A conversão de São Paulo

A conversão de São Paulo
A conversão de São Paulo

sábado, 28 de janeiro de 2017

Danúbio (Parte I) – Claudio Magris

Editora: Companhia de bolso
ISBN: 978-85-3591-337-8
Tradução: Elena Grechi e Jussara de F. M. Ribeiro
Opinião: ****
Páginas: 448
  
     “É verdade que a existência é uma viagem, como se costuma dizer, e que passamos pela terra como hóspedes.”


     “Quando se viaja sozinho, como acontece com excessiva frequência, é preciso pagar do próprio bolso, mas algumas vezes a vida é boa e permite passear e ver o mundo, mesmo que só de vez em quando e por pouco tempo, com aqueles quatro ou cinco amigos que testemunharão por nós no dia do Juízo Final, falando em nosso nome.”


     “A relva do prado esta ensopada de água, todo o terreno esta encharcado e alagado por uma quantidade de riachos diminutos. No prado as duas irmãs se movem e se molham mais graciosamente que Amedeo, cujo fascínio consiste, aliás, em grande parte, na maciça e tranquilizadora corpulência à Pierre Bezukov. Sua pena é, todavia, digna daquela graça, pousa leve e graciosa nos pormenores como uma borboleta sobre as flores, fixa a ampla nitidez do dia. A fenomenologia tem razão, o simples aparecer das coisas é bom e verdadeiro, a superfície do mundo é mais real do que as gelatinosas cavidades interiores. Santo Agostinho estava parcialmente enganado, quando aconselhava a não sair de si mesmo: quem permanece sempre no interior, divaga e se perde, acaba por queimar incenso a algum ídolo de fumaça saído do lixo dos seus temores, vazio e insidioso como os íncubos que a oração da noite intima a desaparecer.”


     “O Danúbio é um rio austríaco e austríaca é a desconfiança na história, que resolve as contradições eliminando-as; na síntese que supera e anula os termos em jogo; no futuro que aproxima a morte. Talvez hoje a velha Áustria nos pareça muitas vezes uma pátria congenial, porque era a pátria de homens que duvidavam de que seu mundo pudesse ter um futuro e não queriam resolver as contradições do velho Império, mas adiar as soluções, pois se davam conta de que qualquer solução comportaria a destruição de alguns elementos essenciais para a heterogeneidade do Império e, portanto, o fim do próprio Império. Para chegar à bacia do Breg é preciso descer, ainda que por poucos metros, a breve encosta. Ali começa o rio, a sua descida. Seguindo-a, é oportuno procurar também paradas, desvios, atrasos, pois, como sabia Rilke, não é o caso de pensar em vitórias, mas sobreviver é tudo.”


     “A história adquire sua realidade só mais tarde, quando já passada, e as conexões gerais, instituídas e escritas anos depois nos anais, conferem a um evento sua importância e seu papel. Recordando a derrota búlgara, evento decisivo para o desfecho da Primeira Guerra Mundial e por conseguinte para o fim de uma civilização, o conde Károlyi escreve que, enquanto o tinha vivido, não percebera sua importância porque “naquele momento ‘aquele momento’ ainda não tinha se tornado ‘aquele momento’”. Também para Fabrizio del Dongo a batalha de Waterloo, enquanto ele a esta combatendo, ainda não existe. No puro presente, a única dimensão em que todavia se vive, não há história; em instante nenhum há o fascismo ou a Revolução de Outubro, porque naquela fração mínima há tão-somente a boca que engole a saliva, um gesto da mão, um olhar que pousa sobre a janela. Como Zenão negava o movimento de uma flecha arremessada pelo arco porque em cada instante ela estava parada num ponto do espaço e a sucessão de instantes imóveis não podia ser movimento, assim se deveria dizer que não a sucessão daqueles instantes sem história cria a história, mas sim as correlações e os acréscimos trazidos pela historiografia. A vida, dizia Kierkegaard, só pode ser entendia olhando-se para trás, mesmo tendo que ser vivida olhando para frente – ou seja, para alguma coisa que não existe.”


     “O amor não é suficiente para criar a poesia, mesmo que às vezes seja necessário.”


