A conversão de São Paulo

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segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

A menina que roubava livros - Markus Zusak

Editora: Intrínseca
ISBN: 8598078174
Opinião: ****
Páginas: 494

     “Os empobrecidos sempre tentam continuar andando, como se a relocação ajudasse. Desconhecem a realidade de que uma nova versão do mesmo velho problema estará à sua espera no fim da viagem – aquele parente que a gente evita beijar.


     “Como a maioria dos sofrimentos, esse começou com uma aparente felicidade.


     “Mas, afinal, será que é covardia reconhecer o medo?”


     Uma oportunidade conduz diretamente à outra, assim como o risco leva a mais risco, a vida, a mais vida, e a morte, a mais morte...


     “Que grande maldade havia em se deixar uma coisa viva!”


     “A morte não espera por ninguém – e, quando espera, em geral não é por muito tempo.


     “Muito bem que eles compartilhassem o pão e a música, mas, para Liesel, era bom saber que Hans também era mais do que competente em sua ocupação. A competência era atraente.


     “Não, pensou Liesel, enquanto andava. É o meu coração que está cansado. Um coração de treze anos não devia sentir-se assim.


     “O ser humano não tem um coração como o meu. O coração humano é uma linha, ao passo que o meu é um círculo, e tenho a capacidade interminável de estar no lugar certo na hora certa. A conseqüência disso é que estou sempre achando seres humanos no que eles têm de melhor e pior. Vejo sua feiúra e beleza, e me pergunto como uma mesma coisa pode ser duas. Mas eles têm uma coisa que eu invejo. Que mais não seja, os humanos têm o bom senso de morrer.


     “Os seres humanos me assombram.

terça-feira, 27 de novembro de 2007

Nedjma - Amêndoa

Editora: Objetiva
ISBN: 8573026367
Opinião: ***
Páginas: 208


     “No Livro de Contabilidade que o Eterno mantém, os homens certamente estão inscritos no capítulo dos Fanfarrões”.


     “Eu até disse a mim mesma que a liberdade era mais embriagadora que a primavera”.


     “O pecado! Eles (os religiosos) só têm esta palavra na boca”.


     “Felicidade? Felicidade é fazer amor por amor. É o coração quase explodindo de tanto palpitar quando um olhar único pousa em sua boca, quando uma mão deixa um pouco de seu suor atrás de seu joelho esquerdo. É a saliva do ser amado que lhe escorre na garganta, doce, transparente. É o pescoço que se alonga, desfaz seus nós e seus cansaços, vira o infinito porque uma língua o percorrem em toda sua extensão. É o lóbulo da orelha que pulsa como um quadril. São as costas que deliram e inventam sons e arrepios para dizer “eu te amo”. É a perna que levanta, aquiescente, a calcinha que cai como uma folha, inútil e incômoda. É uma mão que penetra a floresta dos cabelos, desperta as raízes da cabeça e as rega, generosamente, com sua ternura. É o terror de dever se abrir e a incrível força de se oferecer, quando tudo no mundo é pretexto para chorar. Felicidade é Driss, teso pela primeira vez dentro de mim, e cujas lágrimas pingavam no meu ombro. Felicidade era ele. Era eu.
     O resto eram apenas fossas comuns e descargas públicas”.


     “Com cuidado, depois cada vez mais freneticamente, torno a explorá-lo, coroado de uma virgindade desprezível e magnífica. Ele quer isso. Não tenho Driss nem a cenoura de Bornia na mão. Pego-o e colho-o, severa. Ele pede mais. A extremidade do clitóris desponta, solta, como uma língua de fogo. Sucumbo. Quero isso. Quero a mim. Com o polegar, provoco a ereção sublime. Meu clitóris se escora no indicador caridoso e compreensivo que sustenta sua rigidez. Sua embriaguez. Comprimo essa massa de água e fogo para puni-la. Meu sexo me venceu. Está feliz e vibro até os dedos dos pés com sua felicidade. Mais que tudo, é a superfície macia e branca que me emociona. Gozo com e por esse sexo nu que caçoa de mim. Ele é tão lindo que compreendo que queiram enfiar a língua nele. Não me masturbo: faço amor com o bicho abençoado que goza sem vergonha nos meus dedos. Ele não pára de escorrer e eu de lhe dizer: “Mais... Mais.” É de morrer de rir: apaixonei-me por minha própria boceta. Em uma noite, dei um passo de sete léguas, atravessei o espelho para finalmente me encontrar”.


