sábado, 25 de abril de 2026

A acumulação do capital (Parte I), de Rosa Luxemburgo

Editora: Civilização Brasileira

ISBN: 978-65-5802-098-1

Organização: Egas Moniz Bandeira e Luccas Eduardo Maldonado

Notas: Antonio V. B. Mota Filho

Tradução: Luiz Alberto Moniz Bandeira

Opinião: ★★★☆☆

Páginas: 756

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Sinopse: “O capital pode se acumular indefinidamente?” Para responder a essa questão clássica da Economia Política, em A acumulação do capital, a cientista, professora e militante marxista Rosa Luxemburgo defende, neste, que é seu principal livro, a tese de que, para se expandir e acumular, o capitalismo não chegaria tão longe sem a ajuda de seu braço político, o imperialismo. Para embasar seus argumentos, Luxemburgo analisa de que forma grandes nomes da economia, como Quesnay, Smith, Ricardo, Say, Sismondi, Vorontsov, Nikolai-on, Bulgakov e outros trataram o assunto e explica como e por que apenas formulações matemáticas abstratas são inexatas para elucidar a realidade histórica.

Um dos maiores méritos de A acumulação do capital é o modo como Luxemburgo percebe, descreve e formula as condições históricas e sociais que viabilizam a expansão e a acumulação por parte dos capitalistas. Ao fazer isso, a filósofa e economista enfoca o imperialismo – com suas políticas violentas, militarizadas, desagregadoras e exploratórias de povos e terras não capitalistas – bem como o regime financeiro internacional, que então se iniciava, assim como o próprio século XX.

A acumulação do capital é traduzida pelo prestigioso cientista político e historiador Luiz Alberto Moniz Bandeira. Esta edição revista e ampliada conta com prefácios inéditos, além de notas explicativas e dois ensaios de Rosa Luxemburgo, “Crítica dos críticos, ou o que os epígonos fizeram da teoria marxista” e “Estancamentos e progressos da doutrina”, sendo este último traduzido por Moniz Bandeira.



A produção de mercadorias não constitui um fim para o produtor capitalista e sim um meio para apropriar-se da mais-valia. Mas, enquanto a mais-valia permanece contida na forma concreta da mercadoria, ela é inútil para o capitalista. Depois de produzi-la, ele necessita realizá-la, transformá-la em sua expressão de valor, ou seja, em dinheiro. Para que isso aconteça e o capitalista se aproprie da mais-valia em sua forma de dinheiro, todo o capital antecipado deve perder a forma de mercadoria e voltar para ele em forma de dinheiro. Só então, quando a massa total de mercadorias for trocada, conforme seu valor, por dinheiro, conseguir-se-á o fim da produção. A fórmula c + v + m, que antes se referia à composição quantitativa do valor das mercadorias, aplica-se agora do mesmo modo ao dinheiro obtido com sua venda: uma parte (c) restitui ao capitalista suas despesas em meios de produção consumidos; outra parte (v), suas despesas em salários; a terceira parte (m) representa o restante esperado, isto é, o “lucro líquido” em espécie do capitalista.6 Essa transformação do capital deriva, de sua forma original – que constitui o ponto de partida de toda produção capitalista –, meios de produção inanimados e vivos (isto é, matérias-primas, instrumentos e mão de obra) através do processo produtivo em mercadorias, mediante a incorporação do trabalho vivo e posteriormente em dinheiro, por meio do processo de troca, numa quantidade maior que a lançada à circulação na etapa inicial; essa rotação do capital não apenas é necessária para a produção e apropriação da mais-valia. A verdadeira finalidade e impulso motriz da produção capitalista não é conseguir mais-valia em geral, numa só apropriação, em qualquer quantidade, mas de forma ilimitada, em quantidade crescente. Isso, porém, não pode realizar-se mais que pelo meio mágico enunciado: pela produção capitalista, isto é, pela apropriação de trabalho assalariado não pago no processo de produção das mercadorias e pela sua venda. É por isso que a produção constantemente renovada, a reprodução como fenômeno regular, constitui, na sociedade capitalista, um elemento totalmente novo, desconhecido nas formações econômicas anteriores. Em todos os demais modos de produção historicamente conhecidos, o elemento determinante da reprodução são as necessidades da sociedade, sejam estas as necessidades de consumo, da totalidade dos trabalhadores, democraticamente estabelecidas numa cooperativa agrária comunista, ou as necessidades de uma sociedade de classes antagônicas, de uma economia baseada na escravidão, num feudo despoticamente criado etc. No sistema capitalista, o produtor individual – e somente dele aqui se trata – não considera as necessidades da sociedade, sua capacidade de consumo. Para ele, só existe a demanda com poder aquisitivo e este unicamente como fator imprescindível para a realização da mais-valia. Por tudo isso, a produção de mercadorias para o consumo, que satisfaçam às necessidades permitidas pelo poder aquisitivo da sociedade, é um mandato iniludível para o capitalista individual, mas é também um desvio do ponto de vista do impulso motriz propriamente dito, que se coloca como a realização da mais-valia. É esse o motivo que o impulsiona a renovar constantemente a produção. A produção da mais-valia é o que na sociedade capitalista faz da reprodução das necessidades vitais em geral um perpetuum mobile. Por outro lado, a reprodução, cujo ponto de partida no sistema capitalista é sempre o capital, e o capital em sua forma pura de valor, isto é, em sua forma de dinheiro, só pode seguir seu curso quando os produtos do período anterior, as mercadorias, se transformam por sua vez em dinheiro, mediante a venda. Para os produtores capitalistas, portanto, a primeira condição do processo reprodutivo é a realização das mercadorias fabricadas no período de trabalho anterior.

Focalizemos agora outro aspecto substancial do problema. A determinação da grandeza do processo reprodutivo depende – no sistema econômico capitalista – do arbítrio e do critério do empresário individual. Seu impulso é a apropriação da mais-valia em progressão geométrica. Dessa forma, maior rapidez na apropriação da mais-valia só é possível em virtude de um incremento na produção capitalista que a cria. Na produção de mais-valia, a grande empresa encontra-se em todos os sentidos em posição vantajosa diante da pequena empresa. Assim o sistema capitalista não só gera uma tendência permanente à produção geral, mas também ao incremento constante do processo reprodutivo, renovando-se a produção em escala sempre crescente.

Há algo mais. No sistema capitalista não é só a busca da mais-valia em si o que impulsiona incessantemente a reprodução. O processo reprodutivo transforma-se numa exigência, numa condição de existência econômica iniludível para os capitalistas individuais. Sob o regime da concorrência, a mais importante arma do capitalista individual, em sua luta pelo mercado, é o barateamento das mercadorias. Contudo, todos os métodos duradouros para reduzir os custos de produção das mercadorias – que não conseguem, pela redução dos salários ou pelo prolongamento da jornada de trabalho, um aumento da mais-valia e podem tropeçar com diversos obstáculos – resolvem-se numa ampliação da produção. Quer se trate de poupar instalações e instrumentos, quer de usar meios de produção de maior rendimento, quer de substituir em grande escala o trabalho manual por máquinas, quer de aproveitar rapidamente uma oportunidade favorável do mercado para adquirir matérias-primas baratas. A grande empresa oferece em todos os casos vantagens diante da pequena e da média.

Essas vantagens aumentam proporcionalmente à extensão da empresa. Por essa razão, a própria concorrência impõe às outras empresas, necessariamente, um progresso análogo ao realizado por uma parte das explorações capitalistas ou, pelo contrário, as condena ao enfraquecimento e extinção. Resulta assim uma tendência incessante de ampliar a reprodução que se estende mecanicamente, como as ondas, sobre toda a superfície da produção privada.

Para o capitalista individual, o incremento da reprodução ocorre quando ele transforma em capital uma parte da mais-valia apropriada, quando ele a acumula. A acumulação, ou seja, a transformação da mais-valia em capital ativo, é a expressão capitalista da reprodução ampliada.

A reprodução ampliada não é uma invenção do capital. Constitui uma regra desde a Antiguidade, em toda formação social histórica, na qual se verifica um progresso econômico e cultural. A reprodução simples – a simples repetição invariável e constante do processo produtivo – é certamente possível e podemos observá-la durante longos períodos da evolução social. Assim, por exemplo, nas comunidades agrárias primitivas o crescimento da população equilibra-se não pelo aumento gradual da produção, mas pela emigração periódica, criação de novas comunidades, igualmente reduzidas e autossuficientes. Igualmente, na Índia ou na China, as antigas pequenas oficinas de artesãos oferecem o exemplo de uma repetição tradicional do processo produtivo, adotando idêntica forma e amplitude através das gerações. Contudo, em todos esses casos a reprodução simples é o fundamento e um índice seguro do estancamento econômico e cultural predominante. Todos os progressos decisivos do processo de trabalho e os monumentos de civilizações mortas – como as grandes obras hidráulicas do Oriente, as pirâmides egípcias, as estradas militares romanas, as artes e ciências gregas, o desenvolvimento dos ofícios e as cidades da Idade Média – seriam impossíveis sem uma reprodução ampliada, pois só o aumento gradual da produção, em maior escala que o das necessidades imediatas, e o crescimento constante da população e de suas necessidades criam a base econômica, que é pré-requisito indispensável para todo progresso cultural. Particularmente a troca, e com ela o aparecimento da sociedade dividida em classes e seus progressos históricos, até o aparecimento do sistema capitalista, tudo isso seria inconcebível sem reprodução ampliada. Na sociedade capitalista, porém, incorporam-se à reprodução ampliada alguns caracteres novos. Em primeiro lugar, ela se converte, como já se disse, numa exigência iniludível para o capitalista individual. A reprodução simples e, inclusive, o retrocesso na reprodução não se excluem, certamente, do sistema de produção capitalista. Antes, constituem momentos em toda crise, depois das tensões, igualmente periódicas, e da reprodução ampliada na conjuntura máxima. O movimento geral da reprodução por cima das oscilações e alternativas cíclicas tende para a ampliação incessante. A impossibilidade de marchar no compasso desse movimento geral significa, para o capitalista individual, a eliminação da luta pela concorrência, a morte econômica.”

6. Nesta exposição supomos que a mais-valia é idêntica ao lucro do empresário, o que é certo com referência à produção total, que é a que unicamente nos interessa em seguida. Também prescindimos da divisão da mais-valia em seus elementos: lucro do empresário, juros do capital, renda da terra, já que carece de importância para o problema da reprodução.

 

 

Vemos, assim, que a reprodução ampliada sob condições capitalistas – ou, o que é o mesmo, a acumulação do capital – está ligada a uma série de condições específicas, que são as seguintes. Primeira condição: a produção deve criar a mais-valia, pois a mais-valia é a única forma em que é possível sob o sistema capitalista o incremento da produção. Essa condição deverá cumprir-se no próprio processo de produção, na relação entre capitalista e operário, na produção de mercadorias. Segunda condição: para que haja a apropriação da mais-valia destinada à ampliação da reprodução, uma vez cumprida a primeira condição, ela deverá realizar-se, transformando-se em dinheiro. Essa condição nos leva ao mercado, onde as probabilidades de troca decidem sobre o destino ulterior da mais-valia e, portanto, também da futura reprodução. Terceira condição: supondo que se consiga realizar a mais-valia, e uma parte da mais-valia realizada se transforme em capital destinado à acumulação, o novo capital terá que tomar forma produtiva, isto é, transformar-se em meios de produção materiais e força de trabalho. Além disso, a parte de capital trocada pela força de trabalho adotará por sua vez a forma de meios de subsistência para os trabalhadores. Essa condição conduz de novo ao mercado de bens e ao mercado de trabalho. Se tudo isso então ocorre e se sobrevém a reprodução ampliada das mercadorias, soma-se a quarta condição: a massa adicional de mercadorias, que apresenta o novo capital, junto com a nova mais-valia, deve ser realizada, transformada em dinheiro. Somente quando isso ocorre, então se verificará a reprodução ampliada no sentido capitalista. Esta última condição remonta mais uma vez ao mercado de bens.

Assim, a reprodução capitalista, do mesmo modo que a produção, vai constantemente da indústria ao mercado, da oficina particular à fábrica e ao mercado – às quais está “proibido o acesso” e nas quais a vontade soberana do capitalista individual é a lei suprema –, para os quais ninguém estabelece leis e onde não há vontade ou razão que se imponham. Mas justamente na arbitrariedade e na anarquia que reinam no mercado é que o capitalista individual sente sua dependência com respeito à totalidade dos membros individuais, produtores e consumidores, que compõem a sociedade. Para ampliar sua reprodução, o capitalista necessita de meios de produção adicionais e de força de trabalho, assim como de meios de subsistência para os operários; dessa forma, a existência de tudo isso depende de elementos, circunstâncias, processos que se realizam independentemente de sua vontade. Para poder vender sua massa de produtos aumentada, ele necessita de um mercado mais amplo, porém o aumento da demanda de mercadorias, em geral, e das mercadorias produzidas por ele, em particular, é um fato diante do qual ele é totalmente impotente.

As condições enumeradas, que expressam a contradição imanente entre produção e consumo privados e o vínculo social existente entre ambos, não são elementos novos, apresentando-se pela primeira vez na reprodução. São as contradições gerais da produção capitalista. Manifestam-se, no entanto, como dificuldades particulares do processo de reprodução e isso pelas seguintes razões: do ponto de vista da reprodução e, particularmente, da reprodução ampliada, o sistema capitalista aparece em seu desenvolvimento como um processo não só em seus caracteres fundamentais, mas também num determinado ritmo de movimento. Nesse processo, aparece a engrenagem específica das rodas dentadas individuais de seus períodos de produção. Por conseguinte, a partir desse ponto de vista, o problema não se apresenta nestes termos gerais: como pode encontrar cada capitalista individual os meios de produção e os trabalhadores de que necessita, como pode dar saída no mercado para as mercadorias que produziu, se não há controle nem planos sociais que harmonizem a produção e a demanda? A isso se contesta: o apetite de mais-valia dos capitalistas individuais e a concorrência estabelecida entre eles, assim como os efeitos automáticos da exploração e concorrência capitalistas, encarregam-se tanto de que se produzam todo o gênero de mercadorias e, portanto, meios de produção, como também de que, em geral, haja à disposição do capital uma massa crescente de proletários. Por outro lado, a falta de plano manifesta-se no fato de que o funcionamento da demanda e da oferta, em todas as esferas, só se realiza tendo constantes desvios de sua coincidência, mediante oscilações dos preços, de hora em hora, e oscilações da conjuntura, que levam a crises periódicas.”

 

 

“O esquema marxista da reprodução ampliada não pode, por conseguinte, explicar-nos o processo da acumulação tal como se verifica na realidade histórica. Por quê? Tão simplesmente por causa das próprias hipóteses do esquema. Esse esquema pretende expor o processo de acumulação, sob a suposição de que capitalistas e operários são os únicos consumidores. Já vimos que Marx situa consequente e conscientemente, nos três volumes de O capital, como hipótese teórica de sua análise, o domínio geral e exclusivo da produção capitalista. Nessas condições, não há, mesmo no esquema, mais classes sociais além dos capitalistas e operários; todas as “terceiras pessoas” da sociedade capitalista (empregados, profissionais liberais, sacerdotes etc.) devem ser incluídos como consumidores naquelas duas classes, e, preferentemente, na capitalista. Essa hipótese, porém, é um recurso teórico; na realidade não houve nem há uma sociedade capitalista que se baste por si mesma, na qual domine exclusivamente a produção capitalista. É perfeitamente legítimo utilizar-se esse recurso teórico quando não altera as condições próprias do problema, mas pelo contrário ajuda a expô-lo em sua essência. Tal ocorre na análise da reprodução simples do capital social total. Nesse caso, o próprio problema apoia-se no seguinte artifício: numa sociedade que produz de forma capitalista, isto é, que engendra mais-valia, esta, por sua vez, é inteiramente consumida pela classe capitalista que dela se apropria. Trata-se, logo, de expor como serão configuradas, nessas condições, a produção e a reprodução sociais. Por isso, a própria colocação do problema pressupõe que a produção só conhece como consumidores os capitalistas e operários; encontra-se, pois, plenamente de acordo com a hipótese marxista sobre o domínio geral da produção capitalista. Os dois artifícios coincidem teoricamente. É legítimo também supor absoluto o domínio do capitalismo ao se tratar da análise da acumulação de capital individual, como acontece no primeiro volume de O capital. A reprodução do capital individual é o elemento da reprodução social total. É um elemento, porém, cujo movimento é independente e que se encontra em contradição com os movimentos dos demais. O movimento total do capital social não é uma soma mecânica dos movimentos individuais dos capitais, mas um resultado singularmente modificado. Ainda que a soma do valor dos capitais individuais, assim como de suas respectivas partes: capital constante, capital variável e mais-valia, coincida exatamente com a grandeza do valor do capital social total, de seus dois elementos e da mais-valia total, a expressão material dessas dimensões de valor, nas respectivas partes do produto social, é completamente diversa da que se obtém nas relações de valor dos capitais individuais. Assim, pois, as proporções da reprodução dos capitais individuais, enquanto na sua forma material, não coincidem nem umas com as outras, nem com as do capital total. Cada capital individual realiza sua circulação e, portanto, sua acumulação por sua própria conta e – se o processo de circulação transcorre normalmente – só depende dos outros quando necessita realizar seu produto e tem que encontrar os meios de produção necessários para sua atuação individual. O fato daquela realização e desses meios de produção serem gerados ou não num meio capitalista é totalmente indiferente para o capital individual. Pelo contrário, a hipótese teórica mais favorável para a análise da acumulação do capital individual consiste em que a produção capitalista constitui o único meio em que se realiza esse processo, isto é, onde chegou a imperar de modo geral e exclusivo.1

1. “Quanto maior o capital, quanto mais desenvolvida se encontra a produtividade do trabalho e, em geral, a escala da produção capitalista, tanto maior é também o volume de mercadorias que se encontram em circulação no mercado no período de trânsito da produção ao consumo (individual e industrial). Tanto maior é também a segurança que tem cada capital particular de encontrar, no mercado, as condições propícias para reprodução.” (Marx, Theorien über den Mehrwert, v. II, 2a parte, p. 251.)

 

 

“Desde sua origem, o capital impulsionou todos os recursos produtivos do globo. Em seu impulso para a apropriação das forças produtivas para fins de exploração, o capital recorre ao mundo inteiro; tira os meios de produção de todos os cantos da terra, colhendo-os ou adquirindo-os de todos os graus de cultura e formas sociais. A questão referente aos elementos materiais da acumulação do capital, longe de encontrar-se resolvida pela forma material da mais-valia, produzida de forma capitalista, transforma-se em outra questão: para utilizar produtivamente a mais-valia realizada, torna-se mister que o capital progressivamente disponha de maior quantidade de terra para poder fazer uma seleção quantitativa e qualitativamente ilimitada de seus meios de produção.

A súbita apropriação de nossas matérias-primas em quantidade ilimitada, para fazer frente a todas as alternativas e interrupções eventuais em sua importação de antigas fontes, como a todos os aumentos súbitos de demanda social, é uma das condições prévias, imprescindíveis, do processo de acumulação em sua elasticidade. Quando a Guerra de Secessão interrompeu a importação de algodão americano, produzindo na Inglaterra (no Lancashire) a famosa “penúria de algodão”, surgiram imediatamente, como arte do encantamento, novas plantações enormes de algodão no Egito. Em tal ocasião, foi o despotismo oriental, unido ao antiquíssimo crédito pessoal dos camponeses, que criou o campo de atuação para o capital europeu. Só o capital, com seus meios técnicos, pode criar, por arte mágica, num período tão breve, semelhantes e maravilhosas revoluções. Só em países pré-capitalistas, porém, que vivem sob condições sociais primitivas, pode-se desenvolver, sobre as forças produtivas materiais e humanas, o poder necessário para realizar aqueles milagres. Outro exemplo desse gênero é o enorme incremento do consumo mundial de borracha que na atualidade equivale anualmente a um fornecimento regular de borracha bruta no valor de 1 bilhão de marcos.

As bases econômicas dessa produção de matérias-primas são os sistemas primitivos de exploração praticados pelo capital europeu, tanto nas colônias africanas, quanto na América, países que representam diversas combinações de escravidão e servidão da gleba.6

Note-se que, quando anteriormente supúnhamos que os setores I ou II só realizavam, em meios não capitalistas, seu sobreproduto, tornávamos o caso mais favorável para o exame do esquema de Marx, que demonstra, em sua essência, as relações da reprodução. Na realidade, nada nos impede admitir que também é realizada fora dos meios capitalistas uma parte do capital constante e variável no produto do setor correspondente. De acordo com isso, é possível realizar tanto a ampliação da produção como a renovação de parte dos elementos de produção consumidos com produtos de zonas não capitalistas. O que propúnhamos deixar claro com os exemplos anteriores é o fato de que, pelo menos, a mais-valia destinada à capitalização, e a parte do volume de produtos capitalistas que a ela corresponde, não podem ser realizadas dentro dos meios capitalistas e, necessariamente, buscam sua clientela fora desses meios, em camadas e formas sociais que não produzam de modo capitalista.

Assim, pois, entre cada um dos períodos de produção em que se produz mais-valia e a acumulação seguinte em que esta se capitaliza, há duas distintas transações: a da formação da mais-valia em sua forma pura de valor – a realização – e a transformação dessa forma pura de valor em forma de capital produtivo. As duas transações se verificam entre a produção capitalista e o mundo não capitalista que a circunda. Assim, segundo os dois pontos de vista, o da realização da mais-valia e o da aquisição dos elementos do capital constante, o comércio mundial é uma condição histórica de vida do capitalismo; comércio mundial, que, nas circunstâncias concretas, é essencialmente uma troca entre as formas de produção capitalistas e as não capitalistas.”

6. As últimas revelações do Livro Azul inglês, sobre as práticas da Peruvian Amazon Co. Ltd., em Putumayo, mostram que o capital internacional soube como acomodar os indígenas, sem necessitar lançar mão da forma política do regime colonial, no território da livre República do Peru, numa situação confinante com a escravidão, para arrebatar, assim, numa exploração em grande escala, meios de produção de países primitivos. Desde 1900 a mencionada sociedade, pertencente a capitalistas ingleses e estrangeiros, lançou umas 4.000 toneladas de borracha no mercado de Londres. No mesmo período, foram assassinados 30.000 indígenas, e dos 10.000 sobreviventes, a maioria foi espancada a ponto de se tornar inválida.

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