     “O infortúnio fascista de Heidegger não é um acidente ocasional, porque o fascismo, na sua dimensão menos abjeta mas nem por isso menos destrutiva, é também esta atitude de quem sabe ser bom amigo de seu companheiro de banco mas não se dá conta de que também outros homens podem ser igualmente amigos de seus companheiros de banco. Eichmann era sincero quando em Jerusalém ficou horrorizado ao saber que o pai do capitão Less, o oficial israelense que o interrogara durante meses e pelo qual sentia profundo respeito, morrera em Auschwitz. Ficou horrorizado porque sua falta de fantasia o impedira de reconhecer, nas cifras das vítimas, rostos, feições, olhares, homens concretos.”


     “A consciência coletiva, que não se dispõe a superar a violência mas não ousa tampouco olhá-la de frente, sublima o egoísmo e as opressões num frívolo culto do sentimento e da paixão, naquela cultura que Céline qualificou fulminantemente de “bidê lírico”. Este último, ignorante da verdade elementar do sexo e do amor, é o reino das grandes mentiras intermediárias, a liricização da atividade das gônadas, as palpitações do amour-passion chamadas a justificar o engano e o auto-engano. Poeta do sexo e da nostalgia de amor, Céline desmascarou implacavelmente a falsificação sentimental, a ausência de verdadeiro sexo e verdadeiro amor, aquele afluxo de sangue ao baixo-ventre que sente a necessidade de nobilizar-se subindo para o alto e exalando em comovido suspiro a incapacidade de amar e a baixeza de colar ao sexo, quando não se ama, uma muleta sentimental que acaba fazendo os outros tropeçarem e quebrarem a perna. O bidê lírico, ao contrário das grandes religiões, tem sempre a necessidade de dourar a pílula.”


     “Uma fé, vivida e concretizada nos gestos do corpo, confere aquela tranquila certeza vital que permite atravessar o mundo sem que o coração se perturbe.
     Não é necessária uma fé em Deus, basta a fé nas coisas criadas, que permite mover-se entre os objetos persuadido de que eles existem, convencido da irrefutável realidade da cadeira, guarda-chuva, do cigarro, da amizade. Quem duvida de si esta perdido, como quem, temendo não conseguir fazer amor, não o consegue. Somos felizes junto às pessoas que nos fazem sentir a indubitável presença do mundo, assim como um corpo amado nos dá a certeza daqueles ombros, daquele seio, daquela curva das ancas e da sua onda que nos sustenta como o mar. E quem não tem fé, ensina Singer, pode comportar-se como se acreditasse: a fé virá depois.”


     “É indiscutível a vantagem que Neweklowsky tem sobre os fiéis de outros cultos (o dele é no rio Danúbio). Quem acredita em Deus pode sentir-se de repente abandonado, como aconteceu até mesmo a Jesus na cruz, pode ver a realidade desaparecer à sua volta e debaixo de seus pés. O pio Chaim Cohen, mais tarde magistrado em Israel, foi para Auschwitz com a fé ortodoxa de seus pais, mas quando voltou de Auschwitz também o seu Deus havia sido exterminado, reduzido a cinzas no forno crematório. Também a revolução, o comunismo, a messiânica redenção da história podem revelar-se um Deus que traiu ou que não existe, como aconteceu a Koestler e a tantos outros. Swann vive inteiramente na paixão por Odete, e percebe no fim ter se consumido por uma mulher que não valia a pena. Também o cego e irracional amor pela cálida vida, que sustenta alguns homens como uma intensa carga de desejo e de sedução, pode afrouxar-se subitamente, de modo que o encanto erótico da vitalidade acaba como Falstaff em uma cesta de roupa suja, a bandeira enfunada pelo vento torna-se um esfregão para limpeza.
     O Danúbio ao contrário, mesmo somente o superior, existe, não desaparece, não promete aquilo que não mantém, não abandona, corre fiel e verificável; não conhece o azar da teologia, as perversões ideológicas, as desilusões do amor. Esta lá, tangível e verdadeiro, e o devoto que lhe dedica a própria existência sente-a fluir em harmoniosa e indissolúvel união com afluência do rio. Esta constante harmonia faz esquecer que ambos, o deus fluvial e o seu fiel, correm para o vale, para a foz.”


