sábado, 22 de março de 2014

Vampiros: origens, lendas e mistérios – Marcos Torrigo

Editora: Ideia e Ação
ISBN: 978-85-7788-133-8
Opinião: **
Páginas: 192

      “Para o Vampiro não há céu nem inferno, ele é um paradoxo primevo a caminhar entre os mundos, um morto-vivo. Outrora homem, agora antideus. Sua antivida é pautada pela violência, sede de sangue, paixão e terror, o horror que se esconde nas sombras. Quebrando e destruindo todas as normas, regressando ao atavismo mais profundo. Um ser habitante do limbo, um limbo glorioso, isso é o Vampiro.”


      “O Vampiro na China, como em outras partes do mundo, é ativo ao cair a noite, voltando à sua sepultura ao raiar do Sol. Uma lenda chinesa trata da volta dos mortos e da destruição advinda disso. Um funcionário do governo chinês, Chang Kuei, estava em viagem quando, em dado momento, um temporal se abateu. Ele se refugiou em uma casa. Lá, encontrou uma bela dama. A princípio, tomaram chá, para mais tarde se unirem numa torrente de paixões. Ao despertar, no dia seguinte, qual não foi a sua surpresa ao se encontrar sobre a lápide de uma tumba, com seu cavalo a alguns metros dali. Ele o montou e saiu a toda brida pela estrada. Ao chegar a seu destino, foi interrogado devido à demora, e seu relato revelou onde estava a tumba de uma jovem prostituta que havia se enforcado. O fantasma dela havia seduzido inúmeras vítimas. O clamor dessa história chegou aos ouvidos do magistrado da região, que mandou abrir a tumba, onde o cadáver foi encontrado como se estivesse a dormir. Cremaram-no imediatamente. Curiosamente, após a destruição do corpo da vampira, uma seca que grassava a região teve fim.”


      “Uma diferença fundamental entre o Egito e outras culturas residia no fato de os sacerdotes egípcios literalmente mandarem em seus deuses, que eram compelidos a fazer a vontade do magista ou sacerdote, que para isso usavam encantamentos, talismãs, rituais e mais uma infinidade de práticas.”


      “O Cristianismo tem suas origens nos cultos dionisíacos e mitraicos, a sublimação, a busca pelo inatingível, o sofrimento como caminho iniciático, o coletivo em detrimento do individual. Uma lenda que passa bem o espírito original do Cristianismo é a lenda de Orfeu. Orfeu foi músico e poeta, ajudou a todos que pôde sem, contudo, poder ajudar a si mesmo, e a ele são atribuídas inúmeras curas. Com o poder de sua música contagiava as pessoas, transmitindo amor e paz, e até as feras se prostravam para ouvi-lo. Foi personagem na expedição dos argonautas atrás do velocino de ouro, tendo salvado todos com o poder de sua música, quando eles se defrontaram com as sereias.
     Na volta se casou, mas um infortúnio o esperava: sua bela esposa Eurídice foi picada por uma cobra e morreu, e ele, inconformado, vai até o Hades em busca de sua amada (sua música foi a chave utilizada). Por onde ele passava, nos sombrios domínios do submundo, sua música encantava a todos os horrores, as Moiras por um fugaz momento pararam de tecer, Cérbero, o cão de três cabeças de Hades, deitou-se ao embalo da suave música e as Harpias, seres rapaces e sanguinários, ficaram imobilizadas pela bela música. Por fim ele chegou até o poderoso Hades, regente do submundo e sua mulher Perséfone, e fez o pedido: queria poder reaver sua amada. Hades concorda, mas com a seguinte condição: ele não poderia olhar para trás até sair do submundo. Orfeu começa sua jornada de volta, mas a dúvida e a insegurança o invadiram, e, temendo ter sido enganado por Hades, ele se vira e vê sua amada pela última vez, e para nunca mais.
     Uma dor atroz o acompanhou por toda a vida, e para remediá-la ele pregou por todo o mundo, levando sua palavra de amor. Condenava os sacrifícios e pregava uma vida mais frugal, tornando-se assim um pregador espiritual. Seu fim foi trágico: muitos julgavam que ele queria se tomar um deus, e por isso teria sido despedaçado e morto. Algumas lendas atribuem a Dioniso a sua morte, pois o deus havia ficado enciumado de Orfeu. Por sua compaixão e bondade, Orfeu foi sempre lembrado; também por seu amor incondicional e o sacrifício pelo próximo, e por não poder ajudar a si mesmo e escapar do fim terrível. Essa lenda ilustra as raízes do Cristianismo e o que ele tinha de melhor, se esquecermos dos gnósticos, antes de sua secularização e total deturpação, seja do passado ou do presente, seja de católicos ou de protestantes.”

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