segunda-feira, 11 de maio de 2026

A ameaça interna: psicanálise dos novos fascismos globais (Parte II), de Vladimir Safatle

Editora: Ubu

ISBN: 978-85-7126-250-8

Opinião: ★★★★☆

Páginas: 240

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Aqui, podemos retomar nosso problema inicial e esclarecer como o paradigma da guerra infinita opera oferecendo uma resposta ao sistema de crises conexas que marca nossa época. Em suas várias inflexões, podemos dizer que ela se assenta em certa forma de realismo que consiste em dizer que não há como modificar as bases de reprodução material da sociedade. Por isso, as crises conexas nas quais nos encontramos não impulsionarão uma superação ou mesmo uma transformação estrutural do capitalismo. O realismo fascista é aquele que afirma não haver dia seguinte a tais crises. Ou seja, não haverá um dia que olharemos para trás e diremos: “Enfim, a crise ecológica passou” ou “Enfim, a crise econômica passou”. Do ponto de vista interno ao capitalismo, diante de crises dessa natureza, ele não se reforma, a não ser que forças ligadas ao sistema de lutas operárias o obriguem a tanto, e elas não estão na ordem do dia. Na verdade, em situações como essa, o capitalismo acelera. Ele aprofunda suas ilusões de extração infinita de valor da terra e do trabalho, independentemente dos custos de tal ilusão. Como dizia Marx, nessas ocasiões, as forças produtivas se mostram claramente como forças destrutivas.

Como se tivesse uma consciência precisa do que é possível esperar no interior do capitalismo, a extrema direita acaba por fornecer um diagnóstico “realista”. Ele consiste em dizer, nas entrelinhas: não há como continuar gerindo as crises do sistema capitalista a partir do próprio sistema. No entanto, como não há alternativa possível, o que resta é salvar uma parte da sociedade e deixar o resto perecer, expulsar o resto de nossas fronteiras, deportá-los em massa, deixá-los na mais absoluta miséria, submetê-los à máxima espoliação através do aumento exponencial da violência policial, da precariedade de suas vidas, da guerra de raças. Ou seja, a lógica é a da explicitação da guerra civil que teve na guerra fascista sua realização mais bem-acabada.

A possibilidade de fazer parte dessa parcela da sociedade a ser salva é o que mobiliza o setor da população que hoje adere à extrema direita. Seja através da preferência nacional, seja através do discurso do empreendedorismo com o seu “quem trabalhar duro irá se salvar” ou da “liberdade” para sobreviver e burlar as regras que pretensamente nos impediriam de crescer, seja, em outros casos, através do discurso religioso dos escolhidos, o que sempre está em questão é a partilha entre quem será salvo e quem será sacrificado. Nesse processo, são os pontos mais frágeis da coesão social que se tornam os alvos. Alliez e Lazzarato perceberam muito bem como o processo de acumulação primitiva e suas intensificações periódicas não poderiam ser pensados apenas a partir do eixo da relação capital / trabalho, mas mobilizando uma multiplicidade de guerras (contra mulheres, de raça, de subjetividades, de civilização, de sexualidades, contra a natureza).52 Verónica Gago e Luci Cavallero lembram, por exemplo, o lugar central de certo “antifeminismo de Estado” na fascistização neoliberal da reprodução material. Trata-se de compreender a acumulação primitiva como mobilizadora tanto do trabalho pago quanto do trabalho gratuito (como o trabalho doméstico e o trabalho escravo, que nunca desapareceu do horizonte concreto do capitalismo), tanto do trabalho quanto dos pontos de alteridade que são convites à segregação e à espoliação. O espaço doméstico deve virar espaço de financeirização, de aprendizado da hierarquia e de aceitação da sujeição. Não é estranho então perceber como são nessas zonas de tensionamento que tendencialmente se exprime a partilha entre os que serão protegidos e os que serão predados.

Nesse sentido, o realismo da extrema direita atual é a constatação de que a sociedade se tornou muito pequena, de que “não há sociedade para todos”. De fato, não há e essa é a verdade que sustenta a política de ressurgência do fascismo. Mas, em vez dessa proposição provocar o desejo de outra sociedade mobilizando a luta por transformações estruturais, ela produz a adaptação cínica ao existente.”

52 Éric Alliez e Maurizio Lazzarato, Guerras e capital, trad. Pedro Paulo Pimenta. São Paulo: Ubu Editora, 2021, p. 83.

 

 

“A opção pela violência contra o “próximo da fila” não vem de uma incompreensão do sistema de causas e efeitos da espoliação econômica, como se estivéssemos diante de pessoas estúpidas, com limitações cognitivas evidentes.23 Ela vem de um cálculo racional de meios de fins sobre o que pode garantir mais facilmente nossa sobrevivência, mesmo que esse cálculo seja catastrófico.24

Esse é apenas um exemplo de como a crítica da ideologia não deve se ver como um setor das denúncias das ilusões da falsa consciência. Nesse caso, o modelo da ideologia aparece como o de uma limitação cognitiva da consciência. Na verdade, a ideologia age quando nos tornamos realistas por completo, ou seja, absolutamente colados à realidade atual, como se qualquer movimento para fora dessa realidade fosse “pura ideologia”, fosse dramaticamente impossível. Quando nos colamos a uma realidade que só pode se perpetuar pelo sofrimento social cada vez maior, todo cálculo racional se torna uma naturalização da violência e da irracionalidade. Nesse sentido, a crítica da ideologia precisa inverter seus sinais e partir dos modos de adesão à literalidade, das formas de aceitação das exigências em agir de forma realista no interior de um cenário totalmente irrealista. Ou seja, a crítica da ideologia deve, paradoxalmente, tornar-se uma “crítica do realismo”, porque, em uma situação como a atual, o realismo é apenas a racionalidade do pior.

De toda forma, tais considerações nos mostram como o ressentimento consegue explicar ações derivadas de circuitos de violência e de falta de solidariedade social. Ou seja, estamos no nível dos efeitos, das reações catastróficas a um horizonte de desagregação da ação política, mas não estamos falando de causas do comportamento político. Por isso, não faz sentido agir politicamente sobre o ressentimento, no entanto é possível agir sobre suas causas e escutar o diagnóstico social que o ressentimento explicita.

Deixe-me dar um exemplo para explicar o que tenho em mente. Em A angústia do precariado,25 o sociólogo Ruy Braga apresenta o resultado de uma pesquisa feita com trabalhadores brancos de comunidades rurais na Pensilvânia que se converteram ao trumpismo. O que se depreende desse trabalho é uma imagem dos trabalhadores muito distinta das que circulam atualmente: precarizados e empobrecidos, percebem que as promessas progressistas não resultam em transformações efetivas que lhes garantam qualidade mínima de vida.

Exemplar é a história que Braga relata dos trabalhadores de uma indústria papeleira fechada na Pensilvânia por ser muito poluente e que, ao ser reaberta sob o comando de uma administração alinhada com as exigências ecológicas, viu a qualidade e a quantidade dos empregos decair. Quando o Partido Democrata aparece na região acenando com “empregos verdes”, os trabalhadores preferem as promessas de defesa de empregos da America first de Trump, porque entendem que os “empregos verdes” foram apenas uma maneira de jogar nas costas deles os custos da transição ecológica e suas precarizações. A experiência que tiveram nesse sentido lhes fez avaliar que a opção trumpista lhes dava mais segurança. Ou seja, trata-se de uma escolha racional que não pede mobilização de nenhuma hipótese psicológica como o ressentimento para ser compreendida. Sua racionalidade pode ser sobrevivencialista e distópica, mas nem por isso é menos racional. O que simplesmente mostra como ações racionais estão longe de nos assegurar boas escolhas por si sós.

Seria o caso de terminar este ponto insistindo como o ressentimento não é patológico e se tornou racional em um cenário de impotência das políticas progressistas em efetivamente garantir melhores condições estáveis em um horizonte terminal de decomposição generalizada. A única forma de efetivamente combatê-lo é modificando o horizonte de expectativas e de ações sociais tendo em vista a retomada de processos de transformação revolucionária, mas isso está cada vez mais fora da pauta e temo que o uso atualmente extensivo das temáticas da regressão e do ressentimento é apenas uma maneira adotada por acadêmicos para compensar sua descrença e disposição de engajamento em qualquer processo emancipatório de características revolucionárias.”

