A conversão de São Paulo

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sábado, 16 de novembro de 2013

A Noite Triste – Frances Sherwood

Editora: Zahar
ISBN: 978-85-378-0104-8
Tradução: Roberto Franco Valente
Opinião★★★★☆
Páginas: 432

“Entretanto, para se fazer justiça a Cortés ante todos os adiamentos e ao seu lento florescer, quantos homens não se redimem apenas com um passo, uma ação, uma decisão? O homem tem as suas fragilidades, do contrário seria Deus. A fraqueza dele era com relação às mulheres. Mas que homem não é fraco quando se trata de mulheres? E a questão das mulheres nativas, que ele descobrira depois de muitos encontros secretos e de uma ou outra gravidez não desejada, era esta: elas se submetiam em silêncio. Não eram como as filhas das famílias espanholas, de fortuna medíocre e dotes ridículos, mandadas para as ilhas para encontrarem sustento em meio a uma população de homens rústicos e solteiros. Aquelas señoritas já começando a fenecer e com o olhar desesperado faziam o jogo da virgindade, apresentando-se em absolutamente todas as atividades sociais da colônia, tais como a chegada de peças de cetim ou de um piano vindo da Espanha, um casamento, um jantar cujo cardápio era carne de javali ou tartaruga marinha. Elas iam para os bailes desfilando feito cavalos importados, agitando os pés bem calçados, exibindo um pedacinho do tornozelo, perambulando, brandindo seus adornos, rebolando as cadeiras sob as camadas de tafetá na esperança de serem notadas. Os homens, na esperança de uma legítima descendência cristã, e na falta de algo melhor, realmente as notavam.
Por outro lado, as mulheres nativas não eram delicadas nem tinham um ar afetado. Na verdade, não faziam questão de serem cortejadas, tampouco contavam com a proteção intrometida de alguma mãe ambiciosa. Verdade seja dita: as índias eram sábias, dotadas de um conhecimento capaz de provocar um verdadeiro redemoinho, como a Lua no mar, na zona erógena de um homem plenamente maduro, de 33 anos.”


         “Na Espanha Isla tivera muitas oportunidades para aliviar os velhinhos muito ricos e trôpegos do fardo que era o dinheiro deles, vender terras onde não havia água ou que só existiam na sua imaginação, comerciar cavalos que mancavam, oferecer porcos cheio de vermes, dentes de anciãos, cabeleiras femininas cortadas de mulheres desesperadamente doentes. Isla havia estimulado transações com navios negreiros portugueses cheios de escravos mortos ou moribundos, partidas de caneca que eram apenas carvalho perfumado e de pão que não passava de um grude feito com rebotalho. Ele não queria prejudicar ninguém. Eram apenas os negócios.”


         “– Os deuses se reuniram – começou Malintzin, adotando a voz de alguém mais velho, enquanto a noite crescia ao redor delas – e se perguntaram uns aos outros: “Quem viverá na Terra?” Quetzalcoatl, antes de ser o deus do vento e do milho, da poesia e da lembrança, disse: “Eu sei.” E decidiu ir para a terra dos mortos e anunciar a Mictlantecuhtli, o deus do mundo inferior, que tinha vindo para buscar os velhos ossos dos deuses mortos para fazer as pessoas. Mas Mictlantecuhtli lhe disse: “Você pode levar os ossos se soprar a minha corneta e andar em círculo quatro vezes.” Mas a corneta não era oca e não tinha furos, portanto não era possível soprá-la. Era uma trapaça, Cuy, uma brincadeira cruel. Entretanto, Quetzalcoatl tinha seus recursos. Convocou os vermes para que fizessem os buracos e as abelhas para que voassem por dentro da concha, fazendo com que ela soasse. Mictlantecuhtli ficou muito zangado ao ver que Quetzalcoatl conseguira e mandou seus demônios fazerem um grande buraco no chão para que Quetzalcoatl caísse dentro dele. Quetzalcoatl de fato caiu, mas pôde voltar à superfície e fugiu levando os ossos. Depois reuniu-os e os colocou numa tigela de jade. Então ele feriu o tepolli dele, isto é, o pênis, derramando o sangue na tigela. Foi assim que as crianças do sexo masculino foram feitas, e depois as do sexo feminino. As pessoas nasceram, Cuy, e o mundo teve início. E aqui estamos nós. As pessoas.”


         “O frei Francisco, depois de permanecer algum tempo em seu monastério na Espanha, mandou-se de repente para a América a fim de converter os pagãos em Cuba. Algumas vezes, seguir as ordens religiosas era o mesmo que dar a vida a César, ou seja, aos cardeais, bispos, sacerdotes, governadores e reis.”


         “Foi tudo muito simples. Montezuma, imperador dos mexicas*, cuja capital, situada no ponto central do país, era uma maravilha do mundo; o homem que governava mais de 400 cidades e que era o grande sacerdote de milhares de templos-pirâmides; o homem que ditava a religião do Estado e que possuía imensas extensões de terra acima e abaixo da costa, no coração do continente, terras ricas em substâncias necessárias à vida, como o milho, o tomate, a batata-doce, o tabaco, abóboras de todas as variedades, plantas medicinais capazes de curar a dor e proporcionar visões sagradas, flores tão extraordinárias que traziam lágrimas aos olhos, terras repletas de ouro e pedras preciosas; um homem que dirigia uma vasta e treinada burocracia, além de uma bem adestrada força de trabalho que cumpria todas as ordens dele, cultivando as plantações, construindo as obras de arquitetura e modelando os mais lindos objetos; esse homem, comandante de um Exército de centenas de milhares de homens que supervisionava a tortuosa execução de milhares de seres humanos, esse homem tão rico se curvou humildemente diante do destino, quase beijando os pés do seu astuto conquistador, Hernán Cortés, o filho único de um fidalgo de Medellín, em Extremadura, Espanha. O caçador de fortuna cubano, Cortés, o primeiro de todos os amantes latinos, o galanteador com um jeito especial para lidar com as pessoas, que sabia identificar sua grande chance logo ao vê-la e que não tinha medo de absolutamente nada debaixo do sol.”

*Mexicas: sinônimo de “astecas”. Esta palavra é a origem do nome do respectivo país.

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