domingo, 19 de abril de 2026

O morro dos ventos uivantes, de Emily Brontë

Editora: Antofágica

ISBN: 978-65-86490-29-9

Tradução: Stephanie Fernandes

Ilustrações: Janaína Tokitaka

Opinião: ★★☆☆☆

Páginas: 496

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Sinopse: Ainda que contada por diversos narradores e muitos pontos de vista, nenhum ângulo é capaz de deixar a história do Morro dos Ventos Uivantes menos sórdida. Lá, não há santos ou demônios: todos são repletos de virtudes e pecados. E não podemos garantir que não haverá um ou outro fantasma vagando pela charneca… Ao voltar de uma viagem, o pai da família Earnshaw não traz consigo os presentes que os filhos lhe pediram ― em vez disso, traz um garotinho perdido de pele escura, que encontrou vagando no porto. O menino ganha um nome ― Heathcliff ―, mas jamais um sobrenome, o primeiro dos atributos da família a que ele não terá acesso. Catherine é a única a acolhê-lo, e essa relação, repleta de amor, obsessão e vingança, atravessa gerações e não é detida nem mesmo pela morte.



“Talvez algumas pessoas vejam nele certo orgulho de baixa estirpe; em mim ele provoca um sentimento solidário, que me diz que não é nada do tipo. Sei por instinto que a discrição dele deriva de uma aversão a demonstrações espalhafatosas de sentimento — a manifestações de gentileza mútua. Ele ama e odeia em segredo, e julga ser uma espécie de impertinência ser amado ou odiado de volta. Não, estou me precipitando: atribuo a ele meu próprio temperamento, como me convém. O sr. Heathcliff talvez tenha suas próprias razões, totalmente distintas das minhas, para manter a mão resguardada quando é apresentado a um camarada em potencial, categoria na qual me encaixo. Acredito que meu caso é peculiar: minha querida mãe costumava dizer que eu jamais teria um lar aconchegante; e eis que, no verão passado, de fato provei-me indigno de um.

Estava passando um mês no litoral, desfrutando do tempo bom, quando me encontrei na companhia da mais fascinante criatura — uma verdadeira deusa a meus olhos, embora não me notasse. Nunca “declarei meu amor” em voz alta; contudo, pela linguagem corporal, qualquer palerma teria adivinhado que eu estava perdidamente apaixonado; ela entendeu, enfim, e me respondeu com o mais doce olhar que se pode imaginar. E eu fiz o quê? Confesso, com embaraço, que me recolhi com frieza, feito caramujo; a cada troca de olhares, retraía-me mais e mais, até que, no fim das contas, a pobrezinha passou a duvidar de seus próprios sentidos e, vencida pela confusão de seu suposto equívoco, persuadiu sua mãe a deixar a costa. Por essa estranha reviravolta no comportamento, ganhei a reputação de crueldade deliberada; quão injusta é essa imagem, só eu sei.”

 

 

“Orgulho só traz desgosto.”

 

 

“— Não estou acostumado a dormir cedo. Uma ou duas da manhã está de bom tamanho para quem fica na cama até as dez.

— O senhor não deveria levantar assim tão tarde. Acaba perdendo a melhor parte da manhã. Quem não faz metade do trabalho que tem para o dia até as dez corre o risco de deixar a outra parte por fazer.

— Sente-se, sra. Dean. Prevejo uma gripe insistente… Então, de qualquer modo, não sairei tão cedo da cama amanhã.

— Espero que não piore, senhor. Mas, então, permita-me pular uns três anos… Nessa janela de tempo, a sra. Earnshaw…

— Não, não vou permitir nada do tipo! Sabe aquele estado de espírito quando estamos sentados sozinhos, vendo uma gata lamber um filhote no tapete, tão absortos, que um mero descuido com uma orelha pode nos tirar do sério?

— É um estado de espírito um tanto preguiçoso, devo dizer.

— Pelo contrário, é tão enérgico, que cansa. É meu humor no momento. Portanto, peço que continue a história nos mínimos detalhes. Noto que as pessoas daqui atentam mais umas para as outras do que as pessoas da cidade, assim como uma aranha em uma masmorra chama mais atenção do que uma aranha em uma cabana, aos olhos dos ocupantes; todavia, essa atração profunda não se deve apenas à situação do observador. De fato, levam a vida mais a sério, mais voltada para si, e não focam tanto em mudanças superficiais e frivolidades externas. Aqui chego a acreditar que um amor para a vida é quase possível, e sempre fui cético quanto a qualquer amor que durasse mais do que um ano. Um lado é como servir a um homem faminto um único prato, no qual ele pode concentrar todo seu apetite e lhe fazer justiça; o outro é como oferecer-lhe uma mesa posta por cozinheiros franceses: ele pode até desfrutar do todo, mas cada parte fica na memória como um mero átomo.”

 

 

— A vida já é sombria o bastante sem conjurar fantasmas e visões para nos desconcertar.”

 

 

“Não tenho palavras para explicar, mas com certeza você e todo mundo acreditam que há ou deveria haver uma existência para além de nós. De que valeria minha criação, se eu ficasse enclausurada aqui? Meus maiores tormentos neste mundo foram os tormentos de Heathcliff, e testemunhei e senti cada um deles desde o princípio: boa parte dos meus pensamentos é dedicada a ele. Se tudo mais perecesse e restasse apenas ele, eu continuaria a existir; e se tudo mais restasse e ele fosse aniquilado, o universo passaria a ser um completo desconhecido para mim, e eu não me sentiria parte dele. Meu amor por Linton é como a folhagem do bosque: o tempo há de transformá-lo, sei bem, assim como o inverno transforma as árvores. Meu amor por Heathcliff se compara às eternas rochas sob a superfície: fonte de uma alegria pouco evidente, mas necessária. Nelly, eu sou Heathcliff! Ele sempre está nos meus pensamentos, e não como fonte de prazer, assim como nem sempre sou um prazer para mim mesma, mas como meu próprio ser. Então, não me venha mais com essa história de separação. Seria impraticável, e…

Ela se deteve e enterrou o rosto nas dobras do meu vestido, mas eu a repeli à força. Tinha perdido a paciência com aquela tolice toda!

— Se é possível tirar qualquer conclusão desse seu disparate — disse-lhe —, é que a senhorita ignora as responsabilidades que deveria assumir ao casar, ou então que é uma moça cruel e sem princípios. Mas não me importune mais com segredos. Não prometo guardá-los.”

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