A conversão de São Paulo

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A conversão de São Paulo

segunda-feira, 20 de março de 2017

Pensamentos – Blaise Pascal

Editora: Martin Claret
ISBN: 978-85-7232-566-0
Tradução: Pietro Nassetti
Opinião: **
Páginas: 512 

     “Não há ninguém capaz de falar razoavelmente do destino. Ouso mesmo dizer que jamais alguém o fez.”


     “Que se reflita sobre isso e se diga, depois, se não é indubitável que o único bem da vida presente é a esperança de uma vida futura; que só somos felizes na medida em que dela nos aproximamos; e que, não havendo mais infelicidades para os que têm uma inteira certeza da eternidade, também não há felicidade para os que não possuem luz alguma.”


     “O mesmo homem que passa tantos dias e tantas noites cheio de cólera e de desespero por ter perdido um cargo, ou por alguma ofensa imaginária à sua honra, sabe também que vai perder tudo com a morte, sem que por isso se inquiete ou se comova. É uma coisa monstruosa ver, num mesmo coração e ao mesmo tempo, essa sensibilidade pelas menores coisas e essa estranha insensibilidade pelas maiores.”


     “Nada acusa tanto uma extrema fraqueza de espírito como não conhecer qual é a desgraça de um homem sem Deus; nada marca tanto uma disposição má de sentimentos como não desejar a verdade das promessas eternas; nada é mais covarde do que mostrar valentia contra Deus.”


     “O finito se aniquila em presença do infinito e se torna um simples zero. Assim o nosso espírito diante de Deus; assim a nossa justiça diante da justiça divina. Não há tão grande desproporção entre a nossa justiça e a de Deus como entre a unidade e o infinito.”


     “Toda a conduta das coisas deve ter por objeto o estabelecimento e a grandeza da religião; os homens devem ter em si mesmos sentimentos conformes ao que ela nos ensina: e, enfim, ela deve ser de tal forma o objeto e o centro para o qual tendem todas as coisas que quem souber os seus princípios poderá explicar toda a natureza do homem em particular e toda a conduta do mundo em geral.”


     “Deus não se manifesta aos homens com toda a evidência que lhe seria possível.”


     “Quem não se reconhece cheio de soberba, de ambição, de concupiscência, de fraqueza, de miséria e de injustiça, é bastante cego. E quem, assim se reconhecendo, não deseja regenerar-se, que se pode dizer de um homem... (tão pouco razoável)? Que é, pois, que se pode ter, senão estima, por uma religião que conhece tão bem os defeitos do homem, e senão desejo pela verdade de uma religião que para isso promete remédios tão desejáveis?”


     “É em vão, oh homens, que procurais em vós mesmos o remédio para as vossas misérias. Todas as vossas luzes só podem chegar a conhecer que não é em vós mesmos que descobrireis a verdade e o bem. Os filósofos o prometeram, mas não puderam fazê-lo. Eles não sabem nem qual é o vosso verdadeiro bem, nem qual é o vosso verdadeiro estado. Como poderiam dar remédio aos vossos males, se nem ao menos o conheceram? Vossas enfermidades principais são o orgulho, que vos subtrai de Deus, a concupiscência, que vos liga à terra, e eles não fizeram outra coisa senão entreter ao menos uma dessas enfermidades. Se vos deram Deus por objeto, foi apenas para exercer vossa soberba.”


     “Se se submete tudo à razão, a nossa religião nada terá de misterioso nem de sobrenatural. Se se contrariam os princípios da razão, a nossa religião será absurda e ridícula. A razão, diz Santo Agostinho, nunca se submeteria se não julgasse que há ocasiões em que deve submeter-se. É, pois, justo que se submeta quando julga que deve submeter-se.”


     “Não há nada tão conforme à razão como a retratação da razão (nas coisas que são de fé e nada tão contrário à razão como a retratação da razão nas coisas, que não são de fé). Dois excessos: excluir a razão, só admitir a razão.”


     “Os judeus estavam habituados aos grandes e brilhantes milagres; e assim, tendo tido os grandes lances do mar Vermelho e a terra de Canaã como um resumo das grandes coisas do seu Messias, esperavam coisas ainda mais brilhantes, das quais as de Moisés eram apenas amostras.
     Tendo o mundo envelhecido nesses erros carnais, Jesus Cristo veio no tempo predito, mas não com o brilho esperado; e, assim, eles pensaram que fosse. Depois de sua morte, São Paulo veio ensinar aos homens que todas essas coisas tinham vindo em figuras; que o reino de Deus não consistia na carne, mas no espírito; que os inimigos dos homens não eram os babilônios, mas as suas paixões; que Deus não se achava bem nos templos feitos pela mão do homem, mas num coração puro e humilhado; que a circuncisão do corpo era inútil, mas que era necessária a do coração, etc.”


     “Com efeito, quando os bens são prometidos em abundância, que os impedia de entender os verdadeiros bens, senão a sua cobiça, que determinava esse sentido aos bens da terra? Mas, os que não tinham bens senão em Deus os relacionavam unicamente com Deus. Com efeito, há dois princípios que dividem as vontades dos homens: a cobiça e a caridade. Isso não significa que a cobiça não possa existir com a fé em Deus e que a caridade não exista com os bens da terra. Mas, a cobiça serve-se de Deus e goza do mundo, ao passo que a caridade, ao contrário, (serve-se do mundo e goza de Deus).”


     “O único objeto da Escritura é a caridade. Tudo o que não vai ao único fim é a figura: de fato, só havendo um fim, tudo o que não vai nessa direção em palavras próprias é figura. Deus diversifica assim esse único preceito de caridade para satisfazer a nossa curiosidade que procura a diversidade, por essa diversidade que nos conduz ao nosso único necessário.”


     “Com efeito, uma só coisa é necessária, e amamos a diversidade; e Deus satisfaz uma e outra por essas diversidades que conduzem ao único necessário.”


     “Quando Davi predisse que o Messias livrará o seu povo dos seus inimigos, pode crer-se carnalmente que se trata dos egípcios; e, então, eu não saberia mostrar que a profecia se realizou. Mas, pode crer-se também que se trata das iniquidades; porque, na verdade, os egípcios não são inimigos, mas as iniquidades o são. Essa palavra inimigos é, pois, equívoca.
     Mas, se ele diz, em outro lugar, como o faz, que livrará o seu povo dos seus pecados, tão bem como Isaías e os outros, o equívoco desaparece, e o sentido duplo de inimigos reduz-se ao sentido simples de iniquidades: com efeito, se ele tivesse no espírito os pecados, bem podia denotá-los por inimigos; mas, se pensasse nos inimigos, não podia designá-los por iniquidades.”

     “Os grandes gênios têm o seu império, o seu brilho, a sua grandeza, a sua vitória e o seu lustre, e não têm nenhuma necessidade das grandezas carnais em que elas não têm relações. São vistos não pelos olhos, mas pelos espíritos; é o bastante. Os santos têm o seu império, o seu brilho, as suas vitórias, o seu lustre, e não têm nenhuma necessidade das grandezas carnais ou espirituais em que elas não têm nenhuma relação, pois não lhes acrescentam nada nem tiram. São vistos por Deus e pelos anjos, é não pelos corpos nem pelos espíritos curiosos: Deus lhes basta.”


     “Os apóstolos foram enganados ou enganadores. Um ou outro é difícil. Com efeito, não é possível pegar um homem para ser ressuscitado; e a hipótese dos apóstolos trapaceiros é bem absurda. Sigamo-la até ao fim; imaginemos esses doze homens reunidos depois da morte de Jesus Cristo, fazendo a conspiração de dizer que ele ressuscitou. Eles atacam com isso todas as potências. O coração dos homens é estranhamente inclinado à leviandade, à mudança, às promessas, aos bens. Por pouco que um deles fosse desmentido por todos esses atrativos e, o que é mais, pelas prisões, pela tortura e pela morte, eles estavam perdidos. Sigamos isso.
     Enquanto Jesus Cristo estava com eles, podia sustentá-los. Mas, depois disso, se não lhes apareceu, quem os fez agir?”


     “Ele é, pois, verdadeiro: tudo instrui o homem de sua condição; mas, é preciso entendê-lo bem: porque não é verdadeiro que tudo descubra Deus, e não é verdadeiro que tudo oculte Deus. Mas, é verdadeiro, ao mesmo tempo, que ele se oculta aos que o tentam e se descobre aos que o procuram; porque os homens são todos, ao mesmo tempo, indignos de Deus e capazes de Deus: indignos por sua corrupção, capazes por sua primeira natureza.
     Não há nada sobre a terra que não mostre ou a miséria do homem, ou a misericórdia de Deus; ou a impotência do homem sem Deus, ou a potência do homem com Deus. Todo o universo ensina ao homem ou que ele é corrompido ou que é redimido. Tudo lhe ensina sua grandeza ou sua miséria.”


     “Jesus Cristo veio cegar os que viam claro e dar a vista aos cegos; curar os doentes e deixar morrer os sãos; chamar à penitência e justificar os pecadores, e deixar os justos em seus pecados; encher os indigentes e deixar os ricos vazios.”


     “O conhecimento de Deus sem o da nossa miséria faz o orgulho. O conhecimento da nossa miséria sem o de Jesus Cristo faz o desespero. Mas, o conhecimento de Jesus Cristo nos isenta não só do orgulho como do desespero, porque encontramos nele, Deus, a nossa miséria e a via única de a reparar.”


     “Mas, não disse ele que Deus nos tenta? E assim não pode tentar-nos por milagres que parecem levar à falsidade?
     Há muita diferença entre tentar e induzir em erro. Deus tenta, mas não induz em erro. Tentar é proporcionar as ocasiões que não impõem necessidade. (...)
     Foi o que se viu em todos combates da verdade contra o erro, de Abel contra Caim, de Moisés contra os magos de Faraó, de Elias contra os falsos profetas, de Jesus Cristo contra os fariseus, de São Paulo contra Barjesus, dos apóstolos contra os exorcistas, dos cristãos contra os infiéis, dos católicos contra os hereges; e é o que se verá também no combate de Elias e de Enoc contra o Anticristo. Sempre o verdadeiro prevalece em milagres.”


     “Tendo considerado como se explica que haja tantos falsos milagres, falsas revelações, sortilégios, etc., pareceu-me que a verdadeira causa é que os há verdadeiros; pois não seria possível que houvesse tantos falsos milagres se não os houvesse verdadeiros, nem tantas falsas revelações se não as houvesse verdadeiras, nem tantas falsas religiões se não houvesse uma verdadeira. Pois, se nunca tivesse havido tudo isso, é como impossível que os homens o tivessem imaginado, e ainda mais impossível que tantos outros o tivessem acreditado. Mas, como houvesse grandíssimas coisas verdadeiras, e que assim foram julgadas por grandes homens, essa impressão deu causa a que quase todos se tornassem capazes de crer também nas falsas. E assim, em lugar de concluir que não há verdadeiros milagres, uma vez que há tantos falsos, é preciso dizer, ao contrário, que há verdadeiros milagres, uma vez que há tantos falsos; e que os há falsos, por isso que os há verdadeiros; e que não há mesmo falsas religiões senão porque há uma verdadeira.”


     “O coração tem suas razões, que a razão não conhece.”


     “É o coração que sente Deus, e não a razão. Eis o que é a fé: Deus sensível ao coração, não à razão.”


     “A religião é uma coisa tão grande que é justo que os que não desejavam dar-se ao trabalho de procurá-la, por ser ela obscura, fossem privados dela. De que, pois, nos lastimamos, se ela é tal que a podemos encontrar quando a procuramos?”


     “Duas leis bastam para regular toda a república cristã melhor do que todas as leis políticas: o amor de Deus e o do próximo.”


     “Eu teria muito mais medo de me enganar e de achar que a religião cristã seja verdadeira do que de não me enganar acreditando-a verdadeira. (Por nos enganarmos crendo verdadeira a religião cristã, não há grande coisa que perder. Mas, que desgraça nos enganarmos crendo-a falsa!)”


     “Nunca se pratica o mal tão plena e tão alegremente como quando praticado por um falso princípio de consciência.”


     “Eu creio de bom grado nas histórias cujas testemunhas se fazem degolar.”


     “O bom temor, vem da fé; o falso temor vem da dúvida. O bom temor traz a esperança, porque nasce da fé e porque se espera no Deus em que se crê: o mau leva ao desespero, porque se teme o Deus no qual não se tem fé. Uns temem perdê-lo, outros achá-lo.”


     “Se os nossos sentidos não se opusessem à penitência, e se a nossa corrupção não se opusesse à pureza de Deus, não haveria nisso nada de penoso para nós. Só sofremos à proporção que o vício que nos é natural resiste à graça sobrenatural O nosso coração sente-se dilacerado entre esses esforços contrários. Mas, seria bem injusto imputar essa violência a Deus, que nos atrai, em lugar de atribuí-la ao mundo, que nos retém. É como uma criança cuja mãe arranca-a dos braços dos ladrões e que deve amar no desgosto que sofre a violência amorosa e legítima de quem procura a sua liberdade, e só detestar a violência impetuosa e tirânica dos que a retém injustamente. A guerra mais cruel que Deus pode fazer aos homens, nesta vida, é deixá-los sem essa guerra que ele veio causar. Eu vim trazer a guerra, disse ele; e, para instruir dessa guerra, vim trazer o ferro e o fogo (Mateus, X, 34; Lucas, XII, 46). Antes dele, o mundo vivia numa falsa paz.”


     “Deus só observa o interior: a Igreja só julga pelo exterior. Deus absolve logo que vê a penitência no coração; a Igreja, quando a vê nas obras. Deus fará uma Igreja pura por dentro, que confunda por sua santidade interior e toda espiritual a impiedade interior dos sábios soberbos e dos fariseus; e a Igreja fará uma assembleia de homens cujos costumes exteriores sejam tão puros que confundam os costumes dos pagãos. Se há hipócritas tão bem disfarçados que ela não conhece o seu veneno, tolera-os; com efeito, ainda que eles não sejam recebidos por Deus, que não podem enganar, o são pelos homens, que enganam. Assim, ela não é desonrada por sua conduta, que parece santa.
     Mas, quereis que a Igreja não julgue nem o interior, porque isso só compete a Deus, nem o exterior, porque Deus só se detém no interior, e assim, tirando-lhe toda escolha dos homens, retendes na Igreja os mais depravados e os que a desonram tanto que as sinagogas dos judeus e as seitas dos filósofos os teriam exilado como indignos e os teriam abominado como ímpios.”


     “A natureza tem perfeições, para mostrar que é a imagem de Deus; e defeitos, para mostrar que é apenas a sua imagem.”


     “O ardor dos santos em investigar e praticar o bem seria inútil se a probabilidade fosse certa.”


     “A multidão que não se reduz à unidade é confusão; a unidade que não depende da multidão é tirania.”


     “Pois, enfim, que é o homem na natureza? Um nada em relação ao infinito, tudo em relação ao nada: um meio entre nada e tudo. Infinitamente afastado de compreender os extremos, o fim das coisas e o seu princípio estão para ele invencivelmente ocultos num segredo impenetrável; igualmente incapaz de ver o nada de onde foi tirado e o infinito que o absorve.
     Que fará, pois, senão perceber alguma aparência do meio das coisas, num desespero eterno de não conhecer nem seu princípio nem seu fim? Todas as coisas saíram do nada e foram trazidas até ao infinito. Quem seguirá esses assombrosos movimentos? O autor dessas maravilhas compreende-as; ninguém mais pode fazê-lo.”


     “A gente se julga, naturalmente, bem mais capaz de chegar ao centro das coisas do que de abraçar a sua circunferência. A extensão visível do mundo nos ultrapassa visivelmente; mas, como somos nós que ultrapassamos as pequenas coisas, julgamo-nos mais capazes de possuí-las; e, no entanto, é preciso não menos capacidade para ir até ao nada do que até ao tudo. É necessário que ela seja infinita para ambos, e me parece que quem tivesse compreendido os últimos princípios das coisas poderia também chegar até a conhecer o infinito. Um depende do outro, e um conduz ao outro. As extremidades se tocam e se reúnem à força de serem afastadas, e tornam a encontrar-se em Deus, e em Deus somente.
     Conhecemos, pois, o nosso alcance; somos alguma coisa e não somos tudo. O que temos de ser nos rouba o conhecimento dos primeiros princípios que nascem do nada, e o pouco que temos de ser nos oculta a visão do infinito.
     A nossa inteligência ocupa, na ordem das coisas inteligíveis, a mesma ordem que o nosso corpo na extensão da natureza.
     Limitados de toda forma, esse estado que ocupa o meio entre dois extremos se acha em todas as nossas potências.
     Os nossos sentidos nada percebem de extremo. Demasiado barulho nos ensurdece; demasiada luz deslumbra; demasiada distância e demasiada proximidade impedem a visão; demasiado comprimento e demasiada brevidade do discurso o obscurecem; demasiada verdade nos assombra: eu sei que não podem compreender que quem de zero tira quatro fica zero. Os primeiros princípios têm evidência demais para nós. Demasiado prazer incomoda; demasiadas consonâncias desagradam na música; e demasiados benefícios irritam: queremos ter com que sobrepagar a dívida: “Os benefícios são agradáveis na medida em que são vistos como podendo ser pagos; quando chegam em grande quantidade, o ódio é dado pelo favor1.”
     Não sentimos nem o extremo quente, nem o extremo frio. As qualidades excessivas nos são inimigas e não sensíveis: não as sentimos, toleramo-las. Demasiada juventude e demasiada velhice impedem o espírito; instrução demais e pouca demais. Enfim, as coisas extremas são para nós como se não existissem, e nós não existimos em relação a elas: elas nos escapam, ou nós a elas.
     Eis o nosso verdadeiro estado. Eis o que nos torna incapazes de saber com certeza e de ignorar em absoluto. Vogamos num meio vasto, sempre incertos e flutuantes, impelidos de uma extremidade a outra. Algum termo em que pensássemos ligar-nos e firmar-nos, abala e nos abandona; e, se o seguimos, ele escapa à nossa captura, escorrega-nos e foge com uma fuga eterna. Nada se detém para nós. É o estado que nos é natural e, todavia, o mais contrário à nossa inclinação: queimamos de desejo de achar assento firme e uma última base constante para nela edificar uma torre que se eleve ao infinito; mas, todo o nosso fundamento estala e a terra se abre até aos abismos.
     Não busquemos, pois, segurança e firmeza. Nossa razão está sempre caída pela inconstância das aparências; nada pode fixar o finito entre os infinitos que a encerram e a evitam.
     Bem compreendido isso, creio que se ficará em repouso, cada qual no estado em que a natureza o colocou.”
1: Tácito: Anais, livro IV, XVIII.


