A conversão de São Paulo

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quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Novelas nada exemplares – Dalton Trevisan

Editora: Record / Altaya
ISBN: 978-85-011-5909-0
Opinião: **
Páginas: 178
     
     “Mais fácil morrer do que se livrar do cadáver.”


     “Tardes alucinadas de febre, Chico se lembrava do pai. Severo, não admitia riso. Quando fugiu de casa imaginou que nem lhe desse pela falta. Nunca escreveu, informando o endereço, na ronda das pensões. Tarde demais soube que o velho não deixou retirar seu guardanapo da mesa. A mãe colocava mais um prato, como se Chico viesse, todos aqueles anos, almoçar e jantar em casa. De noite, o pai subia ao quarto do rapaz: Chico, Chico, você voltou?” Morreu antes que o filho visitasse a família. Agora sonhava com o velho, ao lado da cama: “Chico, veio pra casa, meu filho?”


     “O destino da mulher é esperar pelo marido e, depois do marido, pelos filhos.”


     “Às mães não foi dado entender os filhos, apenas amá-los.”


     “Os pardais o acordam de manhã. “Malditos!” gemendo, enterra a cabeça no travesseiro. Malditos pardais – o dia: mais um dia. Quietinho, morde o lençol, abafa os gritos: “Não acordei, estou dormindo. Não são os pardais, mas os grilos...” Quem dera esganar todos os pardais da cidade.
     Cabeça nas mãos, repete sempre – “São os grilos, eis que são os grilos.” Em vez de abrir a janela, acende a luz.
     Onde a coragem de enfrentar o espelho? Sobreviveu ao pior: já fez a barba. Não mais ver aquela cara e, coçando o queixo, interrogar-se: “Para quê?”.
     O espelho nunca deu a resposta. Resiste aos dias, com ódio dos pardais. Ah, não piassem com tanta alegria, quem sabe o sol deixasse de nascer.
     O queixo ensaboado, xinga-se em voz baixa: “Por que não morre?”. Ao frio da navalha, os dedos tremem. Alcança a garrafa, bebe no gargalo. Dos olhos escorrem gotas de amargura, nem sequer lágrimas.
     No canto do espelho o retratinho da filha, única maneira de aceitar o próprio rosto.”


     “Olho vermelho de dorminhoco, o filho saiu do quarto e atravessou a cozinha. O homem batia as pálpebras, embevecido com os vapores capitosos.
- Aonde é que vai?
     O filho abriu a torneira do banheiro:
- Fazer a barba.
- Hora da janta. Vem comer.
     Demorava-se o rapaz, torneira fechada. Com a toalha no pescoço, não olhou o pai.
- Não quero jantar. Sem fome.
     O homem suspendeu a colher:
- Não quer jantar, mas vem para a mesa.
     O homem sugava ruidosamente e, a cada chupão, o filho revolvia a ponta do garfo no coração das margaridas.
- Saiu agora do quarto, filho de barão! Mas eu... Quando me deitar de dia na cama é para morrer!”


     “Ele tinha princípios – o mais importante, barbear-se todos os dias.”

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

O mundo assombrado pelos demônios: a ciência vista como uma vela no escuro – Carl Sagan

Editora: Companhia das Letras
ISBN: 978-85-716-4606-3
Tradução: Rosaura Eichenberg
Opinião: ****
Páginas: 448

     “Na Universidade de Chicago, também tive a sorte de participar de um programa de educação geral planejado por Robert M. Hutchins, em que a ciência era apresentada como parte integrante da magnífica tapeçaria do conhecimento humano. Considerava-se impensável que alguém desejasse ser físico sem conhecer Platão, Aristóteles, Bach, Shakespeare, Gibbon, Malinowski e Freud – entre muitos outros. Numa aula de introdução à ciência, a visão de Ptolomeu de que o Sol gira ao redor da Terra era apresentada de forma tão convincente que alguns estudantes se flagravam reavaliando seu compromisso com a teoria de Copérnico. No currículo de Hutchins, o status dos professores não tinha quase nada a ver com a sua pesquisa; inflexivelmente – ao contrário do padrão moderno da universidade norte-americana –, os professores eram avaliados pelo seu ensino, pela sua capacidade de informar e inspirar a próxima geração.”


     “Toda a nossa ciência, comparada com a realidade, é primitiva e infantil – e, no entanto, é a coisa mais preciosa que temos.” (Albert Einstein)


     “Nos tempos pré-agrícolas dos caçadores-coletores, a expectativa de vida humana era cerca de 20... 30 anos. Essa era também a expectativa de vida na Europa ocidental no final do Império Romano e na Idade Média. Ela só aumentou para quarenta por volta de 1870. Chegou a cinquenta em 1915, a sessenta em 1930, a setenta em 1955, e esta se aproximando de oitenta hoje em dia (um pouco mais para as mulheres, um pouco menos para os homens). O resto do mundo esta repetindo o incremento europeu da longevidade. Qual é a causa dessa transição humanitária espantosa e sem precedentes? A teoria microbiana das doenças, as medidas de saúde pública, os remédios e a tecnologia médica. A longevidade talvez seja a melhor medida da qualidade física da vida. (Se você esta morto, pouco pode fazer para ser feliz.) Essa é uma dádiva preciosa da ciência à humanidade – nada menos do que o dom da vida.”


     “Onde a ignorância é uma bênção é uma loucura ser sábio”. (Thomas Gray)


     “Uri Geller, o paranormal entortador de colheres e canalizador de extraterrestres, vem de Israel. À medida que crescem as tensões entre os secularistas argelinos e os fundamentalistas muçulmanos aumenta o número de gente que consulta discretamente os dez mil adivinhos e clarividentes (dos quais perto da metade operam com licença do governo). Altos funcionários franceses, incluído um antigo presidente da República, ordenaram o investimento de milhões de dólares em uma empresa fraudulenta (o escândalo da Elf-Aquitaine) que se propunha a encontrar novas reservas de petróleo do ar. Na Alemanha há preocupação pelos “raios da Terra” cancerígenos que a ciência não detecta; só podem ser captados por adivinhos experientes brandindo forquilhas. Nas Filipinas floresce a “cirurgia psíquica”. Os fantasmas são uma obsessão nacional na Grã-Bretanha. Desde a segunda guerra mundial, o Japão viu proliferarem uma enorme quantidade de novas religiões que prometem o sobrenatural. O número estimado de adivinhos que prosperam no Japão é de cem mil, com uma clientela majoritária de mulheres jovens. A Aum Shirikyo, uma seita que se supõe estar envolvida no atentado com gás sarin no metrô de Tókio em março de 1995, conta entre seus principais dogmas a levitação, a cura pela fé e a percepção extra-sensorial (EPS). Os seguidores bebiam, a um alto preço, a água do “lago milagroso”... do banho de Asahara, seu líder. Na Tailândia se tratam enfermidades com pastilhas fabricadas com as Escrituras Sagradas pulverizadas. Ainda hoje se queimam “bruxas” na África do Sul. As forças australianas que mantêm a paz no Haiti resgataram uma mulher atada a uma árvore; ela é acusada de voar de telhado em telhado e de sugar o sangue das criancinhas. A astrologia é disseminada na Índia, a geomancia muito difundida na China.”


     “Um dos grandes mandamentos da ciência é: “Desconfia dos argumentos que procedem da autoridade”.”


     “Se você quiser saber quando será o próximo eclipse do Sol, pode procurar mágicos ou místicos, mas terá melhor sorte com os cientistas. Eles lhe dirão onde se posicionar na Terra, quando terá de estar nesse lugar, e se vai ser um eclipse parcial, total ou anular. Eles conseguem prever rotineiramente um eclipse solar, com exatidão de minutos, um milênio antes. Você pode ir ao feiticeiro-curandeiro para que ele desfaça o feitiço que causa a sua anemia perniciosa, ou pode tomar vitamina B12. Se quiser salvar o seu filho da poliomielite, pode rezar ou pode lhe vacinar. Se esta interessado em saber o sexo da criança antes do nascimento, pode consultar todas as oscilações do chumbo na linha de prumo (esquerda/direita, um menino; para frente/para trás, uma menina – ou talvez seja o contrário), mas elas acertarão, em média, apenas uma a cada duas vezes. Se quiser uma precisão real (nesse caso, de 99%), tente amniocentese e o ultrassom. Tente a ciência.
     Pense em quantas religiões tentam se validar com profecias. Pense em quantas pessoas se baseiam nestas, por mais vagas e irrealizadas que sejam, para fundamentar ou sustentar as suas crenças.”


     “Qual é o segredo do sucesso da ciência? Em parte, é esse mecanismo embutido de correção de erros. Não existem questões proibidas na ciência, assuntos delicados demais para ser examinados, verdades sagradas. Essa abertura para novas ideias, combinada com o mais rigoroso exame cético de todas as ideias, separa o joio do trigo.”


     “Um extraterrestre, recém-chegado à Terra – examinando o que em geral apresentamos às nossas crianças na televisão, no rádio, no cinema, nos jornais, nas revistas, nas histórias em quadrinhos e em muitos livros – poderia facilmente concluir que fazemos questão de lhes ensinar assassinatos, estupros, crueldades, superstições, credulidade e consumismo. Continuamos a seguir esse padrão e, pelas constantes repetições, muitas das crianças acabam aprendendo essas coisas. Que tipo de sociedade não poderíamos criar se, em vez disso, lhes incutíssemos a ciência e um sentimento de esperança?”


