A conversão de São Paulo

A conversão de São Paulo
A conversão de São Paulo

sábado, 30 de abril de 2016

Edda poética: Baladas divinas (I) – Autoria Desconhecida

Editora: livro distribuído
Tradução e notas: Marcio Alessandro Moreira
Opinião: **
Páginas: 169

Poemas: A Völuspá (“A Profecia da Vidente”) / O Hávamál (“As Palavras do Altíssimo”) / O Vafþrúðnismál (“Os Dizeres de Vafþrúðnir”) / O Grímnismál (“Os Dizeres de Grímnir”) / O Skírnismál (“Os Dizeres de Skírnir”) / O Hárbarðsljóð (“A Canção de Hárbarðr”) / O Hymiskviða (“A Canção de Hymir”) / O Lokasenna (“A Discórdia de Loki”) / O Þrymskviða (“A Canção de Þrymr”) / O Völundarkviða (“A Canção de Völundr”) / O Alvíssmál (“As Palavras de Alvíss”) / O Þórsdrápa (“Louvor a Þórr”) / O Hrafnagalðr Óðins (“O Canto do Corvo de Óðinn”) ou Forspjallsljóð (“Poema Prelúdio”) / Baldrs Draumar (“Os Sonhos de Baldr”) ou Vegtamskviða (“A Canção de Vegtamr”) / O Rígsþula (“A Canção de Rígr”) 


Völuspá – A Profecia da Vidente

24- “Óðinn atirou sua lança
e atravessou à extremidade do povo,
essa foi à primeira guerra,
a primeira do mundo;
quebrado foi o muro
da fortaleza dos Æsir*,
vigorosamente os guerreiros Vanir
andaram na planície.”
*: clã de deuses criadores da humanidade, Óðinn, Hænir e Lóðurr, mas em outra história são os filhos de Borr. São inimigos dos Vanir.

25-“Então todos os Regin
se sentaram em suas cadeiras,
as divindades sagradas
para debaterem sobre isso:
Quem tinha envenenado todo o ar
e o misturado com maldade,
e aos Jötnar* terem
dado a donzela de Óðr**.”
*: Os Gigantes.
**: Freyja é a esposa de Óðr.

26- “Þórr sozinho ali lutou
com furiosa raiva,
– ele raramente se senta, –
quando ele ouve tais coisas;
então os votos,
os juramentos e palavras
e todos os poderosos acordos
entre eles foram quebrados.”

38- “Um salão ela viu
longe da Sól*
em Náströnd,
com as portas ao norte;
veneno estava pingando
do teto,
e abaixo no salão
estava tecido com serpentes.”
*: Sól é feminino no norte.

39- “Ela viu um local para atravessar
através de rios selvagens,
homens mentirosos
e cães assassinos
e os que seduzem a consorte
de outros;
lá Níðhöggr* chupa
os corpos dos homens mortos,
o lobo rasga os homens em pedaços.
Quem saberia ainda mais que isso?”
*: dragão devorador de cadáveres que vive em Niflheim, o mundo inferior nórdico.

40- “No leste se senta a velha,
no Járnviðr*,
que deu nascimento
a descendência de Fenrir;
um deles,
o pior de todos,
engolirá Máni
na forma de um Troll.”
*: Floresta de Ferro.

41- “Ele se alimenta
da carne dos homens mortos,
a casa dos Deuses se torna vermelho
do sangue escarlate;
o brilho da Sól se torna negro
para os verões que chegam,
o tempo se torna pior.
Quem saberia ainda mais que isso?”

42- “Sobre a colina se senta
com sua harpa
o pastor da Gýgr*,
o feliz Eggþér;
perto dele canta,
na floresta, um galo,
um brilhante galo vermelho,
que é chamado Fjalarr.”
*: Giganta.

43- “Entre os Æsir canta
Gullinkambi,
que acorda os heróis
do Herjaföðr*;
mas outro canta
abaixo da terra,
um galo fuliginoso e vermelho
no salão de Hel.”
*: Odin.

44- “Garmr lati muito
no Gnipahellir,
as correntes serão quebradas
e o lobo correrá;
eu conheço muitos contos,
adiante eu vejo mais
do Ragnarökr*,
dos poderosos Sigtívar**.”
*: “Destino dos Deuses”. Na Edda em Prosa, Snorri interpretou seu significado como “Crepúsculo dos Deuses”.
**: Os Deuses da Vitória.

45- “Irmãos se enfrentarão
e se matarão um ao outro,
filhos de irmãs trarão
ruína aos parentes;
o mundo será difícil com
muita prostituição,
tempo do machado, tempo da espada,
escudos serão partidos,
tempo do vento, tempo do lobo,
antes de o mundo cair;
[a terra ressoa,
as Gigantas fogem,]
nenhum homem
poupará outro.”

46- “Os filhos de Mímir se agitam,
a árvore do destino se incendeia
no sopro do
Gjallarhorn*;
Heimdallr soará altamente,
o chifre no ar,
Óðinn debate
com a cabeça de Mímir.”
*: É o poderoso chifre de Heimdallr, a trompa de batalha que o deus usa para avisar os demais deuses da aproximação de seus inimigos, os gigantes, e assim ocorre no Ragnarök. Seu sopro pode ser ouvido nos Nove Mundos.

47- “Yggdrasill* treme,
o grande freixo,
a velha árvore geme,
e o Jötunn escapa**;
todos se amedrontam
na estrada para Hel
antes que o parente de Surtr***
a devore****.”
*: A árvore Yggdrasill, o eixo do mundo.
**: Loki ou Fenrir.
***: O Fogo.
****: A árvore.

48- “O que há com os Æsir?
O que há com os Álfar*?
Toda Jötunheimr** treme,
e os Æsir debatem,
os Dvergar*** ficam
em seus portões de pedra,
os sábios das rochas.
Quem saberia ainda mais que isso?”
*: Elfos.
**: Um dos nove mundos.
***: Anões.

49- “Garmr* lati muito
no Gnipahellir**,
as correntes serão quebradas
e o lobo correrá;
eu conheço muitos contos,
adiante eu vejo mais
do Ragnarökr,
dos poderosos Sigtívar.”
*: O cão de Hel, ou Hela. Hel é filha de Loki e da gigante Angurboda, irmã mais nova de Fenrir e da serpente de Midgard.
**: “Cume da montanha”, é uma caverna suspensa onde Garmr, o cão, está acorrentado até o início do Ragnarökr.

50- “Hrymr vem do leste,
com escudos erguidos,
Jörmungandr retorce
em Jötunmóðr*;
espalhando as ondas,
a águia pálida berra,
roendo os cadáveres,
Naglfar** se solta.”
*: Fúria de Gigante.
**: O navio feito das unhas dos mortos. Segundo o Gylfaginning cap. 43, Naglfar é o maior de todos os navios.

51- “O navio viajou do leste,
o povo do Múspell,
veio sobre o mar,
e Loki os guia;
a monstruosa descendência
acompanhará Freki*,
com eles está o irmão
de Býleist** viajando.”
*: Fenrir.
**: Loki.


Hávamál – As Palavras do Altíssimo

010. “Um fardo melhor
nenhum homem carrega em sua jornada
mais do que ter um pouco de bom senso;
é melhor que riquezas
encontradas em uma terra estranha,
tal é os recursos de um homem pobre.”

011. “Um fardo melhor
nenhum homem carrega em sua jornada
mais do que ter um pouco de bom senso;
ele não carrega
piores provisões na planície,
mais do que estar cheio de bebida.”

012. ”A bebida dos filhos dos homens
não é boa,
como eles dizem;
desde de que em sua própria mente
um homem sabe menos,
quanto mais ele bebe.”

016. “O homem tolo
pensa que viverá para sempre,
se evitar a batalha;
mas a velhice não
dará a ele nenhuma paz,
embora ele seja poupado das lanças.”