     “Malgrado a visão de todas as misérias que nos tocam, que nos pegam pela garganta, temos um instinto que não podemos reprimir, que nos eleva.
     A grandeza do homem é tão visível que se tira mesmo de sua miséria. Porque ao que é natureza nos animais nós chamamos miséria no homem, por onde reconhecemos que a natureza sendo hoje semelhante à dos animais, ele caiu de melhor natureza que lhe era própria outrora.
     Por que, quem se acha infeliz por não ser rei, senão um rei destronado? Achava-se Paulo Emílio infeliz por não ser cônsul? Ao contrário, toda a gente achava que ele era feliz por o ter sido, porque sua condição não era de o ser sempre. Mas, achava-se Perseu tão infeliz por não ser mais rei, porque sua condição era de o ser sempre, que se achava estranho que ele suportasse a vida.
     Quem se acha infeliz por só ter uma boca? E quem não se achará infeliz por só ter um olho? Nunca talvez se tenha alguém lembrado de afligir-se por não ter três olhos; mas, ninguém se consola de não os ter.”


     “O homem não passa de um caniço, o mais fraco da natureza, mas é um caniço pensante. Não é preciso que o universo inteiro se arme para esmagá-lo. (Um vapor, uma gota d'água, é o bastante para matá-lo. Mas, quando o universo o esmagasse, o homem seria ainda mais nobre do que o que o mata, porque sabe que morre; e a vantagem que o universo tem sobre ele, o universo a ignora).
     Toda a nossa dignidade consiste, pois, no pensamento. É daí que é preciso nos elevarmos, não do espaço e da duração que não saberíamos encher. Trabalhemos, pois, para bem pensar: eis o princípio da moral.
     O homem é visivelmente feito para pensar; é toda a sua dignidade e todo o seu mérito, e todo o seu dever é pensar como é preciso: ora, a ordem do pensamento é começar por si, e por seu autor e seu fim.
     Ora, em que pensa o mundo? Nisso, nunca; mas em dançar, em tocar alaúde, em cantar, em fazer versos, em correr o anel, etc., em construir-se, em fazer-se rei, sem pensar no que é ser rei e ser homem.”


     “A vaidade está de tal forma arraigada no coração do homem, que um soldado, um criado, um cozinheiro, um malandro, se gaba e quer ter seus admiradores; e os filósofos também o querem. E os que escrevem contra a glória querem ter escrito bem, e os que o leem querem ter a glória de o ter lido; e eu, que escrevo isto, talvez tenha essa vontade, e talvez os que me lerem... também a tenham.”


     “Quem quiser conhecer por completo a vaidade do homem não tem senão que considerar as causas e os efeitos do amor. A causa é um não sei quê (Corneille) e os efeitos são espantosos. Esse “sei lá o quê”, tão pouca coisa que não se pode reconhecê-lo, revolve toda a terra, os príncipes, os exércitos, o mundo inteiro.
     Se o nariz de Cleópatra tivesse sido mais curto, toda a face da terra teria mudado.”


     “A vida humana não é senão uma ilusão perpétua; não se faz outra coisa senão enganar-se e adular-se mutuamente. Ninguém fala de nós em nossa presença como fala em nossa ausência. A união que existe entre os homens é fundada exclusivamente sobre esse recíproco ludíbrio; poucas amizades subsistiriam se um soubesse o que seu amigo diz de si quando ele não está, embora falando sinceramente e sem paixão.
     O homem não é, pois, senão disfarce, mentira e hipocrisia, quer em si mesmo, quer em relação aos outros. Não quer que se lhe diga a verdade, evita dizê-la aos outros; e todas essas disposições, tão afastadas da justiça e da razão, têm uma raiz natural em seu coração.”


     “A afeição ou o ódio mudam a justiça de face: e quanto um advogado bem pago adiantadamente acha mais justa a causa que defende! Quanto o seu gesto ousado o faz parecer melhor aos juízes enganados por essa aparência! Divertida razão que um vento maneja em todos os sentidos!”


     “O homem não é senão um sujeito cheio de erro natural e indelével sem a graça. Nada lhe mostra a verdade; tudo o engana. Esses dois princípios de verdade, a razão e os sentidos, além de não terem sinceridade, se enganam reciprocamente. Os sentidos enganam a razão com falsas aparências; e até essa balela que impingem à razão, recebem-na dela por sua vez. Ela se vinga: as paixões da alma perturbam os sentidos e lhes causam impressões falsas: mentem e se enganam mutuamente.
     O que me assombra mais é ver que nem todos se admiram de sua fraqueza. Age-se seriamente e cada um segue sua condição, não porque seja bom, de fato, segui-la, de vez que a moda é fazê-lo, mas como se cada um soubesse com certeza onde estão a razão e a justiça.” 


     “Não tendo os homens podido curar a morte, a miséria, a ignorância, acharam de bom aviso, para se tornarem felizes, não pensar nisso; eis tudo o que puderam inventar para se consolarem de tantos males. Mas, é uma consolação bem miserável, de vez que acaba, não por curar o mal, mas por ocultá-lo simplesmente por pouco tempo e, ocultando-o, fazer que não se pense em curá-lo de verdade. Assim, por um estranho desequilíbrio da natureza do homem, resulta que o desgosto, que é o seu mal mais sensível, seja até certo ponto o seu maior bem, porque pode contribuir mais que todas as coisas para fazê-lo procurar a sua verdadeira cura; e que o divertimento, que ele encara como o seu maior bem, é na realidade o seu maior mal, porque impede, mais que todas as coisas, que ele procure o remédio para os seus males: e ambos são uma prova admirável, da miséria e da corrupção do homem e, ao mesmo tempo, da sua grandeza, de vez que o homem se aborrece de tudo e só procura essa multidão de ocupações porque tem a ideia da felicidade que perdeu e que, não a achando em si, é por ele procurada inutilmente nas coisas exteriores, sem poder contentar-se nunca, porque ela não está nem em nós nem nas criaturas, mas somente em Deus.”


     “Que quimera é, então, o homem? Que novidade, que monstro, que caos, que motivo de contradição, que prodígio! Juiz de todas as coisas, imbecil verme da terra, depositário do verdadeiro, cloaca de incerteza e de erro, glória e escória do universo. Quem desfará essa confusão?”


     “Conhecei, pois, soberbo, que paradoxo sois em vós mesmo. Humilhai-vos, razão impotente; calai-vos, natureza imbecil; aprendei que o homem passa infinitamente o homem, e ouvi do vosso senhor a vossa condição verdadeira que ignorais. Escutai Deus.
     Pois enfim, se o homem nunca tivesse sido corrompido, gozaria com segurança, em sua inocência, tanto da verdade como da felicidade. E se o homem nunca tivesse sido senão corrompido, não teria nenhuma ideia nem da verdade nem da beatitude. Mas, infelizes que somos, e mais do que se não houvesse grandeza em nossa condição, não temos uma ideia da felicidade, e não podemos alcançá-la; sentimos uma imagem da verdade, e só possuímos a mentira: incapazes de ignorar em absoluto e de saber com certeza, de tal maneira é manifesto que estivemos num grau de perfeição de que infelizmente caímos!
     Conhecemos a verdade, não somente pela razão, mas ainda pelo coração; é desta última maneira que conhecemos os primeiros princípios, e é em vão que o raciocínio, que deles não participa, tenta combatê-los.”


     “A justiça sem a força é impotente; a força sem a justiça é tirânica.”


     “Há vícios que só permanecem em nós em virtude de outros; suprimindo o seu tronco, vão-se como ramos.”


     “Tenho como um fato que, se todos os homens soubessem o que dizem uns dos outros, não haveria quatro amigos no mundo.”


     “Persuadimo-nos melhor, de ordinário, com as razões que nós mesmos descobrimos do que com as que ocorrem ao espírito de outrem.”


