quarta-feira, 28 de março de 2012

1984 – George Orwell

Editora: Companhia Editora Nacional
ISBN: 978-85-0400-611-7
Opinião★★★☆☆
Páginas: 302


“Seu espírito mergulhou no mundo labiríntico do duplipensar. Saber e não saber, ter consciência de completa veracidade ao exprimir mentiras cuidadosamente arquitetadas, defender simultaneamente duas opiniões opostas, sabendo-as contraditórias e ainda assim acreditando em ambas; usar a lógica contra a lógica, repudiar a moralidade em nome da moralidade, crer na impossibilidade da democracia e que o Partido era o guardião da democracia; esquecer tudo quanto fosse necessário esquecer, trazê-lo à memória prontamente no momento preciso, e depois torná-lo a esquecer; e acima de tudo, aplicar o próprio processo ao processo. Essa era a sutileza derradeira: induzir conscientemente a inconsciência, e então, tornar-se inconsciente do ato de hipnose que se acabava de realizar. Até para compreender a palavra “duplipensar” era necessário usar o duplipensar.”


“Ortodoxia quer dizer não pensar... não precisar pensar. Ortodoxia é inconsciência.”


“Contanto que continuassem a trabalhar e se reproduzir, não tinham importância as atividades dos proles. Abandonados a si mesmos, como gado solto nas planícies argentinas, haviam regressado a um modo de vida que lhes parecia natural, uma espécie de tradição ancestral. Nasciam, cresciam nas sarjetas, iam para o trabalho aos doze, atravessavam um breve período de floração da beleza e do desejo sexual, casavam-se aos vinte, atingiam a maturidade aos trinta, e em geral morriam aos sessenta. O trabalho físico pesado, o trato da casa e dos filhos, as briguinhas com a vizinhança, o cinema, o futebol, a cerveja e, acima de tudo, o jogo, enchiam-lhes os horizontes. Mantê-los sob controle não era difícil. Alguns agentes da Polícia do Pensamento estavam sempre entre eles, soltando boatos, marcando e eliminando os poucos indivíduos julgados capazes de se tornar perigosos; mas não se tentava doutriná-los com a ideologia do partido. Não era desejável que os proles tivessem sentimentos políticos definidos. Tudo que se lhes exigia era uma espécie de patriotismo primitivo ao qual se podia apelar sempre que fosse necessário levá-los a aceitar rações menores ou maior expediente de trabalho. E mesmo quando ficavam descontentes, como às vezes acontecia, o descontentamento não os conduzia a parte alguma porque, não tendo ideias gerais, só podiam focalizar a animosidade em ridículas reivindicações específicas. Os males maiores geralmente lhes fugiam à observação.”


“Era à noite que vinham buscar a gente, sempre à noite. O melhor era matar-se antes de ser apanhado. Sem dúvida havia gente capaz disso. Com efeito, muitos dos desaparecidos eram suicidas. Mas era preciso coragem desesperada para se matar num mundo em que era impossível obter armas de fogo, ou veneno rápido e certo. Pensou, com uma espécie de assombro, na inutilidade biológica da dor e do medo, na traição do corpo humano que sempre se congela na inércia, no momento exato em que dele se exige esforço especial. Poderia ter silenciado a moça morena se conseguisse agir com rapidez, mas precisamente por causa do perigo extremo que corria perdera a capacidade de agir. Ocorreu-lhe que, em momentos de crise, nunca se luta com um inimigo externo, mas com o próprio organismo. Mesmo agora, apesar do gim, a dor surda do ventre tornava impossível dois pensamentos consecutivos. E é o mesmo em todas as situações aparentemente heroicas ou trágicas. No campo de batalha, na câmara de tortura, num navio que naufraga, as causas por que lutamos são sempre secundárias, esquecidas, porque o corpo incha e se infla até ocupar todo o universo, e mesmo quando não nos paralisa o medo, nem gritamos de dor, a vida é uma luta, minuto a minuto, contra a fome, o frio, a insônia, contra dor de estômago ou de dentes.”


“– Estou disposta a correr riscos, mas só por coisas que valham a pena, não por causa de pedacinhos de papel. Que poderias fazer com o recorte, se o guardasses?
– Pouca coisa, talvez. Mas era prova. Poderia ter semeado algumas dúvidas, aqui e ali, supondo que ousasse mostrá-lo a alguém. Não creio que possamos alterar coisa alguma nesta vida. Mas posso imaginar pequenos nódulos de resistência brotando aqui e ali... pequenos grupos de gente que se reúne, e vão crescendo, e deixando algumas notas, de modo que a geração seguinte possa continuar a obra.
– Não estou interessada na próxima geração, querido, mas sim em nós.
– És rebelde só da cintura para baixo - disse ele.
Ela achou esta frase excepcionalmente jocosa e atirou os braços em torno dele, deliciada.
Tampouco tinha Júlia o menor interesse pelas ramificações da doutrina do Partido. Sempre que ele começava a falar dos princípios do Ingsoc, duplipensar, a mutabilidade do passado e a negação da realidade objetiva, e a usar palavras de Novilíngua, ela ficava aborrecida, confusa, e dizia não ter jamais prestado atenção a essas coisas. Sabia que era tudo lixo, portanto para que se preocupar com ele? Sabia quando aplaudir e quando vaiar, e era toda a ciência de que precisava. Quando ele persistia em falar de tais assuntos, Júlia tinha o hábito desconcertante de adormecer. Era uma dessas pessoas que podem adormecer a qualquer momento, em qualquer posição. Falando com ela, Winston percebeu como era fácil aparentar ortodoxia, sem ter a menor noção do que fosse ortodoxia. De certo modo, o ponto de vista do Partido se impunha com mais êxito às pessoas incapazes de compreendê-lo. Aceitavam as mais flagrantes violações da realidade porque jamais percebiam inteiramente a enormidade do que lhes era exigido, e não estavam suficientemente interessadas para observar o que acontecia. Graças à falta de compreensão permaneciam sãs de juízo. Apenas engoliam tudo, e o que engoliam não lhes fazia mal, porque não deixava resíduo, do mesmo modo que um grão de milho passa, sem ser digerido, pelo corpo de uma ave.”


“Tornou-se também claro que o aumento total da riqueza ameaça destruir – com efeito, de certo modo era a destruição – de uma sociedade hierárquica. Num mundo em que todos trabalhassem pouco, tivessem bastante que comer, morassem numa casa com banheiro e refrigerador, e possuíssem automóvel ou mesmo avião, desapareceria a mais flagrante e talvez mais importante forma de desigualdade. Generalizando-se, a riqueza não conferia distinção. Era possível, sem dúvida, imaginar uma sociedade em que a riqueza, no sentido de posse pessoal de bens e luxos, fosse igualmente distribuída, ficando o poder nas mãos de uma pequena casta privilegiada. Mas na prática tal sociedade não poderia ser estável. Pois se o lazer e a segurança fossem por todos fruídos, a grande massa de seres humanos, normalmente imbecilizada pela miséria, aprenderia a ler e aprenderia a pensar por si; e uma vez isso acontecesse, mais cedo ou mais tarde veria que não tinha função a minoria privilegiada, e acabaria com ela. De maneira permanente, uma sociedade hierárquica só é possível na base da pobreza e da ignorância.”


“Todos os governantes de todas as épocas têm tentado impor aos seus adeptos uma falsa visão do mundo, mas não podiam se dar ao luxo de encorajar nenhuma ilusão que tendesse a prejudicar a eficiência militar. Considerando que a derrota significava a perda de independência, ou outro resultado geralmente julgado indesejável, era preciso tomar sérias precauções contra a derrota. Não se podia ignorar os fatos físicos. Na filosofia, religião, ética, ou política, dois e dois podem ser cinco, mas quando se desenha um canhão ou um avião, somam quatro.”


“Mas quando a guerra se torna literalmente contínua, cessa também de ser perigosa.”


“Desde que se começou a escrever a história, e provavelmente desde o fim do Período Neolítico, tem havido três classes no mundo: Alta, Média e Baixa. Têm-se subdividido de muitas maneiras, receberam inúmeros nomes diferentes, e sua relação quantitativa, assim como sua atitude em relação às outras, variaram segundo as épocas; mas nunca se alterou a estrutura essencial da sociedade. (...)
Os objetivos desses três grupos são inteiramente irreconciliáveis. O objetivo da Alta é ficar onde está. O da Média é trocar de lugar com a Alta. E o objetivo da Baixa, quando tem objetivo – pois é característica constante da Baixa viver tão esmagada pela monotonia do trabalho cotidiano que só intermitentemente tem consciência do que existe fora de sua vida – é abolir todas as distinções e criar uma sociedade em que todos sejam iguais. Assim, por toda a história, trava-se repetidamente uma luta que é a mesma em seus traços gerais. Por longos períodos a Alta parece firme no poder, porém mais cedo ou mais tarde chega um momento em que, ou perde a fé em si própria ou sua capacidade de governar com eficiência, ou ambas. É então derrubada pela Média, que atrai a Baixa ao seu lado, fingindo lutar pela liberdade e a justiça. Assim que alcança sua meta, a Média joga a Baixa na sua velha posição servil e transforma-se em Alta. Dentro em breve, uma nova classe Média se separa dos outros grupos, de um deles ou de ambos, e a luta recomeça. Das três classes, só a Baixa nunca consegue nem êxito temporário na obtenção dos seus ideais.”


