segunda-feira, 11 de maio de 2026

A ameaça interna: psicanálise dos novos fascismos globais (Parte III), de Vladimir Safatle

Editora: Ubu

ISBN: 978-85-7126-250-8

Opinião: ★★★★☆

Páginas: 240

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“Esse processo foi impulsionado pelo fato de a nova versão da indústria cultural ser mais pervasiva. Sua presença, composta de microacessos dispersos durante todos os momentos do dia, em qualquer ambiente que seja, permite uma conexão muito mais contínua do que os antigos rádios, televisões e jornais. Em 2024, por exemplo, um brasileiro passava em média 9 horas e 13 minutos por dia on-line, configurando a segunda maior média mundial, atrás apenas da África do Sul, sendo que desse tempo 3 horas e 37 minutos diários eram dedicados apenas às redes sociais.13 Os números mostram uma nova estrutura material de circulação da comunicação com uma capacidade estruturalmente maior para interferir de maneira disciplinar em nossa vida. A tecnologia se dispersa assim no espaço social, como uma espécie de dissolução da especificidade dos meios no interior da vida.14 Os meios não exigem mais um espaço específico de interação, como as antigas televisões e telas de cinema. Eles se colam cada vez mais a nossa mobilidade cotidiana.

Essa completa adesão ao aparato que faz com que nos tornemos a imagem de nós mesmos, esse culto pela atrofia de nossas linguagens até o ponto de só restar a linguagem da razão econômica, de seus investimentos, de seus retornos, de seus anglicismos, esse culto que, no fundo, é uma adesão ao mais forte, a quem venceu. Essa funcionalização de si feita com alegria e desespero só podia mesmo ter consequências políticas catastróficas, como um elemento fundamental para o advento de uma nova psicologia. Uma psicologia mais abertamente autoritária, uniforme, rígida, mais incapaz de lidar com o que não se submete à contabilidade, à visibilidade unidimensional e espetacular.

Essa adesão imanente à indústria cultural ganha ainda mais centralidade se aceitarmos que estamos diante não apenas de um meio de comunicação, mas de uma forma de organização política em escala internacional. Se ela produz uma subjetividade que lhe é adequada, então não será surpresa descobrir que tal subjetividade tem sua própria gramática política.

Vários foram os estudos que insistiram como boa parte das estruturas políticas da extrema direita global são “partidos digitais”.15 Em países como o Brasil e a Argentina, a extrema direita necessita parasitar partidos já existentes, pois sua estrutura de mobilização e adesão é basicamente digital. Essa forma de organização política serve-se de tendências das redes digitais em criar espaços, ao mesmo tempo com menos mediações, com contato mais direto entre topo e base de organizações políticas e com identificações a partir de traços identitários muito fortes. Alguns autores veem nisso a expressão imediata do potencial autoritário de tais estruturas de comunicação, pois elas dinamitariam a representação, a constituição de espaços comuns de embates nos quais as mesmas regras de ocupação e expressão são pretensamente seguidas por todos os oponentes.16 No entanto, seria o caso de lembrar como tais características das redes sociais apenas aprofundam uma dinâmica imanente à organização social presente na indústria cultural. Ela acrescenta à extrema personalização da política, à ilusão da quebra de distância que já existia no funcionamento normal da indústria cultural, a possibilidade de interação em mão dupla que os media anteriores desconheciam ou conheciam em níveis apenas rudimentares.

Ao aprofundar tais tendências, as plataformas de comunicação permitem uma intervenção na subjetividade em que modo de vida e organização política se fundem de maneira determinante. Há uma politização da vida em todas suas dimensões, que esperávamos ser possível apenas em situação de reconciliação social e emancipação coletiva. Só que agora essa politização marcha contra nós.”

13 Ver Relatório Digital 2024, We are Social and Meltwater. Ver, a esse respeito, principalmente Bruna Della Torre, “Plattform-Neofaschismus. Digitale Kulturindustrie und die extreme Rechte”. WestEnd. Neue Zeitschrift für Sozialforschung, V. 21, n. 2, 2024; e Shoshana Zuboff, The Age of Surveillance Capitalism. New York: PublicAffairs, 2020 [ed. bras.: A era do capitalismo de vigilância, trad. George Schlesinger. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2021].

14 Ver S. Zuboff, op. cit.

15 Ver Christian Fuchs, Digital Fascism: Media, Communication and Society, V. 4. New York: Routledge, 2022.

16 Um exemplo nesse sentido é Joseph Vogl, Capital and Ressentiment. New York: Polity, 2022.

 

 

“Na verdade, isso aponta para uma nova estrutura psíquica hegemônica. Costumamos acreditar que nossa socialização produz tendencialmente personalidades unitárias, com disposições coerentes de comportamento, reprimindo todo afeto contrário ao que constitui nossos ideais, recalcando para fora da consciência tudo o que poderia significar contradição. Não por acaso a forma clássica dos sintomas psíquicos são contradições em que um polo é deslocado para “outra cena”, para uma instância psíquica diversa (o inconsciente), enquanto outro permaneceria na consciência. Nesse modelo de aparelho psíquico, tais conteúdos mentais recalcados e reprimidos poderiam ser integrados paulatinamente através do alargamento do horizonte de compreensão da consciência.

No entanto, encontramos atualmente a generalização de outra forma de organização psíquica, caracterizada por uma clivagem no interior do próprio Eu, ao invés de uma cisão entre instâncias psíquicas. Tudo se passa assim como se fosse possível ter duas ideias contraditórias ao mesmo tempo no Eu e continuar a funcionar. Ao invés das representações contraditórias serem agenciadas através de destinos distintos (uma representada, outra recalcada), temos nesse caso as duas representações representadas na consciência, criando uma dinâmica de ação que passa continuamente de uma a outra. Esse modelo organiza os conflitos psíquicos através de um modo de negação inicialmente identificado em casos de perversão.25 O que Adorno percebeu vendo o casamento da realeza holandesa era, na verdade, apenas um exemplo de uma nova configuração de agenciamentos de conflitos psíquicos que ficaria cada vez mais prevalente em nossas sociedades.

De fato, uma análise empírica dos produtos recentes da indústria cultural demonstra a prevalência desse esquema. Personagens de contos de fadas que não mais se reconhecem e criticam os próprios papéis, peças publicitárias que zombam da linguagem publicitária, celebridades e representantes políticos que se autoironizam em programas televisivos. Esses são modelos extremamente recorrentes. O que havíamos esquecido é como a ironia é um elemento constituinte do autoritarismo. Como dizia Saint-Just, “Esse que brinca na cabeça do poder tende à tirania”, pois uma normatividade que funciona de forma cínica é aquela que traz em si mesma sua própria negação, a consciência de seu próprio impasse, a figura de sua própria crítica, mas sem que tal contradição lhe impeça de continuar a funcionar como sempre funcionou. Diferente de uma dinâmica propriamente dialética, na qual a explicitação da contradição internalizada permite a metamorfose das formas e figuras da consciência, o cinismo é a forma mais perfeita de uma dialética travada, cuja explicitação da contradição é apenas uma forma de consciência estacionária.

Isso significa que as pessoas são conscientes do caráter impotente das enunciações que elas mesmas sustentam, mas tais enunciados devem continuar a ser ditos, devem continuar a circular misturando seriedade e ironia, como se estivéssemos em uma situação de ironização absoluta das condutas. E não por acaso descobre-se que as figuras atuais de lideranças autoritárias são, em sua grande maioria, “cômicas”, “paródicas”. Muitas delas vieram ou passaram longas temporadas no universo da comunicação de massa, com seus personagens que jogam deliberadamente com a própria caricatura e estereotipia, que riem de si mesmos a todo momento, que nos fazem a todo momento ficar em dúvida se estão falando a sério ou não. Pois a comicidade cínica é uma formação bem-sucedida de compromisso. Ela permite preservar comportamentos os mais brutais ao mesmo tempo que abre uma distância possível entre enunciado e enunciador, entre discurso recebido e posição do receptor.26 E seria o caso de lembrar que a forma mais acabada do autoritarismo é o poder soberano de quem decide quando se deve levar suas enunciações a sério e quando ele está “apenas brincando”.

Assim, não será surpreendente descobrir, por exemplo, que uma das aparições mais inacreditáveis de Javier Milei em sua campanha era junto de sua ex-namorada, Fátima Florez, uma comediante conhecida por fazer imitações de políticos, em especial de Cristina Kirchner. Em um programa de talk show no estilo “na mesa da minha cozinha com os astros”, ela fala com ele como se fosse Cristina, ironizando o próprio embate político. Trump, por sua vez, ficou conhecido por programas televisivos em que fazia o papel de si mesmo em um nível ainda maior de autocaricatura. Muito antes de se tornar presidente, era alguém que estava cotidianamente nas televisões norte-americanas participando de esquetes de humor, de propagandas de chicken wings no meio de um conjunto de dançarinos fantasiados de frangos. Antes de qualquer coisa, Trump é alguém que sempre praticou a autoderrisão, e isso é fundamental. Da mesma forma, Bolsonaro ficou conhecido nacionalmente graças a sua participação em programas televisivos de humor. Antes de todos eles, Berlusconi passou à história por sua persona na qual se misturavam sarcasmo, derrisão e autoritarismo. Nada disso é coincidência. Antes, tais figuras autoritárias explicitam a função central do cômico na estabilização do poder. (...)

Nesse sentido, um erro de análise clássico aqui é levar o discurso do fascismo contemporâneo a sério demais, e nesse ponto encontramos um elemento novo em relação ao integralismo. Se no integralismo havia essa crença tipicamente classe média em seus próprios delírios de semiformação, agora é melhor entender que o discurso é feito para não ser levado a sério, pois a inconsistência é uma virtude, é uma arma. A inconsistência garante a liberdade soberana da ação. Em uma situação de guerra, a coerência é um defeito, pois não permite adaptar-se continuamente a um espaço de ação sempre em mutação e surpresa. Já a inconsistência permite a construção de uma espécie de espaço transicional onde a verdade dos fatos pode ser suspensa em nome da verdade do desejo, como fazemos nos jogos que inventamos.

O humor se torna assim uma peça central do poder, pois se trata de operar a identificação com tais lideranças de forma “cínica”, no sentido de identificações que se colocam como “mera aparência” e que, dessa forma, permitem que os discursos mais violentos circulem, produzam efeitos, sem que os agentes se autodescrevam como efetivamente implicados. Algo fundamental para sustentar as estruturas violentas da personalidade sem exigir o preço próprio a uma ética da convicção. Tudo isso nos mostra como a indústria cultural é a linguagem natural da extrema direita – e talvez não seja mero acaso que ela volte a crescer exatamente no momento em que a crítica cultural não pareça mais fazer sentido para amplos setores do campo progressista, fascinados pela obrigação de organizar lutas sociais como lutas contra-hegemônicas. E seria ainda o caso de lembrar que quanto maior a descrença, maior a violência. A crença enquadra a violência em rituais e normas, ela dá formas e limites à violência autorizada. Já a descrença autoriza a violência e em quaisquer de suas formas e intensidades. A violência que conhecemos hoje não é a violência da crença, mas a da descrença. A pior e mais agressiva de todas. O que temos são crentes da descrença. Crentes que sabem muito bem a fragilidade de suas crenças, por isso se aferram a elas com muito mais desespero e surdez.

Esse é um ponto central, porque os modelos de adesão e crença modificaram-se brutalmente em nossas sociedades. Não estamos mais diante das estruturas clássicas da hipocrisia burguesa que prega valores universalistas enquanto esconde interesses particulares, que cria instituições “democráticas” mas faz da democracia e de suas instituições algo para grupos específicos e para regiões demarcadas, que faz exortações morais mas exige apenas a preservação de aparências. Essa estrutura da hipocrisia pede um discurso de duplo nível no qual o sujeito da enunciação e o sujeito do enunciado não coincidem. Eu falo algo, mas meus reais interesses são contrários à minha enunciação. Por isso, em situações dessa natureza, faz-se necessário não desmascarar os verdadeiros interesses do sujeito do enunciado, seu lugar real.

No entanto, diferente da hipocrisia, o cinismo não é um discurso de duplo nível. Antes, ele é uma forma de explicitação dos interesses do poder, de transparência que tem o efeito de um “falar franco” no qual a resignação pode aparecer como realismo maduro. Não precisamos mais esconder que não iremos governar para todos. Dizemos que iremos governar para todos com o ar de uma suprema ironia. Agora, falamos isso com a cumplicidade desafiadora de quem diz: “As palavras precisam mudar de sentido porque, sejamos francos, agora não há mais sociedade para todos. ‘Todos’ é agora os que sobrarão depois do grande expurgo, ‘todos’ é todos os que parecem conosco”.

Nesse sentido, seria o caso de tomar com um grão de sal a associação da extrema direita a um discurso no qual a mentira, o engodo e a desinformação seriam os elementos constituintes de sua força ou mesmo a aproximação da extrema direita a um “sistema delirante” de crenças partilhado por seus eleitores.28 Assim, não faltam as demonstrações de indignação diante da facilidade com que eleitores e eleitoras de extrema direita aceitaram as proposições as mais inverossímeis, as trucagens as mais primárias. Mas seria o caso de parar de acusar a extrema direita de mentir sistematicamente e começar a se perguntar o inverso, a saber, o que ela fala de verdadeiro?

Acreditar na força central da mentira é ver seus eleitores como portadores de alguma forma de déficit cognitivo de base, como se tivessem certa facilidade estrutural para serem enganados. Melhor seria, no entanto, entender que os eleitores de extrema direita admitem que a existência de uma posição de extrema direita já é, em si, a expressão de uma verdade, de uma decisão de dizer as coisas como elas realmente são, de falar francamente. Diante disso, o resto é a ampliação, o “exagero” necessário para fazer com que todos entendam a gravidade da situação. Se esse “exagero” é ou não factualmente verdadeiro, isso não retiraria em nada sua validade como alerta, como antecipação do que poderia realmente ocorrer. Ou seja, não, eleitores e eleitoras de extrema direita não estão sendo enganados, nem estão em um delírio partilhado. Eles sabem muito bem o que fazem, e continuam a fazê-lo porque, para eles, mesmo que as informações partilhadas não sejam exatamente um fato, são a expressão da tendência que poderia em algum momento se tornar realidade. Essa é uma maneira de lembrar de que não se trata de fornecer a versão correta dos fatos e esperar que isso tenha efeito de dissuasão. A verdade é uma força política fundamental e continuaremos a errar sistematicamente de alvo enquanto não entendermos a capacidade da extrema direita em enunciar, nas entrelinhas, proposições verdadeiras. O que mostra a natureza do problema que nos espera.”

25 O exemplo paradigmático dessa estrutura de negação, conhecida clinicamente como Verleugnung, foi fornecida por Sigmund Freud, “O fetichismo”, in Obras completas, V. 17, trad. Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2014, pp. 302–10.

26 Rodrigo Nunes descreveu essa mesma lógica a partir do uso de trolls pela extrema direita em R. Nunes, Do transe à vertigem: Ensaio sobre o

28 Esse é meu ponto de discordância com André Singer, “Regime autocrático e viés fascista: Um roteiro exploratório”. Lua Nova, n. 116, 2022, com quem partilho uma série de convergências já explicitadas em nossos textos comuns.