23 Como vemos em colocações completamente equivocadas, como “o fascismo continua operando no seio das sociedades democráticas porque quem se vê prejudicado pela lógica da concentração econômica não pode juntar os pontos de sua cadeia causal” (E. Illouz, op. cit., p. 15). Colocações como essa são politicamente catastróficas e ignoram que quem se vê prejudicado pela lógica da concentração econômica pode muito bem conseguir juntar os pontos, mas não encontra ninguém no final da linha que seja efetivamente capaz de mudar a situação e fazer algo com os pontos juntados. Por isso, tal sujeito entende como mais racional agir seguindo a lógica do ressentimento e do cinismo.

24 Por isso, é difícil concordar com Rahel Jaeggi, para quem o ressentimento deve ser compreendido a partir de uma lógica da regressão social, isso no sentido de reações defensivas que não confrontam os problemas postos, mas procuram criar a ilusão de ser possível preservar uma situação já completamente arruinada. Ou seja, denegações que procuram evitar o teste de realidade que obrigaria o ressentido a confrontar efetivamente as causas de sua angústia (R. Jaeggi, “Modes of Regression: The Case of Ressentiment”. Critical Times, V. 5, n. 3, dez. 2022). Assim, por exemplo, a autora lembra como a abolição do politicamente correto ou a expulsão de imigrantes não irá trazer os empregos de volta aos trabalhadores empobrecidos porque efetivamente nada poderá trazê-los de volta. No entanto, se esse for o caso, insisto que é absolutamente racional voltar sua violência contra o próximo da fila ou o trabalhador ao lado que pode ser expulso da vida social por já ser objeto de preconceitos arraigados. É catastrófico, porém racional, ao menos no sentido de cálculo entre meios e fins. Se nada irá trazer nossos empregos de volta, então melhor preparar-se para uma guerra civil permanente. Ou seja, a retração dos horizontes de transformação social irá sempre produzir, necessariamente, ressentimento como uma reação desesperada e final. Longe de ser uma regressão, a reação é uma escolha racional em um horizonte socioeconômico totalmente irracional. É uma decisão racional de se adaptar a uma sociedade irracional.

25 Ruy Braga, A angústia do precariado. São Paulo: Boitempo, 2023, p. 78.

 

 

“Gostaria de defender que essa extensão da racionalidade econômica produziu dois fenômenos fundamentais: a restrição das gramáticas do Eu a uma única gramática totalizante decalcada da economia e a ampliação das demandas de decisão e responsabilidade individuais em um momento em que o Eu não encontra mais apoio social algum, em que as relações elementares de solidariedade entraram em decomposição. Esses dois fenômenos acabam por impulsionar a crise psíquica que tentei descrever.”

 

 

“Daí uma afirmação central para entendermos o que realmente estava em jogo na emergência do conceito de pulsão de morte:

Há dentro de nós, paralelamente ao desejo de perseverar, um desejo de transformação, sendo que este último significa que um conteúdo representacional é diluído em um material semelhante a ele, proveniente de tempos passados e que, portanto, deve se transformar à custa do indivíduo em um desejo típico, ou seja, um desejo da espécie, o que é projetado para fora pelo indivíduo como obra de arte […]. Porém, por outro lado, o que significa essa diluição para a partícula do Eu senão a morte?28

Lembrar desse contexto originário é, a meu ver, uma maneira de sermos mais críticos em relação ao uso do conceito de pulsão de morte para dar conta da especificidade do regime de violência no fascismo. O uso político do conceito esconde uma tentativa, muitas vezes inconsciente, de impor julgamentos morais a problemas políticos. Afinal, estaríamos em uma luta de defesa das “forças da vida” contra as “tendências da morte”, da construção democrática frágil e desencantada contra a pura destruição de si e do outro. Nesse contexto, é difícil imaginar que vamos ter algo mais do que uma luta com ares teológicos, com todos os problemas que isso implica. Mais interessante seria lembrar como a pulsão de morte nos mostra que a destruição é desejada por ser um dispositivo fundamental de devir e que de nada serve uma crítica política que se coloca contra tendências políticas específicas por estas serem “destrutivas”. Até porque toda verdadeira política emancipatória é, em algum sentido, “destrutiva”.

Parece que entramos em uma contradição, visto que este capítulo havia começado por insistir na necessidade de especificarmos a violência fascista a partir de seu desejo de autodestruição. Aparentemente, temos agora uma proposição contrária, já que o desejo de autodestruição não é especificidade de uma experiência política, mas é geral à necessidade de transformação estrutural. Na verdade, criei esse movimento textual para insistir que, mesmo admitindo que há destinos da pulsionalidade que podem se realizar como destrutividade bruta e direta, seria necessário não se contentar com o fantasma da pura aniquilação e se perguntar o que há de positivo nessa procura fascista de autodestruição do povo. Essa verdadeira teologia da defesa da vida travestida de luta política que normalmente aparece quando o termo “pulsão de morte” é convocado nos impede de colocar a verdadeira questão analítica: o que o Estado fascista procura preservar através do suicídio? Quais são os horizontes normativos positivos de seu desejo de catástrofe? E, para tanto, os usos políticos da pulsão de morte não nos servirão de nada. De fato, precisamos nos voltar ao polo contrário, ao sistema de ideais do Eu, aos elementos fundamentais dos mecanismos de autopreservação do Eu. Afinal, por mais paradoxal que possa parecer, a violência fascista nasce das formas de preservação do Eu, não das dinâmicas libidinais de sua decomposição. Não é excesso de destrutividade que caracteriza a violência fascista, mas, paradoxalmente, excesso de preservação. É uma questão de como os sonhos de autopreservação produzem monstros. Ou seja, o alvo da crítica está simplesmente de cabeça para baixo.”

 

 

“As máscaras da virilidade são máscaras que caem a todo momento, e os que as usam sabem bem como elas estão continuamente a cair.

Essa é uma maneira psicanalítica de descrever a contradição estruturante da posição masculina: ser ao mesmo tempo o centro de poder e a expressão da impossibilidade de que ele seja exercido sem a consciência angustiante de sua carência, impostura e fraqueza. Há situações nas quais tal contradição faz do falo um semblante que nos lembra como ninguém pode falar do poder identificando-se completamente com seu lugar. Em outras, sujeitos buscam criar condições sociais para a emergência de outro gozo.19 Mas há também situações nas quais essa contradição é negada através da identificação com a representação fantasmática de um lugar soberano de exceção, de estar acima da lei ou de ser a própria figura da lei. Porque é típico das fantasias masculinas a imagem de uma exceção para quem as máscaras da virilidade não caem a todo momento. Quando a preservação defensiva de tal fantasia ocorre, não é difícil encontrar subjetividades que irão celebrar a execução e o extermínio, tenderão a se organizar como milícias, confundirão liberdade com autoarmamento, produzirão identificações com a virilidade vazia dos fracos armados com todos os traços produzidos por lógicas de identificação com o agressor.

Apoiada pela crise psíquica produzida pela ordem neoliberal e seu aumento exponencial de sofrimento, a militarização da subjetividade nos explica como a brutalização social e a violência fascista não precisam ser compreendidas como regressões, como ressentimento ou um tipo específico de personalidade autoritária. Elas são expressões de um colapso psíquico produzido pela ordem socioeconômica que fragiliza sujeitos ao mesmo tempo que exige deles o fortalecimento de seus foros de decisão e deliberação. Nesse contexto, um traço estruturante da formação normal da personalidade se torna o eixo de impulsionamento da explicitação e intensificação da violência social.

Nesse sentido, o fascismo funciona como uma espécie de terapia de grupo. Ele permite uma resposta de grupo à crise psíquica que marca nossa época, produzindo uma singular adaptação a suas condições. Como a possibilidade de construção de um corpo social marcado pela igualdade e solidariedade está fora do horizonte político real, o realismo fascista fornece outro corpo social, um corpo paranoico, reduzido, mas bélico, militar. Forma do corpo individual, como também forma do corpo social. Forma essa que permite aos sujeitos adaptarem a reconstrução de determinado padrão de laço social em um horizonte terminal onde a lógica da guerra infinita se impõe.”

19 Desenvolvi essa questão no capítulo 3 de V. Safatle, Maneiras de transformar mundos: Lacan, política, emancipação. Belo Horizonte: Autêntica, 2019.

 

 

““Toda vez que ouço a palavra ‘cultura’, saco meu revólver.” Todos conhecem essa frase erroneamente atribuída a Joseph Goebbels. Ela parece sintetizar uma pretensa rejeição da cultura pelo fascismo, uma pretensa preferência pelo obscurantismo e pelas relações de força. No entanto, seria o caso de lembrar que, na verdade, essa frase aparece, de uma forma um pouco diferente (“Quando ouço cultura, eu destravo minha Browning”), em uma peça de teatro do dramaturgo Hanns Johst intitulada Schlageter. Encenada em 1933, ela contava a história de Albert Leo Schlageter, militante nazista condenado à morte pelo exército francês por sabotagem e transformado, em uma operação de mistificação política, no “primeiro soldado do Terceiro Reich”. Ou seja, a crítica da cultura era, na verdade, a citação de uma obra da cultura, de uma peça de teatro cujo autor posteriormente será reconhecido pelo Reich, ocupando cargos importantes da administração das artes.

Lembro esse fato porque estamos acostumados a falar do fascismo e de suas variantes contemporâneas que agora nos assombram como força política animada pela desconsideração pelas artes. No entanto, a extrema importância dada pelo fascismo ao campo da cultura é evidente, suas batalhas culturais são processos constituintes centrais de suas lutas. Alguns podem ver nisso manobras diversionistas que visam desviar a atenção de desmontes econômicos e preservação de interesses de classe, mas gostaria de insistir que se trata de lutas absolutamente centrais. Creio que perderemos dimensões fundamentais do fenômeno fascista se não o compreendermos como uma batalha pelo cultivo dos afetos e pela produção do horizonte sensível da política. Como dizia Plínio Salgado, nosso representante primevo do fascismo local: “Revolução é movimento da cultura e do espírito […]. Não se trata de ofensiva contra um governo, contra uma classe, trata-se de uma ofensiva contra uma civilização”.1

Por isso, é correto afirmar que o fascismo não tem um projeto de governo, no sentido de um conjunto de dispositivos de garantia da governabilidade e de preservação de estabilidade normativa. Mas isso não ocorre por incompetência gerencial. O fascismo não tem projeto de governo porque tem algo maior; um verdadeiro projeto de sociedade. Como insisti várias vezes no decorrer deste ensaio, o objetivo real é a transformação estrutural da sociedade. Não por acaso, as primeiras ações da extrema direita no poder são normalmente contra universidades, escolas e o campo da cultura. Porque é necessário reorientar as formas de reprodução material das sensibilidades, ela precisa recompor radicalmente os circuitos sociais de afetos e nada mais urgente do que levar tal luta para os campos da formação social, para as instituições da cultura e da pedagogia.

No cerne de posições dessa natureza, e elas não são apenas apanágio do fascismo histórico, há a compreensão da política como uma questão de produção de estruturas de sensibilidade e de afetos. Sociedades se reproduzem determinando o que é possível sentir e o que não é possível sentir, o que a sensibilidade reconhece e o que ela recalca, os corpos que nos afetarão e os corpos que nos serão completamente indiferentes. A ordem sensível é o fundamento da imaginação social, de seus limites e formas. E o controle da imaginação e da sensibilidade é o fundamento de todo e qualquer poder.

Por ter consciência disso, as questões culturais são tão centrais para o fascismo. Como lembra muito bem o historiador Johann Chapoutot, o fascismo é animado por uma revolução cultural, por uma forma própria de se conectar ao pretenso grande legado da cultura ocidental.2

1 Plínio Salgado, “Palavra nova dos tempos novos”, in Obras completas, V. 7. São Paulo: Editora das Américas, 1955, p. 219.

2 Ver Johann Chapoutot, La Révolution culturelle nazi. Paris: Gallimard, 2017 [ed. bras.: A revolução cultural nazista, trad. Clóvis Marques. Rio de Janeiro: Da Vinci, 2022].

