quinta-feira, 7 de abril de 2011

Aléxandros: Os confins do mundo – Valerio Massimo Manfredi

Editora: Rocco
ISBN: 978-85-3251-058-7
Opinião★★★☆☆
Páginas: 416

“Uma mulher com filhos talvez não possa ser uma verdadeira amante: o seu coração nunca deixa de pensar em outros afetos.”


“Alexandre acariciou-lhe novamente a mão com delicadeza:
– És bonita, Estatira, e muito amável. O teu pai, Dario III, devia ter muito orgulho de ti.
Os olhos dela ficaram úmidos.
– Tinha sim, pobre do meu pai. Hoje mesmo ia completar cinquenta anos. Mas obrigada, de qualquer maneira, pelas tuas boas palavras.
– São sinceras – replicou Alexandre.
Estatira baixou a cabeça.
– É estranho ouvi-las do jovem que recusou a minha mão.
– Eu não te conhecia.
– Iria mudar alguma coisa?
– Talvez. Um olhar pode mudar o destino de um homem.
– Ou de uma mulher – respondeu fitando-o intensamente com os olhos lustrosos de lágrimas. – Por que vieste? Por que deixaste o teu país? Não é bonito o teu país? (...)
– É difícil responder. (...) Sempre tive o sonho de ir além do horizonte que podia alcançar com o olhar, de chegar aos extremos confins do mundo, às ondas do Oceano...
– E aí? O que farás depois de conquistar o mundo inteiro? Achas que realmente serás feliz? Que terás conseguido aquilo que de verdade desejas? Ou quem sabe poderás ser tomado por uma ansiedade ainda mais forte e profunda, desta vez invencível?
– Talvez, mas nunca poderei saber sem, antes, alcançar os limites que os deuses concedem ao ser humano.”


“– Sua irmã Cleópatra sempre te quis bem, sempre quis ser o teu escudo contra a cólera do teu pai. Não sentes a falta dela?
– Sinto demais, respondeu Alexandre – assim como sinto falta daquele tempo. Mas não me é concedido entregar-me às lembranças: a tarefa que escolhi para mim volta implacavelmente à tona, como um imperativo ao qual tudo devo sacrificar e do qual não posso fugir.
– Do qual não queres fugir – replicou Eumênio.
– Achas que poderia, mesmo se quisesse? Às vezes os deuses colocam no coração dos homens sonhos, aspirações e desejos maiores do que eles. A grandeza de um homem corresponde à dolorosa defasagem entre a meta que ele quer alcançar e as forças que a natureza lhe deu quando o botou no mundo.”


“Alexandre tinha os olhos brilhantes de comoção quando abraçou Roxana e sentiu o contato da sua pele nua, quando procurou os seus lábios inexperientes, quando beijou-lhe o seio, o ventre, as coxas. Amou-a com uma intensidade quase dolorosa, numa entrega total que nunca experimentara antes, e quando os seus corpos se enrijeceram no espasmo supremo, sentiu que vertia nela a vida, o segredo daquela energia selvagem que desbaratara cidades e exércitos, que suportara os mais pavorosos ferimentos, que pisoteara os mais sagrados sentimentos e que matara a piedade e a compaixão. E quando deixou-se cair ao seu lado para entregar-se ao sono, sonhou caminhar ao longo de uma íngreme estrada, sob um céu negro, até às margens de um oceano imóvel, plano e frio como uma chapa de ferro polido. Mas não ficou com medo pois o calor de Roxana envolvia-o como uma roupa macia, como a felicidade misteriosa de uma lembrança infantil.”


“– Nunca se pode ter certeza de coisa alguma no mar.”


“Não há conquista que faça sentido, não há guerra que valha a pena de ser combatida. No fim, a única terra que nos sobra é aquela em que seremos sepultados.”


“– Muitos dos meus soldados – replicou Alexandre – já vivem com garotas persas ou medas, e também têm filhos. É justo que se casem com elas, e para alguns outros eu mesmo estou escolhendo noivas persas. Calculei que no fim das contas os casamento serão mais ou menos dez mil.
A idosa rainha arregalou os olhos entre a maranha de rugas.
– Dez mil, pai? Oh, grande Ahura Mazda, isto é algo que nunca se viu no mundo! – Sorriu com uma expressão de inocente malícia. – Mas, afinal acho que estejas certo: a cama é o lugar certo para lançar as bases de uma paz duradoura.”


        “Naquele momento pensou na mãe, pensou na sua espera amarga e inútil. Teve a impressão de vê-la, numa torre do palácio. Enquanto gritava chorando e chamava com desespero: “Alexandre, não vás, volta para mim, eu te peço!”. E, por um instante, aquele grito pareceu realmente chamá-lo de volta, mas só foi um momento. Aquele grito, aquelas palavras e aquele rosto desapareceriam agora ao longe, perdiam-se no vento.... Diante de si podia ver agora uma planície sem fim, uma pradaria coberta de flores, e ouvia um cão que latia, mas não era o ladrar sombrio de Cérbero: era Péritas! Vinha correndo louco de felicidade como no dia em que voltara do desterro, e logo a seguir, no infinito daquelas terras, trovejava um galope, ressoava um relincho. Era ele, lá estava Bucéfalo que vinha ao seu encontro com a crina ao vento, e o deixava subir na garupa, como naquele dia em Mésia, e ele gritava: “Em frente, Bucéfalo!”. E como um fogoso Pégaso o corcel lançava-se à disparada rumo ao derradeiro horizonte, rumo à luz infinita.”

Nenhum comentário: