domingo, 8 de fevereiro de 2026

Lorde, de João Gilberto Noll

Editora: Record

ISBN: 978-85-01-10235-5

Opinião: ★★★☆☆

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Páginas: 128

Sinopse: No aeroporto de uma Inglaterra gelada, um escritor brasileiro não sabe o que o aguarda. Recebera de um homem misterioso um convite, as passagens, a oferta de hospedagem e embarcara. Em Lorde, João Gilberto Noll, com seu estilo consagrado pela crítica, constrói um personagem que transita pelas ruas, hospitais, hotéis, estabelece relações passageiras com desconhecidos, e, como diz, apenas trocou a solidão que vivia no Brasil pela solidão que vive na Inglaterra. Neste livro, o autor expõe com primor as divagações de um sujeito que experimenta o desconhecido para se descobrir.



“Para onde iríamos depois?, fiz menção de perguntar. No fundo eu sabia que ele se encarregaria de tudo até determinado ponto, e que tudo o que estivesse por fazer seria, não digo para o meu bem, mas se evidenciaria como o mais sensato, aquilo que deveria ser feito sob pena de eu não aguentar o tranco vindouro, pois dele viria o caminho até que eu pudesse, não, não dispensá-lo, isso jamais, mas me ater a alguma autonomia que seria sempre limitada, isso também sei, já que estava agora num país onde eu nunca estivera antes e, principalmente, me faltava a juventude para aderir a ele sem mais.”

 

 

“Passando por um salão de beleza unissex resolvi entrar. A moça me ofereceu uma revista. Eu meditava sobre o castanho-claro que queria para o meu ralo cabelo encimado por uma careca ainda provida de penachos. Sentei e a cabeleireira da Malásia perguntou se queria cortar muito. Respondi que precisava de uma tintura. E apontei para a foto de um rapaz colada na parede. Apresentava o tom com que eu sonhava.

Podia arrancar o pano preso ao meu pescoço e sair dali, desistir de me artificializar mais. Mas não: repeti, é esse tom que eu quero, por favor…

A tinta escorria pelas minhas têmporas fazendo uma meleca desgraçada misturada à minha maquiagem. Crostas de base ruíam, despencando sobre o pano alvo que ela me colocara de proteção. Se era humilhante? Eu não sabia mais com exatidão o teor dessa palavra. As coisas já não me ofendiam o suficiente. Estar de guarda ao redor do meu amor-próprio não era mais necessário porque eu desconfiava seriamente de que eu já não trazia o mesmo homem.”

 

 

“E não seria esta a solução para os nossos males? Atirarmo-nos à faina diária como boas formigas… Tendo um bom sono de brinde…”

 

 

“Ao chegar do outro lado, me virei. Lá continuava ele, parado perto dos portões do Parlamento, o guarda se aproximando mais. De súbito começa a andar, me vê a metros e metros de distância, e vem em minha direção, a assobiar. Vem outro, um cara meigo que jamais se viu. Parece ter se esquecido de que está encalacrado, que escolheu o sujeito errado para o papel que lhe tinha reservado. Mas não vai dar o braço a torcer tão fácil assim, vai retomar o plano e saberá dizer enfim a que veio, até o ponto em que isso não desfizer o seu poder de ação. Agora dirá o que pensa do jeito como o verdadeiro inglês deve ser: um ilusionista da polidez. É, é isso?, eu tenho vontade de perguntar, mas me vem antes a ideia de fruir até o fim aquela situação cavalheiresca do inglesinho até que ele me pague mais uma parcela da minha subsistência, como gosta de dizer. Vamos andando à beira do Tâmisa, às vezes sentamos em bancos que ficam em patamares mais elevados para se apreciar melhor a paisagem. Ele já não parece um dos guardiões incontestes da cidade. Aparenta me seguir dessa vez. Dá a pinta de ter perdido qualquer rota, nem sabe onde está. Sentamos nesses bancos com patamares mais altos. Pego a mão dele. Digo, esse aí é o Tâmisa. Olha a lua lá. Aproximo as mãos e beijo a dele. Desconfio de sua bonomia nada escancarada. Daqui a pouco ele se descontrola e mostra quem é mesmo que manda ali. Solto a mão dele, ponho-a em cima da sua perna, dou um tapinha nela. E me afasto para a ponta do banco. Começo até a desconfiar de que esse homem perdeu a argamassa que o mantinha durão, esquisito, oblíquo. Vai ver iniciou a cair de amores por mim, só isso, e quer tão só me acompanhar, para que mais? Vai ver é o rapaz da minha vida e chega só agora, quando nem o espelho mais quero olhar. Isso acontece, à beira do Tâmisa, e com um puta luar. Quem disse que não? Algum recalcado aí afirma que duas bichas à beira do Tâmisa em pleno enlevo é coisa de morrer de rir? Pois, olha, vou pegar de novo a mão dele e ele não vai dar um pio, apenas entrefechar os olhos e aceitar. Mas, claro, não faço nada disso, não quero perder a perspectiva relutante que deve haver em casos assim. Perspectiva relutante de ambos os lados, viu? De lá e cá. E, claro, começa a chuviscar em Londres.”

 

 

“Alguém me pediu as horas do meu lado no caminho e levei um susto, pensei que fosse o velho hindu e que eu teria mesmo de aceitá-lo. Ainda olhei para trás, imaginei que ele estivesse me seguindo. Eu perdera o velho hindu na multidão. E precisava prosseguir sozinho — o que já me era um vício, para os que ainda não perceberam, ou mais: um estado natural. Ter alguém ao meu lado o tempo todo, alguém com quem conversar, emitir opiniões, discutir a paisagem, os acontecimentos ao redor, os longínquos, sacrificar as emoções, poupar a relação, tudo isso me representava normalmente um extravio não de mim mesmo mas de uma perspectiva que me tomara inteiro para não se perder. Que perspectiva era essa assim tão zelosa de si mesma?”

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