 

 

“Mas se a sociedade de consumo pode ser descrita por Pasolini como o verdadeiro fascismo é porque, para além dessas dinâmicas de estereotipia e homogeneização, o que realmente lhe chamava a atenção eram os efeitos de indiferença, dessensibilização e anestesia que paulatinamente constituíam um novo circuito de afetos. Essa era a verdadeira padronização brutalmente totalitária do mundo.

Uma das características fundamentais de uma sociedade do consumo, ou seja, sociedade na qual o consumo é a matriz central de organização dos comportamentos sociais e das formas de socialização, é que uma mesma lógica de acesso e disponibilização imediata seja aplicada a todas as esferas da totalidade social. Isso significa, entre outras coisas, indiferenciar informação e entretenimento, trabalho e tempo livre,10 produção e diversão, imagem documental e meme, assim como estabelecer apenas um regime de visibilidade que reorganiza o interesse em tal zona de indiferenciação. Todas essas esferas sociais serão organizadas pela visibilidade do que tem certa noção espetacularizada de “impacto”, do que “provoca”, do que se entrega rapidamente e se submete sem restos a um código unitário. Consolida-se assim um regime unificado de imagem e formas de afecção que produz a dessensibilização genérica. Uma informação de massacre é apresentada com a mesma intensidade, ritmo e emoção que imagens de filme de ação. Um dado sobre economia aparece logo após cenas de amor a animais domésticos. A última negociação de uma emenda no Senado vem logo abaixo da notícia da última cirurgia plástica feita por uma celebridade de quinze minutos. Ao final, tudo acaba por compor um fluxo indiferenciado.

Tal indiferenciação sustenta-se objetivamente na estrutura monopolista da indústria cultural, que longe de ser um conceito obsoleto, como alguns nos tentaram levar a crer, talvez nunca tenha sido tão atual.11 Pois talvez nenhuma outra época como a nossa conseguiu realizar tão claramente o princípio segundo o qual: “Tudo está tão estreitamente justaposto que a concentração do espírito atinge um volume tal que lhe permite passar por cima da linha de demarcação entre as diferentes firmas e setores técnicos. A unidade implacável da indústria cultural atesta a unidade em formação da política”.12 Se a unidade da indústria cultural atesta a unidade em formação da política é porque a primeira impulsiona a segunda. A imaginação política se deixa facilmente colonizar pelo regime de imagens e de afecções produzido pela indústria cultural. Assim, acaba por submeter-se à indiferença como dado operacional do sistema. Indiferença essa que é indissociável da função que a abstração desempenha nos modos de valorização e circulação do capitalismo.

A forma da organização econômica interfere, de maneira decisiva, na forma de circulação social da linguagem. Uma economia monopolista, na qual o gerenciamento da informação e do lazer são dois dossiês dispostos na mesma mesa de reuniões, tende a submeter toda produção de conteúdo à mesma forma, toda experiência sensível à mesma abstração de valor. Isso principalmente quando são os mesmos meios que fazem circular as mensagens distintas, até porque, como sabemos há décadas, os meios definem a estrutura das mensagens. Ou seja, tal dinâmica monopolista não diz respeito apenas à propriedade dos meios, mas também à padronização das linguagens e à convergência das gramáticas.

Essa unidade total tem várias funções: uma delas é permitir que o caráter dramático de decisões e violências políticas se dilua na generalização de formas de espetáculo e entretenimento. Assim, por exemplo, a prisão de imigrantes no solo dos Estados Unidos como se fossem bandidos periculosos, toda a brutalidade social tipicamente fascista que faz do estrangeiro o portador da degradação de nosso equilíbrio e conciliação, pode ser apresentada em vídeos de Instagram patrocinados pela própria Casa Branca nos quais se ouvem músicas de reggae e há corte de câmera típico de filmes de ação. Ou seja, o objetivo de comunicação aqui é impedir qualquer distinção entre entretenimento e ação política. Essa zona de indistinção é fundamental para a irrealização da violência, sua transformação em algo que parece já termos visto milhares de vezes em nossos momentos de entretimento. Não há mais distinção alguma entre informação e entretenimento em um mundo onde o próprio poder de Estado molda suas ações como se estivesse rodando um seriado policial. O mundo se torna assim uma enorme indústria. No caso, uma enorme indústria cultural que irrealiza a violência da política ao mesmo tempo que a aprofunda, pois ao fornecer um enquadre de entretenimento a ações políticas violentas, tiramos sua dimensão trágica e acrescentamos uma tonalidade cômica. Como se o riso viesse agora do próprio poder.

