A conversão de São Paulo

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domingo, 9 de outubro de 2011

A revolução brasílica – o projeto político e a estratégia da independência – Fernando Diégues

Editora: Objetiva
ISBN: 85-7302-613-8
Opinião: ***
Páginas: 311

     “Não é segredo para ninguém – são muitos os exemplos na História – que o resultado final de uma estratégia quase nunca corresponde exatamente àquele para o qual ela fora concebida. Esse desvio pode ter várias causas. Pode ter origem em uma estratégia baseada no conhecimento parcial ou impreciso da situação; alicerçada, talvez, em pressupostos pouco realistas, derivados de apreciações subjetivas, de um voluntarismo indiferente ao peso muitas vezes irredutível das pressões, do antagonismo e das resistências a que anteriormente me referi. Pode também ser provocado por eventos geradores de mudanças inesperadas, sobretudo se favoráveis ao adversário, na situação para a qual a estratégia havia sido inicialmente imaginada. Tais elementos de incerteza tendem a projetar-se e a refletir-se nas próprias formas de ação que, em conjunto, dão sentido a uma estratégia.”


      “Atingir objetivos (políticos) não é tão fácil quanto desejá-los. A pertinência da escolha é sempre algo imponderável. Por isso ela se prende, no fundo, por mais que se pretenda atribuir-lhe um caráter racional, a uma visão intuitiva, cuja sintonia à realidade e consequente contribuição para a eficácia da ação só a experiência e a sensibilidade políticas podem até certo ponto garantir.”


      “(José Bonifácio escreve que) O homem civilizado é levado a progredir por razões materiais e psicológicas, mas o homem em estado “selvático” é naturalmente preguiçoso, porque tem poucas necessidades. O índio “não tem ideia de propriedade, nem desejos de distinções e vaidades sociais, que são as molas poderosas que põem em atividade o homem civilizado”.”


      “Mudadas as circunstâncias, mudam-se os costumes”. (José Bonifácio)


      “Se, na visão do estadista, a importância das prováveis perdas e danos é esmagadora, desproporcional ao valor do objetivo, a alternativa militar deixa de ter sentido, de ser compensadora. Mas, no outro extremo, se as perdas e danos são julgados suportáveis, e o objetivo é percebido como vital, a alternativa militar passa a ser admissível. Configura-se aí a terceira condição de racionalidade político-estratégica: o valor e a probabilidade de o objetivo ser atingido devem superar a importância e a probabilidade da ocorrência de perdas e danos.”


      “Tais considerações sugerem um padrão de interações estratégicas comum aos três teatros de operações – Bahia, Cisplatina e Piauí-Maranhão. Embora com personagens e andamentos diferentes, a guerra segue, nesses cenários, o mesmo enredo em três atos.
     Primeiro: as forças independentistas desencadeiam a ação coercitiva expressa no plano militar de duas maneiras: o bloqueio na Bahia e Cisplatina, a pressão insurrecional no Piauí.
     Segundo: os partidários de Lisboa respondem ao cerco independentista – Madeira e Álvaro da Costa tomam a decisão de romper o bloqueio e Fidié investe sobre a Parnaíba para reprimir a insurreição.
     Terceiro: do confronto entre a ação coercitiva dos independentistas e as iniciativas de ataque das forças leais a Lisboa, evidenciam-se a vulnerabilidade militar e as minguantes possibilidades de sucesso dessas forças. Os rescaldos do confronto projetam-se no espaço moral do conflito e aumentam o desgaste material português. Modelam o curso final da guerra.”


      “São diversas as causas atribuídas pelos historiadores às guerras. Em alguns casos, eles destacam as pressões econômicas e demográficas. Em outros, dão ênfase a motivações ideológicas ou culturais. Há quem sublinhe o caráter decisivo da personalidade dos líderes. Dentro de um enfoque mais amplo, outros estudiosos se perguntam se, a despeito das causas explícitas nos livros de História ou declaradas por seus protagonistas, as guerras não teriam simplesmente a função de dissipar tensões sociais acumuladas, como se fosse um ritual sangrento, um estuário natural da agressividade coletiva. (...)
     Rivalidades políticas, interesses contrariados, lutas pelo poder ou hegemonia são itens quase sempre presentes na descrição das causas das guerras. Não é raro, contudo, discernir em suas entrelinhas, à sombra de fatos mais salientes, referências mais ou menos explícitas à formação de um clima psicológico peculiar. Essas referências sugerem o aparecimento e a progressiva consolidação de comportamentos políticos fortemente marcados pela expectativa do conflito, pelas ameaças que se cruzam no ar sedimentando compromissos que tendem a se tornar irreversíveis.”


      “Um comentário do sociólogo Gaston Bouthoul resume a situação: ‘Não são os fatos que impõem a guerra, mas a interpretação que os dirigentes dão aos fatos’.”


      “Corolário natural da troca de acusações é atribuir ao adversário a responsabilidade pelo conflito. (...) Sendo a responsabilidade imputada ao adversário, as providências militares adquirem caráter eminentemente defensivo aos olhos de quem as concebe. O adversário é inconsequente e obstinado. Nosso lado não quer a guerra, procura uma solução pacífica para a crise, mas o outro rejeita o entendimento e se prepara para a luta. Não há alternativa, senão fazer face à agressão.”


      “A guerra é um ato de violência destinado a obrigar o adversário a executar nossa vontade.” (Clausewitz)


      “(...) Para isso, nada melhor do que o culto político. Mais importante não é o objeto do culto, mas o culto em si mesmo: é pela presença e participação que os indivíduos se irmanam, se reconhecem na adesão à sociedade em construção e experimentam, unidos, o sentimento de mudança. O culto reforça e dá vida aos laços político-sociais emergentes com a Independência. Sem eles, os cidadãos estariam condenados ao desamparo ideológico e à solidão política. A sociedade desfaleceria.”


      “Não são precisas investigações muito profundas para concluir que o compromisso de paz engendra consequências ardilosas – não quanto à separação em si, mas quanto aos ajustes pelos quais se concretiza. A separação de Portugal se consuma, mas às custas de obrigações que tolhem a liberdade de ação do governo brasileiro. Obrigações que suscitam o comentário mordaz do historiador Carlos Alfredo Bernardes: ‘Quando os Estados Unidos se separaram da Inglaterra, tornaram-se um país independente; quando o Brasil se separou de Portugal, tornou-se um país independente de Portugal’.”


      “As eleições eram um produto do ambiente social, um mecanismo de controle político a serviço dos poderosos. Refletem as relações de mando e sujeição herdadas da fase colonial. ‘A máquina eleitoral é automática’, diria mais tarde Joaquim Nabuco, ‘e por mais que mudem a lei, o resultado há de ser o mesmo’. A vontade dos senhores sobrepõem-se à “popular”, não poucas vezes pela força, como o mesmo Nabuco denuncia: ‘A faca de ponta e a navalha, exceto quando a baioneta usurpava essas funções, tinham sempre a maioria das urnas’. Denúncia que Euclides da Cunha reitera ao referir-se com ironia, quase oitenta anos depois da Independência, e já proclamada a Abolição, às ‘guardas pretorianas dos capangas’, que reforçavam a ‘pau e a tiro, a soberania popular’ nas ‘mazorcas periódicas que a lei marca, denominado-as “eleições”, eufemismo que é entre nós o mais vivo traço das ousadias da linguagem’.”


      “Mas não é essa uma das armadilhas da política: acomodar, sob a forma de palavras, expectativas que acabam por mostrarem-se ilusórias? O projeto original consistia em um apanhado de ideias. As ideias ecoam na realidade, motivam a ação, que, no entanto, nem sempre se desdobra conforme o sentido delas. Por meio dos fatos, das circunstâncias e pressões da realidade é que o projeto real, até então difuso nas entrelinhas da estratégia, se revela. Tudo se passa como se existissem dois projetos: um conceitual e outro real. O primeiro brota da visão do estadista; o segundo, da cegueira dos homens.”


      “José Bonifácio explica as razões da preferência pelo sistema monárquico. ‘Acusam-me alguns, que plantei a Monarquia – sim, porque vi que não podia ser de outro modo então; porque observara que os costumes e o caráter do povo eram eminentemente aristocráticos; porque era preciso interessar as antigas famílias e os homens ricos, que detestavam ou temiam os demagogos; porque Portugal era Monárquico e os brasileiros eram macacos imitadores. Sem a Monarquia não haveria um centro de força e união, e sem esta não se poderia resistir às Cortes de Portugal e adquirir a Independência Nacional’.”

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