     “Se nunca pude pôr um filho no mundo, foi por não ter encontrado o pai que o protegesse dele”.


     “Uma boceta tem mais necessidade de duas picas que uma pica de duas bocetas”.


     “Cada boceta traz, desde que nasce, os nomes de quem vai comê-la”.


    “- Por que você não se casou?
     - Pelas mesmas razões que você, imagino. Liberdade demais, orgulho demais, tudo demais”.


     “Diante dos pecados de uma mulher, os anjos são somente homens iguais aos outros”.

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Sistema das Contradições Econômicas ou Filosofia da Miséria - J.P. Proudhon (Tomo I)

Editora: Escala
ISBN: 9788575568934
Opinião: ***
Páginas: 394

     “Obrigar-me ao devotamento é me assassinar! Deus! Não conheço Deus, é mais um misticismo. Comecem por riscar esta palavra de seus discursos se quiserem que os escute, pois, três mil anos de experiência me ensinaram que qualquer um que fale de Deus deseja minha liberdade ou minha bolsa.


     “Quando o povo não tem mais vingança, não tem mais providência.


     (aos detentores do monopólio): “Se seu suplício devesse durar tanto quanto o meu desprezo, deveriam acreditar na eternidade do inferno.


     “Ó justiça dos homens, cortesã estúpida, até quando sob teus ouropéis de deusa, beberás o sangue do proletário degolado?”


     “Os juros, ou direito de ganhos inesperados, é ao mesmo tempo a expressão e a condenação do monopólio; é a espoliação do trabalho pelo capital organizado e legalizado; de todas as subversões econômicas é a que acusa mais frontalmente a antiga sociedade e cuja escandalosa persistência justificaria a expropriação brusca e sem indenização de toda a classe capitalista.


     “Não há nada no socialismo que não se encontre na economia política; e este plágio perpétuo é a condenação irrevogável de ambos.


     “O socialismo, desertando da crítica para entregar-se à peroração e à utopia, mesclando-se nas intrigas políticas e religiosas, traiu sua missão e menosprezou o caráter do século. A revolução de 1830 nos havia desmoralizado, o socialismo nos efemina. Com a economia política, cujas contradições apenas repisa, o socialismo é impotente para satisfazer o movimento das inteligências; não é mais, naqueles que subjuga, senão um novo preconceito a destruir e, naqueles que o propagam, um charlatanismo a desmascarar, tanto mais perigoso porque quase sempre é praticado de boa-fé.


     “Graças ao imposto, o ano inteiro é quaresma para o trabalhador; e sua ceia pascal não chega perto do café da manhã de sexta-feira santa do senhor bispo.


     “É igualmente impossível que numa sociedade fundada sobre o princípio de propriedade não se termine pela distinção de castas, que numa democracia não chegue ao despotismo, que uma religião seja razoável e que o fanatismo se mostre tolerante. É a lei da contradição, quanto tempo será ainda necessário para entendê-la?”


     “É uma triste verdade que na sociedade o bem geral nunca é o efeito de uma conspiração das vontades particulares!


     “A justiça criminal (...) se tornou para a sociedade um princípio de existência tão necessário como o pão é para a vida do homem; mas com a diferença de que o homem vive do produto de suas mãos, ao passo que a sociedade devora seus membros e se alimenta de sua própria carne.


     “De fato, a partir do momento em que as condições constitutivas do poder, isto é, a autoridade, a propriedade, a hierarquia, são conservadas, o sufrágio do povo nada mais é que o consentimento do povo a sua opressão; o que revela o mais torno charlatanismo.


     “Essa é a guerra que têm que sustentar: guerra do trabalho contra o capital, guerra da liberdade contra a autoridade, guerra do produtor contra o improdutivo, guerra da igualdade contra o privilégio. O que pedem, para conduzir a guerra a bom termo, é precisamente contra que devem combater. Ora, para combater e reduzir o poder, para colocá-lo no lugar que lhe convém na sociedade, de nada serve mudar os depositários do poder, nem trazer alguma variante em suas manobras: é necessário encontrar uma combinação agrícola e industrial por meio da qual o poder, hoje denominador da sociedade, se torne seu escravo.


     “O povo é o primeiro a acusar os pobres de vagabundagem.


     “O homem é tirano ou escravo por vontade, antes de sê-lo pela sorte; o coração do proletário é como aquele do rico, um esgoto de sensualidade fervilhante, um lar de crápulas e de impostura.


     “Já se viu um capitalista, cansado de ganhar, conspirar para o bem geral e fazer da emancipação do proletariado sua última especulação?”


     “O homem, súmula do universo, resume e sintetiza em sua pessoa todas as virtualidades do ser, todas as cisões do absoluto; é o topo onde essas virtualidades, que só existem por sua divergência, se reúnem em feixe, mas sem se penetrar nem se confundir.


     “Deus, que a fé apresenta como um pai terno e mestre prudente, nos entrega à fatalidade de nossas concepções incompletas; cava o fosso sob nossos pés; ele nos faz caminhar como cegos e depois, a cada queda, nos pune como celerados. Que digo? Parece que seja apesar dele que, no fim, totalmente contundidos pela viagem, reconhecemos nossos caminhos, como se fosse ofender sua glória nos tornarmos, pelas provas que ele nos impõe, mais inteligentes e mais livres. (...) Certamente, creio ter provado que o abandono da providência não nos justifica, mas, qualquer que seja nosso crime, não somos culpados diante dela e, se há um ser que, antes de nós e mais que nós, tenha merecido o inferno, é realmente necessário que o diga: É Deus.

terça-feira, 23 de outubro de 2007

A Sombra do Silêncio - Mino Carta

Editora: Francis
ISBN: 9788589362191
Opinião: ****
Páginas: 224

     “Para ter compaixão pelos homens é preciso compadecer-se de Deus.


     “As mãos navegam em meio ao arquipélago luminescente, há todo o tempo da solidão na pescaria das emoções. Achado o ancoradouro temporário, tornam-se doces prumos, nem agora ansiosos, agrada-as a ausência da pressa ao vasculhar a súbita ilha de lembranças em busca da imagem que convém ao momento.


     “A classe média é egoísta, ignorante, o povo, manso e lerdo...”


     “Sim, os homens... Você sabe que eles são iguais a nós, não sabe? Gente inconfiável, para dizer o mínimo.


     “Eis o pior momento do leitor de mãos, a sina do espião trágico, a descoberta em si mesmo da desgraça alheia.


     “Eu sei, sei bem demais que o amor é mais uma utopia, e eu a temo, a utopia...”


     “Naquela noite decide caminhar pela cidade, que vagarosamente se abre ante seu passo e pressente ser aquele um dos últimos passeios tranqüilos de um notívago. Das vísceras da terra ofendida, das memórias destruídas, da floresta abatida, da desigualdade consagrada, nasceriam os demônios que transitam entre a doença e o pesadelo.


     “Você é um anárquico cujos heróis são cavaleiros de ventura. Às vezes pensa dispor de um ideário complexo e bem articulado, mesmo porque leu uns livros e deu ouvidos a determinadas pregações, mas tudo se resume na natural compaixão, natural para gente como nós, pelos humilhados e ofendidos. E pelo natural desprezo pelos donos do poder. No fundo é uma postura aristocrática... a seu modo...”


     “Nada tenho a revelar, apenas aconselho: abandone-se ao enredo do destino, relaxe e se entregue, na vida e na morte. Confie no sentido da falta de sentido.

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

A Caixa-preta - Amós Oz

Editora: Companhia de Bolso
ISBN: 9788535910674
Opinião: ****
Páginas: 272
     “Quando a batalha está no auge, não há mais sentido nas regras iniciais. Em todo caso, o inimigo não conhece as regras e não age de acordo com elas”.


      “Seu silêncio é transparente para mim, como as lágrimas”.


      “As coisas primordiais das quais você foi banido para sempre, exilado nas estepes da escuridão pelas quais você vaga uivando para uma lua morta, perambulando entre a brancura, procurando nos confins da tundra alguma coisa perdida há muito tempo, mesmo que você já tenha esquecido o que perdeu e quando e por que a perdeu: “A sua vida é a sua prisão, enquanto a sua morte aparece como uma perspectiva de ressurreição paradoxal, como uma promessa de maravilhosa redenção do seu vale de lágrimas”. A citação é tirada do seu livro. O lobo uivando na escuridão para a lua na estepe é a minha contribuição”.


      “O diabo infiltra-se em tudo”.


      “Por acaso a senhora sabe onde fica a cidade de Simferopol? Houve uma batalha terrível lá. Rapazes foram mortos como moscas. E quem não foi morto perdeu Deus”.


      “Uma vez eu também amei uma mulher. Cheguei a obrigá-la a se casar comigo. Embora ela não sentisse desejo por mim. Talvez ela desejasse um poeta? Quanto a mim – como direi? –, do umbigo para cima estava apaixonado, fazendo serenatas, oferecendo lenços e flores, mas do umbigo para baixo, porco da terra de porcos. Levantando saias a torto e a direito pelos campos. E ela, minha bem-amada, minha esposa, ficava o dia todo sentada na janela. Ela cantava uma musiquinha: ‘Lá onde os cedros crescem...’. Por acaso você conhece a música? Permita que eu cante em sua homenagem: ‘Lá onde os cedros crescem...’. Tome cuidado com músicas assim. Foi o anjo da morte que as compôs. E ela, com a intenção de me castigar, morreu. Para me contrariar. Ela me deixou e foi para Deus. Ela não sabia que Ele também é um porco. Ela se deu mal”.


      “Os judeus construíram um país. Não é um país correto, mas construíram! Sem Deus – mas construíram! Agora vamos esperar e ver o que Deus diz disso”.


      “‘Amarás o próximo como a ti mesmo’ – mas se o ódio por si próprio já o tiver devorado, esta ordem carrega-se de uma ironia mortal”.


      “Eu também saí para andar pelas ruas. Subi a colina para ver o pôr-do-sol e fazer perguntas proibidas. A única resposta que recebi foi o sussurro das árvores. Talvez fosse tudo um engano? Talvez o Jardim do Éden, o Dilúvio, o Monte Moriá e a Sarça Ardente nunca tenham existido, foram apenas uma mera alegoria? Talvez os grandes estudiosos tenham errado nas suas identificações, e a antiga Jerusalém não é aqui, a Terra de Israel bíblica, mas em algum lugar totalmente diferente? Para além das colinas de trevas? Não poderia ter ocorrido um erro assim? Os cientistas não erram? Talvez seja por isto que D’us não existe neste lugar?


      “Durante nove anos lutei contra Maquiavel, desmontei Hobbes e Locke, desfiz todas as costuras de Marx, ardendo com o desejo de provar de uma vez por todas que não são o egoísmo, nem a baixeza ou a crueldade da nossa natureza que nos transformam numa espécie que destrói a si própria. Nós aniquilamos a nós próprios (e breve exterminaremos todos os da nossa espécie) justamente devido aos nossos “anseios superiores”, devido à doença religiosa. Por causa da necessidade ardente de “ser redimido”. Devido à obsessão pela “redenção”. O que é a obsessão pela redenção? Apenas uma máscara que esconde a ausência absoluta de talento básico para a vida. É o talento que todo gato possui. Quanto a nós, como as baleias que se atiram contra a praia num impulso coletivo, sofremos de uma avançada degeneração do talento para a vida. Daí a vontade popular de destruir e exterminar o que temos, para abrir caminho até regiões de redenção que jamais existiram e não são sequer possíveis”.


      “Eu serei deixada sozinha para velar os tormentos da morte”.


      “Diga em suas orações, Michel, que a solidão, o desejo e a saudade são mais do que conseguimos suportar. E sem eles, perecemos. Diga que tentamos receber e dar amor, mas nos perdemos no caminho. Diga que não nos esqueçam e que continuamos a cintilar na escuridão. Tente esclarecer como podemos sair. E onde fica aquela terra prometida.
     Ou não. Não reze”. 

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

Norte Verdadeiro: Peary, Cook e a Corrida ao Pólo - Bruce Henderson

Editora: Objetiva
ISBN: 8573027428
Opinião: ***
Páginas: 356

     “Imerso naquela cultura, Cook já se parecia com um esquimó; deixou de cortar o cabelo e trocou as roupas de lã pelas peles mais quentes que os nativos usavam no inverno. Através deles soube que não adotavam qualquer forma de governo, conselho, nem possuíam chefes tribais. Não tinham sacerdotes e seus conceitos de religião eram elementares, a maioria relacionada a espíritos maus. Não acreditavam ter sido criados por um deus onipotente, embora tivessem a própria versão de Adão e Eva e da criação. Segundo a tradição esquimó, houve um dilúvio que dizimou quase toda a espécie humana. Um homem sobreviveu e mais tarde, encontrando-se numa montanha, bateu numa pedra com um bastão de madeira. A pedra transformou-se numa mulher. Esse casal deu origem a todos os seres humanos. Para o esquimó, a noção de Paraíso vinculava-se ao conforto. O Paraíso, conforme a descrição feita pelos nativos, era um local onde a paisagem era acidentada como aquelas às quais estavam acostumados, mas com sol eterno, riachos de águas límpidas e morsas, renas e aves em quantidade. Não tinham leis, nem tribais nem de qualquer outro tipo – cada família era regida pelo homem, que podia resolver, mediante o consentimento de outro homem casado, trocar de mulher. Caso não se chegasse a um consenso, os homens lutavam e o vencedor ficava com as duas mulheres”.


      “Com o nascimento de bebês, no território esquimó, durante aquele inverno, Cook ficou sabendo que o atendimento de um médico não era nem requisitado, nem desejado. A sobrevivência do mais forte começava no nascimento. Quando uma mulher entrava em trabalho de parto e estava prestes a dar à luz, era conduzida a um iglu onde permanecia sozinha com a quantidade suficiente de óleo, gordura de baleia e carne congelada para duas semanas. Se ela sobrevivesse e o choro do bebê fosse ouvido, os demais se aproximavam para dar assistência à mãe e à criança. Se tudo silenciasse no iglu, este era fechado para sempre”.


      “Quanto aos bebês que nasciam, Cook observou que nos dois primeiros anos a criança não usava roupa nenhuma da cintura para baixo e era carregada dentro de uma sacola às costas da mãe, junto ao calor do seu corpo. Uma criança era amamentada durante quatro ou seis anos, ou até que a mãe tivesse outro bebê; normalmente a diferença de idade entre as crianças era de quatro anos. Quando nasciam gêmeos, ambos eram mortos, pois se considerava impossível que a mãe carregasse e cuidasse de duas crianças. Quando morria a mãe ou o pai de uma criança com menos de três anos de idade, esta era estrangulada com uma tira de couro de foca. O gesto não era considerado cruel ou desapiedado e sim a fatalidade mais rápida que poderia se abater sobre tal criança diante de um mundo implacável. Ter pai e mãe era fator decisivo para uma criança, escreveu Cook, “numa região onde não existe animal ou vegetal vivos, durante meses seguidos, para se manter uma família. É preciso que estejam presentes o pai para caçar focas e a mãe para criar o bebê, até que ele tenha idade suficiente para cuidar de si mesmo. Todos os esquimós lamentam o costume que lhes foi transmitido pelos ancestrais, mas admitem sua necessidade”.


      “A relutância dos esquimós em percorrer a calota de gelo não se baseava apenas na superstição e no temor aos espíritos maus, era também uma questão de bom senso. Desde os primórdios da exploração, os nativos do Ártico jamais compreenderam o interesse dos visitantes brancos em explorar regiões áridas, isoladas. Por longo tempo, os nativos sobreviveram ao rigor do frio, aprendendo a buscar a caça, normalmente no litoral ou nas proximidades, ou procurando simplificar a vida, em vez de dificultá-la. Quando se deparavam com grupos de homens brancos, provenientes de terras distantes, dirigindo-se a regiões onde era grande a possibilidade de passar fome e morrer, não se inclinavam a acompanhá-los”.


      “Cheguei onde não havia qualquer longitude”. (Cook)

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

O Coração das Trevas - Joseph Conrad

Editora: L&PM
ISBN: 8525406767
Opinião: ****
Páginas: 148
     “Nos trópicos, deve-se antes de tudo, manter a calma.”


     “É estranho como as mulheres não têm contato com a verdade. Vivem num mundo próprio, que nunca existiu, que nunca existirá. É, no todo, bonito demais, e, se elas fossem construí-lo, cairia em pedaços antes do primeiro pôr-do-sol. Teria início algo abominável, com o qual nós homens temos convivido satisfatoriamente desde o início da Criação, e derrubaria a coisa toda.”


     “Há um laivo de morte, um gosto macabro em mentiras – e é exatamente isso o que detesto no mundo -, o que procuro esquecer. Faz-me sentir péssimo, doente, como se mordesse uma coisa podre.”


     “Nenhum medo pode suportar a fome, nenhuma paciência pode esgotá-la, a repugnância simplesmente não existe onde há fome; e quanto a superstições, crenças e o que se poderia chamar de princípios são menos do que palha soprada pelo vento.”


     “Coisa engraçada é a vida – misterioso arranjo de lógica implacável para um propósito fútil. O máximo que você pode esperar dela é algum conhecimento de si próprio... que chega tarde demais... uma colheita de inesgotáveis arrependimentos. Eu havia lutado com a morte. É o combate mais desinteressante que se pode imaginar. Acontece numa impalpável zona cinzenta, com nada sob os pés, nada ao redor, sem espectadores, sem clamor, sem glória, sem o grande desejo de vitória, sem o grande medo da derrota, numa atmosfera doentia de tépido ceticismo, sem muita fé em nossos próprios direitos, e menos ainda nos do seu adversário. Se tal é a forma da última e definitiva sabedoria, então a vida é um quebra-cabeça maior do que alguns de nós supõem que seja. Eu estava a milímetros da minha última oportunidade para fazer um pronunciamento, e descobri, com humilhação, que provavelmente não teria nada para dizer.”


     “Achei-me de volta à cidade sepulcral, ressentindo a visão de pessoas com pressa nas ruas para roubar um pouco de dinheiro umas das outras, devorar sua infame cozinha, engolir sua cerveja insalubre, sonhar seus sonhos insignificantes e tolos. Atropelaram meus pensamentos. Eram intrusos cujo conhecimento da vida era para mim uma pretensão irritante, porque me sentia bastante seguro de que não tinham condição de saber as coisas que eu sabia.”

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

Elite da Tropa - Luiz Eduardo Soares-André Batista-Rodrigo Pimentel

Editora: Objetiva
ISBN: 8573027738
Opinião: ***
Páginas: 312
     “A verdade tem de ser convocada a aparecer, e ela só baixa no cavalo desbocado, que se recusa a filtrar a voz que vem do coração.”


     “O sangue é um veneno. Quanto mais se derrama, mais fertiliza o ódio. E a roda não pára de girar.”


     “A memória, às vezes, parece um cofre em que a gente é enterrado vivo.”


     “Além do mais, a gente vai ficando velho e o coração vai ficando mole.”


     “A realidade é foda. Foda. É tiro, sangue, bosta, massa encefálica espalhada, misturada com feto que desce o esgoto a céu aberto. Estado, política, polícia, justiça, é tudo ficção, Licinha. História da carochinha. Chamar os presos de criminosos é correto, claro; mas também não é. Eu aceito chamá-los assim, se a gente combinar que também vai chamar o Estado de criminoso. E a justiça, a polícia, a política, toda essa bosta. Se não valer para todos, eu não concordo, porque os bandidos de Bangu I não são piores que os bandidos que o prenderam. E a sociedade em que eles cresceram fez deles o que são. Esta bosta de sociedade que a gente vive.”


“Homens de preto,
Qual é sua missão?
É invadir favela
E deixar corpo no chão.”

“Você sabe quem eu sou?
Sou o maldito cão de guerra.
Sou treinado para matar.
Mesmo que custe minha vida,
a missão será cumprida,
seja ela onde for
- espalhando a violência, a morte e o terror.”

“Sou aquele combatente,
que tem o rosto mascarado;
uma tarja negra e amarela,
que ostento em meus braços
me faz ser incomum:
um mensageiro da morte.
Posso provar que sou um forte
Isso se você viver
Eu sou... herói da nação.”

“Alegria, alegria
sinto no meu coração,
pois já raiou um novo dia,
já vou cumprir minha missão.
Vou me infiltrar na favela
com meu fuzil na mão
vou combater o inimigo,
provocar destruição.”

“Se perguntas de onde venho
e qual é minha missão:
trago a morte e o desespero,
e a total destruição.”

“Sangue frio em minhas veias,
congelou meu coração,
nós não temos sentimentos,
nem tampouco compaixão,
nós amamos os cursados
e odiamos pés-de-cão*.”

“Comandos, comandos,
e o que mais vocês são?
Somos apenas
malditos cães de guerra
somos apenas
Selvagens cães de guerra.”

*Cursados são os membros do BOPE; pés-de-cão são os policiais militares convencionais.

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

O Castelo de Âmbar - Mino Carta

Editora: Record
ISBN: 8501060208
Opinião: ****
Páginas: 400

     “Lembro que certa vez Deus entrou na nossa conversa, com todos os adendos e contornos possíveis, imortalidade da alma inclusive, e você riu quando sentenciei: Deus é o Grande Humorista. Falamos também de Cristo e duvidamos que ele pudesse se apresentar como um filho de um Deus tão pouco interessado no destino dos homens.


     “De todo modo, meu pai me instruiu: “A questão é a seguinte: Maomé não somente veio à montanha, mas também tratou de se tornar, prontamente, montanhês”.


     “Então, naquele retorno ondeante e clangoroso para casa, pensava muito na morte, como, creio, convém aos jovens, sem encontrar consolo no rosto do cobrador.


     “Outro editor judeu estabelecido no Brasil, Adolpho Bloch, reprochava os Civita com vitupério, por se terem convertido. Em lugar de lhes pronunciar o sobrenome, dizia “os cagões” como se fosse sinônimo. O pai de Mino (Carta) os via de outra maneira. “Este Roberto”, observava, “é um dos poucos judeus néscios que conheci na vida”.


     “Se o lago de Tiberíades fosse igual ao Tietê, a caminhada de Cristo sobre a água não seria um milagre.


     “A pasta da justiça é de importância vital no Brasil, onde se recomenda tecer o imbróglio jurídico sempre que a oligarquia quer justificar legalmente seu enésimo desmando.


     “Se os militares me pedirem para arriar as calças, eu executo – proclama Victor Civita. Volta a sentar-se, e soletra, absurdamente solene: - Quero deixar bem claro aos senhores!”


     (Mino Carta)... – “porque esta claro nesta editora não trabalho mais, (...) é impossível conviver com seu filho, um cretino...
      Não diga isso implorou Vici (Victor Civita) –, diga ingênuo.


     “Reparem: a nossa imprensa serve ao poder porque o integra compactamente, mesmo quando, no dia-a-dia, toma posições contra o governo ou contra um ou outro poderoso. As conveniências de todos aqueles que têm direito a assento à mesa do poder entrelaçam-se indissoluvelmente.


     “No fundo, mesmo os que chamamos de elite tem consciência de escravo, os militares também.


     “Atrás do palco é que NH (FHC) se notabiliza até a excelência, mestre das manobras do conchavo, piloto das águas manhosas, tecelão impagável das urdiduras inefáveis para subir na vida. “Tirem este homem de perto de mim, é a maior goela da política”, disse Diamantino (Tancredo Neves) quando lhe sugeriram NH para ministro.


     “De hábito – dizia meu pai –, homens que não se permitem dúvidas em relação a si mesmos tendem a considerar seus semelhantes um bando de cretinos.


     “Não sei se é o caso de dar conselhos a esta hora, mas, de hábito, recomendo lutar, lutar sem esmorecimento, contra o medo e a esperança, são os males que afligem o homem, neles se alinha o coração tenebroso da nossa escravidão. (...) Repare: o medo é hostil à razão, a qual, por seu lado, é uma bomba atirada contra o império político-tecnológico. Quanto a esperança, costuma ser fuga do mundo, álibi da ignorância, instrumento de resignação e obediência.

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

A Arte da Guerra - Sun Tzu

Editora: L&PM
ISBN: 9788537001943
Opinião: ***
Páginas: 147
     “Toda guerra baseia-se no logro. Portanto, quando capaz, finja incapacidade; quando ativo, inatividade. Quando próximo, faça parecer que está muito longe; quando longe, que está próximo. Ofereça ao inimigo uma isca para atraí-lo; finja desordem e o golpeie. (...) Se alguém quer fingir desordem para atrair o inimigo, tem de agir com muita disciplina. Somente nesta condição pode fingir confusão. Quem deseja simular covardia e fica a espera do inimigo, deverá ser corajoso, pois só então é capaz de simular medo. E o que deseja parecer fraco, para evocar arrogância do inimigo, precisa ser extremamente forte. Só assim pode fingir fraqueza”.


     “Se a noite o acampamento do inimigo está rumoroso, ele está com medo”.


     “Não ataque as tropas de elite do inimigo”.


     “A invencibilidade reside na defesa; a possibilidade de vitória no ataque”.