segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Guerra sem fim – Joe Haldeman

Editora: Landscape
ISBN: 978-85-775-081-8
Opinião★★★☆☆
Páginas: 304


“As criaturas eram tão altas quanto os humanos, mas mais largas na cintura. Eram recobertas por uma pele de cor verde-escura, quase preta... viam-se ondulações brancas onde o laser a chamuscara. Pareciam ter três pernas e um braço. O único ornamento em suas cabeças peludas era uma boca, um orifício preto e úmido preenchido com dentes negros e lisos. Eram realmente repulsivas, mas sua pior característica não era algo que as diferia dos seres humanos, mas uma similaridade...”


“Nos poucos momentos em que fiquei acordado após, finalmente, me deitar, o pensamento de que a próxima vez que eu fechasse os olhos pudesse ser a última veio à minha mente. E, em parte por conta da ressaca da droga, mas sobretudo por causa dos horrores do dia anterior, eu me dei conta de que não estava nem aí.”


“Mal o ouvi, tentando entender o que estava acontecendo com meu crânio. Eu sabia que era apenas sugestão pós-hipnótica. Até lembrei-me da sessão em Missouri, quando eles a implementaram, mas isto não a tornava menos avassaladora. Minha mente girava sob pesadas pseudomemórias: os alienígenas taurianos corpulentos e peludos (nada a ver com os que agora conhecíamos) entrando em uma embarcação de colonizadores, devorando bebês enquanto as mães gritavam horrorizadas (os colonizadores nunca viajaram com bebês; não aguentariam a aceleração), estuprando as mulheres até a morte com enormes membros roxos e cheios de veias (ridículo pensar que sentiriam desejo por humanos), segurando os homens enquanto lhes arrancavam a carne dos corpos vivos e devoravam logo em seguida (como se pudessem assimilar proteína alienígena)... Uma centena de pavorosos detalhes tão perfeitamente relembrada como se fossem acontecimentos ocorridos minutos atrás, ridiculamente exagerados e logicamente absurdos. Mas enquanto minha mente consciente rejeitava aquela bobagem, em algum lugar mais profundo, no fundo daquele animal adormecido onde guardamos nossos reais motivos e moralidades, algo estava sedento por sangue alienígena, convicto de que a coisa mais enobrecedora que um homem poderia fazer seria dar a vida para matar aqueles terríveis monstros...
Eu sabia que tudo aquilo era a mais pura mentira e odiava os homens que haviam feito tais obscenidades com a minha mente, mas podia até ouvir meus dentes rangendo, sentir minhas bochechas congeladas em um sorriso espasmódico, desejo de sangue... Um ursinho andou na minha frente, parecia confuso. Comecei a erguer meu laser de dedo, mas alguém foi mais rápido, e a cabeça da criatura explodiu em uma nuvem de fragmentos acinzentados e sangue.”


“– A vida – disse Marygay lamuriosa –, a vida é...
– A vida é um monte de células que andam por aí com um propósito em comum. Se este propósito em comum for me ferrar...”


“Estávamos saboreando um almoço leve (...) quando um mensageiro chegou alvoroçado e entregou-nos dois envelopes: nossas ordens.
(Nomearam-me) comandante e ela subcomandante, mas as companhias não eram as mesmas. Ela faria parte de uma nova companhia que seria formada aqui mesmo em Paraíso. Eu voltaria para o Portal Estelar para “doutrinação e educação” antes de assumir o comando.
Por um longo período, ficamos mudos. (...)
Ela continuava entorpecida. Aquilo não era apenas uma separação. Mesmo que a guerra terminasse e voltássemos para a Terra com apenas alguns minutos de diferença, em naves diferentes, a geometria dos saltos colapsares acumularia anos entre nós. Quando o outro chegasse à Terra, seu parceiro seria, provavelmente, meio século mais velho; e, mais provavelmente, estaria morto.
Ficamos ali sentados por algum tempo, sem tocar na deliciosa comida, ignorando a beleza à nossa volta, conscientes somente um do outro e das folhas de papel que nos separavam com um abismo tão imenso e real quanto a morte.
(...) Tínhamos um dia e uma noite juntos. Quanto menos disséssemos, melhor. Não se tratava apenas de perder um amante. Marygay e eu éramos, um para o outro, a única ligação com o mundo real, a terra dos anos 80 e 90. Não o mundo grotesco e perverso que estávamos supostamente lutando para preservar. Quando a nave dela foi lançada, foi como se um caixão tivesse sido lançado no interior de uma cova.
Requisitei um computador e descobri os elementos orbitais de sua nave e a hora da partida. Descobri que poderia vê-la partir do “nosso” deserto.
Pousei no cume do monte onde havíamos jejuado juntos e, algumas horas antes de o sol nascer, vi uma nova estrela surgir a oeste no horizonte, observei o brilho intensificar-se e diminuir à medida que se afastava, tornando-se apenas mais uma estrela, depois uma estrela quase apagada, e então nada. Caminhei até a beirada e olhei para a base da face rochosa e escarpada, as ondulações das dunas obscuras e congeladas estendiam-se por meio quilômetro. Sentei-me com os pés balançando na beirada, pensando em nada, até os raios oblíquos do sol iluminarem as dunas em um suave e tentador “claro-escuro” de baixo relevo. Duas vezes joguei meu peso para frente, ameaçando pular. Não o fiz não por medo da dor ou da perda: a dor seria breve e a perda seria do exército, e seria a vitória final deles sobre mim... tendo comandado minha vida por tanto tempo, forçaram-na a um fim.
Aquilo eu devia ao inimigo.”

Um comentário:

Doney disse...

Abro alas para a orelha da obra:

“O livro de Joe Haldeman expõe a loucura da Guerra do Vietnã ao acompanhar a vida de um soldado que luta por milhares de anos em um conflito sem sentido. Joe Haldeman é ele próprio um veterano do Vietnã, sendo condecorado com uma medalha por ferimentos em combate. (...)
Para viajar até o front, os soldados precisam atravessar portais chamados colapsares, que causam uma dilatação no tempo.
A dilatação de tempo é uma óbvia metáfora ao sentimento de isolamento que os veteranos do Vietnã sentiam quando retornavam para casa. Após viverem por tanto horror, eles enfrentavam dificuldade em se adaptar àquele país que passava por mudanças arte e música, movimentos hippies, revoluções sexuais e etc. O artifício é bem construído ao longo do livro, e o leitor vê como cada vez mais Mandella se distancia da realidade, se sentindo apenas em casa na guerra ou na presença de veteranos.”

Creio que sem ler o livro, só com esta contextualização poderiam ficar claras as metáforas da obra descritas nesta postagem. Por exemplo, no primeiro parágrafo o autor se refere às diferenças e semelhanças entre os vietnamitas e norte-americanos, ou, no terceiro, expondo que normalmente, não se acredita racionalmente nos motivos apresentados pelos "donos do poder" para a guerra, porém, devido à lavagem cerebral exercida (quiçá pela imprensa, por governos, escolas, lobbys empresariais, financeiros, etc.), as pessoas podem a vir a desejar a guerra, mesmo reconhecendo-a como um ato abominável.