 

 

“Gostaria de terminar insistindo na importância da discussão sobre o cinismo para a compreensão da ressurgência da teologia como elemento fundamental de mobilização dos novos fascismos mundiais. Muitos gostariam de ver em tal ressurgência alguma expressão de regressão social, de retorno a um arcaísmo obscurantista que exporia a incapacidade das massas em assumir as consequências da modernização social. Mas devemos compreendê-la sob fundo de descrença. Não falamos de vínculos orgânicos à religião e seus sistemas de crenças, mas de conversões de populações precarizadas seduzidas por encontrar um dos poucos vínculos comunitários que não foram destruídos e negados pela lógica neoliberal. Tais vínculos têm força real de proteção social e de assistência, além de fornecer o enquadre simbólico para uma ordem social em guerra, já que a guerra (contra o mal, contra a degradação moral, contra o colapso das hierarquias “naturais”) é fator de constituição dessa forma de laço religioso. Ou seja, longe de uma questão de crença em sistemas de valores, temos na verdade a adesão a aparatos sociais de segurança e mobilização.

Poderíamos nos perguntar por que logo a religião foi a estrutura comunitária preservada pelo neoliberalismo. Uma das respostas possíveis é que relações teológico-políticas têm como uma característica principal confundir governo e luta contra o mal. Todas as vezes que o mal é invocado no campo político, voltamos à teologia. Afinal, contra o mal não há negociação, há luta de vida ou morte, há vitória e esconjuração. Contra o mal há essa violência absoluta que é própria da teologia em exercício. Não há um conceito secular de mal, ele sempre foi e será um conceito teológico. Nesse sentido, em todo lugar onde o “mal” for mobilizado, em relação ao outro e em relação a si, estaremos no interior de relações de hierarquia e de valoração que pedem uma operação de natureza teológica-política. Assim, governar terá para nós o sentido de lutar contra o mal que habita ou que espreita nosso corpo social. Um mal que tem como expressão mais bem-acabada a insubmissão. O mal nunca foi uma questão de crueldade e violência, até porque não existe bem que não permita a crueldade contra aqueles que não acreditam no bem que defendemos. O mal fundamental sempre será ignorar as hierarquias necessárias.

Em um horizonte social em decomposição, recorrer ao discurso sobre o mal se torna um dispositivo precioso para paralisar insubmissões potenciais e fortalecer defesas narcísicas combalidas. No entanto, notemos como não estamos diante de bolsões de resistências à modernização, mas de um fenômeno interno às consequências da modernização e sua precarização social.”

 

 

“Por isso, eu tenderia a inverter os fatores e terminar este longo ensaio dizendo que, se o fascismo, de certa forma, aparece como uma resposta realista às crises que marcam nosso tempo, se ele aparece talvez como a única resposta realista, então não deveríamos temer afirmar que só um irrealismo delirante pode nos salvar. Há momentos históricos nos quais o delírio é a única saída consequente. Os escravizados haitianos que, no final do século XVIII, rebelaram-se contra forças coloniais infinitamente superiores às suas deliraram sua liberdade. Tanto que precisaram pedir a ajuda de rituais vodus para começar a história de sua libertação.35 No entanto, ao final, o delírio venceu. Foi assim várias vezes em vários lugares e será assim várias vezes e em vários lugares. A história é prenhe de momentos em que o delírio vence. Aquelas e aqueles que deliraram nesses momentos históricos não foram habitar nuvens, mas acabaram por aprender a lutar de outra forma, dando corpo ao impossível, falando outras gramáticas e empurrando suas épocas para além dos limites do que então era a realidade. Uma realidade muito embebida em catástrofe para merecer outra coisa que a aceleração do seu desabamento. Toda verdadeira transformação revolucionária começou como um delírio, porque sobre os próximos passos da longa história de nossas lutas por emancipação nada sabemos. E há de se entender a segurança delirante que esse desamparo é capaz de criar. Nada saber do futuro é poder imaginar tudo criar. Ou se quiserem, e isso significa a mesma coisa, é entender que, como dizia Jacques Lacan, “viver sem esperança é viver sem medo”.

