sexta-feira, 31 de julho de 2015

Viagens na Minha Terra - Almeida Garrett

Editora: Martin Claret
ISBN: 978-85-7232-595-0
Opinião: ***
Páginas: 268
     “A virtude é o galardão de si mesma, disse um filósofo antigo.”


     “Plantai batatas, ó geração de vapor e de pó de pedra, macadamizai estradas, fazeis caminhos de ferro, construí passarolas de Ícaro, para andar a qual mais depressa, estas horas contadas de uma vida toda material, maçuda e grossa como tendes feito esta que Deus nos deu tão diferente do que a que hoje vivemos. Andai, ganha-pães, andai; reduzi tudo a cifras, todas as considerações deste mundo a equações de interesse corporal, comprai, vendei, agiotai. No fim de tudo isto, o que lucrou a espécie humana? Que há mais umas poucas dúzias de homens ricos. E eu pergunto aos economistas políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar a miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infâmia, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico? Cada homem rico, abastado, custa centos de infelizes, de miseráveis.”


     “Por mim, não conheço objeto mais lindo em toda a natureza, mais feiticeiro, mais capaz de arrebatar o espírito e inflamar o coração do que é uma jovem donzela quando a modéstia lhe faz subir o rubor às faces e o pejo lhe carrega brandamente nas pálpebras...”


     “O italiano tinha fé em Deus, o alemão no cepticismo, o português na sua pátria. É preciso crer em alguma coisa para ser grande — não só poeta — grande seja no que for.”


     “O inglês não canta senão quando bebe... aliás quando esta BEBIDO.”


     “Este é o único privilégio dos poetas: que até morrer podem estar namorados.”


     “O coração humano é como o estômago humano, não pode estar vazio, precisa de alimento sempre: são e generoso só as afeições lho podem dar; o ódio, a inveja e toda a outra paixão má é estímulo que só irrita mas não sustenta. Se a razão e a moral nos mandam abster destas paixões, se as quimeras filosóficas, ou outras, nos vedarem aquelas, que alimento dareis ao coração, que há de ele fazer? Gastar-se sobre si mesmo, consumir-se... Altera-se a vida, apressa-se a dissolução moral da existência, a saúde da alma é impossível. 
     O que pode viver assim, vive para fazer mal ou para não fazer nada.
     Ora o que não ama, que não ama apaixonadamente, seu filho se o tem, sua mãe se a conserva, ou a mulher que prefere a todas, esse homem é o tal, e Deus me livre dele. 
     Sobretudo que não escreva: há de ser um maçador terrível. Talvez seja este o motivo da indefinida permissão que é dada aos poetas de andarem namorados sempre. O romancista goza do mesmo foro e tem as mesmas obrigações.”


“- Não sei o que é, mas quando não trabalho eu, trabalha não sei o que em mim que me cansa ainda mais. Bem dizem que a ociosidade é o pior lavor.”


     “Sei que me não namoro de paradoxos, nem sou destes espíritos de contradição desinquieta que suspiram sempre pelo que foi, e nunca estão contentes com o que é.”


     “– Vencedores ou vencidos, toda a comunhão, toda a possibilidade de união acabou entre nós e estes homens. Nós temos obrigação de os destruir, eles o seu único desejo é exterminar-nos. 
     – Meu Deus! meu Deus! pois a isto somos chegados? Pois já não há misericórdia no céu nem na terra! 
     – A misericórdia de Deus cansou-se; a da terra não sei onde esta nem onde esteve nunca. Os fracos dão sacrilegamente este nome à sua relaxação. 
     – Pois é relaxação desejar a paz, querer a união, suplicar a indulgência? Não nos manda Deus perdoar todas as nossa dívidas, amar os nossos inimigos? 
     – Os nossos sim, os d’Ele não.
     – Pois tão perdidos, tão abandonados da mão de Deus são eles todos... todos? 
     – Todos. E que cuida, irmã? que são melhores os nossos, esses que se dizem nossos? que há mais fé na sua crença, mais verdade na sua religião? Ó santo Deus! 
     – Faz-me tremer, padre! 
     – E para tremer é. A impiedade e a cobiça entraram em todos os corações. Duvidar é o único princípio, enriquecer o único objeto de toda essa gente. Liberais e realistas, nenhum tem fé: os liberais ainda têm esperança; não lhe há de durar muito. Deixem-nos vencer e verão. 
     – E hão de vencer eles? 
     – Decerto. 
     – Ninguém mais diz isso. 
     – Digo-o eu. 
     – Tantos mil soldados que o governo tem por si!
     – E tantos milhões de pecados contra. Não pode ser, não pode ser: a misericórdia divina esta exausta, e o dia desejado dos ímpios vai chegar. A sua missão é fácil e pronta; não sabem, não podem senão destruir. Edificar não é para eles, não têm com quê, não creem em nada. O símbolo cristão não é só uma verdade religiosa, é um princípio eterno e universal. Fé, esperança e caridade. Sem crer, sem esperar... 
     – E sem amar! 
     – Mulher, mulher! o amor é a última virtude... 
     – Mas por ela, por ela se chega às outras.


     “O chamado liberalismo, esse entendia o freio Dinis: “Reduz-se, dizia, a duas coisas, duvidar e destruir por princípio, adquirir e enriquecer por fim; é uma seita toda material em que a carne domina e o espírito serve; tem muita força para o mal; bem verdadeiro, real e perdurável, não o pode fazer. Curar com uma revolução liberal um país estragado, como são todos os da Europa, é sangrar um tísico: a falta de sangue diminui as ânsias do pulmão por algum tempo, mas as forças vão-se e a morte é a mais certa”.”


     “Formou Deus o homem, e o pôs num paraíso de delícias; tornou a formá-lo a sociedade, e o pôs num inferno de tolices. 
     O homem — não o homem que Deus fez, mas o homem que a sociedade tem contrafeito, apertando e forçando em seus moldes de ferro aquela pasta de limo que no paraíso terreal se afeiçoara à imagem da divindade — o homem assim aleijado como nós o conhecemos, é o animal mais absurdo, o mais disparatado e incongruente que habita na terra.
     Rei nascido de todo o criado, perdeu a realeza: príncipe deserdado e proscrito, hoje vaga foragido no meio de seus antigos estados, altivo ainda e soberbo com as recordações do passado, baixo, vil e miserável pela desgraça do presente.
     Destas duas tão opostas atuações constantes, que já per si sós o tornariam ridículo, formou a sociedade, em sua vã sabedoria, um sistema quimérico, desarrazoado e impossível, complicado de regras a qual mais desvairada, encontrado de repugnâncias a qual mais oposta. E vazado este perfeito modelo de sua arte pretensiosa, meteu dentro dele o homem, desfigurou-o, contorceu-o, fê-lo o tal ente absurdo e disparatado, doente, fraco, raquítico; colocou-o no meio do Éden fantástico de sua criação — verdadeiro inferno de tolices — e disse-lhe, invertendo com blasfemo arremedo as palavras de Deus Criador: 
     “De nenhuma árvore da horta comendo comerás: 
     Porém da árvore da ciência do bem e do mal dela só comerás se quiseres viver.”
     Indigestão de ciência que não comutou seu mau estômago, presunção e vaidade que dela se originaram — tal foi o resultado daquele preceito a que o homem não desobedeceu como ao outro: tal é o seu estado habitual.
     E quando as memórias da primeira existência lhe fazem nascer o desejo de sair desta outra, lhe influem alguma aspiração de voltar à natureza e a Deus, a sociedade, armada de suas barras de ferro, vem sobre ele, e o prende, e o esmaga, e o contorce de novo, e o aperta no ecúleo doloroso de suas formas.
     Ou há de morrer ou ficar monstruoso e aleijão. 
     Poucos filhos do Adão social tinham tantas reminiscências da outra pátria mais antiga, e tendiam tanto a aproximar-se do primitivo tipo que saíra das mãos do Eterno, forcejavam tanto por sacudir de si o pesado aperto das constrições sociais, e regenerar-se na santa liberdade da natureza, como era o nosso Carlos.
     Mas o melhor e o mais generoso dos homens segundo a sociedade, é ainda mais fraco, falso e acanhado.
     Demais, cada tentativa nobre, cada aspiração elevada de sua alma lhe tinha custado duros castigos, severas e injustas condenações desse grande juiz hipócrita, mentiroso e venal... o mundo.
     Carlos estava quase como os mais homens... ainda era bom e verdadeiro no primeiro impulso de sua natureza excepcional; mas a reflexão descia-o à vulgaridade da fraqueza, da hipocrisia, da mentira comum.
     Dos melhores era, mas era homem.”


