A conversão de São Paulo

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sábado, 20 de dezembro de 2008

Os Bruzundangas - Lima Barreto

Editora: L&PM
ISBN: 525408129
Opinião: ***
Páginas: 142
     “Dentre as leis que estatuía a escola de poesia de Bruzundanga, eu me lembro de algumas. Ei-las:
1ª - Sendo a poesia o meio de transportar o nosso espírito do real para o ideal, deve ela ter como principal função provocar o sono, estado sempre profícuo ao sonho.
2ª - A monotonia deve ser sempre procurada nas obras poéticas; no mundo, tudo é monótono (Tuque-Tuque).
3ª - A beleza de um trabalho poético não deve ressaltar desse próprio trabalho, independente de qualquer explicação; ela deve ser encontrada com as explicações ou comentários fornecidos pelo autor ou por seus íntimos.
4ª - A composição de um poema deve sempre ser regulada pela harmonia imitativa em geral e seus derivados.”


      “(...) aquela cena que a nobreza de sangue provocou, a Taine, no começo da sua grande obra Origens da França Contemporânea, descreve em poucas e eloquentes palavras. Eu as traduzo:
      “Na noite de 14 para 15 de julho de 1789, o Duque de Larochefoucaud-Liancourt fez despertar Luís XVI para lhe anunciar a tomada da Bastilha.
      É uma revolta? – diz o rei.
      Sire – respondeu o duque –, é uma revolução.”


      “O ideal de todo e qualquer natural da Bruzundanga é viver fora do país. Pode-se dizer que todos anseiam por isso; e, como Robinson, vivem nas praias e nos morros, à espera do navio que os venha buscar.”


      “São assim como nós que temos grande admiração pelo Barão do Rio Branco por ter adjudicado ao Brasil não sei quantos milhares de quilômetros quadrados de terras, embora, em geral, nenhum de nós tenha de seu nem os sete palmos de terra para deitarmos o cadáver.”


      “Reuniu-se, pois, a Constituinte com toda a solenidade. Vieram para ela, jovens poetas, ainda tresandando à grossa boêmia; vieram para ela, imponentes tenentes de artilharia, ainda cheirando aos “cadernos” da escola; vieram para ela, velhos possuidores de escravos, cheios de ódio ao antigo regime por haver libertado os que tinham; vieram para ela, bisonhos jornalistas da roça recheados de uma erudição à flor da pele, e também alguns dos seus colegas da capital, eivados do Lamartine, História dos girondinos, e entusiastas dos caudilhos das repúblicas espanholas da América. Era mais ou menos esse o pessoal de que se compunha a nova Constituinte.”


      “Assim, por exemplo, a exigência principal para ser ministro era a de que o candidato não entendesse nada das coisas da pasta que ia gerir.
     Por exemplo, um ministro da Agricultura não devia entender coisa alguma de agronomia. O que se exigia dele é que fosse um bom especulador, um agiota, um judeu, sabendo organizar trusts, monopólios, estancos, etc.”


      “A Constituição da Bruzundanga era sábia no que tocava às condições para elegibilidade do Mandachuva, isto é, o Presidente.
     Estabelecia que devia unicamente saber ler e escrever; que nunca tivesse mostrado ou procurado mostrar que tinha alguma inteligência; que não tivesse vontade própria; que fosse, enfim, de uma mediocridade total.
     Nessa parte a Constituição foi sempre obedecida”.


      “O chefe do governo de Bruzundanga é um homem metódico, pontual nos pagamentos, não gasta dinheiro em coisas inúteis, como seja, em livros.”


      “Uma das curiosidades da Armada daquele país é a indolência tropical dos seus navios que, às vezes, por mero capricho, teimam em não andar.
     Enfim, a força armada da Bruzundanga é a coisa mais inocente deste mundo. Em face dela, todo o pacifismo ou humanitarismo é perfeitamente ridículo.”


      “O regime de propriedade agrícola lá, regime de latifúndios com toques feudais, faz que o trabalhador agrícola seja um pária, quase sempre errante de fazenda em fazenda, donde é expulso por dá cá aquela palha, sem garantias de espécie alguma - situação mais agravada ainda pela sua ignorância, pela natureza das culturas, pela politicagem roceira e pela incapacidade e cupidez dos proprietários.
     Estes, em geral, são completamente inábeis para dirigir qualquer coisa, indignos da função que a obscura marcha das coisas depositou em suas mãos. Pouco instruídos, apesar de formados, nisto ou naquilo, e sem iniciativa de qualquer natureza, despidos de qualquer sentimento de nobreza e generosidade para com os seus inferiores, mais ávidos de riqueza que o mais feroz taverneiro, pimpãos e arrogantes, as suas fazendas ou usinas são governadas por eles, quando o são, com a dureza e os processos violentos de uma antiga fazenda brasileira de escravos.
     Todos eles são políticos, senão de destaque, ao menos com influência nos lugares em que têm as suas fazendas agrícolas; e, apoiados na política, fazem o que querem, são senhores de baraço e cutelo, eles ou os seus prepostos.”


      “É deveras difícil dizer qualquer coisa sobre a sociedade da Bruzundanga.
     É difícil porque lá não há verdadeiramente sociedade estável. Em geral, a gente da terra que forma a sociedade, só figura e aparece nos lugares do tom, durante muito pouco tempo. Os nomes mudam de trinta em trinta anos, no máximo. Não há, portanto, na sociedade do momento tradição, cultura acumulada e gosto cultivado em um ambiente propício. São todos arrivistas e viveram a melhor parte da vida tiranizados pela paixão de ganhar dinheiro, seja como for. Os melhores e os mais respeitáveis são aqueles que enriqueceram pelo comércio ou pela indústria, honestamente, se é possível admitir que se enriqueça honestamente.”


      “O mal da província não esta só nessas pequenas vaidades inofensivas; o seu pior mal provém de um exagerado culto ao dinheiro. Quem não tem dinheiro nada vale, nada pode fazer, nada pode aspirar com independência. Não há metabolia de classes. A inteligência pobre que se quer fazer, tem que se curvar aos ricos e cifrar a sua atividade mental em produções incolores, sem significação, sem sinceridade, para não ofender os seus protetores. A brutalidade do dinheiro asfixia e embrutece as inteligências.”


      “Os médicos da Bruzundanga imaginam-se sábios e literatos.
     Pode-se afirmar que não são nem uma coisa nem outra.”


      “É sábio, na Bruzundanga, aquele que cita mais autores estrangeiros; e quanto mais de país desconhecido, mais sábio é. Não é, como se podia crer, aquele que assimilou o saber anterior e concorre para aumentá-lo com os seus trabalhos individuais. Não é esse o conceito de sábio que se tem em tal país.
     Sábio, é aquele que escreve livros com as opiniões dos outros.
     Houve um que, quando morreu, não se pôde vender-lhe a biblioteca, pois todos os livros estavam mutilados. Ele cortava-lhes as páginas para pregar no papel em que escrevia os trechos que citava e evitar a tarefa maçante de os copiar.” 

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

A Comédia dos Erros - William Shakespeare

Editora: L&PM
ISBN: 8525413631
Opinião: ****
Páginas: 100


     “Quem ao meu bem-estar me deixa entregue, faz entrega de todo em todo inútil, pois é do que careço. Sou no mundo como uma gota de água que à procura de outra gota no oceano se encontrasse, e que, ao cair ali, toda desejos de achar a companheira, desaparece na busca, sem ser vista.”


     “Da liberdade os homens são senhores; o tempo é o mestre deles; vão e vêm, conforme o tempo o enseja.”


     “Serei, acaso, redondo assim, para me dardes ambos pancada sem parar, como se eu fosse bola de futebol? Sem mais nem menos, me aplicais pontapés. A durar isso, tereis de me mandar forrar de couro.”


     “Desta arte fiel ele ficara ao leito. Sei que as mais belas joias, sem defeito, com o uso o encanto perdem. O próprio ouro se desgasta.”


     “Que aconteceu, querido esposo, para que estranho, assim, ficasses de ti mesmo? Sim, de ti mesmo, disse, pois te encontras afastado de mim, que inseparável sendo de ti, me considero ainda melhor que a melhor parte de ti mesmo. Pois sabe, meu amor: fora mais fácil no mar deitares uma gota de água para, intacta, depois a recolheres, sem adição nenhuma ou qualquer perda, do que sem mim de mim te retirares.”


     “A mancha do adultério em mim se alastra; trago no sangue o crime da luxúria, pois se ambos somos um, e prevaricas, na carne trago todo o teu veneno, por teu contágio me tornando impura.”


 (Drômio de Siracusa) “ [...] Posso-vos afiançar que a sua rodilha ensebada poderia arder durante um inverno da Polônia. Se ela viver até o dia do Juízo final, há de arder uma semana mais do que o mundo.
(Antífolo de Siracusa) – De que cor é ela?
      Negra como estes sapatos, mas de rosto não tão limpo, e isso por suar tanto, que poderíamos patinhar com lama acima dos sapatos.
     – É defeito que se corrige com água.
      Impossível, senhor; isso faz parte dela; nem todo o dilúvio de Noé chegaria para limpá-la.
      Como se chama?
      Vera, senhor; mas seu nome e três quartas, isto é, uma vara e três quartas não a alcançariam de uma a outra anca.
      Então é larga de verdade!
      Não mede mais dos pés à cabeça do que de uma a outra cadeira; é esférica; parece um globo terrestre; eu seria capaz de encontrar nela todos os países do mundo.”


     “Na construção, o amor só faz ruínas?”

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

O Guardião de Memórias - Kim Edwards

Editora: Sextante
ISBN: 9788599296141
Opinião: ****
Páginas: 368


          “Parecia não haver fim para as mentiras que uma pessoa era capaz de dizer, depois de começar.”


     “David tinha tentado proteger o filho das coisas que sofrera quando criança: pobreza, preocupações, tristezas. Mas seus próprios esforços haviam criado perdas que ele nunca tinha previsto. A mentira crescera entre eles como uma rocha, obrigando-os a também crescerem de forma estranha, como árvores retorcidas em volta de um pedregulho.”


     “Nas montanhas, e talvez no mundo em geral, havia uma teoria da compensação que dizia que, para tudo que era dado, outra coisa se perdia, de maneira imediata e visível. Bom, você herdou a cabeça, mesmo que sua prima tenha herdado a beleza. Elogios sedutores como flores, mas espinhosos com seus opostos: É, você pode ser esperto, mas é feio como o diabo; você pode ser bonito, mas não tem cérebro. Compensação, equilíbrio do universo. David ouvia acusações em cada comentário sobre seus estudos – ele havia recebido demais, havia tirado tudo – e, nos carros e caminhões, o silêncio se avolumava até parecer impossível que algum dia uma voz humana pudesse rompê-lo.”


     “A luz refletiu nas lâminas da tesoura. David lembrou-se do brilho do bisturi ao fazer a episiotomia, lembrou-se de como havia flutuado para fora de si, para assistir à cena do alto, de como os acontecimentos daquela noite haviam desencadeado o rumo de sua vida, uma coisa levando a outra, portas se abrindo onde não havia nenhuma, enquanto outras se fechavam, até ele chegar a esse momento específico, com uma estranha procurando o desenho intrincado que se escondia no papel e esperando a resposta dele, e não havia nada que ele pudesse fazer nem qualquer lugar para onde pudesse ir.”


     “Paul não tinha tomado banho, estava com o cabelo grosso e engordurado, e o forte cheiro de suor, cigarro e roupa suja grudara-se à sua pele. Odores acres, marcantes, cheiros de homem.”


