sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Watchmen – Alan Moore e Dave Gibbons

Editora: Panini
ISBN: 978-85-7351-549-7
Tradução e adaptação: Jotapê Martins, Helcio de Carvalho, Fábio Fernandes
Opinião★★★★☆
Páginas: 460

“Esta manhã, no beco, havia um cão morto com marcas de pneu no ventre rasgado. A cidade tem medo de mim. Eu vi o rosto dela.
As ruas são sarjetas dilatadas e essas sarjetas estão cheias de sangue. Quando os bueiros finalmente transbordarem, todos os ratos irão se afogar.
A imundice acumulada de todo o sexo e matanças que praticaram vai espumar até suas cinturas e todos os políticos e rameiras olharão para cima, gritando “salve-nos”... e, do alto, eu vou sussurrar: “não”.
Eles tiveram escolha. Todos eles. Podiam ter seguido os passos de homens honrados, como meu pai (...). Homens decentes, que acreditavam no suor do trabalho honesto.
Em vez disso, seguiram os excrementos de devassos sem perceber, até ser tarde demais, que a trilha levava a um precipício.
Não me digam que eles não tiveram opção.
Agora o mundo todo está na beira do abismo, contemplando os liberais, intelectuais e sedutores de fala macia, que ardem no inferno... e, de repente, ninguém mais sabe o que dizer.”


“Sexta à noite, morreu um comediante na cidade.
Foi arremessado da janela e, quando atingiu a calçada, sua cabeça entrou no abdômen.
Ninguém liga.
Ninguém além de mim.
Será que é isso? Tudo inútil? Logo vai haver guerra. Milhões vão queimar. Milhões vão morrer na miséria e na doença. Por que uma morte pesa mais do que outras?
Porque existe o bem e existe o mal. O mal deve ser punido. Mesmo no Dia do Juízo Final isso não vai mudar.
Mas tem muitos merecendo pagar... e tão pouco tempo.”


“Moe Vernon era um homem com seus cinquenta e cinco anos e tinha um daqueles antigos rostos nova-iorquinos que não se veem mais. É engraçado, mas certos rostos parecem entrar e sair de moda. Quando olhamos fotos antigas, todo mundo tem uma determinada aparência, quase como se fossem parentes. Veja foto de dez anos mais tarde e você vai notar que há um novo tipo de rosto começando a predominar, e os antigos estão desaparecendo para nunca mais serem vistos.”


“Uma das coisas que meu avô sempre se esmerou em transmitir era que as pessoas do campo tinham mais saúde moral do que o povo da cidade grande e que as cidades não passavam de fossas sépticas para onde toda a desonestidade, ganância, luxúria e ateísmo do mundo escorriam e ficavam para apodrecer sem restrição. Obviamente, à medida em que fui envelhecendo e me dando conta exatamente de quanto alcoolismo, violência doméstica e abuso infantil se escondiam por trás da fachada tranquila de algumas fazendas isoladas de Montana, compreendi que os elogios de meu avô haviam sido um tanto quanto unilaterais. Não obstante, alguma das coisas que vi durante meus primeiros anos na cidade me causaram uma espécie de repulsa moral da qual não pude me desvencilhar. Sob certos aspectos, ainda não posso.
Os gigolôs, os pornógrafos, os criminosos que cobram proteção. Os senhorios que atiçam cães sobre inquilinos idosos quando os querem fora do caminho para negociar contratos mais lucrativos. Os homens que acariciam crianças pequenas e os jovens e insensíveis estupradores que mal têm idade para se barbear. Eu via todas essas pessoas ao meu redor e me sentia enojado do mundo e daquilo em que ele havia se transformado.
Quando o hiato entre a realidade e o mundo que meu avô me apresentou como justo e bom ficava grande e depressivo demais para suportar, eu me recolhia a minha grande paixão: as ficções e aventuras das revistas pulp. Embora meu avô, Hollis Mason Sênior, só pudesse expressar críticas e aversão a todas aquelas publicações extravagantes e violentas, havia uma espécie de moralidade prevalente nelas que, na certa, ele teria aprovado. O mundo de Doc Savage e do Sombra era caracterizado por valores absolutos, onde o que era bom jamais suscitava a menor das dúvidas e onde o que era mal inevitavelmente sofria algum castigo apropriado. A noção de bem e justiça advogada por Lamont Cranston, com seu chapéu inclinado e automáticas reluzentes, parecia muito distante da nutrida pelo austero e taciturno ancião que, nas minhas lembranças, estava sempre sozinho noite adentro em Montana acompanhado apenas de sua bíblia. Entretanto, não posso evitar a sensação de que se alguma vez se encontrassem, os dois certamente teriam sobre o que conversar. Da minha parte, todos aqueles detetives e heróis brilhantes e capacitados ofereciam o vislumbre de um mundo perfeito onde a moralidade funcionava do jeito que devia. Ninguém no mundo de Doc Savage jamais se suicidou a não ser os enlouquecidos assassinos kamikazes ou os espiões inimigos munidos de cápsulas de cianureto. Em que mundo você preferiria viver se pudesse escolher?”


“A idade dá uma perspectiva diferente. O que é grande parece menor.”


“Laurie, eu tenho 65 anos, a cada dia que passa o futuro parece mais sombrio, mas o passado, mesmo as piores partes... bom, ele vai ficando cada vez mais e mais brilhante.”


