneceu em silêncio.
“Não admito sequer receber este documento.”
Baptista Júnior levantou-se e deixou a sala.
Em depoimento posterior, relataria que aquele silêncio confirmava a natureza do
texto: se não fosse um golpe, o ministro da Defesa o teria chamado de volta. A
partir daquele momento, tornava-se evidente que a adesão plena das Forças
Armadas não viria.
A reação do núcleo radical envolvido na trama
foi imediata. Braga Netto passou a responsabilizar Freire Gomes pelo fracasso
iminente do plano, classificando sua postura como omissão e traição. A retórica
interna assumiu tom de ameaça.
“Oferece a cabeça dele. Cagão”, ordenou Braga
Netto a um interlocutor.
O clima era de tensão, e o assassinato de
Alexandre de Moraes estava planejado para a noite seguinte.
16. JOGADORES EM CAMPO
Na manhã seguinte à reunião no Ministério da
Defesa, Jair Bolsonaro ainda tentou uma última cartada. Convocou Freire Gomes
ao Palácio da Alvorada para discutir novamente o decreto. O comandante do
Exército recusou-se, mais uma vez, a participar do conluio.
Logo após sua saída, Anderson Torres, Braga
Netto e outros integrantes da cúpula golpista reuniram-se com Bolsonaro. Sem a
adesão dos comandantes, Braga Netto ordenou que os novos “inimigos” — Freire
Gomes e Baptista Júnior — fossem perseguidos sistematicamente.
“Senta o pau no Baptista Júnior [...] traidor da pátria. Inferniza a
vida dele e da família.” (Braga Netto)
A lógica era simples: se não era possível
vencer pela hierarquia, que fosse pela intimidação.
Enquanto isso, a poucos quilômetros do
Palácio da Alvorada, a chamada “neutralização” de Alexandre de Moraes seguia em
andamento. Os criminosos se espalharam por Brasília em pontos estratégicos.
Comunicavam-se por codinomes — Gana, Alemanha, Áustria etc. — e usavam linhas
telefônicas específicas para a ação. Naquela noite, porém, o plenário do STF
adiou uma votação sensível, o que afetou o cronograma do plano. Às 20h59, “Alemanha”,
o líder do grupo, mandou abortar a missão. Iniciou-se então a “exfiltração” —
termo militar usado para designar a retirada sigilosa do território inimigo.
Alexandre de Moraes só descobriria que fora alvo de um plano de assassinato meses depois.
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| Armamento avaliado pela trama golpista para realizar o assassinato de Alexandre de Moraes (reprodução PF) |
17. O COMEÇO DO FIM
Mesmo com essa parte do plano abortada, a
tentativa de golpe não cessou. No dia seguinte, o general Mário Fernandes
produziu um novo documento, intitulado “hd_2022a.doc”, que previa a criação de
um “gabinete de crise” após a ruptura institucional, com Braga Netto e Augusto
Heleno no comando.
Apesar de não aderirem formalmente ao golpe,
as Forças Armadas tampouco atuaram para desmobilizar os acampamentos em frente
aos quartéis. A omissão permitiu que a radicalização avançasse. Na véspera de
Natal, apoiadores de Bolsonaro tentaram detonar uma bomba em um caminhão-tanque
estacionado nas proximidades do aeroporto de Brasília.
Na véspera do fim de seu mandato, Bolsonaro
fez uma live em tom de derrota e deixou o país rumo aos Estados Unidos.
Segundo as investigações posteriores, ele o fizera por temer ser preso. Ainda assim, não reconheceu explicitamente o resultado eleitoral. Em materiais apreendidos, surgiriam outros planos que previam controle total dos Três Poderes. Um deles se encerrava com a frase que virou bordão dos bolsonaristas:
“Lula não sobe a rampa.”
Apesar dessa predição, a posse de Lula
ocorreu sob intenso policiamento e alerta máximo para possíveis explosivos
plantados na Esplanada dos Ministérios. Nada aconteceu naquele dia. Uma
pergunta, porém, permanecia no ar entre os próprios articuladores.
“Ainda tem algo para acontecer? Coisa boa ou
coisa horrível?”, questionou um militar a Mauro Cid, em 4 de janeiro. “Bom.
