A conversão de São Paulo

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sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

O Correspondente Estrangeiro – Alan Furst

Editora: Suma de Letras
ISBN: 9788560280124
Páginas: 272
Opinião: ****
     “A conversa passou para a conferência da tarde, o sarcasmo conservador de Sparrow não tão distante do afável liberalismo de Weisz, e para Olivia tudo começava e acabava em barbas. O sr. Brown era bem mais opaco, suas opiniões políticas aparentemente mantidas em segredo, embora fosse um enfático partidário de Churchill. Até citou Winston, quando este se dirigiu a Chamberlain e seus colegas na ocasião do covarde acordo de Munique:
     – “Foi lhes dada uma escolha entre a vergonha e a guerra. Escolheram a vergonha e terão a guerra” – e acrescentou:  E tenho certeza de que o senhor concorda com isto, sr. Weisz.
     – Parece estar certo, de fato – disse Weisz. No pequeno silêncio que se seguiu, ele disse: - Perdoe-me pela pergunta de jornalista, sr. Brown, mas posso saber a que tipo de atividade o senhor se dedica?
     – Certamente que sim, embora, como dizem, não para divulgação.
     Neste momento o cachimbo emitiu uma grande nuvem de fumaça adocicada, como para sublinhar a proibição.
     – Por hoje o senhor está a salvo – disse Weisz. – Informação confidencial. – Seu tom brincalhão, Brown jamais poderia pensar que estava sendo entrevistado.
     – Sou proprietário de uma pequena companhia que controla alguns armazéns no porto de Istambul – disse ele. – Temo que seja apenas o bom e velho comércio, e só estou lá às vezes.
     Puxou um cartão e entregou a Weisz.
     – E o que o senhor pode fazer é torcer para que os turcos não se alinhem com a Alemanha.
     – Exato – disse Brown. – Mas creio que ficarão neutros. Tiveram toda a guerra que queriam em 1918.
     – Nós todos tivemos – disse Sparrow. – Não vamos fazer isso outra vez, combinado?
     – Não se pode parar uma vez que começa – disse Brown. – Veja a Espanha.
     – Acho que deveríamos ter ajudado – disse Olivia.
     – Suponho que deveríamos – disse Brown. – Mas, de nossa parte, estávamos pensando em 1914, sabe como é.”


      “Os espiões estavam sempre atrás de alguma coisa. Se você era um jornalista, de repente aparecia o russo mais amável, o alemão mais culto, a francesa mais sofisticada que jamais conheceu. O favorito de Weisz em Paris era o magnífico Conde Polanyi, da diplomacia húngara – adoráveis modos de europeu dos velhos tempos, honestidade implacável e senso de humor; muito interessante, muito perigoso. Era um erro estar perto dele em quaisquer circunstâncias, mas erros são cometidos de vez em quando.”


      “Ele moveu a mão um pouco e logo a repousou. Ela pôs a mão sobre a dele. Weisz fitou-a por um longo tempo.
     – Então, o que vê?
     – A melhor coisa que já vi.
     De Christa, um sorriso duvidoso.
     – Não, é verdade – disse ele.
     – São seus olhos, amor. Mas eu adoro ser o que você vê.”


      “14 de abril, 3h30 (1939). Weisz postou-se na esquina onde a rue Daphine encontrava a marginal do Sena, e esperou por Salamone. E esperou. E essa agora? Era culpa daquele maldito Renault, velho e melindroso. Por que ninguém de seu mundo jamais tinha qualquer coisa nova? Tudo em suas vidas era gasto, usado, não funcionava bem havia muito. Que se dane, pensou, eu vou para a América. Onde ele seria pobre novamente, no meio da riqueza. Era a velha história para os imigrantes italianos – o famoso cartão-postal de volta à Itália dizendo: “Não apenas as ruas não são pavimentadas de ouro, elas não são pavimentadas, e eles esperam que nós as pavimentemos”.”


      “O objetivo era acabar com o Liberazione – não adiar a publicação – e gerar um exemplo, para demonstrar aos outros, comunistas, socialistas, católicos, o que acontecia com aqueles que ousavam se opor ao fascismo. Além disso, acreditavam piamente no ditado inglês do século XVII, cunhado na guerra civil, que dizia: “Aquele que puxa sua espada contra seu príncipe deve atirar fora a bainha”.”

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