     “Ele nunca havia compreendido a tristeza da mãe, embora mais tarde houvesse passado a carregá-la consigo, para onde quer que fosse.”

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

A Descoberta da América pelos Turcos - Jorge Amado

Editora: Record
ISBN: 8501041610
Opinião: ***
Páginas: 171
     “Raduan Murad, fugitivo da justiça que o perseguia por vadiagem e jogatina, letrado de prosa aliciante, revelara ao sírio Jamil Bichara, companheiro de porão, que, tendo se debruçado noites insones sobre alfarrábios relativos à primeira viagem de Colombo, descobrira, na relação de marujos que compunham a equipagem de uma das três caravelas da festiva excursão, o nome de um certo Alonso Bichara. O mouro Bichara, engajado quem sabe a pulso, um dos tantos heróis esquecidos na hora das celebrações e das recompensas: o almirante cobre-se de glória, os marinheiros cobrem-se de merda – apesar de erudito, Raduan Murad tinha a boca suja.
     Verdade ou intrujice? Raduan Murad era imaginoso, inventivo, e, quanto a escrúpulos, não os cultivava.”


     “A referência à descoberta da América vai por conta das comemorações atuais, onipresentes: hoje em dia não pode o pacato cidadão dar o menor passo, soltar o menor peido sem que lhe tombe sobre a cabeça o Quinto Centenário. Da Descoberta, dizem os descendentes dos impávidos que descobriram o outro lado do mar, da Conquista, exclamam os descendentes dos índios massacrados, dos negros escravizados, das culturas arrasadas à passagem de mercenários e missionários conduzindo a Cruz de Cristo e a pia batismal.”


     “Quanto a dizer, como alguns diziam, despeitados, ser Raduan Murad ferrenho adversário do trabalho, ter-lhe santo horror, o que sucede com frequência aos letrados, trata-se de injustiça e má vontade, evidentes. Se de fato durante a primeira juventude o Professor – assim muitos o tratavam com deferência – recusara-se com obstinação a misteres pouco condizentes com sua capacidade intelectual, não havia trabalhador mais assíduo e pontual em mesa de pôquer ou der qualquer outro jogo de azar.”


     “Norberto de Faria, sergipano amulatado, homem de honra e de visão, colocou a quantia necessária à disposição de Jamil por nele confiar e dispensou os juros por lhe ter estima. Dizia-o sócio de mesa e cama, pois haviam traçado as mesmas raparigas, comido no mesmo prato, possuíam gostos semelhantes: mamas pequenas, bundas grandes, xoxotas apertadas – concordâncias gratas reforçam os laços de amizade.”


     “Quanto à caçula, Fárida, diziam-na a mais formosa entre as turcas do armarinho. Um pitéu, na cúpida designação de Alfeu Bandeira, aprendiz de alfaiate sob as vistas de mestre Ataliba Reis, dono da Alfaiataria Inglesa, cujas portas se abriram em frente às do sobrado dos Jafet. Alfeu degustou o pitéu, que diga-se a verdade, se oferecia num descaro condenado com vigor pelas famílias da vizinhança: tamanho agarramento, tanta esfregação, tinha de acabar mal. Acabou bem, em casamento às pressas. Véu de tule esvoaçando sobre a intrépida barriguinha de Fárida, prenha de quatro meses, flores de laranjeira na grinalda, símbolo de pureza e virgindade. Virgem, só se for no sovaco, comentou mestre Ataliba, escolhido padrinho pelo noivo. No sovaco, será?, duvidou Raduan Murad, padrinho da noiva, cético como convém a um erudito.”


     “Raduan porém descarou a objeção: diferença de idade pouco ou nada significa para o êxito do matrimônio. Rapaz moço, começando a vida, necessita ter a seu lado esposa ajuizada para orientá-lo. Em casamento de velho com menina, o marido corre perigo de corno, mas no vice-versa não há o que temer, mulher não pega chifre, não é mesmo? Argumentação irrespondível.”


     “Aprendiam boa educação no aconchego do lar e ao léu das ruas. Ainda adolescentes, adotavam e praticavam os artigos dos códigos dominantes na região, leis não-escritas mas incontestes. Chegada a ocasião de tomar esposa, deve-se escolher mulher virgem e virtuosa, trabalhadora e honesta, pois a ela caberá parir e criar os filhos, cuidar da casa, viver no recato e na modéstia, submissa. Beleza e juventude são dotes secundários, sobretudo se o dote principal da noiva se medir em léguas de terra ou em portas de casa de comércio – O Barateiro abria três portas para a rua. Formosura, graça e mocidade são preferências quando se busca amásia, xodó ou companhia para uma noite na cama, para uma cacetada. Nesses casos sim, prescreve-se rapariga linda, moderninha, xoxota nova e aconchegante. Sadios princípios, alicerces da família e da sociedade.
     – Mas se a dita cuja for um par de anos mais velha do que tu? – prosseguiu Raduan em seu inquérito.
     – E que tem isso, professor? Nunca ouvi dizer que idade seja defeito. Só não serve se for furada. Tapar buraco aberto por outro, isso eu não faço. Tem que ser donzela.”


     “E por que não? Adma era parada dura, indigesta. Enfrentá-la exigia decisão, coragem e estômago de camelo. Alto, seco de corpo, musculoso, lanzudo, Adib assemelhava-se a um dromedário. A juventude e a cobiça faziam-no capaz de mastigar palha e achar gostoso, de enfrentar solteirona velhusca e avinagrada, arrombar-lhe os tampos com deleite, levá-la ao desvario, à beatitude, à paz com a vida. Bem fodida, Adma deixaria de aporrinhar a humanidade.”


     “– Deixe comigo, professor. Mulher a gente amansa no mimo ou na porrada. Ou bem variando as duas coisas.”

terça-feira, 28 de outubro de 2008

As pequenas memórias - José Saramago

Editora: Companhia das Letras
ISBN: 853590929X
Opinião: ***
Páginas: 144
     “Foi nestes lugares que vim ao mundo, foi daqui, quando ainda não tinha dois anos, que meus pais, migrantes empurrados pela necessidade, me levaram para Lisboa, para outros modos de sentir, pensar e viver, como se nascer eu onde nasci tivesse sido consequência de um equívoco do acaso, de uma casual distracção do destino, que ainda estivesse nas suas mãos emendar. Não foi assim. Sem que ninguém de tal se tivesse apercebido, a criança já havia estendido gavinhas e raízes, a frágil semente que então eu era havia tido tempo de pisar o barro do chão com seus minúsculos e mal seguros pés, para receber dele, indelevelmente, a marca original da terra, esse fundo movediço do imenso oceano do ar, esse lodo ora seco, ora húmido, composto de restos de vegetais e animais, de detritos de tudo e de todos, de rochas moídas, pulverizadas, de múltiplas e caleidoscópicas substâncias que passaram pela vida e à vida retornaram, tal como vêm retornando os sóis e as luas, as cheias e as secas, os frios e os calores, os ventos e as calmas, as dores e as alegrias, os seres e os nadas. Só eu sabia, sem consciência de que o sabia, que nos ilegíveis fólios do destino e nos cegos meandros do acaso havia sido escrito que ainda teria de voltar à Azinhaga para acabar de nascer.”


      “Então digo à minha avó: “Avó, vou dar por aí uma volta.” Ela diz “Vai, vai”, mas não me recomenda que tenha cuidado, nesse tempo os adultos tinham mais confiança nos pequenos a quem educavam. Meto um bocado de pão de milho e um punhado de azeitonas e figos secos no alforje, pego num pau para o caso de ter de me defender de um mau encontro canino, e saio para o campo.”


      “Quem pela primeira vez me visita (vendo os vários adereços equinos de enfeite) pergunta-me quase sempre se sou cavaleiro, quando a única verdade é andar eu a sofrer dos efeitos da queda de um cavalo que nunca montei (porque não me deixaram montá-los). Por fora não se nota, mas a alma anda-me a coxear há setenta anos.”


      “... chamava-se António, usava bigode e estava casado com uma Conceição por causa de quem, anos mais tarde, terá havido problemas, pois minha mãe suspeitou, ou teve prova suficiente, de certas intimidades entre o meu pai e ela, exageradas à luz de qualquer critério de apreciação, incluindo os mais tolerantes.”


      “Suponho que terá sido por causa desta recordação que não suporto as fumigações de pauzinhos do Oriente com que hoje é costume empestarem-nos as casas, julgando que assim as espiritualizam...”


      “Meu avô era um homem como tantos outros nesta terra, neste mundo, talvez um Einstein esmagado sob uma montanha de impossíveis, um filósofo, um grande escritor analfabeto.”


      “Tu estavas, avó, sentada na soleira da tua porta, aberta para a noite estrelada e imensa, para o céu de que nada sabias e por onde nunca viajarias, para o silêncio dos campos e das árvores assombradas, e disseste, com a serenidade dos teus noventa anos e o fogo de uma adolescência nunca perdida: “O mundo é tão bonito e eu tenho tanta pena de morrer.” Assim mesmo. Eu estava lá.”

Pequena explicação

     Antes que se confundam, “pequena explicação” não é o título do último livro que li...
     Só gostaria de salientar que as partes dos livros de não-ficção, especialmente os dois últimos, foram bem maiores do que o normal, assim como muitos dos que possivelmente virão por aí, porque não gostaria de me esquecer das idéias que tinha absorvido - o que fatalmente ocorrerá com o andar dos anos - e não poder relê-las com maior precisão.
     A própria teoria da relatividade geral, por exemplo, é um exemplo peremptório: já li sobre ela várias vezes, e a falta de alguém com quem comentar o assunto, ou mesmo de quem pudesse me explicar mais sobre a mesma, faz com que vagarosamente os ensinamentos percam-se nos escaninhos da mente. Daí a necessidade de textos maiores nos livros de não-ficção, o que não implica que sejam melhores ou piores. Apenas gostaria de levar os principais conceitos comigo se é que isto é possível mesmo nos livros deste calibre.
     Bem, este não é o blog adequado para eu escrever, ao contrário, orgulho-me de nele não digitar minhas palavras...
     Termino por aqui, antes que haja demasiada incoerência no título da postagem.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Mundos Paralelos - Michio Kaku

Editora: Rocco
ISBN: 9788532522764
Opinião: ***
Páginas: 372

     “Quando comecei a estudar as grandes mitologias do mundo, aprendi que havia dois tipos de cosmologia na religião, a primeira, baseada num único momento em que Deus criou o universo, e a segunda, baseada na ideia de que o universo sempre existiu e sempre existirá. (...) Mais tarde, comecei a ver que estes temas comum entremeavam muitas outras culturas. Para a mitologia chinesa, por exemplo, no início havia apenas o ovo cósmico. O deus bebê P’an Ku residiu por quase uma eternidade dentro do ovo, que flutuava num mar informe de Caos. Quando finalmente eclodiu, P’an Ku cresceu muito, mais de três metros por dia, de forma que a metade superior do ovo ficou sendo o céu e a inferior, a terra. Passaram-se 18 mil anos, P’an Ku Morreu para dar origem ao nosso mundo: o seu sangue se transformou em rios, os olhos no sol e na lua, e sua voz, no trovão.
     De muitas maneiras, o mito de P’an ku espelha um tema encontrado em várias outras religiões e mitologias antigas, o de que o universo surgiu de repente creatio ex nihilo (criado do nada). Na mitologia grega, o universo começou num estado de caos (de fato, a palavra “caos” vem do grego e significa “abismo”). Este vazio sem forma nem traços característicos é com frequência descrito como um oceano, como nas mitologias babilônica e japonesa. Este tema é encontrado na mitologia do antigo Egito, onde o deus sol Rá emergiu de um ovo flutuante. Na mitologia polinésia, o ovo cósmico é substituído por uma casca de coco. Os maias acreditavam numa variação desta lenda, na qual o universo nasce. Mas acaba morrendo depois de cinco mil anos, para ressurgir de novo, sem parar, repetindo um ciclo interminável de nascimento e destruição.
     Esses mitos do tipo creatio ex nihilo contrastam nitidamente com a cosmologia segundo o budismo e certas formas de hinduísmo. Nestas mitologias, o universo é atemporal, sem começo nem fim. Existem muitos níveis de existência; o mais alto porém é o Nirvana, que é eterno e pode ser alcançado apenas por meio da mais pura meditação. No Mahapurana hindu, esta escrito: “Se Deus criou o mundo, onde estava Ele antes da Criação?... Saiba que o mundo não foi criado, como o próprio tempo, e não tem começo nem fim.”


