Editora: Record
ISBN: 978-85-01-11582-9
Tradução: Aurora Fornoni Bernardini, Homero Freitas de Andrade
Opinião: ★★★★★
Páginas: 592
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Sinopse: É
impossível pensar em O nome da rosa sem
considerar seu extraordinário sucesso global, tanto para a crítica quanto para
o público. Trata-se de um desses raros fenômenos editoriais, um best-seller
literário que transcende as fronteiras linguísticas.
Este é o primeiro romance de Umberto Eco, um dos mais
importantes teóricos da comunicação de massa na atualidade. O autor utiliza um
roteiro policial, no estilo de Conan Doyle, que se desenvolve na última semana
de novembro de 1327, em um mosteiro franciscano da Itália medieval.
Neste mosteiro, paira a suspeita de heresia, e para a
investigação, é enviado o frei Guilherme de Baskerville. Porém a delicada
missão é interrompida por sete excêntricos assassinatos. A morte, em
circunstâncias insólitas, de sete monges em sete dias e noites guia uma
narrativa violenta, que encanta pelo seu caráter de humor e crueldade, malícia
e sedição erótica.
Esses crimes fazem frei Guilherme atuar como um detetive.
Ele busca prova, decifra símbolos secretos e manuscritos em códigos e trabalha arduamente
no misterioso labirinto do mosteiro onde eventos extraordinários ocorrem
durante a madrugada.
Um espetacular sucesso, O nome da rosa não é apenas uma narrativa de investigação de
crimes, mas também uma fascinante crônica sobre a Idade Média.
Essa edição de luxo, revisada pela consagrada tradutora
Ivone Benedetti, contém uma atualização da biografia de Umberto Eco, uma nota
de revisão e um glossário com a tradução dos termos em latim utilizados pelo
autor.
“Os homens de outrora eram belos e altos (agora são crianças e anões),
mas esse fato é apenas um dos muitos a testemunhar a desventura de um mundo que
vai envelhecendo. A juventude já nada mais quer aprender, a ciência está em
decadência, o mundo inteiro caminha de cabeça para baixo, cegos conduzem outros
cegos e os fazem precipitar-se nos abismos, os pássaros se lançam antes de
alçar voo, o asno toca lira, os bois dançam, Maria já não ama a vida
contemplativa e Marta já não ama a vida ativa, Lia é estéril, Raquel tem olhos
lúbricos, Catão frequenta lupanares. Tudo está desviado do próprio caminho.
Sejam dadas graças a Deus por eu naqueles tempos ter adquirido de meu mestre a
vontade de aprender e o sentido do caminho reto, que se conserva mesmo quando a
vereda é tortuosa.”
“Tanta
é a força da verdade que, tal como o bem, ela é autodifusiva.”
“Meus
mestres de Melk haviam dito com frequência que é muito difícil para um nórdico
entender claramente os acontecimentos religiosos e políticos da Itália.
A península,
onde, mais que em qualquer outro país, o clero ostentava poder e riqueza, tinha
gerado, pelo menos dois séculos antes, movimentos de homens inclinados a uma
vida mais pobre, em polêmica com os padres corruptos, dos quais recusavam até
os sacramentos, reunindo-se em comunidades autônomas, malvistas ao mesmo tempo
pelos aristocratas, pelo império e pelas magistraturas citadinas.
Por
fim aparecera são Francisco e difundira um amor à pobreza que não contradizia
os preceitos da igreja, e, por obra dele, a igreja acolhera o apelo daqueles
antigos movimentos em favor da severidade dos costumes e os purificara dos
elementos de desordem que neles se aninhavam. Deveria seguir-se a isso uma
época de brandura e santidade, porém a ordem franciscana, à medida que crescia
e atraía para si homens mais insignes, ia se tornando poderosa demais e ligada
a negócios terrenos, e muitos franciscanos quiseram reconduzi-la à pureza de
outrora. Coisa bastante difícil para uma ordem que, no tempo em que eu estava
na abadia, já contava com mais de trinta mil membros espalhados pelo mundo. Mas
assim é, e muitos daqueles frades de são Francisco opunham-se à regra que a
ordem adquirira, dizendo que ela estava assumindo os modos daquelas
instituições eclesiásticas para cuja reforma tinha nascido. E que isso já
acontecera nos tempos em que Francisco estava vivo, e que as palavras e os
propósitos dele tinham sido traídos.
Muitos
deles redescobriram, então, o livro de um monge cisterciense que escrevera em
princípios do século XII de nossa era, chamado Joaquim, a quem era atribuído o
dom da profecia… Ele previra o advento de uma nova era, na qual o espírito de
Cristo, havia muito corrompido por obra de seus falsos apóstolos,
realizar-se-ia de novo sobre a Terra. E a todos parecera claro que ele estava
falando, sem saber, da ordem franciscana.
Com
isso muitos franciscanos tinham-se alegrado bastante, parece que até demais,
tanto que em meados do século, em Paris, os doutores da Sorbonne condenaram as
proposições daquele abade Joaquim e o fizeram porque na universidade os
franciscanos (e os dominicanos) estavam se tornando demasiado populares e por
demais ouvidos, e pretendia-se eliminá-los como hereges. O que depois não se
fez, e foi um grande bem para a Igreja, porque permitiu que fossem divulgadas
as obras de Tomás de Aquino e de Boaventura de Bagnoregio, que sem dúvida não
eram hereges. Por aí se vê que em Paris também as ideias estavam confusas, ou
alguém queria confundi-las em seu interesse próprio. E este é o mal que a
heresia faz ao povo cristão, tornando obscuras as ideias e levando todos a se
tornarem inquisidores em benefício próprio. Depois, tudo o que vi na abadia me
levou a pensar que frequentemente são os inquisidores que criam os hereges. E
não apenas no sentido de que imaginam haver hereges quando não os há, mas no
sentido de que reprimem com tanta veemência a degeneração herética que impelem
muitos a participar da heresia por ódio a eles. Na verdade, um círculo
imaginado pelo demônio, que Deus nos proteja.”
“Percorremos de volta a nave central e saímos. Eu continuava perturbado
pela conversa com Ubertino.
— É um homem… estranho — ousei dizer.
— É, ou foi, em muitos aspectos, um grande
homem. Mas justamente por isso é estranho. Apenas os pequenos homens parecem
normais. Ubertino poderia ter-se tornado um dos hereges que ele contribuiu para
condenar à fogueira, ou um cardeal da Santa Igreja Romana. Esteve pertíssimo de
ambas as perversões. Quando falo com Ubertino, tenho a impressão de que o
inferno é o paraíso visto do outro lado.
Não entendi o que estava querendo dizer:
— De que lado? — perguntei.
— Pois é — admitiu Guilherme —, trata-se de
saber se há lados e se há um todo.”
“— Uma
abadia é sempre um lugar onde os monges estão em luta entre si para apoderar-se
do governo da comunidade. Em Melk também, mas talvez como noviço não tenhas
tido jeito de perceber. Mas na tua terra conquistar o governo de uma abadia
significa conquistar um lugar de onde se trata diretamente com o imperador.
Nestas terras, a situação é diferente, o imperador está distante, mesmo quando
desce até Roma. Não há uma corte, sequer a papal, agora. Há cidades, terás
percebido isso.
—
Claro, e fiquei impressionado. A cidade na Itália é coisa diferente da cidade
de minha terra… Não é só um lugar para morar: é um lugar para decidir, todos
estão sempre na praça, os magistrados cidadãos contam mais que o imperador ou o
papa. É como se fossem… vários reinos…
— E
os reis são os mercadores. E a arma deles é o dinheiro. O dinheiro, na Itália,
tem função diferente da que tem no teu país ou no meu. Lá, o dinheiro circula
por todo lugar, mas grande parte da vida ainda é dominada e regulada pela troca
de bens, galinhas, gavelas de trigo, podadeiras, carroças, e o dinheiro serve
para obter esses bens. Terás notado que na cidade italiana, ao contrário, os
bens servem para obter dinheiro. E mesmo os padres, os bispos e até as ordens
religiosas precisam lidar com o dinheiro. É por isso, naturalmente, que a
rebelião contra o poder manifesta-se como chamamento à pobreza, e rebelam-se
contra o poder os que são excluídos da relação com o dinheiro, e cada
chamamento à pobreza suscita muita tensão e muitas controvérsias, e a cidade
inteira, do bispo ao magistrado, sente como inimigo quem prega demais a
pobreza. Os inquisidores sentem cheiro do demônio sempre que alguém reage
contra o cheiro do esterco do demônio. E então compreenderás também o que
Aymaro está pensando. Uma abadia beneditina, nos tempos áureos da ordem, era o
lugar de onde os pastores controlavam o rebanho de fiéis. Aymaro quer que se
volte à tradição. Ocorre que a vida do rebanho mudou, e a abadia só poderá
voltar à tradição (à glória, ao poder de antigamente) se aceitar o novo costume
do rebanho, tornando-se diferente. E, uma vez que hoje aqui não se domina o
rebanho com armas ou com o esplendor dos ritos, mas com o controle do dinheiro,
Aymaro quer que todo o estabelecimento da abadia e a própria biblioteca se
tornem fábrica, e fábrica de dinheiro.”
“— A
biblioteca é testemunha da verdade e do erro — disse então uma voz às nossas
costas. Era Jorge. Uma vez mais fiquei assombrado (mas muito ainda deveria me
impressionar nos dias seguintes) com o modo inopinado com que o velho aparecia
de improviso, como se nós não o víssemos e ele estivesse nos vendo. Perguntei-me
também o que afinal fazia um cego no scriptorium, mas dei-me conta, em seguida,
que Jorge estava sempre onipresente em todos os lugares da abadia. E com
frequência ficava no scriptorium, sentado numa cadeira perto da lareira, e
parecia acompanhar tudo o que acontecia na sala. Uma vez o ouvi perguntar de
seu posto em voz alta: “Quem está subindo?”, virando-se para Malaquias que, com
os passos abafados pela palha, se dirigia à biblioteca. Os monges todos o
tinham em grande apreço e recorriam frequentemente a ele, lendo-lhe trechos de
difícil compreensão, consultando-o sobre algum escólio ou pedindo-lhe
esclarecimentos sobre como representar um animal ou um santo. E ele fixava o
vazio com seus olhos apagados, como se fitasse páginas que tinha vívidas na
memória e respondia que os falsos profetas são ataviados como bispos, com rãs a
lhes saírem da boca, ou quais eram as pedras que deveriam adornar as muralhas
da Jerusalém celeste, ou que, nos mapas, os arimaspos devem ser representados
perto da terra do Preste João, recomendando que não exagerassem na sua
monstruosidade, o que os tornaria sedutores, pois bastava representá-los como
emblemas: reconhecíveis, mas não concupiscíveis, nem repelentes a ponto de
provocar o riso.
Uma
vez o ouvi aconselhando um escoliasta sobre como interpretar a recapitulatio
nos textos de Ticônio conforme o pensamento de santo Agostinho, para que se
evitasse a heresia donatista. Outra vez o ouvi dar conselhos sobre como,
comentando, distinguir hereges de cismáticos. Ou ainda dizer a um estudioso
perplexo qual livro precisaria procurar no catálogo da biblioteca e mais ou
menos em que fólio encontraria menção dele, assegurando-lhe que o bibliotecário
decerto o entregaria, pois se tratava de obra inspirada por Deus. Por fim, de
outra vez, ouvi-o dizer que certo livro não devia ser procurado, que existia no
catálogo, é verdade, mas fora estragado pelos ratos cinquenta anos antes e se
pulverizaria sob os dedos de quem o tocasse agora. Ele era, em suma, a própria
memória da biblioteca e a alma do scriptorium. Às vezes admoestava os monges
que ouvia conversando: “Apressai-vos a deixar testemunho da verdade, pois os
tempos estão próximos”, e aludia à vinda do Anticristo.
— A
biblioteca é testemunha da verdade e do erro — havia dito Jorge, então.
— É
verdade, Apuleio e Luciano eram culpados de muitos erros — disse Guilherme,
mas, sob o véu de suas ficções, esta fábula contém até que boa moral, porque
ensina como se paga pelos próprios erros; além disso, acho que a história do
homem transformado em asno alude à metamorfose da alma que cai em pecado.
—
Pode ser — disse Jorge.
—
Porém agora compreendo por que Venâncio, durante aquela conversa de que me
falou ontem, estava tão interessado nos problemas da comédia; de fato, mesmo as
fábulas desse tipo podem ser comparadas às comédias dos antigos. Ambas não
falam de homens que existiram de verdade, como as tragédias, mas, conforme diz
Isidoro, são ficções: “fabulae poetae a fando nominaverunt quia non sunt
res factae sed tantum loquendo fictae”[52]…
Logo
de início não entendi por que Guilherme tinha entrado nessa douta discussão,
justamente com um homem que parecia não gostar de tais assuntos, mas a resposta
de Jorge me mostrou quanto meu mestre tinha sido sutil.
— Naquele
dia não se discutiam comédias, mas apenas o caráter lícito ou não do riso —
disse Jorge franzindo o cenho.
E eu
me lembrava muito bem que, quando Venâncio se referira àquela discussão,
justamente no dia anterior, Jorge tinha afirmado não se lembrar dela.
— Ah
— disse Guilherme com indiferença — achei que tínheis falado das mentiras dos
poetas e dos enigmas argutos…
—
Falava-se do riso — disse Jorge secamente. — As comédias eram escritas pelos
pagãos para levar os espectadores ao riso, e nisso faziam mal. Jesus Nosso
Senhor nunca contou comédias nem fábulas, mas apenas límpidas parábolas que nos
instruem alegoricamente sobre como alcançar o paraíso, e assim seja.
—
Pergunto-me — disse Guilherme — por que sois tão contrário a se pensar que
Jesus alguma vez riu. Acho que o riso é bom remédio, como os banhos, para curar
os humores e outras afecções do corpo, em especial a melancolia.
— Os
banhos são boa coisa — disse Jorge —, e o próprio aquinate os aconselha para
remover a tristeza, que pode ser má paixão, quando não está voltada para um mal
que possa ser extinguido através da audácia. Os banhos restituem o equilíbrio
dos humores. O riso sacode o corpo, deforma os traços fisionômicos, torna o
homem semelhante ao macaco.
— Os
macacos não riem, o riso é próprio do homem, é sinal de sua racionalidade —
disse Guilherme.
—
Também a palavra é sinal da racionalidade humana, e com a palavra se pode
blasfemar contra Deus. Nem tudo que é próprio do homem é necessariamente bom. O
riso é sinal de estultice. Quem ri não acredita naquilo de que está rindo, mas
tampouco o odeia. Portanto, rir do mal significa não estar disposto a
combatê-lo e rir do bem significa desconhecer a força com a qual o bem é
difusivo de si. Por isso a Regra diz que o décimo grau da humildade é aquele em
que o monge não está sempre pronto a rir, porque está escrito: “stultus in risu
exaltat vocem suam”[53].
—
Quintiliano — interrompeu meu mestre — diz que o riso é para ser reprimido no
panegírico, por dignidade, mas deve ser encorajado em muitos outros casos.
Tácito louva a ironia de Calpúrnio Pisão; Plínio, o Jovem, escreveu: às vezes
rio, brinco, jogo: sou homem.
—
Eram pagãos — replicou Jorge. — A Regra diz: “havemos de excluir sempre e em
todo lugar a trivialidade, as frivolidades e as truanices, e não permitamos
absolutamente que o monge abra a boca para conversas desse gênero”.
—
Porém, quando o verbo de Cristo já tinha triunfado sobre a terra, Sinésio de
Cirene diz que a divindade soube combinar harmoniosamente cômico e trágico, e
Élio Esparciano diz que o imperador Adriano, homem de elevados princípios e de
espírito naturaliter cristão, soube mesclar momentos de alegria com momentos de
gravidade. E, por fim, Ausônio recomenda dosar com moderação o sério e o jocoso.
— Mas
Paulino de Nola e Clemente de Alexandria nos puseram em guarda contra essas
tolices, e Sulpício Severo diz que são Martinho nunca foi visto por ninguém sob
o domínio da ira nem da hilaridade.
—
Porém lembra do santo algumas respostas espiritualiter salsa[54]
— disse Guilherme.
—
Eram prontas e doutas, não ridículas. Santo Efrém escreveu uma parênese contra
o riso dos monges, e em De habitu et conversatione monachorum
recomenda-se evitar obscenidades e gracejos como se fossem veneno de áspides!
— Mas
Hildeberto disse: “admittenda tibi joca sunt post seria quaedam”,[55]
sinal de que às vezes é necessário temperar o excesso de seriedade com algo
mais leve. E João de Salisbury autorizou uma modesta hilaridade. E finalmente o
Eclesiastes, do qual citastes o trecho a que se refere vossa Regra, onde se diz
que o riso é próprio do estulto, admite ao menos um riso silencioso, do ânimo
sereno.
— O
ânimo é sereno somente quando contempla a verdade e se deleita com o bem
realizado; e da verdade e do bem não se ri. Eis por que Cristo não ria. O riso
é incentivo à dúvida.
— Mas
às vezes é justo duvidar.
— Não
vejo razão para isso. Quando se duvida deve-se recorrer a uma autoridade, às
palavras de um padre ou de um doutor, e acaba a razão para a dúvida. A mim me
pareceis embebido de doutrinas discutíveis, como as dos lógicos de Paris. Mas
são Bernardo soube bem intervir contra o castrado Abelardo, que queria submeter
todos os problemas ao crivo frio e sem vida de uma razão não iluminada pelas
escrituras. Certamente quem aceita essas ideias perigosíssimas pode também
apreciar o jogo do ignorante que ri daquilo cuja verdade única se deve saber, e
nada mais, verdade que já foi dita de uma vez por todas. Assim, rindo, o
ignorante diz implicitamente “Deus non est”[56].
—
Venerável Jorge, pareceis injusto quando tratais Abelardo por castrado, porque
sabeis que incorreu nessa triste condição por perversidade alheia…
— Por
seus pecados. Pela arrogância de sua confiança na razão do homem. Desse modo a
fé dos simples foi escarnecida, os mistérios de Deus foram eviscerados (ou
tentaram, tolos os que o tentaram), questões que diziam respeito às coisas
altíssimas foram tratadas temerariamente, zombou-se dos padres porque tinham
considerado preferível que tais questões fossem postas de lado, em vez de
solucionadas.
— Não
concordo, venerável Jorge. Deus quer que exercitemos nossa razão em muitas
coisas obscuras sobre as quais a escritura nos deixou livres para decidir. E,
quando alguém vos propõe acreditar numa proposição, deveis primeiro examinar se
ela é aceitável, porque nossa razão foi criada por Deus, e aquilo que agrada à
nossa razão não pode deixar de agradar à razão divina, da qual sabemos,
contudo, apenas aquilo que, por analogia e frequentemente por negação,
inferimos dos procedimentos de nossa razão. E então vedes que às vezes, para
minar a falsa autoridade duma proposição absurda que repugna à razão, até o
riso pode ser um instrumento justo. O riso serve amiúde também para confundir
os maus e fazer refulgir sua estultice. Conta-se que são Mauro, posto pelos
pagãos em água fervente, queixou-se de que o banho estava muito frio; o
governador pagão pôs tolamente a mão na água para verificar e queimou-se. Bela
ação a do santo mártir que ridicularizou os inimigos da fé.
Jorge
soltou uma risota:
—
Mesmo nos episódios narrados pelos pregadores encontram-se muitas invenções. Um
santo imerso em água fervente sofre por Cristo e contém seus gritos, não fica
pregando peças pueris aos pagãos!
—
Estais vendo? — disse Guilherme. — Essa história vos parece repugnar à razão e
vós a acusais de ridícula! Ainda que tacitamente e controlando os lábios,
estais rindo de algo e quereis que eu também não o leve a sério. Rides do riso,
mas rides.
Jorge
fez um gesto de contrariedade:
—
Brincando com o riso me arrastastes a discursos vãos. Mas vós sabeis que Cristo
não ria.
— Não
estou certo disso. Quando convidava os fariseus a jogar a primeira pedra,
quando perguntava de quem era a efígie na moeda para pagar como tributo, quando
brincava com as palavras e dizia “Tu es petrus”, creio que dizia coisas
argutas, para confundir os pecadores, para infundir coragem aos seus. Falava
com argúcia também quando disse a Caifás: “Tu o disseste”. E sabeis muito bem
que, no momento mais aceso da luta entre cluniacenses e cistercienses, os
primeiros acusaram os segundos, para torná-los ridículos, de não usarem bragas.
E em Speculum Stultorum conta-se que o asno Brunello se pergunta o que
aconteceria se à noite o vento levantasse os cobertores, e o monge visse suas
partes pudendas…
Os
monges ao redor riram, e Jorge enfureceu-se:
—
Estais arrastando esses confrades a uma festa de loucos. Sei que entre os
franciscanos é costume cativar as simpatias do povo com tolices desse gênero,
mas sobre esses ludi[57] vos direi o que diz um verso que ouvi
de um de vossos pregadores: tum podex carmen extulit horridulum[58].
A
reprimenda era um pouco forte demais, Guilherme fora impertinente, mas agora
Jorge o acusava de soltar peidos pela boca. Perguntei-me se aquela resposta
severa não significaria um convite, da parte do monge ancião, a sairmos do
scriptorium. Mas vi Guilherme, tão combativo um pouco antes, usar agora de
grande mansuetude.
—
Peço-vos perdão, venerável Jorge — disse. — Minha boca traiu meus pensamentos,
não queria faltar-vos com o respeito. Talvez o que dizeis seja certo, e eu
estava errado.”
52. “foram chamadas de
fábulas de poeta, do verbo falar, porque não são coisas feitas, mas fingimentos
verbais”. — Isidoro de Sevilha, Etimologias, 1.40.1.
53. “O estulto eleva a voz quando ri”. — Regra de são Bento, Décimo
grau de humildade, citação de Eclesiástico, 21, 23.
54. “espiritualmente divertidas”.
55. “deves admitir as brincadeiras depois de algumas coisas
sérias”.
58. “Então o ânus produziu um canto áspero”.
“Berengário
deixava-se consumir — agora muitos monges sabiam disso — por insana paixão por
Adelmo, a mesma paixão cujos nefastos resultados a cólera divina castigara em
Sodoma e Gomorra. Assim se exprimiu Bêncio, talvez por consideração à minha
pouca idade. Mas quem passou a adolescência num mosteiro, mesmo mantendo-se
casto, já ouviu falar de tais paixões e, às vezes, até precisou defender-se das
insídias de quem era escravizado por elas. Mongezinho que era eu em Melk, acaso
já não tinha recebido de um velho monge bilhetes com versos que de costume os
leigos dedicam às mulheres? Os votos monacais nos mantêm afastados da cloaca de
vícios que é o corpo da mulher, mas frequentemente nos conduzem para muito
perto de outros erros. Enfim, acaso posso esconder de mim mesmo que minha
velhice ainda hoje é agitada pelo demônio meridiano, quando, no coro, me ocorre
demorar os olhos sobre o rosto imberbe de um noviço, puro e fresco como uma
menina?”
“Acordei
quando quase soava a hora da refeição vespertina. Sentia-me entorpecido pelo
sono, porque o sono diurno é como o pecado da carne: quanto mais se teve, mais
se gostaria de ter, contudo nos deixa infelizes, satisfeitos e insatisfeitos ao
mesmo tempo.”
“—
Mas por que o evangelho nunca diz que Cristo ria? — perguntei, sem nenhuma boa
razão. — O que Jorge diz é verdade?
—
Legiões já se perguntaram se Cristo riu ou não. A coisa não me interessa muito.
Acho que nunca riu porque, onisciente como devia ser o filho de Deus, sabia o
que faríamos nós, cristãos.”
“Pelo
que entendi, uns trinta anos antes, ele tinha se agregado a um convento de
menoritas na Toscana e lá vestira o hábito de são Francisco, sem se ordenar.
Ali, acho, aprendera o pouco de latim que falava, misturando-o com os falares
de todos os lugares em que, pobre e sem pátria, tinha estado e de todos os
companheiros de vagueação que encontrara, desde os mercenários da minha terra
até os bogomilos dálmatas. Ali adotara a vida de penitência, conforme dizia
(penitenziagite, citava-me com olhos inspirados, e novamente ouvi a fórmula que
deixara Guilherme curioso), mas, ao que parece, também os menoritas com quem
estava tinham ideias confusas, porque, escandalizados com o cônego da igreja
vizinha, acusado de roubos e outras abominações, saquearam-lhe igreja e casa e
o fizeram rolar escada abaixo, de modo que o pecador morreu. Por isso, o bispo
enviou soldados, os frades se dispersaram, e Salvatore vagou muito tempo pela
alta Itália com um bando de fraticelos, ou melhor, de menoritas mendicantes sem
nenhuma lei nem disciplina.
Dali
foi parar na região de Tolosa, onde viveu uma estranha história, enquanto se
inflamava com a narrativa que ouvia dos grandes cometimentos dos cruzados. Uma
massa de pastores e humildes, em grande multidão, reuniu-se um dia para
atravessar o mar e combater contra os inimigos da fé. Foram chamados de
pastorinhos. Na verdade, queriam fugir daquela sua terra maldita. Havia dois
chefes, que lhes inspiraram falsas teorias: um sacerdote que fora privado de
sua igreja por motivo de conduta e um monge apóstata da ordem de são Bento.
Estes tinham levado aqueles simplórios a perder a tal ponto o juízo que atrás
deles corriam, em bandos, até mesmo rapazes de dezesseis anos que, contrariando
a vontade dos pais, tinham abandonado os campos e, levando consigo apenas um
bornal e um bastão, sem dinheiro, seguiam-nos como um rebanho e formavam grande
massa. Já não seguiam a razão nem a justiça, mas apenas a força e sua vontade.
O fato de estarem juntos, livres finalmente e com uma obscura esperança de
terras prometidas deu-lhes uma espécie de embriaguez. Percorriam as aldeias e
as cidades agarrando tudo, e, se um deles fosse detido, os outros assaltavam as
prisões e o libertavam. Quando entraram na fortaleza de Paris para soltar
alguns companheiros que os senhores tinham mandado prender, como o preboste de
Paris tentasse opor resistência, jogaram-no pelos degraus daquela prisão.
Depois formaram uma tropa no prado de Saint-Germain, mas ninguém teve coragem
de enfrentá-los. Então se dirigiram para a Aquitânia e depredavam e matavam
todos os judeus dos guetos por onde passavam…
— Por
que os judeus? — perguntei a Salvatore. E ele me respondeu:
— E
por que não?
E
explicou-me que a vida inteira tinha aprendido com os pregadores que os judeus
eram inimigos da cristandade e acumulavam os bens que lhes eram negados.
Perguntei-lhe se não era verdade, porém, que os bens eram acumulados pelos
senhores e pelos bispos, através dos dízimos, e que portanto os pastorinhos não
estavam combatendo seus verdadeiros inimigos. Respondeu-me que, quando os
verdadeiros inimigos são fortes demais, é preciso escolher inimigos mais
fracos. Está explicado — pensei — por que os simples são assim chamados.
Somente os poderosos sabem sempre com muita clareza quem são seus verdadeiros
inimigos. Os senhores não queriam ver seus bens postos em risco pelos
pastorinhos, e foi grande sorte a sorte deles quando os chefes dos pastorinhos
insinuaram a ideia de que muitas das riquezas estavam com os judeus.”

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