sábado, 5 de abril de 2025

Anne de Windy Poplars, de Lucy Maud Montgomery

Editora: Ciranda Cultural

ISBN: 978-65-550-0147-1

Tradução: Rafael Bonaldi

Opinião: ★★★★☆

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Páginas: 288

Sinopse: Anne agora é diretora da escola de Summerside. A nova cidade e posição preparam desafios, como a influente família Pringle, que não a quer a frente da escola. Gilbert Blythe está a três anos de concluir a faculdade de medicina e Anne se corresponde com o noivo por cartas, compartilhando sua rotina com as viúvas tia Kate e tia Chatty, a governanta Rebecca Dew, o gato Dusty e sua vizinha Elizabeth.


 

“Onde há boa vontade, há um caminho.”

 

 

“Estou triste com a situação, pois não é possível argumentar com o preconceito.”

 

 

A tia Chatty está muito aborrecida, pois, quando ela desdobrou um lençol limpo para colocar na minha cama, encontrou um vinco no formato de um diamante bem em seu centro e ela tem certeza de que isso é o prenúncio de uma morte na casa. A tia Kate está indignada com tamanha superstição, mas acho que prefiro as pessoas supersticiosas. Elas dão cores à vida. O mundo não seria um lugar sacal se todos fossem sábios e sensatos... E bons? Sobre o que conversaríamos?”

 

 

“As coisas sussurram umas com as outras durante a noite.”

 

 

“O ódio é apenas o amor que perdeu seu caminho.”

 

 

“Imitação é a forma mais sincera de elogio.” (Quintiliano)

 

 

“Mas temos o momento perdido, porque é muito bom poder encontrá-lo; algum momento, momento bom, momento rápido, momento vagaroso, momento de dar um beijo, momento de ir para casa, momento imemorial... Que é uma das frases mais lindas do mundo. Sei que Rebecca Dew me acha um tanto infantil. Mas, ah, Gilbert, não sejamos velhos e sábios demais...”

 

 

“Ora, um homem só traz problemas, a meu ver, e o casamento é a mais incerta de todas as incertezas, mas o que mais uma mulher pode fazer?”

 

 

Ninguém é velho demais para usar o que deseja.”

 

 

Suponho que o universo seguirá seu curso se o deixarmos em paz.”

 

 

“– Há sempre algo prazeroso para se ver ou ouvir.”

 

 

– Bebês são criaturas fascinantes – disse Anne, divagando. – Ouvi alguém dizer em Redmond que eles são “magníficos pacotinhos de potencialidades”. Pense, Katherine, Homero já foi um bebê, um bebê com covinhas e grandes olhos brilhantes. Ele não era cego desde a infância, claro.

– Que lástima a mãe dele não saber que ele iria se tornar “O” Homero – disse Katherine.

– Mas estou contente pela mãe de Judas não saber de antemão que ele seria um Judas. Espero que não tenha chegado a descobrir.”

 

 

“Nada que valha a pena vem fácil.”

 

 

“Gilbert, querido, não tenhamos nunca medo das coisas, pois é uma escravidão pavorosa. Dancemos para receber a vida e tudo que ela pode nos oferecer, mesmo que isso acabe em um monte de problemas.”

 

 

“Luar sem alguém com quem compartilhá-lo, é apenas um falso brilho.”

De Martí a Fidel: a Revolução Cubana e a América Latina (Parte IV), de Luiz Alberto Moniz Bandeira

Editora: Civilização Brasileira

ISBN: 978-85-200-0866-9

Opinião: ★★★★☆

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Páginas: 798

Sinopse: Ver Parte I



Se era problemático para um presidente dos Estados Unidos levantar o embargo e defrontar-se com a comunidade cubana de Miami, conforme Carter ponderou, também Fidel Castro não tinha condições de abrir o regime e convocar eleições livres, em pleno “state of belligerence” que os Estados Unidos, desde 1961, mantinham contra Cuba, configurado pelo embargo e pela guerra secreta — sabotagens, tentativas de assassinato e outras ações terroristas, empreendidas durante muitos anos pela CIA —, no âmbito da qual um colaborador e agente, Luís Posada Carriles, em 6 de outubro de 1976, fizera explodir em pleno voo, em frente à costa de Barbados, um avião da companhia Cubana de Aviación, matando 73 pessoas.12 Com efeito, Cuba, a partir de 1960, fora forçada pelos sucessivos governos dos Estados Unidos a viver em permanente estado de guerra, e ao longo de quase cinco décadas, i.e., de 1960 a 2008, ocorreram 713 atos de terrorismo na ilha, 56 dos quais a partir de 1990, organizados e financiados a partir do território americano, com um saldo de 3.478 mortos e 2.099 incapacitados.13 Em 1992, fora organizada, dentro da Fundación Nacional Cubano-Americana (FNCA), uma estrutura clandestina, denominada Comisión de Seguridad, constituída por um grupo paramilitar de caráter terrorista. Depois se formou a Coordinación de las Organizaciones Revolucionarias Unidas (CORU) e, entre 1994 e 1996, ocorreu uma escalada de atentados. Alguns grupos, provenientes de Miami, infiltraram-se em Palo Quemado, Caibarién e outras regiões, com a missão de realizar sabotagens, e o grupo Alfa 66 promoveu três ataques contra o Hotel Guitart, em Cayo Coco, enquanto o Partido Unidade Nacional Democrática (PUND) atacava o Hotel Meliá Las Americas, em Varadero. Outrossim, outros grupos terroristas — Comandos F-4 denominados Patria y Libertad, Gobierno Provisorio en el Exilio — infiltraram-se nas províncias de Matanzas e Villa Clara para executar atentados e chegar às montanhas de Ecambray, quando mataram Arcelio Rodríguez Garcia, um trabalhador de 34 anos, pai de dois filhos. O objetivo era criar um clima de terror, que prejudicasse o fluxo de turismo para Cuba.”

12. Luís Posada Carriles é um dos mais famosos terroristas cubano-americanos. Como agente e colaborador da CIA, treinou na Guatemala os exilados cubanos que participaram da invasão da Baía dos Porcos, em 1961. Intentou várias vezes matar Fidel Castro e, em 6 de outubro de 1976, fez explodir em pleno voo, em frente à costa de Barbados, um avião da companhia Cubana de Aviación, quando morreram 73 pessoas, além de outros inumeráveis atentados a bomba. Consta que estava na Plaza Dealey de Dallas, em Houston, quando ocorreu o atentado contra o presidente John Kennedy, em 22 de novembro de 1963. Em entrevistas ao New York Times, confessou que fora treinado pela CIA e que a Fundación Cubano Americana, dirigida por Jorge Mas Canosa (1939-1997), financiava suas operações terroristas. Luis Posada Carriles e Orlando Bosch foram fundadores da CORU, o grupo terrorista mais ativo, sediado em Miami. Esteve preso no Texas, acusado de entrada ilegal nos Estados Unidos, mas foi solto logo depois.

13. Discurso de Raúl Castro en el Comité Central del Partido Comunista en 3/5/08. Sierra Maestra — Diario digital. La Habana, 30 abr (Prensa -Latina).

 

 

“Por volta de 1938-39, Leon Trotski, teórico marxista e, juntamente com Lenin, um dos dois principais líderes da revolução russa, concedeu ao líder sindical argentino Matheo Fossa uma entrevista na qual observou que, no Brasil, àquele tempo, havia um regime “semifascista” que qualquer revolucionário só podia considerar com ódio.1 Porém, ponderou que, em caso de uma guerra contra a Grã-Bretanha “democrática”, por exemplo, ele pessoalmente estaria ao lado do Brasil “fascista”, porque, segundo sua percepção, não se trataria de um conflito entre a democracia e o fascismo. Segundo Trotski, se a Inglaterra “democrática” vencesse, colocaria outro fascista no governo do Rio de Janeiro, então capital do Brasil, e ataria o país a uma dupla cadeia de opressão, ao passo que, se o Brasil triunfasse, a consciência nacional e democrática tomaria impulso e acarretaria a derrubada da ditadura.2 Esta ponderação de Trotski, exposta antes da Segunda Guerra Mundial, já mostrava a necessidade de rever os conceitos ideológicos tanto do fascismo quanto do comunismo, à luz da realidade econômica, social e política da América Latina, bastante diversa daquela existente na Europa, onde o comunismo e o nazifascismo, como ideologias, surgiram e se desenvolveram.

O Estado Novo — regime vigente no Brasil em 1938 e a que Trotski se referiu — não teve essencialmente um caráter fascista, pois, na verdade, constituiu uma ditadura burocrática que, sustentada pela repressão militar-policial, permitiu a execução de um projeto nacional de desenvolvimento capitalista, sob a égide do Estado a despeito da oposição de vários segmentos da própria burguesia e do conjunto do grande capital, predominantemente estrangeiro. Essa característica já o diferenciava dos regimes existentes na Alemanha e na Itália, cujo nacionalismo exprimia os interesses do grande capital em seus esforços de expansão. O mesmo se pode dizer em relação a outros regimes instalados na América Latina durante a Segunda Guerra Mundial e que os Estados Unidos acusaram de servir aos objetivos políticos e militares do Eixo. Suas bases de sustentação econômica e social eram diferentes daquelas a que os regimes de Hitler e Mussoline serviram na Alemanha e na Itália. Embora a América Latina, devido às suas origens coloniais, fosse a região no mundo que mais copiou as políticas da Europa continental,3 as ideias nazistas ou fascistas lá se entrelaçaram e se mestiçaram com tendências comunistas ou socialistas e adquiriram conotação de esquerda, na medida em que se amoldavam a outra realidade, em distintas circunstâncias, e passaram a exprimir anseios de subversão e mudança do status quo, representado, sobretudo, pelo predomínio dos capitais estrangeiros. O Foreign Office, da Grã-Bretanha, percebeu claramente que os golpes militares na Argentina e na Bolívia, durante a Segunda Guerra Mundial, não representavam clara ameaça de introdução do nazismo e do fascismo, mas antes a reemergência, em forma aguda, do nacionalismo, “que era endêmico e às vezes epidêmico em todos ou quase todos os países da América Latina”.4 Segundo a percepção dos policy makers britânicos, quando Cordel Hull, secretário de Estado, bem como outras autoridades do governo dos Estados Unidos, referiam-se à Argentina ou à Bolívia com os qualificativos de nazi e fascista, o que talvez eles temessem, realmente, não era a ação da Alemanha e da Itália e, sim, o julgamento de todos os países da América Latina contra a influência dos Estados Unidos, com a admiração pela “atitude independente” de Buenos Aires, a espraiar o nacionalismo através do continente.5

O nacionalismo nos países da América Latina, com efeito, desenvolveu-se em oposição, fundamentalmente, aos Estados Unidos, para os quais, desde os primórdios do século XIX, a expansão de seus interesses econômicos na América Latina jamais respeitou qualquer fronteira. A guerra contra o México e a conquista do Texas e do Arizona, na década de 1840, constituíram a primeira grande diástole dos Estados Unidos, cujo enriquecimento material exacerbou-lhes o expansionismo e a belicosidade. A tendência para o messianismo nacional, a ideia de povo eleito por Deus que o judaísmo legou aos puritanos, atualizou-se, americanizou-se e assumiu o nome de destino manifesto, movimento com que os Estados Unidos, na metade do século XIX, expandiram suas fronteiras até o Oceano Pacífico e tentaram apoderar-se, mediante expedições de flibusteiros, da América Central, bem como das ilhas do Caribe e até mesmo da Amazônia. No início do século XX, com a política do big stick do presidente Theodore Roosevelt, os Estados Unidos continuaram a intervir nos países da América Central e no Caribe, onde consideravam Cuba sua fronteira natural e apoderaram-se, inclusive, do Canal do Panamá, o que criou profundas contradições com os países da América Latina. Tais contradições manifestaram-se, outrossim, no conflito com o México, em 1915, gerando tantos ressentimentos e desconfianças, que o presidente Franklin D. Roosevelt teve que promover a política de boa vizinhança, a partir dos anos 1930.

Entretanto, não obstante Roosevelt começasse, por volta de 1944, a induzir os países das Américas Central e do Sul a restabelecer o regime democrático, a preocupação dos Estados Unidos, após a Segunda Guerra Mundial, não foi propriamente defender as liberdades políticas na América Latina, mas assegurar um clima favorável aos seus negócios e investimentos privados, bem como o acesso às fontes de matérias-primas, sobretudo petróleo. A modalidade de suas relações com os países do continente não se distinguiu da modalidade que caracterizou as relações dos grandes impérios com suas colônias. E da mesma forma que a União Soviética não tolerava eleições livres nos países do Leste Europeu sob seu domínio, porque os anticomunistas poderiam vencê-las, os Estados Unidos passaram a fomentar golpes de Estado e sustentar, igualmente, ditaduras, de modo a conservar sua hegemonia na região, impedindo que eleições livres levassem ali forças nacionalistas e antinorte-americanas, percebidas como comunistas, ao poder. E o nacionalismo latino-americano, tanto na Argentina como no Brasil, na Bolívia ou em qualquer outro país do hemisfério, acusado de constituir uma variante latino-americana do nazifascismo e servir às potências do Eixo, antes e durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), assumiu, dentro do contexto da confrontação bipolar do poder internacional que caracterizou a Guerra Fria, um caráter cada vez mais à esquerda, na medida em que se contrapôs à hegemonia dos Estados Unidos e passou a ser identificado, já no início dos anos 1950, com o comunismo. A expressão comuno-peronismo tornou-se usual para denominar a ideologia — o justicialismo — que o general Juan Domingo Perón tratou de difundir desde Buenos Aires. O Departamento de Estado norte-americano, em 1953, exigiu que a Argentina, a fim de que pudesse receber qualquer auxílio econômico ou financeiro, cessasse de divulgar o justicialismo através de suas embaixadas e dos adidos sindicais, por percebê-lo como “propaganda de linha comunista”, e abandonasse, na política exterior, a terceira posição, opondo-se inequivocamente ao comunismo e aos desígnios da União Soviética. Assim, o nacionalismo latino-americano, mesmo as correntes originárias de movimentos inspirados pelo nazifascismo, pareceu cada vez mais, naquela conjuntura, uma manifestação do comunismo, na medida em que obstaculizou as políticas liberais — livre circulação de mercadorias e capitais, conversibilidade monetária e multilateralidade no comércio, que os Estados Unidos tratavam de disseminar, mesmo antes da Segunda Guerra Mundial, a fim de expandir seus interesses econômicos. O Ministério das Relações Exteriores do Brasil, em memorando ao presidente da República sobre a revolução boliviana de 1952, observou que “o acontecimento em La Paz transcende o caráter de uma simples revolução sul-americana, de estilo clássico, para assumir contornos de um movimento de tendência nitidamente doutrinária, uma vez que se defrontam teses da esquerda e direita, se é que essas posições se extremam e não se confundem, tal é a semelhança por vezes entre ambas.”7

Também a Guatemala, àquele mesmo tempo, constituiu motivo de preocupação, pois os Estados Unidos alegavam que a União Soviética ali tentava exercer influência e promover a infiltração do comunismo. Entretanto, o embaixador do Brasil naquele país, Carlos da Silveira Martins Ramos, informou ao Itamaraty que “em Guatemala não há comunismo, Há comunistas, como em todas as partes do mundo, mas em número insignificante, sobretudo se comparamos com os que existem no Brasil, Chile, Cuba e até nos Estados Unidos (...)”.8 Ele acrescentou que a “animosidade” existente na Guatemala contra os Estados Unidos não era “nem maior nem menor” do que a que prevalecia em todos os países hispano-americanos e até mesmo em certos meios brasileiros.9

Naquela conjuntura, em que a Guerra Fria se intensificava, os Estados Unidos, durante os anos 1950, arremeteram contra os governos em vários países do Terceiro Mundo, utilizando a CIA como eficiente empresário de golpes de Estado e subversão, em um esforço para voltar à ordem mundial do passado, como Oswaldo Aranha previra.10 As lutas de libertação sofreram reveses, Mohamed Mossadegh, primeiro-ministro do Irã, foi deposto por um golpe de Estado, em 1953. O secretário de Estado norte-americano, John Foster Dulles, em 10 de junho de 1954, exortou a OEA a “ajudar o povo da Guatemala a livrar-se da maligna força do comunismo”,11 falando à Convenção Internacional do Rotary Club. E, na semana seguinte, mercenários, aliciados pela CIA, invadiram aquele país, forçando o presidente Jacob Arbenz a renunciar, em 28 de junho, em meio a um golpe de Estado comandado pelo próprio embaixador norte-americano, John Peurifoy. Vargas, para não ter que renunciar ou ser deposto, suicidou-se, em 24 de agosto de 1954, denunciando a “campanha subterrânea” dos grupos internacionais, que se aliaram aos grupos nacionais “revoltados contra o regime de garantia do trabalho”, e a “violenta repressão” sobre a economia brasileira, para obrigá-lo a ceder. Perón não resistiu no governo mais do que um ano. Apesar de que, com a política de abertura ao capital estrangeiro, conseguisse desacelerar a inflação, reerguer o salário real e, com a melhoria do balanço de pagamentos, estimular as atividades econômicas, a situação política na Argentina se deteriorava a tal ponto que, em 19 de setembro de 1955, ele teve que renunciar à presidência da República e refugiar-se na canhoneira Paraguai, após quatro dias de sangrenta rebelião conjunta da Marinha e do Exército.

Tais acontecimentos aguçaram os sentimentos anti-Estados Unidos na juventude da América Latina, que talvez fosse a região do mundo, fora da União Soviética, na qual o marxismo, modelando correntes de pensamento, mais se enraizara, em variadas interpretações, ou indo-americanas, como da APRA, ou europeístas. E Juscelino Kubitschek, presidente do Brasil, bem como as correntes nacionalistas da sua administração, perceberam que, em face da progressiva deterioração dos termos de intercâmbio — queda de preço das matérias-primas manufaturadas contra o aumento dos custos dos produtos manufaturados — tornara-se “extremamente difícil para um país subdesenvolvido acelerar seu processo de crescimento através dos métodos clássicos da livre empresa” e que a indiferença dos países industrializados do Ocidente diante dos problemas da América Latina contribuía “fortemente para aumentar a descrença nas formas democráticas de governo e estimular o recurso a soluções socia¬lizantes”.12

Entrementes, a imagem da União Soviética começara a assumir contornos mais positivos depois que o primeiro-ministro Nikita Kruchev, em 1956, denunciara os crimes de Stalin e admitira a teoria de que os outros povos poderiam chegar ao socialismo pela via pacífica. O lançamento do primeiro míssil balístico intercontinental (ICBM) e do primeiro satélite espacial, o Sputnik, que ela em 1957 promovera, concorreu para robustecer seu prestígio, pois, ao exibir sua capacidade de bombardear os Estados Unidos com bombas atômicas teleguiadas, evidenciou o alto nível alcançado pelo seu progresso científico e tecnológico. A percepção, amplamente disseminada não só no Brasil como em toda a América Latina, era de que as economias planificadas do chamado Bloco Socialista, graças à compressão dos níveis de consumo e ao maior volume de investimentos, sob rígido controle estatal, cresciam em ritmo mais acelerado do que as economias de mercado e que o PIB na União Soviética aumentava mais rapidamente que nos Estados Unidos.13 A assistência da União Soviética, inclusive indireta, através de outros países do Bloco Socialista, a países subdesenvolvidos passara de zero, em 1954, para um total de aproximadamente US$ 1,6 bilhão, ao fim de 1957, e seu comércio saltara de US$ 840 milhões para US$ 1,7 bilhão, no mesmo período.14 Estes dados, Kubitschek apresentou, em conferência para a Escola Superior de Guerra, em 26 de novembro de 1958, quando afirmou que a Operação Pan-Americana, por ele lançada com o objetivo de despertar o governo norte-americano para os problemas da região, representava, “precisamente, um protesto contra a desigualdade de condições econômicas neste hemisfério, uma advertência pública e solene no tocante aos perigos latentes no atual estado de subdesenvolvimento da América Latina”, que poderia aproximar-se dos países comunistas se os Estados Unidos não alterassem sua política.15 Conforme se lhe antolhava, o tipo de auxílio soviético, além do seu crescente volume, era de molde a atrair a simpatia dos países subdesenvolvidos, pois se caracterizava, em geral, pela concessão de vultosos empréstimos, a juros baixos, amortizáveis em mercadorias do país devedor, o que contornava o problema de divisas e oferecia, muitas vezes, a possibilidade de escoamento para produtos agrícolas de difícil colocação no mercado internacional.16

Nesse contexto, quando os sentimentos anti-Estados Unidos se exacerbavam na América Latina, a revolução em Cuba triunfou. Tanto Castro quanto Che Guevara previam e, até certo ponto, desejavam o enfrentamento com os Estados Unidos, que inevitável se lhes afigurava, na medida em que o governo revolucionário, ao ampliar a reforma agrária, atingisse suas empresas, como a United Fruit, proprietárias de grandes latifúndios e nos quais mais de 40% das terras permaneciam ociosas.17 Assim acontecera na Guatemala e esta síndrome condicionou suas atitudes, o que tornou a revolução cubana, mais do que um acontecimento nacional, um fenômeno latino-americano, ao refletir as contradições não solucionadas entre os Estados Unidos e o resto do hemisfério. Daí seu impacto e a imensa popularidade que alcançou. Efetivamente, as condições econômicas, sociais e políticas, específicas de Cuba, embora similares às de outros países do Caribe e da América Central, possibilitaram o sucesso das guerrilhas, a partir do foco instalado em Sierra Maestra. Mas foram as experiências da Bolívia e da Guatemala que constituíram o parâmetro e inspiraram a forma pela qual Castro e Che Guevara trataram de consolidar a revolução em Cuba. Che Guevara, amargando a facilidade com que o putsch contra Arbenz triunfara, sempre disse que “Cuba no será otra Guatemala”, o que repetiria, várias vezes, durante conversa com Jânio Quadros, quando este visitou Havana (abril de 1960), ainda como candidato à presidência do Brasil.18

Conquanto alguns dos seus dirigentes, como Ernesto Che Guevara e o próprio Fidel Castro, gestassem ideias marxistas, eles não eram filiados nem comprometidos com nenhum Partido Comunista, não obedeciam nem aceitavam as diretrizes políticas de Moscou e não era inevitável, por conseguinte, que a Revolução Cubana evoluísse para o stalinismo e sua forma de governo. Isto aconteceu na medida em que a União Soviética se afigurou a Fidel Castro e seus companheiros como a única opção internacional de apoio à defesa da soberania e da autodeterminação de Cuba, vis-à-vis das pressões postas pelos Estados Unidos, quando as primeiras medidas da reforma agrária alcançaram as propriedades da United Fruit Co. “The Soviet Union was one alternative power to which these radical nationalists could turn”, o politólogo norte-americano Cole Blasier, com toda a justiça, ponderou.19 E foi Eisenhower, em 1959-1960, que empurrou Castro na sua direção, ao cortar a cota do açúcar, suspender os fornecimentos de petróleo, manter o embargo para a compra de armamentos e organizar uma força de asilados para invadir Cuba e derrubá-lo. Com razão, outro cientista, Martin C. Needler, salientou que não era inevitável que a Revolução Cubana evoluísse a ponto de identificar-se com a doutrina comunista e sua forma de governo.20 Na verdade, conforme, com muita lucidez, ele observou, a União Soviética nunca aceitou completamente Castro como autêntico comunista e Castro só de forma irregular acompanhou a liderança da União Soviética na política internacional e introduziu novos elementos de discórdia no campo comunista, já dividido em várias facções.21 O conflito ideológico com a China, em que Mao Zedong acusava a União Soviética de revisionismo por defender a via pacífica para o socialismo, foi, entre outros fatores, o que levou Kruchev a sustentar, mais decididamente, o regime revolucionário de Fidel Castro, não obstante suas heresias. Se a União Soviética falhasse no apoio a Cuba, sua posição ficaria enfraquecida vis-à-vis à China, dentro do movimento comunista internacional, cuja hegemonia estavam a disputar.22 Na realidade, não foram os comunistas que se apossaram de Castro. Foi Castro que se apossou dos comunistas — Cole Blasier salientou.23

Em fins dos anos 1980, apenas dois dos antigos dirigentes do PSP — Blás Roca e Carlos Rafael Rodríguez — integravam o Bureau Político do Partido Comunista de Cuba. Por tais motivos, inter alia, não se pode analisar a Revolução Cubana sob o prisma do que se passou no Leste Europeu após a Segunda Guerra Mundial. Ela não decorreu de uma intervenção do Exército Vermelho ou de uma operação encoberta da KGB, no contexto do conflito Leste-Oeste, não constituiu uma consequência da Guerra Fria, na qual entretanto se inseriu, envolvendo a América Latina, devido, sobretudo, às contradições com os Estados Unidos, que a União Soviética tratou, naturalmente, de aproveitar em função dos seus interesses estratégicos, como no caso da instalação de mísseis balísticos, dentro de Cuba, no curso de 1962. Deste modo, ao contrário do que ocorrera na Europa, onde o governo soviético, a partir da direção de Stalin, oprimira as nacionalidades e, depois da Segunda Guerra Mundial, estendera seu domínio aos demais países do Leste, agressões à soberania de Cuba, desde os primeiros anos de sua independência, sempre partiram dos Estados Unidos. E a ameaça de invasão, reacendendo e agravando ressentimentos históricos, tornou-se permanente, após a vitória da revolução de 1959, e daí constituir um fator determinante na política interna e externa de Fidel Castro. Os Estados Unidos não lhe deixaram outra opção senão identificar-se mais e mais com o comunismo e sua forma de governo, a fim de assegurar o respaldo econômico, político e militar da União Soviética. E a singularidade de estar Cuba situada nas proximidades dos Estados Unidos e ser o único Estado comunista estabelecido na sua órbita de influência amplificou, mais do que nos países socialistas do Leste Europeu, os sentimentos antinorte-americanos, que se tornaram mais importantes do que o marxismo-leninismo como força na mobilização das massas diante da ameaça de intervenção militar estrangeira.24 Esta ameaça só não se consumou, depois da malograda invasão da Baía dos Porcos, porque o governo norte-americano, no início, não contou com o apoio dos maiores países da América Latina, sobretudo Brasil e México, temendo, posteriormente, não apenas a retaliação da União Soviética em Berlim Ocidental ou no Irã como o elevadíssimo custo em vidas norte-americanas, em virtude dos armamentos recebidos do Bloco Socialista e da resistência que o povo cubano, beneficiado pela revolução e solidário com Castro, ofereceria.

Esse antagonismo dos Estados Unidos, configurado sobretudo pela manutenção e endurecimento do embargo econômico, mesmo depois que a União Soviética se dissolvera, constituiu um dos fatores que continuaram a garantir a Castro o respaldo de amplas camadas da população cubana, apesar de todas as vicissitudes em que passaram a viver. Elas estavam conscientes de que o esbarrocamento abrupto do regime, como no Leste Europeu, não alteraria, substancialmente, a situação existente em Cuba. Antes, pelo contrário, havia certeza de que a crise poderia assumir outras e maiores dimensões quando os cubanos exilados, dos quais cerca de 60%, segundo se supunha, nem sequer queriam voltar a viver em Cuba, buscassem reaver de qualquer modo os privilégios e expulsar os ocupantes de suas propriedades, terras e casas, deflagrando, provavelmente, uma guerra civil em um país onde a escassez de alimentos e, inclusive, de moradia se evidenciava em toda parte e recursos não existiam, muito menos para novas construções. Por outro lado, os Estados Unidos demonstraram, tanto em face do Panamá quanto da Nicarágua, que também não tinham recursos ou não se dispunham a destiná-los para Cuba, mesmo que Castro deixasse o poder. O Panamá só recebera a insignificância de US$ 32 milhões, em fins de 1990, embora o governo norte-americano houvesse prometido uma ajuda de US$ 500 milhões, depois que suas tropas o invadiram, em dezembro de 1989, para prender o general Manuel A. Noriega. E para a Nicarágua, onde eleições se realizaram e Violeta Chamorro assumiu a presidência em abril de 1990, o Congresso norte-americano só aprovou um pacote de US$ 300 milhões depois que a violência voltara a irromper, em 1991, ameaçando a estabilidade da região.25

Por contar ainda com a confiança e o apoio de grande parte da população, Castro, em face da débacle do comunismo no Leste Europeu e das terríveis circunstâncias em que Cuba se precipitara, compreendeu que o melhor seria habilmente administrar, ele próprio, de forma vagarosa, gradual e segura, o retorno ao capitalismo. Este retrocesso se tornara inelutável. Castro pretendera mudar o modo de produção capitalista e saltar para o socialismo sem modificar a estrutura predominantemente agroexportadora do país e o padrão de sua inserção no mercado mundial, que se assentava na troca de commodities por manufaturas. O projeto de industrialização, animado, nos primeiros anos da revolução, sobretudo por Che Guevara, frustrou-se na medida em que Castro, sem poder jogar a “carta americana”, teve de sujeitar-se às imposições da União Soviética e Cuba integrou-se na comunidade econômica do Bloco Socialista, subordinando-se à divisão internacional do trabalho que o Conselho de Ajuda Mútua Econômica (COMECOM) planejava e estabelecia. Assim, o governo revolucionário, ao entrar em conflito com os Estados Unidos, naquele contexto de confrontação entre dois polos do poder mundial, apenas transferiu a dependência econômica de Cuba, de tipo neocolonial, dos Estados Unidos para a União Soviética, da qual continuou dependente, como simples fornecedora de açúcar. A grande contradição de Castro, ao defender a independência nacional de Cuba, foi deixar que a revolução enveredasse pelo caminho do socialismo dependente.

O socialismo real, imitação do modelo implantado por Stalin na extinta União Soviética, virtualmente acabou em Cuba. Castro tentou apenas salvar as aparências e, resguardando a educação e saúde como serviços públicos, que representaram conquistas democráticas da revolução de 1959, suavizar o desmoronamento do regime, montado ao longo de 36 anos, a fim de não perder o controle sobre os acontecimentos e a honra, valor muito importante para ele. O embargo econômico dos Estados Unidos concorreu para ampliar a crise desencadeada pelo desaparecimento do Bloco Socialista, conquanto nada indicasse que seu fim pudesse aliviar sensivelmente a situação de Cuba, dado que não melhoraria o preço do açúcar, detendo a deterioração dos termos de intercâmbio de commodities por produtos industriais, nem baratearia o custo do petróleo no mercado internacional. Esse bloqueio, desumano e, até certo ponto, politicamente inócuo, na medida em que não conseguira, em 40 anos, provocar a queda do regime comunista, só serviu como pretexto para que Castro justificasse a manutenção da ditadura, por existir um estado latente de beligerância com os Estados Unidos, bem como os erros que cometera, ao consentir que a excessiva identificação com a União Soviética terminasse por influir de forma decisiva sobre os rumos da revolução, levando-a a perder as características renovadoras e libertárias, latino-americanas, de que se revestira nos primórdios. O fato de que ele, ao longo de 40 anos, manteve o poder, apesar de tudo, inclusive invasão, sabotagens e tentativas de assassinato, que os Estados Unidos engendraram, constituiu, por si, seu grande triunfo. E, conquanto provavelmente o regime comunista tivesse condições de resistir às pressões domésticas e internacionais e sobreviver, mesmo formalmente, uma vez levantado o embargo econômico dos Estados Unidos, o prestígio com que Castro ainda contava sem dúvida favoreceria sua vitória, em qualquer eleição, com liberdade dos partidos políticos. De qualquer modo, ao radicalizar-se, ainda que compelida pela dinâmica dos conflitos com os Estados Unidos, e exceder-se a si própria, afoitando-se além das condições materiais e das reais possibilidades políticas do país, o que a Revolução Cubana promoveu, não obstante alguns dos seus feitos, como a melhoria dos níveis de saúde, baixando significativamente a taxa de mortalidade infantil, e a eliminação do analfabetismo, foi a socialização da pobreza, uma vez que a riqueza lá concentrada era pouca e a produtividade caíra. De 1959 a 1997, a diferença entre os que muito possuíam, os ricos, e os que nada tinham, praticamente, desaparecera em Cuba. Igualitarismo havia. Todos empobreceram. A escassez e o sacrifício foram solidariamente distribuídos pela população, submetida às mais severas restrições, sem liberdades políticas. Entretanto, a situação em que Cuba se abismara, após o desmerengamiento da União Soviética e dos regimes comunistas nos demais países do Leste Europeu, comprovou, mais uma vez, que toda tentativa de liquidar as diferenças de classe e implantar o socialismo, antes de que o desenvolvimento das forças econômicas elevasse a oferta de bens e serviços em quantidade e qualidade, a níveis de abundância, não podia ter consistência e acarretaria consigo não só o estancamento como, inclusive, a decadência do modo de produção e da sociedade, conforme o próprio Friedrich Engels advertira, na segunda metade do século XIX.26 Cuba, entretanto, pôde recuperar-se, na medida em que promoveu, ainda que timidamente, algumas reformas, abrindo a economia aos capitais estrangeiros, e contou, no início do século XXI, com o apoio solidário da Venezuela, sob o governo do presidente Hugo Chávez, e com os investimentos da China, a emergir como superpotência econômica e como outro polo internacional de poder.”

1. Trotski, Escritos, Tomo X, 1938-1939, 1976, pp. 39-42.

2. Id., ibid., pp. 39-42.

3. Payne, A History of Fascism — 1914-1945, 1995, p. 340.

4. Minuta de P. Mason, 14/1/1944, File AS130, Public Record Office, Foreign Office, 371 37698. Minuta do lorde Halifax, Telegrama do Foreign Office, Washington, 15/1/1994, File 294, Public Record Office, Foreign Office 371 37698.

5. Id.

6. Memorandum for the Presidem, Subject: “Current Status of U.S. — Argentine Relations”, secret security information, 5/3/1953, a) Walter B. Smith, Eisenhower Library.

7. Memorando ao presidente da República, secreto, Ministério das Relações Exteriores, Rio de Janeiro, 29/4/1952, cópia, ibid.

8. Ofício nº 221, secreto, embaixador Carlos da Silveira Martins Ramos ao chanceler Raul Fernandes, Guatemala, 26/8/1950, AHMRE-B MDB, secretos, A-K, Ofícios recebidos, 1950-57.

9. Id.

10. Carta de 2/12/1952, Aranha a Vargas, Washington, Pasta de 1952, AGV.

11. Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 11/6/1954.

12. Instruções à delegação do Brasil ao Comitê dos 21 — Setor Econômico, minuta, s/d. 960.3 — Pan-Americanismo — A-B. AMRE-B.

13. Ibid.

14. Ibid.

15. Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 27/11/1958 e 28/11/1958.

16. Ibid. Mais detalhes sobre o tema, vide Moniz Bandeira, L. A., 1973, pp. 380-390.

17. Discurso de Raúl Rosa na ONU, 18/7/1960, in Castro et al., 1981, p. 173.

18. O Autor, na época, assistiu ao diálogo de Che Guevara, então presidente do Banco de Cuba, com Jânio Quadros, ao qual o embaixador do Brasil em Havana, Vasco Leitão da Cunha, o escritor Rubem Braga e outros estiveram presentes. Posteriormente, o Autor encontrou Guevara outras vezes e manteve com ele longa conversação de quatro horas, em julho de 1962, no Ministério da Indústria.

19. Blasier, The Giant’s Rival, 1989, p. 134.

20. Needler, The United States and the Latin American Revolution, 1977, p. 33.

21. Id., ibid., p. 34.

22. White, The Cuban Missile Crisis, 1996.

23. Blasier, The Giant’s Rival, 1989, p. 106.

24. Thomas, The Cuban Revolution: 25 Years Later, 1984, p. 19.

25. Cardoso & Helwege, Cuba after Communism, 1992, pp. 97-98.

26. Engels, F. “Soziales aus Rußland”, in Marx & Engels, 1976, p. 39.

De Martí a Fidel: a Revolução Cubana e a América Latina (Parte III), de Luiz Alberto Moniz Bandeira

Editora: Civilização Brasileira

ISBN: 978-85-200-0866-9

Opinião: ★★★★☆

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Páginas: 798

Sinopse: Ver Parte I



“(...) Tais gestões não puderam avançar. No dia 22 de novembro de 1963, enquanto em Cuba Fidel Castro almoçava com Jean Daniel, retomando a conversação (que se iniciara em 19 de novembro) sobre a possibilidade de reabrir o diálogo com os Estados Unidos, Desmond Fitzgerald, responsável pelas operações clandestinas, entregava a Rolando Cubela Secades, em Paris, uma caneta com um dardo envenenado para que fosse disparado contra ele. Entretanto, coincidentemente, foi Kennedy que, naquele dia, tombou em Dallas, assassinado.120 Segundo o jornalista Tad Szulc, o projeto AM/LASH fora tão sigilosamente mantido pela CIA, que nem mesmo Kennedy soubera de sua existência.121 E tanto Dean Ruk quanto McGeorge Bundy, ao prestarem, posteriormente, depoimento perante o Senado norte-americano, julgaram difícil que Kennedy autorizasse o uso de um estratagema para assassinar Fidel Castro, enquanto Attwood realizava gestões com o objetivo de normalizar as relações de Cuba com os Estados Unidos. Difícil, na verdade, não era. Pelo contrário. Não declarara o próprio Kennedy, quando a CIA articulava o golpe contra Leónidas Trujillo, na República Dominicana (1961), que os Estados Unidos, “as a matter of general policy, could not condone assassination”?122 Não autorizara o golpe de Estado contra Ngo Dinh Diem, presidente do Vietnã do Sul, assassinado em 2 de novembro, três semanas antes de sua própria morte, porque ele começara a estorvar os planos dos Estados Unidos e entrara em negociações secretas com o Vietnã do Norte?123 Por que não haveria de autorizar o assassinato de Castro? Se soubera e encorajara os entendimentos da CIA com Sam Giancana, John Rosseli e outros chefes da Máfia, por que não haveria de autorizar o complô com Rolando Cubela, que era um funcionário do governo cubano, seu representante na UNESCO e com acesso a Fidel Castro?124 Além do mais, muito provavelmente Desmond Fitzgerald não se apresentaria a Rolando Cubela como representante pessoal de Robert Kennedy, se este não o tivesse autorizado, o que significava o conhecimento do presidente. E tanto Kennedy não via incompatibilidade entre a via das negociações e o complô para matar Castro, que as incursões contra Cuba, a partir da Flórida, continuaram no mês de novembro, quando o governo cubano apresentou na televisão três invasores, que confessaram serem pagos, armados e dirigidos pela CIA, e as inundações, provocadas por um ciclone, permitiram a descoberta de grandes depósitos de armas no litoral.125 Assim, não obstante Castro haver revelado ao embaixador Luís Bastian Pinto que Kennedy, nas suas últimas semanas de vida, já demonstrara mudança de atitude em relação a Cuba, talvez porque reconhecesse que ela se tornara muito mais forte, política e economicamente, tanto ao nível interno quanto externo, o fato era que o ambiente de extrema tensão, lá, permanecera, em face dos frequentes desembarques de contrarrevolucionários, levando o governo a anunciar numerosos fuzilamentos de “agentes da CIA”.126

120. U.S. Senate — Alleged Assassination Plots Involving Foreign Leaders, pp. 173, 174 e 176.

121. Ibid., pp. 174-176.

122. U.S. Senate — Alleged Assassination Plots Involving Foreign Leaders, p. 205.

123. Ibid., pp. 217-223 e 261-262. Hersh, 1997, p. 412.

124. Rolando Cubela era um médico que chefiara o contingente guerrilheiro do Directorio Revolucionario nas montanhas da região central de Cuba durante a campanha contra Batista. Ele desfrutava da confiança do governo cubano e fora nomeado representante especial de Cuba junto à UNESCO, em Paris. Lá, a CIA o contatou. A conspiração prosseguiu mesmo após a morte de Kennedy. Szulc, 1987, pp. 59-60.

125. Telegrama nº 267, confidencial, da embaixada do Brasil em Havana (Bastian Pinto), 4-5/11/1963 — 12h30. Telegramas — Recebidos — Havana — 1962-1964. AHMRE-B.

126. Telegrama nº 273, confidencial-urgente, da embaixada do Brasil em Havana (Bastian Pinto), 12-13/11/1963. Telegramas— Recebidos — Havana — 1962-1964; Telegrama nº 295, secreto — urgente, da embaixada do Brasil em Havana (Bastian Pinto), 8-9/12/1963. CTs. — Telegramas — Recebidos — Havana — 1962-1964. Ibid.

 

 

Desde a visita de Castro a Moscou em abril de 1963, as relações de Cuba com a União Soviética desenvolveram-se com relativa tranquilidade, apesar das numerosas diferenças ideológicas e em questões de política internacional.1 A União Soviética, em posição defensiva diante da China e dos Estados Unidos, depois da crise dos mísseis, nada pôde fazer, senão aceitar a independência com que Castro e Guevara implementavam uma política própria, próxima da linha chinesa, ao fomentar a luta armada e os chamados movimentos de libertação nacional, não só na América Latina como na África. Cuba, porém, já lhe custava compromissos de crédito no valor de US$ 300 milhões, mais cerca de US$ 750 milhões de déficit no seu balanço de pagamentos, não lhe interessando, portanto, que outros regimes revolucionários se instalassem na América Latina.2 Assim, os dirigentes do Kremlin, a fim de isolar a China, instaram Castro a reunir-se com os partidos comunistas latino-americanos, que sempre funcionaram como cadeia de transmissão das diretrizes de política exterior da União Soviética, e alcançar um termo de compromisso que acomodasse o apoio à luta armada com a doutrina da coexistência e da via pacífica para o socialismo. A reunião ocorreu em Havana, entre novembro e dezembro de 1964, após a queda de Kruchev, e seu resultado foi profícuo tanto para a União Soviética como para Cuba. Castro obteve, de um lado, uma adesão mais explícita e consistente dos partidos comunistas ortodoxos, mas, por outro, comprometeu-se, a partir daí, a entregar-lhes a coordenação dos movimentos de inspiração castrista, emergentes em vários países da América Latina, com o objetivo de formar amplas frentes políticas e de amplitude continental. A reunião, demonstrando que, ideologicamente, tanto a União Soviética podia influenciar Cuba quanto Cuba tinha condições de modificar a atitude da União Soviética, em face do cisma dentro do chamado campo socialista, terminou então com a emissão de comunicado, de caráter conciliatório, que, embora admitisse a luta armada em seis países (Venezuela, Colômbia, Guatemala, Honduras, Paraguai e Haiti), reconhecia a possibilidade do caminho pacífico no resto da América Latina e condenava enfaticamente as “polêmicas públicas e atividades fracionalistas”, em clara alusão às dissidências que a China se empenhava em promover nos partidos comunistas.

Che Guevara estranhamente não participou da reunião, cujo objetivo, inter alia, foi conter Cuba, de um lado, e consolidar, do outro, uma frente única dos partidos comunistas latino-americanos contra a China, antes da conferência comunista internacional, a realizar-se em Moscou, em 1º de março de 1965. Ele, decerto, discordava daquele tipo de entendi­mento, que implicava o sacrifício de princípios doutrinários. Suas relações com os partidos comunistas latino-americanos, em virtude das divergências sobre a luta armada e do seu apoio a outras correntes revolucionárias não comunistas, tornaram-se extremamente tensas no curso de 1963 e 1964. A tentativa de implantar um foco de guerrilha em Salta, norte da Argentina, sob o comando do jornalista Jorge Massetti e com recrutas trotskistas,3 bem como a aliança com John William Cooke e a esquerda do peronismo antagonizaram-no com Vitório Codovilla e Rodolfo Ghioldi, dirigentes do Partido Comunista naquele país. Guevara também já se afastava das atividades tanto administrativas quanto políticas em Cuba. No início do ano, tivera de frear o esforço de industrialização, anunciando um plano de investimentos (US$ 180 milhões) inferior 18% ao do ano anterior, devido ao imenso déficit no balanço de pagamento com a União Soviética.4 Em julho, perdera o controle sobre a indústria do açúcar, o maior e mais importante segmento da economia cubana, para a qual Castro criou um ministério autônomo, e sua influência sobre a condução da economia, concomitantemente, diminuiu com a substituição de Regino Boti no Ministério da Economia pelo presidente Oswaldo Dorticós, que também assumira a direção da JUCEPLAN. E em novembro, às vésperas dos preparativos para a reunião dos partidos comunistas da América Latina, Guevara partira para Moscou, onde assistiu ao desfile do dia 7, comemorativo do 47º aniversário da revolução russa, na Praça Vermelha. Fora seu primeiro contato com os dirigentes do Kremlin depois da crise dos mísseis, mas sua percepção do socialismo real, tal como existente no Bloco Soviético, já se revelava profundamente crítica. Ele concluíra que os países da Europa Ocidental, apesar do que se dissesse, estavam a avançar em ritmo superior ao dos países da chamada democracia popular.5 E constatara que a fraqueza do soi-disant campo socialista decorria não apenas do magro potencial econômico, mas também da perversão do regime na União Soviética e nos países do Leste Europeu.6 No entender de Che Guevara, o pensamento na União Soviética, governada por uma gerontocracia, esclerosara-se, perdera o vigor intelectual e cultural.7La investigación marxista avanza en un camino peligroso”, Guevara certa vez observou, acrescentando: “Al dogmatismo intransigente da época de Stalin le ha sucedido un pragmatismo inconsistente. Y lo trágico es que lo mismo ocurre en todos los aspectos de los pueblos socialistas”.8 Guevara considerava também muito difícil a situação em Cuba, apesar da aparente pausa do sectarismo e a crise do Caribe.9 E, a contrastar com o otimismo de Castro, tinha uma visão bastante sombria da situação internacional e, em especial, da América Latina, onde, no dia em que embarcara para Moscou, um golpe de Estado derrubara o presidente Victor Paz Estenssoro e instalara uma junta militar, sob a presidência do general René Barrientos, homem vinculado à CIA desde 1960. Ele não via alternativa a não ser a luta armada para a libertação dos povos do Terceiro Mundo, mas se dava conta de que a União Soviética, não podendo dar a Cuba, um país pequeno, uma ajuda suficiente, não teria condições de sustentar um país como o Brasil, se ali uma revolução socialista ocorresse.10

Em Moscou, onde demonstrou alguns desacordos com os soviéticos, Guevara soube que o apontavam como trotskista.11Yo he expressado opiniones que pueden estar más cerca del lado chino (...) y también lo de trotskismo surge mezclado”, comentou e, aludindo sarcasticamente ao hábito de baeta amarela e verde que os réus da Inquisição vestiam pela cabeça, à moda de saco, nos autos-de-fé, aduziu que “dicen que los chinos son fraccionalislas y trotskistas y a mi también me meten el sambenito”.12 Segundo Kiva Maidanik, especialista em América Latina no PCUS, os dirigentes do Kremlin, sobretudo Brejnev, não simpatizavam com Che Guevara, não por ser ele favorável à linha chinesa, mas por seu suposto trotskismo, e molestavam-se com o “elemento antiburocrático vibrante” no seu pensamento.13 Como resultado de sua segunda viagem à União Soviética, de acordo com Paco Ignacio Taibo II, Guevara começou a modificar suas ideias sobre Trotski e o trotskismo, por entender que não se podiam destruir opiniões a pauladas, pois isso matava o desenvolvimento da inteligência, e que estava “claro que del pensamiento de Trotski se pueden sacar una série de cosas”.14 Que coisas, não disse. Mas o fato era que realmente as concepções de Guevara, quanto à permanência da revolução, seu caráter socialista e internacional, mesmo nos países atrasados e coloniais e semicoloniais, assemelhavam-se mais com as teorias de Trotski do que com as difundidas pelos partidos comunistas, que, modelados pelo stalinismo, defendiam a colaboração com a chamada burguesia progressista e o caminho pacífico para o socialismo, conforme as diretrizes da União Soviética, empenhada em sofrear a corrida armamentista e expandir suas relações comerciais, de modo a melhorar os níveis de vida do seu povo, e não em propagar qualquer tipo de revolução, quer na Europa, quer no Terceiro Mundo. Segundo D. Bruce Jackson, do Washington Center of Foreign Policy Research, da Johns Hopkins University, o segundo homem no movimento revolucionário de Castro, Che Guevara, foi, ao menos parcialmente, influenciado pelas ideias trotskistas e reivindicado como amigo pelos trotskistas em Cuba e no resto da América Latina.15 Mas, enquanto ele tendeu para o trotskismo, com a crença de que só seria possível promover e sustentar a construção do socialismo em Cuba mediante a abertura de novas frentes revolucionárias no Terceiro Mundo, Castro, concentrando-se nos problemas do país, orientou-se cada vez mais na direção da União Soviética.16

Àquela época, fins de 1964, Guevara, embora reconhecesse, por um lado, que fora um erro menosprezar a agricultura, rechaçava, por outro, a reconcentração dos esforços na produção de açúcar, tal como a União Soviética induzira Castro, e não se resignava com o abandono dos projetos industriais, entre os quais a instalação do complexo siderúrgico, nem com o fato de que a Cuba se reservasse o destino de país monoprodutor e especializado. Muito provável era que, desiludido, já então estivesse a amadurecer a ideia de abandonar o Ministério da Indústria para dirigir a luta revolucionária em outro país,17 talvez a Argentina, onde Jorge Ricardo Massetti, o comandante Segundo, a quem ele encarregara de instalar um foco de guerrilha, desaparecera, liquidado pelas forças de repressão. Tanto isto é certo que, depois de retornar da União Soviética, permaneceu menos de um mês em Cuba, onde, aparentemente, não participou da conferência dos 22 partidos comunistas latino-americanos e, na Província de Oriente, fez um discurso, exaltando a luta armada, ao ressaltar que Cuba demonstrara “como se hacer una revolución al lado, en las fauces del imperialismo yanqui, y, no solo hacer, declarar socialista la revolución, y no declararla de palabras, declararla expropiando a los explotadores”.18 Menos de 10 dias depois, em 9 de dezembro, ele voltou a viajar, desta vez para Nova York, como chefe da delegação cubana à 19ª Assembleia-Geral da ONU, evidenciando que, não obstante as concessões à União Soviética e aos partidos comunistas ortodoxos, Castro continuava solidário com a sua linha de pensamento, favorável a uma política revolucionária, mais agressiva, nos países do Terceiro Mundo. Lá, no dia 11 dezembro, Che Guevara perante o plenário, fez um pronunciamento, no qual declarou, peremptoriamente, que, “como marxistas, hemos mantenido que la coexistencia pacífica entre naciones no engloba la coexistencia pacífica entre exploradores y explotados, entre opresores y oprimidos”.19 E não apenas mostrou sua preocupação com as lutas no Vietnã, no Laos e no Congo, mostrando sua indignação com o massacre realizado em Stanleyville pelas tropas da Bélgica,20 como, ao responder ao representante da Nicarágua, revelou a intenção de prosseguir na luta, em qualquer parte do continente, dizendo:

He nacido en la Argentina; no es secreto para nadie. Soy cubano y también soy argentino y, si no se ofenden las ilustríssimas señorias de Latinoamérica, me siento tan patriota de Latinoamérica, de cualquier país de Latinoaméríca, como el que más e, en momento que fuera necesario, estaría dispuesto a entregar mi vida por la liberación de cualquiera de los países de Latinoamérica, sin pedirle nada a nadie, sin exigir nada, sin explotar a nadie.21

1. Erisman, Cuba’s International Relations, 1985, p. 27.

2. Duncan, The Soviet Union and Cuba, 1985, pp. 56-57.

3. Castañeda, La Vida en Rojo — Una Biografia del Che Guevara, 1997, p. 305. Anderson, Che Guevara — A Revolutionary Life, 1997, p. 596.

4. Taibo II, Ernesto Guevara, también conocido como el Che, 1997, p. 482.

5. Id., ibid., p. 497.

6. Cormier, Che Guevara (Nouvelle édition augmentée), 1997, p. 325.

7. Id., ibid., p. 325.

8. Apud Kalfon, Che — Ernesto Guevara, una leyenda de nuestro siglo, 1997, p. 419.

9. Castañeda, 1997, p. 306.

10. Cormier, 1997, p. 325.

11. Taibo II, 1997, p. 497. Anderson, 1997, p. 596. Castañeda, 1997, pp. 359-360.

12. Taibo II, 1997, p. 497. Kalfon, 1997, p. 421.

13. Gilbert, 1994, p. 60.

14. Taibo II, 1997, pp. 497-498.

15. Jackson, Castro: The Kremlin and Communism in Latin America,1969, p. 11. Embora, quando mais jovem, demonstrasse muitas vezes admiração por Stalin, Che Guevara contou a Luís Simón, universitário que passara algum tempo com ele na serra, durante 1948, que fora trotskista na Argentina. Castañeda, 1997.

16. Liss, Marxist Thought in Latin America, 1984, pp. 259-260.

17. Gambini, El Che Guevara, 1968, p. 419.

18. El 30 de Noviembre de 1956, discurso en homenage a la fecha al inaugurarse un combinado industrial en Santiago de Cuba, el 30 de noviembre de 1964, in Guevara, 1991, vol. 11, pp. 638-651.

19. En la XIX Asamblea General de las Naciones Unidas: Discurso y contrarréplica, in Guevara, 1991, vol. II, pp. 541-571.

20. Em 30 de junho de 1960, o Congo belga (Léopoldville) obteve sua independência, e Patrice Lumumba, nacionalista, assumiu o governo. Pouco tempo depois, o Exército amotinou-se e a Bélgica interveio, permitindo que um fantoche, Moise Tshombe, proclamasse, por sua conta, a independência de Katanga, região ao sul do país, onde a União Mineira, representante dos mais poderosos interesses belgas, estava instalada. As tropas da ONU, que lá intervieram, protegeram os interesses separatistas, que os Estados Unidos favoreciam. Em setembro de 1960, Mobutu, um antigo sargento elevado a coronel, prendeu Lumumba, o que levou alguns de seus ministros a formar um governo leal em Stanleyville, ao norte do país. Golpeado e torturado, Lumumba foi entregue, em 1961, a Tshombe, que mandou executá-lo, com a cumplicidade da CIA. Desde então a luta não cessou. Em 1963, Pierre Mulele, antigo ministro de Lumumba, iniciou uma guerra revolucionária em Kwilu, a oeste, e Gastóns Soumialot, em 1964, assumiu o controle desse país e organizou em Stanleyville a República Popular do Congo. Tshombe, nomeado primeiro-ministro por obra de Mobutu, lançou seus homens contra Stanleyville, contando com o apoio de aviões norte-americanos, pilotados por exilados cubanos, que a CIA treinara.

21. En la XIX Asamblea General de las Naciones Unidas: Discurso y contrarréplica, in Guevara, 1991, vol. II, p. 562.

 

 

“Os Estados Unidos atravessavam então gravíssima crise política e moral, em virtude não apenas da derrota na guerra do Vietnã, contra a qual, internamente, os mais intensos e disseminados protestos começaram a ocorrer desde que, em 1970, as tropas norte-americanas invadiram o Camboja. Também abalou os Estados Unidos o escândalo, que provocara a renúncia de Nixon (1974) em meio a um processo de impeachment em curso no Congresso, ao descobrir-se que alguns agentes da CIA invadiram o Hotel Watergate, sede do Partido Democrata em Washington, na campanha eleitoral de 1972 e que a Casa Branca utilizava as agências de segurança nacional e inteligência (FBI e CIA) na política interna. Esse episódio levou o Senado norte-americano a instaurar uma comissão de inquérito, sob a presidência do senador Frank Church (Idaho), para investigar as operações de inteligência do governo. Seus trabalhos revelaram não apenas que, desde 1970, a CIA, por ordem de Nixon, começara a organizar o golpe de Estado contra o governo do presidente Salvador Allende, considerado inaceitável para os Estados Unidos,6 como participara, ao tempo de Kennedy, dos assassinatos de Leónidas Trujillo (República Dominicana), de Patrice Lumumba (Congo), do general Ngo Dinh Diem e de seu irmão (Vietnã do Sul), bem como de pelo menos oito complôs para matar Fidel Castro, entre 1960 e 1965.7

6. A preparação do golpe militar começou em 1970, por instrução direta de Nixon a Richard Helms, diretor da CIA, visando a impedir a posse de Allende na Presidência do Chile, para a qual fora então eleito. O general René Schneider, comandante-em-chefe das Forças Armadas, opôs-se à conspiração e foi assassinado pela CIA. U.S. Senate, Alleged Assassination Plots Involving Foreign Leaders, pp. 225-254.

7. Em 1975, Castro entregou ao Senador George McGovern uma lista com 24 tentativas de assassiná-lo nas quais a CIA esteve envolvida. A CIA negou envolvimento em quinze. Ibid., p. 71n.

 

 

Cuba, àquela época, sofreu premente necessidade de divisas, não apenas porque sua dívida externa com os bancos privados internacionais, estabilizada em US$ 3,6 bilhões no início dos anos 1980, saltara para US$ 4,7 bilhões em 198664 e, com a União Soviética, atingira 7,5 bilhões de rublos, mas também porque a cotação do açúcar no mercado mundial, no qual vendia entre 10% e 40% de sua produção, despencara de 27 cents, em 1980, para 4 cents, no meio da década, e ela nem podia obter novos financiamentos e não dispunha senão de US$ 650 milhões, contra US$ 1,5 bilhão em 1984, para pagar as importações que fazia do Ocidente.65 Essa escassez de divisas provavelmente determinou a campanha de “rectificación de errores y tendencias negativas”, visando a obter mais austeridade interna e disciplina de trabalho, mas a escalada da dívida externa em divisas, cujo pagamento do serviço Cuba suspendera em 1986, continuou e atingiu o montante de US$ 6,2 bilhões.66 No começo de 1988, ela tinha atrasos acumulados no valor de 2,1 bilhões de pesos (o peso, sobrevalorizado, tinha oficialmente cotação ao par com o dólar) no principal e 360 milhões de pesos nos juros. Um adicional de 1,2 bilhão de pesos no principal e 505 milhões de pesos em juros somou-se àquele montante em 1988, quando o total das obrigações do serviço da dívida subiu para 4,18 bilhões de pesos, levando Cuba a requerer do Clube de Paris a extensão do prazo de pagamento para 15 anos, com cinco de carência.67 Entre 1986 e 1990, Cuba recebeu da União Soviética empréstimos no total de US$ 11,6 bilhões (US$ 8,2 para cobrir os déficits comerciais e US$ 3,4 bilhões em ajuda ao desenvolvimento) e sua dívida com os soviéticos subiu para US$ 24,5 bilhões.68 Entretanto, sem os recursos do Banco Mundial ou do Fundo Monetário Internacional, Cuba teve de cortar drasticamente suas importações em moeda forte, impor um programa de austeridade e reduzir o crescimento planejado de 5% para entre 1% e 1,5%,69 em 1988, com o que a disponibilidade de bens de consumo piorou cada vez mais.

A União Soviética estava a enfrentar o mesmo problema. Trotski, já em 1930, observara que o ponto fraco da economia soviética, além do atraso que herdara do passado, consistia no isolamento, dado que ela não podia aproveitar os recursos da economia mundial, nem de acordo com os princípios socialistas, nem mesmo de acordo com os princípios capitalistas, sob a forma de crédito internacional normal, de financiamento, cuja importância era decisiva para os países atrasados.70 As crises agudas que afetavam a economia soviética, Trotski advertira, lembravam que as forças produtivas criadas pelo capitalismo não podiam adaptar-se à moldura nacional e só podiam ser coordenadas e harmonizadas de forma socialista em um plano internacional. Essas crises, ele acrescentou, representavam “algo infinitamente mais grave do que as moléstias infantis ou de crescimento”: elas constituíam “severas advertências” do mercado internacional, ao qual a União Soviética estava subordinada e ligada e do qual não podia separar-se.71 Conforme sua previsão, se uma revolução política não ocorresse e a democracia, com plena liberdade dos sindicatos e dos partidos políticos, não fosse restabelecida na União Soviética, a restauração da propriedade privada dos meios de produção tornar-se-ia ali inevitável e a nova classe possuidora, para a qual as condições estavam criadas, encontraria seus servidores entre os burocratas, técnicos e dirigentes, em geral, do Partido Comunista.72

A Segunda Grande Guerra (1939-1945), não obstante os imensos danos que causara à União Soviética, aliviou-lhe de certo modo as dificuldades, ao possibilitar que incorporasse ao seu espaço econômico os países do Leste Europeu e se impusesse como potência política e militar, à frente do chamado Bloco Socialista. E o que a orientara, prevalecendo sobre quaisquer considerações revolucionárias e internacionalistas, fora seu próprio interesse nacional, o interesse do Estado soviético, racionalizado pela teoria do socialismo em um só país, segundo a qual tudo o que se fizesse para defendê-lo e fortificá-lo favoreceria a causa do proletariado mundial. O socialismo real, tal como existente na União Soviética e nos países do Leste Europeu, pretendia constituir não uma via de distribuição da riqueza, produzida pelo capitalismo de forma excludente e discriminatória, de acordo com a concepção de Marx, mas uma política de desenvolvimento, seduzindo mais os povos dos países atrasados do que o proletariado das potências industriais, em virtude do apelo nacionalista ou anti-imperialista de que se revestira. Contudo, a tentativa de implantar o socialismo, mediante a estatização dos meios de produção e a planificação da economia, em países atrasados, de escassa industrialização ou onde não havia riqueza para distribuir, estava, naturalmente, destinada ao fracasso, em consequência de suas contradições internas e externas. De um lado, a burocratização do sistema produtivo e a equalização social impediam a acumulação de capital necessário ao esforço de desenvolvimento econômico. Por outro, não obstante o estabelecimento de sua própria comunidade econômica — o CAME/COMECON —, com um sistema monetário internacional próprio e submetendo o comércio a acordos de longo prazo, conforme os planos quinquenais, a União Soviética e os países do chamado Bloco Socialista jamais se libertaram do mercado mundial, que não deixara de funcionar segundo as leis do capitalismo. Era inevitável, portanto, que suas economias sofressem igualmente as consequências da depressão que o abatera no início dos anos 1970, quando Nixon, diante das dificuldades enfrentadas pelos Estados Unidos, desvinculou o dólar do padrão-ouro, iniciando a demolição do sistema monetário que os acordos de Bretton Woods estabeleceram, e as regras para o manejo das taxas de câmbio foram abandonadas, no início de 1973.

Como resposta, os países exportadores de petróleo, agrupados desde 1960 na OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo), quadruplicaram os preços do óleo cru, atingindo duramente a economia não apenas das potências industriais, mas, sobretudo, dos países em desenvolvimento, com graves reflexos sobre os países do Bloco Socialista, uma vez que, ao importar matérias-primas do Ocidente a custos cada vez mais elevados, eles não puderam manter o subsídio às exportações. Em tais circunstâncias, o abalo no comércio mundial afetou igualmente a União Sovié­tica, em 1974, compelindo-a tomar a iniciativa de reajustar os termos do comércio com os demais parceiros do CAME e a estabelecer o preço das exportações de acordo com a média do mercado mundial, a fim de evitar maior deterioração de sua economia, bastante comprometida, entre outros fatores, pelos gastos militares decorrentes da competição com os Estados Unidos. Desde então, a crise econômica carcomeu todo o Bloco Socialista e determinou sua desintegração, em 1989, bem como a da própria União Soviética, que retornou à economia de mercado, restaurando a propriedade privada dos meios de produção e integrando-se no sistema capitalista mundial, do qual, na verdade, nunca se libertara e sempre dependera.”

64. Zimbalist & Brundenius, The Cuban Economy — Measurement and Analysis of Socialist Performance, 1989, p. 154. Eckstein, 1994, p. 72.

65. Id., ibid., pp. 72 e 73. Zimbalist & Brundenius, 1989, pp. 156 e 157.

66. Mesa-Lago, Breve Historia Econômica de Cuba Socialista — Políticas, Resultados y Perspectivas, 1994, p. 168.

67. Zimbalist & Brundenius, 1989, p. 159.

68. Mesa-Lago estimou que o total da dívida exterior de Cuba (incluída tanto a parte em divisas como a não conversível) atingira em 1990 o montante de US$ 37 bilhões, a mais alta dívida per capita da América Latina. Mesa-Lago, 1994, pp. 166-168. Segundo Eliana Cardoso e Ann Helwege, em 1989, Cuba devia US$ 18 bilhões (em rublos) à União Soviética e aos países do Leste Europeu, e US$ 6 bilhões aos bancos comerciais do Ocidente. Cardoso & Helwege, 1992, p. 99.

69. Zimbalist & Brundenius, 1989, p. 159.

70. Eckstein, Back from the Future — Cuba under Castro, 1994, p. 11.

71. Id., ibid., p. 12.

72. Trotski, La Révolution Trahie, 1936, pp. 285, 286, 306, 324 e 325.