Editora: Antofágica
ISBN: 978-65-86490-29-9
Tradução: Stephanie Fernandes
Ilustrações: Janaína Tokitaka
Opinião: ★★☆☆☆
Páginas: 496
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Sinopse: Ainda
que contada por diversos narradores e muitos pontos de vista, nenhum ângulo é
capaz de deixar a história do Morro dos Ventos Uivantes menos sórdida. Lá, não
há santos ou demônios: todos são repletos de virtudes e pecados. E não podemos
garantir que não haverá um ou outro fantasma vagando pela charneca… Ao voltar
de uma viagem, o pai da família Earnshaw não traz consigo os presentes que os
filhos lhe pediram ― em vez disso, traz um garotinho perdido de pele escura,
que encontrou vagando no porto. O menino ganha um nome ― Heathcliff ―, mas
jamais um sobrenome, o primeiro dos atributos da família a que ele não terá
acesso. Catherine é a única a acolhê-lo, e essa relação, repleta de amor,
obsessão e vingança, atravessa gerações e não é detida nem mesmo pela morte.
“Talvez
algumas pessoas vejam nele certo orgulho de baixa estirpe; em mim ele provoca
um sentimento solidário, que me diz que não é nada do tipo. Sei por instinto
que a discrição dele deriva de uma aversão a demonstrações espalhafatosas de
sentimento — a manifestações de gentileza mútua. Ele ama e odeia em segredo, e
julga ser uma espécie de impertinência ser amado ou odiado de volta. Não, estou
me precipitando: atribuo a ele meu próprio temperamento, como me convém. O sr.
Heathcliff talvez tenha suas próprias razões, totalmente distintas das minhas,
para manter a mão resguardada quando é apresentado a um camarada em potencial,
categoria na qual me encaixo. Acredito que meu caso é peculiar: minha querida
mãe costumava dizer que eu jamais teria
um lar aconchegante; e eis que, no verão passado, de fato provei-me indigno de
um.
Estava passando um mês no
litoral, desfrutando do tempo bom, quando me encontrei na companhia da mais
fascinante criatura — uma verdadeira deusa a meus olhos, embora não me notasse.
Nunca “declarei meu amor” em voz alta; contudo, pela linguagem corporal,
qualquer palerma teria adivinhado que eu estava perdidamente apaixonado; ela
entendeu, enfim, e me respondeu com o mais doce olhar que se pode imaginar. E
eu fiz o quê? Confesso, com embaraço, que me recolhi com frieza, feito
caramujo; a cada troca de olhares, retraía-me mais e mais, até que, no fim das
contas, a pobrezinha passou a duvidar de seus próprios sentidos e, vencida pela
confusão de seu suposto equívoco, persuadiu sua mãe a deixar a costa. Por essa
estranha reviravolta no comportamento, ganhei a reputação de crueldade
deliberada; quão injusta é essa imagem, só eu sei.”
“Orgulho
só traz desgosto.”
“— Não
estou acostumado a dormir cedo. Uma ou duas da manhã está de bom tamanho para
quem fica na cama até as dez.
— O
senhor não deveria levantar assim tão tarde. Acaba perdendo a melhor parte da
manhã. Quem não faz metade do trabalho que tem para o dia até as dez corre o
risco de deixar a outra parte por fazer.
— Sente-se, sra. Dean. Prevejo uma gripe
insistente… Então, de qualquer modo, não sairei tão cedo da cama amanhã.
—
Espero que não piore, senhor. Mas, então, permita-me pular uns três anos… Nessa
janela de tempo, a sra. Earnshaw…
—
Não, não vou permitir nada do tipo! Sabe aquele estado de espírito quando
estamos sentados sozinhos, vendo uma gata lamber um filhote no tapete, tão
absortos, que um mero descuido com uma orelha pode nos tirar do sério?
— É
um estado de espírito um tanto preguiçoso, devo dizer.
—
Pelo contrário, é tão enérgico, que cansa. É meu humor no momento. Portanto,
peço que continue a história nos mínimos detalhes. Noto que as pessoas daqui
atentam mais umas para as outras do que as pessoas da cidade, assim como uma
aranha em uma masmorra chama mais atenção do que uma aranha em uma cabana, aos
olhos dos ocupantes; todavia, essa atração profunda não se deve apenas à
situação do observador. De fato, levam a vida mais a sério, mais voltada para
si, e não focam tanto em mudanças superficiais e frivolidades externas. Aqui
chego a acreditar que um amor para a vida é quase possível, e sempre fui cético
quanto a qualquer amor que durasse mais do que um ano. Um lado é como servir a
um homem faminto um único prato, no qual ele pode concentrar todo seu apetite e
lhe fazer justiça; o outro é como oferecer-lhe uma mesa posta por cozinheiros
franceses: ele pode até desfrutar do todo, mas cada parte fica na memória como
um mero átomo.”
“— A vida já é sombria o bastante sem conjurar fantasmas e visões para
nos desconcertar.”
“Não
tenho palavras para explicar, mas com certeza você e todo mundo acreditam que
há ou deveria haver uma existência para além de nós. De que valeria minha
criação, se eu ficasse enclausurada aqui? Meus maiores tormentos neste mundo
foram os tormentos de Heathcliff, e testemunhei e senti cada um deles desde o
princípio: boa parte dos meus pensamentos é dedicada a ele. Se tudo mais
perecesse e restasse apenas ele, eu continuaria a existir; e se tudo mais
restasse e ele fosse aniquilado, o universo passaria a ser um completo
desconhecido para mim, e eu não me sentiria parte dele. Meu amor por Linton é
como a folhagem do bosque: o tempo há de transformá-lo, sei bem, assim como o
inverno transforma as árvores. Meu amor por Heathcliff se compara às eternas
rochas sob a superfície: fonte de uma alegria pouco evidente, mas necessária.
Nelly, eu sou Heathcliff! Ele sempre está nos meus pensamentos, e
não como fonte de prazer, assim como nem sempre sou um prazer para mim mesma,
mas como meu próprio ser. Então, não me venha mais com essa história de
separação. Seria impraticável, e…
Ela
se deteve e enterrou o rosto nas dobras do meu vestido, mas eu a repeli à
força. Tinha perdido a paciência com aquela tolice toda!
— Se é possível tirar qualquer conclusão desse
seu disparate — disse-lhe —, é que a senhorita ignora as responsabilidades que
deveria assumir ao casar, ou então que é uma moça cruel e sem princípios. Mas
não me importune mais com segredos. Não prometo guardá-los.”

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