Editora: Ubu
ISBN: 978-85-7126-250-8
Opinião: ★★★★☆
Páginas: 240
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Sinopse: Neste livro, Vladimir Safatle afirma a existência de um fascismo
estrutural, que emerge com força em situações de crise. A novidade é examinar o
fascismo contemporâneo a partir de uma crítica interna, afastando-se de
argumentos de pensadores progressistas que atribuem sua emergência à irracionalidade
ou a impulsos descontrolados para mostrar como há em vigor a aplicação
consistente da lógica neoliberal da concorrência generalizada, que responde a
um cálculo racional. Assim, interessa ao autor compreender as condições de
formação das subjetividades na sociedade neoliberal. A partir de leituras de
Freud, Lacan e Adorno, Safatle afirma que a centralidade da identidade
individual neoliberal cria condições favoráveis às dinâmicas fascistas,
estabelecendo uma ligação estrutural entre liberalismo, colonialismo e fascismo
que muitas vezes preferimos ignorar: o fascismo emerge como uma forma
específica de violência que reconstrói a sociedade a partir de uma mutação dos
afetos sociais, generalizando dinâmicas de dessensibilização e indiferença.
“Este
livro foi escrito para sistematizar o esforço de mostrar que, longe de ser
alguma forma de explosão de irracionalidade e de regressão social, o fascismo é
a realização possível de uma estrutura psicológica que nasceu como se fosse a
condição subjetiva para a implementação de exigências normativas de liberdade,
mas que se inverteu necessariamente em seu contrário. Um capítulo da história
das inversões da razão em princípio de dominação social.3 Algo que
Adorno e Horkheimer haviam percebido quando insistiam, em Dialética
do esclarecimento, que o fascismo não era uma exterioridade do projeto
iluminista, como se estivéssemos vendo a reedição das lutas entre a civilização
e a barbárie. Antes, ele era uma das figuras possíveis das Luzes, um de seus
riscos imanentes, com seus ideais normativos de progresso que facilmente se
invertem em extermínio, de desenvolvimento que logo se tornam catástrofe, de,
como dizia Marx, forças produtivas que se tornam forças destrutivas.
Ou
seja, e de certa forma esta é a tese central deste livro, as crises que geram o
fascismo não resultam de degradações de nossa liberdade, de processos de
alienação, reificação, anomia e desregulamentação de nossas normas sociais.
Antes, elas são frutos diretos de nossa própria concepção de liberdade e de
suas figuras de progresso social, psíquico e moral. Nossa concepção de
liberdade, tão hegemonicamente vinculada à construção do indivíduo moderno, é
segregadora, violenta, agressiva, privilegia marcadores de gênero muito claros,
baseada em bloqueios fundamentais de alteridades, vinculada a processos
materiais cujo crescimento apenas nos levou a um sistema de crises terminais.4
Nossa concepção de autonomia é, no fundo, a continuação de uma teologia do
excepcionalismo humano e da degradação de nossas relações com o que chamamos
até hoje de “natureza”.5 Por isso, uma das tarefas
mais importantes do pensamento crítico contemporâneo é reconstruir nossa noção
de liberdade, conectando-a a outros impulsos, deixados para trás na história
material de nossas tentativas de emancipação social.
É
claro que há condições sócio-históricas para tal sistema de interversões da
liberdade, há condições para que ela se realize em momentos específicos da
história. Ninguém haveria de negar. Da mesma forma, essas condições
sócio-históricas se aproveitam de traços constituintes de certas sociedades,
como as experiências coloniais, as matrizes escravocratas, os resquícios de
experiências ditatoriais e formas historicamente constituídas de segregação
social. Não há que imaginar que uma análise libidinal pudesse se sobrepor ou
descartar análises vinculadas à economia política, à sociologia e à história.
Mas
uma reflexão que opera no campo do que um dia foi chamado de psicologia social
tinha uma função que só ela poderia preencher. A história é feita de
repetições, de encarnações e de fantasmagoria. Ela conhece incorporações que
levam ceos a falar como administradores de campos de concentração, que fazem
donos de cadeia de lanchonetes adquirirem o tom de agitadores de província.
Quem viveu em países governados pela extrema direita conhece bem esse fenômeno
de transformação social no qual o exercício do poder autoritário parece autorizar
sujeitos a agirem e falarem de forma aberta de uma maneira que dificilmente
fariam antes.
Em Moisés
e o monoteísmo, Freud afirma em certo momento que “Moisés criou o povo
judeu”. Essa colocação pode parecer fruto de uma perspectiva claramente idealista.
No entanto, ela visa insistir na força produtiva das identificações verticais,
identificações entre a autoridade e quem ela subjuga. O poder produz
subjetividades, modifica subjetividades, pois define o campo dos enunciados
possíveis, das ações permitidas, reconstruindo o horizonte do permitido e do
proibido, do autorizado e do censurado. Idealista seria, ao contrário,
acreditar que tais formas de exercício do poder não modificam sujeitos. Assim,
ao modificar o campo do enunciável, o poder permite a explicitação de traços
constitutivos de nossos processos de socialização que precisavam, até então,
ser deslocados, recalcados, transfigurados e racionalizados. Ou seja, tais
transformações ocorrem devido a fragilidades latentes no interior de nossas
formas hegemônicas de vida, fragilidades essas vindas de nossos processos de
socialização e individuação. Nesse sentido, a questão relevante consiste em
compreender por que tal virtualidade emerge em certas circunstâncias, por que
ela se atualiza em certos contextos e lugares. Sobretudo, se é o caso de termos
consciência da fragilidade imanente de nossas formas de vida, de sua degradação
processual, se é o caso de insistir que a personalidade autoritária na qual o
fascismo se assenta é uma virtualidade constituinte da individualidade moderna,
então não podemos esquecer que a única forma efetiva de combater o fascismo é
lutando por entender as contradições dos processos que fizeram nos tornarmos
quem somos.”
3 Um importante exemplo a
respeito do enraizamento heterodoxo do nazismo em nossos sistemas de valores
pode ser encontrado em Johann Chapoutot, La Loi du sang: Penser et Agir en
Nazi. Paris: Gallimard, 2014.
4 Seria o caso de lembrar da
perspectiva de Pierre Charbonnier, Vers l’Écologie de guerre: Une Histoire
environnementale de la paix. Paris: La Découverte, 2024, para quem são as
dinâmicas de paz, e não exatamente as guerras, que aceleram as crises
ambientais e suas consequências catastróficas. Pois os momentos de paz são
alimentados pela ilusão de estabilização social através do crescimento, de
pacificação através da abundância material, com sua generalização impossível e
ecologicamente impagável, como já entendia Celso Furtado (ver O mito do
desenvolvimento econômico. São Paulo: Ubu Editora, 2024).
5 Ver, a esse respeito, V.
Safatle, “Crítica
da autonomia: Liberdade como heteronomia sem servidão”. Discurso, V. 49, n. 2, 2019.
“Não
se analisam processos históricos como um botânico classifica plantas. Creio ser
melhor entender como os fenômenos se adaptama circunstâncias específicas.8
É possível encontrar casos de fascismo sem liderança autocrática. Um exemplo é
o regime de apartheid da África do Sul. É possível encontrar fascismo sem
expansionismo militar, basta pensar na Espanha de Franco. Mesmo o papel do
Estado como agente regulador da economia pode estar ausente, pois assim como é
possível existir capitalismo com maior ou menor intervenção estatal, sendo
estatismo e liberalismo apenas momentos de um mesmo processo de acumulação,9
nada obriga a que o fascismo seja necessariamente estatista.10
Mas,
se assim for, o que nos permite descrever tais regimes como fascistas? Como
gostaria de defender aqui, todos eles se estruturam a partir da mobilização
estatal de certa forma específica de violência e dessensibilização, cuja
análise eu gostaria de aprofundar. Nesse sentido, insistiria que o receio atual
em usar o termo “fascismo” é apenas expressão do medo de reconhecer que talvez
não seja mais possível preservar o que um dia entendemos por “democracias
liberais”, pois elas se demonstraram, mais uma vez, impotentes para eliminar de
seu interior a violência fascista e suas formas de segregação. Na verdade, e
espero ter chegado a hora de dar esse passo analítico, elas foram impotentes
simplesmente porque nunca existiu algo como “democracias liberais”. O que
tínhamos era algo que poderia ser chamado de fascismos restritos. As
ditas democracias liberais que conhecemos eram regimes democráticos para certos
setores da população e certas zonas geográficas e regimes fascistas para outros
setores e outras zonas. Democracias liberais como França e Reino Unido eram, ao
mesmo tempo, até final dos anos 1960, potências coloniais responsáveis por
políticas cotidianas de extermínio, tortura, segregação, desaparecimento e medo
social em várias partes do globo. Ou seja, eram estados duais organizados em
zonas. Não é possível analisar, por exemplo, o que era a democracia britânica
sem lembrar que a Inglaterra era o Reino Unido e seu império e, quando esse
império ruir, a relação do Estado com as populações de imigrantes tenderá, cada
vez mais, a absorver as características das antigas relações coloniais.11
Da mesma forma, seria o caso de se perguntar que tipo de Estado eram os Estados
Unidos para as populações negras: uma democracia ou um estado segregacionista,
racista, com práticas claramente fascistas, independente do que dizia
formalmente a lei?
Países
como o Brasil são exemplos claros desses fascismos restritos que, ao mesmo
tempo, funcionam como democracias geograficamente situadas, quer dizer,
Estados onde a proteção da integridade pessoal e da cidadania funciona em
certas zonas e localidades, mas desaparece quando atravessamos certos limites
geográficos, quando entramos em territórios onde o extermínio e a violência
policial são expressões cotidianas do poder, onde é possível trucidar 120
pessoas e ainda ser aplaudido pela classe média assustada. Creio ser importante
entendermos que as chamadas democracias são apenas Estados que construíram
zonas geograficamente limitadas de democracia em seu território. Por isso, o
termo mais adequado para tais regimes políticos seria “fascismo restrito”. Ou
seja, acredito que as discussões hegemônicas sobre democracia liberal, sobre
como se perdem democracias, estão completamente equivocadas. Não é possível
perder o que nunca se teve (ou melhor, é possível, no entanto, isso é um caso
psicanalítico de fixação melancólica, e não creio que tais teóricos tenham isso
em mente).
Isso
pode nos explicar o aparente paradoxo de países democráticos que veem dinâmicas
fascistas generalizarem-se de seu interior. O que efetivamente ocorre, em
situações de acirramento de crises, é a passagem de um regime de fascismo
restrito a outro de fascismo generalizado. Práticas que estavam restritas a
zonas específicas e que eram feitas a partir de normatividades implícitas, de
leis não escritas mas sempre respeitadas, generalizam-se em situações de crise
e passam a ser explicitamente assumidas. É essa passagem de um fascismo
restrito a um fascismo generalizado que devemos entender, em vez de acreditar
em pretensas desagregações das democracias, em ataque à democracia por forças
populistas e regressivas, ou qualquer outra fantasia dessa ordem.
Para
compreender tais passagens, devemos partir dos processos concretos de extensão
da precariedade e da vulnerabilidade social. Afinal, devemos entender o
fascismo como a versão monstruosa de uma desilusão social e econômica reconhecida
por toda perspectiva genuína de esquerda. Mais do que psicologizar o fascismo,
inflacionar suas análises com descrições psicológicas e personalistas, mais do
que patologizar tendências políticas opostas às nossas, é necessário começar
por reconhecer a realidade material da desilusão que leva setores expressivos
da população a sustentar perspectivas fascistas. Não se trata aqui de imaginar
que as respostas ao fascismo sejam psicológicas, que elas passem por alguma
forma de reeducação, de tratamento, de profilaxia, de “letramento”. As
respostas passam por reconhecer nossa incapacidade em dar, até agora, soluções
adequadas a sofrimentos e inseguranças reais ligados à extensão brutal da
precariedade e da vulnerabilidade nas sociedades capitalistas. Depois dessa
ascensão fascista só haverá duas opções: aceitá-la como nosso destino ou
reconstruir a força revolucionária de transformação e emancipação social.
Para
nós de esquerda é muito mais cômodo mobilizar nossos estudos sobre
masculinismo, sexismo, racismo a fim de fornecer figuras moralmente repulsivas
de setores fascistizados na população, em vez de entender como nossa
incapacidade de realizar transformações sociais de fato baseadas na defesa da
igualdade radical e da soberania popular são parte importante do problema. O
que não significa que esses fenômenos sejam irreais. Ao contrário, o
antifeminismo, por exemplo, é uma estrutura central do fascismo desde a
emergência do fascismo histórico nos anos 1930 e suas lutas contra o
igualitarismo do “bolchevismo sexual”.12 Ele é uma
peça fundamental para a remobilização do aprofundamento da espoliação econômica
e do deslocamento de conflitos sociais, das classes mais favorecidas aos grupos
mais vulneráveis. Por isso, essas discussões estão muitas vezes vinculadas aos
processos materiais de degradação da reprodução social e, principalmente, de
nossa incapacidade em dar respostas concretas a eles. Elas nos lembram que, em
vez de patologizar posições políticas, vale mais tentar entender a impotência
real da esquerda e sua dificuldade em não ser apenas o nome de uma forma de
traição que consiste em nunca realizar, no governo, as promessas que havíamos
defendido nas ruas. Mudar essa tendência analítica seria uma posição mais
honesta e nos permitiria, em vez de ver o fascismo como “irracionalidade”,
vê-lo como uma resposta realista a problemas concretos. O problema é que ser
“realista” atualmente significa adaptar-se a uma realidade irreal e destrutiva,
uma realidade em cuja base se encontra a aceleração da brutalização social, da
destruição ambiental, da máxima espoliação, da superexploração do trabalho dos
que não conseguem estar em algum grupo preservado. Hoje em dia, não há nada
mais irrealista do que ser realista, do que acreditar que essa realidade pode
sustentar-se por muito tempo.”
8 Podemos encontrar proposição
similar em Armando Boito Jr., “Por que caracterizar o bolsonarismo como
fascismo?”. Revista Crítica Marxista, n. 50, 2020.
9 Como bem lembrou Robert Kurz, O
colapso da modernização, trad. Karen Barbosa. São Paulo: Paz e Terra, 1992.
Por outro lado, é a existência da temática do Estado Forte que leva Marilena
Chaui a distinguir o fascismo e o totalitarismo neoliberal (ver M. Chaui,
“Fascismo à brasileira e totalitarismo neoliberal”. Revista do Nesef, V.
11, n. 2, 2022). No entanto, o papel de instância suprapolítica, pairando acima
dos conflitos sociais, que o fascismo delega ao poder soberano, continua nessa
nova versão neoliberal, apenas sendo preenchido pelo mercado. O mesmo mercado
cuja livre-iniciativa será um pilar para o acordo entre o partido fascista e a
grande indústria. No lugar do Estado Forte, o Mercado Forte.
10 Há de se lembrar que, diante
de crise de 1929, a República de Weimar se viu obrigada a estatizar várias
empresas em processo de falência a fim de tentar salvar a economia. Os nazistas
farão uma larga política de privatização dessas empresas, nos setores de
mineração, bancos, estradas de ferro, indústria naval, entre outros. Algumas
empresas privatizadas pelos nazistas: Deutsche Reichbahn, Vereinigte Stahlwerke
AG, Commerz Bank, entre outras (ver Germà Bel, “Against the Mainstream: Nazi
Privatization in 1930s Germany”. The Economic History Review, V. 63, n.
1, fev. 2010).
11 Carl Schmitt nos lembra como a
demarcação de um espaço de ação liberado de refreamentos jurídicos, espaço do
uso da violência que permanecia subtraído ao direito, está na base da expansão
colonial britânica: “O direito inglês distinguia de forma clara o âmbito do
solo inglês, como âmbito da validade da Common Law, e outros âmbitos
espaciais. Encarava a Common Law como Law of the Land, como lex
terrae” (C. Schmitt, O nomos da Terra no direito das gentes do jus
publicum europaeum, trad. Alexandre de Sá et al. Rio de Janeiro:
Contraponto, 2014, p. 100). Nesses outros “âmbitos espaciais”, agir como um
fascista estava autorizado.
12 Sobre a relação entre
fascistização da reprodução social e antifeminismo, ver sobretudo Luci
Cavallero e Verónica Gago, Contra el autoritarismo de la libertad financiera.
Buenos Aires: Tinta Limón, 2025.
“Lembremos
ainda como pensar laços sociais a partir do problema da afecção e da desafecção,
da sensibilização e da dessensibilização é uma forma de compreender, de maneira
materialista, a estruturação de processos de reconhecimento social e sua
centralidade. Níveis fundamentais da vida comum podem ser bloqueados devido ao
que chamamos de “invisibilidade social”. Se o reconhecimento é o dispositivo
central de existência social, é porque reconhecer não é simplesmente uma
recognição. Não se trata simplesmente de constatar a existência prévia de algo
ou alguém. Trata-se de permitir ser afetado pelo que até então era não contado,
produzindo não apenas uma modificação no estatuto de existência do que
reconheço, mas também na estrutura de quem reconhece. Reconhecer alguém é me
deixar ser afetado por ele, é abrir-se a uma metamorfose no meu horizonte de
experiências e de identidades, estabelecendo relações de implicação e
dependência. Por isso, não sentir, não ser afetado, dessensibilizar-se é a
operação política central quando é questão de restringir o corpo social do qual
fazemos parte, aprofundar o processo de espoliação e extermínio de grupos. A
dessensibilização é a forma mais bem-acabada do bloqueio de reconhecimento. É
essa implosão de um corpo social genérico que devemos ter em vista ao pensarmos
as dinâmicas do novo fascismo global e seu novo circuito de afetos.”
“Sabemos
como Guattari também trabalha não com uma categoria puramente histórica de
fascismo, mas com uma categoria estrutural. Ele se refere a esse fascismo
imanente ao funcionamento normal das sociedades liberais através da insistência
na emergência de “um fascismo normal, um fascismo cotidiano, que está em vias
de se instalar, de adquirir seus direitos, de adquirir uma autoridade, uma
legitimidade”.24 Esse fascismo ordinário
ligado aos investimentos libidinais em estruturas da ordem, na transformação da
sanha punitivista em rituais de expiação de sadismo social (isso tanto para os
que se identificam à direita como à esquerda), no racismo cotidiano mostrava
como dinâmicas próprias a personalidades autoritárias, com suas lógicas de
segregação e agressividade, tendiam a se colocar de maneira cada vez mais
aberta e generalizada.
No
entanto, para além desse fascismo ordinário, eu gostaria de procurar
sistematizar outro fenômeno: a possibilidade de emergência não de um fascismo
ordinário, normalizado nos regimes ordinários de reprodução social, mas de um
fascismo insurrecional. Isso significa um fascismo capaz de, à sua maneira,
recuperar elementos constituintes da experiência do fascismo histórico até uma
intensidade desconhecida. Insisto nisso por crer que entramos em uma era
diferente, a do fascismo como força insurrecional. Não por acaso, se a tópica
da “revolução” desertou dos setores hegemônicos da esquerda, não devemos
esquecer que ela é elemento constituinte da autocompreensão da extrema direita
contemporânea. Muitos de seus apoiadores se veem dentro de um processo
revolucionário, com o entusiasmo e a dedicação próprios a esses momentos. Sendo
assim, nomear o problema de forma correta, por mais terrível que seja, sempre
foi e continua sendo a única maneira de efetivamente lutar contra ele. E chegou
o momento de parar de esconder de nós mesmos a extensão de nossos problemas.”
24 Félix Guattari, A revolução
molecular, p. 286 (trad. Larissa Drigo Agostinho. São Paulo: Ubu
Editora, 2024).
“De
minha parte, gostaria de defender que o termo “fascismo” nunca esteve ausente
de várias reflexões sobre a natureza de nossas sociedades porque elas o
aceitavam como um fenômeno estrutural das sociedades capitalistas, e não como
um acontecimento histórico localizado. Se assim for, devemos ser capazes de
definir qual elemento estrutural o define. Nesse sentido, sugiro pensá-lo como
uma forma específica de violência. É o regime de violência social que define
estruturalmente o fascismo. Ele é uma forma de violência de Estado que não diz
respeito apenas àquela mobilizada contra grupos descontentes e setores em
sedição social. Ele é uma violência que visa reconstruir os laços sociais a
partir da generalização da dessensibilização e da indiferença como afeto social
central. Ou seja, a violência tem aqui uma função transformadora. Ela produz
outra sociedade. Não estamos diante apenas de uma forma de governo, de Estado,
mas de uma forma de sociedade, de uma transmutação estrutural do vínculo social
na qual a sociedade assume-se como a forma estável de uma guerra civil
permanente.4 Uma guerra civil que é a realização
de uma verdade social maior, a saber, a de que não há nem haverá sociedade para
todos. A guerra civil é assim assumida e, em um nível mais estruturador,
desejada, não como uma guerra de classes que visaria à emancipação universal,
mas como a forma última global do laço social.”