De mãos nuas contra o Terceiro Reich
     Em Ulm nasceu uma grande flor da interioridade alemã. Hanz e Sophie Scholl, os dois irmãos presos, condenados à morte e executados em 1943 por sua ativa luta contra o regime hitlerista, eram de Ulm e hoje uma escola superior tem seu nome. Sua história é exemplo da resistência absoluta que Ethos opõe a Kratos; eles souberam rebelar-se contra aquela que a quase todo mundo parecia uma óbvia e inevitável aceitação da infância. Como escreveu Golo Mann, eles combatiam de mãos nuas contra o enorme poder do Terceiro Reich, enfrentavam o aparato político e militar do Estado nazista munidos somente de seu mimeógrafo, com o qual difundiam as proclamações contra Hitler. Eram jovens, não queriam morrer e desagradava-lhes deixar a sedução dos dias de sol, como disse tranquila Sophie no dia da execução, mas sabiam que a vida não é o valor supremo e que se torna amável e desfrutável quando é colocada a serviço de alguma coisa que é superior a ela e que a esclarece e a aquece como um sol. Por isso foram serenos ao encontro da morte, sem temor, bem sabendo que o príncipe deste mundo já foi julgado”.


Um funeral
     Ainda em Ulm se desenrolou na praça em frente à sede do governo municipal outra cena do teatro alegórico da interioridade alemã. Em 18 de outubro de 1944 aconteciam, na presença de Von Rundstedt, os solenes funerais do marechal-de-campo Rommel. A multidão ignara dava-lhe a última saudação, acreditando que tivesse morrido em consequência de um ferimento recebido ao defender o Reich, ao passo que ele, envolvido na conjuração de 20 julho e posto diante da escolha entre o processo e o suicídio, envenenara-se. Este também é um paradoxo da interioridade alemã: Rommel não temia certamente a execução, não lhe faltava a coragem com a qual, por exemplo, Helmuth James von Moltke enfrentou abertamente o tribunal nazista do povo e o enforcamento. As cartas que ele escrevia à esposa demonstram, na intensidade do afeto, a responsabilidade de um homem íntegro. Provavelmente acreditou, naquele momento, prestar um serviço à sua pátria, já tão periclitante, evitando a perturbação e a incerteza que o processo teria espalhado na Alemanha, com a transformação súbita de um grande soldado num inimigo da nação.
     Com seco autocontrole e num supremo mas paradoxal sacrifício, silenciou a voz da própria consciência e deu uma indireta mas importante ajuda ao regime hitlerista, que procurava derrubar, e a Hitler, a quem desejara matar. Sua educação não lhe permitia distinguir claramente, nem naquele momento, entre seu país e o regime que o pervertia e o traía, afirmando encarná-lo. Aliás, as próprias potências aliadas desconfiadas e obtusas diante das propostas avançadas pelo Estado-Maior alemão para derrubar o nazismo, tiveram certamente não pouca responsabilidade – desde a paz cartaginesa de Versalhes – nessa letal identificação do país com o regime. Na escolha do Rommel teve certamente um papel de destaque aquela educação alemã para o respeito e a fidelidade que é por si mesma um grande valor, a lealdade para com os que estão ao lado e para com a palavra dada, mas que esta tão profundamente arraiga que não se consegue arrancá-la nem quando o torrão natal se tornou um pântano podre. Aquela fidelidade é tão forte que impede às vezes de perceber o engano do qual se é vítima, de compreender que nos tornamos fieis não de nossos deuses, mas de ídolos monstruosos e que, em nome da autêntica fidelidade, é um dever rebelar-se contra quem a exige abusivamente.
     Também Von Stauffenberg, que cometeu atentado contra Hitler, estava dilacerado pela cisão alemã entre fidelidade à pátria e fidelidade à humanidade, e isso pôde ajudar a entender a dificuldade de uma resistência armada e organizada na Alemanha. Mas certamente não foi só na Alemanha do Terceiro Reich que se apresentou o dilema fundamental, mascarado sob tantas formas, entre fidelidade ao universal e fidelidade à própria tarefa imediata – entre ética da convicção e ética da responsabilidade, como disse Max Weber, diagnóstico ainda insuperado das contradições entre os sistemas de valores dentro dos quais avança nossa civilização. Entre os crimes do nazismo há também a perversão da interioridade alemã; na encenação daquele funeral celebrado em frente ao governo municipal de Ulm há a tragédia de um homem íntegro representada como mentira.


