A conversão de São Paulo

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terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Pequena Abelha – Chris Cleave

Editora: Intrínseca
ISBN: 978-85-98078-93-9
Opinião: ***
Páginas: 272

     “Nas pernas escuras da moça havia muitas cicatrizes brancas pequeninas. E pensei: Será que essas cicatrizes estão no seu corpo inteiro, como as luas e estrelas no seu vestido? Achei que isso também seria bonito, e peço-lhe neste instante que faça o favor de concordar comigo que uma cicatriz nunca é feia. Isto é o que aqueles que produzem as cicatrizes querem que pensemos. Mas você e eu temos de fazer um acordo e desafiá-los. Temos de ver todas as cicatrizes como algo belo. Combinado? Este vai ser nosso segredo. Porque, acredite em mim, uma cicatriz não se forma num morto. Uma cicatriz significa: “Eu sobrevivi”.”


      “Queria chegar lá o mais depressa possível, porque àquela altura as multidões em Londres estavam começando a me assustar. Na minha aldeia, nunca víamos mais de cinquenta pessoas num lugar só. Se alguém visse mais do que isso, significava que a pessoa tinha morrido e ido para a cidade dos espíritos. É para lá que os mortos vão, para uma cidade, para viverem juntos aos milhares porque não precisam de espaço para cultivarem seus campos de mandioca. Quando você morre, não precisa de mandioca, só de companhia.”


     “– Minha consciência é quase apenas o que me resta.”


      “Não era minha intenção fazer Sarah sofrer mais ainda. Não queria contar a ela o que havia acontecido, mas agora tinha de contar. Não conseguia parar de falar porque, agora que eu começara minha história, essa história queria ser concluída. Não podemos escolher onde começar e onde parar. Nossas histórias é que são as contadoras de nós.”


     “– Vou lhe dizer: os problemas são como o oceano – cobrem dois terços do mundo.”


      “Talvez aos vinte anos seja natural ter curiosidade sobre a vida, mas aos trinta simplesmente se desconfia de todo mundo que ainda tem uma.”


      “Sarah me contou porque começou seu caso com Lawrence. Não foi difícil de compreender. Todos nós estamos tentando ser livres neste mundo. Liberdade pra mim vai ser o dia em que eu não tiver mais medo de os homens virem me matar. Liberdade para Sarah é um longo futuro em que ela vai poder viver a vida que escolher. Não acho que ela seja fraca nem tola por viver a vida que Deus lhe deu. Um cão é um cão e um lobo é um lobo – isso é um provérbio em meu país.
     Para ser sincera, não dizemos isso em meu país. Por que teríamos um provérbio que fala de lobos? Temos duzentos provérbios sobre macacos, trezentos sobre mandioca. Somos sábios com as coisas que conhecemos. Mas já reparei que, no seu país, posso falar o que quiser contanto que acrescente: Isso é um provérbio em meu país. As pessoas balançam a cabeça e ficam muito sérias. É um bom truque. Liberdade para Sarah é um longo futuro em que ela vai poder viver a vida que escolher. Um cão é um cão e um lobo é um lobo e uma abelha é uma abelha. Liberdade para uma garota como eu é chegar viva ao fim de cada dia.
     O futuro é outra coisa que eu teria de explicar às moças da minha terra. O futuro é o maior produto de exportação da Nigéria. Sai tão depressa pelos nossos portos marítimos que a maioria do nosso povo nunca o viu nem sabe como é. No meu país, o futuro existe em pepitas de ouro escondidas na rocha ou é colhido em reservas escuras no fundo da terra. Nosso futuro se esconde da luz, mas o povo de vocês chega lá com um grande talento para adivinhar onde esta. Dessa forma, de fração em fração, nosso futuro se torna o seu futuro. Admiro sua feitiçaria pela sutileza e pela variedade. A cada geração, o processo de extração é diferente. É verdade que somos ingênuos. Em minha aldeia, por exemplo, fomos pegos de surpresa ao descobrirmos que o futuro poderia ser bombeado para dentro de barris de 42 galões e embarcado para uma refinaria. Aconteceu enquanto estávamos preparando a refeição da noite, enquanto a fumaça azulada da lenha se misturava com o vapor denso das panelas de mandioca ao sol dourado do entardecer. Foi tão repentino, que as mulheres tiveram que nos agarrar, nós, as crianças, e correr conosco para dentro da selva. Ficamos escondidas lá escutando os gritos dos homens que tinham ficado para lutar – e, enquanto isso, na refinaria, por um processo de destilação, o futuro de minha aldeia era separado em suas frações. A fração mais pesada, a sabedoria de nossos avós, foi usada para asfaltar as estradas de vocês. As frações medianas, as economias cuidadosas de nossas mães, as moedinhas que elas guardavam depois da época da colheita, essas foram usadas para abastecer seus carros. E a fração mais leve de todas – os nossos sonhos fantásticos de crianças nas horas mais sossegadas das noites de lua cheia –, bem, esses saíram em forma de gás, que vocês engarrafaram e estocaram para o inverno. Dessa maneira, nossos sonhos vão manter vocês aquecidos. Agora que são parte do seu futuro, não acuso vocês de usá-los. Vocês provavelmente não fazem a menor ideia de onde eles vieram.
     Vocês não são pessoas más. Vocês não enxergam o presente e nós não enxergamos o futuro. No centro de detenção de imigrantes, eu costumava achar graça quando os funcionários me explicavam: Vocês africanos têm de vir para cá só porque não são capazes de ter um bom governo lá na sua terra. E eu dizia a eles que perto de minha aldeia existia um rio largo e profundo com cavernas escuras sob as margens, onde os peixes eram descorados e cegos. Não havia luz nas cavernas deles, de modo que depois de milhares de gerações a espécie deles desaprendeu o truque de enxergar. Entendeu o que eu quero dizer?, eu perguntava aos funcionários do centro de detenção. Sem luz, como se pode manter a visão? Sem um futuro, como conservar a visão do governo? Poderíamos tentar quanto quiséssemos em nosso mundo. Poderíamos ter um Ministério da Hora do Almoço muito diligente. Poderíamos ter um excelente Primeiro-ministro da Parte Mais Calma do Final da Tarde. Mas quando chega o crepúsculo – esta vendo? – nosso mundo desaparece. Não se pode enxergar além do dia porque vocês levaram o amanhã. E porque vocês têm o amanhã diante de seus olhos, não enxergam o que esta sendo feito hoje.”


