terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Um copo de cólera, de Raduan Nassar

Editora: Companhia das Letras

ISBN: 978-85-7164-243-0

Opinião: ★★★★☆

Páginas: 88

Link para compra: Clique aqui

Sinopse: Um marco no ensino da Filosofia no Brasil, de uma das mais prestigiadas intelectuais brasileiras. Por meio de uma linguagem acessível, trata de forma contextualizada os temas importantes da reflexão filosófica, conduzindo à profundidade dos grandes pensadores. Um exuberante exercício do pensamento que fomenta a reflexão crítica e amplia os horizontes do leitor. Principais diferenciais da obra: o livro discute os grandes temas da Filosofia, como razão, verdade, conhecimento, ciência, lógica, ética, política, arte, religião e metafísica; a autora contempla questões relacionadas à cidadania, à democracia, aos direitos humanos, às novas tecnologias e às posturas éticas de seu tempo; mais de mil questões com respostas no Manual do Professor possibilitam uma revisão eficiente de cada capítulo.



 

““Pra julgar o que digo e o que faço tenho os meus próprios tribunais, não delego isso a terceiros, não reconheço em ninguém — absolutamente em ninguém — qualidade moral pra medir meus atos”.”

 

 

“Já foi o tempo em que via a convivência como viável, só exigindo deste bem comum, piedosamente, o meu quinhão, já foi o tempo em que consentia num contrato, deixando muitas coisas de fora sem ceder contudo no que me era vital, já foi o tempo em que reconhecia a existência escandalosa de imaginados valores, coluna vertebral de toda ‘ordem’; mas não tive sequer o sopro necessário, e, negado o respiro, me foi imposto o sufoco; é esta consciência que me libera, é ela hoje que me empurra, são outras agora minhas preocupações, é hoje outro o meu universo de problemas; num mundo estapafúrdio — definitivamente fora de foco — cedo ou tarde tudo acaba se reduzindo a um ponto de vista, e você, que vive paparicando as ciências humanas, nem suspeita que paparica uma piada: impossível ordenar o mundo dos valores, ninguém arruma a casa do capeta; me recuso pois a pensar naquilo em que não mais acredito, seja o amor, a amizade, a família, a igreja, a humanidade; me lixo com tudo isso! me apavora ainda a existência, mas não tenho medo de ficar sozinho, foi conscientemente que escolhi o exílio, me bastando hoje o cinismo dos grandes indiferentes...”.”

 

 

““Me sinto hoje desobrigado, é certo que teria preferido o fardo do compromisso ao fardo da liberdade; não tive escolha, fui escolhido, e, se de um lado me revelaram o destino, o destino de outro se encarregou de me revelar: não respondo absolutamente por nada, já não sou dono dos meus próprios passos, transito por sinal numa senda larga, tudo o que faço, eu já disse, é pôr um olho no policial da esquina, o outro nas orgias da clandestinidade” “não posso descuidar que ele logo decola com o verbo... corta essa de solene, desce aí dessas alturas, entenda, ô estratosférico, que essa escalada é muito fácil, o que conta mesmo na vida é a qualidade da descida; não me venha pois com destino, sina, karma, cicatriz, marca, ferrete, estigma, toda essa parafernália enfim que você bizarramente batiza de ‘história’; se o nosso metafísico pusesse os pés no chão, veria que a zorra do mundo só exige soluções racionais, pouco importa que sejam sempre soluções limitadas, importa é que sejam, a seu tempo, as melhores; só um idiota recusaria a precariedade sob controle, sem esquecer que no rolo da vida não interessam os motivos de cada um — essa questãozinha que vive te fundindo a cuca — o que conta mesmo é mandar a bola pra frente, se empurra também a história co’a mão amiga dos assassinos; aliás, teus altíssimos níveis de aspiração, tuas veleidades tolas de perfeccionista tinham mesmo de dar nisso: no papo autoritário dum reles iconoclasta — o velho macaco na casa de louças, falando ainda por cima nesse tom trágico como protótipo duma classe agônica... sai de mim, carcaça!” e logo ela tachava minha performance de catártica (“pura catarse” ela engrolou), palavra c’um terrífico poder demolidor e que — pelo uso imprudente, ou pelo abuso — transformava o próprio cérebro da pilantra num cogumelo nuclear.”

 

 

““Desde já é fácil de prever o teu futuro: além de jornalista exímia, você preenche brilhantemente os requisitos como membro da polícia feminina; aliás, no abuso do poder, não vejo diferença entre um redator-chefe e um chefe de polícia, como de resto não há diferença entre dono de jornal e dono de governo, em conluio, um e outro, com donos de outros gêneros” “não é comigo, solene delinquente, mas com o povo que você há de se haver um dia” “pense, pilantra, uma vez sequer nessa evidência, ainda que isso seja estranho ao teu folclore, ainda que a disciplina das tuas orelhas não se preste a tanta dissonância: o povo nunca chegará ao poder!” “louquinho da aldeia!... entrou de vez em convulsão, sabe-se lá o que ainda vem desse transe paroxístico...” “o povo nunca chegará ao poder! não seria pois com ele que teria um dia de me haver ofendido e humilhado, povo é só, e será sempre, a massa dos governados; diz inclusive tolices, que você enaltece, sem se dar conta de que o povo fala e pensa, em geral, segundo a anuência de quem o domina; fala, sim, por ele mesmo, quando fala (como falo) com o corpo, o que pouco adianta, já que sua identidade jamais se confunde com a identidade de supostos representantes, e que a força escrota da autoridade necessariamente fundamenta toda ‘ordem’, palavra por sinal sagaz que incorpora, a um só tempo, a insuportável voz de comando e o presumível lugar das coisas; claro que o povo pode até colher benefícios, mas sempre como massa de manobra de lideranças emergentes; por isso vá em frente, pilantra — com o povo na boca, papagueando sua fala tosca, sem dúvida pitoresca, embora engrossando co’arremedo a sufocante corda dos cordeiros, exatamente como o impassível ventríloquo que assenta paternalmente os miúdos sobre os joelhos, denunciando inclusive trapaças com sua arte, ainda que trapaceando ele mesmo ao esconder a própria voz; mas não se preocupe, pilantra, você chega lá... montadinha, é claro, numa revolta usurpada, montadinha numa revolta de segunda mão; quanto a este tresmalhado, ou delinquente, te digo somente que ninguém dirige aquele que Deus extravia! não aceito pois nem a pocilga que está aí, nem outra ‘ordem’ que se instale, olhe bem aqui...” eu disse chegando ao pico da liturgia, e foi pensando na suposta subida do meu verbo que eu, pra compensar, abaixei sacanamente o gesto “tenho colhão, sua pilantra, não reconheço poder algum!” “hosana! eis chegado o macho! Narciso! sempre remoto e frágil, rebento do anarquismo!... há-há-há... dogmático, caricato e debochado... há-há-há...” “entenda, pilantra, toda ‘ordem’ privilegia” “entenda, seu delinquente, que a desordem também privilegia, a começar pela força bruta” “força bruta sem rodeios, sem lei que legitime” “estou falando da lei da selva” “mas que não finge a pudicícia, não deixa lugar pro farisaísmo, e nem arrola indevidamente uma razão asséptica, como suporte” “pois vista uma tanga, ou prescinda mesmo dela, seu gorila” “dispenso a exortação, fique aí, no círculo da tua luz, e me deixe aqui, na minha intensa escuridão, não é de hoje que chafurdo nas trevas: não cultivo a palidez seráfica, não construo com os olhos um olhar pio, não meto nunca a cara na máscara da santidade, nem alimento a expectativa de ver a minha imagem entronada num altar; ao contrário dos bons samaritanos, não amo o próximo, nem sei o que é isso, não gosto de gente, para abreviar minhas preferências; afinal, alguém precisa, pilantra — e uso aqui tua palavrinha mágica — ‘assumir’ o vilão tenebroso da história, alguém precisa assumi-lo pelo menos pra manter a aura lúcida, levitada sobre tua nuca; assumo pois o mal inteiro, já que há tanto de divino na maldade, quanto de divino na santidade; e depois, pilantra, se não posso ser amado, me contento fartamente em ser odiado”.”

sábado, 20 de dezembro de 2025

Modelo vivo, de Laerte

Editora: Barricada

ISBN: 978-85-7559-523-7

Organização: Toninho Mendes

Opinião: ★★★☆☆

Páginas: 88

Link para compra: Clique aqui

Sinopse: A Laerte que emerge dessa abertura para novas questões e desafios está presente nos desenhos baseados em modelos humanos, produzidos no decorrer de um curso livre organizado em 2013, junto com o filho Rafael Coutinho. Neles, Laerte retorna às origens, antes da profissionalização, e deixa de lado vários procedimentos que consolidaram seu lugar na história gráfica, como o uso de personagens e o traço ‘humorístico’. O livro também remete a um retrato histórico, por trazer uma seleção de histórias em quadrinhos – algumas já publicadas, outras muito pouco conhecidas e uma inédita – publicadas nas décadas de 1980 e 1990, em fanzines e revistas icônicas da Circo Editorial, como Chiclete com Banana, Piratas do Tietê, Geraldão, Circo e Cachalote. Desenhos do passado e do presente se intercalam, revelando ao mesmo tempo um forte contraste e a possibilidade de uma imersão criativa na obra da artista. O volume é organizado por Toninho Mendes, ex-editor das revistas da Circo Editorial.


Comentário: Modelo vivo é um compilado de tirinhas e desenhos. Os 5 desenhos que mais gostei estão logo abaixo. 







quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

Peter Pan, de J. M. Barrie

Editora: Zahar

ISBN: 978-85-378-0890-0

Notas: Thiago Lins

Tradução: Júlia Romeu

Ilustrações: F. D. Bedford

Opinião: ★★★☆☆

Páginas: 224

Link para compra: Clique aqui

Sinopse: “Todas as crianças crescem, menos uma.” Como pó de fada, há cem anos estas palavras transportam os leitores para um mundo mágico, povoado pela família Darling e pelos habitantes da Terra do Nunca - Peter Pan, os meninos perdidos, Sininho, crocodilos, sereias, o Capitão Gancho e seus piratas...

Um dos mais populares clássicos infantis, Peter Pan é uma história que, como Alice no País das Maravilhas, une gerações, contagiando também adultos com sua energia, imaginação e um enredo que permite diversos níveis de interpretação.

Essa edição comentada e ilustrada traz o texto integral de J.M. Barrie, notas explicativas de Thiago Lins, apresentação da escritora Flávia Lins e Silva e ilustrações originais de F.D Bedford para a primeira edição de Peter Pan, em 1911. A versão impressa apresenta ainda capa dura e acabamento de luxo.


 

“A sra. Darling ouviu falar de Peter pela primeira vez quando estava organizando as mentes de seus filhos. À noite, todas as boas mães esperam seus filhos irem dormir para remexer suas mentes e arrumar tudo para a manhã seguinte, recolocando nos locais certos os diversos itens que saíram do lugar ao longo do dia. Se você conseguisse ficar acordado (mas é claro que não consegue), ia ver sua mãe fazendo isso, e ia achar muito interessante observá-la. É igualzinho a arrumar gavetas. Você a veria de joelhos, imagino eu, olhando divertida para parte do conteúdo, perguntando-se onde você arrumara aquilo, fazendo descobertas doces e outras nem tão doces, apertando as primeiras contra o rosto como se fossem tão lindas quanto um gatinho e escondendo as outras bem depressa num canto onde ninguém vai ver. Quando você acorda de manhã, as traquinagens e má-criações com as quais foi dormir foram dobradas até ficarem bem pequenas e guardadas no fim da pilha da sua mente; na parte de cima, bem arejados, estão espalhados seus pensamentos mais bonitos, prontinhos para você usar.

Não sei se você já viu o mapa da mente de alguém. Os médicos às vezes fazem mapas de outras partes de você, e o seu mapa pode se tornar bastante interessante. Mas olhe o que acontece quando eles tentam fazer um mapa da mente de uma criança, que, além de ser confusa, dá voltas sem parar. O mapa tem linhas em zigue-zague iguais às dos gráficos de temperatura, e elas provavelmente são as estradas da ilha, pois a Terra do Nunca11 é sempre mais ou menos uma ilha, com pinceladas maravilhosas de cor aqui e ali, e recifes de coral e barcos velozes prontos para zarpar, e esconderijos selvagens e secretos, e gnomos que quase sempre são alfaiates, e cavernas atravessadas por rios, e príncipes com seis irmãos mais velhos, e uma cabana caindo aos pedaços, e uma velhinha bem baixinha com um nariz de gavião. Seria um mapa fácil se só tivesse isso; mas também tem o primeiro dia de aula, as rezas, os pais, o laguinho, as lições de costura, os assassinatos, os enforcamentos, os verbos transitivos diretos, o dia que tem sobremesa de chocolate, os primeiros suspensórios, o diga trinta e três, uma moeda se você arrancar seu dente sozinho, e por aí vai; e isso ou faz parte da ilha ou de outro mapa que aparece por baixo. E é tudo muito confuso, principalmente porque nada para quieto.

É claro que as Terras do Nunca variam muito. A de João, por exemplo, tinha uma lagoa com flamingos voando em cima, nos quais ele atirava. Já a de Miguel, que era muito pequeno, tinha um flamingo com lagoas voando em cima. João morava num barco emborcado sobre a areia, Miguel numa oca de índio e Wendy numa casa de folhas muito bem costuradas. João não tinha amigos, Miguel tinha amigos à noite, Wendy tinha um lobo de estimação que havia sido abandonado pelos pais. Mas, em geral, as Terras do Nunca têm semelhanças entre si como os membros de uma família e, se elas ficassem paradas uma do lado da outra, você ia poder dizer que têm o mesmo nariz e coisas assim. Nessas praias mágicas as crianças sempre irão ancorar seus barquinhos. Nós também já estivemos lá; ainda podemos ouvir o barulho das ondas, mas nunca mais vamos desembarcar.”

11. “Never-Never” (Nunca-Nunca) era o modo como se descreviam algumas das regiões inabitadas da Austrália no século XIX. Nos primeiros esboços da peça, a ilha de Peter Pan era chamada “Never Never Never Land”, em vez de apenas Neverland (Terra do Nunca)”

 

 

Peter não entendeu nada, mas Wendy, sim. E ela ficou só um pouquinho desapontada quando ele admitiu que havia se aproximado da janela do quarto das crianças não para vê-la, mas para ouvir as histórias.

– Sabe, não conheço história nenhuma. Nenhum Menino Perdido conhece história nenhuma.

– Que coisa mais horrível! – disse Wendy.

– Você sabe por que as andorinhas fazem ninho nos beirais dos telhados das casas? É para ouvir as histórias. Ah, Wendy, sua mãe estava lhe contando uma história tão linda!”

 

 

Wendy, João e Miguel ficaram nas pontas dos pés no ar para poderem ver a ilha pela primeira vez. É estranho, mas eles todos a reconheceram no mesmo segundo. E, até começarem a ter medo dela, não sentiram o que a gente sente quando vê ao vivo algo com que já sonhamos muitas vezes, mas o que sentimos quando reencontramos um amigo querido que não vemos há muito tempo.”

 

 

– O que eu mais quero na vida – disse Gancho, veemente – é o capitão deles, Peter Pan. Foi ele que cortou minha mão – continuou ele, brandindo ameaçadoramente o gancho de ferro. – Faz tempo que espero para apertar a mão dele com isso aqui. Ah, mas eu vou acabar com ele.

– Mas eu já ouvi o senhor dizer muitas vezes que esse gancho vale mais do que mil mãos – disse Barrica –, para pentear o cabelo e outros afazeres domésticos.

– Sim – respondeu o capitão. – Se eu fosse uma mãe, ia rezar para que meus filhos nascessem com isto em vez disso.

E ele olhou orgulhosamente para sua mão de ferro e com desprezo para a outra. Depois, voltou a franzir o cenho.

– Peter jogou a minha mão para um crocodilo que por acaso estava passando – disse Gancho, contraindo-se de raiva.

– Eu já notei o estranho medo que o senhor tem de crocodilo – disse Barrica.

– De crocodilo, não – corrigiu Gancho. – Daquele crocodilo.

Ele continuou, falando mais baixo:

– Ele gostou tanto da minha mão, Barrica, que me segue desde aquele dia, de mar em mar e de terra em terra, lambendo os beiços e querendo o resto de mim.

– Não deixa de ser um elogio – disse Barrica.

– Não quero um elogio desses! – rosnou Gancho com petulância. – Quero Peter Pan, que deu o primeiro gostinho de mim para a fera.

Ele se sentou num enorme cogumelo, e sua voz ficou trêmula.

– Barrica – disse Gancho roucamente –, esse crocodilo já teria conseguido me comer, se não fosse a sorte de ele ter engolido um relógio que faz tic-tac dentro da barriga dele. Com isso, antes de ele conseguir chegar perto de mim, ouço o tic-tac e saio correndo – ele riu, mas sem alegria.

– Um dia a corda do relógio vai acabar, e aí ele vai pegar o senhor – disse Barrica.

Gancho molhou os lábios ressecados.

– É – disse ele. – Esse é o medo que me persegue.”

 

 

– João, vamos acordar a Wendy e pedir para ela fazer um jantar para nós – propôs Miguel.

Mas, quando ele disse isso, alguns dos outros meninos apareceram correndo, trazendo galhos para construir a casa.

– Olhe só para eles! – exclamou Miguel.

– Caracol – disse Peter em seu tom mais capitanesco –, mande esses meninos ajudarem na construção da casa.

– Sim, senhor.

– Construção da casa? – disse João.

– Para a Wendy – disse Caracol.

– Para a Wendy? – disse João, escandalizado. – Ora, mas ela é só uma menina!

– É por isso que nós somos os empregados dela – explicou Caracol.

– Vocês? Empregados da Wendy?!

– Isso – disse Peter. – E vocês também. Andem logo!

Os aturdidos irmãos foram arrastados e obrigados a cortar, serrar e carregar madeira.

– Primeiro, a gente faz as cadeiras e o guarda-fogo da lareira – mandou Peter. – Depois, construímos a casa em volta deles.

– Isso – disse Magrelo. – É assim que uma casa é construída. Acabei de me lembrar.

Peter pensava em tudo.

– Magrelo, vá buscar um médico – mandou ele.

– Sim, senhor – disse Magrelo imediatamente.

Ele saiu dali, coçando a cabeça. Mas Magrelo sabia que Peter tinha que ser obedecido e logo voltou, usando a cartola de João e fazendo uma cara muito séria.

– Com licença, senhor – disse Peter, se aproximando dele. – O senhor é médico?

A diferença de Peter para os outros meninos em momentos como aquele é que eles sabiam que aquilo era faz de conta, enquanto para Peter faz de conta e realidade eram exatamente a mesma coisa. Isso às vezes perturbava os meninos, como quando eles tinham que fazer de conta que já tinham jantado. Se parassem a brincadeira no meio, Peter dava palmadas nas mãos deles.

– Sim, rapazinho – respondeu ansiosamente Magrelo, que já tinha a mão esfolada de tanto levar palmada.”

 

 

O que a perturbava, às vezes, era que João só lembrava vagamente dos pais, como pessoas que havia conhecido um dia, enquanto Miguel sempre se confundia e achava que Wendy era sua mãe de verdade. Isso deixava Wendy um pouco assustada e, com o nobre propósito de fazer a coisa certa, ela tentava ajudá-los a lembrar melhor da vida antiga obrigando-os a fazer provas sobre o assunto, muito parecidas com aquelas que costumava fazer na escola. Os outros meninos achavam isso tudo muito interessante, e insistiam em participar. Eles arrumavam um lugar onde pudessem anotar as respostas e sentavam à mesa, escrevendo e quebrando a cabeça com as perguntas que Wendy escrevia num caderno improvisado e passava de mão em mão. Eram as perguntas mais fáceis do mundo: “Qual era a cor dos olhos da mamãe? Quem era mais alto, o papai ou a mamãe? A mamãe era loura ou morena? Responda todas as três, se possível.” Ou: “(A) Escreva uma redação de não menos de 40 palavras sobre o tema ‘Como eu passei meu último Natal’ ou o tema ‘Uma comparação das personalidades do papai e da mamãe’. É preciso escolher um dos temas.” Ou: “(1) Descreva a risada da mamãe; (2) Descreva a risada do papai; (3) Descreva o vestido de festa da mamãe; (4) Descreva a casinha de cachorro e quem dorme nela.” (...)

Peter não participava da brincadeira. Em primeiro lugar, ele desprezava todas as mães, com exceção de Wendy; e, em segundo lugar, era o único menino da ilha que não sabia ler nem escrever; nem a menor palavrinha. Ele estava acima dessas coisas.

Aliás, as perguntas sempre eram escritas no passado. Qual era a cor dos olhos da mamãe e por aí vai. Pois Wendy também estava esquecendo.

As aventuras, como nós vamos ver a seguir, aconteciam todos os dias na ilha; mas nessa época Peter, com a ajuda de Wendy, inventou uma brincadeira nova que o deixou inteiramente fascinado até que, de repente, ele perdeu o interesse por ela, que, como você já sabe, era o que sempre acontecia com as brincadeiras dele. A brincadeira era fingir que não existiam aventuras e fazer o tipo de coisa que João e Miguel tinham feito a vida toda: sentar em bancos, jogar uma bola para cima, empurrar uns aos outros, sair para dar uma caminhada e voltar sem ter matado nem mesmo um urso. Ver Peter sentadinho num banco sem fazer nada era muito engraçado; ele às vezes não conseguia se controlar e fazia uma cara muito séria, pois achava que não fazer nada era uma coisa hilária. E se gabava que tinha ido dar uma caminhada pelo bem de sua saúde como quem estivesse contando uma vantagem. Durante muitos sóis, essa foi a aventura mais diferente do mundo para ele; e João e Miguel tinham que fingir estar adorando aquilo também, ou levavam a maior bronca.

Peter muitas vezes saía sozinho e, quando voltava, os outros nunca tinham certeza absoluta se havia ou não tido uma aventura. Ele às vezes esquecia tão completamente dela que não falava nada; e aí alguém saía de casa e encontrava o corpo. Por outro lado, às vezes falava muito da aventura, mas ninguém encontrava corpo nenhum. Em outras ocasiões, Peter chegava em casa com um curativo na cabeça, e Wendy o mimava e lavava o ferimento com água morna enquanto ele falava sobre seu impressionante feito. Porém ela nunca tinha certeza se aquilo acontecera de verdade.

Mas muitas aventuras Wendy sabia que haviam acontecido mesmo, pois ela própria participara delas. E outras que eram verdade pelo menos em parte, pois os outros meninos haviam participado e diziam que eram completamente verdade. Para descrever todas, seria necessário um livro tão grande quanto um dicionário de latim, e o máximo que eu posso fazer é dar uma como exemplo de uma hora como qualquer outra na Terra do Nunca. A dificuldade é qual escolher. A briga com os peles-vermelhas na Ravina Magrelo? Foi uma batalha sangrenta e especialmente interessante, pois mostra uma das peculiaridades de Peter, que era que, no meio de uma briga, ele às vezes trocava de lado de repente. Na Ravina, quando ainda não era possível saber qual dos dois lados ia ganhar, sendo que ora um, ora outro parecia estar levando vantagem, ele gritou:

– Eu sou pele-vermelha hoje! E você, Firula?

E Firula respondeu:

– Pele-vermelha! E você, Bico?

E Bico disse:

– Pele-vermelha! E você, Gêmeo?

E por aí foi. Todos eles viraram peles-vermelhas, e é claro que isso teria acabado com a briga se os verdadeiros peles-vermelhas, fascinados com os métodos de Peter, não houvessem concordado em ser meninos perdidos só daquela vez. Assim, tudo recomeçou, mais violento do que nunca.

O extraordinário resultado dessa aventura foi que… mas eu ainda não decidi se essa vai ser a aventura que vou narrar. Talvez seja melhor contar aquela sobre o ataque noturno dos peles-vermelhas à casa debaixo da terra, quando diversos deles ficaram entalados nas árvores ocas e tiveram que ser arrancados de lá como rolhas. Ou eu posso contar como Peter salvou a vida de Princesa Tigrinha na Lagoa das Sereias, transformando-a numa aliada.

Ou eu posso falar do bolo que os piratas fizeram para que os meninos comessem e morressem; e sobre como o colocaram em diversos lugares diferentes, cada um mais estratégico do que outro; mas Wendy sempre arrancava o bolo das mãos de seus filhos e, após algum tempo, ele perdeu sua suculência e ficou duro como uma pedra. O bolo acabou sendo usado numa catapulta, e Gancho tropeçou nele no escuro e caiu.

Quem sabe eu falo dos pássaros que eram amigos de Peter, particularmente da fêmea de Pássaro do Nunca, que fez seu ninho numa árvore que se debruçava sobre a lagoa. O ninho caiu na água, mas mesmo assim ela continuou chocando seus ovos, e Peter ordenou que os meninos perdidos não a incomodassem. Essa é uma história bonita, e o final mostra quanta gratidão um pássaro é capaz de sentir; mas, se eu for contar, tenho que contar logo toda a aventura da lagoa, o que, é claro, faria com que estivesse contando duas aventuras em vez de uma. Uma aventura menor, mas tão arrepiante quanto essa, foi a vez em que Sininho, com a ajuda de algumas fadas bandidas, se aproveitou do fato de Wendy estar dormindo para colocá-la em cima de uma folha enorme e tentar fazer com que esta fosse boiando para longe da ilha. Felizmente a folha afundou e Wendy acordou, achando que estava na hora do banho, e nadou de volta. Ou eu posso falar também do dia em que Peter desafiou os leões, usando uma flecha para desenhar um círculo em torno de si no chão e perguntando quem tinha coragem de pisar ali dentro. Ele passou horas esperando, com os outros meninos e Wendy observando apavorados de cima das árvores, mas ninguém ousou aceitar o desafio.

Qual dessas aventuras a gente vai escolher? O melhor jeito é tirar cara ou coroa.

Já tirei, e a aventura da lagoa ganhou. Isso quase me faz desejar que a aventura da ravina, do bolo ou de Sininho houvesse ganhado. É claro que eu poderia jogar a moeda de novo e fazer melhor de três; mas acho que é mais justo ficar com a da lagoa mesmo.”

 

 

Estranhamente, não foi na água que eles se encontraram. Gancho subiu na pedra para dar uma respirada e, ao mesmo tempo, Peter escalou o outro lado. A pedra estava escorregadia como uma bola, e eles tinham que subir nela engatinhando. Nenhum dos dois sabia que o outro estava logo ali. Ao tatearem, procurando um lugar para se agarrar, encontraram o braço um do outro. Surpresos, ergueram as cabeças; seus rostos estavam quase encostando. Foi assim que eles ficaram frente a frente.

Alguns dos maiores heróis da História já confessaram que, logo antes de entrar numa briga, sentiram medo. Se isso houvesse acontecido com Peter naquele momento, eu admitiria. Afinal, aquele era o único homem que botava medo no Long John Silver. Mas Peter não sentiu medo, só sentiu uma coisa: júbilo. E rangeu seus lindos dentinhos com alegria. Rápido como um raio, ele arrancou uma faca do cinto de Gancho e estava prestes a enfiá-la no pirata quando viu que estava mais para cima da pedra que seu inimigo. E isso não teria sido justo. Assim, Peter ofereceu a mão a Gancho para ajudá-lo a subir.

Foi aí que Gancho o feriu.

Peter ficou atordoado não por causa da dor, mas por causa da injustiça. Aquilo o deixou completamente indefeso. Ele só conseguiu olhar para Gancho, horrorizado. Toda criança se sente assim da primeira vez que é tratada com injustiça. Quando a criança se aproxima de você, querendo se entregar a você, a única coisa que ela pensa que merece é um tratamento justo. Depois que você for injusto com ela, ela vai voltar a amá-lo, mas nunca mais vai voltar a ser a mesma criança. Ninguém nunca se recupera da primeira injustiça; ninguém, exceto Peter. Ele sempre sofria injustiças, mas sempre as esquecia. Acho que essa era a verdadeira diferença entre ele e todos os outros.”