4 Sobre o tópico da guerra civil
como situação social “normal”, ver sobretudo Peter Pál Pelbart, “Da guerra
civil”. Arquivos Brasileiros de Psicologia, V. 70, 2018.
“Para
entender melhor esse ponto, lembremos a definição dos sujeitos na era
neoliberal como “empreendedores de si mesmos”.22
Perguntemo-nos então sobre o que deve acontecer à sociedade para que sujeitos
possam se autoperceber dessa forma. Seria o resultado de uma “escolha
individual”, de uma decisão de se verem preferencialmente como empreendedores
de suas próprias habilidades, de seu “capital humano”? Ou se trata do fruto de
uma violência social brutal produzida a ferro e fogo, um pouco como a descrição
dada por Marx para a transformação de trabalhadores vinculados afetivamente à
terra em indivíduos vagando pelas estradas da Inglaterra sem nada a não ser sua
“força de trabalho” abstrata e quantificável, à venda pelo preço mais
aviltante? “Empreendedorismo” não é uma forma de liberdade, mas de violência,
de redução de toda relação social e relação a si à figura da concorrência e da
competição. Redução de todo outro à condição de um concorrente a ser eliminado.
Mesmo as relações cooperativas que restaram aparecem não como expressão de
algum mutualismo imanente à vida social, mas como relações instrumentais,
mutualismos meramente estratégicos tendo em vista a otimização dos interesses
individuais.23 Algo assim nunca poderia ser resultado de uma livre
escolha, e sim fruto da necessidade de lutar contra a morte social. Pois essa
decomposição das estruturas de proteção social vendida como fortalecimento das
decisões individuais acabará por produzir o endividamento crônico das famílias
e sua vulnerabilidade social contínua.24 O endividamento se torna
assim o modelo fundamental de gestão das populações.
Nesse
contexto, nada mais necessário do que a dessensibilização e a desafecção para
“vencer na vida”. Pois estamos em uma sociedade organizada como guerra civil. O
empreendedorismo é uma continuação da guerra civil por outros meios. Ele é a
realização econômica da concepção hobbesiana da sociedade como uma “guerra de
todos contra todos”. No entanto, não se trata apenas de uma mutação molecular
que contribui para o advento de uma subjetividade bélica como modelo geral de
socialização. Faz-se necessária também a extensão da lógica da guerra ao
controle social, um processo que se inicia com a batalha dos governos
neoliberais contra as lutas operárias. É na longa luta do governo Thatcher
contra os mineiros (1984–85), a certidão de nascimento do neoliberalismo
inglês, que veremos a generalização de técnicas até então não usadas contra
populações civis, como prisões preventivas, escutas telefônicas, bombas de gás
lacrimogêneo, balas de borracha, canhões de água. O resultado será digno de uma
guerra civil: 11 313 pessoas presas, 7 mil feridos, 11 mortos. Nos Estados
Unidos, a certidão de nascimento do neoliberalismo será outro confronto com
lutas operárias: a greve dos controladores aéreos, de 1981. Na ocasião, a
recusa do governo Reagan em negociar levou à demissão de três quartos dos
controladores, ou seja, 12 mil pessoas. “O objetivo de Reagan era sinalizar
para a opinião pública que o governo não estava diante de um conflito
trabalhista trivial, mas de um levante ilegal contra o próprio Estado.”25
Nesse dito levante ilegal, companhias áreas aceitaram suportar um prejuízo
calculado em 10 bilhões de dólares, como se sustentassem uma luta de vida e
morte contra um inimigo que deveria ser reduzido à incapacidade completa de
reação. Não por acaso, o Brasil verá a mesma dinâmica em 1995, com a greve dos
petroleiros e a reação brutal do governo Fernando Henrique, que chegou à
ocupação de refinarias pelo exército (Paulínia, Mauá, São José dos Campos,
Paraná). Uma imposição da lógica militar contra um “inimigo da pátria”. Em
todos os casos mencionados, a regra foi a quebra de qualquer poder operário
através de níveis até então inéditos de mobilização do aparato armado do Estado
e de chantagem econômica.”
22 O tema aparece pela primeira
vez em Michel Foucault, Nascimento da biopolítica, trad. Eduardo
Brandão. São Paulo: Martins Fontes, 2022.
23 No que só podemos concordar
com Verónica Gago e Luci Cavallero quando afirmam que: “A novidade dessa
liberdade financeira é que ela reforça um aspecto moralizador que não podemos
subestimar: ela exerce uma penalização contra certas formas de vida onde o
comunitário se catalogará como improdutivo e todo o ‘coletivista’ será lido
como desvalor. Isso busca encerrar a noção de liberdade nos limites do
indivíduo” (L. Cavallero e V. Gago, Contra el autoritarismo de la libertad
financiera. Buenos Aires: Tinta Limón, 2025, p. 19).
24 Ver Maurizio Lazzarato, Il
governo dell’uomo indebitato: Saggio sulla condizione neoliberista.
Bologna: DeriveApprodi, 2013.
25 Ruy Braga, A angústia do
precariado. São Paulo: Boitempo, 2023, p. 77.
“Os
processos revolucionários no século XX e as lutas anticoloniais selaram a
emergência de outra forma de guerra, que não consiste no combate aberto entre
exércitos. A guerra revolucionária exige outra forma de combate, no interior do
qual táticas políticas, econômicas, psicológicas e militares se articulam em
uma dinâmica de larga duração visando à conquista militar e à transformação
ideológica da sociedade. Contra ela, aparecerá a guerra contrainsurrecional,
desenvolvida de forma paradigmática nas guerras coloniais francesas.27
Como nos lembra Harcourt, ao aplicar a mesma lógica às populações sob os
choques neoliberais, veremos uma forma de gestão social baseada no tripé: a)
obter informação total através da vigilância contínua e do acesso imediato a
toda comunicação (o que o controle de algoritmos facilitou de uma forma nunca
vista); b) erradicar toda minoria ativa com potencial de sedição, que deve ser
assim isolada, contida, quebrada em sua capacidade de organização; c) ganhar a
adesão da população geral através da domesticação psíquica, do jogo de
participar de sua própria servidão. Esse tripé será extensivamente empregado
pela lógica neoliberal dentro da luta preventiva contra basicamente os mesmos
inimigos das guerras coloniais, ou seja, forças de sedição social, dinâmicas
populares insurgentes, comunismo potencial.
Essa
domesticação psíquica é feita sempre pela conjugação do jogo afetivo entre medo
e esperança, como podemos encontrar desde Spinoza. Nenhum poder se sustenta
apenas no medo, e as dinâmicas fascistas inerentes ao neoliberalismo não são
exceção. São necessários também esperança e gozo, o que se alcança com a
mobilização do horizonte revolucionário de transformação estrutural, de
ruptura, de velocidade irrefreável de mudanças, de destruição da ordem dos
consensos atuais. Hoje não há governo algum de extrema direita que deixe de
mobilizar tais horizontes. Como uma revolução socialista invertida, eles se
servem do Estado para destruir as regulações produzidas pelo próprio Estado.
Governos como o de Milei chegaram a prometer a destruição do Banco Central, Bolsonaro
colocou em marcha um processo sistemático de destruição de toda e qualquer
política pública de assistência social. Como se fosse o caso de fazer as
decisões econômicas retornarem à “sociedade”, mesmo que essa sociedade seja
simplesmente o espaço de naturalização do mais forte, de gestão produzida pelos
atuais detentores dos meios de produção.”
27 Ver, a esse respeito, Leneide
Duarte-Plon, A tortura como arma de guerra: Da Argélia ao Brasil. Rio de
Janeiro: Civilização Brasileira, 2016.
“Nesse
sentido, nada mais preciso do que a compreensão marcuseana de que “O fascismo
não vai salvar o capitalismo: ele próprio é a organização, de forma terrorista,
das contradições do capitalismo. Mas uma vez o fascismo instalado ele deve
destruir todo e qualquer potencial revolucionário por um tempo indefinido”.34”
34. Vladimir Safatle, Dar
corpo ao impossível: O sentido da dialética após Adorno. Belo Horizonte: Autêntica, 2019, p. 29.

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