segunda-feira, 28 de março de 2011

No coração das perobas – Domingos Pellegrini

Editora: Record
ISBN: 978-85-0106-211-6
Opinião: *
Páginas: 436


      “– E daí você foi feliz, mãe?
     – Mas o que é ser feliz, filha? Sei é que arranjei alguém pra minha vida, que a vida é dura, mais ainda sem um companheiro.”


     Será que meu destino vai ser como o daquela professora de História, de que todos falam tanto, solteirona até os trinta, sapatona antes dos quarenta... Ah, o olho solta lágrima, o ouvido solta cera, o nariz solta caca, o cérebro tem essas ideias de vez em quando. Pare com isso, menina! A vida continua, como dizem... os perdedores.


      “– Chegamos cedo?
     – Não – a mulher está vestida e pintada para festa – A gente só estava namorando. Namoro de velho é conversar de mão dada...”


      “(...) a guerra pra gente era a guerra, pra soldado era a revolução. Perguntei qual a diferença, o cabo disse revolução é guerra com gente do próprio país, e guerra é contra outro país, nunca mais esqueci.
     Mas pro povo – disse minha mãe – é tudo guerra.


      Gaúcho é sempre alegre quando não tá bravo.”


      “– Guerrear enfiado em buraco (trincheira) já é meia sepultura”.


      Cuidado, Juliana Prestes, não é pelo homem que você se apaixona, é pelo menino no homem, e você sabe, no começo todos eles são meninos, depois viram homens e...”.


      É o povo do seu país, Juliana Prestes. Aceitam qualquer trote, baixam a cabeça para tudo, desviam de todo problema, rodeiam a trombada para ver o sangue e não para ajudar o ferido. Aplaudem e perdoam quase sempre o governo, fogem de quem luta mesmo contra governo ruim. Poucas cidadezinhas receberam bem a coluna Prestes...”.


      O bem divide, o mal multiplica, como dizia Venâncio.
     O bem aparece, o mal se disfarça.
     O bem não precisa do mal, mas o mal não vive sem o bem.
     O bem faz bem sem ver a quem, o mal faz mais mal a quem conhece bem.
     O bem faz bem a quem faz e a quem recebe, o mal faz mal a alguém e se sente bem.
     O bem pode não saber direito por que, nem para que, mas sabe que precisa fazer o bem.
     O mal não precisa saber de nada, só que fazer o mal faz ao malvado bem...”.


      “– A maior prisão do Brasil é a ignorância.


      Na guerra, quem tem coragem vai na frente, quem tem cabeça vai atrás.


      Não chorei quando matei um homem pela primeira vez, porque era inimigo matador e em caso assim a cabeça defende o coração, mas chorei quando morreu meu primeiro cavalo, bicho que nunca tem culpa de nada.


      “– Se o povo não tivesse medo, não existia tirania.”


      Quando li que Che Guevara lia poesia pro pessoal de noite em redor do fogo, pensei olha o Siqueira aí, lendo antes de dormir num canto qualquer, num colchão no chão ou numa rede esticada num quarto, de repente parava e lia um trecho do livro, ou perguntava por exemplo:
     Sabiam que a Floresta da Tijuca foi toda plantada?! É uma floresta artificial! Se conseguimos até fazer uma floresta como aquela, o que é que não podemos fazer?!
     Podia ser medicina, economia, política, ciências, poesia, ele pegava livros por onde passava, ia lendo, deixando em outro lugar para alguém devolver, mas a pessoa, geralmente mulher, quase sempre pedia para ele assinar no livro e guardava para si... Li que, devido a ele não ter namorada nem procurar mulher, podia ser menos homem, homem que gosta de homem, mas o que acontecia era que ele era casado, casado com a revolução. Tem gente que casa com a rotina, tem gente que casa com a segurança, basta ver tanta casa tão fechada e gradeada que parece prisão, e tem gente que casa com a religião, com o trabalho, com a vigarice, com a preguiça, com o ciúme, e Antonio de Siqueira Campos era casado com a revolução.


      “Juliano Siqueira abre os braços para o baú agora na sala – É tudo seu! Já era tempo de eu entregar isto a alguém, antes de ir pro céu encontrar os amigos, como dizia o Venâncio, ou ir pro inferno encontrar os inimigos...”.


