domingo, 10 de maio de 2026

Juízo Final: tentativa e fracasso do golpe no Brasil, de Gabriela Biló, Medo e Delírio em Brasília e Pedro Inoue

Editoras: Fósforo e Seiva

ISBN: 978-65-6000-141-1 / 978-65-83239-10-5

Organização: Daniel Lameira

Opinião: ★★★☆☆

Páginas: 208

Link para compra: Clique aqui

Sinopse: A trajetória de Jair Bolsonaro, do poder a prisão: Juízo final documenta a história recente do Brasil.

Deputado do baixo clero, Jair Bolsonaro ficou conhecido pelo discurso tóxico com elogios ao regime militar e a torturadores. Aos poucos, passou a ser tolerado como personagem folclórico em uma democracia que se imaginava estável e consolidada. Aproveitando-se da crise política do momento, Bolsonaro transformou-se no candidato viável da extrema direita à presidência da República.

Enquanto esteve no poder, promoveu a militarização do Estado e o desmonte de órgãos de proteção ambiental e de combate à corrupção. Além de ter conduzido a pandemia de covid-19 de maneira criminosa, desferiu ataques diários à democracia e às instituições, articulando uma tentativa de golpe de Estado, a ser julgada pelo Supremo Tribunal Federal.

A fim de retratar tais episódios recentes, Juízo final conta a história desse período por meio de imagens e textos. É um fotolivro, mas também um manifesto estético, uma colagem simbólica do esforço coletivo para interpretar e retratar o país, lançado numa parceria entre as editoras Fósforo e Seiva.

Elaborado pela fotojornalista Gabriela Biló, em parceria com Cristiano Botafogo e Pedro Daltro, apresentadores do podcast Medo e Delírio em Brasília, e o designer Pedro Inoue ― também autores de A verdade vos libertará (Fósforo,2023), vencedor do prêmio Jabuti na categoria Artes ―, Juízo final reúne mais de oitenta imagens impactantes, manchetes e interpretações visuais que ajudam a compreender a condenação política e criminal de Jair Bolsonaro.



O sol seguiu brilhando, mas alguma coisa ficou opaca, um véu de fuligem política cobria tudo, das conversas de bar às janelas fechadas. Evangélicos radicais, homofóbicos, racistas, o tiozão do zap, das teorias conspiratórias, xenofobia e misoginia, eram ratos que saíam dos esgotos, como num freak show patrocinado por bets.

Os anos Bolsonaro foram uma travessia pelas trevas. Não uma escuridão homogênea, compreensível, mas uma noite mal iluminada por faróis trêmulos, onde em cada esquina se escondia um grito, um insulto, uma dúvida sobre o que poderia piorar e o que era real. O país se acostumou a acordar com a estranha sensação de que a sanidade tinha se rompido.

A ciência passou a ser tratada como superstição. A educação, como inimiga. A floresta, como estoque de lenha. E a vida, bem, a vida virou um detalhe estatístico que atrapalhava a narrativa heroica do líder que lutava contra “tudo isso que tá aí”, expressão vaga o suficiente para esconder a falta de qualquer projeto que não fosse ele e sua família.

A palavra que antes dava a síntese se tornou lâmina. Apenas uma verdade era aceita, a do culto. Deus acima de tudo permitia o atraso. Familiares deixaram de se olhar. Amigos se transformaram em retratos amarelados. A política virou um campo minado em que cada passo exigia prudência. E, no centro da praça, o líder de olhos vidrados vociferava certezas feitas de sombras, procurando inimigos onde tinha cidadãos, conterrâneos, contemporâneos.

A Amazônia e o Pantanal ardiam como livros atirados na fogueira por nazistas. O ar estava carregado no sentido figurado e literal. A fumaça das queimadas viajava para longe. E nos perguntávamos intoxicados se tinha saída, já que milhares lotavam as ruas aplaudindo os slogans do seu mito.

Foram dias em que o Brasil pareceu mais um labirinto do que uma nação. A cada manhã, um novo susto. A cada noite, a suspeita de que tínhamos regredido um século.

Era como se a própria História protestasse em silêncio. Mas continuamos ali. Ninguém larga a mão de ninguém. Um projeto descabido se popularizava. O brasileiro reprimido viu numa figura menor o seu representante. E os avanços de uma sociedade tolerante, sustentável, que aceita o debate, da Constituição Cidadã?

E então, lentamente, como quem reaprende a andar, o país começou a levantar poeira e, para dar a volta por cima, botou o bloco na rua. Percebeu que democracia não é enfeite nem prateleira, é músculo. Exige uso. Exige cuidado. Exige voz.

Os anos Bolsonaro parecem uma fábula sombria, escrita às pressas, com tinta derramada e personagens exagerados. E, para evitar que se repita, é necessário mantermos a memória e os registros vivos, expostos, como neste livro, Juízo Final.

Foram anos em que a mediocridade virou método. A ignorância, projeto. A grosseria, política pública. Um país inteiro reduzido ao vocabulário de emojis: arma, riso debochado, fogo. Enquanto isso, o presidente desfilava sua convicção de que o mundo era um playground para machões e terraplanistas.

E nós, reféns dessa imaginação pobre, assistíamos ao retrocesso e aos desfiles de tanques militares exalando fumaça. Por vezes, eu conseguia que cinco vizinhos gritassem comigo: “Fora Bolsonaro!”. Nos panelaços contra Dilma Rousseff, eram dezenas. No final da eleição de 2018, soltaram até fogos.

No fim das contas, os anos Bolsonaro nos deixaram com algo parecido com uma ressaca moral. Acordamos zonzos, com gosto amargo, tentando nos lembrar como chegamos tão baixo.

Oito de Janeiro foi o dia em que o Brasil acordou, olhou para o espelho, e viu um rosto que preferia não reconhecer. Uma multidão marchou para Brasília com a sutileza de um boi em loja de cristais. Era para ser “patriotismo”. Parecia mais um saque emocional coletivo. A estupidez era tamanha que vandalizaram o busto do líder do Golpe de 1964, o ditador-general Castello Branco.

Invadiram monumentos da República como quem invade a própria imaturidade: quebrando tudo, achando bonito, transmitindo ao vivo. O país assistiu incrédulo. A realidade resolveu brincar de distopia. Que bom que as imagens de Gabriela Biló nos provam que sim, aconteceu. Entulharam móveis, afanaram a Constituição, picharam a escultura da Justiça.

E, no ápice, trataram a democracia como descartável. Jogaram fora cadeiras, símbolos, quebraram vidraças. Depredaram os Três Poderes, para um projeto de destruição.

A era da república do vandalismo institucional foi eternizada. Os “heróis”, numa catarse, puseram em prática seu carnaval da estupidez: quebraram relógio histórico, rasgaram obras, urinaram na democracia. A boiada passou.

O mais trágico é que não foi espontâneo. Foi o capítulo final da novela que o bolsonarismo roteirizou durante anos: desconfiança sistemática, paranoia alimentada, mito em lugar de argumento, sede de golpe, de vingança, de sangue. Oito de Janeiro foi a ressaca violenta de um país intoxicado por discursos inflamáveis, mal digeridos e perigosos como gasolina perto de fósforo.

A imagem dos vândalos sentados em cadeiras de poder, tirando selfies, é o retrato exato do curto-circuito cognitivo da época. Para que nunca mais se repita, precisamos lembrar, eternizar, escrever sobre, criar memes, ensinar nas escolas, resgatar fotos, mostrar imagens. Papel que cabe a todos, todas. (...)

O que foi aquele dia? Uma tentativa tardia de punhalada? Uma micareta fora do pasto? Uma crise existencial coletiva? Talvez tudo isso ao mesmo tempo. Um espetáculo dantesco em que cada janela quebrada dizia mais sobre o governo anterior do que sobre seus seguidores: plantar ódio dá frutos.

Oito de Janeiro será lembrado como o dia em que o Brasil quase escorregou na própria casca de banana — e, por milímetros, não caiu de vez. Um dia que expôs a fragilidade da nossa democracia, mas também sua obstinação. E que nos ensinou, com brutalidade pedagógica, que não se brinca com golpismo como quem compartilha corrente de rede social.