     “O satélite WMAP mediu os ecos do próprio big bang e nos deu a medida exata da idade do universo com uma surpreendente precisão de 1 por cento: 13,7 bilhões de anos.”


     “No cenário inflacionário, no primeiro trilionésimo de trilionésimo de segundo, uma misteriosa força de antigravidade fez o universo se expandir muito mais rápido do que originalmente se pensava. O período inflacionário foi inconcebivelmente explosivo, com o universo se expandindo muito mais rápido do que a velocidade da luz. (Isto não desobedece à lei de Einstein de que nada pode viajar mais rápido do que a luz, porque é espaço vazio que esta se expandindo. Para objetos materiais, a barreira da luz não pode ser quebrada.) Numa fração de segundo, o universo expandiu por um fator inimaginável de 10 elevado à 50.”


     “(Einstein descobriu nas equações de Maxwell o que o próprio autor não viu): que a luz viajava a uma velocidade constante. (...) A velocidade da luz c era a mesma em todas as referencias inerciais (isto é, referências viajando a uma velocidade constante). (...) Não importa a velocidade em que você estivesse, jamais conseguiria ultrapassar a luz.

     Isto levou imediatamente a uma miríade de paradoxos. Imagine, por um momento, um astronauta tentando alcançar a velocidade de um feixe de luz. O astronauta dispara no seu foguete até estar emparelhado com o feixe de luz. Um espectador na terra assistindo a esta caçada hipotética diria que o astronauta e o feixe de luz estavam se movendo um ao lado do outro. Entretanto, o astronauta diria algo completamente diferente, que o feixe de luz afastava-se dele, como se o seu foguete estivesse parado.
     A pergunta que desafiava Einstein era: como duas pessoas podem ter interpretações tão diferentes do mesmo acontecimento? Na teoria de Newton, podia-se sempre alcançar um feixe de luz; no mundo de Einstein, isto era impossível. Havia, ele percebeu de repente, uma falha fundamental nos fundamentos da física. Na primavera de 1905, Einstein lembrou: “A minha mente entrou em turbulência”. Num golpe, ele finalmente encontrou a solução: o tempo pulsa em ritmos diferentes, dependendo da velocidade com que você se move. De fato, quanto mais rápido você se move, mais lentamente o tempo progride. O tempo não é um valor absoluto, como Newton pensava. Segundo Newton, o tempo pulsava de maneira uniforme em todo o universo. Para Einstein, entretanto, relógios diferentes batem em ritmos diferentes por todo o universo.
     Se o tempo pudesse mudar dependendo da sua velocidade, Einstein percebeu então que outras quantidades, como o comprimento, matéria e energia também deveriam mudar. Ele descobriu que quanto mais rápido você se movia, mais as distâncias se contraíam e mais pesado você fica. (De fato, conforme você se aproximasse da velocidade da luz, o tempo iria ficando mais lento até parar, as distâncias se contrairiam até o nada e a sua massa se tornaria infinita, o que é completamente absurdo. É por isso que você não pode romper a barreira da luz, que é basicamente o limite de velocidade no universo).”


     “Do mesmo modo que a descoberta de Newton unificou a física terrestre com a física celeste, Einstein unificou espaço e tempo. Mas ele também mostrou que a matéria e a energia estão unificadas e, portanto, podem se transformar uma na outra. Se um objeto se torna mais pesado quanto mais rápido ele se move, então isto significa que a energia de movimento esta sendo transformada em matéria. O inverso também é verdadeiro – matéria pode ser convertida em energia. Einstein computou quanta energia seria convertida em matéria e encontrou a fórmula E = mc2 (ao quadrado), isto é, mesmo uma quantidade mínima de matéria m é multiplicada por um número enorme (o quadrado da velocidade da luz) quando se transforma em energia E. Portanto, a fonte de energia secreta das estrelas revelou-se com a conversão da matéria em energia por meio desta equação, que ilumina o universo. O segredo das estrelas poderia ser derivado da simples declaração de que a velocidade da luz é a mesma em todas as referências inerciais.”


     “Pense numa bola de boliche colocada sobre uma cama, delicadamente afundando no colchão. Agora faça correr uma bola de gude sobre a superfície arqueada do colchão. Um newtoniano, vendo de longe a bola de gude circulando em torno da bola de boliche, poderá concluir que houve uma força misteriosa exercida pela bola de boliche sobre a bola de gude. Um newtoniano diria que a bola de boliche exerceu uma atração instantânea que puxou a bola de gude para o centro.
     Para um relativista, que pode observar o movimento da bola de gude sobre a cama de perto, é óbvio que não existe força alguma. Existe apenas a curvatura da cama, que força a bola de boliche a se mover numa linha curva. Para o relativista, não existe atração, existe apenas um empurrão, exercida pela cama curvada sobre a bola de gude. Substitua a bola de gude pela Terra, a bola de boliche pelo Sol e a cama por espaço-tempo vazio, e veremos que a Terra se move em torno do Sol não por causa da atração da gravidade, mas porque o Sol deforma o espaço em torno da Terra, criando uma força que empurra a Terra para se mover num círculo.
     Einstein foi, por conseguinte, levado a acreditar que a gravidade era mais como um tecido do que uma força invisível que atuava instantaneamente em todo o universo. Se alguém sacudir rapidamente este tecido, formam-se ondas que viajam ao longo da superfície numa velocidade definida. Isto resolve o paradoxo do sol que desaparece. Se a gravidade é um subproduto do arqueamento do tecido do espaço-tempo, então o desaparecimento do Sol pode ser comparado a levantar de repente a bola de boliche da cama. Conforme a cama ricocheteia de volta para a sua forma original, ondas são enviadas pelo lençol a uma velocidade definida. Portanto, reduzindo a gravidade a um arqueamento do espaço e tempo, Einstein foi capaz de conciliar gravitação e relatividade.
     Imagine uma formiga tentando atravessar uma folha de papel amassado. Ela vai caminhar como um marinheiro bêbado, cambaleando para a esquerda e para a direita, enquanto tenta atravessar o terreno enrugado. A formiga vai dizer que não esta bêbada, mas que esta sendo arrastada por uma força misteriosa, que a puxa para a esquerda e para a direita. Para a formiga, o espaço vazio esta cheio de forças misteriosas que a impedem de andar em linha reta. Olhando a formiga de perto, entretanto, vemos que não há nenhuma força puxando-a. Ela esta sendo empurrada pelas dobras do papel amassado. As forças que agem sobre a formiga são uma ilusão causada pelo arqueamento do próprio espaço. A “atração” da força na verdade é o “empurrão” criado quando ela caminha sobre uma dobra de papel. Em outras palavras, a gravidade não puxa; o espaço empurra.
     Em 1915, Einstein finalmente conseguiu completar o que chamou de teoria da relatividade geral, que desde então é a arquitetura sobre a qual esta baseada toda a cosmologia. Neste novo e surpreendente quadro, a gravitação não era uma força que enchia o universo, mas o efeito aparente da curva do tecido espaço-tempo. A sua teoria era tão eficiente que ele pôde resumi-la numa equação com dois centímetros e meio de comprimento. Nesta nova teoria brilhante, a quantidade da curvatura do espaço e tempo era determinada pela quantidade de matéria e energia que ele continha. Imagine lançar uma pedra num lago, criando uma série de ondinhas que emanam do impacto. Quanto maior a pedra, maior a deformação na superfície do lago. Da mesma maneira, quanto maior a estrela, maior a curvatura do espaço-tempo em torno dela.”


     “Um padre belga, Georges Lemaître, que aprendeu a teoria de Einstein, ficou fascinado com a ideia de que a teoria conduzia logicamente a um universo que estava se expandindo e, portanto, teve um começo. Como os gases aquecem ao serem comprimidos, ele percebeu que o universo no começo dos tempos deve ter sido quentíssimo. Em 1927, afirmou que o universo deve ter começado como um “superátomo” de incrível temperatura e densidade, que explodiu de repente, dando origem ao universo em expansão de Hubble.”


     “Uma estrela típica como o nosso sol começa a sua vida como uma grande bola de gás de hidrogênio difuso chamada proto-estrela e gradualmente se contrai sob a força da gravidade. Quando começa a entrar em colapso, ela começa a girar rapidamente (o que muitas vezes leva a formação de um sistema de estrela dupla, onde duas estrelas correm uma atrás da outra em órbitas elípticas, ou a formação de planetas no plano de rotação da estrela). O centro da estrela também se aquece tremendamente até atingir mais ou menos um milhão de graus ou mais, quando ocorre a fusão do hidrogênio com o hélio.
     Depois que a estrela se incendeia, é chamada de uma estrela da sequência principal e pode queimar por cerca de 10 bilhões de anos, lentamente transformando seu núcleo de hidrogênio para hélio residual. O nosso sol se encontra atualmente nesse processo. Quando termina a era de queima de hidrogênio, a estrela começa a queimar hélio, expandindo-se imensamente até o tamanho da órbita de Marte e se torna uma “gigante vermelha”. Esgotando o combustível de hélio no núcleo, as camadas exteriores da estrela se dissipam, deixando apenas o núcleo, uma estrela “anã branca” mais ou menos do tamanho da Terra. Estrelas menores, como o nosso Sol, morrerão no espaço como nacos de material nuclear morto em estrelas anãs brancas.
     Mas nas estrelas com cerca de dez a quarenta vezes a massa do nosso sol, o processo de fusão ocorre muito rápido. Quando a estrela se torna uma supergigante vermelha, seu núcleo rapidamente funde os elementos mais leves, de modo que ela parece uma estrela híbrida, uma anã branca dentro de uma gigante vermelha. Nesta estrela anã branca, podem ser criados os elementos mais leves até o ferro na tabela periódica de elementos. Quando o processo de fusão chega à fase na qual é criado o elemento ferro, não pode mais ser extraída energia desse processo, e assim a fornalha nuclear, depois de bilhões de anos, finalmente apaga. Neste ponto, a estrela entra absolutamente em colapso, criando pressões enormes que na verdade empurram os elétrons para dentro dos núcleos. (A densidade pode exceder em 400 bilhões de vezes a densidade da água.) Isto faz as temperaturas subirem a trilhões de graus. A energia gravitacional comprimida dentro deste objeto minúsculo explode numa supernova. O calor intenso deste processo faz a fusão começar de novo, e os elementos além do ferro na tabela periódica são sintetizados.
     A supergigante vermelha Betelgeuse, por exemplo, que pode ser vista facilmente na constelação de Órion, é instável; ela pode explodir a qualquer momento como uma supernova, cuspindo grandes quantidades de raios gama e raios X pela vizinhança. Quando isto acontecer, esta supernova será visível durante o dia e poderá brilhar mais do que a Lua à noite. (Já se pensou que a energia titânica liberada por uma supernova tivesse destruído os dinossauros há 65 milhões de anos. Uma supernova a uns 10 anos luz daqui poderia, de fato, acabar com a vida na Terra. Felizmente, as estrelas gigantes Spica e Betelgeuse estão a 260 e 430 anos luz-, respectivamente, distantes demais para provocar muitos danos graves à Terra quando finalmente explodirem. Mas alguns cientistas acreditam que uma extinção em pequena escala de criaturas marinhas há 2 milhões de anos foi causada pela explosão de supernova de uma estrela distante 120 anos-luz.)
     Isto significa também que o nosso Sol não é a verdadeira “mãe” da Terra. Embora muitos povos terrestres tenham adorado o Sol como um deus que deu origem à Terra, isto só em parte é correto. Embora a Terra tenha se originado do Sol (como parte do plano elíptico de fragmentos de rocha e poeira que circulavam em torno do Sol há 4,5 bilhões de anos), o nosso Sol não é quente o suficiente para fundir o hidrogênio em hélio. Isto quer dizer que a nossa verdadeira “mãe-sol” foi na realidade uma estrela anônima ou um conjunto de estrelas que morreram há bilhões de anos numa supernova, que depois semeou nebulosas próximas, com os elementos além do ferro que compõem o nosso corpo. Literalmente, nossos corpos são feitos de poeira estelar, das estrelas que morreram há bilhões de anos.
     Depois de uma explosão de supernova, resta um minúsculo fragmento chamado estrela de nêutrons, que é feito de matéria nuclear sólida, comprimida ao tamanho de Manhattan, com quase 30 quilômetros. (As estrelas de nêutrons foram previstas pela primeira vez pelo astrônomo suíço Fritz Zwicky, em 1933, mas pareciam tão fantásticas que foram ignoradas pelos cientistas durante décadas.) Como a estrela de nêutrons esta emitindo radiação irregularmente e também girando muito rápido, ela parece um farol rodopiando, cuspindo a radiação ao mesmo tempo. Vista da Terra, a estrela de nêutrons parece latejar e portanto é chamada de um pulsar.
     Estrelas extremamente grandes, porventura maiores do que 40 massas solares, quando finalmente sofrem uma explosão de supernova, podem deixar para trás uma estrela de nêutrons tão grande que pode neutralizar a força repulsiva entre nêutrons, e a estrela enfrentará o seu colapso final, no que é, talvez, o objeto mais exótico do universo, um buraco negro.”


     “Depois de 2 mil anos investigando a natureza da matéria e da energia, os físicos determinaram que apenas quatro forças fundamentais movem o universo. (Os cientistas tentaram procurar uma quinta força, mas até agora todos os resultados nesta direção foram negativos ou inconclusivos.)
     A primeira força é a gravitação, que mantém o Sol estável e guia os planetas em suas órbitas celestes no sistema solar. Se a gravidade fosse de repente “desligada”, as estrelas no céu explodiriam, a Terra se desintegraria e seríamos todos lançados no espaço a uns 1.500 quilômetros por hora.
     A segunda grande força é o eletromagnestismo, a força que ilumina nossas cidades, enche o nosso mundo de televisões, telefones celulares, rádios, raios lasers e a Internet. Se a força eletromagnética acabasse de repente, a civilização seria no mesmo instante lançada um ou dois séculos para o passado, nas trevas e no silêncio. Isto foi ilustrado com bastante realismo com o apagão que paralisou toda a região nordeste dos Estados unidos em 2003. Se examinar a força eletromagnética microscopicamente, veremos que na verdade ela é feita de partículas minúsculas, os quanta, chamados fótons.
     A terceira força é a força nuclear fraca, responsável pelo decaimento radioativo. Como a força fraca não é forte o suficiente para manter estável o núcleo do átomo, ela deixa que o núcleo se quebre ou desintegre. A medicina nuclear nos hospitais depende bastante da força nuclear. A força fraca também ajuda a aquecer o núcleo da terra por intermédio de materiais radioativos, que acionam a imensa energia dos vulcões. A força fraca, por sua vez, baseia-se na interação de elétrons e neutrinos (partículas espectrais quase sem massa, que atravessam trilhões de quilômetros de chumbo sólido sem interagir com nada). Estes elétrons e neutrinos interagem com a troca de outras partículas, chamadas bósons-W e Z.
     A força nuclear forte mantém estáveis os núcleos dos átomos. Sem a força forte, todos os núcleos desintegrariam, os átomos se dividiriam e a realidade que conhecemos se dissolveria. A força nuclear forte é responsável pelos aproximadamente cem elementos que vemos preenchendo o universo. Juntas, as forças nucleares forte e fraca são responsáveis pela luz que emana das estrelas por intermédio da equação de Einstein, E = mc². Sem a força nuclear, o universo inteiro seria escurecido, baixando a temperatura na terra e congelando os oceanos.
     A característica surpreendente destas quatro forças é que elas são totalmente diferentes uma das outras, com intensidades e propriedades diversas. Por exemplo, a gravidade é, de longe, a mais fraca das quatro, 10 elevado à 36 vezes mais fraca do que a força eletromagnética. A Terra pesa 6 trilhões de trilhões de quilogramas, mas o seu peso maciço e a sua gravidade podem ser facilmente anulados pela força eletromagnética. O pente que você usa, por exemplo, é capaz de recolher pedacinhos de papel por eletricidade estática, anulando portanto toda a gravidade de toda a Terra. E a gravidade é estritamente atrativa. A força eletromagnética pode ser tanto atrativa quanto repulsiva, dependendo da carga da partícula.”


     “Fazendo uma retrospectiva, a ideia de universos paralelos nos é imposta. A inflação representa a fusão de cosmologia tradicional com avanços na física de partículas. Sendo uma teoria quântica, a física de partículas afirma que existe uma probabilidade finita de que ocorram coisas improváveis, como a criação de universos paralelos. Assim, tão logo reconheçamos a possibilidade de criação de um universo, abrimos a porta para a probabilidade de criação de um número infindável de universos paralelos. Pense, por exemplo, em como o elétron não existe em nenhum ponto isolado, mas existe em todos os pontos possíveis ao redor do núcleo. Esta “nuvem” de elétrons que cerca o núcleo representa o elétron em muitos lugares ao mesmo tempo. Esta é a base fundamental de toda a química, que admite que elétrons unam as moléculas. A razão pela qual as nossas moléculas não se dissolvem é que os elétrons paralelos dançam ao redor delas e as mantêm unidas. Da mesma forma, o universo foi um dia menor do que um elétron. Quando aplicamos a teoria quântica ao universo, somos então forçados a admitir a possibilidade de que o universo existe simultaneamente em muitos estados. Em outras palavras, uma vez tendo aberto a porta para aplicar as flutuações quânticas ao universo, somos quase forçados a admitir a possibilidade de universos paralelos. Parece que não temos outra escolha.”


     “Embora a teoria do universo-surgindo-do-nada não possa ser provada por meios convencionais, ela ajuda a responder questões muito práticas sobre o universo. Por exemplo, por que o universo não tem rotação? Tudo que vemos a nossa volta gira, de piões, furacões, planetas e galáxias, até quasares. Parece ser uma característica universal da matéria no universo. Mas o universo mesmo não gira. Quando olhamos as galáxias no céu, a sua rotação total se cancela dando zero. (Isto é uma sorte, porque se o universo girasse, então viagens do tempo seriam comuns e a história, impossível de ser escrita.) O universo não tem rotação talvez porque o nosso universo veio do nada. Visto que o vácuo não tem rotação, não esperamos ver nenhuma rotação líquida surgindo no nosso universo. Na verdade, todos os universos-bolhas dentro do multiverso talvez tenham rotação zero.
     Por que cargas elétricas negativas e positivas se equilibram exatamente? Em geral, quando pensamos nas forças cósmicas que regem o universo, pensamos mais em gravitação do que em força eletromagnética, mesmo que a força gravitacional seja infinitesimalmente pequena compara com a força eletromagnética. A razão disto é o equilíbrio perfeito entre cargas positivas e negativas. Consequentemente, a carga líquida do universo parece ser zero, e a gravidade é que domina o universo, não a força eletromagnética.
     Embora aceitemos isso naturalmente, o cancelamento de cargas negativas e positivas é bastante notável, e tem sido testado por experimentos na razão de 10 elevado à 21 vezes. (É claro que existem desequilíbrios locais entre as cargas, e é por isso que temos relâmpagos. Mas o número total de cargas, mesmo nas tempestades com raios e trovoadas, soma a zero.) se houvesse apenas 0,00001 por cento de diferença no total das cargas elétricas positiva e negativa dentro do seu corpo, você seria estraçalhado instantaneamente, com pedaços do seu corpo lançados no espaço cósmico pela força elétrica.”


     “Os cientistas acreditam que o universo começou num estado de simetria perfeita, com todas as forças unificadas numa só. O universo era belo, simétrico, mas um tanto inútil. A vida que conhecemos não pode existir neste estado de perfeição. Para existir a possibilidade de vida, a simetria do universo teve de ser quebrada ao resfriar.”


     “As supernovas Ia nascem quando uma estrela anã branca num sistema binário lentamente suga matéria da sua estrela companheira. Ao nutrir-se da sua estrela irmã, esta anã branca, vai crescendo em massa até pesar 1,4 massas solares, o máximo possível para uma anã branca. Quando excedem este limite, entram em colapso e explodem num tipo de supernova Ia. Este gatilho detonador é o que explica as supernovas do tipo Ia serem de luminosidade tão uniforme – é o resultado natural de estrelas anãs brancas alçando uma massa precisa e em seguida colapsando sob a gravidade. (Como Subrahmanyan Chandrasekhar mostrou em 1935, numa estrela anã branca a força da gravidade que esmaga a estrela é equilibrada por uma força de repulsão entre os elétrons, chamada de pressão de degeneração do elétron. Se uma estrela anã pesa mais de 1,4 massas solares, então a gravidade supera esta força e a estrela é esmagada, criando a supernova.) Uma vez que as supernovas distantes ocorreram no início do universo, analisando-as, é possível, calcular a taxa de expansão do universo bilhões de anos atrás.”


     “De acordo com a teoria quântica, uma pessoa poderia em princípio voltar a se materializar de repente no planeta vermelho. É claro que a probabilidade é tão pequena que teríamos de esperar mais do que o tempo de existência do universo. Consequentemente, no nosso dia-a-dia, podemos descartar esses eventos improváveis. Mas, no nível subatômico, tais probabilidades são cruciais para o funcionamento de aparelhos eletrônicos, computadores e lasers.
     Os elétrons, na verdade, se desmaterializam regularmente e se encontram rematerializados do outro lado de paredes dentro dos componentes do nosso computador ou CD. A civilização moderna, de fato, entraria em colapso se os elétrons não pudessem estar em dois lugares ao mesmo tempo. (As moléculas do nosso corpo também entrariam em colapso sem este princípio estranho. Imagine dois sistemas solares colidindo no espaço, obedecendo às leis da gravitação de Newton. Os sistemas solares em colisão colapsariam numa mistura caótica de planetas e asteroides. Do mesmo modo, se os átomos obedecessem às leis de Newton, eles se desintegrariam sempre que esbarrassem em outro átomo. O que mantém dois átomos trancados numa molécula estável é o fato de que os elétrons podem simultaneamente estar em tantos lugares ao mesmo tempo que formam uma “nuvem” de elétrons que une os átomos. Assim, a razão pela qual as moléculas são estáveis e o universo não se desintegra é que os elétrons podem estar em muitos lugares ao mesmo tempo).
     Mas, se os elétrons podem existir em estados paralelos pairando entre a existência e a não-existência, então, por que o universo não pode? Afinal de contas, num determinado momento o universo foi menor do que um elétron. Uma vez introduzida a possibilidade de aplicarmos o princípio quântico ao universo, somos forçados a considerar a existência de universos paralelos.”


     “A relatividade geral é uma teoria do muito grande: buracos negros, Big Bangs, quasares e o universo em expansão. Esta baseada na matemática das superfícies suaves, como lençóis de cama e redes de cama elásticas. A teoria quântica é exatamente o contrário – ela descreve a teoria do muito pequenino: átomos, prótons e nêutrons e quarks. Esta baseada numa teoria de pacotes discretos de energia chamados quanta. Diferente da relatividade, a teoria quântica afirma que só a probabilidade de eventos pode ser calculada, de modo que nunca saberemos com certeza onde um elétron se encontra. Estas duas teorias baseiam-se em matemáticas diferentes e domínios diferentes. Não é de surpreender que todas as tentativas de unificá-las tenham ido por água abaixo.”


     “De acordo com a lenda nórdica, o dia do juízo final, ou Ragnarok, o Crepúsculo dos Deuses, virá acompanhado de convulsões cataclísmicas. A Midgard (Terra Média), assim como os céus, serão apanhados nas garras inexoráveis de uma geada congelante. Ventos cortantes, nevascas ofuscantes, terremotos arrasadores e a fome assolarão a terra, enquanto um sem-número de homens e mulheres perecem indefesos. Três desses universos paralisarão a terra, sem trégua, enquanto lobos esfaimados devoram o sol e a lua, mergulhando o mundo na escuridão total. As estrelas do céu cairão, a terra tremerá e as montanhas se desintegrarão. Monstros ficarão à solta, quando o deus do caos, Loki, escapa, disseminando guerra, confusão e discórdia por toda a terra deserta.
     Odin, o pai dos deuses, reunirá seus bravos guerreiros pela última vez em Valhalla para o conflito derradeiro. No final, à medida que os deuses vão morrendo, um por um, o deus do mal, Surtur, lançará fogo e enxofre pelas ventas, criando um inferno gigantesco que engolirá o céu e a terra. À medida que o universo inteiro mergulha nas labaredas, a terra afunda nos oceanos e o próprio tempo para.
     Mas, das cinzas, agita-se um novo começo. Uma nova terra, diferente da antiga, pouco a pouco se ergue do mar, e novos frutos e plantas exóticas brotam copiosamente do solo fértil, dando origem a uma nova raça de homens.”


     “Ao contemplar a vasta extensão vazia do universo, Blaise Pascal certa vez escreveu ‘O eterno silêncio desses espaços infinitos aterroriza-me’.”


     “Stephen Hawking observa: ‘Se a taxa de expansão um segundo após o Big Bang tivesse uma parte para 100 mil milhões menor, [o universo] teria recolapsado antes de ter chegado ao seu tamanho atual... A probabilidade de um universo como o nosso não surgir de algo como o Big Bang é enorme. Acho que existem claras implicações religiosas’.”


     “Um clone humano teria alma?”

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Vida de Luís Carlos Prestes: o Cavaleiro da Esperança - Jorge Amado

Editora: Record
ISBN: 8501062588
Opinião: ***
Páginas: 400


     “Certa vez – era noite de chuva e vento – íamos pela rua pobre de uma cidade distante. Íamos curvados, teu corpo bem junto ao meu. Do escuro de uma sala, através da madeira das janelas, o rumor de vozes de homens em uma prática amarga chegava até nós. E, de súbito, na sala alguém disse um nome. E desapareceu a amargura e o desespero, ficou só a esperança. Também sobre nós, sobre a chuva e o vento, brilhou na rua pobre uma estrela. Houve uma alegria de primavera na noite chuvosa de inverno. Outra vez nós vimos os homens que iam presos. Sorriam, não eram ladrões, nem assassinos, não exploravam mulheres, nem vendiam tóxicos. Os que os levavam eram ladrões, assassinos, exploravam mulheres e vendiam tóxicos e eram a polícia. Os presos sorriam, as mulheres que os viam passar choravam, os homens apertavam os punhos. Alguém murmurou um nome, o nome de outro preso. E a esperança brilhou no sorriso dos que iam presos, nas lágrimas das mulheres, nos punhos cerrados dos que ficavam. Luz de uma estrela que empalideceu os assassinos, ladrões, cáftens, cocainômanos que eram a polícia.”


     “Te contarei a história do Herói, amiga, e então não terás jamais em teu coração um único momento de desânimo. Como naquelas noites em que o seu nome, balbuciado por vezes a medo, afastava a amargura e o terror, agora eu falarei dele pra que tu e o povo do cais que me ouve saibam que podem confiar e que a noite não é eterna. Eterna no mundo, amiga, só o povo e a memória dos seus Heróis e dos seus Poetas. É curto o tempo dos tiranos, é curta a noite da escravidão. E tão bela é a manhã da liberdade que vale a pena morrer por ela, dar a vida pela certeza de que ela vem, que chegará para os homens. Mas, ah!, amiga, morrer é fácil, seja por uma mulher, seja pela liberdade! Difícil é viver uma vida de sofrimento e de luta, sem desanimar e sem desistir, sem se vender, sem se curvar. Mais que a morte, a liberdade pede a vida de cada um, todos os seus momentos, todas as suas forças.”


     “Nunca é caro, amiga, o preço da liberdade, mesmo quando é mais que a morte, é a vida no exilo ou na prisão.”


     “Por maior que possa ser a sujeira sob a ditadura, a dignidade de Prestes, por si só, é suficiente para lançar uma luz sobre esse charco, uma luz de esperança.”


     “Esse rapaz lhes mostrava todos os dias que ninguém pode viver somente para si existindo os homens lá fora, estrangulados pela fome de pão de liberdade e de cultura. Aprendia para que todos aprendessem. Com Luís Carlos Prestes, amiga, toda uma geração de cadetes estudou em função do povo.”


     “Esse povo do Brasil, negra, é um povo heroico. Eu queria ser dono dos adjetivos do mundo para te falar sobre ele. Queria saber as palavras mais doces, as mais ternas e as mais humanas e as mais heroicas para te dizer da coragem e da confiança que latejam no coração da gente brasileira. Pisado e acorrentado, ignorado e desprezado, de mãos atadas, de boca cerrada, comendo o indispensável para não morrer, traído e insultado, o povo do Brasil não desespera e não se tranca numa indiferença suicida. Luta, clama, grita, brada e cria do seu sangue os seus líderes e os seus heróis. Heroico povo esse, resistente e digno, esperança sem fim nas suas canções, esperança nos seus gritos, esperança nos dias de desgraça que nada mais são que a véspera do dia da liberdade. Tremem os donos do dinheiro e do poder porque nunca serão donos da vontade desse povo, nunca conquistarão seu libertário coração rebelde. Nunca esse povo se desesperou nem nos momentos mais angustiosos. Clamou sempre, numa luta de todos os minutos para rebentar as cadeias que prendem os seus pulsos. Gritou com Tiradentes e com os poetas mineiros na aurora da liberdade, nos dias da Inconfidência. Na voz de Alvarenga e Gonzaga, no martírio e na nobreza do alferes esquartejado. Gritou nos dias da Independência, a voz enorme de José Bonifácio. Gritou com Zumbi, nas selvas dos palmares, gritou com os negros nas selvas do Cubatão, gritou na Bahia na revolta do alufá Licutã na frente dos negros malês. Gritou nas ruas do Recife, gritou pela boca de Frei Caneca sorridente diante do pelotão de fuzilamento. Pela boca dos gaúchos na revolta do Sul. Com Benjamim nos dias da república. Com a maior das suas vozes, clamor de beleza na voz de Castro Alves, construindo liberdade. Gritou com a serena força de Floriano Peixoto consolidando a república e defendendo a integridade da Pátria. E seu clamor continuava, subterrâneo, insistente, cada vez mais poderoso. Heróico povo esse, amiga! No seu sofrimento gerava dolorosa mas tenazmente o seu Herói, sua voz e sua espada. Humanização desses gritos, o povo concebia Luís Carlos Prestes. Nascido do sangue de Tiradentes e da voz de Castro Alves. Do coração do povo. Sua voz e sua espada.” 


     “Na Academia Brasileira de Letras, amiga, um homem do país dos rios falava da Grécia. Coelho Neto era de um dos três estados amazônicos, Amazonas, Pará, Maranhão, seus destinos ligados ao grande rio. Havia o cearense, o português, o sírio, o índio, o homem rico e o homem pobre, não havia mulheres, havia a selva, a tragédia, o drama, o inferno em vida. A Amazônia era milhares de romances, de artigos, de poemas. Coelho Neto era símbolo e o chefe de toda uma literatura. Dos homens que haviam substituído na prosa a geração de Aluísio Azevedo, de Raul Pompéia, de Machado de Assis, de Euclides da Cunha e na poesia a geração de Castro Alves. Coelho Neto, Príncipe dos Escritores Brasileiros, considerado o maior de todos os que escreviam no país naquele momento, a literatura dando-lhe um lugar na Câmara, outro lugar na direção de um clube de futebol, dando-lhe empregos. Publicou duzentos livros. Sua letra bonita encheu milhares de folhas de papel, frases, adjetivos, verbos, substantivos, imagens trabalhadas, períodos estudados, os problemas da língua portuguesa de Lisboa caprichosamente analisados. Nem uma linha nesses milhões de linhas sobre os homens lutando na Amazônia, nem uma linha, nem um desaforo, nem um xingamento, contra os que vendiam a Amazônia. A literatura de toda essa geração sem fibra, sem nervos, toda uma geração vendida por migalhas, é a mais sórdida, inútil e falsa literatura do mundo. Mulatos do nordeste e do norte, mestiços do sul, imigrantes de São Paulo, falando todos eles na Grécia. São Luís do Maranhão não é uma cidade do Norte do Brasil: é a Atenas Brasileira, se orgulhando de falar português puro.
     A política vendia o país, contraía empréstimos, girava em torno de um produto, ora a borracha, ora o café, ora o açúcar, os literatos ignoravam o país. O povo ignorava os literatos e estes vendiam seus livros em Portugal, quando os vendiam. Para essa geração de sensibilidade de moça-da-cidade-pequena o Brasil não existiu. A literatura era escada para empregos, o livro e o artigo matéria para brilho social. Foi essa geração, amiga, quem pariu num aborto cretino a célebre frase: a literatura é um sorriso da sociedade. A sociedade bailava nos salões pagando com ouro estrangeiro a orquestra, pagando com dólar, libra, com marco, com franco, os vestidos, os sapatos, os sorrisos das mulheres, os sorrisos dos literatos. A tradição de luta e de brasileirismo da literatura nacional se perdia nesses desfibrados, maus escritores além de tudo, reles imitadores de quanta porcaria se publicava na Europa. Comprados por míseros empregos, respondendo à sensibilidade de uma burguesia que não a possuía, preocupados com ridículas questiúnculas gramaticais, trancados numa torre que não era de cristal porque não era de um vidro fosco e opaco, esses mulatos pernósticos do Maranhão, de Pernambuco e da Bahia, esses filhos de imigrantes de São Paulo, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, que falavam em Grécia e Paris. Traíam a sua missão de escritor, desconheciam seu povo, empregavam sua voz apenas em cantar ditirambos aos vendedores da pátria. Resultavam da classe que enriquecia à base da entrega do Brasil aos imperialismos. Por isso mesmo tinham de ser neutros, apolíticos e medíocres.”