De toda forma, seria o caso de se perguntar para onde nos levaram os apóstolos do realismo que ainda colonizam a prática e o pensamento das esquerdas. O realismo deles, suas políticas de tentativa de gestão mais humana das crises terminais do Capital, apenas gerou ao fim uma espiral de frustração social e de sentimento de impotência que acabou por acelerar a emergência do fascismo.36 Seus cálculos que deviam retardar a ascensão fascista apenas a aceleraram. Eles não têm lição alguma a nos dar. França, Estados Unidos, Itália, Chile, Argentina, Reino Unido, Brasil, a história é praticamente a mesma: depois da gestão dita responsável de uma esquerda realista veio o fascismo, ou veio a lenta preparação dramática para ele ou sua consolidação final como uma espada que ficará sobre nossa cabeça por tempo indeterminado. Como disse no começo deste ensaio, de agora em diante, o único jogo possível é uma revolução contra outra.

Que cada um termine o raciocínio como achar que deve.”

35 C. L. R. James, Os jacobinos negros, trad. Afonso Teixeira Filho. São Paulo: Boitempo, 2004.

36 A constituição acurada dessa lógica foi fornecida por Daniel Feldmann e Fábio Santos, O médico e o monstro: Uma leitura dos progressismos latino-americano e seus opostos. São Paulo: Elefante, 2021.

 

 

“Falo isso porque nosso presente está diante de uma catástrofe dessa natureza. A catástrofe da qual estou falando está associada a um lugar chamado Gaza. Gostaria de começar por lembrar que há vários sentidos do sintagma, tão usado atualmente, “todo pensamento é pensamento a partir de um lugar”. Afinal, devemos necessariamente particularizar lugares ou devemos mostrar como certos lugares específicos nos permitem apreender a totalidade funcional do sistema social do qual fazemos parte? Um pensamento a partir de lugares tem sua força normativa restrita ao lugar de onde emerge?

Alguns acreditam que devemos assumir uma limitação do pensamento como condição de ponto de vista. Como se eu estivesse necessariamente vinculado ao lugar que ocupo e isso definiria meu ponto de vista, um lugar que outro não poderia ocupar, ou um lugar que limita minhas pretensões de falar para todos e quaisquer. A isso, alguns chamam de “pensamento situado”. Mas devemos entender de outra forma a ideia de que “todo pensamento é pensamento a partir de um lugar”, pois cabe a todo pensamento pensar a partir da capacidade de se deixar afetar por certos lugares que funcionam como sintomas da totalidade social. Há lugares que são como sintomas, no sentido de espaço onde uma contradição global se explicita, uma verdade expulsa retorna, fazendo o corpo social inteiro claudicar. Um sintoma é o que nos faz não conseguir mais desviar, porque faz emergir algo que só poderá ser ignorado à condição de se criar um dispositivo de “não querer saber”, um sistema de silenciamento e apagamento que sempre fracassa – e quanto mais fracassa, mais violento se torna.

Se assim for, “todo pensamento é pensamento a partir de um lugar” não é necessariamente uma proposição que determina que só quem está em certo lugar (geográfico, social) pode pensar certas situações. Antes, ele nos lembra que há lugares que todo e qualquer pensamento que aspire a um conteúdo de verdade não pode ignorar, não pode se desviar. Há aquilo que poderíamos chamar de uma “universalidade de combate”, que consiste em se associar a um lugar do qual não viemos, habitados por pessoas que não têm nossas identidades sociais nem partilham necessariamente nossas formas de vida. No entanto, sabemos que a possibilidade de uma humanidade por vir, e creio que essa ideia faz cada vez mais sentido, depende de nos associarmos a elas e pensarmos a partir de seus lugares. Para a nossa época, esse lugar é Gaza.

Alguém poderia começar questionando o significado dessa excepcionalidade dada a Gaza, mesmo que estejamos diante do maior massacre de civis em todo o século XXI: 68 mil pessoas até agora, mas temos informações que nos falam em 200 mil pessoas. A desinformação e o assassinato de jornalistas foi prática normal durante toda essa guerra. Enquanto todas as guerras combinadas entre 2019 e 2022 mataram 12 193 crianças, ao menos 12 300 crianças foram mortas apenas nos quatro primeiros meses da Guerra em Gaza. Em setembro de 2025, toda a população de Gaza estava em condição de “fome catastrófica”, o mais elevado grau de fome segundo o Sistema de Segurança Alimentar Integrado (IPC). “Este é o maior número de pessoas já registrado de vítimas de fome catastrófica em qualquer lugar em qualquer tempo”, segundo palavras do secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU). A fome de populações civis se tornou uma arma de guerra que lembra os piores momentos do colonialismo europeu.

Mas não é essa magnitude que faz de Gaza o ponto de partida de todo pensamento que queira pensar a catástrofe que marca nosso tempo. Afinal, poderíamos entrar naquele exercício macabro e desprovido de sentido de comparar extermínios e genocídios. A esse respeito, eu só poderia aqui fazer minhas as palavras do antropólogo Luiz Eduardo Soares que, diante da contraposição entre genocídios que visa apenas limitar nossa capacidade de sentir o intolerável quando ele está diante de nossos olhos, afirmou em um texto memorável: “As dores não são comparáveis, elas são a mesma”.1 Sim, é verdade. Não há motivo para comparar a dor porque, até segunda ordem, não há em supermercados balanças de intensidades de dor, medidores de gritos, termostatos de explosões de edifícios. Não se compara o que é o mesmo.

Na verdade, o que faz de Gaza esse ponto de partida do pensamento de nossa época é a conjunção entre quatro processos: repetição, dessensibilização, des-historização e vazio legal. Seria o caso então de falar de cada um deles por entender que não são apenas reações ao que vem de Gaza, mas dispositivos globais de governo a serem aplicados, em escala indefinida, contra populações colocadas em extrema vulnerabilidade. Ou seja, Gaza diz respeito a todos nós porque estamos diante de uma espécie de Laboratório Global para novas formas de governo. Como já vimos em outros momentos da história, práticas e dispositivos de violência estatal e sujeição desenvolvidas em locais periféricos específicos são paulatinamente generalizados em situações de crise. Quando pensadoras como Berenice Bento afirmam existir uma “palestinização do mundo”,2 há de se tomar essas palavras a sério.

Permitam-me recuperar uma análise macro-histórica já apresentada no início deste livro. Como insisti anteriormente, estamos diante de uma conjunção inédita de crises que não têm como passar dentro do sistema capitalista que as gerou: crise ecológica, demográfica, social, econômica, política, psíquica e epistêmica. Crises que tendem, em larga medida, a se estabilizar, tornando-se o regime normal de governo, como a longa crise política das instituições da democracia liberal nos últimos vinte anos ou a longa crise econômica, presente no horizonte de justificação das políticas econômicas de nossos países e instituições desde 2008. Essas crises não impediram a preservação dos fundamentos da gestão econômica neoliberal, nem o aprofundamento de sua lógica de concentração e de silenciamento de lutas sociais. Antes, podemos mesmo dizer que elas forneceram o solo ideal para a realização de tais processos. Essa dinâmica de normalização das crises aponta para uma mutação de nossas formas de governabilidade, pois estas podem cada vez mais normalizar o uso de medidas excepcionais, violentas e autoritárias no interior de processos de gestão social, já que estamos em situação de medo contínuo.

Como vimos, diante de uma situação dessa natureza, algumas possibilidades se colocam diante de nós. Uma delas é a transformação estrutural das condições que geraram tal sistema de crises conexas, outra é a generalização do paradigma da guerra como forma de estabilização da crise. A segunda opção, a que nos parece atualmente a mais natural, exige a generalização da lógica da guerra infinita como paradigma de governo. Afinal, a guerra infinita permite uma espécie de corrida para a frente que nunca termina, na qual a desordem contínua é a única condição para a preservação de uma ordem que não tem mais como garantir horizontes normativos estáveis. Diante da decomposição social, a guerra permite uma forma de coesão, enquanto naturaliza, repete e generaliza níveis de violência e indiferença inaceitáveis em outra situação. Isso ajuda a entender por que, neste momento histórico, não há sequer órgãos de mediação multilateral, como a ONU. Gaza marcou o fim de fato das Nações Unidas como instância vinculante, já que mesmo uma exigência de cessar-fogo de seu Conselho de Segurança é recebida pelo Estado de Israel com uma indiferença soberana. Até mesmo a afirmação da ONU de que estamos diante de um genocídio é recebida com uma cínica indiferença internacional.

