A conversão de São Paulo

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quarta-feira, 16 de junho de 2010

Eneida - Virgílio

Editora: Martins Fontes
ISBN: 978-85-336-2060-5
Opinião★★★☆☆
Páginas: 449

“Pois dentro do espaçoso templo, enquanto
Cada cousa per si passa em resenha,
Aguardando a rainha, enquanto admira
Qual a fortuna seja da cidade,
Dos artistas as mãos rivalizando
Entre si, e das obras o trabalho,
Por ordem vê pintadas as pelejas
De todas a guerra Ilíaca, por fama
Já pelo mundo inteiro divulgadas.
Príamo, e o filho vê d’Atreu, e Aquiles
Para com ambos eles implacável.
Pára absorto, e co’as lágrimas nos olhos,
Acates, disse, que lugar no globo,
Que região existe, que já cheia
Dos nossos infortúnios não esteja?
Eis Príamo: a virtude aqui seus prêmios
Tem, a desdita lágrimas, e aos males
Da humanidade as almas são sensíveis.
Desvanece os temores: esta fama
Alguma salvação há de trazer-te.”


(...) “Meus próprios males
Me ensinaram a ser compadecida”.


“Que sonhos indecisa, Ana, me aterram!
Que novo hóspede entrou em nossa casa!
Quão gentil! de quão forte peito e braço!
Qu’é progênie dos deuses, creio, e certo
Não creio em vão. Temor vileza indica.
Ai, quanto o hão perseguido adversos fados!
Quantas batalhas conta pelejadas!
Se n’alma fixo e imoto eu não tivesse
Em laço conjugal não mais unir-me
A homem algum, depois qu’o amor primeiro
Com a morte falseou minha esperança;
Se do tálamo tão aborrecida,
E fachos de Himeneu, não estivesse,
Talvez a esta só culpa eu sucumbira.
Ana, (o confesso enfim), depois do infausto
Destino de Siqueu, mísero esposo;
Depois que ensanguentou irmão cruento
Com assassínio atroz nossos penates,
Este só atraiu os meus sentidos,
Meu ânimo impeliu, prostrou de todo:
Reconheço os sinais da antiga chama.
Mas antes se abra a terra e nos abismos
Me sepulte, ou o padre omnipotente
Co’um raio às sombras e profunda noite,
Ó santa Pudicícia, qu’eu te ofenda,
Ou chegue a violar os teus preceitos!
Aquele que me uniu a si primeiro,
Esse levou consigo os meus amores:
Ele os tenha, ele os guarde no sepulcro!
Disse, e banhou de lágrimas o seio.”


“Aonde, ó Fábios, me levais cansado?
Tu, Máximo, és aquele que nos salvas
A República só temporizando.
Com mais brandura os respirantes bronzes
Fundirão outros, não duvido, e vultos
Farão surgir do mármore animados;
Terão mais eloquentes oradores,
As voltas mostrarão do céu co’a vara
E dirão por que modo os astros surgem.
Tu, Romano, a reger co’o império os povos
Te aplica: estas serão as tuas artes:
E impor as leis da paz, aos submetidos
Perdoar clemente, e debelar os soberbos.”


“Os Enéades súbito turbados
O odioso semblante reconhecem
E os membros giganteus! Então de um salto
Pândaro ingente avança e ardendo em ira
Pela fraterna morte: “Não é este
O palácio dotal (lhe diz) de Amata,
Nem Árdea te contém dentro em seus muros.
Estás em campo imigo e tem por certo
Que com vida escapar te é impossível.”
Com sorrir desdenhoso lhe responde
Turno: “Se tens denodo, principia,
Vamos às mãos, que a Príamo irás breve
Contar que novo Aquiles deparaste.”
Disse, e Pândaro logo uma haste rude
Ainda com os nós e a casca crua
Com quanta força tinha lhe dispara:
Recebe o vento o golpe, que a Satúrnia
Juno, dos céus baixando, lh’o desvia,
E a hasta na porta se cravou tremendo.
“D’esta lança que o braço meu te vibra
Agora tu não fugirás por certo,
Que da lança e do golpe o autor é outro.”
Disse, e co’a espada erguida se prolonga,
Com desumana cutilada o colhe
Por entre as fontes e as imberbes faces,
De meio a meio fende-lhe a cabeça.
C’o baque e peso ingente o chão se abala,
Já pela terra lânguidos os membros
E do cérebro as armas salpicadas
Morrendo estira; em duas metades
A cabeça lhe pende dividida.”


“Por que o silêncio a quebrar me obrigas?
E a concentrada dor mostrar com vozes?”


“A fortuna é de audazes”.


“Mal que de longe os batalhões turbando
Purpúreo no cocar, purpúreo em roupas,
Dom da noiva, Mezêncio o vê em guisa
De faminto leão, que, estimulado
De apetite frenético, mil voltas
Já dera em torno de um curral, se acaso
Veado alticornígero descobre,
Ou fugaz cabra, as fundas fauces abre,
Ouriça as jubas, fica-se estendido
Da presa sobre as vísceras e lava
Em negro sangue os truculentos beiços;
Assim o audaz Mezêncio se arremessa
Dos inimigos no esquadrão cerrado.”

“Já o féretro e grades outros tecem
De vergônteas e de roble e arbúteas varas
E o pronto leito de folhagem cobrem.
Sobre esta agreste cama o moço estendem,
Qual flor colhida por virgíneos dedos
De branda viola, ou lânguido jacinto
De quem inda o fulgor, inda a beleza
Não fugiram de todo, bem que a terra
Já forças lhe não dá, nem dá sustento.”

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