A conversão de São Paulo

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terça-feira, 10 de maio de 2016

A Cidade de Deus (Livros II-IV) – Santo Agostinho

Editora: Fundação Calouste Gulbenkian
ISBN: 978-97-2310-543-8
Tradução, prefácio, nota biográfica e transcrições: J. Dias Pereira
Opinião: ***
Páginas: 264 


     “Aperceber-te-ás desde quando, isto é, desde pouco depois da expulsão dos reis, eram desta qualidade os Romanos. Foi deles que Salústio, na obra Catilina, diria:
     Entre eles o direito, tal como o bem, tirava o seu valor mais da natureza do que das leis.
     Mas se se consideram assim aqueles tempos, dos quais se diz terem sido os melhores e os mais belos da República Romana, — que é que se dirá do período seguinte ou que é que se há-de pensar, para usar das próprias palavras do historiador, quando
     pouco a pouco se foi transformando da mais bela e da mais virtuosa (República) na pior e na mais corrompida,
depois da destruição de Cartago, como ele já notara? O que o próprio Salústio um tanto resumidamente recorda e escreve desses tempos pode ler-se na sua História: quão grave decadência dos costumes nasceu da prosperidade e acabou na guerra civil.
     Como ele diz:
     Desde essa época os costumes dos antepassados foram-se precipitando, não pouco a pouco, como outrora, mas como uma torrente. A juventude estava de tal forma corrompida pelo fausto e pela cobiça que com razão se podia dizer: surgiu uma geração que não é capaz de possuir patrimônio próprio nem permite que outros o possuam.”


     A felicidade de que queriam gozar e o gênero de vida que queriam levar os que acusam os tempos da religião cristã.
     A verdade é que tais adoradores e amigos desses deuses (romanos), dos quais se comprazem em ser imitadores até no crime e na depravação, não têm a menor preocupação em que a república seja má e tão corrompida. “Contanto que ela se aguente, dizem eles, contanto que floresça atulhada da abundância e gloriosa em vitórias ou — o que ainda é melhor — se mantenha numa paz firme, que nos importa o resto? O que acima de tudo interessa é:
     — que cada um aumente cada vez mais as suas riquezas;
     — que estas cubram as prodigalidades diárias com que o poderoso conserva submisso o débil;
     — que os pobres, procurando encher a barriga, estejam dispostos a agradar aos ricos;
     — que sob a sua proteção disfrutem duma pacífica ociosidade;
     — que os ricos abusem dos pobres, aumentando assim a sua clientela para serviço do próprio fausto;
     — que os povos deem os seus aplausos não aos defensores dos seus interesses, mas aos generosos com os seus vícios;
     — que não se deem ordens difíceis nem se proíba o que é impuro;
     — que os reis se preocupem, não com o bem, mas com a submissão dos seus súbditos;
     — que as províncias sirvam aos seus governadores, não como a moderadores dos costumes, mas como a donos dos seus bens e provedores dos seus prazeres;
     — que os honrem, não com sinceridade, mas iníqua e servilmente os temam;
     — que as leis se apliquem, mais para que ninguém cause dano à vinha alheia do que para defender a vida própria;
     — que ninguém seja levado perante os juízes, a não ser quando cause danos aos bens, à casa, à saúde, ou à vida de outrem contra a sua vontade;
     — quanto ao resto, que cada um faça o que lhe apetecer dos seus bens, com os seus bens ou com quem se lhe ponha à disposição;
     — que haja prostitutas públicas em abundância, quer para todos os que as quiserem gozar, quer, principalmente, para os que não podem ter uma particular;
     — que se construam enormes e suntuosos edifícios;
     — que sejam frequentes e opíparos os festins;
     — que, onde lhes aprouver, cada um possa, de dia ou de noite, jogar, beber, vomitar, dissolver-se;
     — que por toda a parte ressoe o barulho das danças;
     — que os teatros fervam com gritos de impudica alegria e todo o gênero de paixões, as mais cruéis e as mais infames;
     — que seja considerado como inimigo público aquele a quem esta felicidade desagrada;
     — e se algum pensar em alterá-la ou suprimi-la, que a multidão, senhora da sua liberdade, o afaste dos nossos ouvidos, o expulse de casa, o tire de entre os vivos;
     — que se tenham por verdadeiros os deuses que se preocuparam em proporcionar aos povos esta felicidade e em conservar aquela de que já disfrutavam;
     — que sejam venerados como quiserem, que exijam os jogos que lhes apetecerem, tal qual como os desejarem obter dos seus adoradores: façam apenas com que tal felicidade não seja posta em perigo nem pelo inimigo, nem pela peste, nem por qualquer calamidade”.”


     “Quem de são juízo não comparará esta república, não digo com o Império Romano, mas com o palácio de Sardanapalo? Outrora este rei entregou-se de tal forma aos prazeres que mandou inscrever isto na sua sepultura:
     Agora que estou morto só considero como bens os que, com paixão, sorvi quando era vivo*.
     Se eles o tivessem como rei, em tais casos tão indulgente, sem a ninguém pôr o menor entrave, ter-lhe-iam consagrado um templo e um flâmine com mais boa vontade do que os velhos romanos a Rômulo.”
*: Segundo a tradução de Cícero, o epitáfio estaria assim redigido: Haec habeo quae edi, quaeque exaturata libido hausit; et il ajacent multa et praeclara relicta (Eu possuo o que comi e o que recebi da voracidade das minhas paixões; porém desperdiçaram-se muitos outros e excelentes bens). Cícero — Tusculanae, V, 35,101.


     “É certo que (antes de o cristianismo se propagar pelo império romano) já tinham começado as guerras civis; já dantes tinha havido, em batalhas nefandas, horrendas carnificinas; já a muitos comovera o caso de certo soldado que, ao despojar um morto, reconheceu no cadáver desnudado o seu próprio irmão e, amaldiçoando as guerras civis, aí a si mesmo se aniquilou e se juntou ao corpo do irmão.”


     “Creio que agora devo falar dos únicos males que os pagãos não querem suportar, como são: a fome e a doença, a guerra e a espoliação, o cativeiro e as carnificinas e outros que tais. De fato os únicos males que os maus julgam maus são os que não fazem maus; mas não se envergonham de, entre os bens que louvam, serem eles, os maus, que os louvam. Sentem-se mais agastados por terem uma casa de campo má do que por terem uma má vida — como se o maior bem do homem consistisse em ter todas as coisas, salvo ele próprio, boas. Mas os seus deuses, quando eram por eles livremente adorados, não se opuseram a que tais males — únicos que receiam — lhes acontecessem.”


     “O início dos males civis foram as sedições dos Gracos provocadas pelas leis agrárias. Queriam, na verdade, distribuir pelo povo os campos que a nobreza possuía injustamente. Mas ousar extirpar uma já vetusta iniquidade revelou-se tarefa não só muito perigosa como extremamente perniciosa, como os fatos o demonstraram. Que carnificina a cometida quando o Graco mais velho foi assassinado! E também a cometida quando, não muito tempo depois, mataram o outro, seu irmão! Não era em nome das leis e por ordem das autoridades que nobres e plebeus se matavam; era pelas turbas em conflitos armados. Depois do assassínio do segundo Graco, o cônsul Lúcio Opímio, que, na cidade, contra ele tinha pegado em armas e, depois de o ter a ele e aos seus partidários atacado e abatido, fez uma ingente matança de cidadãos, — perseguiu o resto do partido por via judiciária e, após inquérito, imolou, diz-se, três mil homens.
     Disto se pode ver quão grande multidão de mortos pôde custar o desordenado choque das armas quando uma instrução judiciária dita regular pôde fazer tantas vítimas. O assassino de Graco vendeu a cabeça deste ao cônsul a peso de ouro. Tinham feito este contrato antes da matança.”


     “Efetivamente, os sofrimentos que aos justos advêm dos senhores injustos não são o castigo de uma falta, mas a provação da virtude. Por conseguinte, o bom, mesmo que reduzido à escravidão, é livre; ao passo que o mau, mesmo que seja rei, é escravo — não de um homem, mas, o que é mais grave, de tantos senhores quantos os vícios.


     “Afastada a justiça, que são, na verdade, os reinos senão grandes quadrilhas de ladrões? Que é que são, na verdade, as quadrilhas de ladrões senão pequenos reinos? Estas são bandos de gente que se submete ao comando de um chefe, que se vincula por um pacto social e reparte a presa segundo a lei por ela aceite. Se este mal for engrossando pela afluência de numerosos homens perdidos, a ponto de ocuparem territórios, constituírem sedes, ocuparem cidades e subjugarem povos arroga-se então abertamente o título de reino, título que lhe confere aos olhos de todos, não a renúncia à cupidez, mas a garantia da impunidade. Foi o que com finura e verdade respondeu a Alexandre Magno certo pirata que tinha sido aprisionado. De fato, quando o rei perguntou ao homem que lhe parecia isso de infestar os mares, respondeu ele com franca audácia: “O mesmo que a ti parece isso de infestar todo o mundo; mas a mim, porque o faço com um pequeno navio, chamam-me ladrão; e a ti porque o fazes com uma grande armada, chamam-te imperador”.”


     “Sem dúvida, porém, que viver em concórdia com um bom vizinho é uma felicidade maior do que subjugar um mau vizinho agressivo. Maus votos são os de quem deseja que haja quem odeie ou a quem tema para poder ter quem possa vencer.”

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