019. (...) “de maus hábitos
nenhum homem te acusará
se tu for ir dormir cedo.”

021. (...) “o homem tolo
nunca sabe
a medida de seu estômago."

022. “O homem miserável
e de mal temperamento
ri de qualquer coisa;
ele não sabe que
o que ele deveria saber,
que ele não é livre de faltas.”

023. “O homem tolo
fica acordado todas as noites
e preocupa-se com tudo;
então ele fica cansado,
quando chega a manhã,
toda sua preocupação esta como estava.”

024. ”O homem tolo
pensa que todos aqueles que riram com ele
são seus amigos;
ele não notifica,
apesar de que eles falam mal dele
quando ele se senta com sábios.”

025. “O homem tolo
pensa que todos aqueles que riram com ele
são seus amigos;
então ele descobre isso,
quando ele chega para a assembleia,
que ele tem poucos advogados.”

027. “O homem tolo
que se encontra entre o povo
é melhor ficar quieto;
ninguém sabe que
ele não sabe nada
a menos que ele fale demais,
o homem não sabe
que nada sabe,
quando fala demais.”

034. “Longo é o caminho
para um mal amigo,
embora ele habita na estrada;
mas para um bom amigo
a estrada é direta,
embora ele esteja longe.”

035. “É necessário ir,
não deve o convidado ficar
sempre em um lugar;
o querido se torna odioso,
se por muito tempo ficar
na casa de outro.”

036. “A casa própria é melhor,
embora seja pequena,
no lar cada um é seu próprio senhor;
embora se possuir duas cabras
e um salão de teto de palha
é melhor que pedir por caridade.”

037. “A casa própria é melhor,
embora seja pequena,
no lar cada um é seu próprio senhor;
sangra o coração
daquele que é forçado a pedir
para se alimentar a cada refeição.”

038. “Da própria arma
não deve o homem no campo aberto
deixar a menos de um passo;
porque não se pode saber
quando na estrada
o homem necessitará da lança.”

039. “Eu nunca encontrei um homem tão liberal
ou tão generoso com alimento
que não aceitasse um presente;
ou de sua riqueza
tão liberal,
para desprezar uma recompensa, se recebê-la.”

042. “Para um amigo
o homem deve ser amigo
e pagar presente com presente;
risada com risada
o homem deve retribuir,
mas falsidade com falsidade.”

054. “Meio sábio
todo homem deve ser,
nunca muito sábio;
desses homens são
os que vivem bem melhor
aqueles que não sabem muito.”

055. “Meio sábio
todo homem deve ser,
nunca muito sábio;
porque o coração do homem sábio
raramente é feliz,
se ele possuir muita sabedoria.”

056. “Meio sábio
todo homem deve ser,
nunca muito sábio;
seu próprio destino
ninguém deve saber antecipadamente,
porque a mente fica livre de tristeza.”

069. “Nenhum homem é de todo miserável
embora a saúde dele seja má;
alguns deles são afortunados com filhos,
alguns com amigos,
alguns com abundante riqueza,
alguns com boas proezas.”


     “A língua é assassina da cabeça.”


     “É a riqueza o mais inconstante dos amigos.”


095. (...) “Não há doença pior
para o homem sábio
do que ele mesmo não ser feliz.”

119. “Aconselho ti, Loddfáfnir,
e tu aceite o conselho,
benefício terá se tu aceitar,
bem terá se tu obter:
saiba, se tu possui um amigo
em que tu bem confia,
vá visita-lo frequentemente,
porque o arbusto cresce
e a grama aumenta
no caminho em que ninguém passa.”

125. “Aconselho ti, Loddfáfnir,
e tu aceite o conselho,
benefício terá se tu aceitar,
bem terá se tu obter:
por três palavras não discuta
com um homem pior que ti
frequentemente o melhor é derrotado
quando o pior ataca.”

133. (...) “Um homem não é tão bom
que não tenha defeitos,
nem tão mal, que não sirva para nada.”



     “Uma dádiva sempre procura compensação.”

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Os Caminhos da Liberdade: A Idade da Razão – Jean-Paul Sartre

Editora: Nova Fronteira / Saraiva de bolso
ISBN: 978-85-2093-083-0
Tradução: Sérgio Milliet
Opinião: *****
Páginas: 372 

     “Quando a gente esta bêbado, dá-se ao luxo do patético.”


     “E se as lágrimas lhe subiam aos olhos, como em Lola naquele momento, a gente não sabia onde se enfiar. Lágrimas de adulto eram uma catástrofe mística, algo como o choro de Deus sobre a maldade dos homens.”


     “Estou velho. Eis-me arriado em cima de uma cadeira, comprometido até ao pescoço na vida e não acreditando em nada. E, no entanto, eu também quis partir para a Espanha. Mas não deu certo. Haverá realmente uma Espanha? Estou aqui, saboreio-me, sinto um gosto velho de sangue e água ferruginosa, meu gosto, eu sou meu próprio gosto, eu existo. Existir é isso: beber‑se a si próprio sem sede. Trinta e quatro anos. Há trinta e quatro anos que eu me saboreio, e estou velho. Trabalhei, esperei, tive o que queria: Marcelle, Paris, independência. Esta tudo acabado. Não quero mais nada.”


     ““Assim é o homem”. Era rígido, inflexível e no fundo havia uma pobre vítima a clamar misericórdia. “Estranho que a gente possa odiar-se como se fosse outra pessoa!” Mas não era verdade, aliás; por mais que fizesse, só havia um Daniel. Quando se desprezava tinha a impressão de se destacar de si mesmo, de pairar como um juiz abstrato acima de um fervilhamento impuro, e bruscamente aquilo o retomava, o aspirava por baixo e ele se atolava em si próprio.”


     ““É sinistro ver com clareza”, pensou Daniel. Assim é que imaginava o inferno: um olhar penetrante que atravessaria tudo, iria até o fim do mundo – até o fim de si próprio.”


     “Quando a gente não tem coragem de matar-se de uma vez, deve fazê-lo aos poucos.”


     “Não se é homem enquanto não se encontra alguma coisa pela qual se esta disposto a morrer.”


     “Entre trinta e quarenta anos a gente joga a última cartada.”


     “A música parou, a dançarina imobilizou-se, voltando o rosto para o público. Por cima do sorriso brilharam lindos olhos acuados. Ninguém aplaudia e houve algumas risadas ofensivas.
    – Safados! – disse Boris.
     Bateu palmas com força. Rostos espantados viraram-se para ele.
    – Fica quieto – disse Ivich, furiosa. – Aplaudir isso?
    – Ela fez o que pôde – disse Boris, aplaudindo.
    – Mais um motivo para não aplaudir.”


     “O barman, por exemplo. Pouco antes fumava um cigarro, vago e poético como um jasmineiro; agora acordara, era demasiado barman, sacudia o shaker, abria‑o, escorria uma espuma amarela nos copos, com gestos de uma precisão supérflua. Representava o papel de barman. Mathieu pensou em Brunet: “Talvez não possa ser de outro modo; talvez seja preciso escolher: não ser nada ou representar o que é. Isso seria terrível, essa trapaça com a nossa própria  natureza”.”


     “Essa tagarelice na minha cabeça, eu daria tudo para conseguir me calar.”


