segunda-feira, 11 de maio de 2026

A ameaça interna: psicanálise dos novos fascismos globais (Parte I), de Vladimir Safatle

Editora: Ubu

ISBN: 978-85-7126-250-8

Opinião: ★★★★☆

Páginas: 240

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Sinopse: Neste livro, Vladimir Safatle afirma a existência de um fascismo estrutural, que emerge com força em situações de crise. A novidade é examinar o fascismo contemporâneo a partir de uma crítica interna, afastando-se de argumentos de pensadores progressistas que atribuem sua emergência à irracionalidade ou a impulsos descontrolados para mostrar como há em vigor a aplicação consistente da lógica neoliberal da concorrência generalizada, que responde a um cálculo racional. Assim, interessa ao autor compreender as condições de formação das subjetividades na sociedade neoliberal. A partir de leituras de Freud, Lacan e Adorno, Safatle afirma que a centralidade da identidade individual neoliberal cria condições favoráveis às dinâmicas fascistas, estabelecendo uma ligação estrutural entre liberalismo, colonialismo e fascismo que muitas vezes preferimos ignorar: o fascismo emerge como uma forma específica de violência que reconstrói a sociedade a partir de uma mutação dos afetos sociais, generalizando dinâmicas de dessensibilização e indiferença.



“Este livro foi escrito para sistematizar o esforço de mostrar que, longe de ser alguma forma de explosão de irracionalidade e de regressão social, o fascismo é a realização possível de uma estrutura psicológica que nasceu como se fosse a condição subjetiva para a implementação de exigências normativas de liberdade, mas que se inverteu necessariamente em seu contrário. Um capítulo da história das inversões da razão em princípio de dominação social.3 Algo que Adorno e Horkheimer haviam percebido quando insistiam, em Dialética do esclarecimento, que o fascismo não era uma exterioridade do projeto iluminista, como se estivéssemos vendo a reedição das lutas entre a civilização e a barbárie. Antes, ele era uma das figuras possíveis das Luzes, um de seus riscos imanentes, com seus ideais normativos de progresso que facilmente se invertem em extermínio, de desenvolvimento que logo se tornam catástrofe, de, como dizia Marx, forças produtivas que se tornam forças destrutivas.

Ou seja, e de certa forma esta é a tese central deste livro, as crises que geram o fascismo não resultam de degradações de nossa liberdade, de processos de alienação, reificação, anomia e desregulamentação de nossas normas sociais. Antes, elas são frutos diretos de nossa própria concepção de liberdade e de suas figuras de progresso social, psíquico e moral. Nossa concepção de liberdade, tão hegemonicamente vinculada à construção do indivíduo moderno, é segregadora, violenta, agressiva, privilegia marcadores de gênero muito claros, baseada em bloqueios fundamentais de alteridades, vinculada a processos materiais cujo crescimento apenas nos levou a um sistema de crises terminais.4 Nossa concepção de autonomia é, no fundo, a continuação de uma teologia do excepcionalismo humano e da degradação de nossas relações com o que chamamos até hoje de “natureza”.5 Por isso, uma das tarefas mais importantes do pensamento crítico contemporâneo é reconstruir nossa noção de liberdade, conectando-a a outros impulsos, deixados para trás na história material de nossas tentativas de emancipação social.

É claro que há condições sócio-históricas para tal sistema de interversões da liberdade, há condições para que ela se realize em momentos específicos da história. Ninguém haveria de negar. Da mesma forma, essas condições sócio-históricas se aproveitam de traços constituintes de certas sociedades, como as experiências coloniais, as matrizes escravocratas, os resquícios de experiências ditatoriais e formas historicamente constituídas de segregação social. Não há que imaginar que uma análise libidinal pudesse se sobrepor ou descartar análises vinculadas à economia política, à sociologia e à história.

Mas uma reflexão que opera no campo do que um dia foi chamado de psicologia social tinha uma função que só ela poderia preencher. A história é feita de repetições, de encarnações e de fantasmagoria. Ela conhece incorporações que levam ceos a falar como administradores de campos de concentração, que fazem donos de cadeia de lanchonetes adquirirem o tom de agitadores de província. Quem viveu em países governados pela extrema direita conhece bem esse fenômeno de transformação social no qual o exercício do poder autoritário parece autorizar sujeitos a agirem e falarem de forma aberta de uma maneira que dificilmente fariam antes.

Em Moisés e o monoteísmo, Freud afirma em certo momento que “Moisés criou o povo judeu”. Essa colocação pode parecer fruto de uma perspectiva claramente idealista. No entanto, ela visa insistir na força produtiva das identificações verticais, identificações entre a autoridade e quem ela subjuga. O poder produz subjetividades, modifica subjetividades, pois define o campo dos enunciados possíveis, das ações permitidas, reconstruindo o horizonte do permitido e do proibido, do autorizado e do censurado. Idealista seria, ao contrário, acreditar que tais formas de exercício do poder não modificam sujeitos. Assim, ao modificar o campo do enunciável, o poder permite a explicitação de traços constitutivos de nossos processos de socialização que precisavam, até então, ser deslocados, recalcados, transfigurados e racionalizados. Ou seja, tais transformações ocorrem devido a fragilidades latentes no interior de nossas formas hegemônicas de vida, fragilidades essas vindas de nossos processos de socialização e individuação. Nesse sentido, a questão relevante consiste em compreender por que tal virtualidade emerge em certas circunstâncias, por que ela se atualiza em certos contextos e lugares. Sobretudo, se é o caso de termos consciência da fragilidade imanente de nossas formas de vida, de sua degradação processual, se é o caso de insistir que a personalidade autoritária na qual o fascismo se assenta é uma virtualidade constituinte da individualidade moderna, então não podemos esquecer que a única forma efetiva de combater o fascismo é lutando por entender as contradições dos processos que fizeram nos tornarmos quem somos.”

3 Um importante exemplo a respeito do enraizamento heterodoxo do nazismo em nossos sistemas de valores pode ser encontrado em Johann Chapoutot, La Loi du sang: Penser et Agir en Nazi. Paris: Gallimard, 2014.

4 Seria o caso de lembrar da perspectiva de Pierre Charbonnier, Vers l’Écologie de guerre: Une Histoire environnementale de la paix. Paris: La Découverte, 2024, para quem são as dinâmicas de paz, e não exatamente as guerras, que aceleram as crises ambientais e suas consequências catastróficas. Pois os momentos de paz são alimentados pela ilusão de estabilização social através do crescimento, de pacificação através da abundância material, com sua generalização impossível e ecologicamente impagável, como já entendia Celso Furtado (ver O mito do desenvolvimento econômico. São Paulo: Ubu Editora, 2024).

5 Ver, a esse respeito, V. Safatle, “Crítica da autonomia: Liberdade como heteronomia sem servidão”. Discurso, V. 49, n. 2, 2019.

 

 

“Não se analisam processos históricos como um botânico classifica plantas. Creio ser melhor entender como os fenômenos se adaptama circunstâncias específicas.8 É possível encontrar casos de fascismo sem liderança autocrática. Um exemplo é o regime de apartheid da África do Sul. É possível encontrar fascismo sem expansionismo militar, basta pensar na Espanha de Franco. Mesmo o papel do Estado como agente regulador da economia pode estar ausente, pois assim como é possível existir capitalismo com maior ou menor intervenção estatal, sendo estatismo e liberalismo apenas momentos de um mesmo processo de acumulação,9 nada obriga a que o fascismo seja necessariamente estatista.10

