A conversão de São Paulo

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quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

A elegância do ouriço – Muriel Barbery

Editora: Companhia das Letras
ISBN: 978-85-359-1177-0
Opinião: ****
Páginas: 352

     “Que podem entender as massas trabalhadoras sobre a obra de Marx? A leitura é árdua, a língua, apurada, a prosa, sutil, e a tese, complexa.
     Para entender Marx e entender por que ele esta errado, tem que ler Ideologia Alemã. É o pedestal antropológico sobre o qual se construirão todas as exortações a um mundo novo e no qual esta aparafusada uma certeza fundamental: os homens, que se perdem por desejar, melhor fariam se se limitassem às suas necessidades. Num mundo em que o húbris do desejo for amordaçado, poderá nascer uma organização social nova, isenta de lutas, opressões e hierarquias deletérias.
     ‘Quem semeia desejo colhe opressão’, estou prestes a murmurar como se só meu gato me escutasse.”


     “Por mais que se diga, por mais que se façam grandes discursos sobre a evolução, a civilização e um monte de palavras em “ção”, o homem não progrediu muito desde seus primórdios: continua a crer que não esta aqui por acaso e que deuses em sua maioria benevolentes zelam por seu destino.”


     “De agora em diante, a filosofia se autoriza a só se satisfazer no estupro do puro espírito. O mundo é uma realidade inacessível que seria inútil tentar conhecer. Que conhecemos do mundo? Nada. Como todo conhecimento é apenas a auto-exploração da consciência reflexiva por si mesma, pode-se, portanto, mandar o mundo para o quinto dos infernos.”


Pensamento profundo nº 5
A vida
De todos
Esse serviço militar


     “Qual é o problema de minha irmã Colombe? Isso, eu não sei. Talvez, de tanto querer esmagar todo mundo, ela tenha se transformado em soldado, no sentido literal do termo. Então, faz tudo certinho, esfrega, limpa, igual no exército. É sabido que o soldado é obcecado pela ordem e pela limpeza. Precisa disso para lutar contra a desordem da batalha, a sujeira da guerra e todos esses pedacinhos de homens que ela deixa atrás de si.”


     “Assim, como se passa a vida? Nós nos esforçamos bravamente, dia após dia, para assumir nosso papel nessa comédia fantasma. Como primatas que somos, o essencial de nossa atividade consiste em manter e entreter nosso território de tal modo que nos proteja e nos envaideça, em escalar, ou pelo menos em não descer, a escada hierárquica da tribo, e em fornicar de todas as maneiras possíveis – ainda que como um fantasma – tanto para o prazer como para a descendência prometida. Assim, gastamos parte não desprezível de nossa energia a intimidar ou seduzir, já que essas duas estratégias garantem, sozinhas, a busca territorial, hierárquica e sexual que anima nosso contato. Mas nada disso chega à nossa consciência. Falamos de amor, de bem e de mal, de filosofia e de civilização, e nos agarramos a esses ícones respeitáveis como o carrapato sedento a seu cão bem quentinho.
     Às vezes, porém, a vida nos parece uma comédia fantasma. Como tirados de um sonho, olhamos os outros agir e, gelados ao verificarmos o dispêndio vital requerido pela manutenção de nossos requisitos primitivos, perguntamos com espanto o que restou da Arte. Nosso frenesi de caretas e olhadelas nos parece de repente o cúmulo da insignificância, nosso pequeno ninho tão macio, fruto de um endividamento de vinte anos, parece um inútil costume bárbaro, e nossa posição na escala social, tão duramente conquistada e tão eternamente precária, parece de uma grosseira inutilidade. Quanto à nossa descendência, nós a contemplamos com um olhar novo e horrorizado porque, sem as vestes do altruísmo, o ato de se reproduzir parece profundamente deslocado. Restam apenas os prazeres sexuais; mas, arrastados no rio da miséria primal, eles vacilam da mesma forma, pois a ginástica sem o amor não entra no quadro de nossas lições bem aprendidas.
     A eternidade nos escapa.
     Nestes dias em que soçobram no altar de nossa natureza profunda todas as crenças românticas, políticas, intelectuais, metafísicas e morais que os anos de instrução e educação tentaram imprimir em nós, a sociedade, campo territorial cruzado por grandes ondas hierárquicas, afunda no nada do Sentido. Acabam-se os ricos e os pobres, os pensadores, os pesquisadores, os gestores, os escravos, os gentis e os malvados, os criativos e os conscienciosos, os sindicalistas e os individualistas, os progressistas e os conservadores; não são mais que hominídeos primitivos, e suas caretas e risos, seus comportamentos e enfeites, sua linguagem e seus códigos, inscritos na carta genética do primata médio, significam apenas isto: manter o próprio nível ou morrer.
     Nesses dias, precisamos desesperadamente da Arte. Aspiramos ardentemente a retomar nossa ilusão espiritual, desejamos apaixonadamente que algo nos salve dos destinos biológicos para que toda poesia e toda grandeza não sejam excluídas deste mundo.”


     “No universo tudo é compensação. Quem vai mais devagar empurra com mais força.”


     “A Civilização é a violência dominada, a vitória sempre inacabada contra a agressividade do primata.”


     “Pois a Arte é a vida, mas num outro ritmo”.


     “Mamãe anunciou ontem à noite, no jantar, como se fosse um motivo para o champanhe correr à rodo, que fazia dez anos exatos que ela avia começado sua “aanáálise”. Todos concordarão em dizer que é ma-ra-vi-lho-so! Acho que só mesmo a psicanálise para concorrer com o cristianismo em matéria de amor aos sofrimentos que duram. O que mamãe não diz é que também faz dez anos que toma antidepressivos. Mas, visivelmente, não liga uma coisa à outra. Acho que não é para aliviar suas angústias que toma antidepressivos, mas para suportar a análise. Quando conta suas sessões, é de bater a cabeça na parede. O cara faz “hum” a intervalos regulares, repetindo seus fins de frase (“E fui ao Lenôtre com minha mãe”: “Hum, sua mãe?”, “Adoro chocolate”: “Hum, chocolate”). Se é assim, posso virar psicanalista amanhã.”


     “Prosseguimos com a definição da inteligência, e ele me perguntou se podia anotar no seu caderninho a minha fórmula: ‘Não é um dom sagrado, é a única arma dos primatas’.”


     “Há sempre a via da felicidade, embora eu repugne tomá-la. Não tenho filhos, não assisto televisão e não acredito em Deus, e são esses todos os sendeiros que os homens pegam para que a vida lhes seja mais fácil. Os filhos ajudam a diferir a dolorosa tarefa de enfrentar a si mesmo, e depois os netos que se virem. A televisão distrai da extenuante necessidade de construir projetos com base no nada de nossas existências frívolas; embaindo os olhos, ela livra o espírito da grande obra do sentido. Deus, enfim, acalma nossos temores de mamíferos e a insuportável perspectiva de que nossos prazeres um dia chegam ao fim. Assim, sem futuro nem descendência, sem pixels para embrutecer a cósmica consciência do absurdo, creio poder dizer que não escolhi a via da felicidade.”


     “Pois a arte é a emoção sem o desejo.”


     “Mas quem caça a eternidade recolhe a solidão.”

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