     “Quem tem uma ideia fixa, em tudo a mete.”


     “Detesto a filosofia, detesto a razão; e sinceramente creio que num mundo tão desconchavado como este, numa sociedade tão falsa, numa vida tão absurda como a que nos fazem as leis, os costumes, as instituições, as conveniências dela, afetar nas palavras a exatidão, a lógica, a retidão que não há nas coisas, é a maior e mais perniciosa de todas incoerências.”


     “Em Portugal não há religião de nenhuma espécie. Até a sua falsa sombra, que é a hipocrisia, desapareceu. Ficou o materialismo estúpido, alvar, ignorante, devasso e desfaçado, a fazer gala de sua hedionda nudez cínica no meio das ruínas profanadas de tudo o que elevava o espírito...
     Uma nação grande ainda poderá ir vivendo e esperar por melhor tempo, apesar desta paralisia que lhe pasma a vida da alma na mais nobre parte de seu corpo. Mas uma nação pequena, é impossível; há de morrer.
     Mais dez anos de barões e de regime da matéria, e infalivelmente nos foge deste corpo agonizante de Portugal o derradeiro suspiro do espírito.
     Creio isto firmemente.
     Mas ainda espero melhor todavia, porque o povo, o povo povo, esta são; os corruptos somos nós, os que cuidamos saber e ignoramos tudo.
     Nós, que somos a prosa vil da nação, nós não entendemos a poesia do povo; nós, que só compreendemos o tangível dos sentidos, nós somos estranhos às aspirações sublimes do senso íntimo, que despreza as nossas teorias presunçosas, porque todas vêm de uma acanhada análise que procede curta e mesquinha dos dados materiais, insignificantes e imperfeitos; — enquanto ele, aquele senso íntimo do povo, vem da Razão divina, e procede da síntese transcendente, superior, e inspirada pelas grandes e eternas verdades que se não demonstram porque se sentem.
     E eu que descrevo isto serei eu demagogo? Não sou.
     Serei fanático, jesuíta, hipócrita? Não sou.
     Que sou eu, então? 
     Quem não entender o que eu sou, não vale a pena que lho diga... 
     Perdoa-me, leitor amigo, uma reflexão última no fim deste capítulo já tão secante, e prometo não refletir nunca mais. 
     Jesus Cristo, que foi o modelo da paciência, da tolerância, o verdadeiro e único fundador da liberdade e da igualdade entre os homens, Jesus Cristo sofreu com resignação e humildade quantas injustiças, quantos insultos lhe fizeram a ele e à sua missão divina; perdoou ao matador, a adúltera, ao blasfemo, ao ímpio. Mas quando viu os barões a agiotar dentro do templo, não se pode conter, pegou num azorrague e zurziu-os sem dor.”

domingo, 26 de julho de 2015

Aristóteles: Tópicos – Dos argumentos sofísticos (Os Pensadores)

Editora: Nova Cultura
ISBN: 85-130-0847-8
Tradução: Leonel Vallandro e Gerd Bornheim
Opinião: **
Páginas: 202

     “Platão ensinava na Academia e nos seus Diálogos que a compreensão dos fenômenos que ocorrem no mundo físico depende de uma hipótese: a existência de um plano superior da realidade, atingido apenas pelo intelecto, e constituído de formas ou ideias, arquétipos eternos dos quais a realidade concreta seria a cópia imperfeita e perecível. Através da dialética — feita de sucessivas oposições e superposições de teses — seria possível ascender do mundo físico (apreendido pelos sentidos e objeto apenas de opiniões múltiplas e mutáveis) à contemplação dos modelos ideais (objetos da verdadeira ciência).”
(José Américo Motta Pessanha)


     “Aristóteles justamente já teria percebido que a dialética platônica só se comprometia com a certeza em última instância — o que conferia ao platonismo sua inquietação permanente e sua flexibilidade, deixando-o, porém, sob a constante ameaça do relativismo. O projeto aristotélico torna-se, então, o de forjar um instrumento mais seguro para a constituição da ciência: o Organon. Nele a dialética é reduzida à condição de exercício mental que, não lidando com as próprias coisas, mas com as opiniões dos homens sobre as coisas, não pode atingir a verdade, permanecendo no âmbito da probabilidade. Essa concepção da dialética como uma “ginástica do espírito”, útil como fase preparatória para o conhecimento, mas incapaz de chegar à certeza sobre as coisas, justifica a concepção aristotélica da história e, em particular, da história da filosofia: a história — inserida no domínio da dialética — é útil e indispensável na medida em que conduz à sua própria superação, quando o provável se transforma em certeza. Ou quando as opiniões dos antecessores preparam e dão lugar à verdade que somente seria alcançada pelo pensamento aristotélico.
     Para se atingir a certeza científica e construir um conjunto de conhecimentos seguros, torna-se necessário, segundo Aristóteles, possuir normas de pensamento que permitam demonstrações corretas e, portanto, irretorquíveis. O estabelecimento dessas normas confere a Aristóteles o papel de criador da lógica formal, entendida como a parte da lógica que prescreve regras de raciocínio independentes do conteúdo dos pensamentos que esses raciocínios conjugam.”
(José Américo Motta Pessanha)


     “Um problema de dialética é um tema de investigação que contribui para a escolha ou a rejeição de alguma coisa, ou ainda para a verdade e o conhecimento, e isso quer por si mesmo, quer como ajuda para a solução de algum outro problema do mesmo tipo.”
(Tópicos)


     “O raciocínio é um argumento em que, estabelecidas certas coisas, outras coisas diferentes se deduzem necessariamente das primeiras.”
(Tópicos)


     “Uma “tese” é uma suposição de algum filósofo eminente que esteja em conflito com a opinião geral: por exemplo, a ideia de que a contradição é impossível, como disse Antístenes; ou o ponto de vista de Heráclito, de que todas as coisas estão em movimento; ou de que o ser é um, como afirma Melisso; pois ocupar-nos com uma pessoa comum quando expressa pontos de vista contrários às opiniões usuais dos homens seria tolice.”
(Tópicos)


     “E também o que se deseja por si mesmo é preferível àquilo que se deseja com vistas noutra coisa: por exemplo, a saúde é preferível à ginástica, porque a primeira é desejada por si mesma, enquanto a segunda é desejada com vistas noutra coisa. E do mesmo modo, o que é desejável por si mesmo é mais desejável do que aquilo que se deseja por acidente; por exemplo, a justiça é mais desejável em nossos amigos do que em nossos inimigos, pois a primeira é desejável em si mesma e a segunda por acidente: com efeito, desejamos que nossos inimigos sejam justos por acidente, a fim de que não nos causem dano. Este princípio é o mesmo que o precedente, embora expresso de outro modo. Porquanto desejamos a justiça em nossos amigos por si própria, mesmo que isso não faça nenhuma diferença para nós e ainda que eles estejam na Índia, ao passo que em nossos inimigos nós a desejamos por outra coisa e a fim de que eles não nos causem dano.
     Por outro lado, aquilo que em si mesmo é causa do bem é mais desejável do que aquilo que o é por acidente, por exemplo, a virtude é mais desejável do que a sorte (pois a primeira é por si mesma causa de coisas boas, ao passo que a segunda só o é acidentalmente); e do mesmo modo nos outros casos da mesma espécie. E analogamente também no caso contrário, pois aquilo que é em si mesmo a causa do mal é mais reprovável do que aquilo que o é acidentalmente, por exemplo, o vício e o acaso, pois o primeiro é mau em si mesmo e o segundo só por acidente.
     Mais ainda: o que é bom de maneira absoluta é mais desejável do que aquilo que é bom para uma pessoa particular: por exemplo, recuperar a saúde é mais desejável do que uma operação cirúrgica, pois a primeira é boa de maneira absoluta e a segunda só o é para uma pessoa particular, a saber: o homem que precisa de ser operado. Assim também, o que é um bem por natureza é mais desejável do que o bem que não é tal por natureza: por exemplo, a justiça é mais desejável do que o homem justo, pois a primeira é boa por natureza, ao passo que no segundo a bondade é adquirida. E também é mais desejável o atributo que pertence ao melhor e mais honroso sujeito; por exemplo, o que pertence a um deus é mais desejável do que o que pertence a um homem, e o que pertence à alma, mais desejável do que o que pertence ao corpo. Do mesmo modo, a propriedade de uma coisa melhor é mais desejável do que a propriedade de uma coisa pior, por exemplo: a propriedade de um deus do que a propriedade do homem; porque, assim como no tocante ao que é comum a ambos não diferem absolutamente entre si, no que respeita às suas propriedades um sobrepuja o outro. Também é melhor o que é inerente a coisas melhores, anteriores ou mais honrosas: assim, por exemplo, a saúde é preferível à força e à beleza, pois a primeira é inerente tanto ao úmido como ao seco, tanto ao quente como ao frio — em suma, a todos os constituintes primários de um animal ao passo que as outras são inerentes ao que é secundário, sendo a força uma característica dos tendões e dos músculos, enquanto a beleza, segundo se supõe geralmente, consiste numa certa simetria dos membros.”
(Tópicos)


     “Todas as coisas são também mais desejáveis na ocasião em que assumem maior importância; por exemplo, estar isento de dor é mais desejável na velhice do que na juventude, porque se reveste de maior importância na velhice. Dentro do mesmo princípio, também a prudência é mais desejável na velhice; com efeito, ninguém escolhe os jovens para guiá-los, pois não se espera que eles sejam prudentes. Com a coragem dá-se o caso inverso, pois é na mocidade que se requer de maneira mais imperativa o exercício dessa virtude. E da mesma forma no que toca à temperança, porquanto os jovens sofrem mais do que os velhos as consequências de suas paixões.
     Além disso, é mais desejável aquilo que é mais útil em todas as ocasiões ou na maioria delas, por exemplo, a justiça e a temperança mais do que a coragem, pois as primeiras são sempre úteis, enquanto a segunda só o é em determinadas ocasiões. E dentre duas coisas, aquela que, se todos a possuíssem, tornaria desnecessária a outra é mais desejável do que aquela que todos poderiam possuir e, ainda assim, sentir falta da outra. Considere-se a esta luz o caso da justiça e da coragem: se todos fossem justos, não haveria necessidade de coragem, ao passo que. se todos fossem corajosos, ainda assim haveria necessidade de justiça.”
(Tópicos)


     “Não se deve argumentar com todo mundo, nem praticar argumentação com o homem da rua, pois há gente com quem toda discussão tem por força que degenerar. Com efeito, contra um homem que não recua diante de meio algum para aparentar que não foi derrotado, é justo tentar todos os meios de levar a bom fim a conclusão que nos propomos; mas isso é contrário às boas normas. Por isso, a melhor regra é não se pôr levianamente a argumentar com o primeiro que se encontra, pois daí resultará seguramente uma má argumentação. Todos vemos, com efeito, que ao praticar umas com as outras as pessoas não podem refrear-se de cair em argumentos contenciosos.”
(Tópicos)


     “Exigir um “sim” ou um “não” como resposta é tarefa de quem procede à crítica, e não do que expõe alguma coisa. Porque a arte da crítica é um ramo da dialética e se dirige não ao homem que conhece, mas ao ignorante que presume conhecer. É, pois, um dialético aquele que considera os princípios comuns em sua aplicação ao assunto particular em debate, enquanto o que só faz isso em aparência é um sofista.”
(Dos argumentos sofísticos)


     “As pessoas não desejam as mesmas coisas que afirmam desejar: dizem o que melhor soa, mas desejam o que parece promover os seus interesses.”
(Dos argumentos sofísticos)

quarta-feira, 15 de julho de 2015

O Quarteto de Alexandria: Balthazar – Lawrence Durrell

Editora: Ediouro
ISBN: 978-85-0001-757-5
Tradução: Daniel Pellizzari
Opinião: ****
Páginas: 200

     “Um diário é a última fonte a ser consultada quando se busca a verdade sobre alguém. Ninguém ousa confessar ao papel as verdades supremas acerca de si mesmo: pelo menos no que tange ao amor.”


     “Quando se colhe uma flor, a haste treme e retorna à posição inicial. Não se pode dizer os mesmos dos transtornos do coração.”


     “A verdade é aquilo que mais se contradiz com o passar do tempo.”


     “É bem possível amar aqueles a quem mais magoamos.”


     “Somos criadores de nossos próprios infortúnios, que sempre carregam nossas impressões digitais.”


     “E mesmo Clea, tão inexperiente, não podia senão compadecer-se quando Justine dizia coisas como “Não valho grande coisa, sabe. Arnauti costumava dizer que só consigo gerar tristeza. Ele despertou minha lucidez e ensinou-me que nada importa além do prazer – que é o oposto da felicidade, sua porção trágica, imagino.” Clea comoveu-se porque lhe parecia claro que Justine nunca havia experimentado o verdadeiro prazer – para isso é necessário ser generoso. O egoísmo é uma fortaleza na qual a consience de soi-même a tudo corrói, como um ácido. Não há dúvidas de que o verdadeiro prazer esta na doação.”


     “O amor é como uma guerra de trincheiras – não enxergamos o inimigo, mas sabemos que ele esta ali e que é melhor não levantar a cabeça.”


     “Lembro de ir até o cais esperar pelo navio de Pursewarden, acompanhado por um Keats ofegante – que tinha a intenção de entrevistá-lo. Chegamos atrasados e o encontramos preenchendo o formulário de imigração. Na coluna ‘religião’, havia escrito ‘Protestante – apenas no sentido de que protesto’.
     Convidamos Pursewarden para beber alguma coisa, para que Keats pudesse fazer sua entrevista. O pobre rapaz estava completamente transtornado. Pursewarden tinha um sorriso especial que usava somente para a imprensa. É o mesmo sorriso que poderia ser visto no rosto de um bebê morto. Mais tarde aprendi seu significado. Indicava que Pursewarden estava prestes a atentar contra o bom senso com algumas de suas ironias. Não queria divertir ninguém além de si mesmo, saiba disso. Keats ofegava, suspirava, parecia ‘sincero’ e compenetrado, mas tudo em vão. Mais tarde pedi uma cópia datilografada da entrevista, que Keats entregou com um ar perplexo, explicando que aquele homem não era ‘notícia’. Pursewarden dissera coisas como ‘É dever de todo patriota odiar seu país de forma criativa’ e ‘Acima de tudo, a Inglaterra precisa de bordeis’; este último comentário deixou o pobre Keats um pouco atônito.
     Pursewarden escreveu certa vez ao seu adorado D. H. Lawrence: “Maître, Maître, tome cuidado. Ninguém pode ser rebelde por muito tempo sem se transformar em autocrata”.
     Quando queria discutir uma obra de arte medíocre, comentava com um tom de aprovação: ‘Bem competente’. Era uma finta. Como não se interessava o suficiente por arte a ponto de querer discutir o assunto com outras pessoas (‘cães farejando uma cadela pequena demais para ser montada’), dizia ‘Bem competente’. Uma vez estava bêbado e completou: ‘Em arte, competente é tudo aquilo que violenta a emoção do público sem lhe nutrir de valores’.”


     “Quase nada pode ser mais cruel que a autêntica honestidade.”


     “De certo modo, Pursewarden realmente era o homem certo para Justine, mas como você deve saber, a suposta pessoa ‘certa’ sempre chega cedo ou tarde demais; é uma das leis do amor.”


     “Desencorajar Justine era uma tarefa tão simples quanto cancelar um equinócio.”


     “Pursewarden conseguia fazer com que ela risse – certamente a coisa mais perigosa que pode ser feita a uma mulher, pois o riso é o que mais valorizam depois da paixão. Fatal! (...) Então atacava de repente com alguma frase terrível, como ‘Todos nós buscamos alguém adorável para trair’.”


     “Aos que não têm filhos, todas as coisas são vazias de ressonância.”


     “A verdade, embora impiedosa como o amor, sempre é um tesouro.”


“- O fruto da árvore do bem e do mal não é outro senão a carne.”


     “Um navio sem vela é uma mulher sem seios. Nada mais.”


     “Ao ser pronunciada, a verdade é sempre reduzida à metade.”