Como afirmei anteriormente, o fato fundamental a respeito do paradigma da guerra infinita é a reorganização da sociedade civil a partir da lógica da guerra. Isso significa uma forma de gestão social baseada na militarização das subjetividades. Esse processo tem como seu ponto de inflexão a operação macabra que vemos agora todos os dias e que consiste em fazer as pessoas não sentirem Gaza. Este é o verdadeiro experimento social: dessensibilizar sujeitos em relação a catástrofes, levar pessoas a não mais se indignarem nem agirem para impedi-la. Como se devêssemos nos preparar para o que será a normalidade generalizada de nossas sociedades na fase terminal do capitalismo. Se isso for possível, então Gaza será apenas o primeiro capítulo de uma implosão social generalizada.”

1 Luiz Eduardo Soares, “As palavras apodrecem”. A Terra é Redonda, fev. 2024.

2 Berenice Bento, “Defensores de Israel usam antissemitismo como instrumento de chantagem”. Folha de S. Paulo, 18 jan. 2024.

 

 

“Como se não bastasse, não posso alegar direito de defesa quando lido com reações vindas de um território que ocupei ilegalmente. Contrariamente ao que acreditam alguns, há lei internacional e ela diz claramente o que deve ser feito. O direito internacional reconhece à Palestina o estatuto jurídico de “território ocupado”, ocupação considerada totalmente ilegal pelas resoluções 242 e 338 da ONU há mais de cinquenta anos. Ou seja, a melhor defesa é respeitar a lei internacional e devolver os territórios ocupados. No entanto, em Gaza, a lei deixa de ter força de lei. Na verdade, deixar um povo sem lei, sem Estado, sem cidadania é uma prática de construção de vazios jurídicos que nos remete ao núcleo de colonialismo insuperável de nossas sociedades modernas, que continuam coloniais. A questão central é: “contra quem?”. Pode-se falar da permanência do colonialismo porque estamos diante de um poder soberano que decide quando a lei vige e quando a lei é suspensa, em que território ela se aplica e em que território ela é impotente. A isso, alguns chamam de “democracia”. No entanto, isso é apenas a partilha de uma geografia da lei típica das relações coloniais.

Por isso, seria o caso de deplorar com todo o vigor os acadêmicos e as acadêmicas que se dizem guardiães do pensamento pós-colonial e que se calaram vergonhosamente diante de uma típica catástrofe colonial, que fizeram declarações protocolares, que parecem mais indignados diante de problemas pronominais do que diante de corpos enterrados sob escombros de bombas. Quem quiser pensar criticamente deve estar disposto a não colocar seus interesses pessoais diante dos engajamentos necessários. Eu realmente desconfio que o pós-colonialismo de alguns termina nos limites do Comitê de diversidade do Magazine Luiza. E seria o caso de reconhecer a coerência profunda e a honestidade intelectual desses acadêmicos e acadêmicas que sofreram as piores retaliações e estigmatizações por demonstrar solidariedade ao drama palestino em um momento no qual a solidariedade se tornou uma das armas mais raras.

A meu ver, creio que algumas dessas pessoas entenderam que nessas horas a filosofia deve funcionar como um freio de emergência. Conhecemos este fragmento de Walter Benjamin: “Marx diz que as revoluções são a locomotiva da história universal. Mas talvez as coisas se passem de maneira diferente. Talvez as revoluções sejam o gesto de acionar o freio de emergência por parte do gênero humano que viaja nesse vagão”.6 Em um momento no qual ficam cada vez mais claras as relações orgânicas entre os últimos anteparos da civilização ocidental e o extermínio, os últimos anteparos da democracia e a catástrofe, vale a pena lembrar como os verdadeiros gestos revolucionários são os que decidem puxar o freio de emergência.”

6 Walter Benjamin, O anjo da história, trad. João Barrento. Belo Horizonte: Autêntica, 2012, p. 230.

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