A conversão de São Paulo

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domingo, 15 de maio de 2016

Guerra Civil: uma história do universo Marvel – Stuart Moore

Editora: Novo Século
ISBN: 978-85-4280-412-6
Tradução: Michele Gerhardt MacCulloch
Opinião: ***
Páginas: 398

     “Agora, porém, Tony começava a notar que alguma outra coisa o incomodava. Thor não havia sido apenas seu amigo; o deus do trovão era o eixo, o centro dos Vingadores. Tony e Capitão eram homens cheios de força de vontade, cada um com seus pontos fortes e fracos: o Capitão era guiado pelo coração e pelo instinto, Tony pela fé no poder da indústria e da tecnologia. Muitas vezes depois que a equipe foi fundada, eles quase foram aos tapas por causa de alguma estratégia ou sacrifício. E todas as vezes, Thor levantou aquela voz retumbante que não deixava espaço para discussões. Ele os lembrava de suas responsabilidades ou ria da tolice deles, e sua risada gigantesca sempre os unia. Ou, então, ele apenas se colocava atrás dos dois e dava tapinhas em suas costas, com tanta força que quase fundia a armadura de Tony em sua pele. (...)
     Tony sofrera por Thor no último mês. A dor e a frustração que sentiam foi motivo de discussão entre Os Vingadores: após dezenas, centenas de batalhas juntos, o amigo e companheiro deles aparentemente morrera sozinho, em uma guerra disputada bem longe dali, em algum outro plano de existência totalmente diferente. Os Vingadores não apenas estavam impotentes para ajudar o amigo, como provavelmente não poderiam sequer ter percebido a batalha que tirou a vida dele.”


     “Aranha se debruçou sobre uma intricada máquina, uma treliça de vidro e metal. Ben franziu a testa.
     – Melhor não mexer nisso.
     – Foi mal. Reed não vai gostar?
     – Pior. Ele vai passar vinte minutos explicando o que ela faz.”


     “No momento em que Tony Stark subiu na tribuna, sentiu um frio na barriga. Olhou em volta, confuso. Já havia participado de dezenas de coletivas ali, na sala de imprensa principal da Stark Enterprises.
     De repente, ele se deu conta: É isso. A última vez que a sala de imprensa ficou tão cheia assim foi há dois anos, quando – impulsivamente e sem planejar – revelou ao mundo o segredo da sua vida: que ele era o Homem de Ferro.
     Tony limpou a garganta e se aproximou do microfone.
     – Já estivemos aqui antes?
     Uma onda de risos encheu a sala. Tony
     – Geralmente, quando estou de pé na frente de um grupo de pessoas, começo com estas palavras: Meu nome é Tony. E eu sou alcoólatra.
     A multidão riu novamente, um pouco nervosa. Pelo menos, não são hostis.
     – Isso aqui é diferente, claro. Mas estranhamente similar. – Ele fez uma pausa de efeito, tomando um gole de sua água com gás. – Uma das primeiras coisas que se aprende durante a recuperação é que você tem de jogar limpo com as pessoas, em todos os níveis. Comecei esse processo dois anos atrás. A minha identidade como Homem de Ferro é de conhecimento público, assim como meus impostos, minha história familiar e o histórico detalhado de meus dolorosos fracassos pessoais. A minha vida não é apenas um livro aberto; é praticamente um texto eletrônico com código aberto com licença da Creative Commons – mais risos.
     – Mas existe uma coisa que as pessoas que não têm o meu… problema… costumam não entender. Um alcoólatra não busca ajuda quando as coisas estão indo bem para ele. Alguns de nós precisam chegar ao fundo do poço. Outros chegam a um ponto em que o estilo de vida, os efeitos cumulativos sobre si mesmos e sobre outras pessoas ficam pesados demais para suportar. Ainda assim, alguns experimentam um momento de clareza. Um breve e vívido lampejo de seu futuro, do destino terrível que espera por ele se não mudar.
     – Senhoras e senhores, Stamford (quando o combate dos Novos Guerreiros contra um grupo de vilões resultou em mais de novecentas mortes de civis) o acidente que foi o meu momento de clareza. Tem muita coisa na minha vida das quais me envergonho, mas tenho muito orgulho da minha carreira como super-herói. Salvei milhares de vidas, coloquei centenas de criminosos perigosos atrás das grades e impedi dezenas de catástrofes antes que elas sequer pudessem acontecer. Fundei os Vingadores, a primeira equipe de super-heróis do mundo, cuja longa história de bons trabalhos fala por si.
     – Não, não, não aplaudam. Não quero o aplauso de vocês hoje; não é por isso que estou aqui. Porque outra lição que aprendi é que decidir não tomar o primeiro gole não é o fim da jornada de um alcoólatra em direção à luz. É apenas o primeiro passo.
     – E para mim, para a comunidade super-humana, da qual me orgulho fazer parte, a minha decisão de ir a público, de revelar os detalhes da minha vida para vocês, foi o Primeiro Passo. Hoje é o próximo passo.
     Ele fez uma pausa, a garganta seca. Seu olhar correu pela sala, analisando o mar de repórteres, escrevendo e digitando furiosamente em seus dispositivos eletrônicos.
     – Super-humanos, meta-humanos, heróis, vilões. Como quer que vocês os chame, eles se proliferaram enormemente na última década. Alguns nasceram com habilidades físicas e mentais superiores; outros recebem seus poderes por meio de acidentes. Outros, como eu, desenvolveram meios tecnológicos de melhorar seus dons naturais. Outros, sem nenhum poder de verdade, fazem justiça com as próprias mãos, vestindo fantasias e saindo nas ruas. E outros ainda, são seres alienígenas, total ou parcialmente humanos.
     – Vivemos em um mundo assustador e incerto. Guerras estouram no Oriente Médio e em outros lugares; o medo do terrorismo ainda não acabou. Em todo o país, famílias enfrentam a ameaça de ruína financeira, de não realizar o Sonho Americano que sempre foi a promessa desta nação. O Sonho que tem sido tão bom pra mim, pessoalmente.
     – Então, estou aqui hoje, um homem, para prometer a vocês: eu farei o que puder para tornar o mundo um pouco menos assustador. Não posso resolver a economia mundial, e não posso fazer muito a respeito de ataques nucleares ou biológicos. Mas eu posso, e vou, resolver o problema das armas super-humanas de destruição em massa.
     – De hoje em diante, qualquer homem, mulher ou alienígena que for para as ruas ou para os céus tentar usar seus dons naturais ou artificiais em um cenário público, deve seguir os seguintes passos. Primeiro, deve se registrar on-line no Departamento de Segurança Nacional, um processo rápido e simples. Entre as informações requeridas estão: o verdadeiro nome e endereço do solicitante, informações para contato 24 horas, nível de experiência e extensão das habilidades super-humanas, se tiver.
     – Esse formulário será rapidamente avaliado por mim e pelo Secretário de Defesa – o secretário assentiu. – Dependendo da nossa avaliação, várias coisas podem acontecer depois. A pessoa pode ser aprovada para atividade meta-humana sob os termos da Lei de Registro de Super-humanos. Ela receberá um contrato severo, informando sobre as diretrizes de comportamento apropriado, e um distintivo emitido pela S.H.I.E.L.D. Essa pessoa também receberá um salário de acordo com sua experiência e habilidade, além de plano de saúde, tudo isso supervisionado pelo governo federal e pela S.H.I.E.L.D.
     Tony fez uma pausa para respirar.
     – Se o solicitante não tiver muita experiência, ele receberá uma licença condicional, que o permitirá que exercer suas habilidades depois, e só depois, de ter concluído um curso intensivo de oito semanas em um dos vários centros de treinamento que serão estabelecidos pela S.H.I.E.L.D. Esses centros são ultrassecretos e ficam longe de qualquer grande centro urbano, assim não haverá nenhum perigo para a população civil durante o processo de treinamento. Uma vez que o solicitante tiver concluído o curso, ele será avaliado por um conselho formado por super-heróis experientes. Se for considerado responsável e competente no uso de seus poderes, uma licença total será emitida. Caso contrário, ele terá a opção de retomar o curso de treinamento ou se aposentar.
     – É claro que haverá aqueles solicitantes que mostrarão ser um perigo real ou potencial para o público, seja por imprudência, falta de moral ou pela natureza incontrolável de seu poder. A eles será negada a oportunidade de praticar suas habilidades. Acreditamos que isso seja justo. Um homem pode possuir o conhecimento de como construir uma bomba atômica, mas isso não lhe dá o direito de montar uma no meio da Times Square – Tony fez uma pausa. – Acreditem em mim, descobri isso aos nove anos.
     O grupo riu. Está dando certo, pensou Tony. Eles estão realmente me apoiando.
     – Vou responder a algumas perguntas agora, depois tenho uma surpresa para vocês. Mas antes que façam qualquer pergunta, quero lembrar-lhes que nada disso é decisão minha. É a lei; foi apropriadamente votada pelo Congresso e assinada pelo  presidente. Ele me pediu, pessoalmente, para supervisionar a implementação da Lei de Registro de Super-humanos, e eu aceitei. É meu privilégio e dever em vários aspectos.”


     “Capitão tossiu, depois fez uma careta. Tudo doía: seu rosto, seus braços, suas pernas. Tony realmente lhe maltratara.
     Falcão terminou de colocar a atadura e deu um passo atrás.
     – Você parece uma múmia que acabou de fugir da tumba – disse o homem alado. – Mas ainda lhe sobraram alguns dentes.
     – E tenho a intenção de usá-los – respondeu o Capitão.”


     Outro raio. Reed virou-se para olhar para Thor, majestoso e cruel no centro da carnificina.
     Chuva pingava de seus cabelos louros, mal o tocando.
     – Thor – chamou Reed. – Pode parar. O esquadrão de limpeza da S.H.I.E.L.D. assume daqui.
     – Peter – disse Tony. – Os prisioneiros ficam por sua conta. Precisamos fazer uma lista deles antes…
     – CUIDADO!
     Tony levantou a cabeça – tarde demais. Golias agigantava-se sobre eles, com pelo menos seis metros de altura – Sue nunca o tinha visto tão alto. O grito de dor de Golias enchia o ar; ele não tinha nenhuma proteção contra a frequência das ondas. Mas segurava sobre a cabeça um enorme tonel químico, pingando um líquido verde.
     Com um uivo de agonia, ele jogou sua carga em cima do Homem de Ferro.
     Adaga – olhos arregalados em agonia – disparou uma saraivada de raios. O tonel atingiu o Homem de Ferro; os raios atingiram o tonel; e o tonel explodiu formando uma enorme bola de fogo.
     Mulher-Hulk, foi atingida pela bola de fogo, gritou e correu, sua roupa estava em chamas. Viúva Negra se apressou para ajudá-la.
     As chamas estavam altas, chamuscando um helicóptero da S.H.I.E.L.D. que pairava sobre a fábrica. A aeronave se inclinou, girou no céu – e atingiu Miss Marvel, que estava em pleno voo. Ela berrou, assustada, e caiu no solo.
     Meu Deus, pensou Sue. Será que eles mataram Tony?
     Lentamente, a bola de fogo diminuiu. E, no seu centro, agachado e apoiado em um joelho, apareceu a silhueta do Homem de Ferro.
     – Estou bem – a voz de Tony soou no transmissor de Sue. – Só um pouco queimado.
     E então, ela notou: os gemidos em sua orelha cessaram.
     A bola de fogo não matou Tony, mas desativou a frequência de ondas. A Resistência estava se levantando: Gavião Arqueiro, Falcão, Tigresa, Adaga e os Jovens Vingadores.
     Capitão América levantou um braço e gritou:
     Atacar!
     Em seguida, ele tombou pra frente e caiu no chão.
     Mais uma vez, o mundo explodiu em trajes correndo e golpes poderosos. Homem-Aranha encarou Célere, seus tentáculos se esforçando para pegar o adolescente a toda velocidade. Falcão alçou voo, bombardeando o Coisa em um mergulho. Gavião Arqueiro tentava acertar uma flecha na Viúva Negra; ela contra -atacava lançando seus ferrões no herói, que se esquivava.
     Miss Marvel levantou devagar do chão da fábrica, recuou ao tentar se apoiar no braço ferido. Seus olhos estavam vermelhos de fúria.
     Capitão América estava deitado imóvel, de cara com o concreto. Falcão gritou para Gavião Arqueiro:
     – Gavião! Pegue o Capitão. Temos que tirá-lo daqui!
     Sue virou-se para Reed e implorou:
     – Reed, temos que acabar com isso!
     Sue teve a impressão de ver uma faísca de medo nos olhos dele.
     – Eu já desativei o Thor.
     – Como assim, desativou?
     Tony Stark veio andando trôpego, sua armadura estalando. A explosão o havia danificado.
     – Reagrupar – ordenou Tony. – Temos de…
     Mas Golias virou o seu enorme corpo na direção dos Vingadores reunidos. Abaixou-se, agarrou o chão embaixo de seus pés e puxou. Eles tombaram e voaram. Rajadas de poder por todo lado; Miss Marvel se debatia no ar. Homem-Aranha lançou uma teia que agarrou-se a uma viga rachada.
     Thor virou-se para assistir ao caos. Raios brilhavam.
     Falcão mergulhou do céu, carregando Gavião Arqueiro, que apontou para o corpo imóvel do Capitão.
     Lentamente, o deus do trovão pegou seu martelo.
     Golias virou-se para ele.
     – Prepare-se para o retorno mais breve da história, Thor.
     Não, pensou Sue. Oh, não
     O martelo de Thor brilhou, com mais intensidade que nunca. Com um estrondo ensurdecedor, raios emanaram dele, avançando pelo ar…
     … e atingiu diretamente o peito de Golias.
     Havia sangue, raios e chuva, e o corpo de seis metros de altura de Golias caiu para trás no muro dos fundos da fábrica. Aterrissou quebrando plástico, metal e concreto.
     Ainda invisível, Sue rastejou até ele. Não se importava com o que Reed pensava. Não se importava se a S.H.I.E.L.D. a pegasse. Não se importava se Thor lançasse mais raios, fazendo dela outra vítima.
     Tocou a mão gelada de um metro de comprimento de Golias, viu fumaça saindo do buraco onde antes ficava o coração dele. Ela soube: Golias estava morto.
     A chuva continuava caindo com força. Mas as batalhas haviam cessado. Miss Marvel segurava o próprio braço, estremecendo de dor. Mulher-Hulk estava caída, as queimaduras cobriam metade de seu corpo. Homem de Ferro ainda estava ajoelhado, sem equilíbrio, tentando reiniciar seus sistemas criticamente danificados.
     A S.H.I.E.L.D. sobrevoava, assistindo com frios olhos mecânicos.
     Todos eles permaneciam imóveis, fitando o corpo de seis metros de um herói que ousou desafiar a Lei de Registro de Super-humanos.
     Sue não sentia nada. Só frio. Só conseguia pensar em uma coisa, a única que vinha à sua mente, a frase que Tony Stark pronunciara em sua famosa coletiva de imprensa: “Stamford foi meu momento de clareza”.
     Este, ela percebeu, é o meu.”


     “Capitão escolheu as palavras com cuidado.
     – E você está disposto a deixá-los impunes por isso?
     Adaga fez uma careta.
     – Eles podem fazer o que quiser agora. Thor está do lado deles.
     – Aquele não era Thor – afirmou Capitão. – Era algum Frankenstein que eles construíram para o exército de super-heróis deles. Você não conhecia Thor, garota. Não pense… nem por um momento… que ele teria assassinado um homem bom como Bill Foster.”

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