Mas, se assim for, o que nos permite descrever tais regimes como fascistas? Como gostaria de defender aqui, todos eles se estruturam a partir da mobilização estatal de certa forma específica de violência e dessensibilização, cuja análise eu gostaria de aprofundar. Nesse sentido, insistiria que o receio atual em usar o termo “fascismo” é apenas expressão do medo de reconhecer que talvez não seja mais possível preservar o que um dia entendemos por “democracias liberais”, pois elas se demonstraram, mais uma vez, impotentes para eliminar de seu interior a violência fascista e suas formas de segregação. Na verdade, e espero ter chegado a hora de dar esse passo analítico, elas foram impotentes simplesmente porque nunca existiu algo como “democracias liberais”. O que tínhamos era algo que poderia ser chamado de fascismos restritos. As ditas democracias liberais que conhecemos eram regimes democráticos para certos setores da população e certas zonas geográficas e regimes fascistas para outros setores e outras zonas. Democracias liberais como França e Reino Unido eram, ao mesmo tempo, até final dos anos 1960, potências coloniais responsáveis por políticas cotidianas de extermínio, tortura, segregação, desaparecimento e medo social em várias partes do globo. Ou seja, eram estados duais organizados em zonas. Não é possível analisar, por exemplo, o que era a democracia britânica sem lembrar que a Inglaterra era o Reino Unido e seu império e, quando esse império ruir, a relação do Estado com as populações de imigrantes tenderá, cada vez mais, a absorver as características das antigas relações coloniais.11 Da mesma forma, seria o caso de se perguntar que tipo de Estado eram os Estados Unidos para as populações negras: uma democracia ou um estado segregacionista, racista, com práticas claramente fascistas, independente do que dizia formalmente a lei?

Países como o Brasil são exemplos claros desses fascismos restritos que, ao mesmo tempo, funcionam como democracias geograficamente situadas, quer dizer, Estados onde a proteção da integridade pessoal e da cidadania funciona em certas zonas e localidades, mas desaparece quando atravessamos certos limites geográficos, quando entramos em territórios onde o extermínio e a violência policial são expressões cotidianas do poder, onde é possível trucidar 120 pessoas e ainda ser aplaudido pela classe média assustada. Creio ser importante entendermos que as chamadas democracias são apenas Estados que construíram zonas geograficamente limitadas de democracia em seu território. Por isso, o termo mais adequado para tais regimes políticos seria “fascismo restrito”. Ou seja, acredito que as discussões hegemônicas sobre democracia liberal, sobre como se perdem democracias, estão completamente equivocadas. Não é possível perder o que nunca se teve (ou melhor, é possível, no entanto, isso é um caso psicanalítico de fixação melancólica, e não creio que tais teóricos tenham isso em mente).

Isso pode nos explicar o aparente paradoxo de países democráticos que veem dinâmicas fascistas generalizarem-se de seu interior. O que efetivamente ocorre, em situações de acirramento de crises, é a passagem de um regime de fascismo restrito a outro de fascismo generalizado. Práticas que estavam restritas a zonas específicas e que eram feitas a partir de normatividades implícitas, de leis não escritas mas sempre respeitadas, generalizam-se em situações de crise e passam a ser explicitamente assumidas. É essa passagem de um fascismo restrito a um fascismo generalizado que devemos entender, em vez de acreditar em pretensas desagregações das democracias, em ataque à democracia por forças populistas e regressivas, ou qualquer outra fantasia dessa ordem.

Para compreender tais passagens, devemos partir dos processos concretos de extensão da precariedade e da vulnerabilidade social. Afinal, devemos entender o fascismo como a versão monstruosa de uma desilusão social e econômica reconhecida por toda perspectiva genuína de esquerda. Mais do que psicologizar o fascismo, inflacionar suas análises com descrições psicológicas e personalistas, mais do que patologizar tendências políticas opostas às nossas, é necessário começar por reconhecer a realidade material da desilusão que leva setores expressivos da população a sustentar perspectivas fascistas. Não se trata aqui de imaginar que as respostas ao fascismo sejam psicológicas, que elas passem por alguma forma de reeducação, de tratamento, de profilaxia, de “letramento”. As respostas passam por reconhecer nossa incapacidade em dar, até agora, soluções adequadas a sofrimentos e inseguranças reais ligados à extensão brutal da precariedade e da vulnerabilidade nas sociedades capitalistas. Depois dessa ascensão fascista só haverá duas opções: aceitá-la como nosso destino ou reconstruir a força revolucionária de transformação e emancipação social.