Depende para quem. Para o Brasil é boa”, respondeu Cid.
18. O ÚLTIMO SUSPIRO
Poucos dias depois, sob a gestão de Anderson
Torres, a Polícia Militar do Distrito Federal ignorou alertas sobre a chegada
de 132 ônibus a Brasília e o crescimento expressivo do número de acampados.
Medidas de contenção foram desmobilizadas às vésperas da chamada “Festa da
Selma”, nome dado pelos participantes à manifestação marcada para 8 de janeiro.
A estratégia era clara: invadir as sedes dos
Três Poderes, provocar o caos e, diante da omissão policial, forçar a
decretação de uma GLO que transferisse o controle da segurança aos militares.
Parte da tropa estava pronta.
“Se o EB [EXÉRCITO BRASILEIRO] sair dos quartéis... é para aderir.” (Mauro Cid, 8/1/2023)
O que se viu na tarde de 8 de janeiro correu
o mundo. O Brasil reproduzia, à sua maneira, a cena da invasão do Capitólio,
ocorrida em Washington dois anos antes, quando manifestantes trumpistas
tentaram anular o reconhecimento da vitória de Joe Biden pelo Congresso estadunidense.
No Brasil, a investida se fez contra os Três
Poderes. Milhares de pessoas invadiram o Congresso Nacional, o Palácio do
Planalto e o STF. Destruíram móveis, danificaram obras de arte, defecaram e
urinaram em corredores, barbarizaram o lugar, de todas as formas possíveis.
Muitos filmavam tudo, orgulhosos, para registrar o que acreditavam ser a tomada
do poder, ou a redenção da pátria. A ideia de que participavam de uma guerra
santa para purificar a nação, presente entre os manifestantes fanatizados, misturava-se
com a expertise de militares de elite, infiltrados na multidão para vencer os
obstáculos físicos e consumar o espetáculo da depredação.
Com boa parte da polícia inerte, Lula
decretou intervenção federal na segurança do Distrito Federal, garantindo que o
comando não passasse às mãos militares. A medida demorou horas para ser
formalizada, mas foi decisiva. Ao cair da noite, a Polícia Militar chegou aos
quartéis do Exército para prender os golpistas que tinham retornado aos
acampamentos, mas encontrou tanques e fileiras de soldados protegendo o local.
Com o impasse armado, ministros do governo
Lula e generais se reuniram naquela noite em uma pequena sala no QG do
Exército.
Foram horas de negociação em clima tenso.
Generais disseram que haveria um banho de sangue caso as prisões fossem
executadas imediatamente.
Decidiu-se adiar as prisões para a manhã
seguinte, o que deu a alguns militares tempo suficiente para desmobilizar
familiares e pessoas próximas que estavam nos acampamentos. O conflito físico
foi evitado por um triz.
19. CONSEQUÊNCIAS
Dois dias depois, Bolsonaro republicou um vídeo questionando a confiabilidade das urnas, apagando-o na sequência. Segundo seus advogados, esse teria sido um gesto involuntário, motivado por medicamentos. A postagem, no entanto, seria incorporada aos autos.”
Em
fevereiro de 2024, a Polícia Federal deflagrou a operação Tempus Veritatis, com
ordens de prisão e mandados de busca e apreensão. A ação policial teve grande
impacto e aprofundou a investigação sobre a organização criminosa montada no
entorno do ex-presidente.
Meses
depois, em 26 de junho de 2023, o inquérito do golpe foi formalmente
instaurado, marcando a transição da crise política para o terreno da
responsabilização institucional. As investigações não se limitaram aos eventos
do Oito de Janeiro, mas reconstruíram a cadeia de atos que os tornaram
possíveis, revelando conexões entre discurso, planejamento e ação.
O
avanço das apurações expôs a existência de núcleos distintos — político,
militar, operacional e comunicacional — que agiam de forma coordenada. A
comprovação dessa arquitetura desmontou a narrativa que bolsonaristas tentavam
emplacar, de que teria havido um descontrole espontâneo da população, e
evidenciou a existência de uma organização com divisão de tarefas e objetivos
comuns.”






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