Editora: Companhia das Letras
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ISBN: 978-85-359-3033-7
Páginas: 448
Sinopse: Ver Parte
I
“Pastor e Jesus, passados aqueles enfrentamentos éticos e teológicos dos
primeiros dias, contudo ainda por algum tempo recidivantes, levaram sempre,
enquanto juntos, uma boa vida, o homem ensinando sem impaciências demais velho
as artes da pastorícia, o rapaz aprendendo-as como se a sua vida fosse depender
maximamente delas. Jesus aprendeu a lançar o cajado, rodopiando e zumbindo pelo
ar até ir cair nos lombos dumas ovelhas que, por distracção ou atrevimento, se
afastavam do rebanho, mas essa foi uma dorida aprendizagem, porque um dia, não
estando ainda seguro da técnica, atirou o pau demasiado por baixo, com o
trágico resultado de, na trajectória, apanhar em cheio o tenro pescocinho de um
cabrito de poucos dias, que no mesmo instante ali morreu. Acidentes destes
podem ocorrer a qualquer pessoa, até um pastor veterano e diplomado não está
livre de lhe acontecer um azar, mas o pobre Jesus, que já tantas dores
transporta consigo, parecia uma estátua da amargura quando levantou do chão,
ainda quente, o cabritinho. Não havia nada a fazer, a própria cabra mãe, depois
de farejar por um momento o filho, afastou-se e continuou a pastar, rapando a
erva rasa e dura, que repuxava com secos movimentos da cabeça, aqui devemos
citar o conhecido refrão, Cabra que berra, bocada que erra, que é outra maneira
de dizer o mesmo, Chorar e comer não faz bom viver. Pastor veio ver o que
sucedera, O mal é dele, que morreu, tu não fiques triste, Matei-o, lamentou-se
Jesus, e era tão pequeno, Sim, se fosse um bode feio e fedorento não terias
pena, ou não terias tanta, põe-no no chão, que eu trato dele, e tu vai-te além,
está lá uma ovelha em jeito de parir, Que vais fazer, Esfolá-lo, que é que
julgas, vida não posso dar-lha, não sou competente em obras milagrosas, Faço
jura de não comer dessa carne, Comer o animal que matámos é a única maneira de
respeitá-lo, mau é comerem uns o que outros tiveram de matar, Não o comerei,
Pois não comas, mais fica para mim, Pastor tirou a faca da cinta, olhou Jesus e
disse, Mais tarde ou mais cedo, também isto terás de aprender, ver como são
feitos por dentro aqueles que foram criados para nos servir e alimentar. Jesus
virou a cara para o lado e deu um passo para retirar-se, mas Pastor, que
detivera o movimento da faca, ainda disse, Os escravos vivem para servir-nos,
talvez devêssemos abri-los para sabermos se levam escravos dentro, e depois
abrir um rei para ver se tem outro rei na barriga, e olha que se encontrássemos
o Diabo e ele deixasse que o abríssemos, talvez tivéssemos a surpresa de ver
saltar Deus lá de dentro. Falámos, antes, de recidivas dos choques de ideias e
convicções entre Jesus e Pastor, e este é um exemplo. Mas Jesus, com o tempo,
aprendera que a melhor resposta seria calar, não se dar por achado perante as
provocações, mesmo brutais, como esta, e ainda assim vai com sorte, podia ter
sido bem pior, imagine-se o escândalo se Pastor se lembrava de abrir Deus para
ver se o Diabo lá estava dentro.”
“Nenhuma
salvação é suficiente, qualquer condenação é definitiva.”
“Se eu não acreditasse em ti, não teria de viver contigo as coisas
terríveis que te esperam, E como podes saber tu que me esperam coisas
terríveis, Não sei nada de Deus, a não ser que tão assustadoras devem ser as
suas preferências como os seus desprezos, Onde foste buscar tão estranha ideia,
Terias de ser mulher para saberes o que significa viver com o desprezo de Deus,
e agora vais ter de ser muito mais que um homem para viveres e morreres como
seu eleito, Queres assustar-me, Vou-te contar um sonho que tive, uma noite
apareceu-me em sonho um menino, de repente apareceu vindo de parte nenhuma,
apareceu e disse Deus é medonho, disse-o e desapareceu, não sei quem fosse
aquela criança, donde veio e a quem pertencia, Sonhos, Ninguém menos do que tu
pode dizer a palavra nesse tom, E depois, que aconteceu, Depois comecei a ser
prostituta, Já deixaste tal vida, Mas o sonho não foi desmentido, nem mesmo
depois que te conheci, Diz-me outra vez, como foram as palavras, Deus é
medonho. Jesus viu o deserto, a ovelha morta, o sangue na areia, ouviu a coluna
de fumo suspirando de satisfação, e disse, Talvez, talvez, porém uma coisa é
ouvi-lo em sonho, outra será vivê-lo em vida, Prouvera a Deus que o não viesses
a saber, Cada um tem de viver o seu destino, E do teu já tu recebeste o
primeiro aviso solene.”
“Passados meses, numa chuvosa e fria noite de inverno, um anjo entrou em
casa de Maria de Nazaré, e foi o mesmo que se não tivesse entrado ninguém, pois
a família assim como estava assim se deixou ficar, só Maria deu pela chegada do
visitante, que nem teria podido ela dar-se por desentendida, uma vez que o anjo
lhe dirigiu directamente a palavra, e foi assim, Deves saber, ó Maria, que o
Senhor pôs a sua semente de mistura com a semente de José na madrugada em que
concebeste pela primeira vez, e que, por conseguinte e consequência, dela, da
do Senhor, e não da do teu marido, ainda que legítimo, é que foi engendrado o
teu filho Jesus. Ficou Maria muito assombrada com a notícia, cuja substância,
felizmente, não se perdeu na elocução confusa do anjo, e perguntou, Então Jesus
é filho de mim e do Senhor, Mulher, que falta de educação, deves ter cuidado
com as hierarquias, com as precedências, do Senhor e de mim é que deverias
dizer, Do Senhor e de ti, Não, do Senhor e de ti, Não me baralhes a cabeça,
responde-me ao que te perguntei, se Jesus é filho, Filho, o que se chama filho,
é só do Senhor, tu, para o caso, não passaste de ser uma mãe portadora, Então,
o Senhor não me escolheu, Qual quê, o Senhor ia só a passar, quem estivesse a
olhar tê-lo-ia percebido pela cor do céu, mas reparou que tu e José eram gente
robusta e saudável, e então, se ainda te lembras de como estas necessidades se
manifestavam, apeteceu-lhe, o resultado foi, nove meses depois, Jesus, E há a
certeza, o que se chame certeza, de que tenha sido mesmo a semente do Senhor
que engendrou o meu primeiro filho, Bom, a questão é melindrosa, o que tu estás
a pretender de mim é, sem tirar nem pôr, uma investigação de paternidade,
quando a verdade é que, nestes conúbios mistos, por muitas análises, por muitos
testes, por muitas contagens de glóbulos que se façam, certezas nunca as
podemos ter absolutas, Pobrezinha de mim, que cheguei a imaginar, ouvindo-te,
que o Senhor me havia escolhido para ser a sua esposa naquela madrugada, e
afinal foi tudo obra de um acaso, tanto poderá ser que sim como poderá ser que
não, digo-te até que melhor seria não teres descido aqui na Nazaré para vires
deixar-me nesta dúvida, aliás, se queres que te fale com franqueza, um filho do
Senhor, mesmo tendo-me a mim como mãe, dávamos por ele logo ao nascer, e quando
crescesse teria, do mesmo Senhor, o porte, a figura e a palavra, ora, ainda que
se diga que o amor de mãe é cego, o meu filho Jesus não satisfaz as condições,
Maria, o teu primeiro grande engano é julgares que eu vim cá apenas para te
falar desse antigo episódio da vida sexual do Senhor, o teu segundo grande
engano é pensares que a beleza e a facúndia dos homens existem à imagem e
semelhança do Senhor, quando o sistema do Senhor, digo-to eu que sou da casa, é
ele ser sempre o contrário de como os homens o imaginam, e, aqui muito em
confidência, eu até acho que o Senhor não saberia viver doutra maneira, a palavra
que mais vezes lhe sai da boca não é o sim, mas o não, Sempre ouvi eu dizer que
o Diabo é que é o espírito que nega, Não, minha filha, o Diabo é o espírito que
se nega, se no teu coração não deres pela diferença, nunca saberás a quem
pertences, Pertenço ao Senhor, Pois é, dizes que pertences ao Senhor e caíste
no terceiro e maior dos enganos, que foi o de não teres acreditado no teu
filho, Em Jesus, Sim, em Jesus, nenhum dos outros viu Deus, ou alguma vez o
verá, Diz-me, anjo do Senhor, é mesmo verdade que meu filho Jesus viu Deus,
Sim, e, como uma criança que encontrou o seu primeiro ninho, veio a correr
mostrar-to, e tu, céptica, e tu, desconfiada, disseste que não podia ser
verdade, que se ninho havia estava vazio, que se ovos tinha, eram goros, e que
se os não tinha, comera-os a serpente, Perdoa-me, meu anjo, por ter duvidado,
Agora não sei se estás a falar comigo, ou com o teu filho, Com ele, contigo,
com ambos, que posso eu fazer para emendar o mal feito, Que é que te
aconselharia o teu coração de mãe, Que fosse procurá-lo, dizer-lhe que creio
nele, pedir que me perdoe e volte para casa, aonde o Senhor o virá chamar, em
chegando a hora, Francamente, não sei se vais a tempo, não há nada mais
sensível do que um adolescente, arriscas-te a ouvir más palavras e a levar com
a porta na cara, Se tal acontecer, a culpa tem-na aquele demónio que o embruxou
e perdeu, nem sei como o Senhor, sendo pai, lhe consentiu tais liberdades,
tanta rédea solta, De que demónio falas, Do pastor com quem o meu filho andou
durante quatro anos, a governar um rebanho que ninguém sabe para que serve, Ah,
o pastor, Conhece-lo, Andámos na mesma escola, E o Senhor permite que um
demónio como ele perdure e prospere, Assim o exige a boa ordem do mundo, mas a
última palavra será sempre a do Senhor, só não sabemos é quando a proferirá,
mas vais ver que uma manhã destas acordamos e descobrimos que não há mal no
mundo, e agora devo ir-me, se tens mais algumas perguntas a fazer, aproveita,
Só uma, óptimo, Para que quer o Senhor o meu filho, Teu filho é uma maneira de
dizer, Aos olhos do mundo Jesus é meu filho, Para que o quer, perguntas tu,
pois olha que é uma boa pergunta, sim senhor, o pior é que não sei
responder-te, a questão, no estado actual, é toda entre eles dois, e Jesus não
creio que saiba mais do que a ti te terá dito, Disse-me que terá poder e glória
depois de morrer, Dessa parte também estou informado, Mas que irá ele ter de
fazer em vida para merecer as maravilhas que o Senhor lhe prometeu, Ora, ora,
tu crês, ignorante mulher, que essa palavra exista aos olhos do Senhor, que
possa ter algum valor e significado o que presunçosamente chamais merecimentos,
em verdade não sei que é que vos julgais, quando não passais de míseros
escravos da vontade absoluta de Deus, Nada mais direi, sou realmente a escrava
do Senhor, cumpra-se em mim segundo a sua palavra, diz-me só, depois de todos
estes meses passados, onde poderei encontrar o meu filho, Procura-o, que é a
tua obrigação, ele também foi à procura da ovelha perdida, Para matá-la, Sossega,
que a ti não te matará, mas tu, sim, o matarás a ele, não estando presente na
hora da sua morte, Como sabes que não morrerei eu primeiro, Estou bastante
próximo dos centros de decisão para sabê-lo, e agora adeus, fizeste as
perguntas que querias, talvez não tenhas feito alguma que devias, mas isso é
assunto que já não me diz respeito, Explica-me, Explica-te tu a ti própria.”
“Passou
tempo, o nevoeiro não tornou a falar, e Jesus perguntou, agora no tom de quem
só espera uma resposta afirmativa, Nada mais. Deus hesitou, e depois, em tom
cansado, disse, Ainda há a Inquisição, mas dela, se não te importas, podíamos
falar noutra altura, Que é a Inquisição, A Inquisição é outra história
interminável, Quero saber, Seria melhor que não soubesses, Insisto, Vais sofrer
na tua vida de hoje remorsos que são do futuro, E tu, não, Deus é Deus, não tem
remorsos, Pois eu, se já levo esta carga de ter de morrer por ti, também posso
aguentar os remorsos que deviam ser teus, Preferia poupar-te, De facto, não
tens feito outra coisa desde que nasci, És um ingrato, como são todos os filhos,
Deixemo-nos de fingimentos, diz-me o que vai ser a Inquisição, A Inquisição,
também chamada Tribunal do Santo Ofício, é o mal necessário, o instrumento
crudelíssimo com que debelaremos a infecção que um dia, e por longo tempo, se
instalará no corpo da tua Igreja por via das nefandas heresias em geral e seus
derivados e consequentes menores, a que se somam umas quantas perversões do
físico e do moral, o que, tudo reunido e posto no mesmo saco de horrores, sem
preocupações de prioridade e ordem, incluirá luteranos e calvinistas,
molinistas e judaizantes, sodomitas e feiticeiros, mazelas algumas que serão do
futuro, outras de todos os tempos, E, sendo a necessidade que dizes, como
procederá a Inquisição para reduzir esses males, A Inquisição é uma polícia e é
um tribunal, por isso haverá de prender, julgar e condenar como fazem os
tribunais e as polícias, Condenará a quê, Ao cárcere, ao degredo, à fogueira, À
fogueira, dizes, Sim, vão morrer queimados, no futuro, milhares e milhares e
milhares de homens e mulheres, De alguns já me tinhas falado antes, Esses foram
lançados à fogueira por crerem em ti, os outros sê-lo-ão por duvidarem, Não é
permitido duvidar de mim, Não, Mas nós podemos duvidar de que o Júpiter dos
romanos seja deus, O único Deus sou eu, eu sou o Senhor, e tu és o meu Filho,
Morrerão milhares, Centenas de milhares, Morrerão centenas de milhares de
homens e mulheres, a terra encher-se-á de gritos de dor, de uivos e roncos de
agonia, o fumo dos queimados cobrirá o sol, a gordura deles rechinará sobre as
brasas, o cheiro agoniará, e tudo isto será por minha culpa, Não por tua culpa,
por tua causa, Pai, afasta de mim este cálice, Que tu o bebas é a condição do
meu poder e da tua glória, Não quero esta glória, Mas eu quero esse poder. O
nevoeiro afastou-se para onde estivera antes, via-se uma pouca de água ao redor
do barco, lisa e baça, sem uma ruga de vento ou uma agitação de barbatana
passando. Então o Diabo disse, É preciso ser-se Deus para gostar tanto de
sangue.
O
nevoeiro voltou a avançar, alguma coisa estava para acontecer ainda, outra
revelação, outra dor, outro remorso. Mas foi Pastor quem falou, Tenho uma
proposta a fazer-te, disse, dirigindo-se a Deus, e Deus, surpreendido, Uma
proposta, tu, e que proposta vem a ser essa, o tom era irónico, superior, capaz
de reduzir ao silêncio qualquer que não fosse o Diabo, conhecido e familiar de
longa data. Pastor fez um silêncio, como se procurasse as melhores palavras, e
explicou, Ouvi com grande atenção tudo quanto foi dito nesta barca, e embora já
tivesse, por minha conta, entrevisto uns clarões e umas sombras no futuro, não
cuidei que os clarões fossem de fogueiras e as sombras de tanta gente morta, E
isso incomoda-te, Não devia incomodar-me, uma vez que sou o Diabo, e o Diabo
sempre alguma coisa aproveita da morte, e mesmo mais do que tu, pois não
precisa de demonstração que o inferno sempre será mais povoado do que o céu,
Então de que te queixas, Não me queixo, proponho, Propõe lá, mas depressa, que
não posso ficar aqui eternamente, Tu sabes, ninguém melhor do que tu o sabe,
que o Diabo também tem coração, Sim, mas fazes mau uso dele, Quero hoje fazer
bom uso do coração que tenho, aceito e quero que o teu poder se alargue a todos
os extremos da terra, sem que tenha de morrer tanta gente, e pois que de tudo
aquilo que te desobedece e nega, dizes tu que é fruto do Mal que eu sou e ando
a governar no mundo, a minha proposta é que tornes a receber-me no teu céu,
perdoado dos males passados pelos que no futuro não terei de cometer, que
aceites e guardes a minha obediência, como nos tempos felizes em que fui um dos
teus anjos predilectos, Lúcifer me chamavas, o que a luz levava, antes que uma
ambição de ser igual a ti me devorasse a alma e me fizesse rebelar contra a tua
autoridade, E por que haveria eu de receber-te e perdoar-te, não me dirás,
Porque se o fizeres, se usares comigo, agora, daquele mesmo perdão que no
futuro prometerás tão facilmente à esquerda e à direita, então acaba-se aqui
hoje o Mal, teu filho não precisará morrer, o teu reino será, não apenas esta
terra de hebreus, mas o mundo inteiro, conhecido e por conhecer, e mais do que
o mundo, o universo, por toda a parte o Bem governará, e eu cantarei, na última
e humilde fila dos anjos que te permaneceram fiéis, mais fiel então do que
todos, porque arrependido, eu cantarei os teus louvores, tudo terminará como se
não tivesse sido, tudo começará a ser como se dessa maneira devesse ser sempre,
Lá que tens talento para enredar almas e perdê-las, isso sabia eu, mas um
discurso assim nunca te tinha ouvido, um talento oratório, uma lábia, não há
dúvida, quase me convencias, Não me aceitas, não me perdoas, Não te aceito, não
te perdoo, quero-te como és, e, se possível, ainda pior do que és agora,
Porquê, Porque este Bem que eu sou não existiria sem esse Mal que tu és, um Bem
que tivesse de existir sem ti seria inconcebível, a um tal ponto que nem eu
posso imaginá-lo, enfim, se tu acabas, eu acabo, para que eu seja o Bem, é
necessário que tu continues a ser o Mal, se o Diabo não vive como Diabo, Deus
não vive como Deus, a morte de um seria a morte do outro, É a tua última
palavra, A primeira e a última, a primeira porque foi a primeira vez que a
disse, a última porque não a repetirei. Pastor encolheu os ombros e falou para
Jesus, Que não se diga que o Diabo não tentou um dia a Deus.”
“Quando
entraram em Betânia, notaram que os vizinhos que apareciam às portas os olhavam
com expressões de piedade e desgosto, mas aceitaram-nas como coisa natural,
visto o lastimoso estado em que voltavam da peleja. Pronto, porém, se desenganaram
dos motivos, foi entrar na rua onde Lázaro morava e logo perceberam que
sucedera uma desgraça. Jesus correu à frente de todos, entrou no pátio, pessoas
de ar compungido abriram-lhe caminho para que ele passasse, ouviam-se dentro os
choros e as lamentações, Ai, meu querido irmão, esta era a voz de Marta, Ai,
meu querido irmão, esta a de Maria. Deitado no chão, sobre uma esteira, viu
Lázaro, tranquilo como se dormisse, o corpo e as mãos compostas, mas não
dormia, não, estava morto, durante quase toda a sua vida o seu coração ameaçara
deixá-lo, depois curara-se, que assim o podia testemunhar Betânia inteira, e
agora estava morto, por enquanto sereno como se fosse de mármore, intacto como
se tivesse entrado na eternidade, mas não tardará que do interior da sua morte
suba à superfície o primeiro sinal de podridão para tornar mais insuportável a
angústia e o pavor destes vivos. Jesus, como se lhe tivessem cortado de um
traço os tendões dos jarretes, caiu de joelhos, e gemeu, chorando, Como foi que
aconteceu, como foi que aconteceu, é uma ideia que sempre nos acode diante do
que já não tem remédio, perguntar aos outros como foi, desesperada e inútil
maneira de distrair o momento em que iremos ter de aceitar a verdade, é isso,
queremos saber como foi, e é como se pudéssemos ainda pôr no lugar da morte, a
vida, no lugar do que foi, o que poderia ter sido. Do fundo do seu desfeito e
amargo choro, Marta disse a Jesus, Se tu estivesses aqui, meu irmão não teria
morrido, mas eu sei que tudo quanto pedires a Deus, ele to concederá, como te
tem concedido a vista dos cegos, a limpeza dos leprosos, a voz dos mudos, e
todos os mais prodígios que moram na tua vontade e esperam a tua palavra. Jesus
disse-lhe, Teu irmão há-de ressuscitar, e Marta respondeu, Eu sei que há-de
ressuscitar na ressurreição do último dia. Jesus levantou-se, sentiu que uma
força infinita arrebatava o seu espírito, podia, nesta suprema hora, obrar
tudo, cometer tudo, expulsar a morte deste corpo, fazer regressar a ele a
existência plena e o ente pleno, a palavra, o gesto, o riso, a lágrima também,
mas não de dor, podia dizer, Eu sou a ressurreição e a vida, quem crê em mim,
ainda que esteja morto, viverá, e perguntaria a Marta, Crês tu nisto, e ela
responderia, Sim, creio que és o filho de Deus que havia de vir ao mundo, ora,
assim sendo, estando dispostas e ordenadas todas as coisas necessárias, a força
e o poder, e a vontade de os usar, só falta que Jesus, olhando o corpo
abandonado pela alma, estenda para ele os braços como o caminho por onde ela há-de
regressar, e diga, Lázaro, levanta-te, e Lázaro levantar-se-á porque Deus o
quis, mas é neste instante, em verdade último e derradeiro, que Maria de
Magdala põe uma mão no ombro de Jesus e diz, Ninguém na vida teve tantos
pecados que mereça morrer duas vezes, então Jesus deixou cair os braços e saiu
para chorar.”
“Então
chegou ao acampamento a notícia da prisão de João o Baptista. Não se sabia mais
do que isto, que havia sido preso, e também que o mandara encarcerar o próprio
Herodes, motivo por que, não podendo imaginar-se ali outras razões, foram Jesus
e a sua gente levados a pensar que a causa do sucedido só podiam ter sido os
incessantes anúncios da chegada do Messias, que era a final substância do que
João proclamava em todos os lugares, entre baptismo e baptismo, Outro virá que
vos baptizará pelo fogo, entre imprecação e imprecação, Raça de víboras, quem
vos ensinou a fugir da cólera que está para vir. Disse então Jesus aos
discípulos que deviam estar preparados para toda a espécie de vexames e
perseguições, pois era de crer que, correndo já o país, e desde não pouco
tempo, notícia do que eles próprios andavam a fazer e a dizer no mesmo sentido,
concluísse Herodes que dois e dois são quatro e buscasse num filho de carpinteiro,
que de ser filho de Deus se gabava, e nos seus seguidores, a segunda e mais
poderosa cabeça do dragão que ameaçava deitá-lo abaixo do trono. Sem dúvida,
não é melhor uma má notícia do que notícia nenhuma, mas justifica-se que a
recebam com serenidade de alma aqueles que, havendo esperado e ansiado por um
tudo, se tinham visto, nos últimos tempos, postos diante do nada.
Perguntavam-se uns aos outros, e todos a Jesus, que era o que deveriam fazer,
se manterem-se juntos, e juntos enfrentarem a maldade de Herodes, ou
dispersarem-se pelas cidades, ou, ainda, recolherem-se ao deserto, mantendo-se
de mel silvestre e gafanhotos, como fizera João antes de ter de lá saído, para
maior glória de Jesus e, pelos vistos, sua própria desgraça.
Mas,
como não havia sinal de estarem vindo os soldados de Herodes para Betânia a
matar estes outros inocentes, puderam demorar-se Jesus e os seus a ponderar as
diferentes alternativas, e nisto estavam quando chegaram, num pé só, segunda e
terceira notícias, que João havia sido degolado, e que o motivo do
encarceramento e execução nada tinha que ver com anúncios de Messias ou reinos
de Deus, mas ter ele andado a clamar e a vociferar contra o adultério que o
mesmo Herodes cometia tendo casado com Herodíades, sua sobrinha e cunhada, em vida
do marido dela. Que João estivesse morto, foi causa de numerosas lágrimas e
lamentações em todo o acampamento, não se notando, entre homens e mulheres,
diferença nas expressões da mágoa, mas que ele tivesse sido morto pelo motivo
que se dizia, era algo que escapava à compreensão de quantos ali estavam,
porque uma outra razão, essa, sim, suprema, deveria ter prevalecido na sentença
de Herodes, e, afinal, era como se ela não tivesse existência hoje nem devesse
ter qualquer importância amanhã, dizia-o em cólera Judas de Iscariote, a quem,
como estaremos lembrados, tinha João baptizado, Que é isto, perguntava a toda a
companhia reunida, mulheres incluídas, anuncia João que vem aí o Messias a
redimir o povo e matam-no por denúncias de concubinato e adultério, de cama e
casamento de tio e cunhada, como se nós não soubéssemos que esse foi sempre o
viver corrente e comum da família, desde o primeiro Herodes aos dias que
vivemos, Que é isto, repetia, se foi Deus quem mandou João a anunciar o
Messias, e eu não duvido, pela simples razão de que nada pode acontecer sem que
o tivesse querido Deus, se foi Deus, expliquem-me então os que dele conhecem
mais do que eu por que quer ele que os seus próprios desígnios sejam assim
rebaixados na terra, e, por favor, não argumenteis que Deus sabe e nós não
podemos saber, porque eu vos responderia que o que quero saber é precisamente o
que Deus sabe. Passou um frio de medo por toda a assembleia, como se a ira do
Senhor viesse já a caminho para fulminar o ousado e todos os demais que,
imediatamente, o não tinham feito pagar a blasfémia. Ora, não estando ali Deus
presente para dar satisfação a Judas de Iscariote, o desafio só podia ser
levantado por Jesus, que era quem por mais perto andava do supremo interpelado.
Fosse
outra a religião e a situação outra, talvez que as coisas tivessem ficado por
aqui, por este sorriso enigmático de Jesus, em que, apesar de tão leve e
fugidio, fora possível reconhecer três partes, uma de surpresa, outra de
benevolência, outra de curiosidade, o que, parecendo muito, nada era, por ser a
surpresa instantânea, condescendente a benevolência, fatigada a curiosidade.
Mas o sorriso, assim como veio, assim se foi, e o que no seu lugar ficou foi
uma palidez mortal, um rosto subitamente cavado, de quem acabou de ver, em
figura e em presença, o seu próprio destino. Numa voz lenta, em que quase não
havia expressão, Jesus disse enfim, Retirem-se as mulheres, e Maria de Magdala
foi a primeira a levantar-se.
Depois,
quando o silêncio, pouco a pouco, se converteu em muralha e tecto para
fechá-los na mais funda caverna da terra, Jesus disse, Pergunte João a Deus por
que fez morrer assim, por uma causa tão mesquinha, quem tão grandes coisas
tinha vindo anunciar, disse e calou-se por um momento, e como Judas de
Iscariote parecia querer falar, levantou a mão para que sobrestivesse e
concluiu, O meu dever, acabei de compreender agora, é dizer-vos eu o que sei do
que Deus sabe, se não mo vai impedir o mesmo Deus. Entre os discípulos cresceu
um rumor de palavras trocadas em voz alterada, um desassossego, uma excitação
inquieta, temiam saber o que por saber ansiavam, só Judas de Iscariote mantinha
a expressão de desafio com que provocara o debate. Disse Jesus, Sei o meu
destino e o vosso, sei o destino de muitos dos que hão-de nascer, conheço as
razões de Deus e os seus desígnios, e de tudo isto devo falar-vos porque a
todos toca e mais tocará ainda no futuro, Porquê, perguntou Pedro, por que
temos nós de saber o que te foi transmitido por Deus, melhor seria que te
calasses, Estaria no poder de Deus fazer-me calar agora mesmo, Então, calares
ou não calares tem a mesma importância para Deus, significa o mesmo nada, e se
Deus tem falado pela tua boca, pela tua boca irá continuar a falar, mesmo
quando, como agora, julgues contrariar a sua vontade, Tu sabes, Pedro, que
serei crucificado, Disseste-mo, Mas não te disse que tu próprio, e André, e
Filipe, o sereis também, que Bartolomeu será esfolado, que a Mateus o matarão
bárbaros, que a Tiago filho de Zebedeu o degolarão, que o segundo Tiago, filho
de Alfeu, será lapidado, que Tomé será alanceado, que a Judas Tadeu lhe
esmagarão a cabeça, que Simão será cortado por uma serra, isto não o sabias,
mas sabe-lo agora, e sabem-no todos. A revelação foi recebida em silêncio, não
havia mais motivo para ter medo de um futuro que se dera a conhecer, era como
se, afinal, Jesus apenas lhes tivesse dito, Morrereis, e eles lhe respondessem
em coro, Grande novidade, isso já nós sabíamos. Mas João e Judas de Iscariote
não ouviram que deles se falasse, e por isso perguntaram, E eu, e Jesus disse,
Tu, João, chegarás a velho e de velho morrerás, quanto a ti, Judas de
Iscariote, evita as figueiras, não tarda que te vás a enforcar numa por tuas
próprias mãos, Morreremos, então, por tua causa, disse uma voz, mas não se
soube de quem havia sido, Por causa de Deus, não por minha causa, respondeu
Jesus, Que quer Deus, afinal, perguntou João, Quer uma assembleia maior do que
aquela que tem, quer o mundo todo para si, Mas se Deus é senhor do universo,
como pode o mundo não ser seu, e não desde ontem ou amanhã, mas desde sempre,
perguntou Tomé, Isso não sei, disse Jesus, Mas tu, que durante tanto tempo
viveste com todas essas coisas no coração, por que no-las vens contar agora,
Lázaro, que eu curei, morreu, João Baptista, que me anunciou, morreu, a morte
já está entre nós, Todos os seres têm de morrer, disse Pedro, os homens como os
outros, Morrerão muitos no futuro por vontade de Deus e causa sua, Se é vontade
de Deus, é causa santa, Morrerão porque não nasceram antes nem depois, Serão
recebidos na vida eterna, disse Mateus, Sim, mas não deveria ser tão dolorosa a
condição para lá entrar, Se o filho de Deus disse o que disse, a si próprio se
negou, protestou Pedro, Enganas-te, só ao filho de Deus é permitido falar assim,
o que na tua boca seria blasfémia, na minha é a outra palavra de Deus,
respondeu Jesus, Falas como se tivéssemos de escolher entre ti e Deus, disse
Pedro, Sempre a vossa escolha terá de ser entre Deus e Deus, eu estou como vós
e os homens, no meio, Que mandas então que façamos, Que ajudeis a minha morte a
poupar as vidas dos que hão-de vir, Não podes ir contra a vontade de Deus, Não,
mas o meu dever é tentar, Tu estás salvo porque és filho de Deus, mas nós
perderemos a nossa alma, Não, se decidirdes obedecer-me, é ainda a Deus que
estareis obedecendo.
No
horizonte, lá no último fim do deserto, apareceu o bordo duma lua vermelha.
Fala, disse André, mas Jesus esperou que a lua toda se levantasse da terra,
enorme e sangrenta, a lua, e só depois disse, O filho de Deus deverá morrer na
cruz para que assim se cumpra a vontade do Pai, mas, se no lugar dele
puséssemos um simples homem, já não poderia Deus sacrificar o Filho, Queres pôr
um homem no teu lugar, um de nós, perguntou Pedro, Não, eu é que irei ocupar o lugar
do Filho, Em nome de Deus, explica-te, Um simples homem, sim, mas um homem que
se tivesse proclamado a si mesmo rei dos Judeus, que andasse a levantar o povo
para derrubar Herodes do trono e expulsar da terra os romanos, isto é o que vos
peço, que corra um de vós ao Templo a dizer que eu sou esse homem, e talvez
que, se a justiça for rápida, não tenha a de Deus tempo de emendar a dos
homens, como não emendou a mão do carrasco que ia degolar João. O assombro
tolheu a voz de todos, mas por pouco tempo, que logo de todas as bocas saltaram
palavras de indignação, de protesto, de incredulidade, Se és o filho de Deus,
como filho de Deus tens de morrer, clamava um, Comi do pão que repartiste, como
poderia agora denunciar-te, gemia outro, Não queira ser rei dos Judeus aquele
que vai ser rei do mundo, dizia este, Morra logo quem daqui se mover para
acusar-te, ameaçava aquele. Foi então que se ouviu, clara, distinta, por cima
do alvoroço, a voz de Judas de Iscariote, Eu vou, se assim o queres.
Lançaram-lhe os outros as mãos, e já havia facas saindo das dobras das túnicas,
quando Jesus ordenou, Larguem-no, que ninguém lhe faça mal. Depois levantou-se,
abraçou-o e beijou-o nas duas faces, Vai, a minha hora é a tua hora.
Sem
uma palavra, Judas de Iscariote lançou a ponta do manto por cima do ombro e,
como se a noite o tivesse engolido, desapareceu na escuridão.”
“Jesus
morre, morre, e já o vai deixando a vida, quando de súbito o céu por cima da
sua cabeça se abre de par em par e Deus aparece, vestido como estivera na
barca, e a sua voz ressoa por toda a terra, dizendo, Tu és o meu Filho muito
amado, em ti pus toda a minha complacência.
Então
Jesus compreendeu que viera trazido ao engano como se leva o cordeiro ao
sacrifício, que a sua vida fora traçada para morrer assim desde o princípio dos
princípios, e, subindo-lhe à lembrança o rio de sangue e de sofrimento que do
seu lado irá nascer e alagar toda a terra, clamou para o céu aberto onde Deus
sorria, Homens, perdoai-lhe, porque ele não sabe o que fez.”