Para nós de esquerda é muito mais cômodo mobilizar nossos estudos sobre masculinismo, sexismo, racismo a fim de fornecer figuras moralmente repulsivas de setores fascistizados na população, em vez de entender como nossa incapacidade de realizar transformações sociais de fato baseadas na defesa da igualdade radical e da soberania popular são parte importante do problema. O que não significa que esses fenômenos sejam irreais. Ao contrário, o antifeminismo, por exemplo, é uma estrutura central do fascismo desde a emergência do fascismo histórico nos anos 1930 e suas lutas contra o igualitarismo do “bolchevismo sexual”.12 Ele é uma peça fundamental para a remobilização do aprofundamento da espoliação econômica e do deslocamento de conflitos sociais, das classes mais favorecidas aos grupos mais vulneráveis. Por isso, essas discussões estão muitas vezes vinculadas aos processos materiais de degradação da reprodução social e, principalmente, de nossa incapacidade em dar respostas concretas a eles. Elas nos lembram que, em vez de patologizar posições políticas, vale mais tentar entender a impotência real da esquerda e sua dificuldade em não ser apenas o nome de uma forma de traição que consiste em nunca realizar, no governo, as promessas que havíamos defendido nas ruas. Mudar essa tendência analítica seria uma posição mais honesta e nos permitiria, em vez de ver o fascismo como “irracionalidade”, vê-lo como uma resposta realista a problemas concretos. O problema é que ser “realista” atualmente significa adaptar-se a uma realidade irreal e destrutiva, uma realidade em cuja base se encontra a aceleração da brutalização social, da destruição ambiental, da máxima espoliação, da superexploração do trabalho dos que não conseguem estar em algum grupo preservado. Hoje em dia, não há nada mais irrealista do que ser realista, do que acreditar que essa realidade pode sustentar-se por muito tempo.”

8 Podemos encontrar proposição similar em Armando Boito Jr., “Por que caracterizar o bolsonarismo como fascismo?”. Revista Crítica Marxista, n. 50, 2020.

9 Como bem lembrou Robert Kurz, O colapso da modernização, trad. Karen Barbosa. São Paulo: Paz e Terra, 1992. Por outro lado, é a existência da temática do Estado Forte que leva Marilena Chaui a distinguir o fascismo e o totalitarismo neoliberal (ver M. Chaui, “Fascismo à brasileira e totalitarismo neoliberal”. Revista do Nesef, V. 11, n. 2, 2022). No entanto, o papel de instância suprapolítica, pairando acima dos conflitos sociais, que o fascismo delega ao poder soberano, continua nessa nova versão neoliberal, apenas sendo preenchido pelo mercado. O mesmo mercado cuja livre-iniciativa será um pilar para o acordo entre o partido fascista e a grande indústria. No lugar do Estado Forte, o Mercado Forte.

10 Há de se lembrar que, diante de crise de 1929, a República de Weimar se viu obrigada a estatizar várias empresas em processo de falência a fim de tentar salvar a economia. Os nazistas farão uma larga política de privatização dessas empresas, nos setores de mineração, bancos, estradas de ferro, indústria naval, entre outros. Algumas empresas privatizadas pelos nazistas: Deutsche Reichbahn, Vereinigte Stahlwerke AG, Commerz Bank, entre outras (ver Germà Bel, “Against the Mainstream: Nazi Privatization in 1930s Germany”. The Economic History Review, V. 63, n. 1, fev. 2010).

11 Carl Schmitt nos lembra como a demarcação de um espaço de ação liberado de refreamentos jurídicos, espaço do uso da violência que permanecia subtraído ao direito, está na base da expansão colonial britânica: “O direito inglês distinguia de forma clara o âmbito do solo inglês, como âmbito da validade da Common Law, e outros âmbitos espaciais. Encarava a Common Law como Law of the Land, como lex terrae” (C. Schmitt, O nomos da Terra no direito das gentes do jus publicum europaeum, trad. Alexandre de Sá et al. Rio de Janeiro: Contraponto, 2014, p. 100). Nesses outros “âmbitos espaciais”, agir como um fascista estava autorizado.

12 Sobre a relação entre fascistização da reprodução social e antifeminismo, ver sobretudo Luci Cavallero e Verónica Gago, Contra el autoritarismo de la libertad financiera. Buenos Aires: Tinta Limón, 2025.