     “Grillparzer não pode certamente ver em Napoleão, como Hegel, a alma do mundo a cavalo mas sim um parvenu que exerce o poder em nome de um desenfreado egocentrismo e não de uma ideia superior; da experiência napoleônica nasce de fato em 1825 o drama A felicidade e o fim do rei Ottokar, no qual Grillparzer contrapõe Rodolfo de Habsburgo, fundador da linhagem e encarnação do poder exercido humildemente como officium suprapressoal, a Ottokar da Boêmia, que quer e exerce o poder por ambição individual. Napoleão é portanto para ele o símbolo de uma época que vê a subjetividade (nacional, revolucionária, popular) destacar-se da religio da tradição e provocar com a nacionalização das massas, o fim do cosmopolitismo do século XVIII racionalista e tolerante.
     Napoleão é “febre de uma época doente”, mas, como a febre, é uma reação violenta que pode “eliminar o mal” e levar à cura. Grillparzer qualifica-o de “filho do destino”, confere-lhe a auréola de quem, como Hamlet, é chamado a repor no lugar o tempo que saiu dos eixos; mas ao Corso falta a humildade de Hamlet, ao qual a consciência da sua tremenda missão faz dizer “ai de mim”, tornando-o consciente da sua inadequação pessoal. Napoleão é, ao contrário, pequeno porque se arroga o direito de ser grande, mas só se tornará realmente grande na queda, na expiação religiosa, no reconhecimento da própria vaidade, como Ottokar, no drama, ascende à verdadeira realeza quando é vencido e humilhado na batalha e no amor, acossado pela velhice, reduzido a mendigo, ou seja, a homem verdadeiro.
     Napoleão, que afirma que na Idade Moderna a política tomou o lugar do destino, representa para Grillparzer o totalitarismo ou a politização total da vida, a irrupção da história e do Estado na existência do indivíduo, absorvida nos mecanismos sociais. A essa mobilização geral, própria da sociedade moderna e do napoleonismo – no qual Grillparzer distingue o aspecto caudilhesco, mas não percebe o impulso democrático e a ação emancipadora –, contrapõe-se o ethos josefino do fiel servidor do Estado, que cumpre com abnegação o próprio poder, mas traça também os limites da ingerência da política defendendo a distinção entre esfera pública e esfera privada.
     Grillparzer define como “assustadora” a unilateralidade de Napoleão, que “vê em toda parte só as suas ideias e sacrifica tudo a elas”; contra o totalitarismo ideológico a tradição austríaca defende o detalhe sensível, o particular erradio, a vida irredutível ao sistema.
     A civilização austríaca se inspira numa totalidade barroca transcendente à história ou numa dispersa fragmentação pós-histórica, que segue o dilúvio da história moderna; em ambos os casos ela recusa os critérios de uma valoração puramente histórica, os metros segundo os quais conferimos importância aos fenômenos e os distribuímos numa ordem de grandeza. A civilização austríaca defende o marginal, o transitório, o secundário, a parada e a pausa do mecanismo que pretende queimá-los para conseguir resultados mais importantes.
     Napoleão personifica, ao contrário, a moderna febre de agir que aniquila o otium e o efêmero, e destrói o instante na sua impaciência de prosseguir. No seu romance Os cem dias, Joseph Roth retomará o velho boato da ejaculatio praecox do imperador, fazendo dela o símbolo da sua ansiosa pressa que deve fazer tudo rapidamente, que sempre tem algo mais a fazer e em cada instante pensa já no seguinte, sem poder parar nem ao menos no amor e no prazer, porque quem não esta persuadido não quer fazer, mas já ter feito.
     A perspectiva austríaca é excêntrica em relação ao mito napoleônico europeu, que conhece outras entonações – do fascínio por uma grande vida que emerge e se levanta do nada, presente em Stendhal ou em Dostoiévski, ao pathos apocalíptico de Léon Bloy. Grillparzer intui alguns aspectos da modernidade napoleônica, mas lhe contrapõe um ethos josefino iluminista-burocrático, que no seu tempo tinha sido radicalmente inovador mas que na era napoleônica ia se transformando apesar da tenaz resistência da sua grande e progressiva tradição ético-política, em aparato do imobilismo.”