É importante lembrarmos isso porque, durante certo tempo, foi vendida a ideia de que, contrariamente a tal convergência monopolista, havíamos entrado em uma era mais democrática da comunicação. Não estávamos mais submetidos a sistemas nos quais poucos falam e muitos escutam, como era o caso na era dos broadcastings, das televisões nacionais controladas por poucas famílias ou dos monopólios de comunicação com poucos grupos que detinham, em uma mesma região, jornais, revistas, rádios, televisões. Agora, havíamos entrado em um modelo no qual todo receptor era um emissor em potencial, um produtor potencial de conteúdo. Graças a essa nova configuração da produção da comunicação, as opiniões se multiplicariam, as formas seriam mais plurais e os telefones celulares se tornariam uma verdadeira ágora grega saudavelmente descontrolada, livre e polimórfica. Nesse universo de cada vez menos mediações, seria possível construirmos nossas próprias redes, conectando-nos globalmente com quem julgássemos relevante. Ou seja, cada sujeito se tornaria um gestor de suas próprias redes.

No entanto, a passagem do modelo de broadcasting ao modelo atual de plataforma, streamings e redes sociais implicou, na verdade, o aprofundamento da estrutura monopolista da comunicação. Circulação (de informação, de dinheiro, de produtos culturais), desenvolvimento de tecnologia, produção de conteúdo são atualmente processos completamente interligados em um consórcio de não mais do que oito empresas com atuação global (Meta, Google, Amazon, Microsoft, Apple, PayPal, X, Nvidia). Não houve momento algum no mundo em que apenas oito empresas, todas no mesmo território nacional, podiam ter uma intervenção tão imediata em esferas tão ordinárias da interação social entre indivíduos como telefonar para amigos, publicizar opiniões políticas, enviar fotos para uma namorada, comprar produtos on-line, utilizar cartões de crédito. E a partir de certo momento, começamos a receber todos os dias propagandas da Casa Branca em nosso Instagram e tweets assinados pelo presidente Donald Trump, sem que nunca tenhamos pedido tanta deferência.

É fato que, principalmente, durante o período entre os anos setenta e noventa do século passado, nem todos os lugares da indústria cultural pareciam idênticos, nem tudo parecia estar igualmente perto do centro. Dinâmicas temporárias de margem puderam se constituir, algo como a versão cultural das “zonas autônomas temporárias”, permitindo complexificações formais, circulações setorizadas de produções e desconstruções de padrões de previsibilidade. Esses lugares, é verdade, existiram por um tempo curto, e ainda existem. Porém, são frágeis em sua capacidade de contraposição à dinâmica neutralizadora da indústria cultural hegemônica, da mesma maneira como são frágeis as produções autônomas em relação à organização monopolista do capitalismo. As margens passam muito rapidamente ao centro, mas existem, nem que seja por um tempo.

Isso, no entanto, não muda o fato de estarmos atualmente diante de espaços ainda mais controlados, unificados e monopolizados do que aqueles que tínhamos anteriormente. Os espaços digitais gostam de se apresentar como esferas de interação livres de regulação e controle, como a realização perfeita dos ideais de liberdade de expressão. Mas o desenvolvimento tecnológico não caminhou para uma sociedade mais aberta.”

10 Ver, nesse sentido, o ensaio premonitório de Theodor Adorno, “Tempo livre”, in Educação e emancipação, trad. Wolfgang Leo Maar. São Paulo: Paz e Terra, 1995.

11 A melhor crítica ao conceito de indústria cultural foi feita por Paolo Virno, A Grammar of the Multitude: For an Analysis of Contemporary Forms of Life. New York: Semiotext(e), 2004. Procurei fazer uma crítica dessa crítica em V. Safatle, Em um com o impulso: Experiência estética e emancipação social. Belo Horizonte: Autêntica, 2022.

12 T. Adorno e Max Horkheimer, Dialética do esclarecimento, trad. Guido Antonio de Almeida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1991, p. 116.

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