      “Charlie inclinou a cabeça de lado para assistir. As orelhas de seu capuz de Batman se deitaram.
     – Esse é o Coringa, não é? – perguntou ele.
     – Não, Charlie. Esse é o primeiro-ministro.
     – Ele é bandido ou mocinho?
     Pensei com meus botões.
     – Metade das pessoas pensa que ele é bandido e a outra metade pensa que é mocinho.
     Charlie deu uma risadinha.
     – Isso é besteira – disse ele.
     – Isso é democracia – disse eu. – Se vocês não a tivessem, iriam querer ter.”


     “– Não estou convencido de que você seja o tipo de ajuda que Sarah precisa.
     – Sou o tipo de ajuda que vai tomar conta do filho dela como se ele fosse meu irmão. Sou o tipo de ajuda que vai limpar a casa dela e lavar a roupa dela e cantar para ela quando ela estiver triste. Que tipo de ajuda é você, Lawrence? Talvez você seja o tipo de ajuda que só aparece quando quer ter relações sexuais.
     Lawrence sorriu de novo.
     – Não vou considerar isso como uma ofensa – ele disse. – Você é uma daquelas mulheres que têm ideias engraçadas sobre os homens.
     – Sou uma daquelas mulheres que já viram os homens fazerem coisas que não são engraçadas.
     – Ora, faça-me o favor. Estamos na Europa. Somos um pouco mais civilizados aqui.
     – Diferentes de nós africanos, você acha?
     – Se prefere interpretar assim.
     Balancei a cabeça.
     – Um cão é um cão e um lobo é um lobo.
     – É o que dizem em seu país?
     Sorri.
     Lawrence franziu a testa.
     – Não entendo você – ele disse. – Acho que não tem noção de como sua situação é complicada. Se tivesse, não estaria sorrindo.
     Dei de ombros.
     – Se eu não pudesse sorrir, acho que minha situação seria ainda mais complicada.”


     “– (...) Contemporizar não é? Não é triste, a gente crescer? Começamos como meu Charlie. Pensando que podemos matar todos os bandidos e salvar o mundo. Depois ficamos um pouco mais velhos, talvez da idade de Abelhinha, e percebemos que uma parcela da maldade do mundo esta dentro de nós, que talvez sejamos parte dessa maldade. E então ficamos ainda mais velhos, e mais à vontade, e começamos a nos perguntar se aquela maldade que nós vimos em nós é realmente tão má assim, afinal.”


      “Não sei por quanto tempo corri. Talvez por cinco minutos, ou talvez pelo tempo que um ser divino leva para criar um universo, fazer a humanidade à sua imagem mas não encontrar consolo nisso, depois presenciar horrorizado a morte lenta e cinzenta daquilo, sabendo estar ainda totalmente sozinho e desconsolado.”

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