“A chamada “abolição da propriedade privada”, que se verificou em meados do século, significou, com efeito, a concentração da propriedade em número muito menor de mãos, mas com a diferença de que os novos donos eram um grupo em vez de uma massa de indivíduos. Individualmente, nenhum membro do Partido possui coisa alguma, exceto ninharias pessoais. Coletivamente, o Partido é dono de tudo na Oceania, porque tudo controla, e dispõe dos seus produtos como bem lhe parece.”


“O Partido não é uma classe no antigo sentido da palavra. Não tem por objetivo transmitir o poder aos próprios filhos; e se não houvesse outro meio de conservar os mais capazes nos postos de comando, estaria perfeitamente disposto a recrutar toda uma geração nova das fileiras do proletariado. Nos anos cruciais, muito contribuiu para neutralizar a oposição o fato de o Partido não ser um organismo hereditário. O antigo tipo de socialista, treinado a lutar contra o que às vezes se chamava “privilégio de classe”, supunha que o que não fosse hereditário não podia ser permanente. Não percebia que a continuidade de uma oligarquia não precisava ser física, nem fazia pausa para refletir que as aristocracias hereditárias sempre tiveram vida curta, enquanto que organizações auto-renovantes, como a Igreja Católica, às vezes duram centenas e mesmo milhares de anos. A essência do jugo oligárquico não é a herança de pai a filho, mas a persistência de certo ponto de vista em face do mundo e de certa maneira de viver, imposta aos vivos pelos mortos. Um grupo dominante só continua mandando enquanto consegue nomear seus sucessores. O Partido não se interessa pela perpetuação do seu sangue, mas pela perpetuação da entidade. O que importa não é quem maneja o poder, contanto que permaneça sempre a mesma a estrutura hierárquica.”


“Assim, o Partido rejeita e vilifica qualquer princípio originalmente defendido pelo movimento socialista, e no entanto o faz em nome do socialismo.”


“– Também te pegaram! – exclamou.
– Pegaram-me há muito tempo – disse O’Brien, com leve ironia, quase arrependida. Deu um passo para o lado e por trás dele apareceu um guarda de peito largo, com um longo bastão negro na mão.
– Sabias disto – disse O’Brien. – Não te iludas, Winston. Sabias... sempre soube.
Sim, agora ele via que sempre soubera. Mas não houve tempo para pensar. Só tinha olhos para o bastão do guarda. Podia cair em qualquer parte: no alto da cabeça, na ponta da orelha, no braço, no cotovelo...
O cotovelo! Caíra de joelhos, quase paralisado, protegendo com a mão o cotovelo atingido. Tudo explodira numa luz amarela. Inconcebível, inconcebível que um só golpe produzisse tamanha dor! O amarelo se foi e ele pôde enxergar os dois a contemplá-lo. O guarda ria-se das suas contorções. Ao menos uma dúvida fora esclarecida. Nunca, por nenhuma razão, se poderia desejar que a dor aumentasse. Da dor, só se podia desejar uma coisa, que parasse. Nada no mundo era tão horrível como a dor física. Em face da dor não há heróis, não há heróis, ele pensou e tornou a pensar, torcendo-se no chão, segurando à toa o braço esquerdo inválido.”


“– Somos diferentes de todas as oligarquias do passado, porque sabemos o que estamos fazendo. Todas as outras, até mesmo as que se assemelhavam conosco, eram covardes e hipócritas. Os nazistas alemães e os comunistas russos muito se aproximaram de nós nos métodos, mas nunca tiveram a coragem de reconhecer os próprios motivos. Fingiam, talvez até acreditassem, ter tomado o poder sem querer, e por tempo limitado, e que bastava dobrar a esquina para entrar num paraíso onde os seres humanos seriam iguais e livres. Nós não somos assim. Sabemos que ninguém jamais toma o poder com a intenção de largá-lo. O poder não é um meio, é um fim em si. Não se estabelece uma ditadura para salvaguardar uma revolução; faz-se a revolução para estabelecer a ditadura. O objetivo da perseguição é a perseguição. O objetivo da tortura é a tortura. O objetivo do poder é o poder. Agora começou a me compreender?”


“Se queres uma imagem do futuro, pensa numa bota pisando num rosto humano, para sempre.”

quinta-feira, 22 de março de 2012

O Grande Livro dos Signos & Símbolos: as origens, os significados, usos e análises reveladoras sob o ponto de vista histórico, psicológico e cultural (livro 1) – Mark O’ Connel e Raje Airey

Editora: Escala
ISBN: 978-85-389-0087-0
Opinião: ★★★☆☆
Páginas: 112


      “A palavra “símbolo” é derivada do grego antigo symbballein, que significa agregar. Seu uso figurado originou-se no costume de quebrar um bloco de argila para marcar o término de um contrato ou acordo: cada parte do acordo ficaria com um dos pedaços e, assim, quando juntassem os pedaços novamente, eles poderiam se encaixar como um quebra-cabeça. Os pedaços, cada um identificando uma das pessoas envolvidas, eram conhecidos como symbola. Portanto, um símbolo não representa somente “algo” que está faltando, uma parte invisível que é necessária para alcançar a conclusão ou a totalidade. Consciente ou inconscientemente, o símbolo carrega o sentido de unir as coisas para criar algo maior do que a soma das partes, como nuanças de significado que resultam em uma ideia complexa.
     Por outro lado, um signo pode ser entendido como algo que representa ou indica alguma coisa de modo mais literal. Um signo existe para transmitir informações sobre um objeto ou ideia específica, enquanto um símbolo geralmente ativa uma série de percepções, crenças e respostas emocionais. Por exemplo, como um signo, a palavra “árvore” significa um tipo particular de planta que desenvolve uma estrutura de madeira permanente com tronco e galhos, raízes e folhas. Como símbolo, a árvore pode ter muitos significados: pode representar fertilidade e generosidade da natureza, resistência e longevidade ou o entrelaçamento das relações familiares. Como símbolo cristão, pode se referir à cruz e, em muitas tradições, representa a “árvore da vida”, que conecta o mundo cotidiano com o mundo espiritual.”

As pirâmides do Egito Antigo simbolizavam, para seus arquitetos, o poder criativo do sol e a imortalidade dos faraós que eram enterrados dentro dela 
  

As estátuas monolíticas localizadas na Ilha de Páscoa possuem uma presença viva que simboliza a firmeza do espírito humano 



     “O Ankh (cruz ansata), formado por uma alça oval sobre uma cruz, era o hieróglifo do antigo Egito para a vida e imortalidade e era utilizado na iconografia dos opostos. A alça, uma forma de círculo, significava o universo (o macrocosmo), e a cruz em forma de T pode significar o homem (o microcosmo). Ele combina os símbolos feminino e masculino do Deus Osíris, e simboliza a união do Céu e da Terra. Nas pinturas dos muros egípcios, os deuses (particularmente Ísis) e os reis eram pintados segurando um ankh para simbolizar seus poderes sobre a vida e a morte. O ankh é associado à morte e os rituais funerários: carregado pelo morto, ele simboliza uma passagem segura desde mundo para o outro, enquanto for mantido de cabeça para baixo. É a chave que destrava os portões da morte para a eternidade. Às vezes, é colocado na testa, entre os olhos, conectando-o com a clarividência.”




     “No ano de 247 d.C., a dinastia Sassanid estabeleceu o Zoroastrianismo como religião oficial do Império Persa e ela ainda é praticada no Irã e em outras partes do mundo. Está fundamentada nos ensinamentos do profeta Zaratustra (chamado Zoroastro pelos gregos). Tais ensinamentos dizem que as forças opostas do bem e do mal são simbolizadas por Ahura Mazda, a deidade suprema responsável pela verdade e pela luz, e por Ahriman. Os dois representam a dualidade do cosmos: diferente de Satã, Ahriram não é criação do deus supremo, mas sim um ser igual.

O artifício com asas é o faravahar, um símbolo do desejo
humano de alcançar a união com Ahura Mazda, a suprema
deidade da fé zoroastriana
 
     O conflito universal entre os bons espíritos (ahuras) e os maus espíritos (daevas) resultará finalmente na vitória de Ahura Mazda e os fieis são encorajados a seguir Ahura Mazda através de “bons pensamentos, boas palavras e bons atos”. Esses três ideais são representados pelas três asas de plumas de faravahar, o principal símbolo zoroastriano. Os zoroastrianos acreditam que o primeiro animal a ser criado foi um touro branco, o progenitor de todos os outros animais e plantas, enquanto o ponto focal da religião é o fogo, visto como a manifestação mais pura de Ahura Mazda. Fogueiras permanentes foram estabelecidas por toda a Pérsia, algumas ao ar livre, outras dentro de templos do fogo e supervisionadas por sacerdotes conhecidos como magos (dessa palavra origina-se a palavra “mágica”). Retratos de altares de fogo são encontrados em moedas antigas.
     Como os zoroastrianos consideram o fogo sagrado, a cremação não é permitida porque poderia contaminar o fogo; em vez disso, os corpos são expostos na parte superior de “torres de silêncio” para que seus ossos sejam limpos por animais que se alimentam de carniça.”


     “Embora ela cresça na lama, a flor de lótus mantém sua beleza. Como flor nacional da Índia, é o símbolo do espírito puro enraizado na realidade mundana. O mantra “om mane padme” se refere ao iluminismo, a “joia da flor de lótus”.




     “A grande muralha da China é um exemplo de como algo pode ter diversos significados simbólicos, dependendo da perspectiva cultural ou política da pessoa. A muralha é diferentemente considerada como um símbolo de proteção, poder e realização, ou de opressão, isolamento e divisão.”





O símbolo yin/yang representa a
interação sem fim das qualidades
opostas da natureza
.
     “O símbolo do yin/yang é a indicação de uma lei natural de equilíbrio ou ciclo de mudança, que abrange todos os movimentos ou, às vezes, que se torna o oposto: a força leva à fraqueza, a vida leva à morte, o masculino leva ao feminino.
Yin, o princípio feminino, está associado ao frio, à escuridão e à terra; yang, o princípio masculino, está associado à luz, ao calor e ao céu. O símbolo mostra que a vida deve ser considerada como um todo e não pode verdadeiramente existir em partes isoladas. As partes escura e clara do símbolo são opostas, ainda que estejam interligadas e sejam mutuamente dependentes. Os dois pequenos pontos formam um círculo perfeito, simbolizando a totalidade da natureza. (...)
     O símbolo yin/yang mostra como cada força, sua potência máxima, provoca seu oposto.


     “Uma importante figura do taoísmo é o mítico P’an-ku, considerado o primeiro ser criado. Na criação do universo, no qual o Caos foi dividido em forças de yin e yang, a interação desses princípios opostos levou à criação de P’an Ku, que logo depois pegou uma talhadeira e um bastão e começou a esculpir o restante da criação em especial no espaço que fica entre o Céu e a Terra. P’an Ku viveu 18 mil anos, crescendo dia a dia, e quando completou sua tarefa, se deitou e morreu. Seu corpo se tornou o mundo, cuja extensão foi marcada pelas cinco montanhas sagradas da China. Simbolicamente ligadas aos cinco elementos, essas montanhas ficam nos quatro pontos cardinais e no centro do império; acredita-se que sirvam de apoio aos céus.
     Lao-Tzu aconselhava seus seguidores a “serem tranquilos como uma montanha e fluírem como um grande rio”. Muitos deles procuravam o Tao retirando-se para viverem sozinhos nas montanhas. Na crença taoísta, as montanhas são um meio de comunicação com os imortais e com a natureza. Assim como a imagem da árvore do mundo, elas conectam os mundos de cima e de baixo. As montanhas sagradas são lugares de peregrinação. Elas têm sido adoradas como deidades, os monastérios são construídos em suas encostas, e o próprio imperador subia anualmente até o topo do pico mais sagrado, Tai Shan, a montanha do Oriente, para oferecer um sacrifício.”



     “O simbolismo sempre foi usado para denotar identidade e confirmar a participação em grupos sociais ou “famílias”, as unidades básicas da sociedade. Tanto baseados em crenças compartilhadas ou interesses e atividades em comum, todos os grupos organizados – seja em nível local, regional, nacional, ou internacional – possuem seus próprios símbolos de identidade. Tais símbolos podem estar em forma de totens, estandartes, bandeiras, padrões, ou podem ser expressos através das vestimentas ou da observância de determinados rituais de comportamento. Uma das características importantes de tal simbolismo é sua visibilidade: é designado para proporcionar um signo instantaneamente reconhecido da identidade do grupo, um modo de codificar e estruturar as relações sociais, de criar uma distinção entre quem “faz parte” e quem “não faz parte” e estimular uma resposta emocional como medo, respeito, humildade ou orgulho em todos que o observam.”

 O martelo e a foice fazem parte do símbolo comunista, representando a união dos trabalhadores industriais e agricultores


     “As questões sobre a vida e morte são exploradas através dos mitos e as histórias das origens e do fim do mundo também podem ser encontradas em todas as culturas. Os mitos da criação se referem ao caos primitivo, simbolizado em muitas culturas como um lugar molhado, escuro e misterioso. Os mitos também antecipam a destruição do mundo em um acontecimento catastrófico – como o terremoto nórdico Ragnarok – enquanto muitos se referem a um tempo antigo, quando o mundo quase foi destruído por um dilúvio. A história bíblica de Noé é o exemplo mais conhecido; em um conto mesopotâmico semelhante, Utnapishtim, o único homem sábio que sobreviveu à inundação, tornou-se imortal.
     Tipicamente, os mitos são contos de seres divinos ou semidivinos – deuses e deusas, heróis e heroínas – figuras típicas que representam a luta entre o bem e o mau, explorando os conflitos morais e poderosos, emoções humanas, como o desejo e ganância, o ciúme e a luxúria, a ambição, o amor e o ódio. Noções de um submundo e de uma vida após a morte, assim como reinos mágicos sobrenaturais, são comuns. Além disso, animais com poderes extraordinários que ajudam a raça humanas destacam em muitos mitos.”


     “Em geral, a mitologia reforça e justifica as relações de força e liderança. Tipicamente, isso é explorado através de um panteão com uma estrutura hierárquica: um deus e/ou deusa supremo (a) no topo (usualmente associado com o céu e a terra) seguido por inúmeras deidades menores ou maiores. Essa estrutura segue aquela adotada pela sociedade humana. Na China, por exemplo, o Céu era visualizado como uma burocracia, mantendo a lei e a ordem do mesmo modo que a administração imperial.”




     “Geralmente, as mulheres em mitos são ruins, perigosas ou demoníacas, seja por causa de sua curiosidade e desobediência ou por causa de sua beleza ou poderes mágicos. No mito grego, Pandora desobedece aos deuses e abre uma caixa que libera doenças e o mal no mundo. Isso também acontece na tradição judaico-cristã, quando Eva desobedece a Deus e é responsável pela expulsão dos humanos do paraíso. As Sereias do mito grego, monstros marinhos com insaciável apetite de sangue, encantavam os marinheiros e os levavam à morte transformando-se em lindas donzelas. Na China, os espíritos demoníacos associados com morte violenta também se disfarçavam de lindas garotas. Dizem, na Índia, que o verdadeiro caráter de uma rakshasi (demônio feminino) podia ser reconhecido pelo modo como seus pés ficavam virados para trás.”


     “Qual a conexão entre simbolismo e modelos científicos? A própria ciência não é simplesmente um processo racional, uma vez que existem muitos exemplos de descobertas científicas que foram feitas através de sonhos e de outros processos irracionais – como a lenda Newtoniana de que o fato de uma maçã ter caído em cima da cabeça de sir Issac Newton o fez entender a força da gravidade. Parece que o inconsciente pode produzir símbolos que informam o próximo passo na exploração científica.

     O exemplo mais famoso é a descoberta do anel benzênico em 1865 pelo químico alemão Friedrich August Kekulé. As propriedades do benzeno não podiam ser explicadas em termos de estruturas moleculares lineares. Uma noite, tirando uma soneca em frente à lareira, Kekulé sonhou com longas fileiras de átomos “se retorcendo e girando como serpentes” até que uma dessas serpentes agarrou sua própria cauda. Ao acordar, ele criou a hipótese da estrutura em forma do anel de benzeno, conduzindo ao novo período prolífico do desenvolvimento da química orgânica. Em uma convenção social em 1890, Kekulé aconselhou seus colegas cientistas a “aprender a sonhar” a fim de buscar a verdade.
     Também em meados do século XIX, um químico russo, Dmitri Mendeleev, sonhou com a tabela periódica dos elementos com precisão notável, até mesmo prevendo a existência de três elementos ainda não existentes; todos eles foram descobertos em 15 anos. No início do século XX, o físico dinamarquês Niels Bohr, estudando a estrutura do átomo, viu em sonho um núcleo com elétrons girando em volta dele e pelo seu trabalho subsequente recebeu o Prêmio Nobel de Física, em 1922. Albert Einstein deu o mérito da fonte de sua Teoria da Relatividade a um sonho que teve quando estava na escola. Neste sonho, ele andava em um trenó que acelerava até uma velocidade inacreditável, transformando as estrelas à sua volta em luz ofuscante até que ele se aproximava da velocidade da luz.”



     “A comunicação através da escrita está baseada em um repertório convencionado de signos e símbolos formais que podem ser utilizados em diferentes combinações para reproduzir as ideias que o escritor quer expressar. (...)
     Quando os alfabetos foram desenvolvidos (por volta de 1.000 a.C.), o número de caracteres diferentes necessários foi drasticamente reduzido: o alfabeto romano, ainda usado atualmente, contém 26 letras, enquanto são necessários mil signos básicos para a escrita chinesa. (...)
     O Alfabeto fenício é geralmente considerado como o primeiro, abrangendo 22 caracteres consoantes e a escrita da direita para a esquerda. A partir da escrita fenícia, outras, como a aramaica, a hebraica e a arábica se desenvolveram, todas elas lidas da direita para a esquerda, além de alguns sistemas de escrita menos conhecidos, alguns dos quais resistiram até hoje.      Estes incluem Tifnagh, a escrita usada pelo povo Tuareg do norte da África, que é diferente por causa de sua forma bastante geométrica. Também é muito incomum, visto que seu uso é restrito às mulheres, uma vez que a sociedade dos Tuareg é matriarcal; um bom exemplo da conexão entre literatura e poder social. Outros alfabetos incluem o grego, o romano (que é a base do alfabeto inglês), o sânscrito e o cirílico.
     As letras individuais em um alfabeto podem possuir um valor simbólico. Os estudiosos têm observado que, em muitos alfabetos antigos, a maioria das letras retratava um animal, um gesto humano ou um objeto físico, enquanto alguns alfabetos, por exemplo, o hebraico e o rúnico, são formados por uma sequência de palavras específicas em vez de letras. O alfabeto hebraico começa assim: aleph (boi), beth (casa), gimel (camelo) e não A, B, G.”



     “Muitas associações simbólicas diferentes são conferidas à letra X. em países onde o alfabeto romano era utilizado, as pessoas analfabetas utilizavam esta letra em vez de suas assinaturas em documentos legais, como certificados de nascimento. Depois de terem feito sua marca, costumava-se beijá-la em sinal de sinceridade, razão pela qual usamos o X para representar um beijo. Nos numerais romanos, X é o número 10. na matemática ele denota multiplicação ou, em álgebra, uma variável em uma função. A última, indicando uma quantidade desconhecida, levou à criação de expressões como “Sr. X”, expressando a ideia de anonimato. O uso do X para garantir o anonimato também ocorre na votação. Em vez de ticar, colocar um X é marcar um erro. Nas estradas e em outros sinais, é um aviso de que algo é proibido ou foi cancelado, e é utilizado para demarcar pontos que se desejam encontrar em um mapa.


ANALFABETISMO E A PALAVRA FALADA
     Na moderna cultura ocidental, o analfabetismo em geral está ligado – erroneamente – à ignorância. Contudo, muitos grandes líderes espirituais, incluindo Mohammed, o mestre Zen Hui Neng e o sábio indiano Ramakrishna, foram analfabetos, indicando que sua direção e percepção intuitiva eram realidade divina, que não está baseada em palavras escritas. De certo modo, a escrita pode ser vista como uma forma rebaixada da fala, um símbolo de perda da presença e falta da palavra falada. Buda, Jesus e Sócrates não deixaram nenhuma obra escrita e muitos dos grandes mitos e culturas do mundo têm suas raízes em tradições orais e não escritas. Os linguistas identificaram cerca de 3 mil idiomas falados em uso no mundo atual, dos quais somente 100 são normalmente escritos.