     “Que vaidade a pintura, que atrai a admiração pela semelhança com as coisas cujos originais não se admiram!”

domingo, 19 de março de 2017

Novum Organum ou Verdadeiras Indicações Acerca da Interpretação da Natureza (Os Pensadores) – Francis Bacon

Editora: Nova Cultural
ISBN: 978-85-1300-849-2
Tradução e notas: José Aluysio Reis de Andrade
Opinião: ***
Páginas: 278 

     “Seria algo insensato, em si mesmo contraditório, estimar poder ser realizado o que até aqui não se conseguiu fazer, salvo se se fizer uso de procedimentos ainda não tentados.”


     “A lógica tal como é hoje usada mais vale para consolidar e perpetuar erros, fundados em noções vulgares, que para a indagação da verdade, de sorte que é mais danosa que útil.”


     “Não é, com efeito, empresa fácil transmitir e explicar o que pretendemos, porque as coisas novas são sempre compreendidas por analogia com as antigas.”


     “O intelecto humano, quando assente em uma convicção (ou por já bem aceita e acreditada ou porque o agrada), tudo arrasta para seu apoio e acordo. E ainda que em maior número, não observa a força das instâncias contrárias, despreza-as, ou, recorrendo a distinções, põe-nas de parte e rejeita, não sem grande e pernicioso prejuízo. Graças a isso, a autoridade daquelas primeiras afirmações permanece inviolada. E bem se houve aquele que, ante um quadro pendurado no templo, como ex-voto dos que se salvaram dos perigos de um naufrágio, instado a dizer se ainda se recusava a aí reconhecer a providência dos deuses, indagou por sua vez: “E onde estão pintados aqueles que, a despeito do seu voto, pereceram?”1  Essa é a base de praticamente toda superstição, trate-se de astrologia, interpretação de sonhos, augúrios e que tais: encantados, os homens, com tal sorte de quimeras, marcam os eventos em que a predição se cumpre; quando falha o que é bem mais frequente —, negligenciam-nos e passam adiante. Esse mal se insinua de maneira muito mais sutil na filosofia e nas ciências. Nestas, o de início aceito tudo impregna e reduz o que segue, até quando parece mais firme e aceitável. Mais ainda: mesmo não estando presentes essa complacência e falta de fundamento a que nos referimos, o intelecto humano tem o erro peculiar e perpétuo de mais se mover e excitar pelos eventos afirmativos que pelos negativos, quando deveria rigorosa e sistematicamente atentar para ambos. Vamos mais longe: na constituição de todo axioma verdadeiro, têm mais força as instâncias negativas.”
1: Cf. Cícero, De Natura Deorum, III. 37, § 89.


     “O intelecto humano não é luz pura1, pois recebe influência da vontade e dos afetos, donde se poder gerar a ciência que se quer. Pois o homem se inclina a ter por verdade o que prefere. Em vista disso, rejeita as dificuldades, levado pela impaciência da investigação; a sobriedade, porque sofreia a esperança; os princípios supremos da natureza, em favor da superstição; a luz da experiência, em favor da arrogância e do orgulho, evitando parecer se ocupar de coisas vis e efêmeras; paradoxos, por respeito à opinião do vulgo. Enfim, inúmeras são as fórmulas pelas quais o sentimento, quase sempre imperceptivelmente, se insinua e afeta o intelecto.”
1: Possivelmente sugerida por expressão de Heráclito (fragmento 118), através de comentadores romanos.


     “Ao reino dos céus não se permite entrar senão sob a figura de criança.”


     “As demonstrações falhas são as fortificações e as defesas dos ídolos. E as que nos ensina a dialética não fazem muito mais que subordinar a natureza ao pensamento humano e o pensamento humano às palavras. As demonstrações, na verdade, são como que filosofias e ciências em potência, porque, conforme sejam estabelecidas mal ou corretamente instituídas, assim também serão as filosofias e as especulações. Errados e incompetentes são os que seguem o processo que vai dos sentidos e das coisas diretamente aos axiomas e as conclusões. Esse processo consiste de quatro partes e quatro igualmente são seus defeitos. Em primeiro lugar, as próprias impressões dos sentidos são viciosas; os sentidos não só desencaminham como levam ao erro. É, pois, necessário que se retifiquem os descaminhos e se corrijam os erros. Em segundo lugar, as noções são mal abstraídas das impressões dos sentidos, ficando indeterminadas e confusas, quando deveriam ser bem delimitadas e definidas. Em terceiro lugar, é imprópria a indução que estabelece os princípios das ciências por simples enumeração, sem o cuidado de proceder àquelas exclusões, resoluções ou separações que são exigidas pela natureza. Por último, esse método de invenção e de prova, que consiste em primeiro se determinarem os princípios gerais e, a partir destes, aplicar e provar os princípios intermediários, é a matriz de todos os erros e de todas as calamidades que recaem sobre as ciências.”


     “As ciências que possuímos provieram em sua maior parte dos gregos. O que os escritores romanos, árabes ou os mais recentes acrescentaram não é de monta nem de muita importância; de qualquer modo, está fundado sobre a base do que foi inventado pelos gregos. Contudo, a sabedoria dos gregos era professoral e pródiga em disputas — que é um gênero dos mais adversos à investigação da verdade. Desse modo, o nome de sofistas, que foi aplicado depreciativamente aos que se pretendiam filósofos e que acabou por designar os antigos retores, Górgias, Protágoras, Hípias e Polo, compete igualmente a Platão, Aristóteles, Zenão, Epicuro, Teofrasto; e aos seus sucessores Crisipo, Carnéades, e aos demais. Entre eles havia apenas esta diferença: os primeiros eram do tipo errante e mercenário, percorriam as cidades, ostentando a sua sabedoria e exigindo estipêndio; os outros, do tipo mais solene e comedido, tinham moradas fixas, abriram escolas e ensinaram a filosofia gratuitamente. Mas ambos os gêneros, apesar das demais disparidades, eram professorais e favoreciam as disputas, e dessa forma facilitavam e defendiam seitas e heresias filosóficas, e as suas doutrinas eram (como bem disse, não sem argúcia, Dionísio, de Platão) palavras de velhos ociosos a jovens ignorantes1. Mas os mais antigos dos filósofos gregos, Empédocles, Anaxágoras, Leucipo, Demócrito, Parmênides, Heráclito, Xenófanes, Filolau e outros (omitimos Pitágoras, por se ter entregue à superstição), não abriram escolas, ao que saibamos: ao contrário, e, no maior silêncio, com rigor e simplicidade, vale dizer, com menor afetação e aparato, se consagraram à investigação da verdade. E a nosso juízo, melhor se saíram, só que suas obras, com o decorrer do tempo, foram sendo ofuscadas por outras mais superficiais, mas mais afeitas à capacidade e ao gosto do vulgo; pois o tempo, como o rio, trouxe-nos as coisas mais leves e infladas, submergindo o mais pesado e consistente. Contudo, nem mesmo eles foram imunes aos vícios de seu povo, pois propendiam mais que o desejável à ambição e à vaidade de fundarem uma seita e captarem a aura popular. Nada se há de esperar, com efeito, da busca da verdade, quando distorcida por tais inanidades. E, a propósito, não se deve omitir aquela sentença, ou melhor, vaticínio, do sacerdote egípcio a respeito dos gregos: “Sempre serão crianças, não possuirão nem a antiguidade da ciência, nem a ciência da Antiguidade”2. Os gregos, com efeito, possuem o que é próprio das crianças: estão sempre prontos para tagarelar, mas são incapazes de gerar, pois, a sua sabedoria é farta em palavras, mas estéril de obras. Aí está por que não se mostram favoráveis os signos3 que se observam na gente e na fonte de que provém a filosofia ora em uso.”
1: Apud Diógenes Laércio, sobre Platão.
2: Platão, Timeu, 23 B.
3: Signa, termo tomado por metáfora à astrologia, indicando os auspícios para um empreendimento.


     “De todos os signos nenhum é mais certo ou nobre que o tomado dos frutos. Com efeito, os frutos e os inventos são como garantias e fianças da verdade das filosofias. Ora, de toda essa filosofia dos gregos e todas as ciências particulares dela derivadas, durante o espaço de tantos anos, não há um único experimento de que se possa dizer que tenha contribuído para aliviar e melhorar a condição humana, que seja verdadeiramente aceitável e que se possa atribuir às especulações e às doutrinas da filosofia. É o que ingênua e prudentemente reconhece Celso1 ao falar que primeiro se fizeram experimentos em medicina, e depois sobre eles os homens construíram os sistemas filosóficos, buscando e assinalando as causas, e não inversamente, ou seja, que da descoberta das causas se tenham estabelecido e deduzido os experimentos da medicina. Por isso não deve parecer estranho que entre os egípcios, que divinizavam e consagravam os inventores, houvesse mais imagens de animais que de homens, pois os animais com seu instinto natural produziram muito no caminho de descobertas úteis, enquanto os homens, com os seus discursos e ilações racionais, pouco ou nada concluíram.
     Os alquimistas com sua atividade fizeram algumas descobertas, mas como que por acaso e pela variação dos experimentos (como fazem com frequência os mecânicos), não por arte e com método, e isso porque a sua atividade tende mais a confundir os experimentos que a estimulá-los. Mesmo aqueles que se dedicaram à chamada magia natural fizeram algumas descobertas, mas poucas em número e sobretudo superficiais e frutos da impostura. Devemos, em suma, aplicar à filosofia o princípio da religião, que quer que a fé se manifeste pelas obras, estabelecendo assim que um sistema filosófico seja julgado pelos frutos que seja capaz de dar; se é estéril deve ser refutado como coisa inútil, sobretudo se em lugar de frutos bons como os da vinha e da oliva produz os cardos e espinhos das disputas e das contendas.”
1: Celso, em De Re Medica.