     “Baixou a cabeça. Pensava na própria vida. O futuro penetrara‑a até à medula. Tudo nela estava em suspenso, em sursis*. Os dias mais recuados de sua infância, o dia em que dissera “Serei livre”, o dia em que dissera “Serei grande”, apareciam‑lhe, ainda agora, com seu futuro particular, como um pequenino céu pessoal e bem redondo em cima deles, e esse futuro era ele, ele tal e qual era agora, cansado e amadurecido. Tinham direitos sobre ele e através de todo aquele tempo decorrido mantinham suas exigências, e ele tinha amiúde remorsos esmagadores, porque o seu presente negligente e cético era o velho futuro dos dias do passado. Era ele que eles tinham esperado vinte anos, era dele, desse homem cansado, que uma criança dura exigira a realização de suas esperanças; dependia dele que os juramentos infantis permanecessem infantis para sempre, ou se tornassem os primeiros sinais de um destino. Seu passado sofria sem cessar os retoques do presente; cada dia vivido destruía um pouco mais os velhos sonhos de grandeza, e cada novo dia tinha novo futuro; de espera em espera, de futuro em futuro, a vida de Mathieu deslizava docemente... em direção a quê?
     Em direção a nada. Pensou em Lola. Estava morta, e a vida dela, como a de Mathieu, não fora senão uma espera.”

*: Prorrogação, espera.


     ““Eles têm medo da morte. Por mais limpinhos e fresquinhos que sejam, têm almas sinistras, porque têm medo. Medo da morte, da doença, da velhice. Agarram‑se à juventude como um moribundo à vida. Quantas vezes vi Ivich apalpar o rosto inquieto em frente de um espelho. Já treme diante da possibilidade de ter rugas. Vivem a ruminar a sua juventude, só fazem projetos a curto prazo, como se só tivessem diante de si cinco ou seis anos. Depois... Depois, Ivich fala em suicidar‑se, mas estou tranquilo, não ousará jamais; não morrerão tão cedo. Afinal, eu tenho rugas, uma pele de crocodilo, músculos retorcidos, mas ainda tenho muitos anos para viver... Começo a crer que nós é que somos jovens. Queríamos bancar homens feitos, éramos ridículos, mas eu me pergunto se o único meio de salvar a juventude não será esquecê‑la.”


     “Ela olhou o Leão de Balfort e disse, extasiada:
    – Gosto deste leão. Parece um feiticeiro.
    – Hum.
     Respeitava os gostos da irmã, embora não os partilhasse. Aliás, Mathieu já dissera, uma ocasião: “Sua irmã tem mau gosto, mas é melhor do que o melhor gosto. É um mau gosto profundo”.”


     “Será isto a liberdade? Ele agiu, agora não pode mais voltar atrás; deve parecer‑lhe estranho sentir atrás de si um ato desconhecido, que ele já quase não compreende e que vai transformar-lhe a vida. Eu, tudo o que faço, faço‑o por nada; dir‑se‑ia que me roubam as consequências dos meus atos, tudo se passa como se eu pudesse sempre voltar atrás. Não sei o que não daria para cometer um ato irremediável.”


     “Ninguém entrava minha liberdade, foi a minha vida que a bebeu.”

quinta-feira, 21 de abril de 2016

Deus foi almoçar – Ferréz

Editora: Planeta
ISBN: 978-85-7665-889-4
Opinião: ***
Páginas: 240

     “Sentou junto à máquina de escrever, a mesa toda cheia de papéis, notas fiscais que deveriam ter sido preenchidas, ele pensa naquela estranha conversa, religião, de repente ele poderia ir a algum culto ou reza, pra ver se melhorava mesmo seu astral, na cidade do Valdomiro, ou numa das fazendas dos dissidentes, mas se eles tiram amargura, dor, solidão, o que restaria dentro dele?”


     “Quando passo em frente a uma casa de relaxamento, sou puto, quando ando em frente a uma igreja sou santo, faço o sinal da cruz, quando visito minha mãe deito no sofá, sou criança esperando o café com leite e o pão com manteiga esquentado de uma forma que só ela sabe fazer, quando vou na casa de algum amigo, se for do tempo da escola, até os apelidos da época são usados, se for à casa de vizinhos, as brincadeiras do bairro. (…)
     Se a felicidade é um ponto de vista, Calixto estava cego.”


     “Hoje as poucas revistas que sobraram têm fotos gigantes, ninguém quer ler, as pessoas querem é passar, virar página.”


     “O homem criou a cidade, modelou seus jardins, fez da sua forma o tudo de novo, e também foi criado de outra forma por essa cidade.
     Datas, dias, minutos e segundos, atrasos, interesses, ganhos e perdas, a vida era assim agora. Ele sorriu levemente, o homem é o único ser capaz de fazer uma armadilha para si mesmo.
     Carros, apartamentos, pequenos bares, shoppings, tudo congestionado, tudo limitado, emparedado, fechado. A sensação de sair dessas coisas era indescritível, se tivesse uma pena por assalto ou homicídio, tanto fazia. Prisão ou shopping center? Não precisava olhar tudo para saber o que existia realmente, mas por mais que olhasse não saberia dizer o que era a verdade.”


     “Parado às vezes olhando de soslaio para o poste, quase sempre para a rua, entendo pela primeira vez desde que fui tirado de dentro de outro ser, e que vou morrer sem entender quase nada desse novo tempo em que estou. (...) por que tudo esta se desmanchando a minha volta e parece que sou só um telespectador da minha própria vida, não sou o motivador, de uns anos para cá sou somente levado, levado de um lado para outro, de uma situação para outra, vou estar um dia no comando, de repente vou estar novamente no comando, mas e se nunca estive?”


     “É que nem as guerras, todas elas são uma merda, pode ser no Vietnã ou em Gorazde, todas as merdas de guerras são assim, e depois em algum escritório ou gabinete algum engravatado que não sabe o que é se afundar na merda, nem sequer pisou em alguma, vai estar falando em revolução, tirania e glória. E nós vamos ser resumidos a isso, uma porra de uma palavra, eles não sabem, meu filho, eles não sabem que o grau de dominação é tão alto, que a própria elite nem sente remorso mais pelo que faz, ela já esta num estado tão inconsciente de dominação, que é o mais avançado, quando ela nem sente mais que esta fazendo algo errado, quem nem essas coisas de jogar lixo no chão, discurso de filho da puta, meu filho, filhos da puta, não jogue o papel no chão, mas gastam mais com o gato do que doariam para um orfanato, não jogue o lixo na rua, mas pisam num mendigo se ele não sair da calçada, vamos reciclar, mas é por estudarem em faculdade pública mesmo sendo ricos que o homem com 70 anos hoje tem que vender bala no farol, porque não tem dinheiro pra todo mundo, e eles sabem disso e estão sempre no começo da fila, mas um dia isso muda, filho, o sucesso é solitário, essa raça de infeliz.”


     “Todo dom pode também ser uma maldição.”


     “Ao voltar do serviço, parou numa banca de jornal, as frases dos anúncios dos aplicativos podiam fazer ele rir e provocar alguns sentimentos estranhos: “Como se entupir de dinheiro”, “Você é rico e não sabe”, “Como explorar com consciência social”, “Gerenciando lucros e alimentando a pobreza”, “Empresa de segurança compra parte da frota da policia”, “Fazendo fluxo de caixa martirizando pessoas”, “Como obter visto para morar na cidade do Bispo Valdomiro”.
     Entrou no carro.
     Entrei no carro com ódio de tudo isso, dessa máquina maldita de moer gente. O pior de ser fantoche é quando olhamos pro alto e vemos as cordas.”


     “As mulheres querem sua alma. Não é só o seu dinheiro, nem mesmo o carro. Apenas a porra da sua alma, toda a sua essência, e se existe algo que você viveu sem ela, esqueça, anule da sua cabeça, elas percebem como você trata sua mãe, percebem como trata o amigo, como trata a garçonete, elas observam tudo ao redor, não querem você, você é só um ornamento, elas querem todo o universo que o cerca, defeitos já esquecidos, passado recente, trechos de sorriso, afetos antigos.”


     “A vida é um pesadelo do qual não se desperta.” (Almeida Garret)


     “Ah! Deixa pra lá, problema de família, quando você pensa que tá tudo bem, surge alguém lá do inferno e te aborrece, você sabe, ninguém sabe machucar mais do que família.”

domingo, 17 de abril de 2016

História do cerco de Lisboa – José Saramago

Editora: Companhia das Letras
ISBN: 978-85-7164-035-1
Opinião: ***
Páginas: 352

     “Enquanto não alcançares a verdade, não poderás corrigi-la.
     Porém, se a não corrigires, não a alcançarás.
     Entretanto, não te resignes.”


     “Ainda que, para que não quede sem exame e consideração o que esteja em contrário destas oposições entre oração e guerra, aqui se pudesse recordar já, estando tão próximo o tempo e sendo tantas e tão preclaras as testemunhas ainda vivas, aqui se pudesse recordar, tornamos a dizer, aquele milagre de Ourique, celebérrimo, quando Cristo apareceu ao rei português, e este lhe gritou, enquanto o exército prostrado no chão orava, Aos infiéis, Senhor, aos infiéis, e não a mim que creio o que podeis, mas Cristo não quis aparecer aos mouros, e foi pena, que em vez da crudelíssima batalha poderíamos, hoje, registar nestes anais a conversão maravilhosa dos cento e cinquenta mil bárbaros que afinal ali perderam a vida, um desperdício de almas de bradar aos céus. É assim, nem tudo se pode evitar, nunca a Deus faltamos com os nossos bons conselhos, mas o destino tem lá as suas leis inflexíveis, e quantas vezes com inesperados e artísticos efeitos, como foi este de haver podido aproveitar-se Camões do inflamado grito, distribuindo-o tal qual em dois versos imortais. É bem verdade que na natureza nada se cria e nada se perde, tudo se aproveita.
     Eram bons aqueles tempos, quando, para receber satisfação, não tínhamos mais que pedir com as palavras apropriadas, mesmo em casos difíceis, por assim dizer já desenganado o paciente e sem esperança de remédio. Exemplo disto é este mesmo rei, que, tendo nascido de pernas encolhidas, ou atrofiadas, no falar de agora, foi extraordinariamente curado, sem que médico algum lhe tivesse posto a mão em cima, e se puseram não lhe adiantou. E até, certamente por ser pessoa fadada para a realeza, nem há sinais de que tenha sido preciso importunar as altas potestades, à Virgem e ao Senhor nos referimos, não aos anjos da sexta hierarquia, para que se produzisse o salutar sucesso, graças ao qual, sabe-se lá, Portugal deve talvez a sua independência. Foi caso que estando dormindo em sua cama D. Egas Moniz, aio do menino Afonso, lhe apareceu Santa Maria em visão e disse, D. Egas Moniz, dormes, e ele, que não sabia se estava acordado ou a sonhar, perguntou, para ter a certeza, Senhora, quem sois vós, e ela respondeu, com bons modos, Eu sou a Virgem, e te mando que vás a Carquere, que fica no concelho de Resende, e cava em esse lugar e acharás uma igreja que em outro tempo foi começada em meu nome, e acharás também uma imagem minha, conserta-a que bem necessitada esta depois do triste abandono, e depois farás aí vigília, e porás o menino sobre o altar, e fica sabendo que nesse instante quedará sano e curado, e cuida bem dele para o diante, que o meu Filho sei eu que tem na sua ideia dar-lhe cargo de destruir os inimigos da fé, e claro esta que não poderia fazê-lo assim de pernas curtas. Acordou D. Egas Moniz o mais alegre que se pode, reuniu o pessoal e, cavalgando a mula, foi dali a Carquere e mandou cavar no sítio indicado pela Virgem, e não é que lá estava a igreja, mas a surpresa é nossa, não deles, porque naqueles abençoados tempos não eram nunca gratuitos ou enganosos os avisos superiores. Verdade é que não cumpriu D. Egas precisamente os ditados da Virgem, que muito explicado ficou ter-lhe ela mandado que cavasse, entendemos nós que por suas próprias mãos, e vai ele, que fez, deu ordem que outros cavassem, os servos da gleba, provavelmente já naquela época havia destas desigualdades sociais. Agradecemos à Virgem não ser ela melindrosa a pontos de fazer encolher outra vez as pernas do menino Afonso, porque, assim como há milagres para o bem, também os tem havido para o mal, testemunhem-no aqueles infelizes porcos da Escritura que se lançaram ao precipício quando o Bom Jesus lhes meteu no corpo os mafarricos que no endemoninhado estavam, de que resultou padecerem martírio os inocentes animais, e só eles, pois muito maior tinha sido a queda dos anjos rebeldes, logo feitos demônios, quando do motim, e, que se saiba, não morreu nenhum, com o que não se pode perdoar a imprevidência de Deus Nosso Senhor que por essa desatenção deixou fugir a oportunidade de lhes acabar com a raça por uma vez, de bom conselho é o provérbio que previne, Quem o seu inimigo poupa, às mãos lhe morre, oxalá não venha Deus a ter de arrepender-se um dia, tarde de mais. Ainda assim, se nesse fatal instante tiver tempo de recordar a sua vida passada, esperemos que se lhe faça luz no espírito e possa compreender que nos deveria ter poupado, a todos nós, frágeis porcos e humanos, aqueles vícios, pecados e sofrimentos de insatisfação que são, diz-se, a obra e a marca do maligno. Entre o martelo e a bigorna somos um ferro em brasa que de tanto lhe baterem se apaga.”


     “Errar, disse-o quem sabia, é próprio do homem, o que significa, se não é erro tomar as palavras à letra, que não seria verdadeiro homem aquele que não errasse.”


     “Ninguém esta satisfeito com o que lhe coube em sorte.”


     “O diretor literário calou-se à espera de que o revisor fizesse uma declaração sobre as suas futuras intenções, ao menos as conscientes, já que as outras, se as havia, pertenciam aos planos da inconsciência, indevassáveis. Raimundo Silva percebeu o que se esperava dele, é verdade que as palavras necessitam palavras, por isso se diz Palavra puxa palavra, mas também é certo que Quando um não quer dois não discutem, imaginemos que o Romeiro deixava sem resposta a curiosidade fatal do Escudeiro Telmo, o mais provável seria comporem-se as coisas e não haveria conflito, drama, morte, desgraça geral, ou então suponhamos que um homem perguntou a uma mulher, Amas-me, e ela se cala, olhando-o apenas, esfíngica e distante, recusando dizer o Não que o destroçará ou o Sim que os destroçaria, concluamos, pois, que o mundo estaria bem melhor se se contentasse cada um com o que vai dizendo, sem esperar que lhe respondessem, e, mais ainda, sem o pedir nem o desejar.”


     “Não se fica mais molhado caindo ao mar oceano do que ao rio da nossa aldeia.”


     “Ela não podia, positivamente não podia, saber como ele ocupara o tempo durante este dia, o que fez foi deitar-se a adivinhar, enfim, coisas de mulheres, todas se imaginam prodigiosas sibilas e pitonisas, e acabam por enganar-se como o mais comum dos homenzinhos a quem geralmente consideram com irônica e tolerante benevolência.”


     “Do dia o que se espera é movimento e ruído.”


     “O cão é o melhor amigo do homem, pelo jeito que leva o mundo bem pode acabar por ser o último.”