     “Aqui em Günzburg, nesta cidadezinha que foi chamada a pequena Viena durante o período habsbúrgico nasceu Josef Mengele, o médico algoz de Auschwitz, talvez o mais atroz assassino dos Lager; aqui ficou escondido até 1949, em um convento, e aqui voltou furtivamente em 1951 para o funeral do pai. Em Auschwitz, Mengele, sempre sereno e sorridente jogava crianças no forno, arrancava lactentes dos braços das mães e os esfacelava no solo, extraía fetos do ventre materno, fazia experiências com pares de gêmeos – com particular paixão por gêmeos ciganos – arrancava olhos, que conservava espetados na parede do seu quarto e enviava ao professor Otran von Verschuer (diretor do Instituto de Antropologia em Berlim e professor da Universidade de Münster até depois de 1953), injetava vírus, queimava genitais. Talvez esteja ainda vivo e há quarenta anos foge da caçada*. Certamente, até mesmo um homem que mata outro por divertimento obrigando o filho deste a assistir à cena, pode amar o próprio pai.
     A infâmia atrai cumplicidades: Mengele foi libertado pelos americanos, talvez ajudado a fugir pelos ingleses, escondido pelos frades, protegido pelo ditador do Paraguai. Certamente o nazismo não é a única barbárie que existiu no mundo, e condenar hoje a violência nazista, que não é mais ameaçadora, serve a muitos para calar outras violências, realizadas sobre outras vítimas de outra raça e cor, e ficar em paz com a consciência graças a essa profissão de fé antifascista. Mas é também verdade que o nazismo foi um apogeu, um vértice insuperado da infâmia, o nexo mais estreito que já existiu entre uma ordem social e a ferocidade. É desencaminhador recorrer a explicações patológicas, no caso do sádico médico sorridente, como se se tratasse de um doente vítima de uma pulsão irrefreável. Em Günzburg, no convento onde havia se homiziado, não arrancava olhos nem cortava vísceras, e não creio que sofresse crises de abstinência; terá se comportado bem, um senhor tranquilo e discreto que talvez regasse as flores e escutasse respeitosamente o ofício vespertino. Não matava, porque não podia fazê-lo, porque as circunstâncias o impediam, e resignava-se sem inquietação a esta renúncia, aos limites que a realidade impunha às suas aspirações, assim como alguém deixa o coração em paz se não pode tornar-se multimilionário ou ir para a cama com as estrelas de Hollywood. Timor Domini, initium sapientiae; na ausência de uma lei, de um temor, de uma barreira que impeça fazer aquilo que em Auschwitz se podia fazer impunemente, não só o dr. Mengele, mas talvez cada um de nós pode tornar-se Mengele.”
*: Mengele fugiu para a Argentina, Paraguai e por fim para o Brasil, onde adotou o nome falso de Wolfgang Gerhard. Morreu em 7 de fevereiro de 1979 na cidade de Bertioga, São Paulo, sem pagar pelos crimes que cometeu.


     “As vítimas algumas vezes aplainam a estrada para os seus prevaricadores, nem por isso menos culpados.”


     “Certamente Roma era também e sobretudo domínio, e a universalidade por ela reclamada era uma máscara do domínio e como tal destinada a perecer, apesar das pretensões de eternidade; para cada poder que se arroga o direito de representar o universal e a civilização vem o momento de sofrer o castigo e de ceder as armas a quem, até pouco antes, era considerado um rude inferior.”


      “No cemitério de Sankt Peter, na periferia de Straubing, as lápides, espalhadas em volta da igreja como num jardim, testemunham vidas tranquilas, que repousam no orgulho de classe: aqui jaz Adam Mohr, fabricante de cerveja, conselheiro municipal e tenente da Guarda Nacional bávara, morto em 1826. O orgulho de classe sela uma pia harmonia entre o indivíduo e a comunidade, mas transforma-se rapidamente em ferocidade quando outras leis ou outras vozes do coração põe o indivíduo em contraste com a ordem social e o induzem a perturbar, mesmo sem querer, esta última. Numa das três capelas há o monumento fúnebre de Agnes Bernauer, a lindíssima filha do barbeiro de Augsburgo, que em 12 de outubro de 1435 o duque Ernesto de Baviera mandou afogar no Danúbio, sob a acusação de feitiçaria, porque desposara seu filho Alberto e ameaçava, com essa mésalliance, a política dinástica e a própria ordem do Estado.
     O monumento fúnebre, que mostra Agnes Bernauer com um rosário na mão e dois pequenos cães a seus pés, símbolo da fidelidade conjugal que unia a moça do povo e seu esposo principesco, foi construído pelo duque Ernesto, seu matador. A tradição, recolhida pelo drama de Hebbel, é um apólogo da razão de Estado: o duque Ernesto teria admirado profundamente as virtudes e a personalidade de Agnes, o amor puríssimo que a ligava a seu filho, e teria decidido com firmeza mas, a contragosto, eliminá-la brutalmente em vista das consequências políticas provocadas pelo casamento e pelas sucessivas complicações – desordens, guerras, rebeliões, divisão e colapso do Estado, lutas fratricidas e miséria. Realizado este sacrifício, ou delito de Estado, o duque prestou homenagem à firmeza moral e à inocência da vítima, erigindo-lhe – agora que não constituía mais um perigo – um túmulo que a lembrasse nos séculos e retirando-se ele próprio para um claustro; seu filho Alberto, que tomara armas contra ele para defender e em seguida para vingar a esposa, recuperou rapidamente sua posição nos escalões políticos e dinásticos e, reconciliado em nome da razão de Estado com o pai que fizera dele um viúvo, assumiu o cetro ducal e passou depois a novas núpcias mais condizentes com sua condição.
     Agnes foi afogada no Danúbio e até o fim recusou-se a salvar a vida renegando o marido. Para afogá-la, uma vez que boiava nas ondas, os sicários do duque tiveram de enrolar seus lendários cabelos em volta de um pau e mantê-la longamente com a cabeça debaixo d’água, até que morreu. A acusação formal era de bruxaria. Relembrando o episódio, o Antiquarius, que escreve no fim do século das luzes, não pode mais considerá-la uma bruxa, mas como bom burguês seculariza a superstição e diz com desdém que ela tinha “vergonhosamente” seduzido o duque Alberto, o qual, contudo, não era uma criança, mas um cavaleiro, na flor da idade, e a tinha conhecido e cortejado durante um torneio em Augsburgo. Um fio vermelho liga Emmeram Rusperger, o jurista que formula a acusação de feitiçaria contra Agnes, o Antiquarius que a considera uma sem-vergonha e a opinião comum ainda hoje difundida, segundo a qual se um pai de família abandona esposa e filhos para juntar-se a uma mocinha de vinte anos, só esta é culpada e ele é uma pobre vítima. Pena que o drama sobre Agnes Bernauer não tenha sido escrito por Marieluise, pois ela o teria escrito do lado de Agnes Bernauer. A tragédia, em vez disso, foi escrita, sem dúvida com notável força poética, por Friedrich Hebbel, em 1851. Hebbel esta cheio de admiração pela mulher límpida e lindíssima, que conhece os artigos da fé cristã como a Margarida do Fausto, e em cuja garganta, quando bebia, via-se transparecer o vinho como através de um cristal. Agnes deve morrer “só porque é linda e honesta” e porque, quando a ordem do mundo é perturbada e o Senhor intervém não com a sachola mas com a foice, que golpeia sem distinção justos e malvados, “não é mais questão de culpa ou de inocência, mas simplesmente de causa e efeito”, ou seja, é só questão de eliminar a causa da perturbação. Hebbel embriaga-se com este pathos da razão de Estado; a nobreza e a pureza do indivíduo só servem para aumentar a solene sacralidade de quem se coloca, como o duque Ernesto e o próprio poeta, do lado da totalidade, que esta sempre com a razão e tanto mais parece estar quanto mais subjetivamente inocente e admirável é o indivíduo que é sacrificado.
