segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Relatório da CIA – Che Guevara: documentos inéditos dos arquivos secretos – Organização, introdução e notas: Mauricio Dias e Mario J. Ceregino

Editora: Ediouro
ISBN: 978-85-0002-229-6
Opinião★★★☆☆
Páginas: 152
     “Naquele março de 1967, aos olhos do embaixador (estadunidense na Bolívia), a “ameaça guerrilheira” pareceu um pretexto, alegado apressadamente pelos militares da Bolívia para engordar o caixa. Era muito ruim a imagem dos bolivianos junto às autoridades norte-americanas em La Paz e Washington. Como sempre.”


     “Em 27 de março, às 16h, encontrei o presidente em sua residência (eu estava acompanhado por um funcionário da nossa Embaixada). Por cerca de uma hora, Barrientos nos atualizou sobre os últimos relatórios (e os boatos) relacionados às atividades dos rebeldes. [...] Desconfio de que o presidente esteja muito angustiado pelo triste espetáculo dado pelas Forças Armadas de seu país. Logo depois que os serviços secretos comunicaram uma suposta e impetuosa ofensiva da guerrilha, deu-se um desastre de dimensões controladas. O ocorrido, no entanto, acabou por deixar em pânico o governo boliviano, que reagiu de maneira nervosa e mal coordenada [...].”
(Telegrama do embaixador Henderson ao departamento de Estado, confidencial, 28 de março de 1967, 22h45, National Arquives and Records Administration – NARA).


     “[...] Confirmei ao embaixador argentino a veracidade das notícias que a imprensa divulgou: os Estados Unidos estão treinando e equipando um batalhão (boliviano) de rangers em Santa cruz, no âmbito do Programa de Assistência Militar. A duração prevista é de um ano, mas o treinamento poderia ser acelerado devido à ameaça que a guerrilha representa. [...].”
(Telegrama do embaixador Henderson ao departamento de Estado, confidencial, 18 de abril de 1967, 20h30, NARA).


     “De surpresa, o presidente Barrientos anunciou à imprensa que está de posse das provas de que Che Guevara passou pela Bolívia. Ofereceu também uma recompensa de 50 mil pesos por sua captura (preferencialmente vivo)* [...].”
(Telegrama do embaixador Henderson ao departamento de Estado, confidencial, 11 de setembro de 1967, 23h45, NARA).”
* “11 de setembro [...] O rádio trouxe [...] a notícia de que Barrientos afirmava que eu estava morto há bastante tempo e tudo era propaganda. De noite, a de que oferecia $50.000 (U$ 4.200) por dados que facilitassem minha captura vivo ou morto”. – Diário de Che na Bolívia, p. 181.


     “ [...] A reação mais grotesca (à morte de Che) foi a do presidente do Senado chileno, o socialista (e filocubano) Salvador Allende. Com efeito, na semana passada, solicitou oficialmente às autoridades bolivianas que os restos mortais de Ernesto Guevara fossem entregues pessoalmente a ele. Por essa razão, no Chile, Allende*, agora é objeto de zombaria [...].”
(Telegrama da embaixada norte-americana de Santiago do Chile ao departamento de Estado, confidencial, 16 de outubro de 1967, 23h15, NARA).
* Eleito presidente do Chile em 1970, o socialista Salvador Allende (1908-1973) foi deposto, em setembro de 1973, por um sangrento golpe de Estado liderado pelo general Augusto Pinochet e apoiado pelos Estados Unidos.


