A conversão de São Paulo

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terça-feira, 27 de setembro de 2011

Notícias do Império – Fernando del Paso

Editora: Record
ISBN: 85-01-053384-8
Opinião: ****
Páginas: 660


     “Mas estranho que o senhor considere os ingleses europeus. Em mais de um sentido, a Inglaterra não é a Europa. Digamos que podemos considerar os ingleses europeus quando nos convém e como bárbaros, vikings ou o que quiser quando for mais adequado para nossos interesses. Afinal, eles, e ninguém mais, são os culpados de que haja na América vinte milhões de ianques, os novos vândalos da história, que querem roubar todo o continente, a começar pelo nome, do qual já se apossaram.” 


      “O chanceler austríaco Klemens Lothar Metternich, apelidado de Grande Inquisidor da Europa, e a quem, graças à sua insistência e bom gosto, se deve a invenção do bolo de chocolate vienense Sachertorte, afirmava que o café devia ser quente como o amor, doce como o pecado e negro como o inferno.” 


      “E, sim, claro, os astecas também eram cruéis, não é verdade? Faziam sacrifícios humanos. Isso, claro, era errado. Mas o que não podemos permitir é que nós europeus continuemos a nos espantar com esses sacrifícios quando, na época em que soubemos deles, a Inquisição agia na Europa com todo o seu horror. Com uma diferença: a religião dos astecas era uma religião de deuses cruéis, portanto o sacrifício tinha uma lógica: macabra, sim, mas uma lógica. Nós, na Europa, torturávamos inocentes e queimávamos bruxas em nome de um Deus todo misericordioso.” 


      “Acaba de ser publicado um regulamento para os bailes à fantasia no jornal oficial, no que agora é chamado de Diário do Império... É muito curioso: é proibido fantasiar-se de sacerdote, freira, bispo ou cardeal... Mais que curioso, diria eu, é redundante, pois proíbe fantasiar-se com fantasias... pois são isso as batinas e os hábitos: fantasias de teatro. Recordo-me agora do que um amigo meu dizia sobre os jesuítas, que são talvez os mais perigosos de todos: sob o manto negro de Inácio de Loyola esconde-se a espada de Iñigo López.” 


      “Mas acontece algo muito irônico: quanto mais distinto e culto é um mexicano, menos mexicano ele é, e também menos parece importar a ele o futuro de seu país. O que interessa a eles é viver como europeus e que seus filhos sejam educados como tais.” 


      “Mas o que se pode esperar de um país onde todos os meses são descobertas e destruídas duas ou três máquinas para falsificar moeda e no qual essa arte era praticada desde o tempo dos astecas? Ou seja, aqui já se falsificava a moeda quando esta ainda não existia. Serei mais claro: naquela época o que fazia as vezes de moeda era o cacau – que agora descobri ser originário do México. Ou melhor, usava-se a semente de seu fruto, que é grande. Pois bem, você não vai acreditar, mas havia índios que faziam um buraco na semente, tiravam seu conteúdo, com o que é feito o chocolate, e depois enchiam o buraco com barro e disfarçavam o orifício.” 


      “‘Veja bem, o México’, dizia-me outro dia um importante geógrafo, ‘tem a forma de uma cornucópia’. Limitei-me a assentir, com um leve levantar de sobrancelhas. Não quis dizer ao bom homem, primeiramente, que o país adquiriu essa forma depois que os americanos roubaram metade do mesmo; segundo, que a boca da cornucópia esta para cima, ou seja, voltada para os Estados Unidos, como uma premonição, talvez, do destino futuro das riquezas deste país.” 


      “Mas um pouco antes Mejía deu mostras de que não perdera o bom humor: quando Maximiliano, no convento, escutou uma trombeta e perguntou a ele se aquele seria o sinal de partida para o patíbulo, “o negrinho” respondeu: “Não sei, Vossa Majestade, é a primeira vez que me executam”.” 


      “Morto o cão, dizem, acaba a raiva.”

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