segunda-feira, 22 de agosto de 2016

O povo brasileiro: A formação e o sentido do Brasil (Parte I) – Darcy Ribeiro

Editora: Companhia das Letras
ISBN: 978-85-7164-451-9
Opinião: ★★★★★
Páginas: 476
Sinopse: Obra magistral, e o maior desafio de Darcy Ribeiro, O povo brasileiro é uma tentativa de compreender quem somos, o que somos e a importância do nosso país. Talvez uma tarefa dura, mas imprescindível, pois segundo Darcy: “Este é um livro que quer ser participante, que aspira a influir sobre as pessoas e ajudar o Brasil a encontrar-se a si mesmo”.


“Fracassei em tudo o que tentei na vida. Tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui. Tentei salvar os índios, não consegui. Tentei fazer uma universidade séria e fracassei. Tentei fazer o Brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei. Mas os fracassos são minhas vitórias. Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu”.


“Mais que uma simples etnia, porém, o Brasil é uma etnia nacional, um povo-nação, assentado num território próprio e enquadrado dentro de um mesmo Estado para nele viver seu destino. Ao contrário da Espanha, na Europa, ou da Guatemala, na América, por exemplo, que são sociedades multiétnicas regidas por Estados unitários e, por isso mesmo, dilaceradas por conflitos interétnicos, os brasileiros se integram em uma única etnia nacional, constituindo assim um só povo incorporado em uma nação unificada, num Estado uni-étnico. A única exceção são as múltiplas microetnias tribais, tão imponderáveis que sua existência não afeta o destino nacional.
Aquela uniformidade cultural e esta unidade nacional - que são, sem dúvida, a grande resultante do processo de formação do povo brasileiro - não devem cegar-nos, entretanto, para disparidades, contradições e antagonismos que subsistem debaixo delas como fatores dinâmicos da maior importância. A unidade nacional, viabilizada pela integração econômica sucessiva dos diversos implantes coloniais, foi consolidada, de fato, depois da independência, como um objetivo expresso, alcançado através de lutas cruentas e da sabedoria política de muitas gerações. Esse é, sem dúvida, o único mérito indiscutível das velhas classes dirigentes brasileiras. Comparando o bloco unitário resultante da América portuguesa com o mosaico de quadros nacionais diversos a que deu lugar a América hispânica, pode se avaliar a extraordinária importância desse feito.
Essa unidade resultou de um processo continuado e violento de unificação política, logrado mediante um esforço deliberado de supressão de toda identidade étnica discrepante e de repressão e opressão de toda tendência virtualmente separatista. Inclusive de movimentos sociais que aspiravam fundamentalmente edificar uma sociedade mais aberta e solidária. A luta pela unificação potencializa e reforça, nessas condições, a repressão social e classista, castigando como separatistas movimentos que eram meramente republicanos ou antioligárquicos.
Subjacente à uniformidade cultural brasileira, esconde-se uma profunda distância social, gerada pelo tipo de estratificação que o próprio processo de formação nacional produziu. O antagonismo classista que corresponde a toda estratificação social aqui se exacerba, para opor uma estreitíssima camada privilegiada ao grosso da população, fazendo as distâncias sociais mais intransponíveis que as diferenças raciais.
O povo-nação não surge no Brasil da evolução de formas anteriores de sociabilidade, em que grupos humanos se estruturam em classes opostas, mas se conjugam para atender às suas necessidades de sobrevivência e progresso. Surge, isto sim, da concentração de uma força de trabalho escrava, recrutada para servir a propósitos mercantis alheios a ela, através de processos tão violentos de ordenação e repressão que constituíram, de fato, um continuado genocídio e um etnocídio implacável.
Nessas condições, exacerba-se o distanciamento social entre as classes dominantes e as subordinadas, e entre estas e as oprimidas, agravando as oposições para acumular, debaixo da uniformidade étnico-cultural e da unidade nacional, tensões dissociativas de caráter traumático. Em consequência, as elites dirigentes, primeiro lusitanas, depois luso-brasileiras e, afinal, brasileiras, viveram sempre e vivem ainda sob o pavor pânico do alçamento das classes oprimidas. Boa expressão desse pavor pânico é a brutalidade repressiva contra qualquer insurgência e a predisposição autoritária do poder central, que não admite qualquer alteração da ordem vigente. A estratificação social separa e opõe, assim, os brasileiros ricos e remediados dos pobres, e todos eles dos miseráveis, mais do que corresponde habitualmente a esses antagonismos. Nesse plano, as relações de classes chegam a ser tão infranqueáveis que obliteram toda comunicação propriamente humana entre a massa do povo e a minoria privilegiada, que a vê e a ignora, a trata e a maltrata, a explora e a deplora, como se esta fosse uma conduta natural. A façanha que representou o processo de fusão racial e cultural é negada, desse modo, no nível aparentemente mais fluido das relações sociais, opondo à unidade de um denominador cultural comum, com que se identifica um povo de milhões de habitantes, a dilaceração desse mesmo povo por uma estratificação classista de nítido colorido racial e do tipo mais cruamente desigualitário que se possa conceber.
O espantoso é que os brasileiros, orgulhosos de sua tão proclamada, como falsa, “democracia racial”, raramente percebem os profundos abismos que aqui separam os estratos sociais.
O mais grave é que esse abismo não conduz a conflitos tendentes a transpô-lo, porque se cristalizam num modus vivendi que aparta os ricos dos pobres, como se fossem castas e guetos. Os privilegiados simplesmente se isolam numa barreira de indiferença para com a sina dos pobres, cuja miséria repugnante procuram ignorar ou ocultar numa espécie de miopia social, que perpetua a alternidade. O povo-massa, sofrido e perplexo, vê a ordem social como um sistema sagrado que privilegia uma minoria contemplada por Deus, à qual tudo é consentido e concedido. Inclusive o dom de serem, às vezes, dadivosos, mas sempre frios e perversos e, invariavelmente, imprevisíveis.
Essa alternidade só se potencializou dinamicamente nas lutas seculares dos índios e dos negros contra a escravidão.
Depois, somente nas raras instâncias em que o povo-massa de uma região se organiza na luta por um projeto próprio e alternativo de estruturação social, como ocorreu com os Cabanos, em Canudos, no Contestado e entre os Mucker.
Nessas condições de distanciamento social, a amargura provocada pela exacerbação do preconceito classista e pela consciência emergente da injustiça bem pode eclodir, amanhã, em convulsões anárquicas que conflagrem toda a sociedade. Esse risco sempre presente é que explica a preocupação obsessiva que tiveram as classes dominantes pela manutenção da ordem. Sintoma peremptório de que elas sabem muito bem que isso pode suceder, caso se abram as válvulas de contenção. Daí suas “revoluções preventivas”, conducentes a ditaduras vistas como um mal menor que qualquer remendo na ordem vigente.
É de assinalar que essa preocupação se assentava, primeiro, no medo da rebeldia dos escravos. Dada a coloração escura das camadas mais pobres, esse medo racial persiste, quando são os antagonismos sociais que ameaçam eclodir com violência assustadora. Efetivamente, poderá assumir a forma de convulsão social terrível, porque, com uma explosão emocional, acabaria provavelmente vencida e esmagada por forças repressoras, que restaurariam, sobre os escombros, a velha ordem desigualitária.
O grande desafio que o Brasil enfrenta é alcançar a necessária lucidez para concatenar essas energias e orientá-las politicamente, com clara consciência dos riscos de retrocessos e das possibilidades de liberação que elas ensejam. O povo brasileiro pagou, historicamente, um preço terrivelmente alto em lutas das mais cruentas de que se tem registro na história, sem conseguir sair, através delas, da situação de dependência e opressão em que vive e peleja. Nessas lutas, índios foram dizimados e negros foram chacinados aos milhões, sempre vencidos e integrados nos plantéis de escravos. O povo inteiro, de vastas regiões, às centenas de milhares, foi também sangrado em contrarrevoluções sem conseguir jamais, senão episodicamente, conquistar o comando de seu destino para reorientar o curso da história. Ao contrário do que alega a historiografia oficial, nunca faltou aqui, até excedeu, o apelo à violência pela classe dominante como arma fundamental da construção da história. O que faltou, sempre, foi espaço para movimentos sociais capazes de promover sua reversão. Faltou sempre, e falta ainda, clamorosamente, uma clara compreensão da história vivida, como necessária nas circunstâncias em que ocorreu, e um claro projeto alternativo de ordenação social, lucidamente formulado, que seja apoiado e adotado como seu pelas grandes maiorias. Não é impensável que a reordenação social se faça sem convulsão social, por via de um reformismo democrático. Mas ela é muitíssimo improvável neste país em que uns poucos milhares de grandes proprietários podem açambarcar a maior parte de seu território, compelindo milhões de trabalhadores a se urbanizarem para viver a vida famélica das favelas, por força da manutenção de umas velhas leis. Cada vez que um político nacionalista ou populista se encaminha para a revisão da institucionalidade, as classes dominantes apelam para a repressão e a força.”


AS OPOSTAS VISÕES
Os índios perceberam a chegada do europeu como um acontecimento espantoso, só assimilável em sua visão mítica do mundo. Seriam gente de seu deus sol, o criador – Maíra –, que vinha milagrosamente sobre as ondas do mar grosso. Não havia como interpretar seus desígnios, tanto podiam ser ferozes como pacíficos, espoliadores ou dadores.
Provavelmente seriam pessoas generosas, achavam os índios. Mesmo porque, no seu mundo, mais belo era dar que receber. Ali, ninguém jamais espoliara ninguém e a pessoa alguma se negava louvor por sua bravura e criatividade. Visivelmente, os recém-chegados, saídos do mar, eram feios, fétidos e infectos. Não havia como negá-lo. É certo que, depois do banho e da comida, melhoraram de aspecto e de modos. Maiores terão sido, provavelmente, as esperanças do que os temores daqueles primeiros índios. Tanto assim é que muitos deles embarcaram confiantes nas primeiras naus, crendo que seriam levados a Terras sem Males, morada de Maíra (Newen Zeytung, A nova gazeta da terra do Brasil, 1515). Tantos que o índio passou a ser, depois do pau-brasil, a principal mercadoria de exportação para a metrópole.
Pouco mais tarde, essa visão idílica se dissipa. Nos anos seguintes, se anula e reverte-se no seu contrário: os índios começam a ver a hecatombe que caíra sobre eles. Maíra, seu deus, estaria morto? Como explicar que seu povo predileto sofresse tamanhas provações? Tão espantosas e terríveis eram elas, que para muitos índios melhor fora morrer do que viver.
Mais tarde, com a destruição das bases da vida social indígena, a negação de todos os seus valores, o despojo, o cativeiro, muitíssimos índios deitavam em suas redes e se deixavam morrer, como só eles têm o poder de fazer. Morriam de tristeza, certos de que todo o futuro possível seria a negação mais horrível do passado, uma vida indigna de ser vivida por gente verdadeira.
Sobre esses índios assombrados com o que lhes sucedia é que caiu a pregação missionária, como um flagelo. Com ela, os índios souberam que era por culpa sua, de sua iniquidade, de seus pecados, que o bom deus do céu caíra sobre eles, como um cão selvagem, ameaçando lançá-los para sempre nos infernos. O bem e o mal, a virtude e o pecado, o valor e a covardia, tudo se confundia, transtrocando o belo com o feio, o ruim com o bom. Nada valia, agora e doravante, o que para eles mais valia: a bravura gratuita, a vontade de beleza, a criatividade, a solidariedade. A cristandade surgia a seus olhos como o mundo do pecado, das enfermidades dolorosas e mortais, da covardia, que se adonava do mundo índio, tudo conspurcando, tudo apodrecendo.
Os povos que ainda o puderam fazer, fugiram mata adentro, horrorizados com o destino que lhes era oferecido no convívio dos brancos, seja na cristandade missionária, seja na pecaminosidade colonial. Muitos deles levando nos corpos contaminados as enfermidades que os iriam dizimando a eles e aos povos indenes de que se aproximassem.
Mas a atração irresistível das ferramentas, dos adornos, da aventura, os fazia voltar. Cada nova geração queria ver com seus próprios olhos o povo estranho, implantado nas praias, recebendo navios cheios de bens preciosíssimos.
Alguns se acercavam e aderiam, preferindo a aventura do convívio com os novos senhores, como flecheiros de suas guerras contra os índios arredios, do que a rotina da vida tribal, que perdera o viço e o brilho.
Esse foi o primeiro efeito do encontro fatal que aqui se dera. Ao longo das praias brasileiras de 1500, se defrontaram, pasmos de se verem uns aos outros tal qual eram, a selvageria e a civilização. Suas concepções, não só diferentes mas opostas, do mundo, da vida, da morte, do amor, se chocaram cruamente. Os navegantes, barbudos, hirsutos, fedentos de meses de navegação oceânica, escalavrados de feridas do escorbuto, olhavam, em espanto, o que parecia ser a inocência e a beleza encarnadas. Os índios, vestidos da nudez emplumada, esplêndidos de vigor e de beleza, tapando as ventas contra a pestilência, viam, ainda mais pasmos, aqueles seres que saíam do mar.
Para os que chegavam, o mundo em que entravam era a arena dos seus ganhos, em ouros e glórias, ainda que estas fossem principalmente espirituais, ou parecessem ser, como ocorria com os missionários. Para alcançá-las, tudo lhes era concedido, uma vez que sua ação de além-mar, por mais abjeta e brutal que chegasse a ser, estava previamente sacramentada pelas bulas e falas do papa e do rei. Eles eram, ou se viam, como novos cruzados destinados a assaltar e saquear túmulos e templos de hereges indianos. Mas aqui, o que viam, assombrados, era o que parecia ser uma humanidade edênica, anterior à que havia sido expulsa do Paraíso. Abre-se com esse encontro um tempo novo, em que nenhuma inocência abrandaria sequer a sanha com que os invasores se lançavam sobre o gentio, prontos a subjugá-los pela honra de Deus e pela prosperidade cristã. Só hoje, na esfera intelectual, repensando esse desencontro se pode alcançar seu real significado.
Para os índios que ali estavam, nus na praia, o mundo era um luxo de se viver, tão rico de aves, de peixes, de raízes, de frutos, de flores, de sementes, que podia dar as alegrias de caçar, de pescar, de plantar e colher a quanta gente aqui viesse ter. Na sua concepção sábia e singela, a vida era dádiva de deuses bons, que lhes doaram esplêndidos corpos, bons de andar, de correr, de nadar, de dançar, de lutar. Olhos bons de ver todas as cores, suas luzes e suas sombras. Ouvidos capazes da alegria de ouvir vozes estridentes ou melódicas, cantos graves e agudos e toda a sorte de sons que há. Narizes competentíssimos para fungar e cheirar catingas e odores. Bocas magníficas de degustar comidas doces e amargas, salgadas e azedas, tirando de cada qual o gozo que podia dar. E, sobretudo, sexos opostos e complementares, feitos para as alegrias do amor.
Os recém-chegados eram gente prática, experimentada, sofrida, ciente de suas culpas oriundas do pecado de Adão, predispostos à virtude, com clara noção dos horrores do pecado e da perdição eterna. Os índios nada sabiam disso. Eram, a seu modo, inocentes, confiantes, sem qualquer concepção vicária, mas com claro sentimento de honra, glória e generosidade, e capacitados, como gente alguma jamais o foi, para a convivência solidária.
Aos olhos dos recém-chegados, aquela indiada louçã, de encher os olhos só pelo prazer de vê-los, aos homens e às mulheres, com seus corpos em flor, tinha um defeito capital: eram vadios, vivendo uma vida inútil e sem prestança. Que é que produziam? Nada. Que é que amealhavam? Nada. Viviam suas fúteis vidas fartas, como se neste mundo só lhes coubesse viver. Aos olhos dos índios, os oriundos do mar oceano pareciam aflitos demais. Por que se afanavam tanto em seus fazimentos? Por que acumulavam tudo, gostando mais de tomar e reter do que de dar, intercambiar? Sua sofreguidão seria inverossímil se não fosse tão visível no empenho de juntar toras de pau vermelho, como se estivessem condenados, para sobreviver, a alcançá-las e embarcá-las incansavelmente?
Temeriam eles, acaso, que as florestas fossem acabar e, com elas, as aves e as caças? Que os rios e o mar fossem secar, matando os peixes todos?
“Os nossos tupinambás muito se admiram dos franceses e outros estrangeiros se darem ao trabalho de ir buscar os seus arabutan. Uma vez um velho perguntou-me: Por que vindes vós outros, maírs e perôs (franceses e portugueses) buscar lenha de tão longe para vos aquecer? Não tendes madeira em vossa terra? Respondi que tínhamos muita, mas não daquela qualidade, e que não a queimávamos, como ele o supunha, mas dela extraíamos tinta para tingir, tal qual o faziam eles com os seus cordões de algodão e suas plumas.
Retrucou o velho imediatamente: e porventura precisais de muito? – Sim, respondi-lhe, pois no nosso país existem negociantes que possuem mais panos, facas, tesouras, espelhos e outras mercadorias do que podeis imaginar e um só deles compra todo o pau-brasil com que muitos navios voltam carregados. – Ah! retrucou o selvagem, tu me contas maravilhas, acrescentando depois de bem compreender o que eu lhe dissera: Mas esse homem tão rico de que me falas não morre? – Sim, disse eu, morre como os outros.
Mas os selvagens são grandes discursadores e costumam ir em qualquer assunto até o fim, por isso perguntou-me de novo: e quando morrem para quem fica o que deixam? – Para seus filhos se os têm, respondi; na falta destes para os irmãos ou parentes mais próximos. – Na verdade, continuou o velho, que, como vereis, não era nenhum tolo, agora vejo que vós outros maírs sois grandes loucos, pois atravessais o mar e sofreis grandes incômodos, como dizeis quando aqui chegais, e trabalhais tanto para amontoar riquezas para vossos filhos ou para aqueles que vos sobrevivem! Não será a terra que vos nutriu suficiente para alimentá-los também? Temos pais, mães e filhos a quem amamos; mas estamos certos de que depois da nossa morte a terra que nos nutriu também os nutrirá, por isso descansamos sem maiores cuidados.” (Jean de Léry, 1960, Viagem à terra do Brasil)
Aquele desencontro de gente índia que enchia as praias, encantada de ver as velas enfunadas, e que era vista com fascínio pelos barbudos navegantes recém-chegados, era, também, o enfrentamento biótico mortal da higidez e da morbidade. A indiada não conhecia doenças, além de coceiras e desvanecimentos por perda momentânea da alma.
A branquitude trazia da cárie dental à bexiga, à coqueluche, à tuberculose e o sarampo. Desencadeia-se, ali, desde a primeira hora, uma guerra biológica implacável. De um lado, povos peneirados, nos séculos e milênios, por pestes a que sobreviveram e para as quais desenvolveram resistência. Do outro lado, povos indenes, indefesos, que começavam a morrer aos magotes. Assim é que a civilização se impõe, primeiro, como uma epidemia de pestes mortais. Depois, pela dizimação através de guerras de extermínio e da escravização. Entretanto, esses eram tão-só os passos iniciais de uma escalada do calvário das dores inenarráveis do extermínio genocida e etnocida.
Para os índios, a vida era uma tranquila fruição da existência, num mundo dadivoso e numa sociedade solidária. Claro que tinham suas lutas, suas guerras. Mas todas concatenadas, como prélios, em que se exerciam, valentes. Um guerreiro lutava, bravo, para fazer prisioneiros, pela glória de alcançar um novo nome e uma nova marca tatuada cativando inimigos. Também servia para ofertá-lo numa festança em que centenas de pessoas o comeriam convertido em paçoca, num ato solene de comunhão, para absorver sua valentia, que nos seus corpos continuaria viva.
Uma mulher tecia uma rede ou trançava um cesto com a perfeição de que era capaz, pelo gosto de expressar-se em sua obra, como um fruto maduro de sua ingente vontade de beleza. Jovens, adornados de plumas sobre seus corpos escarlates de urucu, ou verde-azulados de jenipapo, engalfinhavam-se em lutas desportivas de corpo a corpo, em que punham a energia de batalhas na guerra para viver seu vigor e sua alegria.
Para os recém-chegados, muito ao contrário, a vida era uma tarefa, uma sofrida obrigação, que a todos condenava ao trabalho e tudo subordinava ao lucro. Envoltos em panos, calçados de botas e enchapelados, punham nessas peças seu luxo e vaidade, apesar de mais vezes as exibirem sujas e molambentas, do que pulcras e belas.
Armados de chuços de ferro e de arcabuzes tonitruantes, eles se sabiam e se sentiam a flor da criação. Seu desejo, obsessivo, era multiplicar-se nos ventres das índias e pôr suas pernas e braços a seu serviço, para plantar e colher suas roças, para caçar e pescar o que comiam. Os homens serviam principalmente para tombar e juntar paus-de-tinta ou para produzir outra mercadoria para seu lucro e bem-estar.
Esses índios cativos, condenados à tristeza mais vil, eram também os provedores de suas alegrias, sobretudo as mulheres, de sexo bom de fornicar, de braço bom de trabalhar, de ventre fecundo para prenhar. A vontade mais veemente daqueles heróis d’além-mar era exercerem-se sobre aquela gente vivente como seus duros senhores. Sua vocação era a de autoridades de mando e cutelo sobre bichos e matos e gentes, nas imensidades de terras de que iam se apropriando em nome de Deus e da Lei.
O contraste não podia ser maior, nem mais infranqueável, em incompreensão recíproca. Nada que os índios tinham ou faziam foi visto com qualquer apreço, senão eles próprios, como objeto diverso de gozo e como fazedores do que não entendiam, produtores do que não consumiam. O invasor, ao contrário, vinha com as mãos cheias e as naus abarrotadas de machados, facas, facões, canivetes, tesouras, espelhos e, também, miçangas cristalizadas em cores opalinas. Quanto índio se desembestou, enlouquecido, contra outros índios e até contra seu próprio povo, por amor dessas preciosidades! Não podendo produzi-las, tiveram de encontrar e sofrer todos os modos de pagar seus preços, na medida em que elas se tornaram indispensáveis. Elas eram, em essência, a mercadoria que integrava o mundo índio com o mercado, com a potência prodigiosa de tudo subverter. Assim se desfez, uniformizado, o recém-descoberto Paraíso Perdido. (...)
Ideologia nenhuma, antes nem depois, foi tão convincente para quem exercia a hegemonia, nem tão inelutável para quem a sofria, escravo ou vassalo. Desapossados de suas terras, escravizados em seus corpos, convertidos em bens semoventes para os usos que o senhor lhes desse, eles eram também despojados de sua alma. Isso se alcançava através da conversão que invadia e avassalava sua própria consciência, fazendo-os verem-se a si mesmos como a pobre humanidade gentílica e pecadora que, não podendo salvar-se neste vale de lágrimas, só podia esperar, através da virtude, a compensação vicária de uma eternidade de louvor à glória de Deus no Paraíso. Tal é a força dessa ideologia que ainda hoje ela impera, sobranceira. Faz a cabeça do senhorio classista convencido de que orienta e civiliza seus serviçais, forçando-os a superar sua preguiça inata para viverem vidas mais fecundas e mais lucrativas. Faz, também, a cabeça dos oprimidos, que aprendem a ver a ordem social como sagrada e seu papel nela prescrito de criaturas de Deus em provação, a caminho da vida eterna. Essas linhas de formação correspondem, no lado nórdico, à formação de um povo livre, dono do seu destino, que engloba toda a cidadania branca. No nosso sul, o que se engendra é uma elite de senhores da terra e de mandantes civis e militares, montados sobre a massa de uma subumanidade oprimida, a que não se reconhece nenhum direito.”


“No Brasil, de índios e negros, a obra colonial de Portugal foi também radical. Seu produto verdadeiro não foram os ouros afanosamente buscados e achados, nem as mercadorias produzidas e exportadas. Nem mesmo o que tantas riquezas permitiram erguer no Velho Mundo. Seu produto real foi um povo-nação, aqui plasmado principalmente pela mestiçagem, que se multiplica prodigiosamente como uma morena humanidade em flor, à espera do seu destino. Claro destino, singelo, de simplesmente ser, entre os povos, e de existir para si mesmos.
Nada é mais continuado, tampouco é tão permanente, ao longo desses cinco séculos, do que essa classe dirigente exógena e infiel a seu povo. No afã de gastar gentes e matas, bichos e coisas para lucrar, acabam com as florestas mais portentosas da terra.
Desmontam morrarias incomensuráveis, na busca de minerais. Erodem e arrasam terras sem conta. Gastam gente, aos milhões.
Tudo, nos séculos, transformou-se incessantemente. Só ela, a classe dirigente, permaneceu igual a si mesma, exercendo sua interminável hegemonia. Senhorios velhos se sucedem em senhorios novos, super-homogêneos e solidários entre si, numa férrea união superarmada e a tudo predisposta para manter o povo gemendo e produzindo. Não o que querem e precisam, mas o que lhes mandam produzir, na forma que impõem, indiferentes a seu destino.
Não alcançam, aqui, nem mesmo a façanha menor de gerar uma prosperidade generalizável à massa trabalhadora, tal como se conseguiu, sob os mesmos regimes, em outras áreas. Menos êxito teve, ainda, em seus esforços por integrar-se na civilização industrial. Hoje, seu desígnio é forçar-nos à marginalidade na civilização que está emergindo.”


“Nenhum colono pôs jamais em dúvida a utilidade da mão-de-obra indígena, embora preferisse a escravatura negra para a produção mercantil de exportação. O índio era tido, ao contrário, como um trabalhador ideal para transportar cargas ou pessoas por terras e por águas, para o cultivo de gêneros e o preparo de alimento, para a caça e a pesca. Seu papel foi também preponderante nas guerras aos outros índios e aos negros quilombolas.
A documentação colonial destaca, por igual, as aptidões dos índios para ofícios artesanais, como carpinteiros, marceneiros, serralheiros, oleiros. Nas missões jesuíticas tiveram oportunidade de se fazerem tipógrafos, artistas plásticos, músicos e escritores.
A função básica da indiada cativa foi, porém, a de mão-de-obra na produção de subsistência. Para isso eram caçados nos matos e engajados, na condição de escravos, índios legalmente livres, mas apropriados por seus senhores através de toda sorte de vivências, licenças e subterfúgios.
A rigor, apesar da copiosíssima legislação garantidora da liberdade dos índios, se pode afirmar que o único requisito indispensável para que o índio fosse escravizado era ser, ainda, um índio livre. Mesmo os já incorporados à vida colonial – como ocorreu com os recolhidos às missões – inúmeras vezes foram assaltados e acossados.
Milhares de índios foram incorporados por essa via à sociedade colonial. Incorporados não para se integrarem nela na qualidade de membros, mas para serem desgastados até a morte, servindo como bestas de carga a quem deles se apropriava. Assim foi ao longo dos séculos, uma vez que cada frente de expansão que se abria sobre uma área nova, deparando lá com tribos arredias, fazia delas imediatamente um manancial de trabalhadores cativos e de mulheres capturadas para o trabalho agrícola, para a gestação de crianças e para o cativeiro doméstico.
Custando uma quinta parte do preço de um negro importado, o índio cativo se converteu no escravo dos pobres, numa sociedade em que os europeus deixaram de fazer qualquer trabalho manual. Toda tarefa cansativa, fora do eito privilegiado da economia de exportação, que cabia aos negros, recaía sobre o índio. O apresamento sempre foi tido como prática louvável e até mesmo como técnica de conversão.
O apoio da Coroa aos jesuítas, aos seus esforços por regulamentar o cativeiro dos índios, não se fundava sempre nas razões religiosas e morais que alegava. Tinha base, de fato, no interesse da administração. Com efeito, as aldeias missionárias eram concentrações de gente recrutável e disponível a qualquer tempo, a custo nulo para as guerras aos índios hostis, ao invasor estrangeiro e aos negros alçados. Era também uma importante fonte de provimento de gêneros a uma população famélica, porque se ocupava fundamentalmente da produção de gêneros alimentícios. Os engenhos só cuidavam das mercadorias de exportação. A concentração de índios nas missões coincidiu também, muitas vezes, com os interesses dos escravizadores que, num só ataque, faziam farta colheita de cativos.
A contradição entre os propósitos políticos da Coroa e dos jesuítas, de um lado, e o imediatismo dos traficantes de índios, do outro, não se resolveu nunca por uma decisão real pela liberdade ou pelo cativeiro. A legislação que regula a matéria é a mais contraditória e hipócrita que se possa encontrar. Decreta dezenas de vezes guerra justa contra índios tidos como culpados de grandes agravos ou simplesmente hostis para, a seguir, coibi-las e, depois, tornar a autorizá-las, num ciclo sem fim de iniquidade e falsidade.
Os atos administrativos que regiam a escravidão dos índios são igualmente um vai-e-vem de engodos e chicanas que, proibindo o cativeiro, de fato o instituíam. O índio podia ser legalmente escravizado porque aprisionado numa guerra justa; ou porque obtido num justo resgate; ou porque capturado num ataque autorizado; ou porque libertado do cativeiro de alguma tribo que ameaçava comê-lo; ou ainda porque compunha um lote de que se pagara o quinto ao governo local.”
Chegaram finalmente os missionários e, não podendo contrastar o sentimento geral [em favor da escravização indígena], pactuaram com ele. Por uma dessas capitulações de consciência, em que os jesuítas são exímios, acharam meio de entender que “quanto mais larga fosse a porta dos cativeiros lícitos, tanto mais escravos entrariam na Igreja e se poriam a caminho da salvação” (Padre Antônio Vieira, Resposta aos Capítulos, 25). Assim, concordando com a prática da escravidão, acompanhavam as tropas e, como árbitros, decidiam da justiça das presas. Nessa concessão estava a ruína da sua obra e, o que mais foi, também da sua fama. Ninguém jamais os livrará da pecha de haverem diretamente concorrido para a destruição da raça infeliz, que pretendiam salvar (João Lúcio d’Azevedo, Os jesuítas no GrãoPará, suas missões e a colonização)”.
Pior, ainda, que os jesuítas foram os outros missionários, uma vez que nenhum deles jamais entrou em qualquer conflito com quem quer que fosse por manifestar indignação contra o extermínio ou cativeiro dos índios. Mais ainda que os jesuítas, os curas regulares foram acusados reiteradamente de cobiça vil, chegando alguns a serem disciplinados e punidos pelo governo colonial pelo abuso com que exploravam os índios que caíam em suas mãos.


“Apesar do seu papel como agente cultural ter sido mais passivo que ativo, o negro teve uma importância crucial, tanto por sua presença como a massa trabalhadora que produziu quase tudo que aqui se fez, como por sua introdução sorrateira mas tenaz e continuada, que remarcou o amálgama racial e cultural brasileiro com suas cores mais fortes.
Os negros do Brasil, trazidos principalmente da costa ocidental da África, foram capturados meio ao acaso nas centenas de povos tribais que falavam dialetos e línguas não inteligíveis uns aos outros. A África era, então, como ainda hoje o é, em larga medida, uma imensa Babel de línguas. Embora mais homogêneos no plano da cultura, os africanos variavam também largamente nessa esfera. Tudo isso fazia com que a uniformidade racial não correspondesse a uma unidade linguístico-cultural, que ensejasse uma unificação, quando os negros se encontraram submetidos todos à escravidão. A própria religião, que hoje, após ser trabalhada por gerações e gerações, constituiu-se uma expressão da consciência negra, em lugar de unificá-los, então, os desunia. Foi até utilizada como fator de discórdia, segundo confessa o conde dos Arcos.
A diversidade linguística e cultural dos contingentes negros introduzidos no Brasil, somada a essas hostilidades recíprocas que eles traziam da África e à política de evitar a concentração de escravos oriundos de uma mesma etnia, nas mesmas propriedades, e até nos mesmos navios negreiros, impediu a formação de núcleos solidários que retivessem o patrimônio cultural africano.
Encontrando-se dispersos na terra nova, ao lado de outros escravos, seus iguais na cor e na condição servil, mas diferentes na língua, na identificação tribal e frequentemente hostis pelos referidos conflitos de origem, os negros foram compelidos a incorporar-se passivamente no universo cultural da nova sociedade. Dão, apesar de circunstâncias tão adversas, um passo adiante dos outros povoadores ao aprender o português com que os capatazes lhes gritavam e que, mais tarde, utilizariam para comunicar-se entre si. Acabaram conseguindo aportuguesar o Brasil, além de influenciar de múltiplas maneiras as áreas culturais onde mais se concentraram, que foram o nordeste açucareiro e as zonas de mineração do centro do país. Hoje, aquelas populações guardam uma flagrante feição africana na cor da pele, nos grossos lábios e nos narigões fornidos, bem como em cadências e ritmos e nos sentimentos especiais de cor e de gosto.
Nos dois casos, o engenho e a mina, os negros escravos se viram incorporados compulsoriamente a comunidades atípicas, porque não estavam destinados a atender às necessidades de sua população, mas sim aos desígnios venais do senhor. Nelas, à medida que eram desgastados para produzir o que não consumiam, iam sendo radicalmente deculturados pela erradicação de sua cultura africana. Simultaneamente, vão se aculturando nos modos brasileiros de ser e de fazer, tal como eles eram representados no universo cultural simplificado dos engenhos e das minas. Têm acesso, desse modo, a um corpo de elementos adaptativos, associativos e ideológicos oriundo daquela protocélula étnica tupi que se consentiu sobreviver nas empresas, para o exercício de funções extraprodutivas.
Concentrando-se em grandes massas nas áreas de atividade mercantil mais intensa, onde o índio escasseava cada vez mais, o negro exerceria um papel decisivo na formação da sociedade local. Seria, por excelência, o agente de europeização que difundiria a língua do colonizador e que ensinaria aos escravos recém-chegados as técnicas de trabalho, as normas e valores próprios da subcultura a que se via incorporado. Consegue, ainda assim, exercer influência, seja emprestando dengues ao falar lusitano, seja impregnando todo o seu contexto com o pouco que pôde preservar da herança cultural africana.
Essa parca herança africana – meio cultural e meio racial –, associada às crenças indígenas, emprestaria entretanto à cultura brasileira, no plano ideológico, uma singular fisionomia cultural. Nessa esfera é que se destaca, por exemplo, um catolicismo popular muito mais discrepante que qualquer das heresias cristãs tão perseguidas em Portugal.”

domingo, 21 de agosto de 2016

Uma história da guerra (Parte II) – John Keegan

Editora: Companhia de Bolso
ISBN: 978-85-3590-798-8
Tradução: Pedro Maia Soares
Opinião: ★★★★☆
Páginas: 544
Sinopse: Ver Parte I

“Os meios militares sozinhos não eram suficientes para deter a devastação provocada pelos vários atacantes dos séculos IX e X. A Europa ocidental tinha necessidade, como a China diante dos nômades da estepe, de alguma força cultural com que pudesse neutralizar o niilismo deles e assimilá-los ao mundo governado. Os sarracenos não podiam ser assimilados: atacavam e pilhavam com a garantia moral dos ghazi, guerreiros de fronteira islâmicos. Porém, os vikings e magiares pagãos ainda viviam no mundo primitivo de deuses vingativos ou distantes ao qual pertenciam os povos teutônicos e da estepe antes de ouvirem a palavra de Cristo ou Maomé. A Igreja cristã já realizara um extraordinário trabalho de pacificação na Europa ocidental, começando com a conversão dos francos em 496, e trouxera progressivamente todos os invasores das terras romanas para uma única fé. Fizera também com que respeitassem as instituições cristãs — papado, episcopado, fundações monásticas — que tinham sobrevivido a Roma e, mediante uma missão heroica, levara o cristianismo romano para o Norte e o Leste, até os germânicos e eslavos. A conversão foi muitas vezes imposta pela ponta da espada, mas os cristãos, tal como o inglês são Bonifácio, apóstolo dos germânicos, também morreram como mártires no esforço de implantar o evangelho entre povos selvagens. Foi graças a esses meios que os magiares foram convertidos no final do século X, fazendo da Hungria um bastião de resistência contra as invasões da estepe, e os escandinavos, nos séculos XI e XII.
Com efeito, uma Europa pós-romana sem a Igreja romana teria sido um lugar bárbaro; os remanescentes das instituições civis de Roma eram fracos demais para proporcionar uma base para a reconstituição da ordem e, na ausência de exércitos disciplinados, todo o continente poderia ter passado o limite do “horizonte militar” para entrar em conflitos endêmicos sobre direitos territoriais e tribais.”


“Na fundação de ordens militares, podemos perceber as origens dos exércitos regimentados que surgiram na Europa no século XVI. Pode-se dizer que a dissolução das ordens monásticas nos países protestantes durante a Reforma levou para os exércitos estatais — através dos monges-guerreiros que se secularizaram para se tornarem soldados laicos — o sistema de hierarquia, de comandos e suas unidades subordinadas que fizeram das ordens os primeiros corpos de luta autônomos e disciplinados que a Europa conheceu desde o desaparecimento das legiões romanas. Isso, porém, estava ainda por acontecer. A influência imediata dos hospitalários e templários no campo de batalha foi levar outros guerreiros cristãos, como os que lutavam contra os sarracenos na Espanha e os que travavam guerra contra os prussianos e lituanos pagãos, a criar ordens similares. Dessas, a mais importante foi a dos Cavaleiros Teutônicos que fundaram na Prússia conquistada um regime militar de cujas propriedades secularizadas Frederico, o Grande, quinhentos anos depois, recrutou o núcleo de seu corpo de oficiais.
O declínio e a extinção dos reinos cruzados no final do século XIII foram graduais demais para marcar um divisor de águas no guerrear europeu. Fizeram-se Cruzadas demais que acabaram em vitória dos muçulmanos para que ocorresse um clímax de retaliação e, de qualquer forma, os reis europeus estavam com as mãos cheias de suas próprias guerras domésticas. Todavia, as Cruzadas deixaram mudanças no mundo militar europeu que não se apagaram mais. Elas restabeleceram a presença dos Estados latinos (católicos romanos) no Mediterrâneo oriental, não só na Palestina e na Síria, mas de forma mais duradoura na Grécia, em Creta, em Chipre e no Egeu, o que permitiu às cidades do Norte da Itália, em especial Veneza (onde a vida e o comércio urbano não tinham morrido completamente), reabrir um próspero comércio com o Oriente Médio e, mais tarde, com o Extremo Oriente, e reviver o transporte seguro de bens entre portos de todo o Mediterrâneo. O dinheiro que ganharam com isso financiou a maioria das guerras travadas durante o século XV entre elas e, mais tarde, entre a França e os Habsburgo do Sacro Império Romano pelo domínio ao sul dos Alpes. Elas deram um poderoso impulso para fortificar a libertação da Espanha do islã (a Reconquista), bem como a ampliação para leste da fronteira cristã, na direção da Rússia e da estepe. Tendo debilitado os bizantinos, nada fizeram para deter o avanço dos turcos otomanos nos Bálcãs; no início do século XV, eles já tinham chegado ao Danúbio, conquistando no processo o reino cristão da Sérvia e ameaçando o da Hungria. Em compensação, os cruzados tinham confrontado os reis belicosos da Europa e seus turbulentos vassalos com a ideia de um objetivo mais amplo para a guerra que as querelas intermináveis sobre direitos. Eles reforçaram a autoridade da Igreja em seus esforços para conter o impulso guerreiro dentro de uma estrutura ética e legal e, por mais paradoxal que pareça, ao ensinar à classe cavaleira europeia as disciplinas da guerra útil, assentaram os alicerces para a ascensão de reinos efetivos. Com a afirmação do poder central dentro de suas fronteiras, esses reinos deram finalmente à luz uma Europa onde o conflito deixou de ser uma condição endêmica da vida cotidiana e se tornou um empreendimento ocasional e, depois, externo.
O desenvolvimento desse padrão teria sido difícil de perceber para os coetâneos dos confusos séculos XIV e XV. Na grande disputa por direitos que levou à Guerra dos Cem Anos entre França e Inglaterra (1337-1457), na guerra entre Habsburgo, Wittelsbach e Luxemburgo pela coroa do Sacro Império Romano e dos imperadores para controlar seus súditos rebeldes da Boêmia e da Suíça, e nas guerras das cidades italianas, qualquer ideia de que o domínio social e político, sem falar do militar, do homem a cavalo poderia estar chegando ao fim teria parecido fantasiosa. Contudo, era esse o caso. A guerra montada entre homens encouraçados, travada na crença de que recuar do golpe na linha de batalha era uma ofensa, não só ao dever, mas à honra pessoal, acabou se revelando tão autodestruidora quanto o código da falange na Grécia antiga. Com efeito, há provas consideráveis de que mesmo em seu auge, no século XV, a guerra entre cavaleiros não era o que parece para nós ou o que seus devotos acreditavam que deveria ser na época. As armaduras cada vez mais pesadas e impenetráveis usadas pelos guerreiros montados (placas em vez de malha depois da metade do século XIV) estavam mais adequadas ao artificialismo das justas que às exigências do campo de batalha. Da mesma forma que a guerra moderna de investidas-relâmpago encouraçadas e ataques aéreos precisos atinge sua perfeição teórica apenas nos campos de treinamento, é bem possível que a armadura brilhante do guerreiro do século XV alcançasse seu objetivo teórico de proteção diante da lança do adversário em um torneio e não contra uma flecha ou espada no campo de batalha. O senso comum, qualidade que permitiu a Victor Hanson desvelar o mistério da falange, deveria persuadir-nos da improbabilidade de qualquer outra coisa.
     As batalhas medievais, como observou R. C. Smail, o mestre da historiografia das Cruzadas, desafiam uma reconstrução a partir de indícios. Mas nas três batalhas da Guerra dos Cem Anos das quais temos conhecimento detalhado — Crécy (1346), Poitiers (1356) e Agincourt (1415) —, os cavaleiros ingleses lutaram desmontados e apoiados por arqueiros nos três casos, e o grosso dos franceses desmontou nas duas últimas. A ideia de que cavaleiros encouraçados, cavalgando joelho contra joelho, lanças em riste, em densas ondas de fileiras sucessivas, poderiam ter atacado uns aos outros sem que ocorresse uma catástrofe instantânea para ambos os lados no momento do impacto é uma afronta à inteligência.
A guerra de ferro da Idade Média, tal como a dos gregos, era um “negócio horrível” e sangrento, tornado pior por sua recorrência e pela coragem sanguinária daqueles que se prendiam a ela. Apesar de todos os altos motivos envolvidos — independência cívica entre os gregos, fidelidade e cavalheirismo com os cavaleiros —, certo primitivismo ocultava-se sob a superfície. Os gregos lutaram até a exaustão pela lógica de seus próprios métodos; o eclipse do modo cavalheiresco de guerrear teve uma causa externa: a chegada da pólvora. Mas em ambos os casos o poder do ferro, esse metal comum, barato e enganador, tinha se esgotado.”


“As raízes culturais da resistência da aristocracia montada à revolução da pólvora penetravam fundo no passado. Como vimos, os gregos da época da falange foram os primeiros guerreiros de quem temos conhecimento detalhado que deixaram de lado a atitude evasiva da guerra primitiva e enfrentaram face a face seus inimigos de mesma mentalidade. Os gregos da época clássica buscavam resolver uma questão da forma mais direta e rápida possível. Os romanos da República aceitaram também a lógica dos métodos gregos, tendo provavelmente aprendido com os colonizadores helênicos do Sul da Itália. Pode-se supor que o hábito de lutar face a face lhes foi também transmitido progressivamente nos confrontos com os gauleses e os povos teutônicos do outro lado do Reno. Os romanos deixaram testemunhos de que os povos setentrionais lutavam dessa forma, pois, embora desprezassem suas táticas grosseiras e individualistas, nunca negaram que fossem corajosos e dispostos a lutar corpo a corpo. “Muitos dos helvécios”, observou César sobre um episódio em que seus legionários tinham bombardeado os escudos dos inimigos com lanças, “depois de alguns esforços vãos para se desvencilharem, preferiram largar os escudos e lutar sem proteção para seus corpos.” Foi somente quando “os ferimentos e a exaustão da batalha [se tornaram] demais para eles [que] começaram a se retirar”. Porém, parece claro que os gauleses lutavam face a face antes mesmo de encontrarem os romanos, se é que as grandes espadas da cultura hallstattiana oferecem alguma indicação, e parece que os germânicos, cuja natureza corajosa e belicosa tanto impressionou Tácito, também se comportavam assim antes de encontrarem os romanos junto ao Reno, no século I. Se lembrarmos que foi somente depois da chegada dos dórios à Grécia que se desenvolveu a guerra de falange e aceitarmos que os dórios vinham provavelmente do outro lado do Danúbio, então talvez possamos localizar ali um ponto comum de origem desse “modo ocidental de guerrear”, como Victor Hanson o chama, e uma linha de divisão entre essa tradição de batalha e o estilo indireto, evasivo de combate característico da estepe e do Oriente Médio e Próximo. A leste da estepe e sudeste do mar Negro, os guerreiros continuavam a manter distância dos inimigos; a oeste da estepe e sudoeste do mar Negro, os guerreiros aprenderam a abandonar a precaução e entrar em contato próximo.
Tudo o que se pode dizer é que, se existe algo como o “horizonte militar”, há também uma linha divisória do combate “face a face”, e que os ocidentais pertencem por tradição a um dos lados dela e a maioria dos outros povos, ao outro.
A força dessa tradição da luta frente a frente provocou a crise guerreira do século XVI. A atitude de Bayard, chevalier sans peur et sans reproche, em relação aos besteiros é bem conhecida: mandava executá-los quando feitos prisioneiros, afirmando que a arma deles era covarde e seu comportamento, traiçoeiro. Armado com uma besta, um homem poderia, sem o longo aprendizado de armas necessário para formar um cavaleiro ou o esforço moral exigido de um lanceiro a pé, matar qualquer um deles à distância sem se colocar em perigo.”


“A verdade é que todos os Estados em luta tinham submetido seus soldados a um excesso de provações. O sofrimento fora tão auto-infligido quanto imposto. As populações que haviam abraçado a guerra em 1914 com tanto entusiasmo mandaram seus jovens para as frentes de batalha na crença de que iriam obter não apenas vitórias, mas glória, e que a volta deles com os louros justificaria toda a confiança que tinham investido na cultura do serviço militar universal e do comprometimento com o reino dos guerreiros. A guerra explodiu essa ilusão. “Cada homem um soldado”, a filosofia que sustentava a política da conscrição, baseava-se numa incompreensão fundamental da potencialidade da natureza humana.
Os povos guerreiros podem ter feito de cada homem um soldado, mas tinham tomado o cuidado de lutar apenas em condições que evitavam o conflito direto ou sustentado com o inimigo, admitiam a ruptura de contato e o recuo como respostas permissíveis e razoáveis à resistência resoluta, não faziam um fetiche da coragem desesperada e mediam com muito cuidado a utilidade da violência. Os gregos tinham mostrado uma frente mais audaz e destemida; mas, ao mesmo tempo que inventavam a instituição da batalha face a face, não levaram sua ética de guerra ao ponto de exigir a derrubada clausewitziana como seu resultado necessário. Seus descendentes europeus limitaram também os objetivos de suas guerras; os romanos procuraram consolidar e, depois, garantir uma fronteira defensiva para sua civilização — em essência, a mesma filosofia militar dos chineses —; por sua vez, os sucessores dos romanos lutaram, ainda que incessantemente, com o objetivo principal de gozar de direitos dentro de territórios bastante circunscritos. Em uma forma diferente, as batalhas por direitos também caracterizaram as guerras dos Estados da Idade da Pólvora. Embora suas lutas tenham se exacerbado pelas diferenças religiosas expressas na Reforma, os protestantes agiram antes para desafiar direitos preexistentes que para derrubar novos. Ademais, em nenhuma dessas pelejas os combatentes entregaram-se à ilusão de que toda a população masculina deve ser mobilizada para dar prosseguimento à disputa. Mesmo que isso fosse materialmente possível, o que era desaconselhado pela necessidade de mão-de-obra intensiva da agricultura, para não falar da incapacidade fiscal, nenhuma sociedade pré-1789 considerava o serviço militar uma ocupação, exceto uma minoria. A guerra era considerada corretamente como um negócio brutal demais para qualquer um, exceto para aqueles preparados para ela pela posição social ou levados a se alistar pela falta de qualquer posição social. Mercenários e soldados regulares, pobres, desempregados, com frequência proscritos criminalmente eram julgados adequados para a guerra porque a vida pacífica não lhes oferecia nada, senão dificuldades equivalentes.
A exclusão dos industriosos, dos habilidosos, dos letrados e dos donos de propriedades modestas do serviço militar refletia uma apreciação sensível de como a natureza da guerra exercia pressão sobre a natureza humana. Seus rigores não eram para serem suportados por homens de hábitos confortáveis, regulares e produtivos. Em seu afã de igualar, a Revolução Francesa pôs essa percepção grosseiramente de lado, buscando conceder à maioria o que até então fora o privilégio de uma minoria — o direito à plena liberdade legal representado pelo estatuto de guerreiro dos aristocratas. A Revolução não estava totalmente errada ao fazer isso. Muitos homens respeitáveis cujos pais teriam se esquivado do serviço militar revelaram-se excelentes soldados, tanto em postos altos como baixos: Murat, o mais arrojado dos marechais de Napoleão, tinha estudado para ser padre, Bessières fora estudante de medicina, Brune, editor de jornal. É verdade que o seminário e o jornal também estavam no passado respectivamente de Stalin e Mussolini, mas eles foram homens de temperamento selvagem numa época posterior. Em seu tempo, Murat, Bessières e Brune passavam por respeitáveis bourgeois, e foi por mero acaso que seus temperamentos se adequaram à disciplina e ao perigo da vida militar. Até mesmo no exército de Napoleão eles constituíam exceções. Cem anos depois, não o seriam mais. Os exércitos da Primeira Guerra Mundial eram compostos quase que do topo até a base de representantes de todas as posições e ocupações da sociedade, e muitos dos que foram poupados da morte e de ferimentos serviram por dois, três ou até quatro anos com paciente firmeza. Mas 200% ou 300% de baixas na infantaria e mais de 1 milhão de mortes serão suficientes para quebrar o ânimo de uma nação. Em novembro de 1918, a França tinha perdido 1,7 milhão de jovens de uma população de 40 milhões, a Itália, 600 mil de uma população de 36 milhões, o Império britânico 1 milhão, dos quais 700 mil vinham dos 50 milhões de habitantes das Ilhas Britânicas.
A persistência até o fim da Alemanha, apesar da perda de mais de 2 milhões de uma população anterior à guerra de 70 milhões, é ainda mais notável. Ela pagou o preço emocional, embora numa moeda diferente da que circulou nas nações vitoriosas. Nestas, o custo foi considerado alto demais para jamais ser pago novamente. “Estou começando a esfregar meus olhos diante da perspectiva de paz”, escreveu Cynthia Asquith, esposa de um ex-primeiro-ministro britânico, em outubro de 1918. “Acho que será preciso mais coragem do qualquer outra coisa que tenha acontecido antes [...] finalmente vai-se reconhecer que os mortos não estavam mortos apenas enquanto durava a guerra.” Evidentemente, novembro de 1918 significou para milhões de famílias o fim da apreensão de que um carteiro pudesse trazer o telegrama da morte, mas o sentimento dela estava correto. As listas de baixas tinham deixado vazios em quase todos os círculos familiares e a agonia da perda perdurava enquanto aqueles que a tinham sentido continuassem vivos. Ainda hoje, as colunas “In Memoriam” dos jornais ingleses trazem lembranças de pais ou irmãos que morreram nas trincheiras ou em terra de ninguém há oitenta anos. Ferimentos psíquicos dessa profundidade não saram com o primeiro embotamento da memória. Eles inflamam-se na consciência coletiva, e a consciência nacional dos ingleses e franceses, diante das consequências da guerra, rebelava-se ao pensar numa repetição do sofrimento.
Em 1919, por sugestão de Winston Churchill, ex-ministro da Marinha e secretário de Estado para Guerra e Ar, adotou-se a decisão de que “para o objetivo de enquadrar as estimativas [de defesa], [deve-se supor] que em qualquer data considerada não haverá guerra importante por dez anos”; essa “regra dos dez anos” foi renovada ano após ano até 1932; mesmo depois, apesar da ascensão de Adolf Hitler ao poder na Alemanha em 1933, decidido a reverter o resultado da Primeira Guerra Mundial, a Inglaterra não tomou medidas substantivas de rearmamento até 1937. Enquanto isso, Hitler reintroduzira o recrutamento universal e começara a recriar uma vez mais uma cultura guerreira na nova geração alemã.
Para Hitler, a Primeira Guerra Mundial fora “a maior de todas as experiências”. Da mesma forma que uma minoria de veteranos de todos os exércitos, ele achara a excitação e até os perigos das trincheiras engrandecedores e enaltecedores. Sua bravura lhe dera medalhas e a opinião favorável de seus oficiais, enquanto sua admissão a um círculo de camaradagem, depois de anos de vida como um derrotado nas ruelas de Viena, reforçara sua ardente crença na superioridade da nação germânica sobre todas as outras. E ele estava tomado por uma ira destruidora em face da humilhação da Alemanha na paz de Versalhes, cujos termos — incluindo perda de território, redução de seu exército a uma força de 100 mil, privação de sua marinha de vasos de guerra modernos e abolição total de sua força aérea — foram aceitos pelo governo alemão somente porque o bloqueio naval dos Aliados, obtendo finalmente o efeito que não conseguira nos anos de guerra, não lhe deixava outra opção. A ira de Hitler equivalia à de um número de veteranos suficiente para proporcionar-lhe o núcleo de um partido político, quando em 1921 adotou posições de extrema direita.”


“Chamada de Blitzkrieg, “guerra relâmpago”, termo de um jornalista, mas bastante descritivo, ela concentrava os tanques das divisões panzer numa falange ofensiva, apoiada por esquadrões de caças de mergulho agindo como “artilharia voadora”, que quando direcionada para um ponto fraco de uma linha de defesa — qualquer ponto era, por definição, fraco diante de uma tal força — a rompia e prosseguia espalhando confusão em sua esteira. A técnica era a mesma introduzida por Epaminondas em Leuctra, usada por Alexandre contra Xerxes em Gaugamelos e empregada por Napoleão em Marengo, Austerlitz e Wagram. A Blitzkrieg, porém, obteve resultados negados a comandantes anteriores, cuja habilidade para explorar o sucesso no ponto de assalto estava limitada pela velocidade e resistência do cavalo, fosse um instrumento de força ou um meio de levar mensagens e relatórios. O tanque não somente deixava para trás a infantaria, como podia manter um ritmo de avanço de cinquenta, até oitenta quilômetros em 24 horas, desde que suprido de combustível ou peças sobressalentes, ao mesmo tempo que seu aparelho de rádio permitia ao quartel-general receber informações e transmitir ordens com a mesma velocidade que as operações pediam, um desdobramento que veio a ser conhecido durante a guerra como “tempo real”.”


“Aqueles que depositam sua confiança na expectativa de que a ONU conseguirá perpetuar suas funções pacificadoras — não se oferece instrumento melhor — têm, no entanto, um longo caminho a percorrer até que essa expectativa se cumpra. O homem tem uma potencialidade para a violência: isso não pode ser negado, mesmo que se admita que apenas uma minoria de qualquer sociedade pode transformar essa potencialidade em ato. Ao longo dos 4 mil anos de existência de exércitos organizados, o homem aprendeu a identificar nessa minoria aqueles que serão soldados, para treiná-los e equipá-los, para fornecer os fundos de que precisam para sua subsistência, e a aprovar e aplaudir seu comportamento nos momentos em que a maioria se sente ameaçada. Devemos ir além: um mundo sem exércitos — disciplinados, obedientes e cumpridores da lei — seria inabitável. Exércitos dessa qualidade são um instrumento e uma marca de civilização e sem a existência deles a humanidade teria de se resignar a uma vida primitiva, abaixo do “horizonte militar”, ou ao caos sem lei de massas em guerra. Como diria Hobbes, “todos contra todos”.
Para nos afastarmos da pregação de Clausewitz, não precisamos acreditar, como Margaret Mead, que a guerra é uma “invenção”. Nem precisamos estudar os meios de alterar nossa herança genética, um processo que leva intrinsecamente ao fracasso. Não precisamos buscar a libertação de nossas circunstâncias materiais. A humanidade já domina o mundo material em um grau que o mais otimista de nossos ancestrais de apenas dois séculos atrás teria considerado impensável. Tudo que precisamos aceitar é que, depois de 4 mil anos de experiência e repetição, a guerra tornou-se um hábito. No mundo primitivo, esse costume estava circunscrito por rituais e cerimônias. No mundo pós-primitivo, a engenhosidade humana desmembrou rituais de cerimônias, bem como as restrições que impunham à guerra, da prática guerreira, permitindo que os homens da violência empurrassem os limites de tolerância desses rituais e cerimônias a um extremo — e às vezes ultrapassando-o. “A guerra”, disse Clausewitz, o filósofo, “é um ato de violência levado aos seus limites máximos.” Clausewitz, o guerreiro prático, não conjecturou sobre os horrores a que sua lógica filosófica conduzia, mas nós os vimos de relance. Os costumes dos primitivos — devotados à restrição, diplomacia e negociação — merecem ser reaprendidos. Se não desaprendermos os costumes que ensinamos a nós mesmos, não sobreviveremos.”

Uma história da guerra (Parte I) – John Keegan

Editora: Companhia de Bolso
ISBN: 978-85-359-0798-8
Tradução: Pedro Maia Soares
Opinião: ★★★★☆
Páginas: 544
Sinopse: O que é a guerra? Por que o homem luta contra o homem? Que diferenças há entre um guerreiro ianomâmi, um bárbaro das hostes de Átila e um soldado entrincheirado da Segunda Guerra Mundial? Como foi possível a humanidade chegar à beira da autodestruição total?
Conhecedor profundo de tudo o que diz respeito à história militar, John Keegan aborda neste livro essas e muitas outras questões ligadas à guerra, oferecendo uma visão abrangente da História da humanidade a partir das formas de guerrear e do progresso da tecnologia bélica. Ao mesmo tempo, não esquece que a história da guerra acompanha a história do homem e que a guerra é um testemunho permanente da força de instintos e emoções que o coração humano faz tudo para camuflar.

“A guerra não é a continuação da política por outros meios. O mundo seria mais fácil de compreender se essa frase de Clausewitz fosse verdade. O mais famoso livro sobre a guerra — chamado justamente Da guerra —, na verdade escreveu que a guerra era a “continuação das relações políticas” “com a entremistura de outros meios”. O original alemão expressa uma ideia mais complexa e sutil que a tradução mais frequentemente citada. Nas duas formas, no entanto, o pensamento de Clausewitz está incompleto. Ele implica a existência de Estados, de interesses de Estado e de cálculos racionais sobre como eles podem ser atingidos. Contudo, a guerra precede o Estado, a diplomacia e a estratégia por vários milênios. A guerra é quase tão antiga quanto o próprio homem e atinge os lugares mais secretos do coração humano, lugares em que o ego dissolve os propósitos racionais, onde reina o orgulho, onde a emoção é suprema, onde o instinto é rei. (...)
Na verdade, Clausewitz parecia perceber a política como uma atividade autônoma, o local de encontro das formas racionais e forças emocionais, na qual razão e sentimento são determinantes, mas onde a cultura — o grande carregamento de crenças, valores, associações, mitos, tabus, imperativos, costumes, tradições, maneiras e modos de pensar, discurso e expressão artística que lastreia toda sociedade — não desempenha um papel determinante. (...)
Russell Weigley sustenta que a guerra se mostrou não como “uma continuação eficaz da política por outros meios [...] mas como a falência da política”. A frustração engendrada pelo fracasso em conseguir um resultado decisivo levou, deduz ele, ao “apelo calculado e espontâneo a crueldades maiores e mais torpes” com o correr do tempo, “ao saque das cidades e destruição dos campos, ambos em busca de vingança e na esperança geralmente vã de que crueldades maiores abalariam o espírito do inimigo”.”


“Em sua velhice, o general William Tecumseh Sherman, que incendiara Atlanta e pusera fogo numa grande faixa do Sul dos Estados Unidos, exorcizou com amargura esse mesmo pensamento, em palavras que se tornaram quase tão famosas quanto às de Clausewitz: “Estou farto da guerra. Sua glória é pura quimera [...] A guerra é o inferno”.”


“O verdadeiro trabalho da guerra na época de Clausewitz era realmente de matadouro. Os soldados ficavam silenciosos e inertes em fileiras para serem abatidos, às vezes durante horas; em Borodino, diz-se que os corpos de infantaria de Ostermann-Tolstoi ficaram diante do fogo à queima-roupa da artilharia por duas horas, “durante as quais o único movimento era a agitação das linhas provocada pelos corpos que caíam”. Sobreviver à matança não significava o fim do matadouro. Larrey, o cirurgião mais antigo de Napoleão, realizou duas centenas de amputações na noite seguinte a Borodino, e seus pacientes eram felizardos. Eugène Labaume descreveu “o interior das valas” que entrecruzavam o campo de batalha: “quase todos os feridos, por um instinto natural, tinham se arrastado para lá em busca de proteção [...] empilhados uns sobre os outros e nadando desamparadamente no próprio sangue, alguns pediam aos que passavam que os livrassem de sua miséria”.
Essas cenas de matadouro eram o resultado inevitável de uma forma de guerrear que fazia os povos que Clausewitz considerava selvagens, como os cossacos, fugirem quando ameaçavam envolvê-los, mas, se não as tivessem testemunhado, rirem quando alguém as descrevia. O treinamento europeu, quando demonstrado pela primeira vez por Takashima, o reformador militar japonês, a alguns samurais de alta patente em 1841, provocou escárnio; o mestre da artilharia disse que o espetáculo de “homens levantando e manipulando suas armas todos ao mesmo tempo e com o mesmo movimento parecia que estavam participando de alguma brincadeira de criança”. Era a reação de guerreiros que lutavam corpo a corpo, para quem lutar era um ato de auto-expressão pelo qual um homem exibia não apenas sua coragem, mas também sua individualidade. Osklephts gregos — meio bandidos, meio rebeldes contra o domínio turco, cujos simpatizantes, filelenos franceses, alemães e britânicos, muitos deles ex-oficiais das guerras napoleônicas, tentaram instruir em exercícios de ordem unida no início da guerra de independência da Grécia, em 1821 — também reagiram com zombaria, mas antes com descrença que com desprezo. Seu estilo de luta — muito antigo, encontrado por Alexandre, o Grande, em sua invasão da Ásia menor — era construir pequenos muros no lugar mais provável de encontro com o inimigo e então provocá-lo à ação com motejos e insultos; quando o inimigo atacava, fugiam. Sobreviviam para lutar outro dia, mas não para ganhar a guerra, objetivo que não conseguiam entender. Os turcos também tinham uma maneira própria de lutar: avançavam numa carga desconexa com desdém fanático pelas baixas. Os filelenos argumentavam que, se os gregos não enfrentassem os turcos, jamais ganhariam uma batalha; os gregos objetavam que, se fizessem frente ao inimigo à maneira europeia, peito aberto aos mosquetes turcos, seriam todos mortos e perderiam a guerra de qualquer modo.”


“Todos nós achamos difícil tomar distância suficiente de nossa própria cultura para perceber como ela faz de nós, como indivíduos, o que somos.”


“A guerra abarca muito mais que a política, que é sempre uma expressão de cultura, com frequência um determinante de formas culturais e, em algumas sociedades, é a própria cultura.”


“E, contudo, o deus da guerra não é um arremedo. Quando os regimentos de recrutas da Europa marcharam para a guerra, em 1914, carregando sua retaguarda de reservistas, a guerra que os enredou foi, de longe, a pior que os cidadãos pudessem esperar. Na Primeira Guerra Mundial, a “guerra real” e a “guerra verdadeira” logo se tornaram indistintas; as influências moderadoras que Clausewitz, como observador desapaixonado dos fenômenos militares, declarara sempre entrarem em ação para ajustar a natureza potencial e o propósito real da guerra reduziram-se à invisibilidade; alemães, franceses, ingleses e russos descobriram-se aparentemente travando uma guerra pela guerra. Os objetivos políticos da guerra — já difíceis de definir desde o início — foram esquecidos, as restrições políticas foram atropeladas, os políticos que apelavam para a razão foram execrados, a política, mesmo nas democracias liberais, logo se reduziu a uma mera justificação de batalhas maiores, listas de baixas mais longas, orçamentos mais caros, um excesso de miséria humana.
A política não desempenhou papel algum digno de menção na condução da Primeira Guerra Mundial. Essa guerra foi, ao contrário, uma aberração cultural monstruosa, a consequência de uma decisão inadvertida de europeus no século de Clausewitz — que começou com seu retorno da Rússia em 1813 e terminou em 1913, o último ano da longa paz europeia — de transformar a Europa numa sociedade de guerreiros.”


“Em nosso tempo, a guerra não tem sido apenas um modo de resolver disputas entre Estados, mas também um veículo por meio do qual os amargurados, os esbulhados, os descamisados, as massas famintas ansiosas por respirar com liberdade expressam sua raiva, seu ciúme e seu impulso encurralado à violência.”


“O conceito de transformação cultural tem armadilhas para o incauto. As expectativas de que mudanças benignas — padrões de vida melhores, alfabetização, medicina científica, a disseminação do bem-estar social — iriam alterar o comportamento humano para melhor foram tantas vezes frustradas que pode parecer irrealista prever a chegada de atitudes efetivamente antibélicas ao mundo.”


“As causas subjacentes à ação dos fatores “permanentes” e “contingentes” sobre a guerra podem, portanto, ser consideradas extremamente complexas. O homem guerreiro não é agente de uma vontade irrestritamente livre, mesmo que na guerra rompa os limites que a convenção e a prudência material impõem normalmente ao seu comportamento. A guerra é sempre limitada, não porque o homem escolha fazê-la assim, mas porque a natureza determina que assim seja. O rei Lear, atacando seus inimigos, pode ter ameaçado “fazer coisas — as quais ainda não sei o que são —, mas que serão os terrores da terra”; mas, como outros potentados passando dificuldades descobriram, os terrores da terra são difíceis de conjurar. Faltam recursos, o tempo piora, a estação muda, a vontade de amigos e aliados fraqueja, a própria natureza pode se revoltar contra as dificuldades exigidas pela porfia.
Metade da humanidade — a metade feminina — é, de qualquer modo, muito ambivalente em relação à guerra. As mulheres podem ser causa e pretexto da guerra — o roubo de esposas é a principal fonte de conflitos nas sociedades primitivas — e podem ser as instigadoras de violência em sua forma extrema: lady Macbeth é um tipo reconhecido universalmente; elas podem também ser mães de guerreiros notavelmente empedernidas, algumas preferindo aparentemente as dores da perda à vergonha de aceitar a volta de um covarde. Ademais, as mulheres podem constituir líderes guerreiros messiânicos, obtendo, com a interação da química complexa da feminilidade com reações masculinas, um grau de fidelidade e auto sacrifício de seus seguidores masculinos que um homem é bem capaz de não conseguir. Apesar disso, a guerra é uma atividade humana da qual as mulheres, com exceções insignificantes, sempre e em todos os lugares ficaram excluídas. As mulheres procuram os homens para protegê-las do perigo e censuram-nos amargamente quando eles não conseguem defendê-las. As mulheres têm seguido os tambores, cuidado dos feridos, lavrado os campos e pastoreado os rebanhos quando o homem da família vai atrás de seu líder; elas até mesmo cavaram trincheiras para os homens defenderem e trabalharam nas oficinas para mandar-lhes armas. As mulheres, porém, não lutam. Elas raramente lutam entre si e jamais, em qualquer sentido militar, lutam com os homens. Se a guerra é tão antiga quanto a história e tão universal quanto a humanidade, devemos agora acrescentar a limitação mais importante: trata-se de uma atividade inteiramente masculina.”


“Há indicações, a partir dos instrumentos de pedra encontrados, de que seus habitantes tinham começado a colher ervas silvestres e a moer os grãos extraídos para comer; há indicações mais sutis de que tinham pelo menos começado a domesticar e a cuidar de animais dos quais dependiam para viver. Estavam à beira do pastoreio e da agricultura, as duas atividades que transformam a relação do homem com seu habitat. Caçadores e coletores podem ter “território”; os pastores têm locais de pasto e água; os agricultores têm terra. Depois que investe suas expectativas em um retorno periódico de seus esforços sazonais em um determinado lugar — de criar, pastorear, plantar, colher —, o homem desenvolve rapidamente os sentimentos de direitos e propriedade. Em relação aos que invadem os lugares onde investe seu tempo e esforço, ele pode, da mesma forma, desenvolver rapidamente o sentimento de hostilidade que o usuário e ocupante tem em relação ao usurpador e intruso. Expectativas arraigadas favorecem reações arraigadas. O pastoreio e mais ainda a agricultura favorecem a guerra.”


“Evidentemente, a força militar já estava estabelecida como um princípio antes da chegada dos povos montados mas como recurso disponível apenas para os governos e as populações sedentárias que dirigiam, além de limitada pela produção das economias que controlavam.
Exércitos alimentados com excedentes agrícolas e limitados em alcance de manobra pelo ritmo e resistência da marcha a pé simplesmente não podiam empreender campanhas amplas de conquista. Nem precisavam disso: os inimigos, com restrições semelhantes, podiam ameaçá-los com derrotas em batalhas, mas não com uma Blitzkrieg.
Os povos montados eram diferentes. Átila mostrara uma capacidade de mudar seu centro estratégico de ação — Schwerpunkt, como a doutrina do Estado-maior prussiano denominou-o mais tarde — do Leste da França para o Norte da Itália, numa distância de oitocentos quilômetros em linha reta e muito maior na prática, pois estava operando ao longo de linhas externas. Uma manobra estratégica como essa jamais fora tentada nem seria possível antes. Essa escala de liberdade de ação estava no centro da “revolução da cavalaria”.
Os povos montados lutavam sem constrangimentos ainda em outro sentido: não queriam, como os godos, herdar ou se adaptar às civilizações entendidas pela metade que invadiam. E, apesar da sugestão de que Átila pensou em se casar com a filha do imperador romano do Ocidente, também não queriam superar a autoridade política dos outros. Queriam os despojos de guerra sem laços. Eram guerreiros por amor à guerra, pelo butim, pelos riscos, as emoções, a satisfação animal do triunfo. Oitocentos anos depois da morte de Átila, Gengis Khan, ao perguntar a seus companheiros de armas mongóis sobre o maior prazer da vida e receber como resposta que era a falcoaria, retrucou: “Vocês se enganam. A maior fortuna do homem é perseguir e derrotar seu inimigo, tomar todas as suas posses, deixar sua esposa chorando e gemendo, montar seu capão [e] usar os corpos de suas mulheres como camisola e apoio”. Átila poderia ter dito a mesma coisa; com certeza, agia dentro desse espírito.
Juntas, a crueldade humana e a equina transformaram assim a guerra, fazendo dela, pela primeira vez, “uma coisa em si mesma”. Podemos a partir de então falar de “militarismo”, um aspecto das sociedades no qual a mera capacidade de guerrear, rápida e lucrativamente, se torna um motivo em si mesmo para fazê-lo.”


“Todos os povos montados que abriram uma trilha de conquistas das estepes até as terras civilizadas travavam “guerras verdadeiras” segundo todos os critérios — falta de limites no uso da força, singularidade de objetivo e nenhuma disposição de aceitar menos que a vitória total. Contudo, sua guerra não tinha objetivo político no sentido clausewitziano e nenhum efeito transformador cultural. Não se tratava de um meio de progresso material ou social; na verdade, era exatamente o contrário, um processo pelo qual obtinham a riqueza para sustentar um modo de vida imutável, para permanecer exatamente como eram desde que seus ancestrais atiraram uma flecha de cima de uma sela pela primeira vez.”


“Os povos cavaleiros, tais como os aurigas antes deles, trouxeram para a guerra o conceito elétrico de fazer campanhas de longa distância e, quando a campanha se resolvia em batalha, de manobrar em campo com velocidade — pelo menos cinco vezes mais veloz que homens a pé. Como protetores de seus rebanhos e manadas contra predadores, preservavam também o espírito do caçador, perdido pelos agricultores, com exceção da classe senhorial; de seu modo costumeiro de cuidar dos animais — reunir, conduzir, apartar, abater para comer — tiravam lições sobre como massas de gente a pé, ou mesmo de cavaleiros inferiores, podiam ser perseguidas, flanqueadas, encurraladas e finalmente mortas sem risco. Eram práticas que os caçadores primitivos, com sua relação empática com a caça e respeito místico pela presa atingida, teriam julgado intrinsecamente estranhas. Para os povos montados, equipados com o arco composto, ele mesmo um produto de tecidos animais, que sustentava seu modo de vida, matar à distância — tanto física quanto emocional — constituía uma segunda natureza.
Era o desprendimento emocional dos guerreiros montados, manifestado cabalmente em sua prática deliberada de atrocidades, que os povos sedentários achavam tão aterrorizante. Isso todavia desgastou-os. Com as duas características da guerra “primitiva” que persistiram por muito tempo no desenvolvimento da civilização — o caráter tentativo do choque e a associação de ritual e cerimônia com combate e seu resultado —, os povos montados não tinham nada a ver. Podem ter tornado um hábito recuar diante de um inimigo que procurasse a luta, mas tratava-se apenas de uma manobra para tirar o adversário de sua posição, desorganizar suas fileiras e expô-lo a um contra-ataque arrasador. De forma alguma revelavam a falta de disposição do guerreiro primitivo de chegar à luta de fato. Quando se aproximava para o golpe final, a horda a cavalo matava sem compaixão. Ademais, não havia sinal de rito ou cerimônia nas ações de uma horda montada. Elas lutavam para vencer — completamente, com rapidez e sem heroísmo. Com efeito, abster-se de exibições de heroísmo era quase uma regra dos nômades. O próprio Gengis, embora tenha sido ferido por uma flecha nos primórdios de sua ascensão ao poder, era fisicamente tímido e deixou depois de se expor nas batalhas em que estava nominalmente no comando. Os guerreiros ocidentais achavam absolutamente desconcertante não poder identificar a posição do líder na formação em crescente típica da tática dos nômades, uma vez que ele ficava discretamente longe do centro, comportamento oposto ao de um Alexandre ou Ricardo Coração de Leão.”


“Sobretudo, ele não leva em conta o fascínio que a vida de guerreiro exerce sobre a imaginação masculina. Essa é uma falha comum dos acadêmicos que se interessam por assuntos militares, mas jamais saem de seu ambiente universitário. (...)
É a admiração dos outros soldados que o satisfaz — se ele puder conquistá-la; a maioria dos soldados fica contente apenas com a companhia dos outros, com o desprezo compartilhado por um mundo mais suave, com a libertação da materialidade estreita trazida pela caserna e pela linha de marcha, com os confortos rudes do bivaque, com a competição na resistência, com a perspectiva do répos du guerrier junto às mulheres que os esperam.
A excitação da trilha da guerra ajuda a explicar o ethos do guerreiro primitivo. O sucesso no combate explica também por que alguns primitivos se tornaram povos guerreiros. As recompensas do êxito — se não conquista direta, apropriação de território e sujeição dos outros, então saque ou ao menos o direito de ditar os termos do comércio — são suficientes em si mesmas para validar a rejeição dos meios conciliatórios. Contudo, é importante não exagerar os impulsos para a vida guerreira. Como vimos, muitos primitivos buscavam conter o impulso à violência, enquanto até os povos mais ferozes erguiam suas pirâmides de crânios nas pegadas mais experimentais de outros; Tamerlão não teria sido o que foi se povos montados anteriores não tivessem testado os limites do poder de resistência da civilização. Aldous Huxley disse que um intelectual era uma pessoa que tinha descoberto algo mais interessante que o sexo. Um homem civilizado, pode-se dizer, é alguém que descobriu algo mais satisfatório que o combate. Depois que o homem superou o estágio primitivo, a proporção dos que preferiram outra coisa a lutar — arar o solo, fazer ou vender coisas, construir, ensinar, pensar ou tratar com outro mundo — aumentou tão rapidamente quanto permitiram os recursos da economia. Não se deve idealizar; os menos afortunados viram-se presos ao serviço ou até à servidão, enquanto os privilegiados, como observa Andreski, sempre basearam sua posição no poder das armas, exercido pessoalmente ou por fiéis subordinados. Porém o homem pós-primitivo dava um valor particular à vida não violenta, exemplificada pela do artista, do estudioso e, sobretudo, do homem e mulher santos. Foi por esse motivo que as atrocidades dos vikings, saqueadores de mosteiros e conventos, provocaram tanta repulsa no mundo cristão; até mesmo Tamerlão, que tinha recebido com respeito o grande sábio árabe Ibn Khaldun, não desceu ao nível sanguinário deles.”


“Retrospectivamente, é fácil ver que a principal contribuição de Roma para a compreensão da humanidade de como a vida pode ser tornada civilizada foi sua instituição de um exército disciplinado e profissional. Evidentemente, os romanos não tinham esse fim em vista quando começaram suas campanhas de expansão na Itália e travaram as guerras contra Cartago; o exército foi transformado de uma milícia de cidadãos em uma força expedicionária de longo alcance devido às exigências do campo de batalha, não por decisão consciente. Sua adoção de um sistema de alistamento regular, oferecendo “uma carreira aberta aos talentos” igualmente a cidadãos e não-cidadãos de todo o Império, originou-se na necessidade; as reformas de Augusto apenas racionalizaram uma situação já existente. No entanto, como se estivesse em ação uma mão invisível, a evolução do exército serviu exatamente à da própria civilização romana. Ao contrário da Grécia clássica, Roma foi uma civilização da lei e da realização física, não de ideias especulativas e criatividade artística. A imposição de suas leis e a incansável ampliação de sua extraordinária infraestrutura física exigia menos esforço intelectual que energia ilimitada e disciplina moral. Era dessas qualidades que o exército era a fonte última e, com frequência, em particular na engenharia de obras públicas, o instrumento direto. Portanto, era inevitável que o declínio dos poderes do exército — mesmo se provocado tanto por fracassos administrativos e econômicos internos quanto por crises militares nas fronteiras — trouxesse consigo o do próprio Império, e que o colapso do exército significasse a queda do Império do Ocidente.
Os reinos que se sucederam no Ocidente não aprenderam quão valiosa era a instituição que tinham destruído e como seria difícil substituí-la. Todavia, a autoridade moral na Europa pós-romana não perdeu completamente seu lar: ela migrou para as instituições da Igreja cristã, firmemente estabelecidas em sua forma romana, em vez de nestoriana, graças à conversão dos francos em 496; na Igreja, a ideia, se não a substância, do Império encontrou uma continuidade. Porém, sem espadas, os bispos não podiam dar força ao pacto cristão; e embora seus protetores reais tivessem espadas, usavam-nas antes para guerrearem-se uns aos outros que para estabelecer e manter uma paz cristã.”