quarta-feira, 8 de março de 2017

O sofrimento de Deus: inversões do Apocalipse (parte I) – Slavoj Žižek e Boris Gunjević

Editora: Autêntica
ISBN: 978-85-8217-463-0
Tradução: Rogério Bettoni
Opinião: ***
Páginas: 240 


A mistagogia da revolução – Boris Gunjević

     “A divina comédia foi escrita no exílio, um produto da vida nômade de Dante. Desse modo, não admira que a própria Comédia descreva a jornada pelo Inferno, pelo Paraíso e pelo Purgatório na companhia de viajantes incomuns que têm um significado especial para o autor. Depois de uma cisão no partido político dos Brancos, do qual Dante era membro, e de um ataque por parte dos vassalos do papa, chamados de Negros, Dante foi banido de Florença em 1302 e subsequentemente condenado in absentia à morte na fogueira. Essa sentença transformou Dante em um nômade poeta e político que jamais voltaria para sua cidade natal. Depois de perambular pela Europa, ele chegou a Ravena, onde finalmente morreu. Boccaccio diz que Dante queria descrever em vulgata, e em rimas, todas as obras de todas as pessoas e seus méritos na história. Tratava-se de um projeto notadamente ambicioso e complexo, que requeria tempo e trabalho, principalmente porque Dante era um homem cujos passos eram seguidos pelo destino a cada esquina, cercados pela angústia da amargura.
     A Comédia se tornou a obra de toda a vida de Dante. Quando opositores políticos invadiram sua casa (da qual ele fugiu de repente, deixando tudo para trás), eles encontraram partes do manuscrito num baú de viagem. Esses manuscritos foram guardados e entregues ao poeta florentino mais famoso da época, Dino Frescobaldi, que reconheceu ter diante de si uma obra-prima e acabou mandando os manuscritos para Dante por intermédio de um amigo deste, o marquês Morello Malaspina – Dante estava hospedado na casa dele. O marquês incentivou Dante a persistir, e assim ele o fez. Boccaccio nos diz que a morte de Dante o impediu de terminar sua obra-prima: ficaram faltando os últimos 13 cantos. O medo dos amigos de Dante era que Deus o tivesse proibido de viver mais tempo para completar sua obra extraordinária. Toda a esperança de recuperar os cantos finais se perdeu.
     Os filhos de Dante, Jacopo e Piero, também poetas, concordaram em completar a Comédia do pai. Uma noite, oito meses depois da morte de Dante, Jacopo teve um sonho estranho. O filho perguntava para o pai se ele havia terminado a grande obra e queria saber onde estavam escondidos os últimos cantos. Dante respondeu que sim, a obra estava acabada, e que ele havia guardado o manuscrito na parede do quarto. Jacopo saiu naquela mesma noite para se encontrar com Piero Giardino, discípulo de Dante durante muitos anos.
     Depois de acordar Giardino no meio da noite, Jacopo não teve mais como esperar. Os dois se dirigiram imediatamente à casa de Dante para vasculhar nas paredes do quarto. Havia um tapete pendurado numa das paredes, e atrás dele havia uma pequena porta. Ao abri-la, os dois encontraram os manuscritos escondidos lá dentro, cobertos de mofo e quase destruídos. Depois de encontrar os 13 cantos, eles os entregaram a Cangrande dela Scala, amigo de Dante, para quem ele havia entregado os manuscritos em partes, à medida que escrevia.”


     “Mas eu não aposto num Deus punitivo. Aposto no Deus de São Paulo, Orígenes ou Gregório de Nissa, que no fim vai redimir a todos. Sem essa crença, não se pode ter a esperança de que um dia o ser coincidirá com o bem. Isso, na verdade, resultaria em apenas uma “moralidade” – apenas o gesto desesperador de tentar deter a morte durante um tempo. Apenas uma disputa infindável sobre como repartir recursos escassos e danificados. Em contrapartida, apenas o cristianismo permite ter a esperança de trabalhar para a realização infinita de tudo em harmonia com tudo.”


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Por uma suspensão teológico-política do ético – Slavoj Žižek

     “A propaganda contra a política emancipatória radical é cínica por definição – não no sentido simples de não acreditar em suas próprias palavras, mas num nível muito mais básico: ela é cínica precisamente na medida em que acredita em suas próprias palavras, pois sua mensagem é uma convicção resignada de que o mundo em que vivemos, se não for o melhor de todos os mundos possíveis, é o pior deles, de modo que toda mudança radical só tem a piorá-lo.”


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O cristianismo contra o sagrado – Slavoj Žižek

     “Dessa premissa, Dupuy tira a seguinte conclusão (para ele, óbvia): é um grande erro pensar que uma sociedade justa e que se percebe como justa estará por isso livre de todo ressentimento – pelo contrário, é justamente nessa sociedade que as pessoas que ocupam posições inferiores só encontrarão um escoadouro para seu orgulho ferido em ataques violentos de ressentimento.”


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Virtudes babilônicas: palavras da minoria – Boris Gunjević

     “Como diz Santo Agostinho, os grandes reinos são apenas projeções aumentadas de pequenos ladrões. Agostinho de Hipona, entretanto, tão realista em sua ideia pessimista do poder, perderia a fala diante dos pequenos chefes do poder monetário e financeiro de hoje. De fato, quando o capitalismo perde sua relação com o valor (como medida de exploração individual e como norma de progresso coletivo), ele surge imediatamente em forma de corrupção.”
(In: Michael Hardt & Antonio Negri)


     “Ao que parece, é por esse motivo que Francisco é importante para Hardt e Negri. Com seu ascetismo simples e romântico e sua imaginação infantil, Francisco se opõe ao próprio núcleo do capitalismo, surgindo de uma maneira identificada com os mais pobres e os mais oprimidos. Este, segundo os autores, é um ato inerentemente revolucionário. Francisco desapodera a si mesmo em nome da multidão, adotando a disciplina que consiste na alegria da existência para se opor à vontade de poder e rejeitar toda forma de disciplina instrumental. Ele se afilia com toda a natureza, os animais, pássaros, o irmão Sol e a irmã Lua, em sua batalha contra a corrupção e a venalidade dos primórdios da sociedade capitalista. Em Francisco de Assis temos o símbolo da impossibilidade de se controlar a cooperação e a revolução. A cooperação e a revolução, conforme personificadas por Francisco, permanecem juntas no amor, na simplicidade, na alegria e na inocência. Tal cooperação e revolução na simplicidade são a graciosidade e a alegria irrepreensíveis de ser comunista.”


     “O homem sábio, de acordo com Proclo, progride do conhecimento para a fé, enquanto Paulo argumenta que, para os cristãos, a pessoa atinge um estado de conhecimento imediato de Deus quando tem fé, por isso a misericórdia é inerente ao conhecimento.”


     “Se aceitarmos a afirmação de Walter Benjamin de que o capitalismo é uma religião, a crítica mais radical – na verdade a única crítica possível e plausível – do capitalismo não seria articulada pela religião?”


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Uma olhadela nos arquivos do Islã – Slavoj Žižek

     “Tornamo-nos membros completos de uma comunidade não só por nos identificarmos com sua tradição simbólica explícita, mas também quando assumimos a dimensão espectral que sustenta essa tradição, os fantasmas que assombram os vivos, a história secreta das fantasias traumáticas transmitidas “nas entrelinhas”, por meio das lacunas e distorções da tradição simbólica explícita.”

     “Agar, como segunda mulher excluída, fora da genealogia simbólica, representa não só a fertilidade pagã (egípcia) da vida, mas também o acesso direto a Deus: ela vê o próprio Deus vendo, o que não foi concedido nem mesmo a Moisés, para quem Deus teve de aparecer na forma de sarça ardente. Como tal, Agar anuncia acesso místico/feminino a Deus (desenvolvido depois no sufismo).”