      Cada trecho da viagem era com um guia diferente, questão de segurança, embora fosse muito mais seguro a gente ir sozinho. Eram todos cheios de medo, olhando tanto em volta que dava na vista. A um Franciscão falou calma, rapaz:
     Se você perde a calma, perdeu tudo...”.


      “– Eu jamais vou dizer que te amo, Juliana Prestes, porque essa história de ficar falando eu te amo, eu te amo, é o começo do fim e eu quero você para sempre.


      “Querem saber duma coisa? – Juliano Siqueira começa calmo e vai se inflamando – O que funciona é chamar a imprensa e fazer barulho, queimar pneu, invadir, quebrar, brigar com a polícia se for preciso, aí ouvem a gente! É ou não é?! Morre criança atropelada, o povo faz arruaça, pára a rodovia, aí fazem a passarela. Quer terra? Invade primeiro e conversa depois. Quer casa? Invade prédio abandonado e vai ficando... Quer mais médico no posto? Quebra o posto que aí reformam e botam mais médico. (...)
     – Povo cordeiro, só sabe sofrer e apanhar.”


      “De paletó e com os primeiros sapatos que comprou na vida, Juliano Siqueira andaria pelo centro de São Paulo vendo as luzes, os bondes, as luzes no asfalto molhado, as luzes na garoa, as luzes dos palacetes, os prédios iluminados, viu que cidade é luz. E miséria.”


      “Todo mundo gosta de viver bem, e quando recebeu o segundo salário das três irmãs, já tinha aprendido a gostar de gastar dinheiro, que é a única coisa boa do dinheiro, já que ganhar é difícil e guardar mais ainda. Então tomou banho no meio duma tarde, vestiu o melhor dos paletós, foi engraxar os sapatos e, vendo de cima a cabeça do engraxate, lembrou de quando tinha sido engraxate em Foz. Ficou se vendo ali naquele menino que, no entanto, levaria outra vida, teria outro destino, e então compreendeu, ali, vendo o guri cuspir no sapato antes de estapear com o pano para dar brilho, compreendeu que tem dois tipos de gente o mundo:
     – Quem espera e quem faz. Quem abre caminho e quem depois usa a estrada. Quem não se conforma e quem nem percebe que é conformado...
     – Ou os que fazem e os que sofrem a História...
     Ele fica pensando no que ela falou, depois fala que não foi bem isso que quis dizer...
     – ... e, além disso, tem também os que nem fazem nem sofrem, só se aproveitam, né...”.


      “Ele encostou num tronco e começou a chorar, bestamente como se chora quando menos se espera, represa que rompe, ponte que desaba, fruto que amadurece até cair, um dia cai, um dia se chora tudo que se guardou, pra que não apodreça no peito, como nenhuma fruta apodrece na árvore.”


      “– O que é revolução?
     – É a evolução com pressa.”


      Sabe, moça, vendo você mexer nessa papelada desmanchando de velha, lembrei duma quadra que o Venâncio volta e meia cantarolava:

Nada como matar tempo
sem nem saber até quando
sabendo que todo o tempo
o tempo está nos matando

     Venâncio falava muita poesia, acho que inventava na hora, que às vezes algum pedia pra repetir uma quadra sobre isso ou aquilo, ele já tinha esquecido. (...)

Eu vivo entre o meu povo
que é e não é feliz
povo que diz o que faz
porém não faz o que diz
é honesto e é desonesto
povo que presta e não presta
sempre pronto a ser povo
que ama e depois detesta
povo que aplaude e lincha
às vezes é muito gente
às vezes é muito bicho
por isso digo de novo
jamais me queira perfeito
eu sou assim deste jeito
pois vivo entre meu povo...


      E virei comunista acho que na melhor época do movimento comunista no Brasil, quando o partido era cheio de gente generosa e patriota, gente de bem e de brio, acreditando num mundo melhor e prontos a morrer por isso, e morriam, e hoje, quando se vê o que o comunismo deixou no mundo, o que eu sinto é que morreram à toa. Porque muito antes do Muro de Berlim se desmanchar, que não caiu, se desmanchou, só quem queria ser cego não via que a tal ditadura do proletariado só tinha levado ditadura pro proletariado.


       “– Neste país, só gaúcho e nordestino entram em luta pra valer, o resto só faz de conta!

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