     “Os homens devem perguntar que coisa disseram ou fizeram de mal quando o povo os enche de apoio e aplauso”. (Plutarco, Vida de Fócion)


     “Ainda há outra causa grande e poderosa do pequeno progresso das ciências. E ei-la aqui: não é possível cumprir-se bem uma corrida quando não foi estabelecida e prefixada a meta a ser atingida. A verdadeira e legítima meta das ciências é a de dotar a vida humana de novos inventos e recursos. Mas a turba, que forma a grande maioria, nada percebe, busca o próprio lucro e a glória acadêmica.”


     “Indague agora o espírito sóbrio e diligente qual o caminho escolhido e usado pelos homens para a investigação e descoberta da verdade. Logo notará um método de descoberta muito simples e sem artifícios, que é o mais familiar aos homens. E esse não consiste senão, da parte de quem se disponha e apreste para a descoberta, em reunir e consultar o que os outros disseram antes. A seguir, acrescentar as próprias reflexões. E, depois de muito esforço da mente, invocar, por assim dizer, o seu gênio para que expanda os seus oráculos. Trata-se de conduta sem qualquer fundamento e que se move tão-somente ao sabor de opiniões.”


     “No tocante à antiguidade, a opinião dos homens é totalmente imprópria e, a custo, congruente com o significado da palavra. Deve-se entender mais corretamente por antiguidade a velhice e a maturidade do mundo e deve ser atribuída aos nossos tempos e não à época em que viveram os antigos, que era a do mundo mais jovem. Com efeito, aquela idade que para nós é antiga e madura é nova e jovem para o mundo. (...)
     A reverência à Antiguidade, o respeito à autoridade de homens tidos como grandes mestres de filosofia e o geral conformismo para com o atual estádio do saber e das coisas descobertas também muito retardaram os homens na senda do progresso das ciências, mantendo-os como que encantados.”


     “Com razão já se disse que “a verdade é filha do tempo, não da autoridade1”.”
1: Expressão que teve origem em Aulo Gélio, Noctes Atticae, XII, 11, mas modernamente vulgarizada por Bacon com sentido mais rico.


     “Ainda mais, quem atente para o refinamento próprio das artes liberais ou, ainda, o das artes mecânicas, na preparação de substâncias naturais e leve em conta coisas como a descoberta dos movimentos celestes em astronomia, da harmonia em música, das letras do alfabeto (ainda não em uso no reino dos chineses) em gramática; e igualmente, na mecânica, o descobrimento das obras de Baco e Ceres, ou seja, a arte da preparação do vinho, da cerveja, da panificação, das destilações e similares, e de outras delícias da mesa; e também reflita e observe quanto tempo transcorreu para que essas coisas (todas, exceto a destilação, já conhecidas dos antigos) alcançassem o avanço que em nosso tempo desfrutam; e, ainda, o quão pouco são baseadas (o mesmo que já se disse dos relógios) em observações e em axiomas da natureza; e, indo um pouco mais longe, como essas coisas facilmente poderiam ter sido descobertas em circunstâncias óbvias ou por observações casuais.
     Quem assim proceder, facilmente se libertará de qualquer admiração, antes se compadecerá da condição humana, por tantos séculos em tão grande penúria e esterilidade de artes e invenções. E aqueles mesmos inventos de que fizemos menção são mais antigos que a filosofia e as artes intelectuais e, pode-se dizer que, quando tiveram início as ciências racionais e dogmáticas, cessou a invenção de obras úteis.
     E o mesmo interessado, uma vez que passe das oficinas às bibliotecas, ficará admirado da imensa variedade de livros. Mas, detendo-se e examinando com mais cuidado a sua matéria e conteúdo, certamente a sua admiração volver-se-á em sentido contrário, ao aí constatar as infinitas repetições e que os homens dizem e fazem sempre o mesmo. De sorte que, da admiração pela variedade, passará ao espanto pela indigência e pobreza das coisas que têm prendido e ocupado a mente dos homens.
     Quem, ainda, se disponha a considerar aquelas coisas tidas mais por curiosas que sérias e passe a examinar mais a fundo as obras dos alquimistas, acabará não sabendo se estes são mais dignos de riso ou de lágrimas.”


     “Finalmente, constatar-se-á que, mercê da infâmia de alguns teólogos, foi quase que totalmente barrado o acesso à filosofia, mesmo depurada. Alguns, em sua simplicidade, temem que a investigação mais profunda da natureza avance além dos limites permitidos pela sua sobriedade, transpondo, e dessa forma distorcendo, o sentido do que dizem as Sagradas Escrituras a respeito dos que querem penetrar os mistérios divinos, para os que se volvem para os segredos da natureza, cuja exploração não está de maneira alguma interdita. Outros, mais engenhosos, pretendem que, se se ignoram as causas segundas, será mais fácil atribuir-se os eventos singulares à mão e à férula divinas — o que pensam ser do máximo interesse para a religião. Na verdade, procuram “agradar a Deus pela mentira”1.
     Outros temem que, pelo exemplo, os movimentos e as mudanças da filosofia acabem por recair e abater-se sobre a religião. Outros. finalmente, parecem temer que a investigação da natureza acabe por subverter ou abalar a autoridade da religião, sobretudo para os ignorantes. Mas estes dois últimos temores parecem-nos saber inteiramente a um instinto próprio de animais, como se os homens, no recesso de suas mentes e no segredo de suas reflexões, desconfiassem e duvidassem da firmeza da religião e do império da fé sobre a razão e, por isso, temessem o risco da investigação da verdade na natureza. Contudo, bem consideradas as coisas, a filosofia natural, depois da palavra de Deus, é a melhor medicina contra a superstição, e o alimento mais substancioso da fé.”
1: Jó, 13,7 “Porventura por Deus falareis perversidade? E por ele falareis engano?”


     “Muitos passarão e a ciência se multiplicará. (Daniel, 12,4)


     “Quantos foram os erros do passado, tantas serão as razões de esperança para o futuro.”
   

     “A mente humana, no curso dos descobrimentos, tem estado tão desastrada e mal dirigida que primeiro desconfia de si mesma e depois se despreza. Primeiro lhe parece impossível certo invento; depois de realizado, considera incrível que os homens não o tenham feito há mais tempo.”


     “O que é mais útil na prática é mais verdadeiro no saber.”


     “Nada há de mais verdadeiro na natureza que a proposição “do nada nada provém” e que a outra sua parceira “nada há que se reduza ao nada”; quer dizer, a quantidade em si da matéria ou a sua soma total permanece inalterada, sem aumentar ou diminuir.1
1: Conhecidas expressões originadas em Parmênides e muito difundidas no Renascimento.


     “Sabe-se que o ribombar dos canhões, que pode ser ouvido até a trinta milhas, é ouvido primeiro pelos que se acham perto e depois pelos que se acham distantes do local do disparo. E até a vista, cuja ação é rapidíssima, também exige instantes certos para sua atuação; como está provado pelo fato de que a uma certa velocidade os corpos não são mais distinguidos, como é o caso da bola disparada por um mosquete que passa ante a vista em um tempo menor que o exigido para a imagem impressionar a vista.
     Esse exemplo e outros semelhantes fizeram surgir uma dúvida verdadeiramente espantosa, ou seja, a de que o aspecto do céu estrelado e sereno é visto no momento mesmo em que existe ou um pouco depois; e também, se existem, na contemplação dos corpos celestes, um tempo real e um tempo aparente, um espaço real e um espaço aparente, tal como é indicado pelos astrônomos nas paralaxes. Pois pareceria, de fato, inacreditável que as imagens dos corpos celestes pudessem atravessar, com seus raios, em um instante, espaços celestes tão vastos sem o emprego de qualquer tempo. Mas essa dúvida relacionada com um intervalo de tempo entre o tempo verdadeiro e o tempo aparente desvanece-se completamente quando se leva em conta a imensa perda de grandeza que devem ter as estrelas na sua imagem aparente, em razão da distância e também pelo fato de os corpos esbranquiçados, aqui na terra, poderem ser percebidos imediatamente, mesmo a uma distância de sessenta milhas. Não pode haver dúvida de que a luz dos corpos celestes ultrapassa em muito, em força de radiação, a cor viva da brancura, como também a luz de qualquer chama conhecida.”


