A conversão de São Paulo

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segunda-feira, 4 de julho de 2011

Lobisomens – Sabine Baring-Gould

Editora: Leitura
ISBN: 978-85-7358-964-1
Opinião: ***
Páginas: 176
     “O que é licantropia? A transformação de um homem ou uma mulher em lobo, tanto por meios mágicos – para que a pessoa possa satisfazer o apetite por carne humana – ou por castigo imposto pelos deuses em punição a uma grande ofensa.
     Essa é a definição popular. Na verdade, a licantropia consiste em uma forma de loucura, como aquela encontrada na maioria dos hospícios.”


      “Toda a superestrutura da fábula e do romance relativo à transformação em animais selvagens reside simplesmente sobre esta base de verdade: que entre as nações escandinavas existiu uma forma de loucura ou possessão, sob a influência da qual homens agiram como se fossem transformados em brutos selvagens, uivando, espumando pela boca, sedentos de sangue e matança, prontos para cometer qualquer ato de atrocidade, e tão irresponsáveis por suas ações quanto lobos e ursos, com cujas peles eles geralmente se vestiam. (...)
     Pode-se aceitar como axioma que nenhuma superstição de aceitação geral esta destituída de uma base verdadeira; e, se nós descobrirmos o mito de um lobisomem sendo disseminado amplamente, não apenas por toda a Europa, mas por todo o mundo, devemos ter certeza de que há um núcleo sólido factual, rodeado por superstição popular que se cristalizou; e que o fato é a existência de uma espécie de loucura, uma crise na qual as pessoas afetadas acreditam ser um animal selvagem e agem como ele.”


      “Na dissertação de Muller (1736), cuja fonte foi Cluverius e Danhaverus, (Acad. Homilet. p. ii.), tivemos conhecimento de que um certo Albertus Pericofcius em Moscou tinha o hábito de tiranizar e fustigar seus súditos das formas mais inescrupulosas. Uma noite, quando ele estava fora de casa, todo seu rebanho de gado, adquirido por meio de extorsão, pereceu. Quando voltou para casa foi informado a respeito da perda, e o perverso homem desferiu as mais horríveis blasfêmias, exclamando: “Permita que aquele que matou coma; e se Deus conceder, que ele também possa me devorar.”
     Assim que ele falou, gotas de sangue caíram no chão, e o nobre se transformou em um cão selvagem, correu até seu gado morto, destroçou e dilacerou as carcaças e começou a devorá-las; e não parou até que chegasse o seu fim (ac forsan hodie que pascitur). Sua esposa, então próxima à sua reclusão, morreu de medo. Dessas circunstâncias não há apenas relatos, mas também testemunhas. (Non ab auritis tantum, sed et ocidatis accepi, quod narro).”


      “Os esportistas e pescadores seguem um instinto natural de destruição quando atiram em um pássaro ou outro animal, ou fisgam um peixe: a pretensão de que a presa seja caçada para colocá-la à mesa não pode ser feita com justiça, pois o esportista se preocupa pouco com o jogo que ganhou, desde que tenha a presa em mãos. O motivo para a feroz perseguição de um pássaro ou animal certamente é outro: o desejo ardente de se extinguir a vida que existe em sua alma. Por que uma criança impulsivamente bate em uma borboleta assim que ela passa voando? Ela não se importa com o inseto ao esmagá-lo com os pés, a menos que esteja agonizando, o que ela observa com grande interesse. A criança bate na criatura voando porque a borboleta tem vida, e ela tem um instinto que a impele a destruir a vida assim que a encontra.
     Pais e enfermeiras sabem bem que as crianças por natureza são cruéis, e que a humanidade tem de ser adquirida pela educação. Uma criança exulta com maldade os sofrimentos de um animal ferido até que sua mãe lhe peça: “deixe-o em paz, tenha compaixão”. Uma criança inocente nem pensaria em pôr fim à agonia da criatura abruptamente, como se saboreasse um bombom inteiro antes de engoli-lo. A crueldade inerente pode ser obscurecida por impressões posteriores ou pode ser mantida sob repressão moral; a pessoa que é inerentemente um “Nero”, não consegue reconhecer a sua própria natureza, até que algum dia, por acidente, o ímpeto se torne dominante e arrebate tudo diante de si. Um relaxamento da posição moral, um choque do intelecto controlador ou uma condição anormal do corpo são suficientes para permitir que o ímpeto se afirme.”


      “Vi uma jovem realizada, de considerável refinamento e de um temperamento extremamente nervoso, enfiar moscas com a agulha em um pedaço de linha e assistir com complacência o bater de asas agonizante. A crueldade pode permanecer latente até que, por algum acidente, ela apareça: então, irromperá em uma chama devastadora. O ímpeto do amor e do ódio é semelhante ao que ocorre com a sede por sangue; nós não fazemos ideia da intensidade com que eles podem surgir até que as circunstâncias ocorram. Amor ou ódio serão dominantes em um peito que esteve sereno até agora, pois quando a fagulha surge repentinamente, a paixão se acende, e a serenidade de um peito quieto é destruída para sempre. Uma palavra, um olhar, um toque são suficientes para atear fogo ao paiol da paixão no coração e desolar para sempre uma existência. É o mesmo que acontece com a sede por sangue. Ela pode espreitar nas profundezas do coração de alguém muito querido para nós. Pode queimar no seio daquele que é muito importante, e nós podemos ser perfeitamente inconscientes da sua existência. Talvez as circunstâncias não propiciem seu surgimento; talvez o princípio moral possa tê-la abatido com grilhões que jamais conseguirá arrebentar.”


      “A mitologia popular na maioria das culturas considera a alma oprimida pelo corpo, e sua libertação é uma libertação do “fardo” da carne. Se a alma é capaz de agir ou expressar-se completamente sem um corpo, assim como o fogo existe sem o aparato da caldeira a vapor ou da maquinaria, é uma questão que ainda não foi aceita pela mente popular. Somente a religião cristã dá o mesmo valor ao corpo e à alma, e dando uma esperança de enobrecimento e ressurreição nunca sonhado em qualquer outro sistema mitológico.
     Mas o credo popular, em vez do testemunho mais enfático das Escrituras, é de que a alma esta sujeita há tanto tempo, que se uniu ao corpo, uma crença inteiramente de acordo com o Budismo.”

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