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Todo livro é como uma fortaleza: a carne foi feita verbo – Boris Gunjević

     “Não existe leitura inocente, e cada um de nós deve dizer de que leitura somos culpados.” (Louis Althusser)


     “O que acontece quando um não muçulmano lê o Alcorão, uma
vez que o próprio Alcorão proíbe não muçulmanos de lerem o texto sagrado? Só poderemos entender o que não desejávamos saber se persistirmos em não levar a sério essa proibição. Justamente aquilo que aprendemos a negar servirá de Estrada Real para nosso entendimento. Todo livro é como uma fortaleza que não pode ser conquistada por fora. Do contrário, acharíamos ser suficiente a leitura que nos obrigam a fazer na escola. Não se pode obter nada de uma leitura feita sob pressão. Se todo livro é uma fortaleza, eles precisam ser conquistados por dentro: é preciso haver o desejo de dominar o texto com uma intenção subjetiva. Somente esse tipo de leitura se torna uma luta de classes, e dizemos isso com uma pitada de anacronismo irônico. Daí a leitura ser primordialmente uma forma múltipla de comunicação e um locus de lutas ideológicas, como sempre foi dito por Roland Barthes.
     Hoje a prática da leitura concretiza uma reação ao terror da mídia. O papel do “terror da mídia” dentro do Império é tripartite. Primeiro, ela nos terroriza constantemente com imagens de violência feitas para destruir a leitura e o pensamento. Segundo, o terror da imagem sistematicamente solapa e redefine nosso passado ao nos saturar e nos inundar com uma quantidade enorme de informações, impossível de processar. E, terceiro, ao nos aterrorizar com o uso de imagens violentas, a intenção é injetar permanentemente amnésia de uma maneira dromológica para criar uma matriz violenta de “novas formas de instrução” que impõem a falta de instrução e a catatonia.”


     “Um dia, quando tivermos tempo para escrever uma genealogia de nossos fracassos, nossas incapacidades e nossas decepções, os livros que não lemos por quaisquer motivos terão espaço importante nesse estudo. Além das músicas que nunca escutamos, dos filmes que nunca vimos ou dos antigos arquivos e mapas que nunca exploramos, os livros que nunca lemos serão os indicadores de nossos anacronismos e de nossa humanidade imperfeita. Somente quando nossos sistemas de defesa imaginados se desintegrarem e formos traídos por nossos próprios mecanismos de negação é que a leitura preservará a dignidade do perdedor. Na verdade, não é isso que acontece hoje, quando parecemos travar uma luta que já foi perdida? Se acreditarmos que deveríamos estar salvando o que pode ser salvo, temos de aceitar a leitura dos textos que amamos odiar. O Alcorão certamente é um deles. Alguém deve voluntariamente se responsabilizar pela leitura e interpretação de livros desse tipo. Esse é certamente um texto muito valioso que deveria ser tirado, literalmente à força, da mão dos fundamentalistas. Os cristãos fundamentalistas leem o texto alcorânico como se fosse um manual de terrorismo. Ao ler o Alcorão, os fundamentalistas islâmicos querem ter o controle monocromático do texto, e com suas interpretações literais, superficiais e ultramodernas, intendam mutilá-lo, destruindo o livro inteiro no processo. Toda leitura fundamentalista e literal de um texto se rebela contra o modernismo, mas essa rebelião permanece alojada no campo da referência do discurso contra aquilo a que se rebela. Uma exegese histórica do Alcorão não é uma relativização da mensagem ou uma investida perigosa em verdades eternas; é uma ajuda que facilita a leitura até mesmo para quem não é muçulmano.”


     “Deus não é feito carne como no cristianismo, mas, antes, sua palavra é feita livro. Dito em termos mais poéticos, a palavra de Deus é livrificada.”