 

 

“Lembremos ainda como pensar laços sociais a partir do problema da afecção e da desafecção, da sensibilização e da dessensibilização é uma forma de compreender, de maneira materialista, a estruturação de processos de reconhecimento social e sua centralidade. Níveis fundamentais da vida comum podem ser bloqueados devido ao que chamamos de “invisibilidade social”. Se o reconhecimento é o dispositivo central de existência social, é porque reconhecer não é simplesmente uma recognição. Não se trata simplesmente de constatar a existência prévia de algo ou alguém. Trata-se de permitir ser afetado pelo que até então era não contado, produzindo não apenas uma modificação no estatuto de existência do que reconheço, mas também na estrutura de quem reconhece. Reconhecer alguém é me deixar ser afetado por ele, é abrir-se a uma metamorfose no meu horizonte de experiências e de identidades, estabelecendo relações de implicação e dependência. Por isso, não sentir, não ser afetado, dessensibilizar-se é a operação política central quando é questão de restringir o corpo social do qual fazemos parte, aprofundar o processo de espoliação e extermínio de grupos. A dessensibilização é a forma mais bem-acabada do bloqueio de reconhecimento. É essa implosão de um corpo social genérico que devemos ter em vista ao pensarmos as dinâmicas do novo fascismo global e seu novo circuito de afetos.”

 

 

“Sabemos como Guattari também trabalha não com uma categoria puramente histórica de fascismo, mas com uma categoria estrutural. Ele se refere a esse fascismo imanente ao funcionamento normal das sociedades liberais através da insistência na emergência de “um fascismo normal, um fascismo cotidiano, que está em vias de se instalar, de adquirir seus direitos, de adquirir uma autoridade, uma legitimidade”.24 Esse fascismo ordinário ligado aos investimentos libidinais em estruturas da ordem, na transformação da sanha punitivista em rituais de expiação de sadismo social (isso tanto para os que se identificam à direita como à esquerda), no racismo cotidiano mostrava como dinâmicas próprias a personalidades autoritárias, com suas lógicas de segregação e agressividade, tendiam a se colocar de maneira cada vez mais aberta e generalizada.

No entanto, para além desse fascismo ordinário, eu gostaria de procurar sistematizar outro fenômeno: a possibilidade de emergência não de um fascismo ordinário, normalizado nos regimes ordinários de reprodução social, mas de um fascismo insurrecional. Isso significa um fascismo capaz de, à sua maneira, recuperar elementos constituintes da experiência do fascismo histórico até uma intensidade desconhecida. Insisto nisso por crer que entramos em uma era diferente, a do fascismo como força insurrecional. Não por acaso, se a tópica da “revolução” desertou dos setores hegemônicos da esquerda, não devemos esquecer que ela é elemento constituinte da autocompreensão da extrema direita contemporânea. Muitos de seus apoiadores se veem dentro de um processo revolucionário, com o entusiasmo e a dedicação próprios a esses momentos. Sendo assim, nomear o problema de forma correta, por mais terrível que seja, sempre foi e continua sendo a única maneira de efetivamente lutar contra ele. E chegou o momento de parar de esconder de nós mesmos a extensão de nossos problemas.”

24 Félix Guattari, A revolução molecular, p. 286 (trad. Larissa Drigo Agostinho. São Paulo: Ubu Editora, 2024).

 

 

“De minha parte, gostaria de defender que o termo “fascismo” nunca esteve ausente de várias reflexões sobre a natureza de nossas sociedades porque elas o aceitavam como um fenômeno estrutural das sociedades capitalistas, e não como um acontecimento histórico localizado. Se assim for, devemos ser capazes de definir qual elemento estrutural o define. Nesse sentido, sugiro pensá-lo como uma forma específica de violência. É o regime de violência social que define estruturalmente o fascismo. Ele é uma forma de violência de Estado que não diz respeito apenas àquela mobilizada contra grupos descontentes e setores em sedição social. Ele é uma violência que visa reconstruir os laços sociais a partir da generalização da dessensibilização e da indiferença como afeto social central. Ou seja, a violência tem aqui uma função transformadora. Ela produz outra sociedade. Não estamos diante apenas de uma forma de governo, de Estado, mas de uma forma de sociedade, de uma transmutação estrutural do vínculo social na qual a sociedade assume-se como a forma estável de uma guerra civil permanente.4 Uma guerra civil que é a realização de uma verdade social maior, a saber, a de que não há nem haverá sociedade para todos. A guerra civil é assim assumida e, em um nível mais estruturador, desejada, não como uma guerra de classes que visaria à emancipação universal, mas como a forma última global do laço social.”

4 Sobre o tópico da guerra civil como situação social “normal”, ver sobretudo Peter Pál Pelbart, “Da guerra civil”. Arquivos Brasileiros de Psicologia, V. 70, 2018.

 

 

“Para entender melhor esse ponto, lembremos a definição dos sujeitos na era neoliberal como “empreendedores de si mesmos”.22 Perguntemo-nos então sobre o que deve acontecer à sociedade para que sujeitos possam se autoperceber dessa forma. Seria o resultado de uma “escolha individual”, de uma decisão de se verem preferencialmente como empreendedores de suas próprias habilidades, de seu “capital humano”? Ou se trata do fruto de uma violência social brutal produzida a ferro e fogo, um pouco como a descrição dada por Marx para a transformação de trabalhadores vinculados afetivamente à terra em indivíduos vagando pelas estradas da Inglaterra sem nada a não ser sua “força de trabalho” abstrata e quantificável, à venda pelo preço mais aviltante? “Empreendedorismo” não é uma forma de liberdade, mas de violência, de redução de toda relação social e relação a si à figura da concorrência e da competição. Redução de todo outro à condição de um concorrente a ser eliminado. Mesmo as relações cooperativas que restaram aparecem não como expressão de algum mutualismo imanente à vida social, mas como relações instrumentais, mutualismos meramente estratégicos tendo em vista a otimização dos interesses individuais.23 Algo assim nunca poderia ser resultado de uma livre escolha, e sim fruto da necessidade de lutar contra a morte social. Pois essa decomposição das estruturas de proteção social vendida como fortalecimento das decisões individuais acabará por produzir o endividamento crônico das famílias e sua vulnerabilidade social contínua.24 O endividamento se torna assim o modelo fundamental de gestão das populações.

Nesse contexto, nada mais necessário do que a dessensibilização e a desafecção para “vencer na vida”. Pois estamos em uma sociedade organizada como guerra civil. O empreendedorismo é uma continuação da guerra civil por outros meios. Ele é a realização econômica da concepção hobbesiana da sociedade como uma “guerra de todos contra todos”. No entanto, não se trata apenas de uma mutação molecular que contribui para o advento de uma subjetividade bélica como modelo geral de socialização. Faz-se necessária também a extensão da lógica da guerra ao controle social, um processo que se inicia com a batalha dos governos neoliberais contra as lutas operárias. É na longa luta do governo Thatcher contra os mineiros (1984–85), a certidão de nascimento do neoliberalismo inglês, que veremos a generalização de técnicas até então não usadas contra populações civis, como prisões preventivas, escutas telefônicas, bombas de gás lacrimogêneo, balas de borracha, canhões de água. O resultado será digno de uma guerra civil: 11 313 pessoas presas, 7 mil feridos, 11 mortos. Nos Estados Unidos, a certidão de nascimento do neoliberalismo será outro confronto com lutas operárias: a greve dos controladores aéreos, de 1981. Na ocasião, a recusa do governo Reagan em negociar levou à demissão de três quartos dos controladores, ou seja, 12 mil pessoas. “O objetivo de Reagan era sinalizar para a opinião pública que o governo não estava diante de um conflito trabalhista trivial, mas de um levante ilegal contra o próprio Estado.”25 Nesse dito levante ilegal, companhias áreas aceitaram suportar um prejuízo calculado em 10 bilhões de dólares, como se sustentassem uma luta de vida e morte contra um inimigo que deveria ser reduzido à incapacidade completa de reação. Não por acaso, o Brasil verá a mesma dinâmica em 1995, com a greve dos petroleiros e a reação brutal do governo Fernando Henrique, que chegou à ocupação de refinarias pelo exército (Paulínia, Mauá, São José dos Campos, Paraná). Uma imposição da lógica militar contra um “inimigo da pátria”. Em todos os casos mencionados, a regra foi a quebra de qualquer poder operário através de níveis até então inéditos de mobilização do aparato armado do Estado e de chantagem econômica.”

22 O tema aparece pela primeira vez em Michel Foucault, Nascimento da biopolítica, trad. Eduardo Brandão. São Paulo: Martins Fontes, 2022.

23 No que só podemos concordar com Verónica Gago e Luci Cavallero quando afirmam que: “A novidade dessa liberdade financeira é que ela reforça um aspecto moralizador que não podemos subestimar: ela exerce uma penalização contra certas formas de vida onde o comunitário se catalogará como improdutivo e todo o ‘coletivista’ será lido como desvalor. Isso busca encerrar a noção de liberdade nos limites do indivíduo” (L. Cavallero e V. Gago, Contra el autoritarismo de la libertad financiera. Buenos Aires: Tinta Limón, 2025, p. 19).

24 Ver Maurizio Lazzarato, Il governo dell’uomo indebitato: Saggio sulla condizione neoliberista. Bologna: DeriveApprodi, 2013.

25 Ruy Braga, A angústia do precariado. São Paulo: Boitempo, 2023, p. 77.

 

 

“Os processos revolucionários no século XX e as lutas anticoloniais selaram a emergência de outra forma de guerra, que não consiste no combate aberto entre exércitos. A guerra revolucionária exige outra forma de combate, no interior do qual táticas políticas, econômicas, psicológicas e militares se articulam em uma dinâmica de larga duração visando à conquista militar e à transformação ideológica da sociedade. Contra ela, aparecerá a guerra contrainsurrecional, desenvolvida de forma paradigmática nas guerras coloniais francesas.27 Como nos lembra Harcourt, ao aplicar a mesma lógica às populações sob os choques neoliberais, veremos uma forma de gestão social baseada no tripé: a) obter informação total através da vigilância contínua e do acesso imediato a toda comunicação (o que o controle de algoritmos facilitou de uma forma nunca vista); b) erradicar toda minoria ativa com potencial de sedição, que deve ser assim isolada, contida, quebrada em sua capacidade de organização; c) ganhar a adesão da população geral através da domesticação psíquica, do jogo de participar de sua própria servidão. Esse tripé será extensivamente empregado pela lógica neoliberal dentro da luta preventiva contra basicamente os mesmos inimigos das guerras coloniais, ou seja, forças de sedição social, dinâmicas populares insurgentes, comunismo potencial.

Essa domesticação psíquica é feita sempre pela conjugação do jogo afetivo entre medo e esperança, como podemos encontrar desde Spinoza. Nenhum poder se sustenta apenas no medo, e as dinâmicas fascistas inerentes ao neoliberalismo não são exceção. São necessários também esperança e gozo, o que se alcança com a mobilização do horizonte revolucionário de transformação estrutural, de ruptura, de velocidade irrefreável de mudanças, de destruição da ordem dos consensos atuais. Hoje não há governo algum de extrema direita que deixe de mobilizar tais horizontes. Como uma revolução socialista invertida, eles se servem do Estado para destruir as regulações produzidas pelo próprio Estado. Governos como o de Milei chegaram a prometer a destruição do Banco Central, Bolsonaro colocou em marcha um processo sistemático de destruição de toda e qualquer política pública de assistência social. Como se fosse o caso de fazer as decisões econômicas retornarem à “sociedade”, mesmo que essa sociedade seja simplesmente o espaço de naturalização do mais forte, de gestão produzida pelos atuais detentores dos meios de produção.”

27 Ver, a esse respeito, Leneide Duarte-Plon, A tortura como arma de guerra: Da Argélia ao Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2016.

 

 

“Nesse sentido, nada mais preciso do que a compreensão marcuseana de que “O fascismo não vai salvar o capitalismo: ele próprio é a organização, de forma terrorista, das contradições do capitalismo. Mas uma vez o fascismo instalado ele deve destruir todo e qualquer potencial revolucionário por um tempo indefinido”.34

34. Vladimir Safatle, Dar corpo ao impossível: O sentido da dialética após Adorno. Belo Horizonte: Autêntica, 2019, p. 29.

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