     “ [...] O cerne da guerrilha era constituído por Che Guevara e, no período de máxima expansão, por 15 cubanos, por outros revolucionários estrangeiros, por vários veteranos de Sierra Maestra e por comunistas bolivianos treinados em Cuba. O primeiro grupo chegou ao norte da cidade de Camiri, na região sul-oriental da Bolívia, em novembro de 1966. Parece que seu objetivo inicial era o de desenvolver uma força bem treinada e disciplinada, apta a perseguir ou atacar o Exército já a partir de setembro ou outubro de 1967. Após ter adquirido um sítio que devia servir de base logística, o bando se deslocou para o norte (uma região despovoada e inóspita, que se caracteriza por florestas, córregos e desfiladeiros), com o objetivo de se familiarizar com o território. Os guerrilheiros tinham remédios, armas automáticas e equipamentos para comunicação (que lhes permitiam, entre outras coisas, entrar em contato com Cuba via rádio de ondas curtas). Após ter dividido o grupo em vanguarda, centro e retaguarda, os rebeldes organizaram vários acampamentos e pontos de observação, escondendo, ao mesmo tempo, armas e suprimentos. Então, deram início ao patrulhamento da área. A primeira indicação da existência de um bando guerrilheiro se deu no início de março de 1967, quando dois bolivianos (que por um breve período haviam se unido ao grupo) desertaram e foram presos pelas autoridades enquanto tentavam vender um fuzil (roubado no acampamento dos insurgentes). No entanto, continuou-se a avaliar com ceticismo notável seus relatos sobre um bando liderado por cubanos. Mas, em 23 de março, uma patrulha do Exército boliviano topou com uma formação rebelde. O choque armado causou a morte de sete soldados e deixou muitos outros feridos. Alguns militares caíram presos dos insurgentes. Por conseguinte, o governo começou a considerar mais seriamente a ameaça de um movimento de guerrilha comunista. Outras patrulhas do exército foram enviadas à região, com resultados desastrosos. Os soldados em serviço militar, mal treinados e mal armados, eram constantemente afugentados por subversivos que pareciam invencíveis. Gritos de zombaria provinham da floresta e, com frequência, viam-se militares bolivianos abandonando suas armas antiquadas para fugirem. Minado pelos expurgos que se seguiram ao golpe de Estado de 1952, e também pelas derrotas militares que custaram à Bolívia largas partes de seu território, o moral do Exército, já baixo, continuou a cair, sobretudo entre os recrutas. Enquanto isso, os guerrilheiros pareciam ganhar confiança e força. Em julho, com uma manobra audaciosa, conseguiram ocupar, por um dia, a cidade de Samaipata e desarmar a guarnição militar local. Os rebeldes tentavam constituir um apoio popular para sua causa. Batizados de “Exército de Libertação Nacional” (pelo menos pela rádio Havana), tentavam atrair a simpatia dos campesinos da região. Ao pedir comida e suprimentos aos moradores, os guerrilheiros costumavam pagar um preço mais alto em relação ao de mercado. Entre eles, havia médicos que tentavam tratar das crianças dos lugarejos, na tentativa de ganhar a confiança da população. No final de abril, o teórico marxista francês Régis Debray foi capturado, depois de ter ficado várias semanas em um acampamento dos subversivos. Foi então que o movimento chamou a atenção da opinião pública mundial. Debray afirmou que o bando era chefiado e composto por cubanos e por outros guerrilheiros profissionais latino-americanos e que, talvez, Che Guevara estivesse no comando. Suas declarações frisaram a gravidade da ameaça. Aos olhos de quem supunha que Guevara estivesse realmente liderando os rebeldes, o conflito entre Che e o Exército boliviano não pareceu mais uma luta entre iguais. Cada vez mais alarmado, o governo boliviano buscou a ajuda dos Estados Unidos e de alguns países vizinhos (Argentina, Brasil e Peru). O governo norte-americano promoveu um programa de treinamento para a contraguerrilha destinado ao 2º batalhão de rangers bolivianos, que se deslocou para a região dos conflitos em setembro de 1967. Além disso, os Estados Unidos forneceram armas automáticas relativamente modernas e outros equipamentos ao Exército boliviano. Enquanto os rebeldes continuavam tendo êxito nos embates com o Exército, vários dissidentes bolivianos tramaram contra o governo de La Paz. Os partidos de oposição criticavam o presidente Barrientos pela má gestão da emergência. Em junho, os mineradores de Catavi – Siglo XX ofereceram sua solidariedade aos guerrilheiros e, quando o governo enviou as tropas para conter a revolta, pelo menos 16 trabalhadores foram mortos. Além disso, foram colocados na ilegalidade vários partidos comunistas bolivianos: o filosoviético, o filochinês e o trotskista. A gravidade potencial do movimento não escapou aos países vizinhos. Argentina, Paraguai e Peru (e, em menor medida, o Brasil) começaram a planejar os passos necessários para prevenir que, na Bolívia, os comunistas tomassem o poder, pois isso acabaria ameaçando suas fronteiras. Reforçaram-se os patrulhamentos nas regiões próximas às fronteiras argentina, brasileira e paraguaia, enquanto Argentina e Peru sondaram a possibilidade de enviar tropas para auxiliar o Exército boliviano na derrota da guerrilha. Paraguai e Argentina planejaram a execução de manobras militares nos arredores de suas fronteiras com a Bolívia, enquanto esta obtinha assistência material da Argentina e do Brasil. A partir de julho, a situação começou a melhorar. Alguns rebeldes foram apanhados ou mortos, enquanto os bolivianos ganhavam terreno nos conflitos armados. O Exército descobriu um campo-base da guerrilha, sequestrando, ali, inúmeros documentos. Entre eles, algumas fotografias de um sujeito que apresentava forte semelhança com Che Guevara. Além