     “O texto alcorânico está longe de qualquer noção idílica e que seria compreendida de prontidão. Justamente por ser destituído de qualquer sistema imposto e de uma coesão espacial artificial, o texto alcorânico nos deixa com múltiplas opções de leitura e interpretação. Isso é tanto uma bênção quanto uma maldição, dependendo de quem o lê e com qual propósito. Sem nenhum resquício de afetação ocidental e eurocêntrica, dizemos que o Alcorão é literalmente um texto pós-moderno. Antes de saltar para quaisquer conclusões, não devemos nos esquecer de que o próprio Maomé era um iliterato. Por isso é importante termos ciência da versão final de Uthman do texto alcorânico, que coloca um fim ao período formativo da comunidade islâmica.”


     “A história será encenada numa praça pública da qual nós, da pior maneira possível atualmente, somos testemunhas.” (Jacques Lacan – Escritos)


     “Ler não é uma atividade sem perigos, tampouco uma atividade trivial. É o início de uma batalha ideológica travada dentro do Império. (...) Na luta ideológica, devemos fazer um esforço sério para ceder e nos submeter às tentações do complexo messiânico, de um lado, ou nos tornar um homo sacer, de outro. Ler o Alcorão pode pedagogicamente nos ajudar a não ser capturados das duas maneiras, o que seria nocivo mesmo a curto prazo. Isso é justamente o que o Império menos quer: que saibamos da existência daqueles que o Império nomeou como nossos inimigos. O muçulmano do qual fala Agamben em seu texto sobre O que resta de Auschwitz tornou-se novamente a testemunha desabrigada do que o Império está fazendo, e por isso deve-se fazer do Império não só uma testemunha, mas principalmente um inimigo que deve ser coagido. Por isso é importante ler o Alcorão, para que não nos deixemos seduzir pelas falsas alternativas do Império, que vê no texto alcorânico apenas o messianismo e o “homosacerismo”, duas imagens da violência que podem ter iterações e consequências descomunais sobre as quais podemos facilmente perder o controle. Essas consequências podem se voltar contra nós. As coisas podem escapar de nossas mãos, como mostra o conto de Borges a seguir, no qual um conselho bem-intencionado se transforma no oposto, com repercussões alarmantes: 
      Em 1517, o padre Bartolomé de Las Casas compadeceu-se dos índios que se extenuavam nos laboriosos infernos das minas de ouro antilhanas, e propôs ao imperador Carlos V a importação de negros, que se extenuassem nos laboriosos infernos das minas de ouro antilhanas. A essa curiosa variação de um filantropo devemos infinitos fatos: os blues de Handy, o sucesso alcançado em Paris pelo pintor-doutor uruguaio D. Pedro Figari, a boa prosa agreste do também oriental D. Vicente Rossi, a dimensão mitológica de Abraham Lincoln, os quinhentos mil mortos da Guerra da Secessão, os três mil e trezentos milhões gastos em pensões militares, a estátua do imaginário Falucho, a admissão do verbo linchar na décima terceira edição do Dicionário da Academia Espanhola, o impetuoso filme Aleluya, a fornida carga de baionetas levada por Soler à frente de seus Pardos y Morenos em Cerrito, a graça da senhoria de Tal, o negro que assassinou Martín Fierro, a deplorável rumba El Manisero, o napoleonismo embargado e encarcerado de Toussaint Louvertoure, a cruz e a serpente no Haiti, o sangue das cobras degoladas pelos machado dos papaloi, a habanera mãe do tango, o candombe. Além disso: a culpável e magnífica existência do atroz redentor Lazarus Morell¹.
1: BORGES, Jorge Luis. O atroz redentor Lazarus Morell: a causa remota.

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Apenas um Deus que sofre pode nos salvar – Slavoj Žižek


     “Isso nos leva à terceira posição, que vai além das duas primeiras (o Deus soberano e o Deus finito): a de um Deus que sofre – não um Deus triunfalista que sempre vence no final, embora “seus caminhos sejam misteriosos”, uma vez que ele controla tudo em segredo nos bastidores; não um Deus que exerce a justiça fria, uma vez que, por definição, ele está sempre certo; mas sim um Deus que – como o Cristo que sofre na cruz – está atormentado, um Deus que assume o fardo do sofrimento em solidariedade à miséria humana.¹ Schelling já havia escrito: “Deus é uma vida, não apenas um ser. Mas toda vida tem um destino e está sujeita ao sofrimento e ao devir. [...] Sem o conceito de um Deus que sofre humanamente [...] toda a história permanece incompreensível”.² Por quê? Porque o sofrimento de Deus indica que ele está envolvido na história, é afetado por ela, e não é apenas um Mestre transcendente que controla tudo lá de cima: o sofrimento de Deus significa que a história humana não é apenas um teatro de sombras, mas sim o lugar de uma luta real, a luta em que o próprio Absoluto está envolvido e em que seu destino é decidido. Esse é o pano de fundo filosófico da forte observação de Dietrich Bonhoeffer de que, depois da Shoá, “apenas um Deus que sofre pode nos ajudar”³ – um complemento perfeito para “Apenas um Deus pode nos salvar!”, de Heidegger, dita em sua última entrevista.4 Desse modo, deve-se interpretar de maneira bastante literal a declaração de que “o sofrimento inominável de seis milhões também é a voz do sofrimento de Deus” 5: o próprio excesso desse sofrimento em relação a qualquer medida humana “normal” o torna divino.”
1: Michael L. (Ed.). A Holocaust Reader. Oxford: Oxford University Press, 2001.
2: SCHELLING, Friedrich Wilhelm Joseph von. Philosophical Investigations into
the Essence of Human Freedom. In: BEHLER, Ernst (Ed.). Philosophy of German Idealism. New York: Continuum, 1987. p. 274.
3: Citado por David Tracy em MORGAN (Ed.). A Holocaust Reader, p. 237.
4: HEIDEGGER, Martin. Only a God Can Save Us. In: WOLIN, Richard (Ed.). The Heidegger Controversy: A Critical Reader. Cambridge, MA: MIT Press, 1993.
5: DAVID, Tracy. Religious Values After the Holocaust. In: MORGAN (Ed.). A Holocaust Reader, p. 237.


     “As três principais versões do cristianismo não formam um tipo de tríade hegeliana? Na sucessão de ortodoxia, catolicismo e protestantismo, cada novo termo é uma subdivisão, uma separação a partir de uma unidade anterior. Essa tríade de Universal –Particular – Singular pode ser designada por três representativas figuras fundadoras (João, Pedro e Paulo), bem como por três raças (eslavos, latinos e alemães). Na ortodoxia oriental, temos a unidade substancial entre o texto e o corpo de fiéis, e por esse motivo os fiéis podem interpretar o Texto sagrado, pois o Texto continua neles e vive neles, não está fora da história viva como seu modelo ou um padrão exemplar – a substância da vida religiosa é a própria comunidade cristã; o catolicismo representa a alienação radical: a entidade que faz a mediação entre o Texto sagrado fundador e o corpo de fiéis, a Igreja, a Instituição religiosa, reobtém sua plena autonomia. A mais alta autoridade reside na Igreja, e por isso a Igreja tem o direito de interpretar o Texto; o Texto é lido durante a missa em latim, uma língua que não é compreendida pelos fiéis comuns, e chega a ser considerado pecado que um fiel comum leia o Texto diretamente, ignorando a orientação do sacerdote. Para o protestantismo, por fim, a única autoridade é o próprio Texto, e a aposta é no contato direto de cada fiel com a Palavra de Deus da maneira como é transmitida no Texto; desse modo, o mediador (o Particular) desaparece, recolhe-se na insignificância, permitindo que o fiel adote a posição de um “Singular universal”, o indivíduo em contato direto com a Universalidade divina, ignorando o papel mediador da Instituição particular. Essas três atitudes cristãs também envolvem diferentes modos da presença de Deus no mundo. Começamos com o universo criado diretamente, o universo que reflete a glória de seu Criador: toda a riqueza e toda a beleza de nosso mundo atestam o poder criativo do divino, e as criaturas, quando não se corrompem, voltam naturalmente os olhos para ele... O catolicismo muda para uma lógica mais delicada do “desenho no tapete”: o Criador não está diretamente presente no mundo; antes, seus traços têm de ser discernidos em detalhes que escapam ao primeiro olhar superficial, isto é, Deus é como um pintor que se afasta de seu produto finalizado, sinalizando sua autoria apenas com uma assinatura quase imperceptível na beira do quadro. Por fim, o protestantismo afirma a ausência radical de Deus no universo criado, a ausência de Deus nesse mundo cinza que avança como um mecanismo cego e no qual a presença de Deus só se torna discernível nas intervenções diretas da Graça que perturba o curso normal das coisas.”


     “É nesse sentido que, com respeito a Cristo, Hegel na verdade alude a alguns temas kierkegaardianos (a diferença entre gênio e apóstolo, caráter eventivo singular de Cristo), especialmente quando destaca a diferença entre Sócrates e Cristo. Cristo não é como o “indivíduo plástico” grego por cujas características universais o conteúdo universal ou substancial transpira diretamente (como foi o caso exemplar de Alexandre). Isso significa que embora Cristo seja o Deus-homem, a identidade direta dos dois, essa identidade também implica uma contradição absoluta: não há nada “divino” em Cristo, nem mesmo nada excepcional – se observamos seus traços, vemos que ele é indistinguível de qualquer outro ser humano:
      Se consideramos Cristo apenas com referência a seus talentos, seu caráter e sua moralidade, como professor, etc., nós o colocamos no mesmo lugar que Sócrates e outros, ainda que o coloquemos numa posição mais alta do ponto de vista moral. [...] Se Cristo é tomado apenas como um indivíduo excepcionalmente refinado, mesmo como um indivíduo sem pecados, então estamos ignorando a representação da ideia especulativa, sua verdade absoluta.¹
     Essas linhas apoiam-se num pano de fundo conceitual bastante preciso. Não é que Cristo seja “mais” que outras figuras-modelo de sabedoria religiosa, filosófica ou ética, real ou mística (Buda, Sócrates, Moisés, Maomé), que ele seja “divino” no sentido da ausência de quaisquer falhas humanas. Com Cristo, a própria relação entre conteúdo substancial divino e sua representação muda: Cristo não representa esse conteúdo divino substancial, Deus; ele é imediatamente Deus, e é por isso que não precisa mais se parecer com Deus, lutar para ser perfeito e “como Deus”. Recordemos a clássica piada dos irmãos Marx: “Você se parece com Emmanuel Ravelli.” “Mas eu sou Emmanuel Ravelli.” “Então não surpreende que você se pareça consigo mesmo!” A premissa subjacente dessa piada é que essa sobreposição entre ser e parecer é impossível, há sempre uma lacuna entre os dois. Buda, Sócrates, etc. se parecem com deuses, enquanto Cristo é Deus. (...)
     Em outras palavras: os deuses gregos aparecem para os humanos em forma humana, enquanto o Deus cristão aparece como humano para si mesmo. Esse é o ponto crucial: para Hegel, a Encarnação não é um movimento pelo qual Deus se torna acessível ou visível para os humanos, mas sim um movimento por meio do qual Deus olha para si mesmo a partir da perspectiva humana (deformadora): “Como Deus se manifesta para seu próprio olhar, a representação especular divide o si divino de si mesmo, oferecendo o divino como visão perspectívica de sua própria autopresença”². Ou, colocando em termos freudiano-lacanianos: Cristo é o “objeto parcial” de Deus, um órgão autonomizado sem corpo, como se Deus arrancasse os olhos da própria cabeça e os virasse para si mesmo de fora.”
1 e 2: HEGEL, Georg Wilhelm Friedrich. Lectures on the Philosophy of History.


