A conversão de São Paulo

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segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Crônicas (volume um) – Bob Dylan

Editora: Planeta
ISBN: 978-85-7665-079-9
Opinião: ★★★☆☆
Páginas: 328

“Quando cheguei, o inverno estava de matar. O frio era brutal, e cada artéria da cidade estava entupida de neve, mas eu tinha vindo do norte enregelado, um cantinho da terra onde bosques sombrios congelados e estradas glaciais não me chateavam. Eu podia transcender as limitações. Não estava em busca de dinheiro nem de amor. Tinha um senso de percepção ampliado, estava firme no meu rumo; para completar, era inexperiente e visionário. Minha mente estava forte como uma armadilha, e eu não precisava de qualquer garantia. Não conhecia vivalma naquela metrópole sombria e enregelante, mas tudo estava prestes a mudar – e depressa.” 


“Izzy Young me perguntou sobre a minha família. Contei que minha avó por parte de mãe morava conosco. Ela era cheia de nobreza e bondade, e certa vez me disse que a felicidade não esta na estrada que leva a algum lugar. A felicidade é a própria estrada. Também me ensinou a ser gentil porque todo mundo que você encontra esta travando uma dura batalha. (...) Ela sempre me dizia coisas do tipo: “Existem algumas pessoas que você nunca será capaz de conquistar. Deixe pra lá – deixe por isso mesmo”.” 


“Len Chandler e eu não podíamos acreditar naquelas matérias. Havia artigos sobre coisas como novas fobias dos tempos modernos, todas com nomes extravagantes em latim, medo das flores, medo do escuro, medo de altura, medo de atravessar pontes, de cobras, medo de envelhecer, medo de nuvens. Qualquer coisa podia ser amedrontadora. Meu grande medo era que meu violão desafinasse.” 


“A semana anterior me deixara exaurido. Havia voltado à cidade de meus primeiros anos de uma forma que jamais havia imaginado – para ver meu pai ser sepultado. Agora não haveria jeito de dizer o que nunca fui capaz de dizer antes. Enquanto eu crescia, as diferenças culturais e de geração haviam sido intransponíveis – nada além do som das vozes, uma conversa artificial e sem graça. Quando um de meus professores disse a ele que o filho tinha uma natureza de artista, meu pai, que falava direto e sem rodeios, perguntou: “Artista não é um sujeito que pinta?”. Parecia que eu sempre havia estado no encalço de alguma coisa, qualquer coisa que se movesse – um carro, um pássaro, uma folha soprada pelo vento –, o que quer que pudesse me levar para um lugar mais luminoso, alguma terra desconhecida rio abaixo. Eu não tinha a mais vaga noção do mundo despedaçado em que vivia, do que a sociedade podia fazer com você. 
Quando saí de casa, foi como se fosse um Colombo partindo para o Atlântico desolado. Parti e fui para os confins da terra – até o abismo onde a água despencava – e agora estava de volta à Espanha, de volta para onde tudo havia começado, na corte da rainha, com uma expressão semividrada no rosto, até com uns fiapos de barba. (...) No curto tempo em que fiquei lá, tudo me voltou, aquela baboseira toda, a velha ordem das coisas, a gente simplória, mas uma outra coisa também me ocorreu: que meu pai era o melhor homem do mundo, provavelmente cem vezes melhor do que eu; no entanto, ele não me entendia. A cidade em que ele vivia e a cidade em que eu vivia não eram a mesma. Isso posto, tínhamos agora mais coisas em comum do que nunca: eu também já era pai três vezes, havia um monte de experiências que eu queria compartilhar.” 


“Era engraçado. Tudo o que eu havia feito era cantar canções totalmente sinceras e que expressavam novas realidades poderosas. Eu tinha muito pouco em comum com a geração da qual supostamente era a voz e a conhecia menos ainda. Havia deixado minha cidade natal apenas dez anos antes, não estava vociferando as opiniões de ninguém. Meu destino assentava-se na estrada com o que quer que a vida trouxesse, não tinha nada a ver com representar qualquer tipo de civilização. Ser verdadeiro consigo mesmo, esse era o meu lance. (...) Eu realmente jamais fui mais do que era – um cantor de folk que fitava a névoa cinzenta com os olhos cegos pelas lágrimas e fazia canções que flutuavam em uma neblina luminosa. Agora a névoa havia soprado para o meu rosto e pairava sobre mim. Eu não era um pregador realizando milagres. Aquilo teria levado qualquer um à loucura.” 


“Parasitas em peregrinação vinham de longe, até da Califórnia. Imbecis invadiam nossa casa a qualquer hora da noite. De início, eram apenas nômades sem-teto entrando ilegalmente – parecia bastante inofensivo, mas então os patifes radicais em busca do Príncipe do Protesto começaram a chegar: personagens de aparência indescritível, mulheres com aspecto de gárgula, espantalhos, vadios à procura de festa, de uma boca-livre. (...) Não só isso, mas os sujeitos asquerosos que pisoteavam nosso telhado com suas botas poderiam até me levar a julgamento caso um deles despencasse lá de cima. Aquilo era muito transtornante. Eu queria mandar bala naquela gente. Todas aquelas assombrações, aqueles penetras, invasores de propriedade, demagogos, estavam despedaçando minha vida doméstica, e o fato de eu não poder botá-los a correr ou então eles poderiam prestar queixa contra mim realmente não me agradava nem um pouco. Cada dia e noite eram repletos de dificuldades. Estava tudo errado, o mundo era absurdo. Estavam me encurralando. Mesmo pessoas próximas e queridas não ofereciam alívio. 
Uma vez, no meio daquela maluquice, eu rodava de carro com Robbie Robertson, guitarrista do que mais tarde se chamaria The Band. Eu me sentia como se pudesse muito bem estar vivendo em outra parte do sistema solar. Ele se vira e me diz: “Para onde você acha que vai levar isso?”. 
Eu disse: “Levar o quê?” 
“Você sabe, toda a cena musical.” Toda a cena musical! A janela do carro estava aberta uns três centímetros. Deixei-a toda aberta pelo resto do percurso, senti uma rajada de vento soprar no meu rosto e esperei que o que ele havia dito se dissipasse – era como lidar com uma conspiração. Nenhum lugar era longe o bastante. Não sei o que todos os outros estavam fantasiando, mas eu fantasiava sobre o estilo de vida de um simples assalariado, uma casa em uma quadra arborizada com cerquinha de madeira branca, rosas no quintal. Teria sido legal. Era o meu sonho mais profundo. Depois de um tempo você aprende que privacidade é algo que se pode vender, mas não se pode comprar de volta.” 


“Criatividade tem muito a ver com experiência, observação e imaginação, e se um desses elementos esta faltando, a coisa não funciona. Para mim, agora era impossível observar qualquer coisa sem ser observado.” 


“Mas os dez anos anteriores (1978-87) tinham me desbotado e desgastado profissionalmente. Muitas vezes eu chegava perto do palco antes de um show e me pegava pensando que não estava mantendo a palavra comigo mesmo. Que palavra era, eu não conseguia lembrar direito, mas sabia que havia uma em algum lugar. Tentei decifrar a situação, mas não parecia haver nenhuma fórmula. Se eu tivesse visto que aquilo se aproximava, talvez pudesse ter mantido a coisa nos eixos, mas não percebi. Meus dias de apresentações ininterruptas haviam empacado por uns tempos, tinham chegado a uma parada quase total. Eu havia dado tiros no meu próprio pé muitas vezes. É bacana ser conhecido como uma legenda, e o público paga para ver uma, mas, para a maioria das pessoas, uma vez é o bastante. Você tem que entregar a mercadoria, não desperdiçar o seu tempo, nem o dos outros. Eu não havia sumido do mapa realmente, mas a estrada havia se estreitado, estava quase fechada, quando era de se esperar que fosse bastante ampla. Eu ainda não havia sumido de vez. Estava me retardando na pista. Dentro de mim havia uma pessoa perdida, e eu precisava achá-la. Tentei algumas vezes, de quando em quando, dei um duro danado. A natureza tem remédio para tudo, e é para onde eu geralmente vou em busca dele. Eu iria para dentro de um barco, uma casa móvel flutuante – esperando ouvir uma voz –, rastejando em baixa velocidade, enfiado em uma praia recôndita e deserta à noite, no isolamento – alce, urso e veado por perto, o elusivo lobo cinzento não muito distante, suaves noites de verão escutando o canto do mergulhão-do-norte. Pensando nas coisas. Mas não adiantava. Eu me sentia acabado, um traste vazio completamente consumido. Estática demais na minha cabeça, e eu não conseguia descarregar. Onde quer que eu vá, sou um trovador dos anos 60, uma relíquia do folk-rock, um artesão da palavra de tempos passados, um chefe de Estado fictício de um lugar que ninguém conhece. Estou no inferno do esquecimento cultural. Tudo e mais um pouco. Não consigo me soltar. Quando saio da noite, as pessoas me veem chegando. Eu sei o que elas estão pensando. Tenho que encarar as coisas como elas são.”

“Presunção não é necessariamente uma doença. É mais uma fraqueza. Uma pessoa presunçosa pode facilmente ser erguida e, com isso, derrubada. Vamos encarar os fatos: uma pessoa presunçosa tem uma noção falsa do próprio valor, uma opinião inflada sobre si mesma. Uma pessoa assim pode ser completamente controlada e manipulada se você souber quais botões apertar.” 


“Deitei, escutei os grilos e a vida selvagem do outro lado da janela, na escuridão sinistra. Eu gostava da noite. As coisas crescem à noite. Minha imaginação fica a meu dispor à noite. Todas as minhas ideias preconcebidas se vão. Às vezes você pode estar procurando o paraíso nos lugares errados. Às vezes ele pode estar sob os seus pés. Ou na sua cama.” 


“(...) Acho que todo o bem do mundo talvez já tenha sido feito”, disse Sun Pie. (...) Quando saía da loja ele me perguntou: 
“Tem tudo de que precisa, então?” 
“Sim, mas preciso de algo mais”.” 


“Meu pai tinha sua própria visão das coisas. Para ele, a vida era trabalho duro. Ele vinha de uma geração de valores, heróis e músicas diferentes, e não tinha certeza de que a verdade fosse libertar alguém. Ele era pragmático e sempre tinha uma palavra de conselho críptica: “Lembre-se, Robert, na vida pode acontecer qualquer coisa. Mesmo que não tenha todas as coisas que quer, seja grato pelas coisas que você não tem e não quer ter”.” 


“Gostaria de ter sido capaz de fornecer as canções que Danny Lanois queria, como “Masters of War”, “Hard Rain”, “Gates of Eden”, mas canções desse tipo foram escritas sob circunstâncias diferentes, e as circunstâncias nunca se repetem. Não exatamente. Eu não poderia mais obter canções daquele tipo nem para ele, nem para ninguém. Para fazer isso, você tem que ter poder e domínio sobre os espíritos. Fiz isso uma vez, e uma vez foi o bastante. Qualquer dia apareceria alguém que faria de novo, alguém que poderia ver as coisas por dentro, a verdade das coisas, não metaforicamente, mas realmente ver, como ver o metal por dentro e fazê-lo derreter, ver como era e revelar com palavras duras e percepção perversa.” 


“Às vezes as coisas de que você mais gostou e que mais significado tiveram para você são coisas que não significaram absolutamente nada na primeira vez em que você ouviu falar delas ou as viu.” 



“A cena da música folk havia sido um paraíso do qual eu tinha que sair, como Adão teve que deixar o jardim. Era simplesmente perfeito demais. Dentro de poucos anos, se desencadearia uma tempestade de bosta. As coisas começariam a ser queimadas. Sutiãs, certificados de alistamento, bandeiras americanas, pontes também – todo mundo estaria sonhando em se dar bem. A psique nacional mudaria, e em muitos aspectos lembraria a noite dos mortos-vivos. A estrada seria traiçoeira, e eu não sabia para onde ela iria levar, mas a seguiria mesmo assim. Era um mundo estranho que se desenrolaria à frente, um mundo trovejante, com arestas pontudas luminosas. Muitos entenderam errado e jamais conseguiram entender direito. Fui direto pra dentro desse mundo. Ele estava escancarado. Uma coisa era certa: não apenas não era governado por Deus, como também não era governado pelo Diabo.”

2 comentários:

VON disse...

Seu blog está com link neste endereço: http://atat-pa.blogspot.com/
Boa sorte e boas leituras!
Monteiro P-48

Doney Stinguel disse...

“Se Elvis liberara o corpo, Dylan liberou a mente. Dylan não inventou o rock – ele apenas lhe deu um cérebro. Quando os Beatles e os Stones viraram doidos de pedra – with a little help from their friend Bob, aliás –, Dylan foi criar os filhos e galinhas ao lado do celeiro, em Woodstock. Enquanto John e Paul estavam querendo pegar na mão de alguma garota – “I wanna hold your hand” –, Dylan já estava deixando o quarto dela, levando os cobertores (e agora?), deixando-a só com suas pílulas, sua anfetamina e sua dor, como se ela já fosse mulher feita. You're a big girl now, baby blue.
Enquanto os Rolling Stones flertavam com o diabo, numa macumba para turista, Dylan, o demiurgo, o exorcista, tentava conjurar demônios interiores –, os dele e os nossos. Quando Jimi Hendrix eletrificou “All Along the Watchtower” ao limite do tolerável e tornou-se um deus, Dylan tocava a mesma música ao violão, sozinho no porão como Robert Johnson revivido. (...)
Os pontos de vista de Bob Dylan acabaram se tornando um mapa – tortuoso e áspero, labiríntico e sem saída, mas, ainda assim, um mapa – para toda a história da música e da cultura pop pós-1962. Um roteiro sem porto seguro para uma, duas, talvez três gerações. A trilha – não apenas sonora – que ele abriu, e ao longo da qual percorreu todas as estações, manteve seus seguidores permanentemente à beira do abismo. Bob Dylan queimou as pontes que o levaram até onde esta, “and he didn’t look back” – não tem vocação para virar estátua de sal.” (Eduardo Bueno)