     A poesia é chamada a celebrar este sacrifício, que é também auto-sacrifício, porque é a repressão da amorosa simpatia que a poesia, por sua natureza, sente pelo indivíduo, pela vítima, por Agnes Bernauer. “A grande roda passou por cima dela” diz o duque Ernesto, depois de mandar matá-la. “Agora ela esta ao lado daquele que a faz girar.” Como todo pathos do objeto, que se exalta com a aniquilação e a auto-aniquilação do sujeito, também este é suspeito; toda grandiloquência da totalidade é também sublime disfarce da vulgaridade filisteia do Antiquarius. Há uma retórica da objetividade que parece, na sua estentórea brutalidade, uma paródia da relação entre as exigências coletivas de uma sociedade e as pessoais de seus componentes. O tom exultante com que tantos advogados não solicitados do Todo repetem as palavras de Hegel – “quando se aplaina caem aparas” – é uma caricatura do pensamento hegeliano e de todo pensamento que leva em conta, responsável mas não enfaticamente, a realidade político-social.
     Hebbel esta seguro de que aquela “violência” é “violência do direito”. O advogado da totalidade esta de fato sempre certo de alguma coisa que, ao contrário, fica sempre por demonstrar, isto é, de representar a história, os interesses gerais. Poderia, por exemplo, ser verdade o contrário: o casamento de Alberto com Agnes ameaça, esta dito na tragédia, desagregar o ducado bávaro e dessa desagregação depreende-se, poderia aproveitar-se o imperador para reafirmar sobre os príncipes a sua autoridade central, assim como a águia se apodera da presa que os ursos estão disputando. Mas a história, o todo, poderia desejar esta vitória do Império sobre o particularismo dos príncipes, e neste caso o duque Ernesto seria o representante de uma ambição subjetiva e o casamento de Agnes Bernauer seria não infração, mas expressão da totalidade. Poderia ser Agnes a encarnar naquele momento o Weltgeist, o espírito do mundo.
     Não existe um quadro dos procuradores legais deste último e o alvoroço entre os que se arrogam o direito de usar o título é indecorosamente interminável. O desejo de marchar com os tempos, e de incorporar-se em seu cortejo, é a regressiva e fascinante nostalgia de se libertar de toda escolha e de todo conflito, ou seja, da liberdade, e de achar a inocência na convicção de que é impossível ser culpado porque é impossível escolher e agir de maneira autônoma. A poesia, no drama de Hebbel, é a sereia dessa ilusão, dessa abdicação; inocente, na tragédia, não é somente Agnes, mas também e sobretudo seu assassino. “Há coisas”, diz o duque Ernesto falando do seu crime, “que é preciso fazer como que em sonho; esta, por exemplo.”
     Também Grillparzer escreveu um drama sobre a razão de Estado, a Judia de Toledo, no qual os Grandes de Espanha decidem-se a matar Rahel, a linda e demoníaca amante do rei de Castilha, que o mantém numa espécie de inerte servidão amorosa, paralisando o reino que se acha assim exposto à agressão dos inimigos, à guerra, à chacina e à ruína. Mas Grillparzer contrapõe, diria Max Weber, a ética da convicção à da responsabilidade, mostrando as razões de ambas e não sacrificando uma à outra, mas evitando toda reconciliação de seu conflito que aparece irredutível e por isso mesmo trágico. Os Grandes de Espanha que mataram Rahel perseguiram “o bem, mas não a justiça”; eles acreditam ter feito o seu dever para com o Estado, mas não acreditam que o fim perseguido torne menos delituoso seu ato e justifique a violação de um mandamento universal. Eles se reconhecem culpados e assassinos, pedem perdão a um Deus longínquo e misterioso.” 

Nenhum comentário: