terça-feira, 20 de julho de 2010

Por quem os sinos dobram – Ernest Hemingway

Editora: Bertand Brasil
ISBN: 978-85-2860-932-5
Opinião: ★★★★☆
Páginas: 624

     “Nenhum homem é uma Ilha, um ser inteiro em si mesmo; todo homem é uma partícula do Continente, uma parte da terra. Se um Pequeno Torrão carregado pelo Mar deixa menor a Europa, como se todo um Promontório fosse, ou a Herdade de um amigo seu, ou até mesmo a sua própria, também a morte de um único homem me diminui, porque Eu pertenço à Humanidade. Portanto, nunca procures saber por quem os sinos dobram. Eles dobram por ti.”
John Donne (1572-1631), poeta e padre anglicano – Meditação XVII, de cujo excerto acima Ernest Hemingway retirou o título da presente obra: Por quem os sinos dobram.

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     “– E não significa nada para ti ser caçada como um animal depois que isso acontecer, esse negócio do qual não teremos nenhum lucro? Não se importa se morrer nisso?
     – Não! E não tente me assustar, seu covarde.
     – Covarde? – disse o marido com amargura. – Chama um homem de covarde porque tem senso tático. Porque pode prever o resultado de uma idiotice. Não é covardia saber o que é uma estupidez.
     – Nem é idiotice saber o que é covardia – interferiu Anselmo, sem conseguir furtar-se à frase de efeito.”


     “– É verdade que ela não tem doença. Podia até ter. Não sei como não pegou. Talvez Deus ainda exista, embora O tenhamos abolido.”


     “– Escute – disse a mulher. – Eu não sou covarde, mas vejo as coisas muito claras pela manhã, e acho que tem muita gente viva que conhecemos que não verá outro domingo.
     – Que dia é hoje?
     – Domingo.
     – Que va – disse Robert Jordan. – O outro domingo está muito longe. Se virmos a quarta-feira, já estaremos muito bem. Mas não gosto de ouvi-la falando assim.
     – Todos precisam ter alguém para conversar – disse a mulher. – Antes, tínhamos a religião e outras coisas sem sentido. Agora, cada um precisa ter com quem falar abertamente. Pois quanto mais bravura alguém tiver, mais solitário vai ficando.”


      “O fanatismo é uma coisa singular. Ser fanático requer absoluta certeza de que você está correto, e nada estimula a certeza e a correção como a castidade. A castidade é a inimiga da heresia.”


     “– Não – disse Pablo. – Não é verdade. Se todos tivessem matado os fascistas como eu matei, não estaríamos nesta guerra. Mas não deixaria acontecer como aconteceu.
     – Por que você diz isto? – perguntou Primitivo. – Está mudando a sua política?
     – Não. Mas aquilo foi uma barbaridade – disse Pablo. – Naquele tempo eu era muito bárbaro.
     – E hoje você é um bêbado – disse Pilar.
     – Sou – disse Pablo. – Com a sua permissão.
     – Gostava mais de você quando era bárbaro – disse a mulher. – De todos os homens, o bêbado é o mais idiota. O ladrão, quando não está roubando, é igual a qualquer outro. O chantagista não opera em casa. O assassino, quando está em casa, pode lavar as mãos. Mas o bêbado fede e vomita na sua própria cama, e dissolve seus órgãos no álcool.
     – Você é uma mulher, você não entende – disse Pablo, tranquilamente. – Estou bêbado de vinho e seria feliz, se não fosse por causa daquelas pessoas que matei. Todas elas me enchem de remorso – balançou a cabeça, lobregamente.”


      “Em ambos os lugares se tinha a sensação de estar fazendo parte de uma cruzada. Esta era a única palavra para descrevê-la, mas fora tão usada e desgastada de tal forma que perdera o seu verdadeiro significado.”


      “Dava para sentir, a despeito dos entraves burocráticos, da ineficiência e conflitos do partido, alguma coisa parecida com aquilo que esperava sentir na primeira comunhão e não conseguiu alcançar. Era um sentimento de consagração para o dever com respeito a todos os oprimidos do mundo, tão difícil e embaraçoso de se explicar quanto as experiências religiosas, e mesmo assim era autêntico, como a sensação que se tinha ao ouvir Bach, ou ficar na Catedral de Chartres, ou na Catedral de Lyon, e ver a luz passar pelas grandes janelas, ou ver Mantegna, e Greco e Brueghel no Prado. É algo que transmite a você um sentimento de pertencimento a uma coisa em que você acredita integralmente, na qual vislumbra uma fraternidade absoluta, compartilhada com os demais que estivessem engajados. É uma experiência nunca vista, mas que você experimenta, então, e acaba dando tanta importância a ela, e as suas razões, que a sua própria morte não importa mais – torna-se apenas algo a ser evitado, para garantir o cumprimento do dever. Mas o melhor de tudo é que você pode fazer algo de concreto com esse sentimento e essa necessidade. Você pode lutar.”
      “Então você lutou. E com a luta, bem cedo, acabou a pureza de sentimento para aqueles que lutaram bem e sobreviveram. Antes dos primeiros seis meses”.”


     “– Gosto mais do front – dissera Robert Jordan. – Quanto mais perto do front, melhores as pessoas.”
  

      “Numa guerra não se pode dizer o que a gente sente.”

2 comentários:

J. Costa Jr. disse...

O bom e sempre jovem Ernie, com quem aprendi muito.
Feliz a tua escolha, blogueiro. Parabéns.

Doney Stinguel disse...

Uma outra acepção do título:
http://politicanadaimparcial.blogspot.com.br/2008/12/texto-lido-na-cerimnia-de-encerramento.html