A conversão de São Paulo

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sábado, 26 de fevereiro de 2011

Aléxandros: As areias de Amon – Valerio Massimo Manfredi

Editora: Rocco
ISBN: 85-325-1037-X
Opinião: ***
Páginas: 352

     “À esquerda, com seus santuários e monumentos, havia a acrópole; naquele mesmo instante a fumaça de algum sacrifício subia do altar para o céu claro, pedindo aos deuses a graça de derrotar o inimigo.
     – Os nossos sacerdotes também ofereceram um sacrifício – observou Cratero. – Fico imaginando em quem os deuses acreditarão mais.
     Alexandre virou-se para ele.
     – No mais forte.”


     “– Será possível que nem as mães chorem os filhos tombados em combate? – Alexandre perguntou a Eumênio, que se aproximara.
     – Claro que sim – replicou o secretário. – Ninguém chora por um mercenário. Não tem mãe nem pai, e nem mesmo amigos. Só tem a sua lança com a qual ganha o pão mais duro e mais amargo.”


     “(...) – E a coisa não te amedronta? – perguntou Eumênio a Alexandre.
     – Nunca receio algo que ainda não aconteceu.”


     “– Parece-me impossível – disse Alexandre. – Sempre foi-me fiel: já o vi arriscar muitas vezes a sua vida por mim.
     Parmênio sacudiu a cabeça.
     – O poder corrompe muitos homens – observou. Mas dentro de si pensava “todos”.”


      “Esperaram o alvorecer para subir e ficar com o corpo para os ritos fúnebres.
     – Colocá-lo-emos sobre a pira conforme os nossos costumes – disse o mais velho entre eles, o que nascera em Tegéia. – Abandonar o corpo como comida para cães e pássaros é para nós uma vergonha insuportável: isto faz-te entender quão diferentes nós gregos somos de vocês, persas. – E Barsine entendeu. Entendeu que naquela hora suprema devia ficar de lado e deixar que Mêmnon voltasse às origens e recebesse as honras funerárias segundo as tradições do seu povo.
     Ergueram uma pira no meio de uma planície embranquecida pela geada e colocaram nela o corpo de seu comandante vestido com sua armadura e o elmo enfeitado com a rosa prateada de Rodes.
     E atearam o fogo.
     O vento que varria o planalto atiçou as chamas que se levantaram vorazes destruindo rapidamente os restos mortais do grande guerreiro. Os seus soldados, perfilados e empunhando as lanças, gritaram dez vezes o seu nome ao céu frio e cinzento que pesava sobre aquela imensidão deserta como uma mortalha, e quando o último eco daquele brado se calou, perceberam que haviam ficado completamente sós no mundo, que já não tinham mãe nem pai, nem irmão nem família, que não tinham casa nem um lugar para onde voltar.
     – Jurei que iria com ele para qualquer lugar – disse então o mais velho entre eles –, até para o reino de Hades. – Ajoelhou-se, desembainhou a espada apontando-a contra o próprio coração e jogou-se em cima dela.
     – Eu também – repetiu o companheiro sacando por sua vez a arma.
     – E nós também – disseram os outros dois. Tombaram um depois do outro esvaindo-se em seu próprio sangue, enquanto o primeiro canto do galo rompia o silêncio espectral da alvorada como um toque de clarim.”


      “O templo era um santuário indígena extremamente antigo que abrigava um simulacro da deusa esculpido em madeira e carcomido pelos carunchos, enfeitado com uma incrível quantidade de jóias e talismãs oferecidos pela multissecular fé dos crentes. Nas paredes viam-se penduradas relíquias e oferendas de toda espécie e muitas representações de membros humanos em terracota e madeira que testemunhavam curas ou súplicas para obtê-las.
     Havia mãos e pés com os sinais da sarna pintados com cores vivas, olhos, narizes e orelhas, úteros certamente estéreis que invocavam a fertilidade e membros masculinos que, da mesma forma, não eram capazes de desempenhar as suas funções.
     Cada um desses objetos era o sinal das numerosas aflições, dores e misérias que desde o começo dos tempos atormentavam o gênero humano, desde que o insensato Epimeteu abriu a caixa de Pandora e deixara sair todos os males que invadem o mundo.
     – Só deixando no fundo a esperança – lembrou Eumênio, olhando em volta. – E o que mais são todos estes objetos senão a manifestação de uma esperança quase sempre frustrada e mesmo assim companheira preciosa, para não dizer indispensável, dos homens?”


      “Alexandre mostrou a Calístenes a mensagem que uma embaixada do Grande Rei acabava de trazer:

     Dario, Rei dos Reis, senhor dos quatro cantos da terra, luz dos arianos, a Alexandre, rei dos macedônios, salve!
     Teu pai Filipe foi o primeiro a ofender os persas na época do rei Arxes, embora não tivesse sofrido prejuízo algum da parte deles. Quando me tornei rei, tu não enviaste embaixada alguma para confirmar a antiga amizade e aliança, e invadiste a Ásia causando-nos graves danos. Tive, portanto, de enfrentar-te em batalha para defender o meu país e reconquistar os meus antigos domínios. O resultado do embate foi aquele que os deuses escolheram, mas dirijo-me a ti de soberano a soberano para que libertes os meus filhos, a minha mãe e a minha esposa. Estou pronto a estipular um tratado de amizade e aliança: peço-te, portanto, que envies de volta um mensageiro junto com a minha embaixada para que possamos determinar os termos das negociações.

     Calístenes fechou a carta.
     – Na prática, diz que és culpado de tudo, reivindica o seu direito de defender-se, mas reconhece a derrota e esta disposto a tornar-te teu amigo e aliado desde que lhe devolvas a família. O que tencionas fazer?
     Nesse mesmo momento Eumênio voltou com a cópia da resposta que havia preparado para o rei e Alexandre pediu que a lesse. O secretário pigarreou e começou:

     Alexandre, rei dos macedônios, a Dario, rei dos persas, salve!
     Os teus antepassados invadiram a Macedônia e o resto da Grécia causando-nos graves prejuízos sem motivo algum. Eu fui nomeado comandante supremo dos gregos e invadi a Ásia para vingar a vossa agressão. Fostes vós, os persas, que assististes Perinto contra o meu pai e invadistes a Trácia, que é um nosso território.

     Alexandre deteve-o.
     – Acrescenta o que vou ditar-te agora:

     O meu pai, o rei Filipe foi vítima de uma conspiração que tu apoiaste e umas cartas escritas por ti provam isto.
     Além do mais conquistaste o trono com a fraude, corrompeste os gregos para que se levantassem contra mim e tudo fizeste para destruir a paz por mim tão penosamente conseguida. Venci os teus generais e, com a ajuda dos deuses, triunfei sobre ti em campo aberto e sou, portanto, responsável por aqueles entre os teus soldados que passaram para o meu lado, assim como pelas pessoas que estão perto de mim. És tu, então, que deves me tratar como senhor da Ásia. Pede o que consideras oportuno, vindo em pessoa ou mandando os teus enviados. Pede pela tua mulher, por tua mãe e teus filhos, e eu outorgarei desde que consigas me convencer. No futuro, se quiseres te endereçar a mim, dirige-te ao Rei da Ásia e não a um teu igual, e terás de fazer o teu pedido a quem esta agora de posse de tudo aquilo que antes era teu. Se assim não fizeres, tomarei contra ti as providências cabíveis contra quem violou as leis e as normas das nações. Se, no entanto, reivindicares a tua condição de soberano, então desce em campo, luta para defendê-la e não fujas, pois eu irei ao teu encalço em qualquer lugar aonde fores.

     – Não lhe deixas muitas escolhas – comentou Calístenes.
     – Não, de fato – replicou Alexandre –, e se for homem e rei deverá reagir.”


     “– É o destino de toda mulher bela e desejável: ela sabe que é uma presa e sabe que só oferecendo o amor ou sujeitando-se ao ímpeto do macho pode esperar salvação e amparo para si e para as suas criaturas.”

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