disso, foram encontrados dois passaportes falsos com suas impressões digitais. Esses papéis ajudaram a construir as acusações do governo boliviano contra a intervenção cubana na Bolívia, acusações apresentadas em Washington durante o décimo segundo encontro dos ministros das relações exteriores da OEA, em setembro. A primeira e importante vitória militar do governo aconteceu dia 31 de agosto, quando uma unidade do Exército boliviano armou uma emboscada contra a retaguarda guerrilheira, enquanto esta tentava cruzar o Rio Grande. Dez insurgentes foram mortos. Entre eles, três cubanos, um peruano e diversos bolivianos (um era o militante comunista Moisés Guevara). Graças à sua boa sorte e ao planejamento da ação, as tropas bolivianas não sofreram nenhuma perda. Em setembro, por causa dos documentos confiscados aos rebeldes, a rede de apoio urbano à guerrilha foi desbaratada em La Paz. Em 26 de setembro, um segundo conflito armado provocou inúmeras mortes entre os insurgentes (entre eles, estavam importantes líderes cubanos e bolivianos). No final de setembro, o 2º Batalhão de rangers (treinado pelos Estados Unidos) foi enviado à região. Sua primeira vitória foi também a mais espetacular de toda a campanha militar e, provavelmente, assinalou o fim da guerrilha boliviana. Em 8 de outubro, os rangers se chocaram contra a facção principal dos subversivos. Cerca de sete rebeldes morreram em batalha (entre eles Che Guevara*). Os últimos relatórios indicavam que apenas um punhado de guerrilheiros (talvez uma dúzia) continuava lutando na tentativa de se afastar da região. Dizia-se, ainda, que tinham obrigado os moradores locais a servirem de guias, na tentativa de furar o cerco promovido pelo Exército. Em retrospectiva, são evidentes os inúmeros erros cometidos pela guerrilha, que estava fascinada pelas teses sobre a revolução rural descritas por Debray em seu volume Revolução na revolução?, uma síntese romantizada que superestimava os sucessos de Fidel Castro. Segundo Debray, a revolução, em primeiro lugar, tem de confiar na autoridade do movimento guerrilheiro camponês, ao qual acabará aderindo um número cada vez maior de patriotas. A seu ver, é preciso evitar o vínculo formal com os partidos comunistas tradicionais, já que o processo revolucionário da guerrilha terminará produzindo seus próprios líderes. A população local dos campesinos não apoiaram o movimento de Che e o consequente desastre se transformou num fator crítico. Conservadores, desconfiando dos estrangeiros, proprietários (em boa parte) do pedaço de terra no qual viviam, os campesinos não foram abertamente hostis aos guerrilheiros, mas não apoiaram sua causa. Além disso, não raro acontecia de eles denunciarem a presença dos rebeldes às autoridades e, algumas vezes, servirem de guias para o Exército. Em seu diário (sequestrado durante o choque de 8 de outubro), Che comenta as dificuldades encontradas na tentativa de conquistar os campesinos para a causa revolucionária. Além disso, desde o começo pareceu evidente a falta de coordenação entre os guerrilheiros e os partidos comunistas com sede nos centros urbanos. O PC filosoviético e o filochinês apoiaram publicamente o esforço dos insurgentes, mas surgiram controvérsias internas quanto à medida do apoio a ser dado. Então, apareceram ressentimentos sobre o fato de que o movimento revolucionário fosse liderado por cubanos, e não por bolivianos. As hipóteses de promover o terrorismo urbano ou de abrir outras frentes de guerrilha – ações que seguramente teriam colocado o governo em sérias dificuldades – não chegaram a lugar algum. Os guerrilheiros não queriam este tipo de ajuda, convencidos que estavam de ser a única força da qual a revolução poderia brotar. A mesma falta de coordenação era evidente com relação a outros homens dissidentes, com os quais os rebeldes poderiam ter contado, se quisessem: os estudantes, os mineradores e o proletariado urbano. Mas está claro que a rápida e surpreendente derrota dos mineradores (em junho) pode ter desalentado tanto os guerrilheiros quanto seus potenciais aliados. Outro erro, que o próprio Che reconheceu, foi o papel predominante que os cubanos assumiram no movimento. Não só alimentou o rancor dos comunistas bolivianos, como tornou ainda mais árduo qualquer esforço para a conquista do apoio e da confiança dos campesinos. O governo tirou proveito do forte sentimento nacionalista dos bolivianos para enfraquecer a guerrilha. Até mesmo aqueles dissidentes que tendiam a aderir ao movimento no período de seus maiores êxitos militares provavelmente se ofenderam com o jeito “estrangeiro” do bando de Che. Barrientos, sempre repetia isso durante a campanha antiguerrilha: “Cuba, um fantoche de uma potência estrangeira (URSS), tenta, agora, estender seu controle à Bolívia”. Por conseguinte, a guerrilha pareceu aos olhos dos cidadãos um movimento cada vez menos ligado ao país, mais uma aventura agressiva financiada por um governo estrangeiro do que o produto das injustiças e da pobreza. Quando essa argumentação se espalhou, boa parte da mística romantizada dos insurgentes veio a faltar. Sem a proteção e o auxílio dos camponeses (especialmente com relação aos alimentos, que sempre faltavam) e obrigados a combater unicamente com suas forças numa área delimitada, o destino do movimento pareceu selado. Até mesmo um exército fraco como o boliviano foi capaz de cercar e derrotar os rebeldes, já que a razão numérica exército-guerrilha já era de trinta para um [...].”
(Relatório do departamento de Estado, secreto, 27 de outubro de 1967, NARA)
* O Departamento de Estado desconhece as informações da CIA e do embaixador Henderson de que Che foi capturado vivo, provavelmente na tentativa de prorrogar ao máximo a verdade sobre a morte do guerrilheiro.


     “ (...) Enquanto isso, algumas cervejas tinham dado novo ânimo a Teran, que voltou para a prisão de Che. À sua chegada, Guevara (amarrado pelos pulsos à frente do corpo) levantou-se e exclamou: “Sei por que está aqui. Estou pronto”. Teran lhe respondeu: “Está errado. Sente-se”, abandonando mais uma vez o local por alguns minutos. “Willy” tinha sido preso num casebre a poucos metros de distância. Enquanto Teran, do lado de fora, procurava se recompor, Huanca executou “Willy”(...). Ouvindo os tiros pela primeira vez Che pareceu apavorado. Ao ver Teran entrar de novo, o prisioneiro se levantou mais uma vez para enfrentá-lo. Teran mandou que ficasse sentado, mas Guevara respondeu. “Agora quero ficar em pé”. Enfurecido, o sargento o intimou para que se sentasse. Mas Che perdeu a calma: “Saiba que está matando um homem”. Nesta altura, empunhando uma carabina M2, Teran o matou com uma rajada de balas, arremessando-o contra a parede do cômodo [...].”
(Relatório do exército norte-americano, Washington, secreto, 28 de novembro de 1967, sem colocação)


     “Embora esses papéis oficiais – liberados, essencialmente, dos arquivos da CIA e do Departamento de Estado – não expressem a versão definitiva da história, eles apresentam, até prova em contrário, evidências que soterram suposições que persistiam ao longo das quatro décadas que se seguiram ao assassinato de Che. São informações, análises e avaliações escritas no calor da hora. Contaminadas, certamente, por interesses políticos, mas não necessariamente falsas, elas sustentam deduções mais seguras sobre o fracasso de Che naquele conflito desigual. A relação entre as forças oficiais e os insurgentes atingiu, no auge do conflito, 150 soldados para um guerrilheiro. Muito mais do que exigiam os cálculos do cuidadoso embaixador Henderson. Ele imaginava que seriam necessários “cerca de oito ou dez homens bem treinados para derrotar um guerrilheiro”.”

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