Foi grotesco. Foi deprimente. Foi histórico. E continua sendo um aviso: a estupidez política, quando organizada, faz barulho. Fez na Alemanha nazista. Fez na Itália fascista. Mas não faz futuro. Sejamos fortes. ¡No pasarán!

(Prefácio de Marcelo Rubens Paiva)

 

 

“Traidor da Constituição é traidor da pátria. Conhecemos o caminho maldito. Rasgar a Constituição, trancar as portas do Parlamento, garrotear a liberdade, mandar os patriotas para a cadeia, o exílio e o cemitério. [...]

Temos ódio à ditadura.

Ódio e nojo. Amaldiçoamos a tirania onde quer que ela desgrace homens e nações. Principalmente na América Latina.” (Ulysses Guimarães, 1988)

 

 

O Oito de Janeiro não foi raio em céu azul. Antes de Jair Bolsonaro chegar à Presidência, o sistema político brasileiro já dava sinais de profundo desgaste.

A combinação de crise econômica, escândalos de corrupção, judicialização intensa da política e perda de confiança nos partidos tradicionais por parte da população criou um ambiente propício à ascensão de discursos antissistêmicos. A operação Lava Jato, ao mesmo tempo que revelou a corrupção estrutural do Brasil, contribuiu para uma percepção difusa de que as instituições como um todo haviam falhado. A mídia, com poucas exceções, embarcou nesse discurso.

Nesse caldeirão, a sede por ruptura encontrou terreno fértil. A deslegitimação da política passou a ser confundida com virtude moral. A retórica da força, da punição exemplar e da simplificação autoritária ganhou espaço. Jair Bolsonaro já não era, então, um corpo estranho, mas o produto de um processo de erosão institucional que vinha sendo normalizado.

As eleições presidenciais de 2018 se deram nesse contexto. A combinação de antipetismo, uso desgovernado das redes sociais, disseminação de desinformação e rejeição explícita ao sistema democrático produziu um resultado que não era mais uma simples alternância do poder, mas uma mudança qualitativa no poder. Pela primeira vez desde a redemocratização, um presidente eleito exaltava abertamente a ditadura militar e chamava torturadores de heróis da pátria.

Com esse pano de fundo, é possível entender por que a tentativa de golpe do Oito de Janeiro pôde ser gestada ao longo dos anos sem que o sistema político a repelisse, uma vez que ela contava com o entusiasmo de parte expressiva da sociedade nesse caldo.”

 

 

“Acusado de tramar um atentado terrorista em 1987 como forma de protestar contra o baixo soldo dos militares, Bolsonaro não foi expulso do Exército e acabou sendo absolvido pelo Superior Tribunal Militar. O plano de explodir bombas em locais estratégicos (entre eles, uma adutora responsável pelo abastecimento de água do Rio de Janeiro) nunca saiu do papel. Em 1990, já vereador, o terrorista frustrado se elegeu deputado federal. Seria o primeiro de sete mandatos consecutivos na Câmara. Sua trajetória, obscura e irrelevante na maior parte do tempo, foi marcada por apologias à ditadura militar. Ao chegar à Presidência da República, suas declarações sobre fraude eleitoral se tornaram sistemáticas:

“Eu fui eleito no primeiro turno. Tenha provas materiais disso.”

“A fraude está no TSE, pra não ter dúvida.”

“Quase impossível nós perdermos essas eleições agora. Só tem uma maneira. Vocês sabem qual.”

Não se tratava apenas de retórica agressiva, mas também de uma estratégia deliberada de corrosão da confiança pública. Lives semanais, falas improvisadas, ataques pessoais e desinformação reiterada não eram ruídos de comunicação, e sim instrumentos de poder.

Ao desacreditar sistematicamente a imprensa profissional, o sistema eleitoral e o Poder Judiciário, Bolsonaro buscava construir uma realidade paralela, na qual apenas sua narrativa fosse considerada legítima. A repetição constante de acusações sem prova funcionava como mecanismo de desgaste: mesmo quando desmentidas, deixavam resíduos de dúvida.

As redes sociais foram centrais nesse processo. O presidente falava diretamente à sua base, sem mediação institucional, criando um circuito fechado de informação. Nesse universo autorreferente, a noção de verdade passou a ser substituída pela ideia de lealdade. Questionar a narrativa presidencial era sinônimo de traição. Discordar era ser cúmplice do “sistema”.

Esse método não visava convencer a maioria, mas mobilizar uma minoria suficientemente engajada para manter aceso o conflito. A estratégia era produzir tensão permanente, empurrando as instituições a reagirem, de modo que pudessem ser tachadas de autoritárias — ou, no limite, que suas atitudes fossem pretexto para a ruptura.”

 

 

“5. A AGENDA

Durante as investigações relativas ao Oito de Janeiro, a Polícia Federal encontrou anotações e arquivos digitais ligados a Augusto Heleno, general que construiu sua carreira à sombra de figuras da linha dura do regime militar, como Sylvio Frota, e nunca escondeu a nostalgia pelo período autoritário. As anotações traçavam os planos e as linhas de ação para atacar o sistema eleitoral.

Esses registros coincidiam com documentos encontrados em posse de Alexandre Ramagem, então diretor-geral da Abin. Arquivos como “Presidente TSE Informa.docx” e “Bom Dia Presidente.docx” reuniam argumentos contra as urnas eletrônicas e estratégias organizadas de deslegitimação do processo eleitoral, posteriormente usadas em discursos públicos de Jair Bolsonaro.

 




6. TANQUES NAS RUAS

Parte central do ataque às urnas foi a campanha pelo voto impresso. Apresentada a princípio como defesa da “auditabilidade”, ela tinha outra função prática: atrasar o processo eleitoral, criar tensão institucional e abrir espaço para a contestação dos resultados.

A votação da PEC 135/19 no Congresso estava marcada para agosto de 2021. Na mesma data, o comandante da Marinha, almirante Garnier, foi a Brasília com o intuito de entregar a Bolsonaro um convite para um exercício militar em Goiás. Para isso, organizou um desfile de tanques em frente ao Congresso Nacional.

O Brasil não via tal cena desde a ditadura. Apesar de grotesco, o desfile teve ares de chanchada. Um dos blindados soltou uma intensa fumaça preta ao se exibir na avenida, transformando-se numa espécie de metáfora do despreparo dos militares ou, ainda, em prova material do sucateamento das Forças Armadas.

Questionado sobre a aparente ameaça do desfile na data da votação, Bolsonaro desconversou, dizendo que era só uma coincidência, classificando-a como casual. A proposta do voto impresso foi derrotada no Congresso. O presidente, porém, não recuou.”

 

 

Em uma nova reunião no Palácio da Alvorada, ainda em dezembro, Bolsonaro, Braga Netto e militares discutiram como convencer o comandante Freire Gomes a aderir ao golpe. Em 9 de dezembro, Bolsonaro apareceu em público pela primeira vez em mais de quarenta dias. No gramado do Palácio da Alvorada, falou aos seus apoiadores:

“Hoje estamos vivendo um momento crucial, uma encruzilhada. [...] Quem decide o meu futuro e para onde eu vou são vocês. Quem decide para onde vão as Forças Armadas são vocês. [...] Nada está perdido. Ponto final, somente com a morte”.”

 

 

Com a volta do comandante Baptista Júnior a Brasília, ainda na segunda semana de dezembro, o ministro da Defesa, Paulo Sérgio Nogueira, convocou uma reunião no próprio ministério com todos os comandantes das Forças Armadas. O ambiente era de tensão. Após inúmeras alterações, o decreto do golpe estava, segundo os articuladores, “pronto”, aguardando apenas a anuência dos dois comandantes que ainda resistiam a ele: Freire Gomes e Baptista Júnior. Segundo consta, o diálogo teria sido assim:

“Trouxe aqui um documento para vocês verem”, disse o ministro.

“Esse documento prevê a não assunção do presidente eleito?”, perguntou Baptista Júnior.

O ministro permaneceu em silêncio.

“Não admito sequer receber este documento.”

Baptista Júnior levantou-se e deixou a sala. Em depoimento posterior, relataria que aquele silêncio confirmava a natureza do texto: se não fosse um golpe, o ministro da Defesa o teria chamado de volta. A partir daquele momento, tornava-se evidente que a adesão plena das Forças Armadas não viria.

A reação do núcleo radical envolvido na trama foi imediata. Braga Netto passou a responsabilizar Freire Gomes pelo fracasso iminente do plano, classificando sua postura como omissão e traição. A retórica interna assumiu tom de ameaça.

“Oferece a cabeça dele. Cagão”, ordenou Braga Netto a um interlocutor.

O clima era de tensão, e o assassinato de Alexandre de Moraes estava planejado para a noite seguinte.

 



16. JOGADORES EM CAMPO

Na manhã seguinte à reunião no Ministério da Defesa, Jair Bolsonaro ainda tentou uma última cartada. Convocou Freire Gomes ao Palácio da Alvorada para discutir novamente o decreto. O comandante do Exército recusou-se, mais uma vez, a participar do conluio.

Logo após sua saída, Anderson Torres, Braga Netto e outros integrantes da cúpula golpista reuniram-se com Bolsonaro. Sem a adesão dos comandantes, Braga Netto ordenou que os novos “inimigos” — Freire Gomes e Baptista Júnior — fossem perseguidos sistematicamente.

 

“Senta o pau no Baptista Júnior [...] traidor da pátria. Inferniza a vida dele e da família.” (Braga Netto)

 

A lógica era simples: se não era possível vencer pela hierarquia, que fosse pela intimidação.

Enquanto isso, a poucos quilômetros do Palácio da Alvorada, a chamada “neutralização” de Alexandre de Moraes seguia em andamento. Os criminosos se espalharam por Brasília em pontos estratégicos. Comunicavam-se por codinomes — Gana, Alemanha, Áustria etc. — e usavam linhas telefônicas específicas para a ação. Naquela noite, porém, o plenário do STF adiou uma votação sensível, o que afetou o cronograma do plano. Às 20h59, “Alemanha”, o líder do grupo, mandou abortar a missão. Iniciou-se então a “exfiltração” — termo militar usado para designar a retirada sigilosa do território inimigo.

Alexandre de Moraes só descobriria que fora alvo de um plano de assassinato meses depois.

Armamento avaliado pela trama golpista para realizar o assassinato de
Alexandre de Moraes (reprodução PF)


17. O COMEÇO DO FIM

Mesmo com essa parte do plano abortada, a tentativa de golpe não cessou. No dia seguinte, o general Mário Fernandes produziu um novo documento, intitulado “hd_2022a.doc”, que previa a criação de um “gabinete de crise” após a ruptura institucional, com Braga Netto e Augusto Heleno no comando.

Apesar de não aderirem formalmente ao golpe, as Forças Armadas tampouco atuaram para desmobilizar os acampamentos em frente aos quartéis. A omissão permitiu que a radicalização avançasse. Na véspera de Natal, apoiadores de Bolsonaro tentaram detonar uma bomba em um caminhão-tanque estacionado nas proximidades do aeroporto de Brasília.

Na véspera do fim de seu mandato, Bolsonaro fez uma live em tom de derrota e deixou o país rumo aos Estados Unidos.

Segundo as investigações posteriores, ele o fizera por temer ser preso. Ainda assim, não reconheceu explicitamente o resultado eleitoral. Em materiais apreendidos, surgiriam outros planos que previam controle total dos Três Poderes. Um deles se encerrava com a frase que virou bordão dos bolsonaristas:

“Lula não sobe a rampa.”

Apesar dessa predição, a posse de Lula ocorreu sob intenso policiamento e alerta máximo para possíveis explosivos plantados na Esplanada dos Ministérios. Nada aconteceu naquele dia. Uma pergunta, porém, permanecia no ar entre os próprios articuladores.

“Ainda tem algo para acontecer? Coisa boa ou coisa horrível?”, questionou um militar a Mauro Cid, em 4 de janeiro. “Bom. Depende para quem. Para o Brasil é boa”, respondeu Cid.

 

18. O ÚLTIMO SUSPIRO

Poucos dias depois, sob a gestão de Anderson Torres, a Polícia Militar do Distrito Federal ignorou alertas sobre a chegada de 132 ônibus a Brasília e o crescimento expressivo do número de acampados. Medidas de contenção foram desmobilizadas às vésperas da chamada “Festa da Selma”, nome dado pelos participantes à manifestação marcada para 8 de janeiro.

A estratégia era clara: invadir as sedes dos Três Poderes, provocar o caos e, diante da omissão policial, forçar a decretação de uma GLO que transferisse o controle da segurança aos militares. Parte da tropa estava pronta.

 

“Se o EB [EXÉRCITO BRASILEIRO] sair dos quartéis... é para aderir.” (Mauro Cid, 8/1/2023)

 

O que se viu na tarde de 8 de janeiro correu o mundo. O Brasil reproduzia, à sua maneira, a cena da invasão do Capitólio, ocorrida em Washington dois anos antes, quando manifestantes trumpistas tentaram anular o reconhecimento da vitória de Joe Biden pelo Congresso estadunidense.

No Brasil, a investida se fez contra os Três Poderes. Milhares de pessoas invadiram o Congresso Nacional, o Palácio do Planalto e o STF. Destruíram móveis, danificaram obras de arte, defecaram e urinaram em corredores, barbarizaram o lugar, de todas as formas possíveis. Muitos filmavam tudo, orgulhosos, para registrar o que acreditavam ser a tomada do poder, ou a redenção da pátria. A ideia de que participavam de uma guerra santa para purificar a nação, presente entre os manifestantes fanatizados, misturava-se com a expertise de militares de elite, infiltrados na multidão para vencer os obstáculos físicos e consumar o espetáculo da depredação.

Com boa parte da polícia inerte, Lula decretou intervenção federal na segurança do Distrito Federal, garantindo que o comando não passasse às mãos militares. A medida demorou horas para ser formalizada, mas foi decisiva. Ao cair da noite, a Polícia Militar chegou aos quartéis do Exército para prender os golpistas que tinham retornado aos acampamentos, mas encontrou tanques e fileiras de soldados protegendo o local.

Com o impasse armado, ministros do governo Lula e generais se reuniram naquela noite em uma pequena sala no QG do Exército.

Foram horas de negociação em clima tenso. Generais disseram que haveria um banho de sangue caso as prisões fossem executadas imediatamente.

Decidiu-se adiar as prisões para a manhã seguinte, o que deu a alguns militares tempo suficiente para desmobilizar familiares e pessoas próximas que estavam nos acampamentos. O conflito físico foi evitado por um triz.

 

19. CONSEQUÊNCIAS

Dois dias depois, Bolsonaro republicou um vídeo questionando a confiabilidade das urnas, apagando-o na sequência. Segundo seus advogados, esse teria sido um gesto involuntário, motivado por medicamentos. A postagem, no entanto, seria incorporada aos autos.”


Em fevereiro de 2024, a Polícia Federal deflagrou a operação Tempus Veritatis, com ordens de prisão e mandados de busca e apreensão. A ação policial teve grande impacto e aprofundou a investigação sobre a organização criminosa montada no entorno do ex-presidente.

Meses depois, em 26 de junho de 2023, o inquérito do golpe foi formalmente instaurado, marcando a transição da crise política para o terreno da responsabilização institucional. As investigações não se limitaram aos eventos do Oito de Janeiro, mas reconstruíram a cadeia de atos que os tornaram possíveis, revelando conexões entre discurso, planejamento e ação.

O avanço das apurações expôs a existência de núcleos distintos — político, militar, operacional e comunicacional — que agiam de forma coordenada. A comprovação dessa arquitetura desmontou a narrativa que bolsonaristas tentavam emplacar, de que teria havido um descontrole espontâneo da população, e evidenciou a existência de uma organização com divisão de tarefas e objetivos comuns.”

Nenhum comentário: