Editora: Civilização
Brasileira
ISBN: 978-85-200-0866-9
Opinião: ★★★★☆
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Páginas: 798
Sinopse: Ver Parte
I

“Se era problemático
para um presidente dos Estados Unidos levantar o embargo e defrontar-se com a
comunidade cubana de Miami, conforme Carter ponderou,
também Fidel Castro não tinha condições de abrir o
regime e convocar eleições livres, em pleno “state of belligerence” que
os Estados Unidos, desde 1961, mantinham contra Cuba, configurado pelo embargo
e pela guerra secreta — sabotagens, tentativas de assassinato e outras ações
terroristas, empreendidas durante muitos anos pela CIA —, no âmbito da qual um
colaborador e agente, Luís Posada Carriles, em 6 de outubro de 1976, fizera
explodir em pleno voo, em frente à costa de Barbados, um avião da companhia
Cubana de Aviación, matando 73 pessoas.12
Com efeito, Cuba, a partir de 1960, fora forçada pelos sucessivos governos dos
Estados Unidos a viver em permanente estado de guerra, e ao longo de quase
cinco décadas, i.e., de 1960 a 2008, ocorreram 713 atos de terrorismo na ilha,
56 dos quais a partir de 1990, organizados e financiados a partir do território
americano, com um saldo de 3.478 mortos e 2.099 incapacitados.13 Em 1992, fora organizada, dentro da
Fundación Nacional Cubano-Americana (FNCA), uma estrutura clandestina,
denominada Comisión de Seguridad, constituída por um grupo paramilitar de
caráter terrorista. Depois se formou a Coordinación de las Organizaciones Revolucionarias
Unidas (CORU) e, entre 1994 e 1996, ocorreu uma escalada de atentados. Alguns
grupos, provenientes de Miami, infiltraram-se em Palo Quemado, Caibarién e
outras regiões, com a missão de realizar sabotagens, e o grupo Alfa 66 promoveu
três ataques contra o Hotel Guitart, em Cayo Coco, enquanto o Partido Unidade
Nacional Democrática (PUND) atacava o Hotel Meliá Las Americas, em Varadero.
Outrossim, outros grupos terroristas — Comandos F-4 denominados Patria y
Libertad, Gobierno Provisorio en el Exilio — infiltraram-se nas províncias de
Matanzas e Villa Clara para executar atentados e chegar às montanhas de
Ecambray, quando mataram Arcelio Rodríguez Garcia, um trabalhador de 34 anos,
pai de dois filhos. O objetivo era criar um clima de terror, que prejudicasse o
fluxo de turismo para Cuba.”
12.
Luís Posada Carriles é um dos mais famosos terroristas cubano-americanos. Como
agente e colaborador da CIA, treinou na Guatemala os exilados cubanos que
participaram da invasão da Baía dos Porcos, em 1961. Intentou várias vezes
matar Fidel Castro e, em 6 de outubro de 1976, fez explodir em pleno voo, em
frente à costa de Barbados, um avião da companhia Cubana de Aviación, quando
morreram 73 pessoas, além de outros inumeráveis atentados a bomba. Consta que
estava na Plaza Dealey de Dallas, em Houston, quando ocorreu o atentado contra
o presidente John Kennedy, em 22 de novembro de 1963. Em entrevistas ao New York Times, confessou que fora
treinado pela CIA e que a Fundación Cubano Americana, dirigida por Jorge Mas Canosa
(1939-1997), financiava suas operações terroristas. Luis Posada Carriles e
Orlando Bosch foram fundadores da CORU, o grupo terrorista mais ativo, sediado
em Miami. Esteve preso no Texas, acusado de entrada ilegal nos Estados Unidos,
mas foi solto logo depois.
13.
Discurso de Raúl Castro en el Comité Central del Partido Comunista en 3/5/08.
Sierra Maestra — Diario digital. La Habana, 30 abr (Prensa -Latina).
“Por volta de 1938-39, Leon Trotski, teórico marxista e, juntamente com
Lenin, um dos dois principais líderes da revolução russa, concedeu ao líder
sindical argentino Matheo Fossa uma entrevista na qual observou que, no Brasil,
àquele tempo, havia um regime “semifascista” que qualquer revolucionário só
podia considerar com ódio.1 Porém, ponderou que, em caso de uma
guerra contra a Grã-Bretanha “democrática”, por exemplo, ele pessoalmente
estaria ao lado do Brasil “fascista”, porque, segundo sua percepção, não se
trataria de um conflito entre a democracia e o fascismo. Segundo Trotski, se a
Inglaterra “democrática” vencesse, colocaria outro fascista no governo do Rio
de Janeiro, então capital do Brasil, e ataria o país a uma dupla cadeia de
opressão, ao passo que, se o Brasil triunfasse, a consciência nacional e
democrática tomaria impulso e acarretaria a derrubada da ditadura.2
Esta ponderação de Trotski, exposta antes da Segunda Guerra Mundial, já
mostrava a necessidade de rever os conceitos ideológicos tanto do fascismo
quanto do comunismo, à luz da realidade econômica, social e política da América
Latina, bastante diversa daquela existente na Europa, onde o comunismo e o
nazifascismo, como ideologias, surgiram e se desenvolveram.
O Estado Novo — regime vigente no Brasil em 1938 e a que Trotski se
referiu — não teve essencialmente um caráter fascista, pois, na verdade,
constituiu uma ditadura burocrática que, sustentada pela repressão
militar-policial, permitiu a execução de um projeto nacional de desenvolvimento
capitalista, sob a égide do Estado a despeito da oposição de vários segmentos
da própria burguesia e do conjunto do grande capital, predominantemente
estrangeiro. Essa característica já o diferenciava dos regimes existentes na
Alemanha e na Itália, cujo nacionalismo exprimia os interesses do grande
capital em seus esforços de expansão. O mesmo se pode dizer em relação a outros
regimes instalados na América Latina durante a Segunda Guerra Mundial e que os
Estados Unidos acusaram de servir aos objetivos políticos e militares do Eixo.
Suas bases de sustentação econômica e social eram diferentes daquelas a que os
regimes de Hitler e Mussoline serviram na Alemanha e na Itália. Embora a
América Latina, devido às suas origens coloniais, fosse a região no mundo que
mais copiou as políticas da Europa continental,3 as ideias nazistas
ou fascistas lá se entrelaçaram e se mestiçaram com tendências comunistas ou
socialistas e adquiriram conotação de esquerda, na medida em que se amoldavam a
outra realidade, em distintas circunstâncias, e passaram a exprimir anseios de
subversão e mudança do status quo, representado, sobretudo, pelo predomínio dos
capitais estrangeiros. O Foreign Office, da Grã-Bretanha, percebeu claramente
que os golpes militares na Argentina e na Bolívia, durante a Segunda Guerra
Mundial, não representavam clara ameaça de introdução do nazismo e do fascismo,
mas antes a reemergência, em forma aguda, do nacionalismo, “que era endêmico e
às vezes epidêmico em todos ou quase todos os países da América Latina”.4
Segundo a percepção dos policy makers britânicos, quando Cordel Hull,
secretário de Estado, bem como outras autoridades do governo dos Estados
Unidos, referiam-se à Argentina ou à Bolívia com os qualificativos de nazi e
fascista, o que talvez eles temessem, realmente, não era a ação da Alemanha e
da Itália e, sim, o julgamento de todos os países da América Latina contra a
influência dos Estados Unidos, com a admiração pela “atitude independente” de
Buenos Aires, a espraiar o nacionalismo através do continente.5
O nacionalismo nos países da América Latina, com efeito, desenvolveu-se
em oposição, fundamentalmente, aos Estados Unidos, para os quais, desde os
primórdios do século XIX, a expansão de seus interesses econômicos na América
Latina jamais respeitou qualquer fronteira. A guerra contra o México e a
conquista do Texas e do Arizona, na década de 1840, constituíram a primeira
grande diástole dos Estados Unidos, cujo enriquecimento material exacerbou-lhes
o expansionismo e a belicosidade. A tendência para o messianismo nacional, a
ideia de povo eleito por Deus que o judaísmo legou aos puritanos, atualizou-se,
americanizou-se e assumiu o nome de destino manifesto, movimento com que os
Estados Unidos, na metade do século XIX, expandiram suas fronteiras até o
Oceano Pacífico e tentaram apoderar-se, mediante expedições de flibusteiros, da
América Central, bem como das ilhas do Caribe e até mesmo da Amazônia. No
início do século XX, com a política do big stick do presidente Theodore
Roosevelt, os Estados Unidos continuaram a intervir nos países da América
Central e no Caribe, onde consideravam Cuba sua fronteira natural e
apoderaram-se, inclusive, do Canal do Panamá, o que criou profundas
contradições com os países da América Latina. Tais contradições
manifestaram-se, outrossim, no conflito com o México, em 1915, gerando tantos
ressentimentos e desconfianças, que o presidente Franklin D. Roosevelt teve que
promover a política de boa vizinhança, a partir dos anos 1930.
Entretanto, não obstante Roosevelt começasse, por volta de 1944, a
induzir os países das Américas Central e do Sul a restabelecer o regime
democrático, a preocupação dos Estados Unidos, após a Segunda Guerra Mundial,
não foi propriamente defender as liberdades políticas na América Latina, mas
assegurar um clima favorável aos seus negócios e investimentos privados, bem
como o acesso às fontes de matérias-primas, sobretudo petróleo. A modalidade de
suas relações com os países do continente não se distinguiu da modalidade que
caracterizou as relações dos grandes impérios com suas colônias. E da mesma
forma que a União Soviética não tolerava eleições livres nos países do Leste
Europeu sob seu domínio, porque os anticomunistas poderiam vencê-las, os
Estados Unidos passaram a fomentar golpes de Estado e sustentar, igualmente,
ditaduras, de modo a conservar sua hegemonia na região, impedindo que eleições
livres levassem ali forças nacionalistas e antinorte-americanas, percebidas
como comunistas, ao poder. E o nacionalismo latino-americano, tanto na
Argentina como no Brasil, na Bolívia ou em qualquer outro país do hemisfério,
acusado de constituir uma variante latino-americana do nazifascismo e servir às
potências do Eixo, antes e durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945),
assumiu, dentro do contexto da confrontação bipolar do poder internacional que
caracterizou a Guerra Fria, um caráter cada vez mais à esquerda, na medida em
que se contrapôs à hegemonia dos Estados Unidos e passou a ser identificado, já
no início dos anos 1950, com o comunismo. A expressão comuno-peronismo
tornou-se usual para denominar a ideologia — o justicialismo — que o general
Juan Domingo Perón tratou de difundir desde Buenos Aires. O Departamento de
Estado norte-americano, em 1953, exigiu que a Argentina, a fim de que pudesse
receber qualquer auxílio econômico ou financeiro, cessasse de divulgar o
justicialismo através de suas embaixadas e dos adidos sindicais, por percebê-lo
como “propaganda de linha comunista”, e abandonasse, na política exterior, a
terceira posição, opondo-se inequivocamente ao comunismo e aos desígnios da
União Soviética. Assim, o nacionalismo latino-americano, mesmo as correntes
originárias de movimentos inspirados pelo nazifascismo, pareceu cada vez mais,
naquela conjuntura, uma manifestação do comunismo, na medida em que
obstaculizou as políticas liberais — livre circulação de mercadorias e
capitais, conversibilidade monetária e multilateralidade no comércio, que os
Estados Unidos tratavam de disseminar, mesmo antes da Segunda Guerra Mundial, a
fim de expandir seus interesses econômicos. O Ministério das Relações
Exteriores do Brasil, em memorando ao presidente da República sobre a revolução
boliviana de 1952, observou que “o acontecimento em La Paz transcende o caráter
de uma simples revolução sul-americana, de estilo clássico, para assumir
contornos de um movimento de tendência nitidamente doutrinária, uma vez que se
defrontam teses da esquerda e direita, se é que essas posições se extremam e
não se confundem, tal é a semelhança por vezes entre ambas.”7
Também a Guatemala, àquele mesmo tempo, constituiu motivo de
preocupação, pois os Estados Unidos alegavam que a União Soviética ali tentava
exercer influência e promover a infiltração do comunismo. Entretanto, o
embaixador do Brasil naquele país, Carlos da Silveira Martins Ramos, informou
ao Itamaraty que “em Guatemala não há comunismo, Há comunistas, como em todas
as partes do mundo, mas em número insignificante, sobretudo se comparamos com
os que existem no Brasil, Chile, Cuba e até nos Estados Unidos (...)”.8
Ele acrescentou que a “animosidade” existente na Guatemala contra os Estados
Unidos não era “nem maior nem menor” do que a que prevalecia em todos os países
hispano-americanos e até mesmo em certos meios brasileiros.9
Naquela conjuntura, em que a Guerra Fria se intensificava, os Estados
Unidos, durante os anos 1950, arremeteram contra os governos em vários países
do Terceiro Mundo, utilizando a CIA como eficiente empresário de golpes de
Estado e subversão, em um esforço para voltar à ordem mundial do passado, como
Oswaldo Aranha previra.10 As lutas de libertação sofreram reveses,
Mohamed Mossadegh, primeiro-ministro do Irã, foi deposto por um golpe de
Estado, em 1953. O secretário de Estado norte-americano, John Foster Dulles, em
10 de junho de 1954, exortou a OEA a “ajudar o povo da Guatemala a livrar-se da
maligna força do comunismo”,11 falando à Convenção Internacional do
Rotary Club. E, na semana seguinte, mercenários, aliciados pela CIA, invadiram
aquele país, forçando o presidente Jacob Arbenz a renunciar, em 28 de junho, em
meio a um golpe de Estado comandado pelo próprio embaixador norte-americano,
John Peurifoy. Vargas, para não ter que renunciar ou ser deposto, suicidou-se,
em 24 de agosto de 1954, denunciando a “campanha subterrânea” dos grupos
internacionais, que se aliaram aos grupos nacionais “revoltados contra o regime
de garantia do trabalho”, e a “violenta repressão” sobre a economia brasileira,
para obrigá-lo a ceder. Perón não resistiu no governo mais do que um ano.
Apesar de que, com a política de abertura ao capital estrangeiro, conseguisse
desacelerar a inflação, reerguer o salário real e, com a melhoria do balanço de
pagamentos, estimular as atividades econômicas, a situação política na
Argentina se deteriorava a tal ponto que, em 19 de setembro de 1955, ele teve
que renunciar à presidência da República e refugiar-se na canhoneira Paraguai,
após quatro dias de sangrenta rebelião conjunta da Marinha e do Exército.
Tais acontecimentos aguçaram os sentimentos anti-Estados Unidos na
juventude da América Latina, que talvez fosse a região do mundo, fora da União
Soviética, na qual o marxismo, modelando correntes de pensamento, mais se
enraizara, em variadas interpretações, ou indo-americanas, como da APRA, ou
europeístas. E Juscelino Kubitschek, presidente do Brasil, bem como as
correntes nacionalistas da sua administração, perceberam que, em face da
progressiva deterioração dos termos de intercâmbio — queda de preço das
matérias-primas manufaturadas contra o aumento dos custos dos produtos
manufaturados — tornara-se “extremamente difícil para um país subdesenvolvido
acelerar seu processo de crescimento através dos métodos clássicos da livre
empresa” e que a indiferença dos países industrializados do Ocidente diante dos
problemas da América Latina contribuía “fortemente para aumentar a descrença
nas formas democráticas de governo e estimular o recurso a soluções socia¬lizantes”.12
Entrementes, a imagem da União Soviética começara a assumir contornos
mais positivos depois que o primeiro-ministro Nikita Kruchev, em 1956,
denunciara os crimes de Stalin e admitira a teoria de que os outros povos
poderiam chegar ao socialismo pela via pacífica. O lançamento do primeiro
míssil balístico intercontinental (ICBM) e do primeiro satélite espacial, o
Sputnik, que ela em 1957 promovera, concorreu para robustecer seu prestígio,
pois, ao exibir sua capacidade de bombardear os Estados Unidos com bombas
atômicas teleguiadas, evidenciou o alto nível alcançado pelo seu progresso
científico e tecnológico. A percepção, amplamente disseminada não só no Brasil
como em toda a América Latina, era de que as economias planificadas do chamado
Bloco Socialista, graças à compressão dos níveis de consumo e ao maior volume
de investimentos, sob rígido controle estatal, cresciam em ritmo mais acelerado
do que as economias de mercado e que o PIB na União Soviética aumentava mais
rapidamente que nos Estados Unidos.13 A assistência da União
Soviética, inclusive indireta, através de outros países do Bloco Socialista, a
países subdesenvolvidos passara de zero, em 1954, para um total de
aproximadamente US$ 1,6 bilhão, ao fim de 1957, e seu comércio saltara de US$
840 milhões para US$ 1,7 bilhão, no mesmo período.14 Estes dados,
Kubitschek apresentou, em conferência para a Escola Superior de Guerra, em 26
de novembro de 1958, quando afirmou que a Operação Pan-Americana, por ele
lançada com o objetivo de despertar o governo norte-americano para os problemas
da região, representava, “precisamente, um protesto contra a desigualdade de
condições econômicas neste hemisfério, uma advertência pública e solene no
tocante aos perigos latentes no atual estado de subdesenvolvimento da América
Latina”, que poderia aproximar-se dos países comunistas se os Estados Unidos
não alterassem sua política.15 Conforme se lhe antolhava, o tipo de
auxílio soviético, além do seu crescente volume, era de molde a atrair a
simpatia dos países subdesenvolvidos, pois se caracterizava, em geral, pela
concessão de vultosos empréstimos, a juros baixos, amortizáveis em mercadorias
do país devedor, o que contornava o problema de divisas e oferecia, muitas
vezes, a possibilidade de escoamento para produtos agrícolas de difícil
colocação no mercado internacional.16
Nesse contexto, quando os sentimentos anti-Estados Unidos se exacerbavam
na América Latina, a revolução em Cuba triunfou. Tanto Castro quanto Che
Guevara previam e, até certo ponto, desejavam o enfrentamento com os Estados
Unidos, que inevitável se lhes afigurava, na medida em que o governo
revolucionário, ao ampliar a reforma agrária, atingisse suas empresas, como a
United Fruit, proprietárias de grandes latifúndios e nos quais mais de 40% das
terras permaneciam ociosas.17 Assim acontecera na Guatemala e esta
síndrome condicionou suas atitudes, o que tornou a revolução cubana, mais do
que um acontecimento nacional, um fenômeno latino-americano, ao refletir as
contradições não solucionadas entre os Estados Unidos e o resto do hemisfério.
Daí seu impacto e a imensa popularidade que alcançou. Efetivamente, as
condições econômicas, sociais e políticas, específicas de Cuba, embora similares
às de outros países do Caribe e da América Central, possibilitaram o sucesso
das guerrilhas, a partir do foco instalado em Sierra Maestra. Mas foram as
experiências da Bolívia e da Guatemala que constituíram o parâmetro e
inspiraram a forma pela qual Castro e Che Guevara trataram de consolidar a revolução
em Cuba. Che Guevara, amargando a facilidade com que o putsch contra Arbenz
triunfara, sempre disse que “Cuba no será otra Guatemala”, o que repetiria,
várias vezes, durante conversa com Jânio Quadros, quando este visitou Havana
(abril de 1960), ainda como candidato à presidência do Brasil.18
Conquanto alguns dos seus dirigentes, como Ernesto Che Guevara e o
próprio Fidel Castro, gestassem ideias marxistas, eles não eram filiados nem
comprometidos com nenhum Partido Comunista, não obedeciam nem aceitavam as
diretrizes políticas de Moscou e não era inevitável, por conseguinte, que a
Revolução Cubana evoluísse para o stalinismo e sua forma de governo. Isto
aconteceu na medida em que a União Soviética se afigurou a Fidel Castro e seus
companheiros como a única opção internacional de apoio à defesa da soberania e
da autodeterminação de Cuba, vis-à-vis das pressões postas pelos Estados
Unidos, quando as primeiras medidas da reforma agrária alcançaram as
propriedades da United Fruit Co. “The Soviet Union was one alternative power to
which these radical nationalists could turn”, o politólogo norte-americano Cole
Blasier, com toda a justiça, ponderou.19 E foi Eisenhower, em
1959-1960, que empurrou Castro na sua direção, ao cortar a cota do açúcar,
suspender os fornecimentos de petróleo, manter o embargo para a compra de
armamentos e organizar uma força de asilados para invadir Cuba e derrubá-lo.
Com razão, outro cientista, Martin C. Needler, salientou que não era inevitável
que a Revolução Cubana evoluísse a ponto de identificar-se com a doutrina
comunista e sua forma de governo.20 Na verdade, conforme, com muita
lucidez, ele observou, a União Soviética nunca aceitou completamente Castro
como autêntico comunista e Castro só de forma irregular acompanhou a liderança da
União Soviética na política internacional e introduziu novos elementos de
discórdia no campo comunista, já dividido em várias facções.21 O
conflito ideológico com a China, em que Mao Zedong acusava a União Soviética de
revisionismo por defender a via pacífica para o socialismo, foi, entre outros
fatores, o que levou Kruchev a sustentar, mais decididamente, o regime
revolucionário de Fidel Castro, não obstante suas heresias. Se a União
Soviética falhasse no apoio a Cuba, sua posição ficaria enfraquecida vis-à-vis
à China, dentro do movimento comunista internacional, cuja hegemonia estavam a
disputar.22 Na realidade, não foram os comunistas que se apossaram
de Castro. Foi Castro que se apossou dos comunistas — Cole Blasier salientou.23
Em fins dos anos 1980, apenas dois dos antigos dirigentes do PSP — Blás
Roca e Carlos Rafael Rodríguez — integravam o Bureau Político do Partido
Comunista de Cuba. Por tais motivos, inter alia, não se pode analisar a
Revolução Cubana sob o prisma do que se passou no Leste Europeu após a Segunda
Guerra Mundial. Ela não decorreu de uma intervenção do Exército Vermelho ou de
uma operação encoberta da KGB, no contexto do conflito Leste-Oeste, não
constituiu uma consequência da Guerra Fria, na qual entretanto se inseriu,
envolvendo a América Latina, devido, sobretudo, às contradições com os Estados
Unidos, que a União Soviética tratou, naturalmente, de aproveitar em função dos
seus interesses estratégicos, como no caso da instalação de mísseis balísticos,
dentro de Cuba, no curso de 1962. Deste modo, ao contrário do que ocorrera na
Europa, onde o governo soviético, a partir da direção de Stalin, oprimira as
nacionalidades e, depois da Segunda Guerra Mundial, estendera seu domínio aos
demais países do Leste, agressões à soberania de Cuba, desde os primeiros anos
de sua independência, sempre partiram dos Estados Unidos. E a ameaça de
invasão, reacendendo e agravando ressentimentos históricos, tornou-se
permanente, após a vitória da revolução de 1959, e daí constituir um fator
determinante na política interna e externa de Fidel Castro. Os Estados Unidos
não lhe deixaram outra opção senão identificar-se mais e mais com o comunismo e
sua forma de governo, a fim de assegurar o respaldo econômico, político e
militar da União Soviética. E a singularidade de estar Cuba situada nas
proximidades dos Estados Unidos e ser o único Estado comunista estabelecido na
sua órbita de influência amplificou, mais do que nos países socialistas do
Leste Europeu, os sentimentos antinorte-americanos, que se tornaram mais
importantes do que o marxismo-leninismo como força na mobilização das massas
diante da ameaça de intervenção militar estrangeira.24 Esta ameaça
só não se consumou, depois da malograda invasão da Baía dos Porcos, porque o
governo norte-americano, no início, não contou com o apoio dos maiores países
da América Latina, sobretudo Brasil e México, temendo, posteriormente, não
apenas a retaliação da União Soviética em Berlim Ocidental ou no Irã como o
elevadíssimo custo em vidas norte-americanas, em virtude dos armamentos
recebidos do Bloco Socialista e da resistência que o povo cubano, beneficiado
pela revolução e solidário com Castro, ofereceria.
Esse antagonismo dos Estados Unidos, configurado sobretudo pela
manutenção e endurecimento do embargo econômico, mesmo depois que a União
Soviética se dissolvera, constituiu um dos fatores que continuaram a garantir a
Castro o respaldo de amplas camadas da população cubana, apesar de todas as
vicissitudes em que passaram a viver. Elas estavam conscientes de que o
esbarrocamento abrupto do regime, como no Leste Europeu, não alteraria,
substancialmente, a situação existente em Cuba. Antes, pelo contrário, havia
certeza de que a crise poderia assumir outras e maiores dimensões quando os
cubanos exilados, dos quais cerca de 60%, segundo se supunha, nem sequer
queriam voltar a viver em Cuba, buscassem reaver de qualquer modo os
privilégios e expulsar os ocupantes de suas propriedades, terras e casas,
deflagrando, provavelmente, uma guerra civil em um país onde a escassez de
alimentos e, inclusive, de moradia se evidenciava em toda parte e recursos não
existiam, muito menos para novas construções. Por outro lado, os Estados Unidos
demonstraram, tanto em face do Panamá quanto da Nicarágua, que também não
tinham recursos ou não se dispunham a destiná-los para Cuba, mesmo que Castro
deixasse o poder. O Panamá só recebera a insignificância de US$ 32 milhões, em
fins de 1990, embora o governo norte-americano houvesse prometido uma ajuda de
US$ 500 milhões, depois que suas tropas o invadiram, em dezembro de 1989, para
prender o general Manuel A. Noriega. E para a Nicarágua, onde eleições se
realizaram e Violeta Chamorro assumiu a presidência em abril de 1990, o
Congresso norte-americano só aprovou um pacote de US$ 300 milhões depois que a
violência voltara a irromper, em 1991, ameaçando a estabilidade da região.25
Por contar ainda com a confiança e o apoio de grande parte da população,
Castro, em face da débacle do comunismo no Leste Europeu e das terríveis
circunstâncias em que Cuba se precipitara, compreendeu que o melhor seria
habilmente administrar, ele próprio, de forma vagarosa, gradual e segura, o
retorno ao capitalismo. Este retrocesso se tornara inelutável. Castro
pretendera mudar o modo de produção capitalista e saltar para o socialismo sem
modificar a estrutura predominantemente agroexportadora do país e o padrão de
sua inserção no mercado mundial, que se assentava na troca de commodities por
manufaturas. O projeto de industrialização, animado, nos primeiros anos da
revolução, sobretudo por Che Guevara, frustrou-se na medida em que Castro, sem
poder jogar a “carta americana”, teve de sujeitar-se às imposições da União
Soviética e Cuba integrou-se na comunidade econômica do Bloco Socialista,
subordinando-se à divisão internacional do trabalho que o Conselho de Ajuda
Mútua Econômica (COMECOM) planejava e estabelecia. Assim, o governo
revolucionário, ao entrar em conflito com os Estados Unidos, naquele contexto
de confrontação entre dois polos do poder mundial, apenas transferiu a
dependência econômica de Cuba, de tipo neocolonial, dos Estados Unidos para a
União Soviética, da qual continuou dependente, como simples fornecedora de
açúcar. A grande contradição de Castro, ao defender a independência nacional de
Cuba, foi deixar que a revolução enveredasse pelo caminho do socialismo
dependente.
O socialismo real, imitação do modelo implantado por Stalin na extinta
União Soviética, virtualmente acabou em Cuba. Castro tentou apenas salvar as
aparências e, resguardando a educação e saúde como serviços públicos, que
representaram conquistas democráticas da revolução de 1959, suavizar o
desmoronamento do regime, montado ao longo de 36 anos, a fim de não perder o
controle sobre os acontecimentos e a honra, valor muito importante para ele. O
embargo econômico dos Estados Unidos concorreu para ampliar a crise
desencadeada pelo desaparecimento do Bloco Socialista, conquanto nada indicasse
que seu fim pudesse aliviar sensivelmente a situação de Cuba, dado que não
melhoraria o preço do açúcar, detendo a deterioração dos termos de intercâmbio
de commodities por produtos industriais, nem baratearia o custo do petróleo no
mercado internacional. Esse bloqueio, desumano e, até certo ponto,
politicamente inócuo, na medida em que não conseguira, em 40 anos, provocar a
queda do regime comunista, só serviu como pretexto para que Castro justificasse
a manutenção da ditadura, por existir um estado latente de beligerância com os
Estados Unidos, bem como os erros que cometera, ao consentir que a excessiva
identificação com a União Soviética terminasse por influir de forma decisiva
sobre os rumos da revolução, levando-a a perder as características renovadoras
e libertárias, latino-americanas, de que se revestira nos primórdios. O fato de
que ele, ao longo de 40 anos, manteve o poder, apesar de tudo, inclusive
invasão, sabotagens e tentativas de assassinato, que os Estados Unidos
engendraram, constituiu, por si, seu grande triunfo. E, conquanto provavelmente
o regime comunista tivesse condições de resistir às pressões domésticas e
internacionais e sobreviver, mesmo formalmente, uma vez levantado o embargo
econômico dos Estados Unidos, o prestígio com que Castro ainda contava sem
dúvida favoreceria sua vitória, em qualquer eleição, com liberdade dos partidos
políticos. De qualquer modo, ao radicalizar-se, ainda que compelida pela
dinâmica dos conflitos com os Estados Unidos, e exceder-se a si própria,
afoitando-se além das condições materiais e das reais possibilidades políticas
do país, o que a Revolução Cubana promoveu, não obstante alguns dos seus
feitos, como a melhoria dos níveis de saúde, baixando significativamente a taxa
de mortalidade infantil, e a eliminação do analfabetismo, foi a socialização da
pobreza, uma vez que a riqueza lá concentrada era pouca e a produtividade
caíra. De 1959 a 1997, a diferença entre os que muito possuíam, os ricos, e os
que nada tinham, praticamente, desaparecera em Cuba. Igualitarismo havia. Todos
empobreceram. A escassez e o sacrifício foram solidariamente distribuídos pela
população, submetida às mais severas restrições, sem liberdades políticas.
Entretanto, a situação em que Cuba se abismara, após o desmerengamiento da
União Soviética e dos regimes comunistas nos demais países do Leste Europeu,
comprovou, mais uma vez, que toda tentativa de liquidar as diferenças de classe
e implantar o socialismo, antes de que o desenvolvimento das forças econômicas
elevasse a oferta de bens e serviços em quantidade e qualidade, a níveis de
abundância, não podia ter consistência e acarretaria consigo não só o
estancamento como, inclusive, a decadência do modo de produção e da sociedade,
conforme o próprio Friedrich Engels advertira, na segunda metade do século XIX.26
Cuba, entretanto, pôde recuperar-se, na medida em que promoveu, ainda que
timidamente, algumas reformas, abrindo a economia aos capitais estrangeiros, e
contou, no início do século XXI, com o apoio solidário da Venezuela, sob o
governo do presidente Hugo Chávez, e com os investimentos da China, a emergir como
superpotência econômica e como outro polo internacional de poder.”
1.
Trotski, Escritos, Tomo X, 1938-1939,
1976, pp. 39-42.
2.
Id., ibid., pp. 39-42.
3.
Payne, A History of Fascism — 1914-1945,
1995, p. 340.
4.
Minuta de P. Mason, 14/1/1944, File AS130, Public Record Office, Foreign
Office, 371 37698. Minuta do lorde Halifax, Telegrama do Foreign Office,
Washington, 15/1/1994, File 294, Public Record Office, Foreign Office 371
37698.
5.
Id.
6.
Memorandum for the Presidem, Subject: “Current Status of U.S. — Argentine
Relations”, secret security information, 5/3/1953, a) Walter B. Smith,
Eisenhower Library.
7.
Memorando ao presidente da República, secreto, Ministério das Relações
Exteriores, Rio de Janeiro, 29/4/1952, cópia, ibid.
8.
Ofício nº 221, secreto, embaixador Carlos da Silveira Martins Ramos ao
chanceler Raul Fernandes, Guatemala, 26/8/1950, AHMRE-B MDB, secretos, A-K,
Ofícios recebidos, 1950-57.
9.
Id.
10.
Carta de 2/12/1952, Aranha a Vargas, Washington, Pasta de 1952, AGV.
11. Correio da Manhã, Rio de Janeiro,
11/6/1954.
12.
Instruções à delegação do Brasil ao Comitê dos 21 — Setor Econômico, minuta,
s/d. 960.3 — Pan-Americanismo — A-B. AMRE-B.
13.
Ibid.
14.
Ibid.
15. Correio da Manhã, Rio de Janeiro,
27/11/1958 e 28/11/1958.
16.
Ibid. Mais detalhes sobre o tema, vide Moniz Bandeira, L. A., 1973, pp.
380-390.
17.
Discurso de Raúl Rosa na ONU, 18/7/1960, in
Castro et al., 1981, p. 173.
18. O
Autor, na época, assistiu ao diálogo de Che Guevara, então presidente do Banco
de Cuba, com Jânio Quadros, ao qual o embaixador do Brasil em Havana, Vasco
Leitão da Cunha, o escritor Rubem Braga e outros estiveram presentes.
Posteriormente, o Autor encontrou Guevara outras vezes e manteve com ele longa
conversação de quatro horas, em julho de 1962, no Ministério da Indústria.
19.
Blasier, The Giant’s Rival, 1989, p.
134.
20. Needler,
The United States and the Latin American
Revolution, 1977, p. 33.
21.
Id., ibid., p. 34.
22.
White, The Cuban Missile Crisis, 1996.
23.
Blasier, The Giant’s Rival, 1989, p.
106.
24.
Thomas, The Cuban Revolution: 25 Years
Later, 1984, p. 19.
25.
Cardoso & Helwege, Cuba after
Communism, 1992, pp. 97-98.
26.
Engels, F. “Soziales aus Rußland”, in Marx & Engels, 1976, p. 39.