     “Todavia, os homens são muito impacientes, tanto na investigação quanto na prática; mesmo que aí esteja o verdadeiro fio do labirinto para a descoberta de obras mais importantes.”

sábado, 18 de março de 2017

Ortodoxia (Parte II) – G. K. Chesterton

Editora: Mundo cristão
ISBN: 978-85-7325-505-8
Tradução: Almiro Pisetta
Opinião: ***
Páginas: 264 

     “As pessoas primeiro prestaram homenagem a um local e depois conquistaram a glória para ele. Roma não foi amada por ser grande. Ela foi grande por ter sido amada.”


     “O suicídio não só constitui um pecado, ele é o pecado. É o mal extremo e absoluto; a recusa de interessar-se pela existência; a recusa de fazer um juramento de lealdade à vida. O homem que mata um homem, mata um homem. O homem que se mata, mata todos os homens; no que lhe diz respeito, ele elimina o mundo. Seu ato é pior (considerado simbolicamente) do que qualquer estupro ou atentado a bomba, pois destrói todos os prédios; insulta a todas as mulheres. O ladrão se satisfaz com diamantes; mas o suicida não: esse é seu crime. Ele não pode ser subornado, nem com as cintilantes pedras da Cidade Celestial. O ladrão elogia os objetos que furta, quando não elogia o dono deles. Mas o suicida insulta a todos os objetos da terra ao não furtá-los. Ele conspurca cada flor ao recusar-se a viver por ela.
     Não existe nenhuma criatura no cosmos, por mínima que seja, para quem a sua morte não é um escárnio. Quando alguém se enforca numa árvore, as folhas poderiam cair de raiva e os pássaros fugir em fúria, pois cada um deles recebeu uma afronta direta. Obviamente pode haver patéticas desculpas emocionais para o ato. Geralmente as há para o estupro, e quase sempre para o atentado a bomba. Mas quando se trata de esclarecer ideias e o significado inteligente das coisas, então, na sepultura na encruzilhada1 e na estaca cravada no corpo, há muito mais verdade racional e filosófica do que nas máquinas de suicídio do sr. Archer. Há um significado no enterro à parte de um suicida. O crime desse homem é diferente de outros crimes — pois torna até os crimes impossíveis
     Li uma solene bobagem de algum livre-pensador. Dizia ele que um suicida era simplesmente o mesmo que um mártir. A patente falácia desse texto ajudou-me a esclarecer a questão. Obviamente um suicida é o oposto de um mártir. Um mártir é um homem que se preocupa tanto com alguma coisa fora dele que se esquece de sua vida pessoal. Um suicida é um homem que se preocupa tão pouco com tudo o que está fora dele que ele quer ver o fim de tudo. Um quer que alguma coisa comece; o outro, que tudo acabe.
     Em outras palavras, o mártir é nobre, exatamente porque (embora renuncie ao mundo ou execre toda a humanidade) ele confessa esse supremo laço com a vida; coloca o coração fora de si mesmo: morre para que alguma coisa viva. O suicida é ignóbil porque não tem esse vínculo com a existência: ele é meramente um destruidor. Espiritualmente, ele destrói o universo. E depois me lembrei da estaca e da encruzilhada, e o estranho fato de que o cristianismo mostrara esse rigor incomum para com o suicida. Pois o cristianismo mostrara um ardente incentivo ao martírio. 
     O cristianismo histórico foi acusado, não inteiramente sem razão, de levar o martírio e o ascetismo a um ponto extremo, desolado e pessimista. Os primeiros mártires cristãos falavam de morte com uma alegria horrível. Blasfemavam as belas funções do corpo, sentiam o cheiro da sepultura à distância como se ela fosse um campo de flores. Tudo isso a muitos parecia a própria poesia do pessimismo. Todavia, existe a estaca na encruzilhada para mostrar o que o cristianismo pensava do pessimista.”
1: Segundo o costume cristão, o suicida não podia ser enterrado no cemitério.


     “Esse lado perverso do otimismo meramente externo também se mostrava no mundo antigo. Por volta da época em que o idealismo estoico começava a mostrar as fraquezas do pessimismo, a velha adoração da natureza pelos antigos começava a mostrar as enormes fraquezas do otimismo. A adoração da natureza é bastante natural enquanto a sociedade é jovem, ou, em outras palavras, não há nada de errado com o panteísmo desde que seja a adoração de Pã.
     Mas a natureza tem outro lado que a experiência e o pecado não demoram a descobrir, e não é leviandade dizer do deus Pã que ele logo mostrou seu casco fendido. A única objeção à religião natural é que, de certo modo, ela sempre se torna antinatural. Alguém ama a natureza de manhã pela sua inocência e amabilidade, e à noite, se ainda continuar a amá-la, será pela sua escuridão e crueldade. Ele se lava ao amanhecer em águas claras como faziam os Homens Sábios dos estoicos; no entanto, de algum modo no final sombrio do dia, ele se lavará no sangue quente de um boi, como fazia Juliano, o Apóstata. A mera busca da saúde sempre conduz a algo doentio.
     A natureza física não deve ser transformada no objeto direto de obediência; ela deve ser desfrutada, não adorada. As estrelas e as montanhas não devem ser levadas a sério. Se o forem, nós vamos acabar onde acabou a adoração pagã da natureza. Por ser a terra bondosa, nós podemos imitar todas as suas crueldades. Por ser a sexualidade sadia, nós podemos enlouquecer por ela. O mero otimismo atingia seu final insano e apropriado. A teoria de que tudo era bom tornara-se uma orgia geral de tudo o que era ruim.
     Em contrapartida, os nossos pessimistas idealistas foram representados pelos velhos remanescentes dos estoicos. Marco Aurélio e seus amigos haviam de fato abandonado a ideia de qualquer deus presente no universo e procuravam apenas o deus interior. Não depositavam nenhuma esperança na virtude da natureza, e quase nenhuma esperança na virtude da sociedade. Não alimentavam um interesse suficiente no mundo exterior para realmente destruí-lo ou revolucioná-lo. Não amavam suficientemente a cidade para atear-lhe fogo.
     Assim, o mundo antigo estava exatamente diante do nosso desolado dilema. As únicas pessoas que realmente desfrutavam desse mundo ocupavam-se em desintegrá-lo; e as pessoas virtuosas não atribuíam atenção suficiente a essa gente para derrubá-la. Diante desse dilema (o mesmo que nós enfrentamos) o cristianismo de repente entrou em cena e apresentou uma resposta singular, que o mundo no fim aceitou como A resposta. Foi a resposta naquela época, e eu penso que é a resposta agora.”


     “A expressão radical para todo o teísmo cristão era esta: que Deus era um criador, como um artista é um criador. Um poeta está tão separado de seu poema que ele mesmo refere-se a ele como uma coisinha que foi “jogada fora”. Até mesmo no ato de produzi-lo ele o jogou fora. Esse princípio segundo o qual toda criação, toda procriação é um desprender-se é no mínimo coerente através do cosmos como o princípio evolucionário de que todo crescimento é uma ramificação. Uma mulher perde o filho exatamente quando o está dando à luz. Toda criação é separação. O nascimento é uma despedida tão solene quanto a morte.
     O princípio filosófico básico do cristianismo era que esse divórcio no ato divino de criar (como o que separa o poeta do poema ou a mãe do filho recém-nascido) era a verdadeira descrição do ato com o qual a energia absoluta criou o mundo. Segundo a maioria dos filósofos, Deus ao criar o mundo o escravizou. Segundo o cristianismo, ao criá-lo Deus o libertou. Deus havia escrito não exatamente um poema, mas antes uma peça; uma peça que planejara à perfeição, mas que tinha necessariamente legado a atores e diretores humanos, que a partir daquele tempo a transformaram numa grande confusão.”


     “Não preciso lembrar ao leitor que a ideia dessa combinação é de fato central na teologia ortodoxa. Pois a teologia ortodoxa tem insistido especialmente que Cristo não foi um ser separado de Deus e do homem, como um elfo, nem tampouco um ser meio humano e meio não humano, como um centauro, mas as duas coisas ao mesmo tempo e as duas coisas de modo pleno, verdadeiro homem e verdadeiro Deus.”


     “A coragem é quase uma contradição em termos. Significa um forte desejo de viver que toma a forma de uma disposição para morrer. “Quem perder a sua vida, salvá-la-á,” não é um fragmento de misticismo para santos e heróis. É um fragmento de orientação para o dia a dia de navegantes e alpinistas. Poderia ser estampado no livro de orientações ou de exercícios para escaladores de montanhas. Nesse paradoxo está todo o princípio da coragem; mesmo da coragem totalmente terrena ou totalmente brutal. Um homem isolado pelo mar pode salvar a vida arriscando-a no precipício.
     Ele só pode escapar da morte se for continuamente pisando a um centímetro dela. Um soldado cercado por inimigos, se quiser achar uma saída, precisa combinar um forte desejo de viver com uma estranha despreocupação com a morte. Ele não deve simplesmente agarrar-se à vida, pois então será covarde — e não escapará. Ele não deve simplesmente aguardar a morte, pois então será suicida — e não escapará. Ele deve buscar a vida num espírito de furiosa indiferença diante dela; deve desejar a vida como água e, no entanto, beber a morte como vinho.
     Nenhum filósofo, imagino eu, jamais expressou esse enigma romântico com a necessária lucidez, e eu certamente não o fiz. Mas o cristianismo fez mais; ele demarcou seus limites nas terríveis sepulturas do suicida e do herói, mostrando a distância entre quem morre por amor à vida e quem morre por amor à morte. E depois disso sempre ostentou acima das lanças europeias o estandarte do mistério da cavalaria: a coragem cristã, que é um desdém da morte; não a coragem chinesa, que é um desdém da vida.”


     “Tomemos outro caso: a complicada questão da caridade, que alguns idealistas altamente descaridosos parecem julgar muito simples. A caridade é um paradoxo, como a modéstia e a coragem. Mal formulada, a caridade certamente significa uma de duas coisas: perdoar atos imperdoáveis ou amar pessoas não amáveis. Mas se nos perguntarmos (como fizemos no caso do orgulho) o que um pagão sensato sentiria a respeito desse assunto, vamos provavelmente começar da base da questão.
     Um pagão sensato diria que há algumas pessoas que se podem perdoar; e algumas que não se podem: um escravo que roubasse vinho poderia ser motivo de riso; um escravo que traísse seu benfeitor poderia ser morto e amaldiçoado mesmo depois de morto. Na medida em que o ato era perdoável, o homem era perdoável. Isso, mais uma vez, é racional, e até reconfortante; mas é uma diluição. Não deixa espaço para o puro horror perante uma injustiça, como aquele que é uma grande beleza no inocente. E não deixa espaço para a mera ternura pelos homens na qualidade de homens, como a que constitui todo o fascínio do caridoso.
     Como antes, o cristianismo entrou em cena. Entrou de maneira alarmante com uma espada e separou uma coisa da outra. Separou o crime do criminoso. Ao criminoso devíamos perdoar até setenta vezes sete. Ao crime não devíamos perdoar de modo algum. Não bastava que os escravos que roubassem vinho inspirassem em parte ira e em parte bondade. Nós devíamos nos irar muito mais com o furto do que antes, e, no entanto, devíamos ser muito mais bondosos com os ladrões do que antes. Havia espaço para a ira e para o amor sem limites. E quanto mais eu contemplava o cristianismo, tanto mais percebia que, embora ele houvesse estabelecido uma regra e uma ordem, o objetivo principal dessa ordem era permitir espaço para coisas boas sem limites.”


     “Lembre-se de que a Igreja abraçou especificamente ideias perigosas; ela foi uma domadora de leões. A ideia do nascimento por meio do Espírito Santo, da morte de um ser divino, do perdão dos pecados ou do cumprimento das profecias — qualquer um pode ver que são ideias que precisam apenas de um toque para transformar-se em algo blasfemo ou feroz. Aqui basta observar que se algum pequeno erro fosse cometido na doutrina, enormes disparates poderiam ser cometidos na felicidade humana.
     Uma frase formulada erroneamente acerca da natureza do simbolismo teria quebrado todas as melhores estátuas da Europa. Um deslize nas definições poderia parar todas as danças; poderia secar todas as árvores de Natal ou quebrar todos os ovos de Páscoa. As doutrinas tinham de ser definidas dentro de rigorosos limites, até mesmo para que o homem pudesse desfrutar de liberdades humanas gerais. A Igreja precisou ser cuidadosa, se não por outro motivo para que o mundo pudesse ficar despreocupado.
     Essa é a emocionante aventura da Ortodoxia. As pessoas adquiriram o tolo costume de falar de ortodoxia como algo pesado, enfadonho e seguro. Nunca houve nada tão perigoso ou tão estimulante como a ortodoxia. Ela foi a sensatez, e ser sensato é mais dramático que ser louco. Ela foi o equilíbrio de um homem por trás de cavalos em louca disparada, parecendo abaixar-se para este lado, depois para aquele, mas em cada atitude mantendo a graça de uma escultura e a precisão da aritmética.
     A Igreja em seus primeiros dias correu violenta e velozmente com qualquer cavalo de batalha; no entanto, é totalmente anti-histórico dizer que ela apenas cometeu loucuras apegando-se a uma única ideia, como um fanatismo vulgar. Ela curvou-se para a esquerda e para a direita, na medida exata a fim de evitar enormes obstáculos. Num dado momento ela abandonou o enorme vulto do arianismo, apoiado por todos os poderes deste mundo para fazer o cristianismo mundano demais. No instante seguinte ela estava se curvando para evitar o orientalismo, que o teria espiritualizado demais.
     A Igreja ortodoxa nunca tomou a rota fácil ou aceitou as convenções; a Igreja ortodoxa nunca foi respeitável. Teria sido mais fácil ter aceitado o poder terreno dos arianos. Teria sido mais fácil, durante o calvinista século 17, cair no abismo infinito da predestinação. É fácil ser louco; é fácil ser herege. É sempre fácil deixar que cada época tenha a sua cabeça; o difícil é não perder a própria cabeça. É sempre fácil ser um modernista; assim como é fácil ser um snob. Cair em qualquer uma das ciladas explícitas de erro e exagero que um modismo depois de outro e uma seita depois de outra espalharam ao longo da trilha histórica do cristianismo — isso teria sido de fato simples.
     É sempre simples cair; há um número infinito de ângulos para levar alguém à queda, e apenas um para mantê-lo de pé. Cair em qualquer um dos modismos, do agnosticismo à Ciência Cristã, teria de fato sido óbvio e sem graça. Mas evitá-los a todos tem sido uma estonteante aventura; e na minha visão a carruagem celestial voa esfuziante atravessando as épocas. Enquanto as monótonas heresias estão esparramadas e prostradas, a furiosa verdade cambaleia, mas segue de pé.”


     “Foram aqui enfatizadas as seguintes proposições: primeiro, que algum tipo de fé é necessário em nossa vida até mesmo para melhorá-la; segundo, que algum tipo de insatisfação com as coisas como elas se apresentam é necessária até mesmo para sentir-se satisfeito; terceiro, que para se ter esse contentamento e descontentamento, ambos necessários, não basta ter o equilíbrio óbvio do estoico. Pois a mera resignação não tem a gigantesca leveza do prazer, nem a orgulhosa intolerância da dor. Há uma objeção vital ao conselho de simplesmente sorrir e suportar. A objeção é que se você simplesmente suportar, você não sorri. Os heróis gregos não sorriem; mas as gárgulas sim — porque são cristãs. E quando um cristão está satisfeito, ele se sente (no sentido mais exato da palavra) assustadoramente satisfeito; a sua satisfação é assustadora.
     Cristo profetizou toda a arquitetura gótica naquela hora em que gente nervosa e respeitável (gente como os que hoje fazem objeções ao realejo) objetava contra a gritaria dos moleques de rua de Jerusalém. Disse ele: “Se eles se calarem, as pedras clamarão”. Sob o impulso do seu espírito surgiram como em clamoroso coro as fachadas das catedrais medievais, apinhadas de rostos gritando e bocas abertas. A profecia se cumpriu: as próprias pedras gritam.”


     “Podemos dizer, de modo geral, que o pensamento livre é a melhor de todas as salvaguardas contra a liberdade. Controlada num estilo moderno, a emancipação da mente do escravo é a melhor maneira de impedir a emancipação desse escravo. Ensine-o a preocupar-se com a questão de querer ou não ser livre, e ele não se libertará. De novo, pode-se dizer que este exemplo é remoto ou extremo. Mas, de novo, é exatamente verdade em relação ao homem da rua ao nosso redor.
     É verdade que o escravo negro, sendo um bárbaro aviltado, provavelmente terá um afeto humano de lealdade, ou um afeto humano pela liberdade. Mas o homem que vemos todos os dias — o trabalhador da fábrica do sr. Gradgrind, o pequeno funcionário do escritório do sr. Gradgrind — está mentalmente preocupado demais para preocupar-se com a liberdade. Ele é mantido sob controle com literatura revolucionária. É acalmado e mantido em seu lugar por meio de uma constante sucessão de filosofias insensatas. Ele é marxista num dia, nietzcheano no outro, super-homem (provavelmente) no dia seguinte e escravo todos os dias.
     A única coisa que permanece depois de todas as filosofias é a fábrica. O único homem que ganha com todas essas filosofias é Gradgrind. Para ele valeria a pena manter sua escravidão comercial abastecida de literatura cética. E pensando nisso agora, parece óbvio: o sr. Gradgrind é famoso por doar bibliotecas. Nisso ele mostra a sua inteligência. Todos os livros modernos estão do seu lado. Enquanto a visão do céu estiver sempre mudando, a visão da terra será exatamente a mesma. Nenhum ideal continuará por um tempo longo o suficiente para ser concretizado, mesmo que seja de modo parcial. O jovem moderno nunca mudará o ambiente; ele sempre mudará a mente.
     Essa, portanto, é a nossa primeira exigência envolvendo o ideal para o qual se direciona o progresso: ele deve ser fixo. Whistler costumava fazer muitos estudos rápidos de um modelo; não importava se tinha de rasgar vinte retratos. Mas teria importado se ele erguesse o olhar e visse, cada vez, uma nova pessoa placidamente posando para o retrato. Assim, não interessa (comparativamente falando) quantas vezes a humanidade fracassa na imitação do seu ideal; pois nesse caso os seus velhos fracassos são frutíferos. Mas interessa dramaticamente quantas vezes a humanidade muda o seu ideal; pois nesse caso todos os seus velhos fracassos são infrutíferos.”


     “A essência de todo panteísmo, evolucionismo e religião cósmica moderna está realmente nesta proposição: que a natureza é a nossa mãe. Infelizmente, se você considerar a natureza como mãe, vai descobrir que ela é madrasta. O ponto principal do cristianismo era este: que a natureza não é a nossa mãe, a natureza é nossa irmã. Podemos sentir orgulho de sua beleza, uma vez que temos o mesmo pai; mas ela não tem autoridade sobre nós; temos de admirá-la, não de imitá-la.
     Isso confere ao prazer tipicamente cristão neste mundo um estranho toque de leveza que é quase frivolidade. A natureza foi mãe solene para os adoradores de Ísis e Cibele. Foi mãe solene para Wordsworth ou para Emerson. Mas a natureza não é solene para Francisco de Assis ou para George Herbert. Para São Francisco de Assis ela é irmã, até mesmo uma irmã menor: uma irmãzinha que dança, de quem se ri e a quem se ama.”


     “A seriedade não é uma virtude. Seria uma heresia, mas uma heresia muito mais sensata, dizer que a seriedade é um vício. É na verdade um lapso ou tendência natural a levar-se muito a sério, porque é a coisa mais fácil de fazer. É muito mais fácil escrever um bom artigo de fundo para o Times do que escrever uma boa piada para a punch. Pois a solenidade flui dos homens naturalmente; mas o riso é um salto. É fácil ser pesado, é difícil ser leve. Satanás caiu devido à força da gravidade.”


     “Existe o costume de nos queixarmos da correria e do árduo trabalho da nossa época. Mas na verdade a marca principal da nossa época é uma profunda preguiça e fadiga. O fato é que a verdadeira preguiça é a causa da aparente correria. Tomemos um caso totalmente externo: as ruas são barulhentas, cheias de táxis e carros. Mas isso não se deve à atividade humana, mas sim ao repouso. Haveria menos correria se houvesse maior atividade, se as pessoas simplesmente andassem a pé. O mundo seria mais silencioso se houvesse mais trabalho.”


     “Um feriado, assim como o liberalismo, significa apenas a liberdade do homem. Um milagre significa apenas a liberdade de Deus.”


     “O que pessoas modernas dizem com a maior convicção dirigindo-se a plateias apinhadas geralmente vai contra os fatos: na verdade, são nossos truísmos que são falsos. Aqui está um exemplo. Há uma frase de liberalidade fácil que é proferida muitas e muitas vezes em sociedades éticas e em parlamentos da religião: “As religiões da terra diferem em ritos e formas, mas são a mesma coisa naquilo que ensinam”. Isso é falso; é o contrário dos fatos.
     As religiões da terra não diferem muito em ritos e formas; elas diferem muito naquilo que ensinam. (...)
     Assim, a verdade é que a dificuldade de todos os credos do mundo não está, como se alega, nesta máxima barata: que eles concordam no significado, mas diferem no mecanismo. É exatamente o oposto. Eles concordam no mecanismo: quase todas as grandes religiões da terra funcionam com os mesmos métodos externos, com sacerdotes, escrituras, altares, irmandades com votos, festas especiais. Concordam no método de ensino; diferem é no que ensinam.”


     “Para que o homem possa amar a Deus é necessário não apenas que exista um Deus a ser amado, mas também um homem para amá-lo. Todas aquelas vagas mentes teosóficas para as quais o universo é um imenso crisol são exatamente as mesmas mentes que recuam por instinto diante daquela frase do evangelho que abala o mundo declarando que o Filho de Deus veio não com a paz, mas com a espada que separa. A frase soa inteiramente verdadeira mesmo quando considerada pelo que obviamente é: a afirmação de que qualquer homem que prega o verdadeiro amor está fadado a gerar o ódio. Ela é tão verdadeira referindo-se à fraternidade democrática como ao amor divino.
     O amor falso termina em acomodamento e filosofia comum; mas o amor real sempre terminou em sangue derramado.”


     “Se queremos reformas, devemos aderir à ortodoxia: especialmente nesta questão (tão discutida nos conselhos do sr. R. J. Campbell), a de insistir na divindade imanente ou na transcendente. Insistindo especialmente na imanência de Deus, temos introspecção, autoisolamento, quietismo, indiferença social — Tibete. Insistindo especialmente na transcendência de Deus, temos deslumbramento, curiosidade, aventura moral e política, indignação justa — cristianismo. Insistindo que Deus está no interior do homem, o homem está sempre no interior de si mesmo. Insistindo que Deus transcende ao homem, o homem tem de transcender a si mesmo.”


     “O Deus complexo do símbolo atanasiano talvez seja um enigma para o intelecto. Mas é muito menos provável que esse Deus acumule o mistério e a crueldade de um sultão do que o deus solitário de Omar ou Maomé. O deus que é uma simples terrível unidade não é apenas um rei, é um rei oriental.”


     “Para o budista ou para o fatalista oriental, a existência é uma ciência ou um plano, que deve acabar de uma determinada maneira. Mas para o cristão, a existência é uma história, que pode acabar de qualquer maneira. Num romance emocionante (esse produto puramente cristão) o herói não é devorado pelos canibais; mas é essencial para a existência da emoção que ele possa ser devorado por eles. O herói deve (por assim dizer) ser um herói palatável.
     Assim, a moral cristã sempre disse ao homem, não que ele perderia sua alma, mas que ele deveria cuidar para não perdê-la. Na moral cristã, em suma, é perverso chamar um homem de “condenado”; mas é estritamente religioso e filosófico chamá-lo de condenável. Todo o cristianismo se concentra no homem na encruzilhada. As vastas e rasas filosofias, as imensas sínteses da mentira, todas falam sobre épocas e evolução e desenvolvimentos definitivos. A verdadeira filosofia se preocupa com o instante. O homem tomará esta ou aquela estrada? — essa é a única coisa sobre a qual devemos pensar, se gostamos de fazê-lo.”


     “Naquela história terrível da Paixão há uma distinta sugestão emocional de que o autor de todas as coisas (de algum modo impensável) não apenas passou pela agonia, mas também pela dúvida. Está escrito: “Não tentarás o Senhor teu Deus”. Não, mas o Senhor teu Deus pode tentar-se a si mesmo; e tem-se a impressão de que foi isso o que aconteceu no Getsêmani.
     Num jardim Satanás tentou o homem; e num jardim Deus tentou Deus. De alguma forma sobre-humana ele passou pelo horror humano do pessimismo. O mundo foi abalado e o sol desapareceu do céu não no momento da crucificação, mas no momento do grito do alto da cruz: o grito que confessou que Deus foi abandonado por Deus.
     E agora deixemos que os revolucionários escolham um credo dentre todos os credos e um deus dentre todos os deuses do mundo, ponderando com cuidado todos os deuses de inevitável recorrência e poder inalterável. Eles não encontrarão um outro deus que tenha ele mesmo passado pela revolta. Não (a questão torna-se difícil demais para a fala humana), mas deixemos que os próprios ateus escolham um deus. Eles encontrarão apenas uma divindade que chegou a expressar a desolação deles; apenas uma religião em que Deus por um instante deixou a impressão de ser ateu.”


     “A abóbada acima de nós não é surda porque o universo é um idiota: seu silêncio não é o silêncio sem piedade de um mundo sem fim e sem destino. O silêncio que nos cerca é antes uma pequena e compassiva quietude como a súbita quietude no quarto de um enfermo. Talvez a tragédia nos seja permitida como uma espécie de comédia benigna: porque a frenética energia das coisas divinas nos derrubaria como uma farsa de bêbados. Podemos aceitar as próprias lágrimas mais facilmente do que poderíamos aceitar a tremenda leveza dos anjos. Assim ficamos sentados talvez num quarto estrelado e silencioso, enquanto a risada dos céus é forte demais para os nossos ouvidos.
     A alegria, que foi a pequena publicidade do pagão, é o gigantesco segredo do cristão.”