     “John Mitchell, um britânico entusiasta do oculto, diz que “condicionados por crenças racionalistas, nossa visão do mundo é mais insossa e limitada do que pretendia a natureza”. Mitchell não revela mediante quais processos ele sondou as intenções da natureza.”


     “Um sinal inequívoco do amor à verdade – escrevia John Locke em 1690—, é não manter nenhuma proposição com maior segurança do que garantem as provas nas quais se apoia.” No tema dos óvnis, qual é a força das provas?”


     “Eu me interessara pela possibilidade de vida extraterrestre desde a infância, desde muito antes de ouvir falar de discos voadores. Continuei fascinado por muito tempo depois que diminuiu meu primeiro entusiasmo pelos UFOs – quando compreendi melhor este professor desumano chamado método científico: tudo depende da questão da evidência. Sobre um tema tão importante, a evidência deve ser irrefutável. Quanto mais desejamos que seja verdade, mais cuidadosos temos que ser. Nenhum depoimento de testemunhas é bom o suficiente. As pessoas cometem erros. As pessoas fazem brincadeiras. As pessoas exageram a verdade para conseguir dinheiro, atenção ou fama. As pessoas de vez em quando compreendem errado o que veem. As pessoas às vezes até veem coisas que não existem. (...)
     Como foi revelado por repetidas pesquisas de opinião, durante anos, a maioria dos norte-americanos acredita que estamos sendo visitados por seres extraterrestres que se deslocam em UFOs. Numa pesquisa Roper de 1992, que abrangeu 6 mil adultos norte-americanos – especialmente encomendada por aqueles que tomam as histórias de rapto por alienígenas ao pé da letra –, 18% informaram terem às vezes acordado paralisados, cientes da presença de um ou mais seres estranhos no quarto. Cerca de 13% relatam episódios estranhos de lapsos de memória e 10% afirmam terem voado pelo ar sem ajuda mecânica. Só por esses resultados, os patrocinadores da pesquisa concluem que 2% de todos os norte-americanos foram raptados, muitos mais de uma vez, por seres de outros mundos. Se os entrevistados haviam sido sequestrados por alienígenas, é uma pergunta que nunca lhes foi realmente proposta.
     Se acreditarmos na conclusão tirada por aqueles que financiaram e interpretaram os resultados dessa pesquisa, e se os alienígenas não têm preferência exclusiva pelos norte-americanos, o número de raptos em todo o planeta atinge mais de 100 milhões de pessoas. Isso significa um sequestro a cada fração de minuto durante as últimas décadas. É surpreendente que a maioria dos vizinhos não tenha percebido nada. (...)
     Repetidos levantamentos demonstraram que 10% a 25% das pessoas comuns, de comportamento normal, experimentaram, pelo menos uma vez em sua vida, uma alucinação muito vívida – em geral escutaram uma voz, ou viram uma forma quando nada havia ao seu redor. Mais raramente, as pessoas sentem um aroma obsessivo, escutam música, ou recebem uma revelação que lhes advém independentemente dos sentidos. Em alguns casos, essas sensações se tornam acontecimentos pessoais transformadores ou profundas experiências religiosas. As alucinações podem ser uma passagem negligenciada para a compreensão científica do sagrado.
     Provavelmente, não foram poucas as vezes, desde a morte de ambos, que escutei minha mãe ou meu pai me chamar num tom de voz coloquial. É claro que eles me chamavam com frequência durante nossa vida comum – para fazer qualquer tarefa, para jantar ou para ouvir comentários sobre um acontecimento do dia. Ainda sinto tanta saudade deles que não me parece de modo algum estranho que minha mente recupere de vez em quando uma lembrança lúcida de suas vozes. Alucinações mundanas são comuns.”


     “A ideia da aplicação democrática do ceticismo é que todos deveriam ter as ferramentas essenciais para avaliar efetiva e construtivamente as alegações de quem se diz possuidor do conhecimento. O que a ciência exige é tão-somente que façamos uso dos mesmos níveis de ceticismo que empregamos ao comprar um carro usado ou ao julgar a qualidade dos analgésicos ou da cerveja pelos seus comerciais na televisão.
     Mas as ferramentas do ceticismo em geral não estão à disposição dos cidadãos de nossa sociedade. Mal são mencionadas nas escolas, mesmo quando se trata de ciência, que é seu usuário mais ardoroso, embora o ceticismo continue a brotar espontaneamente dos desapontamentos da vida diária. A nossa política, economia, propaganda e religiões (Antiga e Nova Era) estão inundadas de credulidade. Aqueles que têm alguma coisa para vender, aqueles que desejam influenciar a opinião pública, aqueles que estão no poder, diria um cético, têm um interesse pessoal em desencorajar o ceticismo.”


     “A Agência de Segurança Nacional (NSA) monitora telefones, rádios e outros meios de comunicação tanto de amigos como de adversários dos Estados Unidos. Sub-repticiamente, lê a correspondência do mundo. Seu movimento de interceptações diárias é imenso. Em épocas de tensão, enormes grupos de funcionários da NSA, fluentes nas línguas importantes, ficam sentados com fones de ouvido, monitorando em tempo real todas as informações, desde comandos cifrados do estado-maior da nação-alvo até conversas íntimas. Em relação a outros materiais, há palavras-chave que fazem os computadores selecionarem, para escrutínio humano, mensagens ou conversas específicas de interesse atual urgente. Tudo é armazenado, de modo que seja retrospectivamente possível voltar às fitas magnéticas – para se pesquisar a primeira aparição de um código, por exemplo, ou a responsabilidade de um comando numa crise. Algumas das interceptações são feitas a partir de postos de escuta em países vizinhos (a Turquia no caso da Rússia, a Índia no caso da China), em aviões e navios que estejam patrulhando por perto, ou em satélites de observação na órbita da Terra. Há uma dança contínua de medidas e contramedidas entre a NSA e os serviços de segurança de outras nações, que compreensivelmente não desejam que suas conversas sejam escutadas.”


     “O sigilo, com poucas exceções, é profundamente incompatível com a democracia e a ciência.”


     “Uma operação de acobertamento para manter quase inteiramente secretas por 45 anos as informações sobre vida extraterrestre ou raptos por alienígenas, com centenas, se não milhares, de funcionários do governo a par das histórias, é algo extraordinário. É certamente rotina manter segredos no governo, até mesmo segredos de substancial interesse geral. Mas o ponto ostensivo desse sigilo é proteger o país e seus cidadãos. Em nosso caso, porém, é diferente. A suposta conspiração das autoridades é para impedir que os cidadãos fiquem sabendo de um contínuo ataque alienígena à espécie humana. Se os extraterrestres estivessem realmente raptando milhares de nós, seria muito mais do que uma questão de segurança nacional. Causaria um impacto sobre a segurança de todos os seres humanos em toda a Terra. Dadas essas condições, será plausível supor que, em quase duzentas nações, tendo conhecimento e evidências reais, ninguém abrisse a boca para defender os seres humanos, em vez de tomar o partido dos alienígenas?
     Desde o fim da Guerra Fria, a NASA tem atuado erraticamente, tentando encontrar missões que justifiquem sua existência – especialmente uma boa razão para enviar seres humanos no espaço. Se a Terra estivesse sendo visitada diariamente por alienígenas hostis, a NASA não agarraria essa oportunidade de aumentar seus financiamentos? E, se uma invasão alienígena estivesse em andamento, por que a Força Aérea, tradicionalmente liderada por pilotos, desistiria do voo espacial tripulado e lançaria todas as suas cargas úteis em impulsores auxiliares sem tripulação?
     Consideremos a antiga Organização da Iniciativa de Defesa Estratégica, encarregada do projeto “Guerra nas Estrelas”. Esta passando por tempos difíceis no momento, particularmente em seu objetivo de instalar defesas no espaço. Seu nome e perspectiva foram rebaixados. Hoje em dia chama-se Organização de Defesa contra Mísseis Balísticos. Já não se reporta diretamente ao secretário de Defesa. É manifesta a incapacidade dessa tecnologia para proteger os Estados Unidos contra um ataque maciço de mísseis com armas nucleares. Mas pelo menos não tentaríamos instalar defesas no espaço, se estivéssemos enfrentando uma invasão alienígena?
     O Departamento de Defesa, como os ministérios semelhantes em todas as outras nações, prospera devido aos inimigos, reais ou imaginários. É extremamente implausível que a existência de um adversário desse porte fosse abafada pela própria organização que mais se beneficiaria com a sua presença.”


     “De vez em quando recebo uma carta de alguém que esta em “contato” com extraterrestres. Sou convidado a “lhes fazer qualquer pergunta”. E assim, com o passar dos anos, acabei preparando uma pequena lista de questões. Os extraterrestres são muito adiantados, lembrem-se. Por isso faço perguntas como: “Por favor, dê uma prova breve do último teorema de Fermat”. Ou a conjetura de Goldbach. E depois tenho de explicar do que se trata, porque os extraterrestres não devem conhecer esses problemas por esses nomes. Assim, escrevo a equação simples com os expoentes. Nunca recebo resposta. Por outro lado, se pergunto coisas como “Deveríamos ser bons?”, quase sempre obtenho uma resposta. Esses alienígenas sentem-se extremamente felizes em responder qualquer questão vaga, especialmente envolvendo juízos morais convencionais. Mas acerca de qualquer problema específico, em que há uma chance de descobrir se eles realmente sabem algo mais do que a maioria dos humanos, há apenas o silêncio. Podem-se tirar algumas deduções dessa capacidade diferenciada de responder perguntas.
     Nos bons e velhos tempos, antes do paradigma do rapto por alienígenas, as pessoas levadas a bordo dos UFOs recebiam sermões edificantes sobre os perigos da guerra nuclear, pelo menos era o que relatavam. Hoje em dia, quando tais instruções são ministradas, os extraterrestres parecem fixados na degradação ambiental e na AIDS. O que me pergunto é como os ocupantes dos UFOs podem estar tão ligados nos interesses urgentes ou em moda sobre esse planeta? Por que nem sequer um aviso incidental sobre os CFCs e a diminuição da camada de ozônio nos anos 50, ou sobre o vírus HIV nos anos 70, quando o alerta poderia ter feito realmente algum bem? Por que não nos advertir agora sobre alguma ameaça ao meio ambiente ou à saúde pública que ainda não descobrimos? Será possível que os extraterrestres só conheçam o que conhecem aqueles que relatam a sua presença? E, se um dos principais objetivos das visitas alienígenas é alertar sobre os perigos globais, por que falar apenas a algumas pessoas cujos relatos são de qualquer forma suspeitos? Por que não tomar as redes de televisão por uma noite, ou aparecer com audiovisuais de alertas bem vigorosos diante do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas? Certamente isso não seria muito difícil para quem atravessa voando milhares de anos-luz.”


     “A maioria de nós se lembra do terror experimentado, com dois anos de idade ou já mais velhos, diante dos “monstros” de aparência real, mas inteiramente imaginários, sobretudo à noite ou no escuro. Ainda me recordo de ocasiões em que ficava totalmente aterrorizado, escondido sob os lençóis até não poder mais aguentar, quando então disparava para a segurança do quarto de meus pais – isso se conseguisse chegar antes de cair nas garras da... Presença.
     O caricaturista norte-americano Gary Larson, que explora o gênero do horror em seus desenhos, escreve a seguinte dedicatória em um de seus livros:
Quando era menino, a nossa casa era repleta de monstros. Eles viviam nos armários, embaixo das camas, no sótão, no porão e – quando estava escuro – praticamente em toda parte. Este livro é dedicado a meu pai, que me manteve a salvo de todos eles.


     “O temor das coisas invisíveis é a semente natural do que cada um chama para si mesmo de religião”. (Thomas Hobbes, Leviatã, 1651)


     “O papa Inocêncio VIII nomeou os inquisidores Kramer e Sprenger para escreverem uma análise abrangente sobre bruxaria, utilizando toda a artilharia acadêmica do final do século XV. Com citações exaustivas das Escrituras e de eruditos antigos e modernos, eles produziram o Malleus maleficarum, o “Martelo das bruxas” – descrito apropriadamente como um dos livros mais terríveis da história humana.
     Thomas Ady, em A candle in the dark (Uma vela na escuridão), qualificou-o de “doutrinas & invenções infames”, “mentiras e impossibilidades horríveis”, servindo para esconder “uma crueldade sem paralelo dos ouvidos do mundo”. O que Malleus dizia, mais ou menos, é que, se a pessoa for acusada de bruxaria, ela é uma bruxa. A tortura é um meio infalível de demonstrar a veracidade da acusação. O réu não tem direitos. Não há oportunidade de acareação com os acusadores. Pouca atenção é dada à possibilidade de que as acusações sejam causadas por objetivos ímpios: inveja, vingança ou a ganância dos inquisidores, que rotineiramente confiscavam para seu proveito pessoal as propriedades do acusado. Esse manual técnico para torturadores também inclui métodos de castigo talhados para liberar os demônios do corpo da vítima, antes que o processo a matasse. Com o Malleus na mão e o incentivo do papa garantido, os inquisidores começaram a surgir por toda a Europa.
     Os processos rapidamente se converteram em uma proveitosa fraude. Todos os custos da investigação, julgamento e execução eram pagos pela acusada ou seus parentes: até as diárias dos detetives particulares contratados para espioná-la, o vinho para os seus guardas, os banquetes para os seus juízes, as despesas de viagem de um mensageiro enviado para buscar um torturador mais experiente em outra cidade; os feixes de lenha, o alcatrão e a corda do carrasco. Além disso, os membros do tribunal ganhavam uma gratificação para cada feiticeira queimada. O que sobrava das propriedades da bruxa condenada, se ainda houvesse alguma coisa, era dividido entre a Igreja e o Estado. Quando esse assassinato e roubo em massa, legal e moralmente sancionados, se tornaram institucionalizados, surgiu uma imensa burocracia para servi-lo, e a atenção se desviou das velhas megeras pobres para os membros das classes média e alta de ambos os sexos.
     Quanto mais as pessoas – sob tortura – confessavam participar de bruxarias, mais difícil ficava sustentar que toda a história não passava de fantasia. Como cada uma das “bruxas” era forçada a implicar outras, o número crescia exponencialmente. Tudo isso constituía “provas assustadoras de que o Diabo ainda esta vivo”, como mais tarde se afirmou na América do Norte por ocasião dos julgamentos das bruxas de Salem. Em uma era de credulidade, o testemunho mais fantástico era levado a sério – de que dezenas de milhares de bruxas tinham se reunido para celebrar em praças públicas da França, ou de que 12 mil feiticeiras escureceram os céus ao voar para a Terra Nova. A Bíblia tinha aconselhado: “Não deves tolerar que uma bruxa viva”. Legiões de mulheres foram queimadas até a morte.* E as torturas mais horrendas eram rotineiramente aplicadas a todas as rés, jovens ou velhas, depois que os padres abençoavam os instrumentos de tortura. O próprio Inocêncio morreu em 1492, após tentativas frustradas de mantê-lo vivo por meio de transfusões (o que resultou na morte de três meninos) e amamentação no peito de uma ama-de-leite. Foi pranteado pela amante e pelos filhos de ambos.”
(*) A Santa Inquisição adotava esse método de execução aparentemente para garantir uma concordância literal com uma bem-intencionada sentença da lei canônica (Concílio de Tours, 1163: “A Igreja abomina o derramamento de sangue”).


     “Nos julgamentos das bruxas, evidências atenuantes ou testemunhas de defesa eram inadmissíveis. De qualquer modo, era quase impossível apresentar álibis convincentes para as bruxas acusadas: as regras das provas tinham um caráter especial. Por exemplo, em mais de um caso o marido atestava que sua mulher estava dormindo nos braços dele no exato momento em que era acusada de estar brincando com o diabo num sabá de bruxas; mas o arcebispo explicava pacientemente que um demônio tomara o lugar da mulher. Os maridos não deviam imaginar que seus poderes de percepção podiam superar os poderes da simulação de Satã. As mulheres belas e jovens eram enviadas forçosamente à fogueira.
     Havia fortes elementos eróticos e misóginos – como era de se esperar numa sociedade sexualmente reprimida e dominada pelos homens, em que os inquisidores eram tirados da classe de padres pretensamente celibatários. Nos julgamentos, prestava-se bastante atenção à qualidade e à quantidade de orgasmos nas supostas cópulas das rés com os demônios ou com o Diabo (embora Agostinho tivesse se mostrado seguro de que “não podemos chamar o Diabo de fornicador”), e à natureza do “membro” do Diabo (frio, em todos os relatos). As “marcas do Diabo” eram encontradas “em geral sobre os seios ou nas partes pudendas”, segundo o livro escrito por Ludovico Sinistrari em 1700. Em consequência, raspavam-se os pelos púbicos e as genitálias eram cuidadosamente inspecionadas por inquisidores do sexo masculino. Na imolação da jovem de vinte anos, Joana D’Arc, depois que seu vestido pegou fogo, o carrasco de Rouen apagou as chamas para que os espectadores pudessem ver “todos os segredos que podem ou devem existir numa mulher”.
     A crônica dos que foram consumidos pelo fogo, somente na cidade alemã de Würtzburg, e apenas no ano de 1598, apresenta estatísticas e permite que nos confrontemos com um pouco da realidade humana:
     O intendente do Senado, chamado Gering; a velha sra. Kanzler; a gorda mulher do alfaiate; a cozinheira do sr. Mengerdorf; um estranho; uma mulher estranha; Baunach, senador, o cidadão mais gordo de Würtzburg; o velho ferreiro da corte; uma velha; uma menina de nove ou dez anos; uma menina mais moça, sua irmãzinha; a mãe das duas meninas acima mencionadas; a filha de Liebler; a filha de Goebel, a menina mais bonita de Würtzburg; um estudante que sabia muitas línguas; dois meninos do Minster, cada um com doze anos; a filhinha de Stepper; a mulher que guardava o portão da ponte; uma velha; o filhinho do intendente do conselho da cidade; a mulher de Knertz, o açougueiro; a filhinha de colo do dr. Schultz; uma menina cega; Schwartz, cônego em Hatch...
     E assim por diante. Alguns recebiam atenção humanitária especial: “A filhinha de Valkenberger foi executada e queimada privadamente”. Houve 28 imolações públicas, cada uma com quatro a seis vítimas em média, nessa pequena cidade num único ano. Isso era um microcosmo do que estava acontecendo por toda a Europa. Ninguém sabe quantos foram mortos ao todo – talvez centenas de milhares, talvez milhões. Os responsáveis pela acusação, tortura, julgamento, morte na fogueira e justificação eram altruístas. Perguntem a eles.
     Eles não podiam estar errados. As confissões de bruxaria não podiam ser alucinações, por exemplo, nem tentativas desesperadas de satisfazer os inquisidores e interromper a tortura. Nesse caso, explicava o juiz de bruxas Pierre de Lancre (em seu livro de 1612, Description of the inconstancy of evil angels – Descrição da inconstância dos anjos maus), a Igreja católica estaria cometendo um grande crime ao queimar as bruxas. Aqueles que apresentam tais hipóteses estão, portanto, atacando a igreja e ipso facto cometendo um pecado mortal. Puniam-se os que criticavam a morte das bruxas na fogueira e, em alguns casos, eles próprios também eram queimados. Os inquisidores e os torturadores estavam fazendo a obra de Deus. Estavam salvando almas. Estavam aniquilando os demônios.

     Certamente, a bruxaria não era a única ofensa merecedora de tortura e queima na fogueira. A heresia era um delito mais grave ainda, e tanto católicos como protestantes o puniam com crueldade. No século XVI, o erudito William Tyndale teve a temeridade de pensar em traduzir o Novo Testamento para o inglês. Mas se as pessoas pudessem ler a Bíblia em sua própria língua, e não em latim arcaico, talvez formassem opiniões religiosas próprias e independentes. Poderiam conceber sua própria comunicação privada com Deus. Era um desafio à segurança de emprego dos padres católicos romanos. Quando Tyndale tentou publicar a sua tradução, foi caçado e perseguido por toda a Europa. Acabou capturado, garroteado e depois, por boas razões, queimado na fogueira. Seus exemplares do Novo Testamento (que um século mais tarde se tornaram a base da refinada tradução do rei Jaime) foram então procurados de casa em casa por destacamentos armados – cristãos defendendo piedosamente o cristianismo, ao impedir que outros cristãos conhecessem as palavras de Cristo.”


     “Mais da metade dos norte-americanos declaram nas pesquisas que “acreditam” na existência do Diabo, e 10% tiveram contato com ele, experiência que Martinho Lutero afirmava ter regularmente. Num “manual de guerra espiritual” de 1992, intitulado Prepare for war (Te prepare para a guerra), Rebecca Brown nos informa que o aborto e o sexo fora do casamento “resultarão quase sempre em infestação demoníaca”; que a meditação, a ioga e as artes marciais são construídas de modo a levar os cristãos ingênuos a cultuar os demônios; e que “‘o rock não aconteceu pura e simplesmente’, foi um plano arquitetado com muito cuidado por ninguém menos do que o próprio Satã”. Às vezes “as pessoas amadas ficam diabolicamente presas e cegas”. A demonologia ainda segue formando parte de muitas crenças sérias.”


     “Quando é do conhecimento de todos que os deuses descem à Terra, nós talvez tenhamos alucinações com deuses; quando todos nós estamos familiarizados com demônios, aparecem os íncubos e os súcubos; quando os duendes são aceitos por toda parte, vemos duendes; numa era de espiritualismo, encontramos espíritos; e quando os antigos mitos se enfraquecem e começamos a pensar que os seres extraterrestres são plausíveis, é para eles que tendem as nossas imagens hipnagógicas.”


     “A hipnose é um meio pouco confiável de refrescar a memória. Frequentemente desperta a imaginação, a fantasia e o espírito de brincadeira junto com as recordações verdadeiras, sem que nem o paciente, nem o terapeuta sejam capazes de distinguir uma coisa da outra. Ela parece envolver, em sua essência, um estado de sugestionabilidade intensificada. Os tribunais proibiram o seu emprego como evidência ou até como ferramenta de investigação criminal.”


     “O presidente Ronald Reagan, que passou a Segunda Guerra Mundial em Hollllywood, descrevia com detalhes como libertara vítimas dos campos de concentração nazistas. Vivendo no mundo do cinema, ele aparentemente confundia um filme que tinha visto com uma realidade que não conhecera. Em muitas ocasiões, nas suas campanhas presidenciais, o sr. Reagan contou uma história épica de coragem e sacrifício na Segunda Guerra Mundial, uma inspiração para todos nós. Só que ela nunca aconteceu; era o enredo do filme A wing and a prayer (Uma asa e uma prece) – que também muito me impressionou, quando o vi com nove anos. Muitos outros exemplos desse tipo podem ser encontrados nas declarações públicas de Reagan. Não é difícil imaginar os sérios perigos públicos que nascem de ocasiões em que os líderes religiosos, científicos, militares ou políticos são incapazes de distinguir os fatos da ficção.”


     “É um erro capital teorizar antes de ter os dados. Sem dar-se conta, a gente começa a distorcer os fatos para adaptá-los às teorias, em vez de fazer com que as teorias se adaptem aos fatos. (Sherlock Holmes, em “Escândalo em Boêmia” – Arthur Conan Doyle,1891)


     “John Mack é um psiquiatra da Universidade Harvard que conheço há muitos anos.
- Há alguma verdade nessas histórias de UFOs? – ele me perguntou há muito tempo.
- Nada de significativo – respondi. A não ser, é claro, do ponto de vista psiquiátrico.”


     “O psicólogo Ulric Neisser, da Universidade de Emory, afirma:
     Existem abusos infantis, e existem lembranças reprimidas. Mas há também lembranças falsas e inventadas, e elas não são de modo algum raras. As lembranças errôneas são a regra, e não a exceção. Acontecem todo dia.
Ocorrem até em casos em que o sujeito esta absolutamente confiante – mesmo quando a lembrança é aparentemente um flash inesquecível, uma dessas fotografias metafóricas mentais. Sua ocorrência é ainda mais provável nos casos em que a sugestão é uma possibilidade expressiva, em que as lembranças podem ser modeladas e remodeladas para satisfazer as fortes exigências interpessoais de uma sessão de terapia. E quando a lembrança foi reconfigurada dessa maneira, é muito, muito difícil mudar.
Esses princípios gerais não nos ajudam a determinar com certeza onde esta a verdade em cada caso ou afirmação individual. Mas em média, num grande número dessas afirmações, é bem evidente no que devemos apostar. As lembranças errôneas e a reelaboração retrospectiva fazem parte da natureza humana; estão associadas ao nosso território e sempre acontecem.”


     “Citarei uns extratos da análise do perito do FBI Kenneth V. Lanning, agente especial de supervisão na Universidade de Pesquisa e Instrução de Ciências Comportamentais da Academia do FBI em Quantico, Virginia, “O crime ritualístico, oculto e satânico”, baseada em sua amarga experiência, e publicada no número de outubro de 1989 do periódico profissional The Police Chief:
     Virtualmente todas as discussões sobre satanismo e bruxaria são interpretadas à luz das crenças religiosas do público. É a fé, e não a lógica e a razão, que governa as crenças religiosas da maioria das pessoas. O resultado é que alguns agentes da lei, normalmente céticos, aceitam as informações disseminadas nessas conferências sem avaliá-las criticamente, sem questionar as fontes [...].
     Para algumas pessoas, o satanismo é qualquer sistema de crença religiosa diferente do seu.
     Lanning fornece então uma longa lista de sistemas de crença que ele pessoalmente ouviu serem descritos como satanismo nessas conferências. Inclui o catolicismo romano, as igrejas ortodoxas, o islamismo, o budismo, o hinduísmo, o mormonismo, o rock’n roll, a canalização, a astrologia e as crenças da Nova Era em geral. Não temos aí uma pista de como a caça às bruxas e os pogroms tiveram início?
     Dentro do sistema de crença religiosa pessoal de um agente da lei”, ele continua, “o cristianismo pode ser bom e o satanismo mau. Segundo a Constituição, entretanto, ambos são neutros. Esse é um conceito importante, mas de difícil aceitação para muitos agentes da lei. Eles não são pagos para defender os Dez Mandamentos, mas o código penal [...]. O fato é que o número de crimes e abusos infantis cometidos por fanáticos em nome de Deus, Jesus e Maomé é muito maior do que o dos cometidos em nome de Satã. Muitas pessoas não gostam dessa afirmação, mas poucas conseguem questioná-la”.

     Muitos dos que alegam abusos satânicos descrevem rituais orgiásticos grotescos em que bebês são assassinados e devorados. Alguns grupos vilipendiados têm sido alvo desse tipo de acusação por parte de seus detratores ao longo de toda a história europeia – como aconteceu com os conspiradores de Catilina em Roma, o “libelo de sangue” contra os judeus na Páscoa judaica e os templários quando estavam sendo desmantelados na França do século XIV. Ironicamente, denúncias de orgias incestuosas, infanticidas e canibalescas estavam entre as informações usadas pelas autoridades romanas para perseguir os primeiros cristãos. Afinal de contas, o próprio Jesus é citado como tendo dito (João, 6:53): “Na verdade, na verdade vos digo que, se não comerdes a carne do Filho do homem, e não beberdes o seu sangue, não tereis vida em vós mesmos”. Embora o próximo versículo deixe claro que Jesus esteja falando de comer a sua própria carne e beber o seu próprio sangue, críticos pouco compreensivos poderiam ter interpretado a expressão grega “Filho do homem” como “criança” ou “bebê”. Tertuliano e outros padres primitivos da Igreja se defendiam contra essas acusações grotescas da melhor maneira possível.”


     “Assim, o que é um pulsar? Um pulsar é o estado final de uma estrela maciça, um sol encolhido até o tamanho de uma cidade, que não é mantido, como as outras estrelas, pela pressão de gás, nem pela degeneração dos elétrons, mas por forças nucleares. É, em certo sentido, um núcleo atômico de mais ou menos dezesseis quilômetros de extensão.”


     “Eu ficaria muito feliz se os advogados dos discos voadores e os que acreditam em abduções por extraterrestres tivessem razão e houvesse evidências reais de vida extraterrestre para examinarmos. No entanto, eles nos pedem que tenhamos fé.”


     “Meus pais morreram há anos. Eu era muito ligado a eles. Ainda sinto uma saudade terrível. Sei que sempre sentirei. Desejo acreditar que sua essência, suas personalidades, o que eu tanto amava neles, ainda existe – real e verdadeiramente – em algum lugar. Não pediria muito, apenas cinco ou dez minutos por ano, para lhes contar sobre os netos, pô-los ao corrente das últimas novidades, lembrar-lhes que eu os amo. Uma parte minha – por mais infantil que pareça – se pergunta como é que estarão. “Esta tudo bem?”, desejo perguntar. As últimas palavras que me vi dizendo a meu pai, na hora de sua morte, foram: “Tome cuidado”.
     Às vezes sonho que estou falando com meus pais, e de repente – ainda imerso na elaboração do sonho – sou tomado pela consciência esmagadora de que eles não morreram de verdade, de que tudo não passou de um erro horrível. Ora, ali estão eles, vivos e bem de saúde, meu pai fazendo piadas inteligentes, minha mãe muito séria me aconselhando a usar uma manta porque esta frio. Quando acordo, passo de novo por um processo abreviado de luto. Evidentemente, existe algo dentro de mim que esta pronto a acreditar na vida após a morte. E que não esta nem um pouco interessado em saber se há alguma evidência séria que confirme tal coisa.
     Por isso, não rio da mulher que visita o túmulo do marido e conversa com ele de vez em quando, talvez no aniversário de sua morte. Não é difícil de compreender. E se tenho dificuldades com o status ontológico daquele com quem ela esta falando, não faz mal. Não é isso que importa. O que importa é que os seres humanos são humanos. Mais de um terço dos adultos norte-americanos acreditam que em algum nível estabeleceram contato com os mortos. O número parece ter dado um pulo de 15% entre 1977 e 1988. Um quarto dos norte-americanos acredita em reencarnação.
     Mas isso não significa que estou disposto a aceitar as pretensões de um “médium”, que afirma canalizar os espíritos dos seres amados que partiram, quando tenho consciência de que neste campo abunda a fraude. Sei o quanto desejo acreditar que meus pais só abandonaram os cascos de seus corpos, como insetos ou cobras na muda, e partiram para outro lugar. Compreendo que esses sentimentos poderiam me tornar uma presa fácil até para um trapaceiro pouco inteligente, de pessoas normais que desconhecem suas mentes inconscientes, ou dos que sofrem de uma desordem psiquiátrica dissociativa. Relutantemente, ponho em ação algumas reservas de ceticismo.
     Como é, pergunto a mim mesmo, que os canalizadores nunca nos dão informações verificáveis que são inacessíveis por outros meios? Por que Alexandre, o Grande, nunca nos informa sobre a localização exata de sua tumba, Fermat sobre o seu último teorema, James Wilkes Booth sobre a conspiração do assassinato de Lincoln, Hermann Göering sobre o incêndio do Reichstag? Por que Sófocles, Demócrito e Aristarco não ditam as suas obras perdidas? Não querem que as gerações futuras conheçam as suas obras-primas?
     Se fosse anunciada alguma evidência real de vida após a morte, desejaria muito examiná-la; mas teria de ser uma evidência real científica, e não meramente anedótica.”


     “J. Z. Knight, do estado de Washington, afirma estar em contato com um ser de 35.000 anos de idade chamado “Ramtha”.
     Vamos supor que Ramtha pudesse ser interrogado. Poderíamos verificar se ele é quem afirma ser? Como é que ele sabe que viveu há 35 mil anos, mesmo aproximadamente? Que calendário emprega? Quem esta tomando nota dos milênios intermediários? Trinta e cinco mil mais ou menos o quê? Como é que eram as coisas há 35 mil anos? Ou Ramtha tem realmente essa idade, e nesse caso vamos descobrir alguma coisa sobre esse período, ou é uma fraude e ele (ou melhor, ela) vai se trair.
     Onde é que Ramtha vivia? (Sei que fala inglês com sotaque hindu, mas onde é que falavam assim há 35 mil anos?) Como era o clima? O que Ramtha comia? (Os arqueólogos têm alguma noção do que as pessoas comiam nessa época.) Quais eram as línguas autóctones, e qual era a estrutura social? Com quem Ramtha vivia – com a mulher, mulheres, filhos, netos? Qual era o ciclo de vida, a taxa de mortalidade infantil, a expectativa de vida? Eles tinham controle populacional? Que roupas vestiam? Como elas eram fabricadas? Quais eram os predadores mais perigosos? Os instrumentos e as estratégias de caça e pesca? Armas? Sexismo endêmico? Xenofobia e etnocentrismo? E, se Ramtha descendia da “elevada civilização” de Atlântida, onde estão os detalhes linguísticos, tecnológicos, históricos e de outra natureza? Como era sua escrita? Que responda. Em lugar disso, a única coisa que recebemos são homilias banais.”


     “Um armador estava prestes a mandar para o mar um navio de emigrantes. Ele sabia que o navio estava velho, e que não tinha sido construído com grande esmero; que vira muitos mares e climas, e com frequência necessitara de reparos. Ficou em dúvida de que possivelmente não estivesse em condições de navegar. Essas dúvidas lhe oprimiam a mente e o deixavam infeliz. Ele chegou a pensar que o navio talvez tivesse de ser totalmente revisado e reparado, ainda que isso lhe custasse grandes despesas. No entanto, antes que a embarcação partisse, conseguiu superar essas reflexões melancólicas. Disse para si mesmo que o navio passara por muitas viagens e resistira a muitas tempestades em segurança, que era infundado supor que não voltaria a salvo também dessa viagem. Ele confiaria em Deus, que não podia deixar de proteger todas essas famílias infelizes que estavam abandonando a sua terra natal em busca de dias melhores em outro lugar. Tiraria de sua cabeça todas as suspeitas mesquinhas sobre a honestidade dos construtores e empreiteiros. Dessa forma, ele adquiriu uma convicção sincera e confortável de que o seu navio era totalmente seguro e capaz de resistir às intempéries; assistiu à sua partida de coração leve e cheio de votos bondosos para o sucesso dos exilados naquele que seria o seu novo lar no estrangeiro; e embolsou o dinheiro do seguro, quando o navio afundou no meio do oceano, e não se soube de nada mais.
     O que devemos dizer desse homem? Sem dúvida, o seguinte: que ele foi de fato culpado da morte desses homens. Admite-se que ele acreditava sinceramente nas boas condições de seu navio; mas a sinceridade de sua convicção não o ajuda de modo algum, porque ele não tinha o direito de acreditar na evidência que estava diante de si. Não adquirira a sua opinião conquistando-a honestamente pela investigação paciente, mas reprimindo as suas dúvidas...”
William K. Clifford, The ethics of belief (A ética da fé), 1874


     “Produtos típicos da pseudociência e da superstição – essa não é uma lista abrangente, mas apenas representativa – são a astrologia; o Triângulo das Bermudas; o Pé Grande e o monstro do lago Ness; os fantasmas; o “mau-olhado”; as “auras” multicoloridas, semelhantes a halos, que supostamente circundam a cabeça de todas as pessoas (as cores são personalizadas); a percepção extra-sensorial (ESP), o que inclui a telepatia, a predição, a telecinese e a “visão remota” de lugares distantes; a crença de que 13 é um número de “azar” (razão pela qual muitos hotéis e edifícios comerciais na América do Norte passam diretamente do 12º. para o 14º. andar – por que correr o risco?); estátuas que sangram; a convicção de que andar com uma pata de coelho traz boa sorte; as varinhas adivinhas, a rabdomancia e a hidroscopia (feitiços de água); a “comunicação facilitada” no autismo; a crença de que as lâminas de barbear ficam mais afiadas quando mantidas dentro de pequenas pirâmides de papelão, e outros dogmas da “piramidologia”; os telefonemas dos mortos (nenhum deles a cobrar); as profecias de Nostradamus; a noção de que o número de crimes aumenta com a lua cheia; a quiromancia; a numerologia e a criptologia; os cometas, as folhas do chá e os partos de seres “monstruosos” como prodígios que anunciam eventos futuros (além de adivinhações correntes em épocas mais primitivas, realizadas pela observação das entranhas, da fumaça, das formas das chamas, das sombras e dos excrementos; pela escuta de estômagos borbulhantes e até, durante um breve período, pelo exame das tábuas de logaritmos); a “fotografia” de eventos passados, como a crucificação de Jesus; um elefante russo que fala fluentemente; “sensitivos” que, depois de terem os olhos cuidadosamente vendados, leem livros com as pontas dos dedos; Edgar Cayce (que predisse que na década 60 o continente “perdido” de Atlântida “apareceria”) e outros “profetas”, adormecidos e acordados; a charlatanice das dietas; as experiências fora-do-corpo (por exemplo, a quase-morte) interpretadas como acontecimentos reais no mundo externo; a fraude dos que curam pela fé; as mesas Ouija; a vida emocional dos gerânios, revelada pelo uso intrépido de um “detector de mentiras”; a água que recorda as moléculas que costumavam ser nela dissolvidas; a leitura do caráter pelas feições faciais ou pelos galos na cabeça; a confusão do “centésimo macaco” e outras afirmações que confirmam tudo o que uma pequena fração de nossa espécie quer que seja verdade; os seres humanos que se incendeiam espontaneamente e ficam chamuscados; grande parte dos biorritmos; as máquinas de movimento perpétuo, que prometem suprimentos ilimitados de energia (mas, por uma ou outra razão, são mantidas à distância do exame cuidadoso de um cético); as predições sistematicamente ineptas de Jeane Dixon (que em 1953 “predisse” uma invasão soviética do Irã, e em 1965 que a URSS venceria os Estados Unidos, colocando o primeiro ser humano sobre a Lua) e de outros “médiuns” profissionais; a predição das Testemunhas de Jeová de que o mundo terminaria em 1917, e muitas profecias semelhantes; a dianética e a cientologia; Carlos Castañeda e a “feitiçaria”; as afirmações de que foram encontrados os restos da arca de Noé; o “Horror de Amityville” e outras assombrações; e os relatos de que um pequeno brontossauro anda esmagando as árvores da floresta tropical da República do Congo no presente.”


     “Muitas doenças não psicogênicas podem ser pelo menos amenizadas pelo pensamento positivo, (...) sobretudo para gripes, ansiedade, depressão, dor e sintomas que podem ser gerados pela mente. É concebível que as endorfinas – as pequenas proteínas do cérebro que têm efeitos semelhantes aos da morfina – possam ser produzidas pela convicção. Dentro de limites restritos, a esperança, ao que parece, pode ser transformada em bioquímica. (...)
     Depois de ouvir muitas histórias de seus pacientes sobre alegadas curas pela fé, um médico de Minnesota chamado William Nolen passou um ano e meio tentando rastrear os casos mais notáveis. Ele revelou muitos casos de fraude, tendo inclusive desmascarado pela primeira vez na América do Norte uma “cirurgia mediúnica”. Mas não encontrou nenhum caso de cura de uma doença orgânica séria. Não havia nenhum caso de cura de pedras na vesícula ou de artrite reumatóide, por exemplo, muito menos de câncer ou doença cardiovascular. Quando o baço de uma criança é partido, observou Nolen, basta fazer uma simples operação cirúrgica, e a criança se recupera totalmente. Mas se levarem a criança a alguém que cura pela fé, ela morre em um dia. A conclusão do dr. Nolen: “Quando os que curam [pela fé] tratam de doenças orgânicas graves, são responsáveis por incalculáveis angústias e infelicidade [...]. Os curandeiros transformam-se em assassinos”.”


     “Se a oração funciona, por que Deus não consegue curar o câncer ou repor um membro amputado? Por que tanto sofrimento evitável, que Deus poderia impedir com facilidade? E, afinal, por que se tem que rezar a Deus? Ele não já sabe as curas que precisam ser realizadas?”


     “A mente pode causar certas enfermidades, até doenças fatais. Quando pacientes de olhos vendados são induzidos a acreditar que estão sendo tocados por uma folha de trepadeira ou arbustos venenosos, desenvolvem uma dermatite de contato feia e vermelha. A cura pela fé pode caracteristicamente ajudar esse tipo de doenças placebo ou mediadas pela mente: algumas dores nas costas e nos joelhos, dores de cabeça, gagueira, úlceras, estresse, febre de feno, asma, paralisia e cegueira histéricas, falsa gravidez (com interrupção das menstruações e inchaço abdominal). São todas doenças em que o estado de espírito pode desempenhar um papel-chave. Nas curas da alta Idade Média associadas com as aparições da Virgem Maria, a maior parte era de curas repentinas e pouco duradouras de paralisias parciais ou do corpo inteiro, que são plausivelmente psicogênicas. Além disso, afirmava-se por toda parte que só os crentes devotos podiam ser curados. Não causa surpresa que recorrer a um estado de espírito chamado fé possa aliviar sintomas causados, pelo menos em parte, por outro estado de espírito que talvez não seja muito diferente.
     Mas há mais uma coisa: o festival da Lua Cheia do Equinócio de Outono é um feriado importante nas comunidades chinesas tradicionais dos Estados Unidos. Verificou-se que, na semana anterior ao festival, a taxa de mortalidade na comunidade cai em 35%. Na semana seguinte, a taxa de mortalidade dá um pulo de 35%. Grupos de controle formados por pessoas que não são chinesas não acusam esse efeito. Poder-se-ia pensar que os suicídios são responsáveis pela diferença, mas somente são contadas as mortes por causas naturais. Poder-se-ia pensar que o estresse ou os excessos na alimentação seriam a causa, mas isso não explicaria a queda na taxa de mortalidade antes da lua cheia do equinócio de outono. O maior efeito se verifica entre as pessoas com doenças cardiovasculares, que são reconhecidamente influenciadas pelo estresse. O câncer apresentou um efeito menor. Depois de estudos mais pormenorizados, revelou-se que as flutuações na taxa de mortalidade ocorriam exclusivamente entre mulheres de 75 anos ou mais velhas. O festival da Lua Cheia do Equinócio de Outono é presidido pelas mulheres mais velhas das casas. Elas conseguiam protelar a morte por uma ou duas semanas para desempenhar o seu papel na cerimônia. Um efeito semelhante é verificado entre os homens judeus nas semanas ao redor da Páscoa – uma cerimônia em que os homens mais velhos desempenham o papel principal – e o mesmo acontece, por toda parte, com aniversários, formaturas e festas afins.
     Num estudo mais controverso, psiquiatras da Universidade de Stanford dividiram 86 mulheres com câncer de mama metastático em dois grupos: no primeiro, elas eram encorajadas a examinar o seu medo da morte e a tomar conta de suas vidas, enquanto no outro não recebiam nenhum apoio psiquiátrico especial. Para surpresa dos pesquisadores, o grupo que recebeu apoio não só experimentou menos dor, mas também viveu mais tempo – em média, dezoito meses mais.”


     “Uma das lições mais tristes da história é a seguinte: se formos enganados por muito tempo, a nossa tendência é rejeitar qualquer evidência do logro. Já não nos interessamos em descobrir a verdade. O engano nos aprisionou. É simplesmente doloroso demais admitir, mesmo para nós mesmos, que fomos enganados. Se deixarmos que um charlatão tenha poder sobre nós, quase nunca conseguiremos recuperar nossa independência. Por isso, os antigos logros tendem a persistir, enquanto surgem outros novos.”


     “Com frequência a ignorância engendra mais confiança que o conhecimento: são os que sabem pouco, e não os que sabem muito, os que asseveram positivamente que este ou aquele problema nunca será resolvido pela ciência.” (Charles Darwin, A descendência do homem – 1871)


     “Será a Eucaristia, como a Igreja ensina, muito mais do que uma metáfora fecunda, na realidade a carne de Jesus Cristo, ou será – química, microscopicamente e de outras maneiras – apenas uma hóstia que o padre dá ao fiel? O mundo será destruído ao final do ciclo venusiano de 52 anos, a menos que seres humanos sejam sacrificados aos deuses? O judeu que por acaso não foi circuncidado leva uma vida pior do que seus colegas de religião que aceitam a antiga aliança pela qual Deus exige um pedaço do prepúcio de todo fiel masculino? Existem seres humanos povoando inumeráveis outros planetas, como ensinam os Santos dos Últimos Dias? Um cientista louco criou os brancos a partir dos negros, como afirma a Nação do Islã? O Sol realmente não nasceria se não se praticasse o rito de sacrifício hindu (o que o Satapatha Brâmanenos assegura que aconteceria)?
     Podemos formar alguma ideia das raízes humanas da oração examinando as preces de religiões e culturas pouco familiares. Por exemplo, eis o que esta escrito numa inscrição cuneiforme sobre um selo cilíndrico babilônio do segundo milênio a.C: “Oh, Ninlil, Senhora das Terras, em teu leito nupcial, na morada de teu prazer, interceda por mim junto a Enlil, o teu amado. [Assinado] Mili-Shipak, Shatammu de Ninmah”.
     Já faz muito tempo que existiu um Shatammu em Ninmah, ou até mesmo uma Ninmah. Apesar do fato de Enlil e Ninlil terem sido deuses importantes – pessoas em todo o mundo ocidental civilizado lhes dirigiram preces durante 2 mil anos –, o pobre Mili-Shipak estava na realidade orando para um fantasma, para um produto socialmente tolerado de sua imaginação? E, nesse caso, que dizer de nós? Ou isso é blasfêmia, uma questão proibida – como era com certeza entre os cultuadores de Enlil?
     A oração funciona realmente? Quais?
     Em certa categoria de oração, pede-se a Deus que intervenha na história humana ou corrija alguma injustiça, real ou imaginada, ou uma calamidade natural – por exemplo, quando um bispo do oeste norte-americano reza para que Deus aja e acabe com uma seca devastadora. Por que é preciso rezar? Deus não sabia da seca? Não tinha consciência de que era uma ameaça aos paroquianos do bispo? O que fica subentendido sobre as limitações de uma divindade supostamente onipotente e onisciente? O bispo pediu que seus discípulos também rezassem. Deus fica mais inclinado a intervir quando muitos oram pedindo misericórdia ou justiça do que quando apenas alguns rezam? Ou considere-se o seguinte pedido, publicado em The Prayer and Action Weekly News: Iowa’s Weekly Christian Information Source em 1994:
     Você pode se juntar a mim nesta prece para que Deus destrua pelo fogo o planejamento familiar em Des Moines, de tal modo que ninguém possa confundir a ação com um incêndio humano, de tal modo que os investigadores imparciais terão de atribuir o fogo a causas milagrosas (inexplicáveis) e os cristãos terão de atribuir a catástrofe à Mão de Deus?
     Já discutimos a cura pela fé. Que dizer da longevidade através da oração? O estatístico vitoriano Francis Galton afirmava que – sendo iguais outras condições – os monarcas britânicos deviam ter vida muito longa, porque milhões de pessoas em todo o mundo entoavam diariamente o mantra sincero “Deus salve a rainha” (ou o rei). Entretanto, ele mostrava que, se havia alguma diferença, era que eles viviam tanto quanto os outros membros da classe aristocrática rica e mimada. Dezenas de milhões de pessoas em conjunto desejavam publicamente (embora não fosse exatamente uma prece) que Mao Zedong vivesse “por 10 mil anos”. Quase todo mundo no antigo Egito pedia aos deuses que o faraó vivesse “para sempre”. Essas preces coletivas falharam. O seu fracasso constitui um dado.”


     “Sem dúvida, muitas religiões – consagradas à reverência, ao temor, à ética, ao ritual, à comunidade, à família, à caridade e à justiça política e econômica – não são de forma alguma questionadas, mas antes enaltecidas pelas descobertas da ciência. Não há necessariamente conflito entre a ciência e a religião. Em certo nível, elas partilham papéis semelhantes e harmoniosos, e uma precisa da outra. O debate aberto e vigoroso, até mesmo a consagração da dúvida, é uma tradição cristã que remonta a Areopagitica de John Milton (1644). Parte do cristianismo e do judaísmo oficiais adota, e até antecipou, ao menos uma parcela da humildade, autocrítica, debate racional e questionamento da sabedoria recebida que o melhor da ciência oferece. Mas outras seitas, às vezes chamadas conservadoras ou fundamentalistas – e hoje elas parecem estar em ascensão, enquanto as religiões oficiais se mantêm quase inaudíveis e invisíveis –, optaram por tomar posição a respeito de questões sujeitas à refutação, e por isso têm algo a temer da ciência.
     As tradições religiosas são com frequência tão ricas e variadas que oferecem uma ampla oportunidade de renovação e revisão, sobretudo quando seus livros sagrados podem ser interpretados metafórica e alegoricamente.”


     “Segundo meu ponto de vista, as consequências de uma guerra nuclear global se tornaram muito mais perigosas com a invenção da bomba de hidrogênio, porque as explosões das armas termonucleares no ar são muito mais competentes para incendiar cidades, gerando enormes quantidades de fumaça, resfriando e escurecendo a Terra, e induzindo um inverno nuclear em escala global. Esse foi talvez o debate científico mais controverso em que estive envolvido (aproximadamente entre 1983-1990). Grande parte da discussão tinha motivações políticas. As implicações estratégicas do inverno nuclear eram perturbadoras para aqueles que abraçavam uma política de retaliação maciça com o objetivo de impedir um ataque nuclear, ou para aqueles que desejavam preservar a opção de um primeiro ataque maciço. Em qualquer um dos casos, as consequências ambientais provocariam a autodestruição de qualquer nação que lançasse um grande número de armas termonucleares, mesmo sem reação do adversário. Um segmento importante da política estratégica durante décadas e a razão para acumular dezenas de milhares de armas nucleares tornaram-se de repente muito menos dignas de crédito.
     Os declínios da temperatura global previstos no trabalho científico original sobre o inverno nuclear (1983) eram de 15 a 20°C; as estimativas atuais são de 10 a 15°C. Os dois valores estão em harmonia, considerando-se as incertezas irredutíveis nos cálculos. Os dois declínios de temperatura são muito maiores que a diferença entre as temperaturas globais atuais e as da última era glacial. Uma equipe internacional de duzentos cientistas tem avaliado as consequências a longo prazo da guerra termonuclear global, e eles chegaram à conclusão de que, com o inverno nuclear, a civilização global e a maioria das pessoas na Terra – inclusive as que vivem longe da zona-alvo na meia latitude norte – estariam a perigo, principalmente por não ter o que comer. Se algum dia ocorrer a guerra nuclear em grande escala, tendo cidades como alvo, o trabalho de Edward Teller e seus colegas nos Estados Unidos (e da equipe congênere chefiada por Andrei Sakharov na União Soviética) poderá ser responsável pelo fim do futuro humano. A bomba de hidrogênio é de longe a arma mais terrível já inventada.”


     “Considerem-se as principais religiões oficiais. Em Miquéias, recebemos ordens de agir com justiça e amar a misericórdia; no Êxodo, somos proibidos de cometer homicídio; no Levítico, a ordem é amar o nosso próximo como a nós mesmos; e, nos Evangelhos, somos instados a amar nossos inimigos; Entretanto, pensem nos rios de sangue derramado pelos seguidores ardorosos dos livros em que se encontram incrustadas essas exortações bem intencionadas.
     Em Josué e na segunda metade de Números, celebra-se o assassinato em massa de homens, mulheres, crianças e animais domésticos em inúmeras cidades por toda a terra de Canaã. Jericó é arrasada num kherem, uma “guerra santa”. A única justificativa oferecida para essa matança é a afirmação dos homicidas de que, em troca da circuncisão de seus filhos e da adoção de um conjunto particular de rituais, os seus ancestrais teriam recebido há muito tempo a promessa de que a terra era sua. Não se consegue tirar da Sagrada Escritura nem um vestígio de sentimento de culpa, nem um resmungo de inquietação patriarcal ou divina com essas campanhas de extermínio. Em vez disso, Josué “destruiu tudo o que respirava, como o Senhor Deus de Israel havia ordenado” (Josué, 10:40). E esses acontecimentos não são incidentais, mas centrais na narração do Velho Testamento. Histórias semelhantes de assassinatos em massa (e, no caso dos amalecitas, genocídio) podem ser encontrados nos livros de Saul, Ester, e em outros lugares da Bíblia, sem que apareça nenhuma angústia de dúvida moral. Tudo isso certamente perturbou os teólogos liberais de eras posteriores.
     Diz-se adequadamente que o diabo pode “citar as Escrituras para justificar seus fins”. A Bíblia esta cheia de tantas histórias de moral contraditória que toda geração encontra nela justificativa para quase todas as ações que propõe – de incesto, escravidão e homicídio em massa ao amor mais refinado, coragem e abnegação. E essa desordem moral de múltipla personalidade não se restringe ao judaísmo e ao cristianismo. Pode-se encontrá-la profundamente entranhada no Islã, na tradição hindu, e certamente em quase todas as religiões do mundo. Talvez não sejam os cientistas, mas as pessoas que são moralmente ambíguas.”


     “Mesmo quando é aplicado com sensibilidade, o ceticismo científico pode parecer arrogante, dogmático, cruel, e sem consideração para com os sentimentos e as crenças profundamente arraigadas dos outros. E deve-se dizer que alguns cientistas e céticos diligentes aplicam essa ferramenta como se fosse um instrumento grosseiro, com pouca finura. Às vezes é como se a conclusão cética viesse em primeiro lugar, como se as afirmações fossem rejeitadas antes do exame da evidência, e não depois. Todos nós acalentamos as nossas crenças. Em certo grau, elas definem o nosso eu. Quando aparece alguém que desafia o nosso sistema de crenças, declarando que sua base não é suficientemente boa – ou que, como Sócrates, faz perguntas embaraçosas em que não tínhamos pensado, ou demonstra que varremos para baixo do tapete pressupostos subjacentes de importância capital –, tal fato se torna muito mais do que uma busca do conhecimento. Nós o sentimos como um ataque pessoal. (...)
     Pela forma como o ceticismo é às vezes aplicado a questões de interesse público, há uma tendência para apequenar os opositores, tratá-los com ar de superioridade, ignorar o fato de que, iludidos ou não, os adeptos da superstição e da pseudociência são seres humanos como sentimentos reais que, como os céticos, tentam compreender como o mundo funciona e qual poderia ser o nosso papel nele. Em muitos casos, seus motivos se harmonizam com a ciência. Se a sua cultura não lhes deu todas as ferramentas necessárias para levar adiante essa grande busca, vamos moderar as nossas críticas com bondade. Nenhum de nós nasce plenamente equipado.”


     “Muitas críticas válidas à astrologia podem ser formuladas em algumas frases: por exemplo, a sua aceitação da precessão dos equinócios ao anunciar uma “Era de Aquário” e a sua rejeição da precessão dos equinócios ao traçar os horóscopos; o fato de negligenciar a refração atmosférica; a sua lista de objetos celestes supostamente significativos, que se limita sobretudo àqueles vistos a olho nu que eram conhecidos de Ptolomeu no século II e ignora uma enorme variedade de novos objetos astronômicos descobertos desde então (onde esta a astrologia dos asteroides próximos da Terra?); exigências inconsistentes de informações detalhadas sobre a hora do nascimento em relação à longitude e à latitude do lugar onde ocorreu; o fato de não conseguir passar no teste dos gêmeos idênticos; as grandes diferenças nos horóscopos traçados para os mesmos dados de nascimento por astrólogos diferentes; e a ausência de uma correlação comprovada entre os horóscopos e alguns testes psicológicos, como o Inventário da Personalidade Polifásica de Minnesota.”


     “Dos adultos norte-americanos, 63% não sabem que o último dinossauro morreu antes que o primeiro ser humano aparecesse; 75% não sabem que os antibióticos matam as bactérias, mas não matam os vírus; 57% não sabem que “os elétrons são menores que os átomos”. As pesquisas de opinião mostram que aproximadamente metade dos adultos norte-americanos não sabe que a Terra gira ao redor do Sol e leva um ano para fazer a translação em torno dele. Nas minhas classes de graduação na Universidade Cornell, sou capaz de encontrar estudantes inteligentes que não sabem que as estrelas se levantam e se põem à noite, nem tampouco que o Sol é uma estrela.”


     “Sem dúvida, há necessidade de empregar o bom senso na questão da divulgação. É importante não mistificar, nem falar com ar de superioridade. Ao tentar estimular o interesse do público, os cientistas têm ido às vezes longe demais – por exemplo, ao tirar conclusões religiosas injustificadas. O astrônomo George Smoot descreveu sua descoberta de pequenas irregularidades na radiação de rádio que restou do Big Bang como “a visão da face de Deus”. O físico Leon Lederman, laureado com o Nobel, descreveu o bóson de Higgs, um tijolo hipotético de matéria, como “a partícula de Deus”, e deu esse título a um de seus livros. (Na minha opinião, todas as partículas são de Deus.) Se o bóson de Higgs não existe, a hipótese de Deus é falsa? O físico Frank Tipler propõe que em futuro remoto os computadores vão provar a existência de Deus e operar a ressurreição de nossos corpos.”


     “Durante 99% do período de existência dos seres humanos, ninguém sabia ler ou escrever. A grande invenção ainda não fora criada. À exceção da experiência em primeira mão, quase tudo o que conhecíamos era transmitido oralmente. Como no brinquedo infantil “telefone sem fio”, durante dezenas e centenas de gerações, as informações foram lentamente distorcidas e perdidas.
     Os livros mudaram tudo isso. Passíveis de serem adquiridos a um preço barato, eles nos possibilitam interrogar o passado com alto grau de precisão; estabelecer comunicação com a sabedoria de nossa espécie; compreender o ponto de vista de outros, e não apenas o dos que estão no poder; considerar – com os melhores professores – as ideias extraídas a duras penas da Natureza pelas maiores inteligências que já existiram em todo o planeta e em toda a nossa história. Permitem que pessoas há muito tempo mortas falem dentro de nossas cabeças. Os livros podem nos acompanhar por toda parte. Pacientes quando custamos a compreender, eles nos deixam rever as partes difíceis quantas vezes desejarmos, e jamais criticam nossos lapsos. Os livros são essenciais para compreender o mundo e participar de uma sociedade democrática.”


     “Minha esposa Ann Druyan e eu somos de famílias que conheceram a pobreza aflitiva. Mas nossos pais foram leitores apaixonados. Uma de nossas avós aprendeu a ler porque o pai, agricultor de subsistência, negociou um saco de cebolas com um professor itinerante. Ela leu pelos cem anos seguintes. As escolas públicas de Nova York tinham martelado na cabeça de nossos pais a importância da higiene pessoal e a teoria de que as doenças são causadas por germes. Eles seguiam as recomendações sobre nutrição infantil do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos como se elas tivessem sido entregues no monte Sinai. O livro do governo sobre saúde infantil que tínhamos fora colado várias vezes, quando as páginas caíam. Os cantos estavam estragados. Os principais conselhos foram sublinhados. Era consultado em toda crise médica. Por certo tempo, meus pais pararam de fumar – um dos poucos prazeres que lhes era acessível nos anos da Depressão – para que os filhos pequenos pudessem ter vitaminas e suplementos minerais. Ann e eu tivemos muita sorte.”


     “Em pesquisas de opinião feitas nos Estados Unidos no início dos anos 90, dois terços de todos os adultos não tinham ideia do que fosse a “superinfovia”; 42% não sabiam onde se encontra o Japão; e 38% ignoravam o termo “holocausto”. Mas a porcentagem subia a 90 e tantos para quem tinha ouvido falar dos casos criminais de Menendez, Bobbitt e O. J. Simpson; 99% sabiam que o cantor Michael Jackson teria molestado sexualmente um menino. Os Estados Unidos podem ser a nação com a melhor indústria de entretenimento na Terra, mas o preço pago é muito alto.”


     Ubi dubium ibi libertas: Onde há dúvida, há liberdade.” (Provérbio latino)


     “Não é função de nosso governo impedir que o cidadão cometa um engano; é função do cidadão , impedir que o governo cometa um engano”. (Robert H. Jackson, juiz da Suprema Corte de Justiça dos Estados Unidos, 1950)


     “Em seu famoso livrinho Sobre a liberdade, o filósofo inglês John Stuart Mill afirmava que silenciar uma opinião é “um mal peculiar”. Se a opinião é correta, somos roubados da “oportunidade de trocar o erro pela verdade”; e, se esta errada, somos privados de uma compreensão mais profunda da verdade em “sua colisão com o erro”. Se conhecemos apenas o nosso lado da argumentação, mal sabemos sequer esse pouco; ele se torna desgastado, logo aprendido de cor, não testado, uma verdade pálida e sem vida.
     Mill também escreveu: “Se a sociedade deixa um número considerável de seus membros crescer como simples crianças, incapazes de agir sob influência da racionalidade, a culpa é da própria sociedade”. Thomas Jefferson expressou a mesma ideia de forma ainda mais vigorosa: “Se uma nação espera ser simultaneamente, num estado de civilização, ignorante e livre, espera o que nunca foi e nunca será”. Numa carta a Madison, ele deu continuidade a esse pensamento: “Uma sociedade que negocia um pouco de liberdade por um pouco de ordem vai perder ambas, e não merece nenhuma das duas”.”


     “A Declaração de Direitos desatrelou a religião do Estado, em parte porque muitas religiões estavam impregnadas de um espírito absolutista – cada uma convencida de que só ela tinha o monopólio da verdade e, assim, ansiosa para que o Estado impusesse essa verdade aos outros. Muitas vezes, os líderes e os praticantes das religiões absolutistas eram incapazes de perceber qualquer meio-termo ou de reconhecer que a verdade poderia se apoiar em doutrinas aparentemente contraditórias e abraçá-las.
     Os idealizadores da Declaração de Direitos tinham diante dos olhos o exemplo da Inglaterra, onde o crime eclesiástico da heresia e o crime secular da traição haviam se tornado quase indistinguíveis. Muitos dos primeiros colonos vieram para os Estados Unidos fugindo da perseguição religiosa, embora alguns deles ficassem bastante contentes em perseguir outras pessoas por causa de suas crenças. Os fundadores de nossa nação reconheceram que uma união entre o governo e religião tende a destruir o governo e a degradar a religião.”


     “Não adianta termos direitos, se não os usamos – o direito à liberdade de expressão quando ninguém contradiz o governo; à liberdade da imprensa quando ninguém esta disposto a fazer as perguntas difíceis; o direito de reunião quando não há protestos; o sufrágio universal quando menos da metade do eleitorado vota; a separação da Igreja e do Estado quando o muro entre eles não passa por uma manutenção regular. Pelo desuso, eles podem se tornar nada mais que objetos votivos, palavreado patriótico. Os direitos e as liberdades ou se usam ou se perdem.”