     “Cristo é a anamorfose de Deus.”


     “Outra indicação dessa exterioridade de Deus com respeito a si mesmo é apontada por C. K. Chesterton em “The Meaning of the Crusade”, em que ele cita com louvor a descrição do Monte das Oliveiras que ouviu de uma criança em Jerusalém: “Uma criança de uma das vilas me disse, num inglês capenga, que ali era o lugar onde Deus fez suas orações. Eu, pelo menos, não pediria uma declaração mais sofisticada ou desafiadora de tudo que separa o cristão do muçulmano ou do judeu”. Se, em outras religiões, rezamos para Deus, é somente no cristianismo que o próprio Deus reza, ou seja, dirige-se a uma autoridade exterior imperscrutável.
     O problema crucial é: como devemos pensar a ligação entre essas duas “alienações” – a alienação do homem moderno em relação a Deus (reduzido a um Em-si incognoscível, ausente do mundo sujeitado às leis mecânicas) e a alienação de Deus em relação a si mesmo (em Cristo, na encarnação)? Elas são a mesma coisa, embora não simetricamente, e sim como sujeito e objeto. Para que a subjetividade (humana) surja da personalidade substancial do animal humano, cortando os elos que tem com ele e se pondo como o eu = eu destituído de todo conteúdo substancial, como a negatividade autorrelativa de uma singularidade vazia, o próprio Deus, ou a Substância universal, tem de se “humilhar”, incorrer em sua própria criação, “objetificar-se”, aparecer como um indivíduo singular miserável em toda sua infâmia, isto é, abandonado por Deus. A distância do homem em relação a Deus, portanto, é a distância de Deus em relação a si mesmo:
      “O sofrimento de Deus e o sofrimento da subjetividade humana destituída de Deus devem ser analisados como páginas opostas do mesmo acontecimento” (...)¹.
      Essa dupla kenosis é o que a crítica marxista comum não toma em consideração ao afirmar que a religião é a autoalienação da humanidade: “a filosofia moderna não teria seu próprio sujeito se o sacrifício de Deus não tivesse ocorrido”². Para que surja a subjetividade moderna – não como mero epifenômeno da ordem ontológica substancial global, mas como essencial à própria Substância –, a cisão, negatividade, particularização, autoalienação, deve ser posta como algo que acontece no cerne mesmo da Substância divina, isto é, a passagem de Substância para Sujeito deve ocorrer dentro do próprio Deus. Em suma, a alienação do homem em relação a Deus (o fato de que Deus aparece para ele como um Em-si inacessível, como puro Além transcendente) deve coincidir com a alienação de Deus em relação a si mesmo (cuja expressão mais pungente é, sem dúvida, a pergunta de Cristo na cruz: “Pai, por que me abandonaste?”): a consciência humana finita “só representa Deus porque Deus representa a si mesmo; a consciência só se distancia de Deus porque Deus se distancia de si mesmo”.³
     É por isso que a filosofia marxista padrão oscila entre a ontologia do “materialismo dialético”, que reduz a subjetividade humana a uma esfera ontológica particular (não surpreende que Georgi Plekhanov, criador do termo “materialismo dialético”, também tenha designado o marxismo como “espinosismo dinamizado”), e a filosofia da práxis; que, de György Lukács em diante, toma como ponto de partida e horizonte a subjetividade coletiva que põe/medeia cada objetividade, e assim é incapaz de pensar sua gênese a partir da ordem substancial, a explosão ontológica, ou “Big Bang”, que dá origem a ela.”
1 e 2: MALABOU, Catherine. The Future of Hegel.
3: HEGEL, Georg Wilhelm Friedrich. Fé e saber.

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