     “Nas noites longas de estrelas sobre os rios, a água parada, os homens lembram, para os meninos sertanejos condutores de cegos e guias para cangaceiros, o tropel numeroso e épico da Coluna. Vinham mil homens, mil e quinhentos, por vezes eram só oitocentos, vinha a liberdade com eles. Antes eram as tropas do governo, o ódio ao povo, os desatinos contra o povo. Depois, quando longe estivesse a Coluna redentora, seriam de novo a injustiça e a opressão do governo. Mas, no rastro da Coluna, ficava a esperança. Um dia ela voltará para sempre e com ela a liberdade. E com ela a justiça e o amor e a alegria.”


     “Não é apenas a coragem nos combates, o arriscar a vida a cada momento. É também, e principalmente, o conceber os planos vitoriosos, a percepção do momento perigoso e de como sair dele. É a arte da guerra que um rapaz de vinte e seis anos conhece como o mais experimentado dos generais. Nem o mais empedernido jogador nem o mais sábio dos generais apostaria um tostão em que a Coluna seria capaz de realizar sequer uma marcha de 100 quilômetros. Forças infinitamente maiores contra ela. E a natureza bravia, a fome, as doenças, os animais da selva, os rios intransitáveis, as montanhas jamais escaladas, a mata, a caatinga, nenhuma estrada. Prestes marchou com a sua coluna vinte e seis mil quilômetros.”


     “Esse país inexplorado de Mato Grosso e Goiás, terras que nunca acabam, fazendas como nações, tudo primário, bárbaro e desconhecido. Até aqui não chegaram as leis, amiga, nem mesmo essas leis já agora tão deficientes para as capitais e os estados mais civilizados do litoral. Aqui, os senhores feudais criaram as suas leis próprias, as mais bárbaras, as mais brutais. Nestas terras a abolição nunca se deu, a gente continua escrava de uns poucos homens donos da terra. Em cada uma destas fazendas, negra, poderias pôr uma nação da Europa e sobraria terra.
     Aqui são os tempos da Colônia ainda, amiga. Esses latifúndios da Mate Laranjeira, esses latifúndios dos senhores feudais, os homens como os mais miseráveis escravos, sem nenhum direito, sem uma lei que os proteja, são uma visão dantesca.”


     “Deram aos soldados do povo todos os nomes: Coluna da Morte, Coluna Fênix, Coluna Invicta, Coluna Prestes. E dizendo Coluna Prestes o povo dizia Coluna da Esperança. Na sua frente o Cavaleiro da Esperança, Luís Carlos Prestes, suas barbas crescidas, seus olhos ardentes, sua face tranquila, seu sorriso triste mas confiante. Cavaleiro do povo.”


     “Lampião se havia oferecido a Prestes, o general recusara sua adesão. Lampião foi dono desses estados do Nordeste durante muitos anos. Partira da injustiça dos donos da terra, das leis bárbaras contra os pobres para a vingança do cangaço. A revolta virando banditismo, saque, estupro e morte. O governo contrata Lampião para combater a Coluna. Ele é feito capitão num insulto ao exército, mais um insulto da tirania da época. E como ele, quanto cangaceiro existia no nordeste, o governo arrebanhou para lançar contra Prestes. Foram os homens do padre Cícero, taumaturgo do Ceará. Na esperança dos seus milagres, da sua intimidade com a Virgem, se dependuravam as populações nordestinas. Viajam léguas e léguas para tomarem a benção ao padre Cícero. Juazeiro do Ceará, sua cidade e sua fortaleza, era o reduto onde os cangaceiros se homiziavam. Padrinho de Lampião, prometendo a toda gente desgraçada um milagre caído do céu, do manto estrelado da Virgem, que um dia melhorasse as suas vidas. O padre Cícero não aceitou tomar parte na luta contra Prestes. Talvez que, na sua loucura religiosa, na sua bondade atrapalhada, querendo ajudar os sertanejos, não tendo para lhes dar senão os milagres, desconhecendo os caminhos que poderiam levar os homens a uma vida melhor, talvez ele tenha sentido que com Prestes vinha a palavra verdadeira de libertação para os seus sertanejos infelizes. Não aceitou luta contra ele, mas todos os Floros Bartolomeus, que exploravam o seu prestígio de santo supersticioso junto aos nordestinos, aceitaram de bom grado o dinheiro e os postos militares, armaram os cangaceiros e saquearam cidades e vilas, povoados e fazendas, já que não conseguiram vencer a Coluna.
     É que, amiga, se tornava cada vez mais difícil ao governo formar os batalhões de voluntários. Esses voluntários eram caçados a laço pelos senhores feudais, os donos dos latifúndios de Mato Grosso e Goiás. Os seus escravos que eram lançados contra a Coluna, aparecendo nos jornais de Bernardes, sob a censura carola de Jackson de Figueiredo, como patriotas que se alistavam para defender a boa causa. Os feitos da Coluna, os militares e os sociais, a distribuição de justiça, impossibilitaram, no nordeste, a caça desses voluntários pelos chefes políticos. As populações desertavam para não formarem contra Prestes. O governo teve de recorrer aos cangaceiros, bandidos de profissão, terror dos sertões, para formar tropas contra a Coluna. Foi assim, amiga, que Virgulino, o que foi decapitado anos depois nas margens do São Francisco foi feito capitão. O capitão Virgulino Ferreira Lampião, homem de Bernardes contra Prestes. Rezavam os governistas por Lampião, o que deflorava virgens, matava inocentes, capava gente, roubava ricos e pobres. Por ele o padre-nosso e a ave-maria.
     Luís Carlos Prestes vencera o impaludismo, o sol, as florestas e os rios. Vencia os cangaceiros também. Seu nome, como uma chicotada nas faces dos inimigos do povo, ressoava sob os céus do país. Nos lares pobres, nas choças, nos mocambos, nas senzalas do país, as mulheres de faces cavadas, as crianças doentes, os homens escravizados imploravam aos céus, aos seus deuses misturados, brancos, índios, negros, deuses mesclados de religiões e superstições, imploravam pela vitória do Cavaleiro da Esperança. Também da caatinga sobem preces para os céus, amiga.


     “As lendas ficavam na rabada da Coluna, amiga, marchavam também na sua frente. Nesta terra de superstições e história, de bandoleiros e profetas, nessa terra agreste do sertão, as lendas surgem a cada instante acerca de cada coisa. Os fantasmas habitam todo o interior do Brasil, milhares de assombrações morando nas matas, a poesia como em ondas na boca dos cegos violeiros, dos pretos narradores, das negras velhas que embalaram o sono das crianças brancas e mulatas. Nestas terras, amiga, os poetas transformados em heróis de aventuras, nunca ninguém soube onde ficam os limites da realidade e da imaginação. Lendas dos negros, lendas que vieram da África para as costas da Bahia e de Pernambuco. Lendas dos índios nas selvas de Goiás e Mato Grosso. Por entre elas atravessava a Coluna Prestes. E dela, desse punhado de soldados destemidos, nasciam igualmente as lendas. A Coluna conduzia o heroísmo e a justiça, conduzia a poesia também, amiga. No seu rastro as lendas, as lendas na sua frente.
     Já te disse que, na voz dos sertanejos, os soldados da Coluna só comiam as partes dianteiras dos animais, para assim adquirirem aquela espantosa rapidez de movimentos que caracterizou a Grande Marcha. As patas dianteiras arrastam para frente, as patas de trás são as que querem ficar. Nas patas dianteiras está o segredo das marchas velozes. Assim o contam os sertanejos, amiga, assombrados ante a ligeireza dos movimentos da Coluna.
Nasciam as lendas das potreadas audaciosas, nasciam das vivandeiras valentes, nasciam do heroísmo dos oficiais, do gênio de Prestes. Para o interior a Coluna era o inédito, o nunca visto e o nunca esperado. As populações estavam acostumadas com os cangaceiros roubando, queimando, destruindo, violando, propriedades e mulheres, com a polícia que perseguia os cangaceiros e que em nada se diferenciava deles. Um grupo de homens armados representava sempre para o camponês do interior uma ameaça à sua vida, à sua família, aos seus parcos bens. Era sempre um aumento das suas desgraças, no bando vinham novas leis ainda mais terríveis que as escravizadoras leis dominantes. A lei do cangaço, a lei da polícia que perseguia o cangaço. Junto com as enchentes, os rios transbordando, levando as plantações e o gado, junto com as secas, o sol comendo as safras, sugando o sangue dos animais até matá-los, os cangaceiros e a polícia eram o tráfico cotidiano do sertão. No seu folclore tão sofrido, conduzido através do país nas violas dos cegos esmoladores, essas eram as personagens das lendas, dos cânticos, das histórias e dos ABCs.
     A Coluna era diferente. Aqueles homens armados, lutando todos os dias, barbados, cabeludos, sujos e esfarrapados, vestidos de couro como os cangaceiros, como os vaqueiros tocadores de gado, ardendo em febre nas caminhadas, a maleita agarrada neles, não traziam a morte, o roubo, o crime, a violação no lombo dos seus cavalos, no rastro dos seus pés andarilhos. Traziam algo que o sertão desconhecia, algo que nunca estivera presente nos júris, nas administrações, nos impostos, nas contas com que os coronéis liquidavam com os trabalhadores: a Coluna trazia a justiça, amiga, era impossível de crer!”


     “Essas populações aprenderam a respeitar os padres, houve um tempo em que o clero pobre defendeu os seus interesses. Depois uma grande parte dos padres ficou com os ricos, seus instrumentos de escravidão. Mas a lembrança dos padres bons restara no pensamento do sertão. E quando a Coluna chegava, os camponeses beijavam, por vezes, a mão de Miguel Costa e o tratavam de Bispo, como quem lhe dava um nome bom. Como confundiam uma vivandeira com a princesa Isabel, a que ficara na memória dos pobres porque assinara o decreto de libertação dos negros. Mas Prestes era um mistério maior: nos seus olhos ardentes os sertanejos viram o dom de adivinhar. Adivinhava o pensamento de todos, ninguém lhe podia esconder nada. Para ele não havia segredos, nem os homens, nem os animais, nem a natureza bravia podiam com ele. Era maior que todos, era um adivinho.”


     “Nesse momento da entrada na Bahia, a Coluna contava com um total de mil e duzentos homens. A cerca de trinta mil homens subia o número das tropas governistas espalhadas entre a Bahia, Pernambuco e Minas. Três ou quatro vezes maior ainda era o total de soldados que o governo aliciara por todo o país para perseguir os mil homens de Prestes. Dezoito generais, vários coronéis são derrotados durante a Grande Marcha. O governo empregou todos os seus recursos militares na tentativa de derrotar a Coluna. Sem resultado. Prestes brincou com essas forças contrarrevolucionárias, fez delas o que quis, fê-las andar para a frente e para trás, se juntarem num estado quando ele queria entrar noutro, lutarem entre si, fugirem inúmeras vezes, se desorientarem sempre. Na sua visão genial, o adivinho dos sertanejos previa com um acerto absoluto os movimentos do inimigo, não lhe dava tempo a surpresas. Oferecia-lhe combate quando o achava necessário, enganava os bernardistas todas as vezes que desejava.”


