quarta-feira, 7 de março de 2018

Eu creio, nós cremos: tratado da fé – João Batista Libânio

Editora: Loyola
ISBN: 978-85-1502-093-5
Opinião: ★★★☆☆
Páginas: 480

“1. A fé pede teologia. É, em primeiro lugar, a própria fé que, por sua dinâmica interna, busca compreender o que crê. Todo ‘crente’ verdadeiro é também, e a seu modo, um ‘teólogo’. Pois a teologia é precisamente ‘a fé que deseja entender’, como a definiu magistralmente Sto. Anselmo. Sem o estudo, a fé facilmente cai na cegueira do irracionalismo e da superstição, ou na miopia da superficialidade e do sincretismo.”


         “A mentalidade moderna e pós-moderna prima por ser tolerante, relativista, pluralista, de um ecumenismo religioso espiritual amplo, e por isso refuga altamente as pretensões exclusivistas da verdade por particulares, quaisquer que sejam eles: Estado, partido, classe, raça, cultura ou religião. Nesse sentido, a Revelação cristã conflita altamente com essa mentalidade.”


“É claro que, de todos os discursos, o religioso é aquele que, por excelência, pretendeu responder à questão do sentido da vida: não apenas ele nos promete a imortalidade como atribui a nossas condutas uma referência moral absoluta, a nossa história um termo último e, no melhor dos casos, salvador. Mas aqui também a dificuldade com que se chocam as grandes religiões não poderia ser subestimada: elas se tornaram, nas sociedades laicas, simples problema de opinião privada. Cada um pode escolher sua fé à la carte, temperar seu cristianismo com um pouco de budismo, construir sob medida para si um islã duro ou moderado, ser ateu e talmudista, distinguir nas palavras das autoridades o que melhor convém à sua ‘sensibilidade’ e rejeitar todo o resto... Assim, é o próprio princípio da verdade revelada que é questionado pela exigência moderna de sempre pensar se possível por si mesmo... e não por Deus ou por Seus representantes. A exigência de autonomia entra em conflito com o que o discurso religioso tem de mais específico: o momento da Revelação, isto é, da humildade que a consciência da dependência radical em relação ao Outro implica...” (L. Ferry)


“A primeira causa do mal-estar da modernidade é o individualismo”. (Charles Taylor)


 “Vive-se no cotidiano uma batalha violenta de condicionamentos que pautam os comportamentos humanos. Chame-se de moda, de estar atualizado, de seguir a propaganda, de deixar-se conduzir pelos meios de comunicação social e pelas colunas sociais, de etiquetas, de costumes estabelecidos etc. Os condicionamentos avultam exatamente num mundo em que se fala tanto de liberdade. Até nesse ato de liberdade há muito de condicionamento, trabalhado e conduzido por grupos interessados. Além da psicologia, a sociologia tem também desmascarado a gigantesca força das estruturas condicionantes.”


Espírito pós-moderno
A pós-modernidade afirma-se em contraposição à modernidade. A modernidade é racionalista, burocrática, cientificista com uma razão monótona, enquanto a pós-modernidade alegra-se com uma irracionalidade leve. A modernidade defende a objetividade coisal, a ciência, a coação do método, o sistema, enquanto a pós-modernidade instila uma nova sensibilidade, afaga o mito, desposa o prazer criativo, prega a liberdade anárquica. Isso não impede que essa pós-modernidade, para suprimir a repressão onipresente organizada pelo Estado, acabe gerando uma instituição anárquica do terror individual. Ironicamente pode-se dizer que a grande novidade a que acena tal movimento seja a confissão de que nenhuma vanguarda se constrói sem viver “a graça do passado contra o qual se levanta” e termina muitas vezes enriquecendo a história do pensamento sim, mas não necessariamente conduzindo-a a um ponto mais alto, melhor, mais racional. Sua novidade pode transformar-se paradoxalmente na “repetição do diferente”.
O único meta-relato que a pós-modernidade propõe é o relato do declínio dos grandes relatos. Se Hegel se propôs pensar a totalidade do real, desvendando-lhe as irracionalidades, se Freud vasculhou o inconsciente escuro em busca de racionalidade, se Marx se entregou à dura tarefa de orientar suas análises para transformar a realidade, o espírito pós-moderno renuncia pensar, vasculhar, transformar o real. Basta-lhe viver. “Já é muito saber que vivemos!””


“Fé é crer “ser verdadeiro o que Deus revelou”.” (DS 3008)


Inexistência do a-priori religioso
Estamos em plena modernidade. Dois sinais intrigam. De um lado, uma secularização radical crescente parece demonstrar não existir nenhum a-priori religioso no ser humano — tese advogada pelos filósofos e depois defendida pelos teólogos da secularização. A carta de D. Bonhüffer foi, de certa maneira, sua cédula de identidade. Escrita nos cárceres nazistas em 30 de abril de 1944, será publicada dez anos depois.
“O tempo em que se podia dizer tudo ao homem com simples palavras — quer sejam teológicas ou piedosas — já passou. Assim também já passou o tempo da interioridade e da consciência, o que podemos resumir nas palavras, passou o tempo da religião. Marchamos para uma época sem religião alguma. Os homens, assim como hoje são, não conseguem ser religiosos. Mesmo os que ainda honestamente se consideram ‘religiosos’ já não praticam. Evidentemente eles têm uma ideia completamente diferente sobre o que chamam de ‘religioso’. Toda a nossa proclamação do Evangelho e nossa teologia de 1.900 anos de cristianismo baseiam-se sobre um ‘a-priori religioso’ do homem. O cristianismo sempre foi uma forma (talvez a autêntica forma) da ‘religião’. Caso, entretanto, um dia se venha a descobrir que esse ‘a-priori’ nem sequer existe, mas apenas foi uma forma de expressão do homem, historicamente condicionada e temporária, os homens voltarão a ser radicalmente a-religiosos — e eu acredito que isto já está acontecendo (qual a razão, por exemplo, de esta guerra, diferentemente de todas as anteriores, já não provocar qualquer reação religiosa?). Que significará isto então para o cristianismo?” (D. Bonhöfer, Resistência e submissão)


“Outra face da autonomia da razão é a liberdade. É mais ampla. Refere-se à própria autodeterminação em todos os campos. Na peça As moscas, J.-P. Sartre retratou de modo genial esse anseio moderno pela liberdade:
“Quando a liberdade explode na alma dum homem, os deuses perdem todo o poder sobre ele. Passa então a ser uma coisa puramente humana, e só os outros homens podem matá-lo ou deixá-lo viver.
E em outro lugar acrescenta:
“Não sou senhor nem escravo, Júpiter. Sou minha liberdade! Mal me criaste, deixei de te pertencer”.
A luta da psicanálise é arrancar os últimos e profundos empecilhos à liberdade, ancorados no inconsciente humano.”


Subjetividade pós-moderna
É paradoxal. A subjetividade nunca foi tão filha da alta tecnologia. Tudo passa por ela. Nunca foi também tão intimista, individualista, egocêntrica, afetiva. Abre-se até o infinito pela telemática. Fecha-se em seus interesses, gozos e prazeres até o extremo. É uma subjetividade extremamente tecnológica e fruitiva.
Sofre também de falta de sentido. O ceticismo a ronda por todos os lados. Reina um clima de tédio, de insatisfação. A insegurança do futuro faz que ela se concentre no presente. Esquece-se do passado. Prefere não pensar no futuro. Só vive o presente. “Carpe diem”, colhe o gozo do cotidiano! Com isso, isenta-se dos compromissos que sempre implicam uma dimensão de fidelidade, de futuro.
A experiência da fragmentação marca as pessoas. Vem de todos os lados. Dentro de si, fragmenta-se o eu em camadas inconscientes e conscientes. O saber especializa-se fragmentariamente ao máximo. Os valores desfazem-se em pedaços. As religiões tradicionais veem surgir diante de si infinitas expressões e denominações religiosas. Enfim, tudo é plural. A subjetividade percebe-se dividida por dentro e ameaçada por fora.
A ética pesa. A estética liberta. Volta-se então para a estética em detrimento da ética. No entanto, surge ao mesmo tempo uma preocupação crescente com a ética, tendo em vista as consequências sociais terríveis de sua ausência. A onda de corrupção, a proliferação das drogas, o surgimento de máfias ameaçam a estabilidade social e produzem na subjetividade pós-moderna um arrepio contraditório.
O retrato pode-se ampliar grandemente. Esses poucos traços da subjetividade pós-moderna já nos indicam como a vivência da fé cristã deve modificar-se diante de tal subjetividade. “Eu creio” se exprime nessa perspectiva fortemente subjetivizada.”


Subjetividade e os pobres
A construção da subjetividade a partir da experiência existencial em nosso continente sofre o impacto dos pobres que estão por todas as partes. Ela reage a tal situação de várias maneiras.
Há uma elite satisfeita, cuja subjetividade se constrói à margem do pobre. Desconhece-o. Mais: despreza-o. J. Freire Costa, quando do assassinato do índio pataxó Galdino por jovens de classe média de Brasília, alude a esse tipo de subjetividade. Os pobres são moscas que se espantam. E por brincadeira podem ser assassinados, como disseram aqueles jovens. É a subjetividade absolutamente alienada do próprio país, onde existem pobres. Vive como se estivesse em outro mundo. Em algum cantão suíço.
Há, porém, a subjetividade da má consciência. Sua maneira de expressar-se pode variar. Desde ajudas esporádicas para apaziguar a consciência até uma busca contínua de autoconvencimento desculpabilizante fazendo calar a angústia. Termina-se assim na figura anterior de desconhecimento.
Mais longe vai a compaixão. O pobre entra na própria constituição da subjetividade como alguém que merece uma presença de atenção. Exprime-se também de muitos modos.
A compaixão pode evoluir para uma subjetividade que aceita não poder existir na América Latina sem uma relação construtiva, sadia e comprometida com o pobre. A opção pelos pobres é-lhe estruturante.”


“A tendência da pós-modernidade é exacerbar a subjetividade até as raias do puro subjetivismo, relativismo. Dessa maneira, tanto um compromisso com a história e com a realidade social quanto autêntica vivência da fé cristã tomam-se impossíveis.
Esse encurtamento da subjetividade humana é prejudicial ao ser humano. Só há uma verdadeira subjetividade em construção dialética com a história e com a sociedade.”


“O crescimento da fé tende a uma união com Deus. Pela fé informada pela caridade, unimo-nos a Deus. O nível de união cresce à medida que Ele se entrega, em sua infinita autodoação, a cada um de nós e nós lhe respondemos com amor. Os místicos são abundantes em traduzir tal experiência mística de fé. Alguns tocaram os píncaros de alturas vertiginosas. A fé, nesse grau elevado, se aproxima muito da visão, que será a realidade de nossa vida para além da morte na beatitude eterna.”


“Em sua estrutura teológica última, a fé é uma atração misteriosa e gratuita de Deus a que nosso “eu” responde.”


“O ser humano é um ser-liberdade. Sua condição de liberdade abre-lhe uma existência a ser construída por meio de escolhas que, ao mesmo tempo, realizam e limitam sua liberdade. Ela só é real, decidindo. Mas as decisões quanto mais importantes e carregadas de consequências mais impedem retrocessos. O último motor de sua liberdade é a busca do bem, da felicidade, de sentido. Como o ser humano não pode conhecer nem medir de antemão o êxito de suas decisões, ele arisca. Não o faz na total escuridão. Pois não habita um mundo vazio. Vive com outros seres humanos e espelha-se neles para ir construindo seu percurso. Há pessoas mais significativas. (...)
De certo modo, acreditamos em sua vida e orientamos a nossa numa mesma direção.
Talvez uma das crises atuais consista na falta dessas pessoas que Brecht chama de “imprescindíveis”. Os santos cumpriram muito essa função de ser figuras significativas que levavam muitos a arriscar sua vida apostando neles.”


“O sujeito que crê estabelece uma relação dialética com as realidades históricas. “Eu e minhas circunstâncias”, diria Ortega y Gasset. Existimos envolvidos pelos acontecimentos históricos que são, ao mesmo tempo, produzidos por ações humanas e conformadores do próprio ser humano. Fazemos a história e somos feitos por ela.”


Função de reprodução da religião
Não se pode esquecer, porém, que a religião cumpre, embora em grau menor e subsidiário, uma função de reprodução da sociedade juntamente com a educação, família, mídia. Assim, as práticas de fé que reproduzem mais e melhor a sociedade são mais estimuladas, enquanto as opostas são reprimidas, ora pela força policial, ora pela pressão dos interesses dominantes, sobretudo por meio da mídia. Por isso, a fé profética é menos estimulada que a fé religiosa em consonância ou, ao menos, sem conflito com a ordem vigente.


Grito dos pobres
Dois gritos de protesto resumem o lado obscuro dessa relação entre subjetividade e cosmos na modernidade: grito dos pobres, grito da terra. Os pobres desmascaram os avanços da tecnologia quando ainda moram em tugúrios, em barracas de lona velha, debaixo dos viadutos, sobre as calçadas, enquanto a engenharia e arquitetura constroem edifícios de mais de cem andares. Os pobres negam os progressos da medicina e da indústria farmacêutica quando voltam a sofrer de doenças endêmicas, consideradas erradicadas. Desmentem o avanço na culinária com comida abundante e requintada, ao alimentar-se de ratos do lixo. Desacreditam as indústrias automotoras com carros e aviões poderosos, luxuosos, ao ter de andar sempre a pé por não poder pagar nem sequer o bilhete de um ônibus.
O maior desmentido da tecnociência vem do fato de estar crescendo a maioria de pobres e miseráveis no mundo enquanto uma camada cada vez menor se apossa dos recursos, usufruindo suas regalias. Os pobres revelam que essa consciência, que rompeu a harmonia contemplativa em vista da melhoria das condições de vida, perdeu o pássaro na mão e não apanhou os dois que voavam. O grito dos pobres ameaça toda a humanidade a longo prazo, embora já existam sinais de perigo iminente. Enquanto a riqueza consegue manter bem firmes os diques que a separa da miséria, o risco ainda é controlável. E tais diques custam cada vez mais caro: repressão policial, armas, blindagem, apartheids, políticas populistas, migalhas de consolo, alienação religiosa, circo abundante nas praças e nas telas da TV etc.


“Vale a pena deter-se um momento em santo Agostinho, como um caso prototípico. Numa homilia maravilhosa, ele articula de maneira genial a fé e a razão.
Depois de situar o ser humano na escala da existência, da vida, da sensação e da inteligência, o santo levanta o problema da fé. “Todos os homens querem entender, não há ninguém que não o queira, mas nem todos querem crer. Se alguém me diz: ‘Que eu entenda para que creia’, respondo: ‘Crê para que entendas’.”


Fé entre os extremos: racional e afetivo
A fé oscila entre os dois extremos: puro racional e puro afetivo. Sempre a espreitam os exageros, tanto do fideísmo como do racionalismo. Exatamente como a experiência da fé humana, do amor humano. Alguns querem ter a absoluta certeza racional da amizade, do amor. São racionalistas, pragmáticos e calculistas no amor. No fundo, não creem nem amam. Se assim procedem em relação à fé, em última análise, não têm fé. Acreditam em sua razão e não em Deus.
Outros se entregam a um amor cego, emocional, sem juízo, que, em última análise, significa um nível de racionalidade infantil. Amam, mas se enganam frequentemente no amor. Não se trata de um amor humano maduro. No caso da fé, ela seria imatura.
Na história da fé cristã, estão presentes sempre os dois elementos, mas não em igual proporção. Há momentos em que se salienta mais um aspecto que outro.”


“A modernidade combatera a religião em nome da razão. Destronara-a de sua função de reguladora da cultura e da sociedade. Reduzira-a ao rincão da privacidade individual ou de esferas especializadas. Para muitos, ela fora confinada às regiões do mito, do mágico, da infância da razão. Os mestres da suspeita consideraram-na definitivamente superada. Resquícios permaneciam por causa dos atrasos culturais, das contradições econômicas, das alienações primitivas. Era questão de tempo.
A pós-modernidade insurge-se contra essa racionalização violenta da modernidade. A razão instrumental triunfante devastou regiões naturais maravilhosas. Gerou verdadeiro ecocídio. Mais: produziu um exército interminável de pobres. Tem criado um coração humano egoísta, individualista, fechado, condenado à solidão, consumista, sôfrego de prazeres que não o fazem feliz.
Ameaça o homem pós-moderno o niilismo de valores, de bem, de verdade. E acompanha-o a melancolia cinzenta. Num movimento de reação e de ressurreição diante de tanta morte simbólica, ecológica e humana, abrem-se espaços para a dimensão estética, lúdica, gratuita, festiva, religiosa da existência. Os pobres constituem-se em instância terrivelmente crítica da razão moderna. Que fez ela por eles?”


Catequese pós-moderna
É por esse veio que passa hoje a catequese da nova geração: a fé como racionalidade-sentido e não tanto racionalidade-explicação. Esquecera-se talvez que a fé se situa antes no nível do sentido que no da explicação dos fenômenos. Ela se desgastara muito ao enveredar por discussões restritas ao espaço das explicações causais dos fenômenos humanos. O homem moderno nunca teve tanta explicação e de tão fácil acesso, de tudo o que acontece. Mas também nunca esteve tão desprovido de sentido para sua vida. A fé tem nesse campo enormes possibilidades, já que ela se propõe precisamente oferecer o sentido radical da existência. Nisso consiste fundamentalmente sua racionalidade.

Fides et ratio
Esse problema assumiu ultimamente importância maior no cenário da Igreja e para além dela por causa da encíclica de João Paulo II Fides et ratio. H. Vaz distingue muito bem a relevância permanente e a conjuntural desse tema. A encíclica veio conjunturalmente acentuar uma questão de valor permanente. Pois há uma “presença constitutiva de um entrelaçamento entre Fé e Razão [...] na estrutura simbólica de nossa civilização, tal como vem sendo transmitida há pelo menos dezenove séculos, ou seja, desde as primeiras gerações cristãs”. Nesse documento, o papa, antes de tudo, mostra como a causa profunda das contradições de nosso tempo está na ruptura entre fé e razão. Segue as pegadas de Paulo VI, que afirma que “a ruptura entre o Evangelho e a cultura é sem dúvida o drama de nossa época, como o foi também de outras épocas”. Essa ruptura provocou uma perda de sentido. No entanto, a fé e a razão se reclamam mutuamente e têm necessidade uma da outra. Esse encontro se dá sobretudo na cultura e na história.


“Quem te criou sem ti, não te salvará sem ti.” (Santo Agostinho)


“A liberdade humana não se realiza na singularidade solipsista, mas em comunhão com os irmãos. O ato de liberdade humana situa-se necessariamente em face de outras liberdades, de Deus e dos irmãos. É nesse jogo complexo de liberdades que a fé se realiza, cresce, amadurece e dá frutos de salvação.”


“Há interessante paradoxo na liberdade da fé. De um lado, o ser humano é criado livre e responsável. Todas as respostas humanas pessoais passam pela liberdade. E suas respostas a Deus também. Por isso, todo ato de fé é livre. Por outro lado, essa liberdade está orientada para relacionar-se com Deus de tal modo que rejeitar tal relação é frustrar a liberdade.
Liberdade: dom recebido
Esse dom não é imposto em sua concretização histórica. É dado no início. A dimensão de absoluto, de autonomia da liberdade humana consiste em que ela pode ou não realizar-se na linha do dom recebido. Por isso, a negação do dom não é um ato da mesma natureza que a aceitação. A aceitação do dom situa-se na linha da realização da liberdade. A negação da finalidade criativa da liberdade para uma comunhão com Deus é, ao mesmo tempo, a negação de sua própria realização. É, em última instância, frustração da própria liberdade que admite graus na história e se radicaliza no momento da morte. A essa radicalização da frustração da liberdade chama-se inferno.”


“O desafio para a “liberdade de” no mundo de hoje situa-se diante da ideologia burguesa capitalista com sua enorme força envolvente. A fé cristã estabelece exigências claras nesse setor. Não casa com uma ideologia consumista, hedonista, individualista, que se impõe de tal maneira a ponto de nos tolher a liberdade verdadeira. Mais: passa-se a falsa ideia de liberdade como se ela se realizasse no simples fato de poder escolher. Nesse sentido, a sociedade moderna consumista a favoreceria, já que nos oferece muito mais oportunidades de escolha.
Pelo contrário, a pressão consumista e o individualismo exacerbado limitam a liberdade profunda. Só um trabalho interior de desapego, de indiferença interior, permite manter a “liberdade de”. Pe. Pedro Arrupe, que foi geral dos jesuítas, com certa ironia dizia ao entrar nesses colossais shoppings: “De quanta coisa não necessito!””


“Ao criar a liberdade humana, Deus aventurou-se por um caminho diferente. Ei-lo diante de um parceiro que não seguiria sem mais o império de sua vontade, nem traçaria o desenho com que sonhara. Deixou a caneta na mão de sua liberdade, e iniciou-se uma aventura de surpresas e de sofrimento para Deus. Calou-se sofrido diante da rebelião desse homem. Sofreu e sofre inúmeros “nãos” dessa liberdade. (...)
Extremo da morte do Filho
E no auge do risco e da dor viu seu próprio Filho crucificado. A liberdade humana não é algo simples nem mesmo para Deus. Ele que é o mistério dos mistérios encontra-se doravante em frente ao pequeno mas real mistério de nossa liberdade. Quando seu Filho, o amor encarnado, entrou na história para anunciar aos homens o amor infinito de Deus Pai, terminou a vida numa cruz. A paixão de Deus é terrível no momento em que surge a liberdade humana. Terminou a relação idílica entre Deus e a natureza, para começar a apaixonada relação histórica, em que Deus e os homens vão viver momentos sublimes de amor, de beleza, de ternura, mas também dolorosas experiências de traição, distância, rejeição até o extremo.”


Miséria como ameaça à fé
A mais grave ameaça à fé em nosso continente é a extrema miséria. Se nos países ricos a abundância material, o consumismo, o conforto, a riqueza, o comodismo, a acomodação, o egocentrismo terminam por destruir a fé cristã, em nossos países a extrema miséria empurra as pessoas para situações desumanas de violência, de degradação humana, de impossibilidade de viver os valores cristãos, de exprimir sua fé em Deus. Ela dilapida o coração do que crê, arranca-lhe as energias vitais, impõe-lhe situações impossíveis de uma vida humana e digna, degrada-lhe os sentimentos, corrompe-lhe os valores, impossibilita-lhe a fé.
A luta contra a miséria é uma exigência da justiça e da fé. É um passo primeiro para que o projeto de Deus possa armar sua tenda entre os homens. Na miséria, ele é deturpado, inviabilizado. Pois a miséria revela uma dupla face de contradição. Antes de tudo, ela faz mal ao pobre, que se encontra em situações que dificultam viver sua fé. Pertence à experiência comum perceber que é quase impossível praticar certas virtudes, levar determinada vida moral e religiosa quando as circunstâncias e condições existenciais são extremamente adversas. A miséria é uma das piores. Lutar contra ela é criar condições para as pessoas viverem sua vida religiosa. O que é exigência de vida para quem vive na miséria é obrigação moral para os outros. O direito do outro a uma vida digna, e portanto toda situação em que ela esteja ameaçada, impõe-nos uma obrigação moral de ajuda. Nesse caso, a opção pela vítima, pelo necessitado é um dever moral universal. O cristianismo sanciona e eleva essa obrigação ao nível teologal.


“A fé vive entre as fronteiras da certeza do Deus que chama, que atrai, que é maior que todas as nossas certezas, e a maneira dessa percepção que não se faz na evidência, na empiria constatável, mas na aceitação do mistério.
A certeza da fé só se entende a partir da conaturalidade do amor. Deus é amor (1Jo 4,8.16). Só quem ama sabe quão firme é a segurança que o amor oferece. Amor e verdade identificam-se. Firmar-se no amor é firmar-se na verdade e vice-versa. A fé descansa na verdade que é amor ou no amor que é verdade.”


“O tema da idolatria tem sido perseguido especialmente pela teologia latino-americana, alertando-nos para o fato de que nos assalta mais o risco da idolatria que o do ateísmo. Com efeito, as estatísticas brasileiras apontavam para uma porcentagem até mesmo inferior a 1% de ateus. Já não podemos dizer o mesmo do culto a ídolos. O discurso dos ídolos vem de dois lados: ou, no fundo, ele é estritamente econômico e joga com o imaginário religioso; ou é estritamente religioso e contamina-se com a presença de ídolos.
“A idolatria aparece como uma relação falsificada na medida em que dela desaparece o gratuito, isto é, o pessoal e livre. (...)
E consequentemente a América Latina, na luta por sua libertação, não enfrenta a ‘morte de Deus’, mas a tarefa da ‘morte dos ídolos’ que a escravizam e com os quais se confunde amiúde a Deus.” (J. L. segundo)
 A conferência episcopal de Puebla adverte-nos para os ídolos de nossa cultura.
“[A Igreja] estabelece uma crítica das culturas, uma vez que o reverso do anúncio do Reino de Deus é a crítica da idolatria, isto é, a crítica dos valores erigidos em ídolos que uma cultura assume como absolutos sem que o sejam.”1
“Nada é divino e adorável fora de Deus. O homem cai na escravidão quando diviniza ou absolutiza a riqueza, o poder, o Estado, o sexo, o prazer ou qualquer criatura de Deus, inclusive seu próprio ser ou sua razão humana. O próprio Deus é a fonte de libertação radical de todas as formas de idolatria, porque a adoração do não-adorável e a absolutização do relativo levam à violação do que há de mais íntimo na pessoa humana: sua relação com Deus e sua realização pessoal. A queda dos ídolos restitui ao homem seu campo essencial de liberdade.”2
“Os bens da terra se convertem em ídolo e em sério obstáculo para o Reino de Deus, quando o homem concentra toda sua atenção em tê-los ou em cobiçá-los. Então eles se tomam absolutos. ‘Não podeis servir a Deus e ao dinheiro’ (Lc 16,13).3
“Diviniza-se o poder político quando na prática ele é tido como absoluto. Por isso, o uso totalitário do poder é uma forma de idolatria, e como tal a Igreja o rejeita inteiramente (DS 75)”4.”
Os ídolos não vêm só de fora, da situação social, do sistema social e cultural dominante. Muitos se infiltram em nossas devoções. Criamos um deus a nossa imagem e semelhança que cai sob nosso domínio. Domesticamo-lo, manipulamo-lo. Dispomos dele como algo nosso.
Criamos um deus para resolver todos os nossos problemas. Um “deus ex machina”, um “tapa-buracos”. Ele serve para solucionar tanto os problemas teóricos como os práticos. Dessa maneira transformamos o mistério em problema e encontramos solução para os problemas.
Ele é um deus que nos protege, mesmo à custa da derrota dos outros. “Deus é brasileiro”, ouve-se não raramente. Esse deus é um ídolo. Está aí, às vezes, até mesmo para acobertar nossa covardia, preguiça, falta de empenho e compromisso.”
1, 2, 3, 4: Conclusões de Puebla, respectivamente n. 405, 491, 493 e 500.


“Ao buscar o incompreensível, sempre se encontra algo.
“Para que buscar, pergunta santo Agostinho, se se compreende que é incompreensível o que se busca a não ser porque se sabe que não se deve cessar sem empenho à medida que avança na busca do incompreensível, pois cada dia se faz melhor aquele que busca tão grande bem, encontrando o que busca e buscando o que encontra? Com efeito, busca-se para que seja mais doce a descoberta; e encontra-se para que ela seja buscada ainda mais avidamente10”.”
10. S. Agostinho, De Trinitate, XV, 2,2.


“A fé salva a caridade e vice-versa. Ela a salva ao apresentar-lhe o modelo normativo do amor na maneira como Deus ama a humanidade — entregando-lhe gratuitamente seu Filho — e no modo como Jesus historicamente vivenciou o amor. Ele o fez amando os inimigos e dando sua vida por eles e por todos. Com efeito, o ser humano pode facilmente pensar que seja amor, caridade, o que são expressões larvadas de egoísmo. A fé diz-nos que o verdadeiro amor existe na oblação de si, no perdão e amor aos inimigos.
Caridade salva a fé
A caridade salva a fé no sentido de que não a deixa perder-se na ortodoxia, no dogmatismo, nas discussões sobre as verdades a respeito de Deus e de Jesus, sem verificá-las na realidade. A caridade é a verificação da fé. Viver na caridade é ter uma orientação de vida para o outro, para o irmão e, em última instância, para Deus. Só há caridade no sentido teologal onde há liberdade. Atos bons que são reflexos instintivos de bondade ou fruto unicamente de condicionamentos sociais ainda não pertencem ao mundo da caridade. No momento em que a pessoa os assume em sua liberdade e consciência, eles se revelam salvíficos.
Amor é sempre relação pessoal. Toda relação pessoal passa pela liberdade e consciência. O trabalho da vida em caridade é tornar reflexo, livre o que em nós existe de bom, adquirido por muitas vias. E combater o que pelas mesmas vias se implantou de ruim em nós.
A caridade é constituída de atos que nos arrancam do egoísmo, da orientação exclusiva para nós à custa dos outros. A linha resultante desses atos, que descreve nossa trajetória central, caracteriza a orientação fundamental. Alguns a chamam de opção fundamental.
Toda reflexão sobre a verdadeira natureza do amor que salva se faz na fé. Ela nos diz que a caridade que salva é o amor que redimensiona toda nossa vida. Essa caridade iluminada pela fé recebe na tradição inaciana do discernimento o nome de charitas discreta, uma “caridade discernida” à luz da fé.
Enquanto conhecimento, a fé não salva, pois o conhecimento não salva. Não somos gnósticos. O conhecimento responsabiliza a ação para o bem e para o mal. Nesse sentido, a tradição espiritual valorizou sempre o exercício da fé iluminadora das ações por meio do exame de consciência, da oração para que com maior claridade e liberdade pudéssemos viver melhor a caridade.
Tanto mais importante é esse papel de iluminação da fé quanto mais sabemos que vivemos muitas vezes num nível puramente de reflexos pavlovianos ou skinnerianos. Os atos mecânicos não são humanos no sentido pleno, embora feitos por seres humanos. A fé penetra tais atos para que eles subam ao nível humano da consciência e da liberdade e ao nível da graça. E porque tais ações são feitas no nível da liberdade, da consciência e pela graça, elas salvam. A caridade salva a fé.”


“A fé no Pai, no Filho e no Espírito Santo, isto é, na Trindade, vem ao encontro dessas indagações. Na experiência do Mistério há sim a diversidade (o Pai, o Filho e o Espírito Santo) e ao mesmo tempo a união dessa diversidade, mediante a comunhão dos Diversos pela qual Eles estão uns nos outros, com os outros, pelos outros e para os outros. A Trindade não é excogitada para responder à problemática humana. Ela é revelação de Deus assim como é, como Pai, Filho e Espírito Santo em eterna correlação, interpenetração, amor e comunhão, com o que são um só Deus. Porque ‘Deus é trino’ significa a união da diversidade.
Se Deus fosse um só, haveria a solidão e a concentração na unidade e na unicidade. Se Deus fosse dois, uma díade (Pai e Filho somente), haveria a separação (um é distinto do outro) e a exclusão (um não é o outro). Mas Deus é três, uma Trindade. O três evita a solidão, supera a separação e ultrapassa a exclusão. A Trindade permite a identidade (o Pai), a diferença da identidade (o Filho) e a diferença da diferença (o Espírito Santo). A Trindade impede um frente-a-frente do Pai e do Filho, numa contemplação ‘narcisista’. A terceira figura é o diferente, o aberto, a comunhão. A Trindade é inclusiva pois une o que separava e excluía (Pai e Filho). O uno e o múltiplo, a unidade e a diversidade se encontram na Trindade como que circunscritos e reunidos. O três aqui significa menos o número matemático do que a afirmação de que sob o nome de Deus se verificam diferenças que não se excluem, mas incluem, que não se opõem, mas se põem em comunhão; a distinção é para a união. Por ser uma realidade aberta, este Deus trino inclui também outras diferenças; assim o universo criado entra na comunhão divina.” (Leonardo Boff)


“Vale aqui a frase que Leonardo Boff repete em seus escritos cristológicos, ao falar de Jesus: “Tão humano assim, só pode ser Deus mesmo”. Em Jesus se manifesta o excesso do humano, em cada ser humano se revela algo de Jesus. Jesus realizou todas as possibilidades da humanidade, enquanto nós realizamos algumas das possibilidades realizadas por Cristo. Portanto, essa relação Jesus Cristo e a realidade humana se dá tanto no nível do conhecimento como no da realização ontológica.”


“A face nova da secularização não se manifestou no desaparecimento do sentimento religioso, mas antes num reforço. O impacto negativo deu-se em relação ao lado institucional da religião. Em outras palavras, modificou-se a função social da religião. Em vez de ser normativa da vida social, é resposta a problemas, necessidades, anseios pessoais. Privatizou-se.”


“O ensinamento oficial da Igreja, no concílio Vaticano II, de modo especial na constituição pastoral Gaudium et spes, em vários sínodos, particularmente de 1971 e 1974, em sua Doutrina Social e ainda nas Assembleias do Episcopado Latino-americano desde Medellín (1968), Puebla (1979), Santo Domingo (1992) e Aparecida (2007) vem assumindo uma posição crítica no campo social, em nome da fé. A Igreja denuncia as situações de injustiça e julga que sua missão implica a defesa e promoção da dignidade e dos direitos fundamentais da pessoa humana. É ministério seu promover os Direitos Humanos. Essa maneira genérica de falar, ao ser concretizada, necessariamente acarreta consequências políticas. Pois a violação dos Direitos Humanos está intimamente ligada aos modelos econômicos e políticos, propostos pelos Estados. A Igreja não compreende hoje sua missão a não ser em relação a esse novo tipo de ação. Envolve atitudes políticas, que podem, a seu contragosto, ser usadas até por movimentos que se opõem a muitos de seus ideais. Isso não impede que ela assuma essas atitudes. Não é porque outros possam abusar de uma constatação justa, que esta não deve ser feita. A culpa não está no contestatário, mas naquele que gerou a situação de injustiça que se contesta. É ele que propicia a existência de movimentos que poderão aproveitar da presença e ação da Igreja. Nisso não se podem ter ilusões.
Papel incontornável da Igreja
Se a Igreja se subtraísse à tarefa da defesa dos direitos humanos, da liberdade, da libertação do homem oprimido, ela omitiria seu papel fundamental hoje na América Latina. Se aceitasse a tese da ideologia liberal de que seu lugar é refugiar-se no mundo da interioridade, da “sacristia”, ela manteria somente a casca de gestos e palavras cristãs. Pois só há verdadeiro cristianismo e verdadeira Igreja onde há liberdade, justiça, caridade.”


“Por sua pregação da mensagem evangélica, por seus sacramentos, pela caridade de seus membros, a Igreja anuncia e acolhe o dom do reino de Deus no coração da história humana. ‘A comunidade cristã professa uma fé que opera pela caridade.’ Ela é e deve ser caridade eficaz, ação, compromisso a serviço dos homens. A teologia é reflexão, atitude crítica. Primeiro é o compromisso de caridade, de serviço. A teologia vem depois, é ato segundo. Pode dizer-se da teologia o que da filosofia afirmava Hegel: só se levanta ao crepúsculo.” (Gustavo Gutiérrez)

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