Editora: Pedra Azul
ISBN: 978-65-88494-31-8
Tradução: Andrea carvalho
Opinião: ★★★★☆
Páginas: 880
Link para compra: Clique aqui
Sinopse: O mundo
de Amy Dorrit era a Prisão dos Devedores de Marshalsea, em Londres, onde ela
nasceu e cresceu. Filha de William Dorrit, um cavalheiro culto que estava preso
por dívidas havia anos, a humilde e dedicada jovem trabalhava como costureira
para uma excêntrica dama de Londres, Mrs. Clennam, mãe de Arthur Clennam, um
generoso cavalheiro incomodado com as injustiças sociais da Inglaterra do
século XIX. Sua história começa a mudar quando Arthur, desconfiado da súbita
bondade e condescendência de sua severa mãe para com a tímida garota, começa a
investigar o que está por trás daquele lugar. Como Arthur logo descobre, a
escura sombra da prisão se estendia muito além de suas paredes.
“— E
agora, Mr. Clennam, talvez possa lhe perguntar se já decidiu para onde ir
depois daqui?
— Na
verdade, não. Sou tão livre e desgarrado de todo lugar, que estou sujeito a ser
levado para onde qualquer corrente determinar.
— É
uma surpresa para mim, mas perdoe a minha liberdade ao dizer que não vá direto
para Londres — disse Mr. Meagles em tom de conselheiro confidencial.
—
Talvez eu vá.
— Ah!
Mas eu quero dizer com anseio de ir.
— Eu
não tenho vontades. Quero dizer — ele enrubesceu um pouco. — Treinado à força;
quebrado, não curvado; marcado severamente com algo a respeito do qual nunca
fui consultado e que nunca foi meu; levado de navio para o outro lado do mundo
antes de ter a idade para tal, exilado até a morte do meu pai um ano atrás;
trabalhando em um moinho que sempre odiei. O que há de se esperar de mim na
metade da vida? Vontade, propósito, esperança? Todas essas chamas foram
apagadas antes mesmo que eu tivesse aprendido a falar.
—
Acenda-as novamente! — exclamou Mr. Meagles.
— Ah!
É fácil dizer. Sou filho, Mr. Meagles, de pais severos. Sou o único filho de
pais que pesavam, mediam e colocavam preço em tudo; para os quais nada que não
pudesse ser pesado, medido ou ter um preço estipulado existia. Pessoas
rigorosas, professores de uma religião dura. E essa mesma religião era um
deprimente sacrifício de preferências e afinidades que nunca eram as próprias,
oferecido como parte de uma barganha em troca da segurança de suas posses.
Rostos austeros, disciplina implacável, penitência neste mundo e terror no
próximo. Nada relacionado à graça ou à gentileza em lugar algum, e, em tudo, o
vazio no meu coração amedrontado. Essa foi minha infância, se é que posso usar
de forma tão incorreta a palavra para me referir a um começo de vida como
aquele.”
“—
Nós sempre começamos a perdoar um lugar assim que ele é deixado para trás. Ouso
dizer que um prisioneiro começa a se tornar menos rancoroso em relação a sua
prisão logo depois que o deixam sair.”
“O
Escritório de Circunlocução era (como todos sabiam sem que precisasse ser dito)
o departamento mais importante do governo. Nenhum negócio público de nenhum
tipo poderia ser feito em momento algum sem a aquiescência do Escritório de
Circunlocução. O seu dedo estava na cobertura dos maiores e dos menores bolos
públicos. Era igualmente impossível fazer a coisa certa, por mais simples que
fosse, ou desfazer a coisa errada, sem a autorização expressa do Escritório de
Circunlocução. Se outra Conspiração da Pólvora33 tivesse sido descoberta meia hora antes de acenderem o
fósforo, ninguém teria justificativa para salvar o parlamento até que houvesse
meia fila de diretores, meio bushel34
de atas, várias sacolas de memorandos e um jazigo de família cheio de
correspondência agramatical por parte do Escritório de Circunlocução.
Esse
glorioso estabelecimento havia sido criado há muito tempo, quando pela primeira
vez o princípio sublime que envolve a difícil arte de governar um país foi
claramente revelado para os políticos. Era primordial estudar aquela brilhante
revelação e carregar sua influência cintilante no conjunto de procedimentos
oficiais. Qualquer coisa que fosse solicitada, o Escritório de Circunlocução
estava de antemão ao lado de todos os departamentos públicos exercendo a arte
de descobrir... como não-fazer.
Com
essa delicada artimanha, com o tato com que invariavelmente empregava, com o
engenho com que sempre atuou sobre ela, o Escritório de Circunlocução passou a
estar acima de todos os departamentos públicos; e a condição pública passou a
ser... o que era.
É
verdade que como não-fazer era o grande estudo e propósito de todos os
departamentos públicos e de todos os políticos em torno do Escritório de
Circunlocução. É verdade que todo novo primeiro-ministro que surgia alegando
que algo precisava ser feito, tão logo era eleito, fazia uso de suas principais
faculdades para descobrir como não-fazer. É verdade que todo homem eleito, que
havia expressado sua fúria em palanques reclamando que aquilo não havia sido
feito, e que havia pedido para os amigos do ilustre cavalheiro de interesse
oposto, sob pena de impeachment, dizerem que havia afirmado que aquilo
precisava ser feito, e que havia prometido que aquilo seria feito, começava a
maquinar a respeito de como aquilo não seria feito assim que uma eleição geral
terminava. É verdade que os debates nas duas Câmaras do Parlamento, durante
toda a sessão, tendiam uniformemente à morosa deliberação sobre como não-fazer.
É verdade que o discurso real na abertura de tal sessão dizia praticamente:
“lordes e cavalheiros, os senhores têm um trabalho importante para fazer. Por
favor, retirem-se para os seus respectivos aposentos e reflitam sobre como
não-fazer”. É verdade que o discurso real no fechamento dessa mesma sessão
dizia praticamente: “lordes e cavalheiros, ao longo de vários árduos meses, com
grande lealdade e patriotismo, os senhores buscaram descobrir como não-fazer. E
os senhores conseguiram. Pois então, com a bênção de Deus sobre a colheita
(natural, não política), eu agora os dispenso”. Tudo isso é verdade, mas o
Escritório de Circunlocução ia além ao seguir adiante mecanicamente, todos os
dias, mantendo essa maravilhosa e infinitamente capaz roda da ciência de
governar, o como não-fazer, em movimento. Ele caía em cima de qualquer
funcionário público mal aconselhado que planejasse fazer, ou que parecesse
estar, por qualquer acidente inesperado, em remoto perigo de fazer uma minuta,
um memorando, uma carta de instruções que o aniquilaria. Era esse espírito de
eficiência nacional do Escritório de Circunlocução que o havia levado
gradualmente a estar relacionado a tudo. Mecânicos, filósofos naturais,
soldados, marinheiros, peticionários, memorialistas, pessoas com denúncias,
pessoas que queriam evitar denúncias, pessoas que queriam corrigir denúncias,
negociantes, negociados, pessoas que não conseguiam ser recompensadas por
mérito, pessoas que não conseguiam ser punidas por mérito, eram todos
indiscriminadamente enfiados debaixo dos papéis de folha de almaço do
Escritório de Circunlocução.”
33. A
Conspiração da Pólvora de 1605 foi uma tentativa de assassinato contra o rei
Jaime I da Inglaterra por parte de um grupo provinciano de católicos ingleses
liderados por Robert Catesby. O plano era explodir a Câmara dos lordes durante
a cerimônia de abertura do parlamento, sendo um prelúdio para uma revolta
popular em que a filha de Jaime seria colocada como rainha de um governo
católico. (N.E.)
34.
Unidade de medida que em volume equivale a 35,24 litros. (N.E.)
“— Escute, então. Eu sou uma mulher. Não sei nada sobre a filantropia
filosófica. Mas sei o que vi, aqui neste mundo onde me encontro. E lhe digo o
seguinte, meu amigo, existem pessoas, homens e mulheres, infelizmente, que não
têm bondade nenhuma. Existem pessoas que precisam ser abominadas sem concessão.
Existem pessoas que precisam ser tratadas como inimigas da raça humana. Existem
pessoas que não têm coração humano, e precisam ser esmagadas como monstros e
tiradas do caminho. Mas são poucas, espero.”
“— É
como sempre digo para a mãe, se somos obrigados a olhar para alguma coisa, que
seja para algo bonito!”
“A vida é assim, você vê, minha querida, apesar de não quebrarmos,
envergamos.”
“Há certa intimidade que dispensa palavras.”
“A
cadeira de rodas trazia recordações e devaneios, assim como qualquer lugar que
se torna o habitat de um ser humano. Retratos de ruas demolidas e de casas
reformadas, como costumavam ser na época em que aquela que ocupava a cadeira
estava familiarizada com elas; imagens de pessoas como haviam sido no passado,
sem que se levasse muito em consideração o tempo decorrido desde que foram
vistas. Havia provavelmente muitas outras coisas na longa rotina daqueles dias
tenebrosos que a remetiam ao passado. Parar o relógio da existência no momento
em que somos pessoalmente capturados por ela, supor que a humanidade é
acometida pela mesma imobilidade quando somos levados à estagnação, ser incapaz
de medir as mudanças, além da nossa visão, por meio de qualquer padrão maior do
que aquele atrofiado da nossa existência uniforme e contraída, são sintomas da
enfermidade de muitos inválidos e da falta de saúde mental de quase todos os
reclusos.”
“— A maioria dos homens acaba se desapontando na vida de um jeito ou de
outro; e somos todos influenciados por nossos desapontamentos. Mas, no fim,
este é um mundo bom e querido, e eu o amo!”
“O pior tipo de cálculo realizado no universo cotidiano é feito pelos
aritméticos enfermos que estão sempre focados na regra de subtração no tocante
aos méritos e sucessos dos outros e nunca na adição dos deles próprios.”
“Não há como jogar com a verdade sem a
dedicação de tempo e cuidado, seja lá qual for o jogo, sem deixar as coisas
ainda piores.”
“— Precisamos
de farsas, todos gostamos delas, não poderíamos seguir adiante se elas não
existissem. Um pouco de farsa, alguma rotina e tudo segue de maneira admirável
se deixarmos a coisa em paz.”
“— Em
verdade, em verdade, viajantes já viram muitos ídolos monstruosos em muitos
países, mas nenhum olho humano jamais viu imagens mais ousadas, repugnantes e
chocantes da natureza divina do que aquelas que nós, criaturas do pó, criamos,
a nossa imagem e semelhança, a partir das nossas terríveis paixões.”

Nenhum comentário:
Postar um comentário