     “O São Francisco, amiga, é como a veia arterial do Brasil. Seus problemas, suas riquezas, seus dramas são o cerne dos problemas, das riquezas e dos dramas do Brasil. Existe toda uma literatura sobre esta região. Fortunas se edificaram aqui, aqui a escravidão é um drama banal. Prestes vai estudar estes problemas, como estudou os demais problemas do Brasil, em carne viva. Marchando através deles, vivendo-os.”


     “Os soldados, amiga, olham uns para os outros, murmuram entre si frases de assombro. Não é mesmo um homem aquele general, é um feiticeiro, aquela Coluna é mesmo mal assombrada, aparece e desaparece, onde ela está que ninguém sabe? Os soldados do governo nessas perseguições sem resultados, no mar de notícias contraditórias que arrancavam das populações sertanejas, afogados em lendas sobre a Coluna e o seu chefe, terminam tomados de terror diante do sobrenatural que para eles era a Coluna Prestes. Se nem os próprios generais do exército sabiam e podiam explicar os movimentos audaciosos, os súbitos desaparecimentos, os aparecimentos ainda mais súbitos, as vitórias consecutivas da Coluna, como não haveriam os soldados supersticiosos de imaginar mil coisas, de tremer todas as vezes que tinham que se lançar no rastro da coluna?”


     “Assim havia de marchar duzentas léguas por terrenos como este. A flora inimiga, a fauna inimiga também, negra. Nessas terras do sem fim, não resistem outros animais que as cobras e os lagartos, os répteis mais imundos, mais traiçoeiros e mais venenosos. Aparecem na margem da picada, o seu silvo aterrador, o seu beijo da morte. As folhas secas estalam sob as passagens das cobras, dos lagartos ficados do princípio do mundo, animais de outras eras distantes que ainda viviam naquelas terras, terras que pareciam elas também de um passado remoto. De entre as coroas-de-frade e as unhas-de-gato, a cascavel e a jaracuçu, as grandes cobras da mata, espiam a marcha da Coluna Prestes. Os homens vão com sede, vão com fome. Silvam as cobras, a cabeça-de-platona, a pico-de-jaca. Estremecem os homens no horror do animal venenoso, mas seguem. Na frente vai Prestes, quem pode ter medo quando o acompanha?”


     “Para que o leitor tenha uma ideia da confiança que os oficiais e os soldados da Coluna depositavam em Prestes, cito as seguintes frases de Moreira Lima: O meu estado de espírito era tal, nessa campanha, que se Prestes resolvesse ir ao Inferno, eu o acompanharia...
     O mesmo Moreira lima nos conta dessa saborosa frase de um homem da Coluna sobre Prestes: O general Prestes é muito homem para vadear o mar-oceano e virar a Oropa em frege.


     “Aqui lutaram os sertanejos, Antonio Conselheiro à sua frente. Anos depois lutaram de novo, era Prestes que os conduzia. E com eles volverão à luta uma, duas, mil vezes se assim for necessário, amiga. Um dia essas terras serão somente da fartura, a desgraça terá fugido delas. Quando a Coluna voltar, negra.”


     “Prestes terminava a sua campanha da Bahia, onde marchou cinco mil e vinte e dois quilômetros, atravessou trinta e três rios, perseguido por trinta mil soldados, pela fome, pela sede, pela febre, pela agreste natureza, pelos répteis traiçoeiros. Duzentos homens da Coluna haviam ficado nos campos e nas caatingas da Bahia, feridos, desaparecidos ou mortos. O inimigo fora vencido várias vezes, e agora, após os últimos feitos militares de Prestes, nem mesmo os generais de Bernardes acreditavam possível derrotá-lo. Quando eles telegrafavam para o Rio de Janeiro dizendo que a Coluna estava cercada e desta vez seria fatalmente destruída, eles já o faziam por hábito, amiga, nem mesmo eles acreditavam nesses telegramas. Agora, negra, até os generais se haviam inoculado da superstição dos cangaceiros. Também eles pensavam que se tratava de algo sobrenatural: era-lhes impossível medir o gênio de Prestes. Para eles era o Demônio da guerra, dono de todos os caminhos daqueles infernos das caatingas. Para os sertanejos era uma estrela cortando a noite da Bahia.”


     “No dia 24 a Coluna toma o rumo do oeste, indo combater a 28 na ponte sobre o rio Mando, contra o 6º B.C., o qual derrota, tomando-lhe munições. O Ano-Novo encontra a Coluna na fazenda Rafael, de partida, sob chuva torrencial. Sob essa mesma chuva é comemorado entre os soldados o vigésimo nono aniversário de Prestes, o terceiro que ele passava marchando através do Brasil, o primeiro dos três que passava sem combater. Aos 26 anos era, amiga, um capitão de engenheiros que se havia distinguido na escola, que não pudera permanecer no posto de engenheiro-fiscal porque sua honestidade o fizera protestar violentamente contra escandalosos desvios de verba. Um homem que parecia indicado para trabalhos de gabinete, um matemático antes de tudo, construtor de estradas, de usinas elétricas, longe estavam, aqueles que o conheciam, de imaginá-lo general, traçando planos de combates, de ataques e retiradas. Fora um aluno de estratégia militar em luta com seu professor, tirando notas discretas, dando palpites que pareciam inteiramente errados ao mestre. Agora, três anos depois, era o general mais celebrado da América Latina, tendo realizado o maior raid de cavalaria do mundo, tendo derrotado 18 generais de renome, tendo percorrido trinta mil quilômetros, um gênio militar como antes não houvera notícias nessa parte do mundo. A marcha da sua Coluna era agora estudada com assombro não só pelos mestres que duvidaram antes das suas qualidades de estrategista, como pelos mais autorizados estados-maiores dos demais países da América e da Europa. Batera todos os recordes de marcha de infantaria na travessia de Tabuleiro Alto a Sento Sé. Com mil e quinhentos homens, que haviam se reduzido aos quinhentos que comandava agora, atravessara cem mil inimigos bem armados, bem municiados, bem pagos. Lutara contra o exército, contra as diversas polícias estaduais, contra os cangaceiros organizados em tropas de combate. Vencera todos, como vencera a natureza bravia, como vencera as febres e os animais da selva e da caatinga. Sua derrota fora anunciada, pelos generais governistas, vinte ou trinta vezes. Sua cabeça a prêmio, marchando e combatendo com trinta e nove graus de febre. Sua Coluna cercada várias vezes. Rompeu os cercos, transformou derrotas certas em vitórias conquistadas a rasgos de gênio. Nunca sentiu a febre, entrando pelos atoleiros, dando seu cavalo a um soldado ferido, a um soldado cansado. Levando por um imenso país desgraçado e angustiado a esperança de um futuro melhor. Levantando as gentes, negra, traçando os caminhos da liberdade no Brasil.”


     “E em direção à Bolívia, penetra nesse dia nos pântanos que se estendem até a fronteira. É o trecho mais assustador da marcha, se algo pode assustar esses homens de aço. Os animais já não existiam. Dos mil e quinhentos homens que haviam partido das margens do Paraná, apenas quinhentos estão reunidos em torno de seu chefe, dois terços da Coluna ficaram pelo Brasil, corpos e sangue em catorze estados, esperança sobre toda uma pátria. São quinhentos e, desses quinhentos, muitos não podem combater. São feridos, são doentes, são mulheres, são velhos, são meninos. Não há quase munições, não há quase armas, não há o que comer, não há cavalos sobre os quais viajar, vão montados nos poucos bois que levam, e essa montaria diminui a cada dia porque os bois são abatidos para comida. Além da carne magra desses raros bois cansados, tudo que resta é o palmito de quando em vez encontrado na estrada difícil. Todos marcham descalços, não há mais sapatos, não há roupa tampouco. Vestem farrapos, de cor indefinida, bordados de lama, da lama dos pantanais. Alguns levam apenas uma tanga sobre o sexo, feita com os restos de um cobertor. Outros vestem recordações do que fora antes calças ou cuecas. Os mosquitos, trazendo todas as febres nos seus ferrões aguçados, cobrem as noites da Coluna. Não resta nenhum tempero para cozinhar. A pouca carne é comida sem sal, chamuscada no fogo difícil de acender no lamaçal sem fim. Para descansar os homens têm que subir nos galhos mais altos das árvores, como um imenso bando de macacos.”


     “Eles olham: é a fronteira da Bolívia na frente. Os olhos se voltam para trás, ali ficava o Brasil. Esses soldados, amiga, não têm, perfeita ideia do que realizaram. Sabem que acompanharam a Prestes, que lutavam pela liberdade e por uma vida melhor. Mas talvez nem saibam que plantaram nas terras do Brasil a revolução para todo o sempre.
     Marchavam devagar. Esses homens nunca choraram, amiga. Mas agora, quando a Pátria fica para trás, os soldados da Coluna, curtidos de mil combates, deixam que as lágrimas rolem sobre os farrapos, sobre as barbas crescidas, sobre os peitos nus. E, como o faziam sempre que algo os perturbava, procuram com os olhos o general Luís Carlos Prestes. Olham para a frente, ele sempre vai na frente. Não, desta vez, amiga, ele marcha na retaguarda, é o último a deixar as terras do Brasil. Seu rosto sereno, sua face tranquila, seu olhar ardente. Um soldado o fita e o compreende. Grita para os outros, sua voz alegre como um toque de clarim:
     – Um dia a gente volta...
     Sua voz em direção do Brasil que fica, última mensagem de esperança da Coluna Prestes.
     Agora é o exílio, amiga.”


     “O povo foi uma bandeira para estes homens e o chamado do povo é poderoso como nenhum chamado.”


     “Como heróis do povo do Brasil são esses mil e quinhentos homens da Coluna. Mais de oitenta por cento da tropa ferida, quase sempre mais de uma vez. Vinte e seis mil quilômetros atravessados em quase três anos de uma marcha cujo descanso maior foi de quarenta e oito horas. Seiscentos soldados que morreram, misturando seu sangue com o de setenta oficiais. Cem mil cavalos utilizados na maior marcha de calaria do mundo. Trinta mil bois abatidos nos dias em que havia bois a abater. Cinquenta e três combates de importância, milhares de tiroteios menores.”


     “Pires foi ferido quatorze vezes. Fez toda a Coluna até a Bolívia, onde chegou capitão. Agrícola Batista recebeu três balas na mesma perna. Não se amedrontou, fazia pilhéria, falava em cortar aquela perna que trazia urucubaca. Assim eram eles, amiga, esses soldados da Coluna.”


     “O que tínhamos em vista – disse Prestes se referindo à Coluna – principalmente, era despertar as populações do interior, sacudindo-as da apatia em que viviam mergulhadas, indiferentes à sorte do país, desesperançadas de qualquer remédio para os seus males e sofrimentos. Isso ele o havia conseguido realizar. Essa foi uma face da Coluna, um dos seus trabalhos.
     Havia a outra face, os líderes do povo aprendendo os sofrimentos do povo, vendo o superficial daquelas plataformas revolucionárias que haviam acompanhado os movimentos de 22 e 24. É o momento em que o pensamento tenentista começa a evoluir para o pensamento nacional-libertador.”


     “Ao fazer o retrato da Coluna, vendo-a desde o exílio, Prestes fala sobre esta outra face e marca a evolução rápida que estava tendo o tenentismo:
     Não há solução possível para os problemas brasileiros dentro dos quadros legais vigentes. A questão não é de homens, mas é de fatos, isto é, de sistema e de regime. Nenhum governo, mesmo animado das melhores intenções desse mundo, poderá, nos limites da legalidade normal, resolver os problemas nacionais em equação. A solução tem de vir de uma transformação radical em tudo, não apenas na superfície política, é preciso reorganizar o país sobre bases novas. É preciso criar novas bases econômicas e sociais de relações entre os homens que habitam e trabalham nesta grande terra. É preciso quebrar, resolutamente, as cadeias que oprimem o Brasil e impedem seu desenvolvimento ulterior, sua expansão fecunda e gloriosa.
     Isso ele aprendera com a Coluna, durante a marcha. Não fora apenas a Coluna quem dera algo. Também o povo dera aos homens da grande marcha uma nova visão da vida e do Brasil. O povo acabara de criar o seu líder à sua feição, marcara-o com o fogo dos seus problemas. Nesse momento Prestes fala em retalhar os latifúndios. Prestes se levanta, depois da Coluna, contra o imperialismo, sua voz clama para todos os países da América Latina no sentido de se unirem contra o inimigo comum: o imperialismo. O líder do povo do Brasil começa a sua carreira de grande líder de toda a América. Porque viveu no interior da sua pátria os problemas semelhantes de todos os países latino-americanos.”


     “A coluna, linha do coração traçada na mão do Brasil, como disse o poeta, amiga, revela o país para Luís Carlos Prestes, dá-lhe a responsabilidade de Herói de um povo. Nunca trairá a Coluna. Mesmo hoje, amiga, na prisão mais infecta, ele está continuando a Grande Marcha, os problemas na mão direita, na mão esquerda as soluções. Como naqueles distantes anos, o povo o espera. Mais que qualquer outra, sua voz vai concorrer para que terminem os dias de fome e de escravidão. Desta vez para sempre.”


     “Todos esses revolucionários sul-americanos, que haviam tomado parte em golpes armados nos seus países, que haviam fracassado, não pensam noutra coisa senão em novos golpes. Prestes, não. Ele pensa em problemas para os quais é necessário encontrar solução. Ele pensa em encontrar a fórmula que possa solucionar aquela equação de novo tipo. Por que fracassaram estas revoluções? Por que sendo tamanhos os problemas são tão reduzidos os programas e as consignas? Por que, se uma revolução é vitoriosa, meses depois nada distingue os revolucionários no poder dos políticos derrubados do poder? Que há por detrás disso tudo? Que filosofia de vida, que doutrina pode responder a todas essas perguntas? Qual poderá solucionar os problemas do povo?”


     “As divergências de Prestes com os demais exilados brasileiros irão em breve começar e logo se agravar. Agora todos os sábados conversa com Ghioldi e outros comunistas, apresentando os seus problemas, os problemas do Brasil, discutindo e aprendendo. Lê muito. Lê avidamente. Quando chega do trabalho – porque continua a exercer a sua profissão de engenheiro e a administrar as rendas parcas dos exilados – se joga sobre os livros, esquecendo a comida, o descanso, as diversões, na febre de aprender. E, como é de seu hábito, quer que os outros leiam. Distribui livros, cita trechos, vai palmilhando o seu caminho com a mesma precisão que o fizera um grande general e um grande engenheiro.
     O movimento operário argentino é outro campo em que muito aprende. Antigo movimento esse, amiga. Ainda nos tempos da Primeira Internacional, Engels se correspondia com os líderes proletários do Prata. Os partidos Radical, Socialista e Comunista são longamente observados por Prestes, que se aprofunda no estudo da política argentina. Por outro lado, estuda a experiência soviética. Dessas conversas, dessas análises, dessas aproximações, desses estudos, resulta que Prestes compreende a importância da classe operária na revolução, o seu papel de classe organicamente revolucionária. Vê que com o proletariado está, naturalmente, a hegemonia da revolução. Que a pequena e a média burguesia, e mesmo a burguesia progressista, se querem salvar-se nesse momento do mundo, têm que cerrar fileiras ao lado da classe operária e acompanhá-la. Seu pensamento descortina novos horizontes, amiga.”


     Prestes escreve sobre o Brasil: 
As condições peculiares à nossa categoria de país dominado pelos grandes senhores da terra, por um regime semifeudal de latifundiários ou da exploração das massas semi-escravizadas dos campos e ainda do país semicolonial dependendo do imperialismo, estabelecem como etapa imediata do movimento emancipador do Brasil a revolução agrária e antiimperialista. A dominação que esses latifundiários exercem sobre a ditadura política apoiados no imperialismo, na terrível opressão do capitalismo estrangeiro, torna estes pontos os mais sensíveis do nosso sistema explorador e portanto aqueles sobre os quais se têm de concentrar os seus esforços revolucionários.”


     “Daí dirige uma carta circular aos seus amigos e companheiros das lutas anteriores. Esclarece seu pensamento, agora já é o marxista quem fala, sua linguagem é uma linguagem nova, esses anos de estudos, de experiências, de discussões, de erros, de busca de um caminho fizeram dele um revolucionário consciente. Agora já sabe o que o povo brasileiro precisa, já tem uma resposta para as perguntas que lhe fizerem.”


     “Prestes, ao aderir ao proletariado na sua revolução, sabe que todos os ódios dos donos da vida vão acirrar-se contra ele. Mas, quando aceita o marxismo como concepção de vida, quando encontra nele a resposta às suas perguntas, não tem um minuto de vacilação. É o mesmo general Luís Carlos Prestes que atravessava por caminhos que faziam os demais estremecer. Ali está a verdade, ele a acompanhará.”


     “Nunca, em todo mundo, incluindo o futurismo de Marinetti no fáscio italiano, incluindo as teorias árias do nazismo alemão, nunca se escreveu tanta idiotice, tanta cretinice, em tão má literatura, como o fez o integralismo no Brasil. Foi um momento onde maior que o ridículo só era a desonestidade. Plínio Salgado, führer de opereta, messias de teatro barato, tinha o micróbio da má literatura. Tendo fracassado nos seus plágios de Oswald de Andrade, convencido que não nascera para copiar boa literatura, plagia nesses anos o que há de pior em letra de fôrma no mundo. É a literatura mais imbecil que imaginar se possa.”


     “Getúlio apoiava-se em uma trilogia trágica: Rao, Filinto e Plínio Salgado. Latifúndio, imperialismo e fascismo. O programa de um Governo Popular Nacional Revolucionário era exatamente o de combate a estes inimigos do povo.”


     “Bando de torturadores, recrutados entre os criminosos mais eficientes. Dos chefes ao último tira. Dos que formaram o Tribunal de Segurança aos investigadores sem importância. Nomes que dá nojo dizer. Desonra da espécie humana, indignidade vivendo, bestas vestidas de homens, excrescência de podridões, hálito fétido de latrinas.
     Lama, sujeira, lixo, miséria, chagas podres, carne leprosa, pus de feridas, vômito e escarro, podridão humana, excremento de prostíbulos! Mais vale, amiga, encher a boca de sujeira que pronunciar o nome desses vermes com corações de feras, soltos sobre o Brasil, presença envilecendo a Pátria. Os assassinos! Frios assassinos, covardes assassinos, bestiais e degenerados! Qualquer palavra suja, qualquer imundo substantivo, é doce palavra de poema lírico ao lado desses nomes podres. Leprosos por dentro, a lepra no coração infame.”


     “Torturavam Prestes, era seu ódio maior, porque era seu medo maior. E torturavam Olga, a esposa de Luís, que trazia no ventre uma criança filha daquele amor. Descobriram então o maravilhoso presente, o regalo ideal, para mandar ao grande tirano Adolf. E enviaram-lhe Olga com o filho no ventre. Com certeza o grande tirano ficaria feliz. Um ser humano que levava outro dentro de si para que ele os torturasse à vontade. Assim fazes, amiga, os tiranos quando querem imitar os homens.
     No cargueiro que reproduzia as viagens dantescas dos navios negreiros, Olga dormia sobre a sujeira dos vômitos, sentia dentro de si aquela vida bulindo, fruto do seu amor. No Brasil, nas mãos mesquinhas dos inimigos do povo, nas mãos desses homens que odeiam tudo que representa dignidade e beleza, ficava seu marido que era a própria dignidade e a própria beleza da vida. E ela, com um filho no ventre, ia para as mãos de um louco feroz que desgraçava sua pátria de nascimento. Um mês no porão infecto, sem ar, sem luz, como um fardo jogado sobre as sujeiras. Ouvindo os hinos hitleristas, as saudações odiosas, viajando para o próprio inferno.”


     “Diante do que os integralistas saem à rua, armados de punhais, ornados com a cruz suástica, com fuzis alemães, Newton Cavalcanti é enviado para fechar as câmaras, e Vargas dá, tranquilamente, o golpe de Estado. A 10 de novembro é comunicado ao país e ao Povo que já não existe a república do Brasil, agora existe o Estado Novo corporativo, com uma constituição copiada da italiana e da portuguesa, sob os ardentes aplausos e votos de felicidade da Alemanha e da Itália.
     Vão começar, amiga, os anos ainda mais desgraçados do Estado Novo. O Estado Novo se caracteriza pelo desejo de arrancar do brasileiro todas as suas qualidades de caráter. É o regime do suborno, da absoluta e cínica despreocupação pelos interesses do país e do povo, é o regime da servilidade, da bajulação e da torpeza no seu máximo. Tirania na América. Degradante e criminosa.”


     “Lá está ele, amiga, na prisão. Sobre as grades de ferro dos buracos por onde penetra um pouco de ar, as telas de arame impedem que ele veja a paisagem bela da cidade. Mas nada impede que seus olhos profundos vejam o desenrolar da vida, sintam e analisem e julguem os acontecimentos, que vejam o caminho a seguir.
     Quando sua voz fala, amiga, é o gênio do povo que fala por ela, condutor da sua gente, general do Brasil, Herói da América!
     Lá está ele na prisão imunda. Não lhe permitem falar nem com seu advogado, não lhe permitem escrever os livros que deseja escrever, cortam sua correspondência com a família, castigam-no de todas as maneiras, desde que começou a guerra ele não sabe da sua esposa, processam-no e julgam-no à sua revelia, dão-lhe uma comida insuficiente e contra-indicada para as suas enfermidades, puseram-no nas proximidades de tuberculosos para ver se o contagiavam, puseram ao seu lado o companheiro que enlouqueceu com as torturas para ver se assim o enlouqueciam também. Fizeram-lhe tudo que se pode fazer a um ser humano, a um animal para experiências de laboratórios de cientistas degenerados, tratam-no como a um cão hidrófobo. Lançaram sobre ele lama e lodo, pensando que assim afastavam dele o povo, que assim o tornariam impotente e inofensivo. Não tiveram coragem de matá-lo, temem o povo que se levantará para vingar a morte do seu Herói. Mas assassinam-no lentamente, com uma crueldade inaudita. Mantêm sua velha mãe numa tortura selvagem, mantêm ele sob regime inumano.
     Não conseguiram dobrá-lo, não conseguiram afastar o povo dele. Todos os sofrimentos não diminuíram sua profunda visão do mundo e dos homens. Todas as misérias não diminuíram o amor que o povo lhe tem, a confiança que deposita nele, a certeza, que o verá novamente partir pelos campos do Brasil na batalha definitiva da liberdade.”