“– Você fala com amargura. Exibe uma postura estranha diante da vida e da guerra.
– Estranha? Olha aqui, quando cê sacar que tudo é uma piada, a única coisa que vai fazer sentido é o comediante.
– As vilas carbonizadas, as crianças usando colares de orelhas humanas... isso faz parte da piada?
– Ei! Quem disse que a piada é boa? Eu só danço conforme a música...”


“No cemitério, cruzes brancas se enfileiram como marcas de giz numa lousa gigante. Faço a última visita com tranquilidade.
Edward Morgan Blake. Nascido em 1924. Comediante por 45 anos. Falecido em 1985, enterrado na chuva.
É o que acontece conosco? Uma vida de conflito sem tempo pra amigos, pra no fim, só nossos inimigos deixarem rosas.
Vidas violentas terminando violentamente. Dollar Bill, Silhouette, Capitão Metrópole... Nós nunca morremos na cama. Não é permitido.
Algo na nossa personalidade, talvez? Algum impulso animal, para lutar e se debater, fazendo de nós o que somos? Não importa. Nós fazemos o que deve ser feito.
Outros enterram a cabeça entre as tetas inchadas da indulgência e da gratificação, leitões se contorcendo por abrigo debaixo de uma porca... mas não há abrigo...
E o futuro aparece correndo como um trem expresso.
Blake entendia. Tratava tudo como piada, mas entendia. Ele viu as rachaduras na sociedade, viu os homenzinhos mascarados tentando manter as coisas juntas... Ele viu a verdadeira face do século 20 e decidiu se tornar um reflexo, uma paródia desses tempos. Ninguém mais sacou a piada. Daí sua solidão.
Me contaram uma piada: Um homem vai ao médico. Diz que está deprimido. Que a vida parece dura e cruel. Conta que se sente só num mundo ameaçador, onde o que se anuncia é vago e incerto.
O médico diz: “O tratamento é simples. O grande palhaço Pagliacci está na cidade esta noite. Vá ao show. Isso deve animar você”.
O homem se desfaz em lágrimas. E diz “Mas doutor... Eu sou o Pagliacci”.”


“Eu leio tudo quanto é primeira página. Bebo informação. Não perco nadinha.”


“Crianças passam fome enquanto botas custando milhares de dólares deixam sua marca sobre a superfície da lua. Nós nos esforçamos tanto para erguer um paraíso, apenas para descobrir que ele se povoaria de horrores.”


“– Essa guerra é coisa séria, faz a gente pensar numa rota de fuga, sabe? O meu pai, quando a barra pesou na Alemanha dos anos trinta, ele se mandou.
– Na segunda guerra, tudo bem. Na terceira, vai se mandar pra onde?”


“Fiquei na rua assistindo (o assassino da criança) queimar. Imaginei torsos de feltro sem membros lá dentro; mamas se escurecendo; ventre fumegando; ardendo em chamas um à um. Assisti por uma hora. Ninguém saiu. Fiquei à luz das chamas, encharcado de suor. O sangue no peito como mapa de um novo e violento continente. Me senti limpo. Senti o planeta sombrio rodopiando e me dei conta do que faz os gatos gritarem, à noite, feito bebês. Olhei pro céu além da fumaça cheia de gordura humana e Deus não estava lá. A escuridão fria e sufocante prossegue eternamente e a gente está sozinho. Levamos a vida sem nada melhor pra fazer. A razão, inventamos depois. Nascemos do nada, temos filhos condenados ao inferno como nós, voltamos ao nada. Só existe isso. A existência é aleatória. Sem padrão, a não ser o que imaginamos depois de ficar olhando por muito tempo. Sem sentido, a não ser o que decidimos dar. Não são forças metafísicas vagas que moldam este mundo. Não é Deus quem mata as crianças. Não é o destino que as trucida ou a sina que as dá de comer aos cães. Somos nós. Só nós. As ruas fediam a fogo. O vazio soprou áspero no meu peito, gelando e esmigalhando minhas ilusões. Renasci, então. Livre pra traçar meu próprio destino neste mundo amoral. Como Rorschach. Isso responde suas perguntas, doutor?”


“– Minha percepção do tempo a incomoda?
– Pra que a pergunta? Você já sabe a resposta. É tão absurdo. Quando te larguei… e a new express fez as denúncias, você ficou surpreso. Por que… se já sabia o que ia acontecer?
– Tudo é predeterminado. Até minhas reações.
– E você só segue a partitura, executando as notas? É isso que você é? O ser mais poderoso do universo e não passa de uma marionete seguindo um script?
– Nós todos somos marionetes, Laurie. A diferença é que eu enxergo minhas cordas.”


P.S.: Watchmen é um romance gráfico.

2 comentários:

Doney Stinguel disse...

Fora do contexto não são tão apetecíveis, mas no meio do livro (ou do filme, conforme o caso), as frases de Rorschach e Dr. Manhattan são percucientes:
“Devolva meu rosto!”
*
“Ninguém entendeu. Eu não estou preso aqui com vocês. Vocês é que estão presos comigo.”
*
“Foi Kovács quem disse “Jesus”, sob o látex. Foi Kovacs quem fechou os olhos. Foi Rorschach quem abriu depois.”
*
“Eu não posso impedir o futuro. Para mim, ele já está acontecendo.”

Sugestão de Livros disse...

Legal, lembra bastante o filme.