     “Foi neste instante que Raimundo Silva, sem meditar nem premeditar, tão alheio ao ato como às consequências dele, tocou levemente com dois dedos a rosa branca, e a doutora Maria Sara olhou-o de frente, estupefata, não o estaria mais se ele tivesse feito aparecer esta flor no solitário vazio ou cometido qualquer outra proeza similar, o que de todo não se esperaria é que mulher tão segura de si de repente se perturbasse a ponto de cobrir-se-lhe de rubor o rosto, foi obra de um segundo, mas flagrante, realmente parece incrível que se possa corar assim nos tempos que correm, que teria ela pensado, se algo pensou, foi como se o homem, ao tocar a rosa, tivesse aflorado na mulher uma escondida intimidade, daquelas da alma, não do corpo. Mas o mais extraordinário de tudo foi que Raimundo Silva corou também, e por mais tempo que ela permaneceu corado, segundamente porque se sentiu ridículo de morrer, Que vergonha, disse a si mesmo ou virá a dizê-lo. Em situações como esta, faltando a ousadia, e não nos perguntemos, Ousadia para quê, a salvação esta na fuga, é bom conselheiro o instinto de conservação, o pior vem depois, quando repetimos as horríveis palavras, Que vergonha, todos passamos já por horrores assim, de raiva e humilhação damos socos na almofada, Como pude ser tão estúpido, e não sabemos responder, provavelmente porque seria preciso ser muito inteligente para conseguir explicar a estupidez, o que nos vale é estarmos protegidos pela escuridão do quarto, ninguém nos vê, se bem que tenha a noite, e por isso a tememos tanto, esse condão mau de tornar irremediáveis e monstruosas até as pequenas contrariedades, quanto mais uma desgraça como a de agora.”


     “Mas nós devemos é atender a Raimundo Silva, que tem uma tarefa a cumprir e que logo de entrada se vê a braços com a dificuldade de conviver com personagem tão duvidosa, este Mogueime, Moqueime ou Moigema, que, além de mostrar não saber exatamente quem é, porventura esta maltratando a verdade que, como testemunha presencial, seria seu dever respeitar e transmitir aos vindouros, nós.
     Porém, disse o outro, atire a primeira pedra aquele que se achar sem pecado. Realmente, é muito fácil acusar Mogueime mente, Mogueime mentiu, mas nós, aqui, maiormente instruídos nas mentiras e verdades dos últimos vinte séculos, com a psicologia lavrando as almas, e a mal traduzida psicanálise, mais o resto, para cuja simples enunciação se requereriam cinquenta páginas, não deveríamos levar à ponta de intransigente espada os defeitos alheios se tão indulgentes costumamos ser com os nossos próprios, a prova é não haver lembrança de alguém que, julgador severo e radical dos atos por si cometidos, levasse o executório ânimo ao extremo de apedrejar o próprio corpo. Aliás, regressando ao passo evangélico, é-nos lícito duvidar que o mundo estivesse naquele tempo tão empedernido de vícios que para salvar-se carecesse do Filho de um Deus, pois é o próprio episódio da adúltera que aí esta a demonstrar-nos que as coisas não iam assim tão más lá na Palestina, agora sim que estão péssimas, veja-se como naquele remoto dia nem mais uma pedra foi lançada contra a infeliz mulher, bastou ter proferido Jesus as fatais palavras e logo ali se recolheram as mãos agressoras, por esta maneira declarando, confessando e mesmo proclamando os seus donos que sim senhor ele tinha razão, em pecado estavam. Ora, uma gente que foi capaz de reconhecer-se culpada publicamente, ainda que de modo implícito, não estaria de todo perdida, conservava intacto em si um princípio de bondade, autorizando-nos portanto a concluir, com mínimo risco de erro, que terá havido alguma precipitação na vinda do Salvador. Hoje, sim, que teria valido a pena, pois não só os corruptos perseveram no caminho da sua corrupção, como se vai tornando cada dia mais difícil encontrar razões para interromper um apedrejamento começado.”


     “Espere um momento, por favor, vou ver se a doutora Maria Sara pode receber a chamada, nunca momento nenhum foi tão breve, Não desligue, vou passar o telefone, silêncio. Raimundo Silva imaginou a cena, a mulher, com certeza uma criada, retirando a ficha da tomada, transportando o aparelho com as duas mãos, amparado ao peito, puerilmente assim o via, e entrando num quarto em penumbra, depois baixando-se para ligar a ficha nesta outra tomada, Como esta, a voz soou inesperada, Raimundo Silva esperara ouvir ainda a criada dizer algo como Vou passar à senhora doutora, seriam três ou quatro segundos mais de adiamento, em vez disso a pergunta direta, Como esta, invertendo a situação, a ele, sim, é que competia exprimir interesse pelo estado da enferma, Estou bem, obrigado, e acrescentou rapidamente, Vinha saber se esta melhor, Como foi que soube que tenho estado doente, Na editora, Quando, Ontem de manhã, Então resolveu telefonar para saber como estou, Sim, Muito obrigada pelo seu cuidado, até agora foi o único revisor a interessar-se, Bom, achei que devia, espero não tê-la incomodado, Pelo contrário, fico-lhe muito grata, estou melhor, penso que amanhã, talvez depois, já poderei ir à editora, Não quero maçá-la mais, desejo-lhe umas rápidas melhoras, Antes de desligarmos, como foi que soube o número do meu telefone, Deu-mo a menina Sara, A outra, Sim, a telefonista, Quando, Já lho disse, ontem de manhã, E só me telefona hoje, Tive medo de ser importuno, Mas venceu o medo, Parece que sim, a prova é que estou a falar consigo, No entanto, deve saber que antes eu quis falar consigo. Durante dois segundos Raimundo Silva pensou em fingir que não recebera o recado, mas acabou por responder, quando já se ia passando o terceiro segundo, Sim, Posso portanto admitir que me telefonou porque não podia deixar de o fazer, uma vez que eu tinha tomado a iniciativa, Admitirá tudo quanto quiser, esta no seu direito, mas admita também que se eu pedi o número à telefonista não foi para ficar com ele no bolso, à espera não se sabe de quê, Ficou mesmo à espera não se sabe de quê, A razão foi outra, Qual, Simplesmente falta de coragem. A sua coragem, pelos vistos, limitava-se àquele episódio de revisão de que não gosta de que se fale, De fato, telefono-lhe apenas para saber da sua saúde e desejar-lhe as melhoras, E não acha que é a altura de perguntar-me por que foi que lhe telefonei eu, Por que foi que me telefonou, Não sei se gosto desse tom, Dê importância às palavras, não ao modo, Supus que a sua experiência de revisor lhe teria ensinado que as palavras não são nada sem o tom, Uma palavra escrita é uma palavra muda, A leitura dá-lhe voz, Exceto se for silenciosa, Até mesmo essa, ou julgará o senhor Raimundo Silva que o cérebro é um órgão silencioso, Sou apenas um revisor, faço como faz o sapateiro, que se contenta com a chinela, o meu cérebro sabe de mim, eu não sei nada dele, Interessante observação, Ainda não respondeu à pergunta, Que pergunta, Por que foi que me telefonou, Agora não sei se me apetece dizer-lho, Afinal não sou o único cobarde, Não me lembro de ter falado em cobardia, Falou de falta de coragem, Não é o mesmo, As duas faces duma moeda são diferentes, mas a moeda é uma só, O valor só vai num lado, Não compreendo esta conversa, e acho que não devemos prossegui-la, sem esquecer que é uma imprudência, estando doente como esta, Não Lhe fica bem o cinismo, Não sou cínico, Bem sei, portanto escusa de fingir, A sério, creio que já não sabemos o que estamos a dizer, Eu sei muito bem, Então explique-mo, Não precisa de explicações, Esta a fugir à questão, É você quem foge à questão, esconde-se atrás de si mesmo, quer que lhe diga o que já sabe, Por favor, Por favor, quê, Acho melhor que desliguemos, este diálogo caiu num equívoco, Porque você o esta a empurrar para lá, Eu, Sim, Esta enganada, gosto das coisas claras, Então seja claro, diga-me por que é agressivo quando fala comigo, Não sou agressivo com ninguém, não tenho essa qualidade moderna, É agressivo comigo, porquê, Não sou, Desde o dia em que nos conhecemos, se precisa que lho lembre, As circunstâncias, Mas as circunstâncias modificaram-se depois, e a agressividade continuou, Desculpe, nunca tive essa intenção, Agora sou eu que Lhe peço, por favor, não use palavras inúteis, Calo-me, Então ouça, telefonei-lhe porque me sentia só, porque tive curiosidade de saber se estava a trabalhar, porque queria que me desejasse as melhoras, porque, Maria Sara, Não diga o meu nome assim, Maria Sara, eu gosto de si, pausa longa, Isso é verdade, É verdade, Levou tempo a dizer-mo, E talvez nunca lho dissesse, Porquê, Somos diferentes, pertencemos a mundos diferentes, Que é que sabe dessas diferenças todas, nossas e dos mundos, Imagino, vejo, concluo, Essas três operações tanto podem levar à verdade como conduzir ao erro, Admito-o, e o erro maior, neste momento, terá sido dizer-lhe que gosto de si, Porquê, Nada conheço da sua vida particular, se é, Casada, Sim, ou, De qualquer maneira comprometida, como antigamente se dizia, Sim, Imaginemos que sou realmente casada, ou que tenho um compromisso, impedi-lo-ia isso de gostar de mim, Não, E se eu fosse realmente casada, ou tivesse um outro compromisso, impedir-me-ia isso de gostar de si, se tal tivesse de acontecer, Não sei, Então tome nota de que gosto de si, pausa longa, Isso é verdade, É verdade, Ouça, Maria Sara, Diga, Raimundo, mas antes fique a saber que sou divorciada há três anos, que acabei há três meses com uma ligação, que não comecei outra, que não tenho filhos, que quero tê-los, que vivo em casa de um irmão, que a pessoa que o atendeu é a minha cunhada, e não precisa de dizer-me quem é a pessoa que recebeu o meu recado, é a sua empregada, e agora, sim, tem a palavra, senhor revisor, não faça caso, estou quase a rebentar de contentamento, Por que é que gosta de mim, diga-me, Não sei, gosto, E não teme que quando começar a saber, possa começar a não gostar, Às vezes acontece, acontece mesmo muito, Então, Então, nada, o depois só depois é que se conhece, Eu gosto de si, Acho que sim, que gosta, Quando nos veremos, Tão depressa eu me levante deste leito de dor, Onde, Em toda a parte, Agora posso perguntar-lhe que doença é essa, Nada de importância, ou melhor, esta foi a gripe mais importante da minha vida, Daí não me pode ver, mas estou a sorrir, Grande novidade, que até hoje foi coisa que nunca vi na sua boca, Posso dizer-lhe que a amo, Não, diga só que gosta de mim, Já o disse, Então guarde o resto para o dia em que for verdade, se esse dia chegar, Chegará, Não juremos sobre o futuro, esperemo-lo para ver se ele nos reconhece, e agora esta débil e febril mulher pede que a deixem descansar, precisa de recuperar forças para a hipótese, acaso provável, de alguém se lembrar de tornar a telefonar-lhe hoje, A quem, a si, Ou a si o sentido da frase tem dois destinatários, depende, A ambiguidade não é sempre um defeito, Até logo, Deixe que me despeça com um beijo, Esta a chegar o tempo deles, Para mim já vinha tardando, Só uma pergunta mais, Diga, Já começou a escrever a História do Cerco de Lisboa, Já, Não sei se continuaria a gostar de si se me respondesse que não, adeus.”


     “São vagarosos os progressos da verdade.”


     “Esta também a inteligência, convergência ou relação de causa e efeito de que o computador não se pode gabar, pois que, sabendo tudo, não compreende nada. Dizem.”


     “Ao lado tenho uma salita com assentos mais confortáveis, mas penso que se sentirá melhor aqui onde estamos, e tendo dito foi sentar-se à secretária, na única cadeira que restava, ficaram separados pela mesa, era como num consultório, Diga-me de que se queixa, porém Maria Sara não falava, ambos sabiam que era a ele que competia falar agora, que mais não fosse para dar as boas-vindas a quem chegara. E ele falou. Fê-lo num tom uniforme, praticamente sem modulações de persuasão ou insinuação, querendo que cada palavra valesse por si mesma pelo significado nu que naquele momento e naquela situação pudesse alcançar, Vivo sozinho nesta casa, e há muitos anos, não tenho mulher, exceto quando a necessidade aperta, e então continuo a não ter, sou uma pessoa sem atributos especiais, normal até nos defeitos, e não esperava muito da vida, enfim, esperava conservar a saúde porque é uma comodidade, e que o trabalho não me faltasse, a isto, que não é pouco, reconheço, se limitavam as minhas ambições, agora gostaria que a vida me desse o que nunca me lembro de ter tido, o sabor que ela certamente tem. Maria Sara ouvira-o sem desviar os olhos dos dele, salvo por um rápido momento em que a atenção concentrada foi substituída por uma expressão de surpresa e curiosidade, e disse quando Raimundo Silva chegou ao fim, Não estamos, creio eu, a estabelecer as condições de um contrato, nem precisa de me informar do que eu já sabia, É esta a primeira vez que lhe falo das coisas particulares da minha vida, As coisas que julgamos particulares são quase sempre do conhecimento geral, não imagina o que é possível ficar a saber em duas ou três conversas aparentemente desinteressadas, Andou a fazer perguntas a meu respeito, Fiz perguntas a respeito dos revisores que trabalham para a editora, apenas para me ajudar a ter uma ideia, compreende, mas as pessoas geralmente estão sempre dispostas a dizer mais do que se lhes pergunta, é questão de estimulá-las um pouco, de encaminhá-las sem que se apercebam disso, Já tinha notado essa sua habilidade, logo no princípio, Só a uso para bons fins, Não estou a queixar-me. Raimundo Silva passou a mão pela testa, hesitou um segundo, depois disse, Pintava o cabelo, deixei de pintá-lo, as raízes brancas não são um espetáculo agradável, desculpe, daqui por um tempo estarei no meu natural, Pois eu deixei de o estar, por sua causa fui hoje ao cabeleireiro tingir as veneráveis cãs, Eram tão poucas que não me parece que valesse a pena, Então tinha reparado, Olhei-a suficientemente de perto, como me terá olhado a mim para perguntar-se como é que um homem com a minha idade não tinha cabelos brancos, Nunca me perguntei tal coisa, metia-se pelos olhos dentro que pintava o cabelo, a quem é que pensa que andava a enganar, Provavelmente, só a mim mesmo, Como eu decidi agora começar a enganar-me, É igual, Que é que é igual, A sua razão para pintar, a minha para deixar de pintar, Explique melhor, Eu deixei de pintar o cabelo para ser como sou, E eu, por que o pintei eu, Para continuar a ser como é, Admirável casuística, vou ter de praticar ginástica mental todos os dias para estar à sua altura, Não sou o mais alto dos dois, sou apenas o mais velho. Maria Sara sorriu de leve, É uma evidência irremovível que, pelos vistos, o preocupa, Não me tem preocupado, a idade de cada um de nós só tem um real significado em relação à idade do outro, suponho que serei novo para uma pessoa de setenta anos, mas não tenho dúvidas de que para um rapaz de vinte estou na velhice, E em relação a mim, como se vê, Agora que tingiu os seus poucos cabelos brancos e eu estou a deixar aparecer todos os meus, sou um homem de setenta anos diante duma rapariga de vinte, As suas contas estão erradas, só quinze anos nos separam, Então tenho trinta e cinco anos. Riram ambos, e Maria Sara disse Vamos combinar uma coisa entre nós, Quê, Que o tema da idade e das idades ficou esgotado nesta conversa, Tentarei não voltar a ele, Convirá que faça mais do que tentar, porque eu não serei a interlocutora, Falarei com o espelho, Falará consigo mesmo, se lhe dá gosto, mas não foi para isso que vim a sua casa, Imagino que perguntar-lhe para que veio seria presunçoso da minha parte, Ou grosseiro, Não estou a dizer o que deveria, de repente sai-me uma frase que estraga tudo, Que esse medo o não apoquente, não estragou nada, a verdade é que estamos os dois assustados, Se eu me levantar daqui e lhe for dar um beijo, talvez, Não o faça, mas se o fizer não o anuncie primeiro, Cada vez pior, outro no meu lugar saberia como proceder, Outro no seu lugar teria aqui outra mulher, Rendo-me, Disse-lhe que era somente uma visita, pedi-lhe que esperasse, É o que faço, mas eu sei já o que quero, Concedo que seja importante saber o que se quer, toda a gente tem palavras dessas na boca, mas penso que é muito melhor querer o que se sabe, leva mais tempo, é certo, e as pessoas não têm paciência, Rendo-me outra vez, que posso então fazer, Pode mostrar-me a sua casa, habitualmente é por aí que se começa, Diz-me como vives e eu saberei quem és, Pelo contrário, dir-te-ei como não deves viver se me disseres quem és, Ando a tentar dizer-lhe quem sou, E eu a tentar descobrir como vamos viver.”
  

     “Estava um crepúsculo suave, a friagem do entardecer mal se sentia. Lado a lado, com os cotovelos apoiados na varanda, Maria Sara e Raimundo Silva olhavam em silêncio, conscientes das suas mútuas presenças, o braço de um sentindo o braço do outro, e, pouco a pouco, a tepidez do sangue. O coração de Raimundo Silva batia com força, ressoava-lhe nos ouvidos, o de Maria Sara parecia querer abalá-la da cabeça aos pés. O braço dele chegou-se um pouco mais, o dela permaneceu onde estava, expectante, porém Raimundo Silva não ousou ir mais longe, aos poucos invadira-o o medo, Posso falhar, pensava, não via muito claramente, ou não queria ver, em que é que poderia falhar, mas essa mesma indeterminação fazia aumentar o seu pânico. Maria Sara sentiu que todo ele recuava, como um caracol que se recolhe à proteção da concha, mais e mais fundo, e disse cautelosamente, É uma bonita vista. As primeiras luzes apareciam nas janelas ainda tocadas por um resto de claridade diurna, os candeeiros da rua acabavam de acender-se, alguém ali perto, no Largo dos Lóios, falou em voz alta, alguém respondeu, mas as palavras ficaram incompreensíveis. Raimundo Silva perguntou, Ouviu aqueles, Ouvi, Não consegui perceber o que disseram, Eu também não, Nunca saberemos até que ponto as nossas vidas mudariam se certas frases ouvidas mas não percebidas tivessem sido entendidas, O melhor, penso eu, seria começar por não fazer de conta que não percebemos as outras, as claras e diretas, Tem toda a razão, mas há pessoas a quem atrai mais o duvidoso que o certo, menos o objeto do que o vestígio dele, mais a pegada na areia do que o animal que a deixou, são os sonhadores, É, evidentemente, o seu caso, Até certo ponto, embora tenha de lembrar-lhe que não foi minha a ideia de escrever esta nova história do cerco, Digamos que eu pressenti que tinha na minha frente a pessoa indicada, Ou que, prudentemente, prefere não ter a responsabilidade dos seus sonhos, Estaria aqui eu se essa fosse a verdade, Não, A diferença é que eu não busco pegadas na areia.”


     (No cerco de Lisboa, em 1147) “Agora trata-se ainda de enterrar os trinta mortos nacionais que custou a tentativa de assalto à Porta de Ferro, e esses levá-los-ão as barcas ao outro lado do esteiro, e pela encosta acima, a braço, em padiolas improvisadas com paus toscamente aparelhados. À beira da fossa comum serão despidos das roupas que possam aproveitar a vivos, se não estão molestamente encortiçadas de sangue, e ainda assim algum menos escrupuloso e delicado a essas levará, donde vem a resultar que, no geral dos casos, os mortos baixam à sepultura tão nus como a terra que os recebe.
     Alinhados, com os pés descalços a tocar a primeira fímbria do lodo, que as marés altas e as ondas mantêm fresco e mole, os mortos, sob os olhares e chufas dos mouros vencedores, lá no alto dos adarves, esperam a hora de embarcar. A tardança esta em serem, para o transporte, menos os necessários do que os voluntários, o que poderia surpreender-nos tratando-se de tarefa tão penosa e lúgubre, mesmo levando em linha de conta o aliciante da compensação vestimentária, mas é caso que toda a gente quer ir realmente de barqueiro e cangalheiro, porque ali ao lado do cemitério se acabou de instalar, nestes dias, o bairro da putaria, até agora dispersas as mulheres por esses barrocos e revessas mais escusas à espera de ver em que pararia esta guerra, se seria chegar, ver e vencer, e aí qualquer arrumo precário serviria, ou se ia dar em cerco prolongado, como tudo indica que venha a ser, portanto apetecendo maiores comodidades, e nesta circunstância escolhe-se um espaço sombreado, por estar quente o tempo e puxar do corpo o exercício, e armam-se umas quantas choupanas de pau-a-pique e ramagens a fazer de toldo, para cama não se requer mais que uma paveia de feno ou umas rústicas ervas rodilhadas que com o tempo se volverão terriço confundido com a poeira dos mortos. Não seriam precisos extremos de erudição para notar, agora, como já naqueles medievos tempos, apesar da resistência da Igreja aos símiles clássicos, andavam emparceirados Eros e Tanatos, neste caso com Hermes por intermediário, pois não poucas vezes com as mesmas roupas dos mortos se pagavam os bons serviços de mulheres que, por estarem na infância da arte e a principiar um país, ainda acompanhavam com verdade e alegria os transportes do cliente.”


     “O exército não terá de avisar as famílias por telegrama, No cumprimento do seu dever caiu no campo de honra, maneira sem dúvida mais elegante que explicar mui por claro, Morreu com a cabeça esmagada por uma pedra que um filho da puta de um mouro atirou lá de cima, é que estes exércitos ainda não têm cadastro, os generais, quando muito, e muito pela rama, sabem que ao princípio tinham doze mil homens e daqui para diante o que têm a fazer é ir descontando todos os dias uns tantos, soldado na frente de batalha não precisa de nome, Ó sua besta, se recuas levas um tiro nos cornos, e ele não recuou, e a pedra caiu, e ele morreu. Chamavam-lhe Galindo, é este, em estado tal que nem a própria mãe que o pariu o reconheceria, amolgada a cabeça de um lado, o rosto coberto de sangue seco, e tem à direita Remígio, de setas trespassado, duas de lado a lado, que os dois mouros que ao mesmo tempo o escolheram para alvo tinham olho de falcão e braço de sansão, mas não perdem pela demora, daqui a alguns dias tocar-lhes-á a vez, e ficarão, como estes expostos ao sol, à espera da sepultura, dentro da cidade que estando cercada já não se pode chegar ao cemitério, onde os galegos cometeram as mais nefandas profanações. A seu favor, se tal se pode dizer, só têm os mouros as despedidas da família, o alarido das mulheres, mas isso, quem sabe, até será pior para o moral dos tropas, sujeitos a um espetáculo de lágrimas de dor e sofrimento, de lutos sem consolação, Meu filho, meu filho, enquanto no acampamento cristão tudo se passa entre homens, que as mulheres, se estão lá, é por outros motivos e para outros fins, abrir as pernas a quem vier, soldado morto, soldado posto, as diferenças de comprimento e grossura, com o hábito, nem se notam, salvo casos excepcionais.”


     “Jantaram num restaurante da Baixa, ela quis saber como ia a história do cerco, Menos mal, creio, para o absurdo que é, Ainda te falta muito para terminá-la, Poderia acabá-la em três linhas, no gênero depois casaram e foram muito felizes, no nosso caso os portugueses num supremo esforço tomaram a cidade, ou então ponho-me a enumerar as armas e as bagagens, a enredar as pessoas e as personagens, e nunca mais chegarei ao fim, uma alternativa seria deixá-la ficar tal qual esta, agora que já nos encontramos, Preferiria que a terminasses, tens de resolver as vidas daquele Mogueime e daquela Ouroana, o resto será menos importante, de toda a maneira sabemos como a história terá de acabar, a prova é estarmos a jantar em Lisboa, não sendo mouros nem turistas em terra de mouros, Provavelmente passaram por aqui as barcas que levaram ao cemitério os mortos do ataque às portas da cidade, Quando voltarmos para casa vou pôr-me a ler desde o princípio, Se não estivermos ocupados em questões mais interessantes, Temos muito tempo, caro senhor, Aliás, a história é curta, em meia hora terás lido tudo, limitei-me, como verás, ao que me parecia poder ser essencialmente decorrente do fato de os cruzados se terem ido embora sem ajudar os portugueses, E que daria um romance, É possível, mas quando me meteste nestes trabalhos sabias que eu não passava de um normal e modesto revisor, sem outras qualidades, As suficientes para teres aceitado o repto, Deverias chamar-lhe antes provocação, Seja provocação, Que ideia tinhas tu na cabeça quando me desafiaste, que buscavas, Naquela altura não o via com muita clareza, por muitas explicações que pudesse ter dado a mim própria, ou a ti, quando as pediste, agora já é evidente que era a ti que buscava, Este tipo magro e sisudo, com os seus cabelos mal pintados, vivendo fechado em casa, triste como um cão sem dono, Um homem que me agradou logo que o vi, um homem que fizera deliberadamente um erro onde estava obrigado a emendá-los, um homem que percebera que a distinção entre não e sim é o resultado duma operação mental que só tem em vista a sobrevivência, É uma boa razão, É uma razão egoísta, E socialmente útil, Sem dúvida, embora tudo dependa de quem forem os donos do sim e do não, Orientamo-nos por normas geradas segundo consensos, e domínios, mete-se pelos olhos dentro que variando o domínio varia o consenso, Não deixas saída, Porque não há saída, vivemos num quarto fechado e pintamos o mundo e o universo nas paredes dele, Lembra-te de que já foram homens à lua, O seu quartinho fechado foi com eles, És pessimista, Não chego a tanto, limito-me a ser cética da espécie radical, Um cético não ama, Pelo contrário, o amor é provavelmente a última coisa em que o cético ainda pode acreditar, Pode, Digamos antes que precisa.”


     “Veio a senhora Maria à hora do costume, depois do almoço, e mal entrou pôs-se a fungar de um modo que tanto tinha de discreto como de ostensivo, cometimento em extremo difícil de alcançar, pois leva a dupla finalidade de parecer disfarçar que se pretenda saber algo, mostrando ao mesmo tempo, que não se esta disposto a permitir que o outro se dê por desentendido. É, por excelência, uma arte diplomática, mas dirigida pela intuição, se não pelo instinto, e que, em geral, atingia o seu objetivo principal, que era o de criar no revisor um vago sentimento de pânico, como se visse prestes a serem revelados em público os seus mais ocultos segredos. A senhora Maria é sádica e não o sabe. Deu as boas-tardes da porta do quarto, fungou duas vezes para que Raimundo Silva percebesse que lá por ser ela uma pobre mulher-a-dias, ainda era dotada de olfato de bastante qualidade para captar o que no ar tenha ficado de um perfume. Raimundo Silva respondeu à saudação e continuou a escrever, limitando-se a lançar um olhar rápido para o lado dela, decidido a fazer de conta que não sabia o que estava a passar-se, a senhor Maria, assombrada primeiro e logo com a expressão especial que significa, Bem me queria a mim parecer, fitando a cama, que, em vez do puxão sumário que Raimundo Silva aprendera a dar-lhe para que não se confundisse com tarimba de maltês, apresentava-se irrepreensível, como só mãos femininas são capazes. Tossiu para chamar a atenção, mas Raimundo Silva fingia-se distraído, embora o seu coração estivesse em estúpido alvoroço, Não tenho que dar contas da minha vida, pensava, e indignou-se consigo mesmo por buscar justificações cobardes, ele que havia começado agora um amor assim, inteiro, então levantou a cabeça, perguntou, Quer alguma coisa, num tom seco, sacudido, que desarmou a impertinência da mulher, Não senhor, não quero nada, estava só a olhar. Raimundo Silva podia ter-se contentado com a atrapalhação da resposta, mas preferiu desafiar, A olhar o quê, Nada, a cama, Que tem a cama, Nada, esta feita, Pois esta, e daí, Nada, nada, a senhora Maria virou costas, acobardara-se, não fez a pergunta que lhe ardia na língua, Quem a fez, e assim não soube que resposta lhe daria Raimundo Silva, o qual, por sua vez, tão-pouco a sabia. Durante todo o tempo a senhora Maria não voltou ao quarto, como se estivesse significando a Raimundo Silva que considerava aquela parte da casa já fora da sua jurisdição, porém, ou não pôde ou não quis abafar a frustração mal-humorada, não abafando também os ruídos próprios do seu trabalho e, pelo contrário, exagerando-os. Raimundo Silva resolveu levar o caso a sorrir, mas o abuso tornava-se notório, por isso veio ao corredor, Menos barulho, por favor, que estou a trabalhar, a senhora Maria podia ter-lhe respondido que também ela estava, e que não tinha a sorte de certas pessoas que podem ganhar a vida sentadas, quietas e caladas, mas a precisão, mesmo tão conflitiva como esta, pôde mais do que a vontade, e calou-a. O que sobretudo irrita a senhora Maria é que tão grandes mudanças estejam a passar-se à sua revelia, não fosse ela a espertíssima pessoa que é, e um dia destes, inesperadamente, dava com outra mulher em casa, sem poder atirar-lhe a pergunta mais apetecida, Quem é a senhora, quem a chamou cá, os homens são uns insensíveis e uns incompetentes, que é que custava a Raimundo Silva uma meia palavra de risonha confidência por muito que doesse sempre seria um lenitivo para tão amargo ciúme, que esse é o mal de que sofre a senhora Maria, e não sabe. Outras considerações, das práticas e prosaicas, ocupam também os seus pensamentos, sendo a principal o risco em que poderá vir a estar o emprego se à tal mulher, supondo que não se trate de um arranjinho de ocasião, lhe der para implicar com o seu trabalho, Limpe isto outra vez, exibindo a ponta de um dedo sujo da poeira dum friso de porta, esse gesto odioso a que nenhuma mulher-a-dias até hoje se lembrou de responder com uma frase que entraria na história, Se você o meter no cu sai de lá mais sujo. Pobre de quem veio ao mundo para obedecer, pensa a senhora Maria, e volta a limpar o que já estava limpo, enquanto, sem ver porquê, lhe sobem as lágrimas do coração aos olhos, quis o acaso que isto acontecesse diante do espelho da casa de banho, à senhora Maria, neste momento, nem os seus lindos cabelos a consolam.
     Com tudo isto, não esta excluído que a senhora Maria venha a gostar de Maria Sara, também do coração se pode esperar tudo, até a harmonia das suas contradições.”


     “Estas a falar de mim, bem o sei, mas o que dizes não me agrada, Calculo, Dure esta relação o que durar, quero vivê-la limpamente, gostei de ti pelo que és, presumo que o que sou não te impede de gostares de mim, e basta, Desculpa-me, Não adianta pedires desculpa, o mal esta em vocês, homens, todos, a macheza, quando não é a profissão é a idade, quando não é a idade é a classe social, quando não é a classe social é o dinheiro, alguma vez vocês se decidirão a ser naturais na vida, Nenhum ser humano é natural, Não é preciso ser-se revisor para saber isso, uma simples licenciada não o ignora, Parece que estamos em guerra, Claro que estamos em guerra, e é guerra de sítio, cada um de nós cerca o outro e é cercado por ele, queremos deitar abaixo os muros do outro e continuar com os nossos, o amor será não haver mais barreiras, o amor é o fim do cerco.”