quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

A Mentalidade Anticapitalista – Ludwig von Mises

Editora: Instituto Ludwig Von Mises Brasil
ISBN: 978-85-6281-614-7
Opinião: ★☆☆☆☆
Páginas: 88 

“Muitas pessoas e especialmente os intelectuais repelem o capitalismo com veemência. Na sua maneira de ver, esta horrível forma de organização econômica da sociedade só trouxe desordem e miséria. Outrora, os homens eram felizes e prósperos, nos bons velhos tempos que antecederam a Revolução Industrial. Hoje, sob o capitalismo, o que predomina são os pobres famintos cruelmente explorados por grosseiros individualistas. Para estes patifes, a única coisa que conta é ganhar dinheiro. Não produzem coisas boas e realmente úteis, mas apenas o que proporciona altos lucros. Envenenam os corpos das pessoas com bebidas alcoólicas e fumo, suas almas e mentes com histórias em quadrinhos, livros lascivos e filmes tolos. A “superestrutura ideológica” do capitalismo é a literatura da decadência e da degradação, o show burlesco e a arte do strip-tease, os filmes de Hollywood e as histórias de detetive.
O preconceito e o fanatismo da opinião pública se manifestam com mais clareza pelo fato de ela vincular o adjetivo “capitalista” exclusivamente às coisas abomináveis, e nunca àquelas que todos aprovam. Como poderia o capitalismo gerar coisas boas? Tudo o que tem valor foi produzido apesar do capitalismo, mas as coisas ruins são excrescências do capitalismo.”


“A característica essencial do capitalismo moderno é a produção em massa de mercadorias destinadas ao consumo pelo povo. O resultado é a tendência para uma contínua melhoria no padrão médio de vida, o enriquecimento progressivo de muitos. O capitalismo desproletariza o “homem comum” e o eleva à posição de “burguês”.
No mercado de uma sociedade capitalista, o homem comum é o consumidor soberano, aquele que, ao comprar ou ao se abster de comprar, determina em última análise o que deve ser produzido e em que quantidade. As lojas e fábricas que suprem exclusiva ou predominantemente os pedidos dos cidadãos mais abastados em relação a artigos de luxo exercem apenas um papel secundário no cenário econômico do mercado. Elas nunca atingem a dimensão da grande empresa. As grandes empresas servem sempre — direta ou indiretamente — às massas.
É esta ascensão das multidões que caracteriza a radical mudança social efetuada pela “Revolução Industrial”. Os desfavorecidos que em todas as épocas precedentes da história formavam os bandos de escravos e servos, de indigentes e pedintes, transformaram-se no público comprador por cuja preferência os homens de negócios lutam. Tornaram-se os clientes que estão “sempre com a razão”, os patrões que têm o poder de tornar ricos os fornecedores pobres, e pobres os fornecedores ricos.
Na estrutura de uma economia de mercado não sabotada pelas panaceias dos governos e dos políticos, não existem grandes nem nobres mantendo a ralé submissa, coletando tributos e impostos, banqueteando-se suntuosamente enquanto os servos devem contentar-se com as migalhas. O sistema de lucro torna prósperos aqueles que foram bem-sucedidos em atender as necessidades das pessoas, da maneira melhor e mais barata possível. A riqueza somente pode ser conseguida pelo atendimento ao consumidor. Os capitalistas perdem suas reservas monetárias se deixarem de investir no tipo de produção que melhor satisfaz as solicitações do público, no plebiscito diário e contínuo no qual cada centavo dá direito a um voto, os consumidores determinam quem deve possuir e fazer funcionar as fábricas, lojas e fazendas. O controle dos meios materiais de produção é uma função social, sujeita à confirmação ou à revogação pelos consumidores soberanos.
O conceito moderno de liberdade é isto. Todo adulto é livre para moldar sua vida de acordo com seus próprios planos, não é forçado a viver de acordo com o projeto de uma autoridade planejadora que impõe seu único esquema através da polícia, isto é, o aparato social de compulsão e coação. O que restringe a liberdade do indivíduo não é a violência ou a ameaça de violência de outrem, mas a estrutura fisiológica de seu corpo e a inevitável escassez natural dos fatores de produção. É óbvio que o critério do homem para moldar seu destino jamais poderá ultrapassar os limites estabelecidos pelas chamadas leis da natureza.”


“A principal característica do homem é de ele nunca desistir de aumentar seu bem-estar através de atividades intencionais.”


“Ora, nunca se contestou que, no capitalismo sem obstáculos, saem-se melhor aqueles que, do ponto de vista dos padrões de valores eternos, devem ser os preferidos. O que a democracia capitalista de mercado faz não é premiar as pessoas de acordo com seus “verdadeiros” méritos, valor próprio e dignidade moral. O que torna um homem mais ou menos próspero não é a avaliação de sua contribuição a partir de um princípio “absoluto” de justiça, mas a avaliação por parte de seus semelhantes, que aplicarão somente o critério de suas necessidades, desejos e objetivos pessoais. O sistema democrático de mercado é exatamente isto. Os consumidores são supremos — isto é, soberanos. Desejam ser satisfeitos.”


“No regime capitalista a coisa é outra. A situação de vida de cada um depende de seus próprios feitos. Quem não tiver suas ambições plenamente satisfeitas sabe muito bem que deixou escapar as oportunidades, que foi testado e considerado inapto por seus semelhantes.
A tão falada dureza do capitalismo consiste no fato de ele tratar cada um de acordo com a contribuição que este oferece ao bem-estar do seu semelhante. A força do princípio a cada um de acordo com seus feitos não dá margem a escusar falhas pessoais. O indivíduo sabe muito bem que existem pessoas iguais a ele que obtiveram sucesso onde ele falhou. Sabe que muitos daqueles que inveja são pessoas que se fizeram pelo próprio esforço e que partiram do mesmo ponto onde ele começou. E, muito pior, sabe que os outros também sabem disso. Ele vê nos olhos da mulher e dos filhos a reprovação silenciosa: “Por que você não foi mais esperto?” Ele vê como as pessoas admiram quem obteve mais sucesso do que ele e como contemplam com desprezo ou com piedade o seu fracasso.”


“Geralmente o homem comum não tem ocasião de conviver com pessoas que tenham tido mais êxito do que ele. Convive com outros homens comuns. Jamais se encontra, na vida social, com o seu chefe, nunca aprende por experiência própria quão diferentes são um empresário ou um executivo com respeito às habilidades e competência necessárias para um atendimento eficaz dos consumidores. Sua inveja e consequente ressentimento não estão voltados contra um ser vivo de carne e osso, mas contra pálidas abstrações como “administração”, “capital” e “Wall Street”. É impossível detestar tais fantasmas, com sentimentos tão amargos quanto se pode ter contra um semelhante a quem se encontre diariamente.”


“O acesso à sociedade europeia está aberto a quem se distingue em algum domínio. Talvez seja mais fácil para as pessoas de ascendência nobre e com muito dinheiro do que para os plebeus com modestos rendimentos. Mas nem os bens nem os títulos podem dar a um membro desse meio a posição e o prestigio que é a recompensa da grande distinção pessoal. As estrelas dos salões parisienses não são os milionários mas os membros da Academia Francesa. Os intelectuais predominam e os outros no mínimo simulam um vivo interesse por assuntos intelectuais.
Esse significado de sociedade é estranho ao cenário norte-americano. O que se chama “sociedade” nos Estados Unidos consiste quase exclusivamente nas famílias mais ricas. Existe pouca relação entre os homens de negócio bem-sucedidos e os autores, artistas e cientistas famosos do país. Os que constam do rol do Registro Social não se reúnem socialmente com os formadores da opinião pública e com os precursores das ideias que determinarão o futuro da nação. A maioria das pessoas da alta sociedade não está interessada em livros ou ideias. Quando se encontram e não jogam cartas, bisbilhotam sobre as pessoas e discutem mais sobre esportes do que sobre assuntos culturais. Mas mesmo os que não são avessos à leitura consideram os escritores, cientistas e artistas como gente com a qual não desejam conviver. Há um abismo, quase insuperável, separando a “sociedade” dos intelectuais.
É possível explicar o aparecimento desta situação historicamente. Mas tal explicação não altera os fatos. Não irá remover nem aliviar o ressentimento com que os intelectuais reagem ao desprezo que recebem dos membros da “sociedade”. Os autores ou cientistas americanos costumam considerar o abastado homem de negócios como um bárbaro, como homem exclusivamente concentrado em ganhar dinheiro. O professor menospreza os alunos que estão mais interessados no time de futebol da universidade do que no seu rendimento acadêmico. Sente-se insultado ao saber que o técnico esportivo recebe salário superior ao de um eminente professor de filosofia. Os pesquisadores, que descobrem novos métodos de produção, odeiam os homens de negócio que só estão interessados no valor monetário do seu trabalho de pesquisa. É muito significativo que um grande número de físicos norte-americanos dedicados à pesquisa sejam simpatizantes do socialismo ou do comunismo. Como não entendem de economia e percebem que os professores de economia também se opõem ao que eles chamam injuriosamente de sistema de lucro, não é de estranhar que tenham tal atitude.”


“A coisa mais impressionante com relação à mudança sem precedentes das condições universais proporcionadas pelo capitalismo é o fato de ele ter sido realizado por um pequeno número de autores e por uma quantidade pouco maior de homens de estado que assimilaram os ensinamentos desses autores. Não apenas as massas indolentes mas também a maioria dos homens de negócios que, por meio do seu comércio, tornaram eficientes os princípios do laissez-faire não conseguiram compreender as formas essenciais como agem esses princípios. Mesmo no apogeu do liberalismo, somente alguns tiveram conhecimento integral do funcionamento da economia de mercado. A civilização ocidental adotou o capitalismo por recomendação de uma pequena elite.”


“O que distingue as condições industriais modernas nos países capitalistas das condições das eras pré-capitalistas assim como das que existem hoje nos países chamados subdesenvolvidos é o volume de oferta de capital. Nenhum progresso tecnológico funciona se o capital necessário não for previamente acumulado por poupança.
Poupar, acumular capital é a atividade que transformou, passo a passo, a complicada procura de alimento pelo homem das cavernas em formas modernas da indústria. Os arautos dessa evolução foram as ideias que criaram a estrutura institucional no interior da qual a acumulação de capital foi preservada através do princípio da propriedade privada dos meios de produção. Cada passada em direção à prosperidade é efeito da poupança. Os mais engenhosos inventos tecnológicos seriam praticamente inúteis se os bens de capital indispensáveis ao seu uso não fossem acumulados pela poupança.
Os empresários empregam os bens de capital tornados disponíveis pelos poupadores para a satisfação mais econômica das necessidades mais urgentes dentre as necessidades ainda não satisfeitas dos consumidores. Junto com os tecnólogos, na busca de aperfeiçoar os métodos de processamento, os empresários, próximos aos poupadores, desempenham papel ativo no curso dos acontecimentos, o que é chamado de progresso econômico. O resto da humanidade aproveita das atividades dessas três classes de pioneiros. Mas, quaisquer que sejam suas ações, eles apenas se beneficiam das mudanças para as quais nada contribuíram.
O aspecto principal da economia de mercado está no fato de ela distribuir a maior parte das melhorias conseguidas pelos esforços das três classes progressistas — os que poupam, os que investem em bens de capital e os que elaboram novos métodos para a aplicação dos bens de capital — à maioria das pessoas não progressistas. A acumulação de capital que ultrapassa o aumento da população, por um lado, eleva a produtividade marginal do trabalho e, por outro, barateia os produtos. O processo do mercado oferece ao homem comum a oportunidade de colher os frutos fornecidos pelos feitos de outras pessoas. Ele força as três classes progressistas a servir da melhor maneira possível à maioria não progressista.
Todos têm a liberdade de se juntarem às fileiras das três classes progressistas da sociedade capitalista. Elas não são castas fechadas. Ser membro delas não é privilégio concedido ao indivíduo por uma autoridade maior ou privilégio herdado de um antepassado. Também não são clubes, e seus membros não têm o direito de impedir a entrada de nenhum recém-chegado. O indispensável para tornar-se capitalista, empresário ou projetista de novos métodos tecnológicos é ter inteligência e força de vontade. O herdeiro de um milionário goza de certa vantagem pois começa em condições mais favoráveis que outros. Mas sua tarefa na disputa pelo mercado não é fácil e pode, às vezes, tornar-se mais cansativa e menos recompensadora do que a de um recém-chegado. Ele tem de reorganizar sua herança de modo a ajustá-la às mudanças das condições do mercado. Assim, por exemplo, os problemas que o herdeiro de um “império” ferroviário teve de enfrentar, nas últimas décadas, foram certamente mais complicados do que os encontrados por alguém que, vindo do nada, tenha entrado no transporte rodoviário ou aéreo.”


“Ninguém sofre necessidade na economia de mercado pelo fato de algumas pessoas serem ricas. As posses dos ricos não são a causa da pobreza de ninguém. O processo que torna algumas pessoas ricas é, ao contrário, o corolário do processo que aumenta a satisfação das necessidades de muitos.”


“Literatura não é conformismo e sim dissidência.”


“As pessoas não se esforçam e se afligem a fim de obter a felicidade perfeita, mas a fim de eliminar ao máximo as dificuldades que se apresentam e, assim, tornarem-se mais felizes do que eram antes. O homem que compra um televisor deixa evidente o fato de que a posse desse aparelho aumentará seu bem-estar e o tornará mais contente do que antes. Caso contrário, ele não o teria comprado. A tarefa do médico não é a de tornar o paciente feliz, mas sim de eliminar a dor e deixá-lo em melhor disposição para que possa atingir o objetivo principal de todo ser, isto é, a luta contra todos os fatores nocivos à sua vida e ao seu bem-estar.”


“A pobreza das nações atrasadas é devida ao fato de que sua política de expropriação, taxação discriminatória e controle da moeda estrangeira impede o investimento do capital estrangeiro, enquanto sua política interna evita a acumulação do capital nativo.”


“A única fonte de geração de bens de capital adicionais é a poupança. Se todos os bens produzidos são consumidos, nenhum novo capital é gerado. Mas, se o consumo se situa abaixo da produção e o excedente de bens recentemente produzidos sobre os consumidos é utilizado em novos processos de produção, esses processos são a partir daí conduzidos com o auxílio de mais bens de capital. Todos os bens de capital são bens intermediários, etapas do percurso que vai desde o primeiro emprego dos fatores originais de produção, isto é, dos recursos naturais e do trabalho humano, até o acabamento final das mercadorias prontas para o consumo. Todos eles são perecíveis. São, mais cedo ou mais tarde, gastos nos processos de produção. Se todos os produtos são consumidos sem a reposição dos bens de capital que foram utilizados em sua produção, o capital acaba. Se isto acontece, a nova produção será provida por uma quantidade menor de bens de capital e irá, portanto, apresentar um rendimento menor por unidade de recursos naturais e de trabalho empregado. Para evitar este tipo de prejuízo e de perda de investimento, deve-se aplicar uma parte do esforço produtivo na manutenção do capital, na reposição dos bens de capital absorvidos na produção de bens utilizáveis.
O capital não é uma dádiva gratuita de Deus ou da natureza. É o resultado de uma prudente restrição do consumo por parte do homem. É criado e aumentado pela poupança e mantido pela abstenção dos gastos.
Nem o capital nem os bens de capital têm o poder de elevar a produtividade dos recursos naturais e do trabalho humano. Somente se os frutos da poupança forem adequadamente empregados ou investidos é que poderão aumentar o rendimento do insumo dos recursos naturais e do trabalho. Se isso não acontece, eles são dissipados ou perdidos.
A acumulação de novo capital, a manutenção do capital previamente acumulado e a utilização do capital para aumentar a produtividade do esforço humano são os frutos da atividade humana intencional. Resultam da conduta de pessoas prósperas que poupam e se abstêm de gastar, isto é, os capitalistas que ganham juros; e das pessoas que são bem-sucedidas ao utilizar o capital disponível para a melhor satisfação possível das necessidades dos consumidores, isto é, os empresários que ganham lucros.”


“Qual dos dois fatores, trabalho ou capital, provocou o aumento da produtividade? Mas, se colocarmos a questão exatamente dessa forma, a resposta será: o capital. O que faz com que o rendimento total nos Estados Unidos de hoje seja mais elevado (por indivíduo da força de trabalho empregada) do que o rendimento de épocas passadas ou do que o de países economicamente atrasados — como, por exemplo, a China — é o fato de o trabalhador norte-americano contemporâneo estar apoiado por uma quantidade maior e melhor de ferramentas. Se os bens de capital (por operário) não fossem mais abundantes do que eram há trezentos anos ou do que são hoje na China, o rendimento (por operário) não seria mais elevado. O que é preciso para elevar, na ausência de aumento do número de operários empregados, a quantidade total do rendimento industrial da América é o investimento de capital adicional que só pode ser acumulado através de nova poupança. A multiplicação da produtividade da força de trabalho total é devida ao crédito que se der à poupança e ao investimento.”


“O empregador não está fazendo um favor aos seus empregados. Ele os contrata como um meio indispensável ao sucesso de seus negócios, da mesma forma pela qual adquire matéria-prima e equipamento industrial.”


“As civilizações da China, Japão, Índia e dos países muçulmanos do oriente próximo não podem ser consideradas incultas pelo simples fato de, tendo existido muito antes, não terem tido contato com as formas de vida ocidental. Esses povos, há muitas centenas ou até mesmo milhares de anos, realizaram feitos maravilhosos nas artes industriais, na arquitetura, na literatura, na filosofia e no progresso das instituições educacionais. Fundaram e organizaram poderosos impérios. Porém, mais tarde, seus esforços diminuíram, suas culturas tornaram-se entorpecidas e inertes, e eles perderam a capacidade de lidar adequadamente com problemas econômicos. Seus intelectuais e artistas desapareceram. Seus artistas e autores copiaram cegamente modelos tradicionais. Seus teólogos, filósofos e advogados entregaram-se a invariáveis exposições de trabalhos antigos. Os monumentos erigidos por seus ancestrais desmoronaram. Seus impérios ruíram. Seu povo perdeu o vigor e a energia e tornou-se apático diante da decadência e do empobrecimento progressivos.
As antigas obras da filosofia e da poesia oriental podem comparar-se às mais valiosas obras do ocidente. Mas durante muitos séculos o oriente não produziu nenhum livro importante. A história intelectual e literária da época moderna não registra o nome de um autor oriental. O oriente deixou de contribuir para o esforço intelectual da humanidade. Os problemas e as controvérsias que agitaram o ocidente permaneceram desconhecidos do oriente. Na Europa, havia excitação; no oriente, estagnação, indolência e indiferença.
O motivo é óbvio. Faltava ao oriente a coisa principal, a ideia de liberdade do estado. O oriente jamais desfraldou o estandarte da liberdade e nunca tentou enfatizar os direitos do indivíduo contra o poder dos legisladores. Nunca levantou a questão da arbitrariedade dos tiranos. Consequentemente, nunca constituiu a estrutura legal que protegeria a riqueza particular do cidadão em relação ao confisco por parte dos déspotas. Ao invés disso, iludidos pela ideia de que a fortuna dos ricos é o motivo da miséria dos pobres, todos aprovaram as atitudes dos governantes que desapropriaram os homens de negócios bem-sucedidos. Isso impediu a acumulação de capital em larga escala e as nações deixaram de desfrutar dos progressos que exigem considerável investimento de capital. Nenhuma “burguesia” pôde se desenvolver e, consequentemente, não houve público para encorajar e patrocinar autores, artistas e inventores. Aos jovens, todas as oportunidades de se destacarem pessoalmente estavam confinadas, exceto uma. Podiam fazer carreira servindo aos príncipes. A sociedade ocidental era uma comunidade de indivíduos que podiam lutar pelos maiores prêmios. A sociedade oriental era um aglomerado de vassalos totalmente dependentes das boas graças dos soberanos. A juventude alerta do ocidente encara o mundo como um campo de ação no qual pode ganhar fama, destaque, reputação e riqueza; nada parece difícil para a sua ambição. A humilde prole dos pais orientais só sabe seguir a rotina de seu meio ambiente. A nobre autoconfiança do homem ocidental encontrou uma expressão triunfante nos ditirambos tais como o hino de Antígona na tragédia de Sófocles a respeito do homem e de seu espírito de aventura e como a Nona Sinfonia de Beethoven. Nunca se ouviu nada semelhante no oriente.
Será possível que os descendentes dos construtores da civilização do homem branco devam renunciar à sua liberdade e voluntariamente entregar-se à suserania de um governo onipotente? Que devam procurar a alegria num sistema no qual sua única tarefa será a de servir como uma peça a mais numa grande máquina projetada e manipulada por um planejador todo-poderoso? Devem as mentalidades das civilizações reprimidas destruir os ideais pelos quais milhares e milhares de seus antepassados sacrificaram a vida?
Ruere in servitium, eles mergulharam na escravidão, observou tristemente Tácito ao falar dos romanos da época de Tibério.”


“A inútil arrogância dos escritores e dos artistas boêmios considera as atividades dos homens de negócios como pouco intelectuais e enriquecedoras. A verdade é que os empresários e os organizadores de empresas comerciais demonstram maior capacidade intelectual e intuitiva do que o escritor e o pintor médio. A inferioridade de muitos intelectuais se manifesta exatamente no fato de eles não reconhecerem o quanto de capacidade e raciocínio é necessário para desenvolver e fazer funcionar com sucesso uma empresa comercial.
O surgimento de uma classe numerosa desses frívolos intelectuais é um dos fenômenos menos desejáveis da era do capitalismo moderno. Sua atividade importuna impede a discriminação das pessoas. São uma praga. Seria desejável que algo fosse feito para refrear sua confusão ou, melhor ainda, eliminar totalmente suas rodas e grupos sociais.”


“Um movimento “antiqualquer-coisa” demonstra uma atitude puramente negativa. Não tem a menor chance de sucesso. Suas críticas acerbas virtualmente promovem o programa que atacam. As pessoas devem lutar por algo que desejam realizar e não simplesmente evitar um mal, por pior que seja. Devem, sem quaisquer restrições, apoiar o programa da economia de mercado.” 

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