A conversão de São Paulo

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segunda-feira, 25 de maio de 2009

As Palavras Andantes - Eduardo Galeano

Editora: L&PM
ISBN: 8525404500
Opinião: ****
Páginas: 316

 Janela sobre a palavra (I)

     Os contadores de história, só podem contar enquanto a neve cai. A tradição manda que seja assim. Os índios do norte da América têm muito cuidado com essa questão dos contos. Dizem que quando os contos soam, as plantas não se preocupam em crescer e os pássaros esquecem a comida de seus filhotes.


     “Mas um escritor profissional deveria saber que numa narração verossímil, o tudo esta no que parece nada.”


     “O bordel, que havia sido frio como um hospital e duro como um quartel, encheu-se de pássaros e violas e plantas e cores. As pernas só eram abertas a partir do crepúsculo, e, enquanto durasse a noite. Durante o dia, e até a primeira badalada do ângelus, abriam-se as orelhas. Essa ideia veio da experiência. As meninas haviam aprendido que todo macho pelado esconde um náufrago que suplica amparo. O confessionário teve tanto êxito que transbordou de multidões que acudiam da inimiga cidade de Tegucigalpa e de todos os lugares. Pelas ladeiras da colina viam-se longas filas de homens, esperando a vez para contar dúvidas e segredos, medos guardados, sonhos e pesadelos. A igreja não competia. Os padres, como o senhor sabe, só recebem a confissão dos pecados, que é o que as pessoas menos necessitam confessar.”


     “Com a barriga acariciada pela água do rio, Dulcídio dorme a sesta.
     Quando abre um olho, vê a mulher. Ela esta lendo. Ele nunca havia visto, na vida, uma mulher de óculos.
     Dulcídio aproxima o nariz:
     – O que você esta lendo?
     Ela afasta o livro e olha para ele, sem susto, e diz:
     – Lendas.
     – Lendas?
     – Velhas vozes.
     – E para que servem?
Ela sacode os ombros:
     – Fazem companhia.


Janela sobre os seres e os afazeres

A pele da passadeira de roupas é lisa.
Longo e pontiagudo é o consertador de guarda-chuvas.
A vendedora de frangos parece um frango depenado.
Brilham demônios nos olhos do inquisidor.
Há duas moedas entre as pálpebras do avarento.
Os bigodes do relojoeiro marcam as horas.
Têm teclas as mãos da secretária.
O carcereiro tem cara de preso e o psiquiatra, cara de louco.
O caçador se transforma no animal que persegue.
O tempo transforma os amantes em gêmeos.
O cão passeia o homem que o passeia.
O torturador tortura os sonhos do torturador.
Foge, o poeta, da metáfora que encontra no espelho.


Janela sobre as paredes

Escrito em um muro de Montevidéu: As virgens têm muitos Natais, mas nenhuma Noite Boa.
Em Buenos Aires: Estou com ome. Já comi o f.
Também em Buenos Aires: Ressuscitaremos, ainda que isso nos custe a vida!
Em Quito: Quando tínhamos todas as respostas, mudaram as perguntas.
No México: Salário mínimo para o presidente, para ver o que ele sente.
Em Lima: Não queremos sobreviver. Queremos viver.
Em Havana: Tudo é dançável.
No Rio de Janeiro: Quem tem medo de viver não nasce.


Janela sobre as ditaduras invisíveis

A mãe abnegada exerce a ditadura da servidão.
O amigo solícito exerce a ditadura do favor.
A caridade exerce a ditadura da dívida.
A liberdade de mercado permite que você aceite os preços que lhe são impostos.
A liberdade de opinião permite que você escute aqueles que opinam em seu nome.
A liberdade de eleição permite que você escolha o molho com o qual será devorado.


Janela sobre a memória (I)

     À beira-mar de outro mar, outro oleiro se aposenta, em seus anos finais.
     Seus olhos se cobrem de névoa, suas mãos tremem: chegou a hora do adeus. Então acontece a cerimônia de iniciação: o oleiro velho oferece ao oleiro jovem sua melhor peça. Assim manda a tradição, entre os índios do noroeste da América: o artista que se despede entrega sua obra-prima ao artista que se apresenta.
     E o oleiro jovem não guarda esta peça perfeita para completá-la e admirá-la: a espatifa contra o solo, a quebra em mil pedaços, recolhe os pedacinhos e os incorpora à sua própria argila.


      “Temos um esplêndido passado pela frente?
     Para os navegantes com desejo de vento, a memória é um porto de partida.”


Janela sobre o corpo

A igreja diz: O corpo é uma culpa.
A ciência diz: O corpo é uma máquina.
A publicidade diz: O corpo é um negócio.
O corpo diz: Eu sou uma festa.


      “As mulheres? Uma raça inferior, como os negros, os pobres e os loucos. Incapazes de liberdade, como as crianças. Destinadas a chorar e a gritar, a falar mal de suas próximas e a mudar todo dia de opinião e de penteado. Na cama e na cozinha, às vezes dão prazer. Fora dali, só desgostos.”


      “Muito longe dali, Ventura despertou. Despertou todo sujo de sangue seco e atormentado pelas dores, do chapéu aos pés.
     Até respirar doía. Caminhar foi muito difícil, enorme sombra trêmula, e recordar foi muito mais difícil. Quando? Onde? Quem? Lua alta, lua ruim. Havia caído a noite, dentro dele havia caído a noite, e a noite já não era mais a hora do amor nem da guerra. Seus olhos haviam perdido a fala, e só tinha ouvidos para as goteiras da morte. Puta vida, vida sem fogo. Sobrevivendo? Sobremorrendo. Queira Deus soprar esta cinza.”


      “Ao anoitecer, seu marido passa para buscá-la. E no caminho de casa vão os dois, calados, respirando o veneno do ar, quando você torna a vê-lo no turbilhão das ruas: esse corpo, essa cara que sem palavras pergunta e chama.
     E desde então você o vê com os olhos abertos, em tudo que olha, e o vê com os olhos fechados. Em tudo que pensa; e o toca com seus olhos.
     Este homem vem de algum lugar que não é este lugar e de algum tempo que não é este tempo. Você, mãe de, mulher de, é a única que o vê, a única que pode vê-lo. Você já não tem mais fome de ninguém, fome de nada, mas cada vez que ele aparecesse e se desvanece, você sente uma irremediável necessidade de rir e chorar os risos e os prantos que engoliu ao longo de tantos longos anos, risos perigosos, prantos proibidos, segredos escondidos em quem sabe que cantos de seus cantos.
     E quando chega a noite, enquanto seu marido dorme, você vira de costas e sonha que desperta.”


      “Nas noites de frio, os homens ficam de cócoras, cobertos pelos ponchos, ao redor do fogo. Em rodas de chimarrão e aguardente, fumam e contam mentiras que dizem a verdade. E assim se vingam do frio e da bobagem de viver, e assim passam o tempo que o dia juntou para que a noite o perdesse.” 

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