terça-feira, 13 de outubro de 2009

Livro do Desasossego - Fernando Pessoa

Editora: Companhia de Bolso
ISBN: 978-85-3590-849-7
Opinião★★★★☆
Páginas: 560
     “Deus é o existirmos e isto não ser tudo.”


      “Haja ou não deuses, deles somos servos.”


      “A beleza de um corpo nu só a sentem as raças vestidas. O pudor vale sobretudo para a sensualidade como o obstáculo para a energia.”


      “Não se pode comer um bolo sem o perder.”


      “Agir, eis a inteligência verdadeira.”


      “Nunca amamos alguém. Amamos, tão-somente , a ideia que fazemos de alguém. É a um conceito nosso – em suma, é a nós mesmos – que amamos.”


      “A renúncia é a libertação. Não querer é poder.”


      “Para mim, escrever é desprezar-me; mas não posso deixar de escrever. Escrever é como a droga que repugno e tomo, o vício que desprezo e em que vivo. Há venenos necessários, e há-os subtilíssimos, compostos de ingredientes da alma, ervas colhidas nos recantos das ruínas dos sonhos, papoilas negras achadas ao pé das sepulturas dos propósitos, folhas longas de árvores obscenas que agitam os ramos nas margens ouvidas dos rios infernais da alma.”


      “Os homens de acção são os escravos involuntários dos homens de entendimento. As coisas não valem senão na interpretação delas. Uns, pois, criam coisas para que os outros, transmutando-as em significação, as tornem vidas. Narrar é criar, pois viver é apenas ser vivido.”


      “Só uma alma satânica poderia ter inventado a ideia de inferno.”


      “O caçador de leões não tem aventura para além do terceiro leão.”


      “A razão é a fé no que se pode compreender sem fé; mas é uma fé ainda, porque compreender envolve pressupor que há qualquer coisa compreensível.”


      “Pensar é destruir. O próprio processo do pensamento o indica para o mesmo pensamento, porque pensar é decompor. Se os homens soubessem meditar no mistério da vida, se soubessem sentir as mil complexidades que espiam a alma em cada pormenor da acção, não agiriam nunca, não viveriam até. Matar-se-iam de assustados, como os que se suicidam para não ser guilhotinados no dia seguinte.”


      “Assim, há dois tipos de artista: o que exprime o que não tem e o que exprime o que sobrou do que teve.”


      “Não se subordinar a nada – nem a um homem, nem a um amor, nem a uma ideia, ter aquela independência longínqua que consiste em não crer na verdade, nem, se a houvesse, na utilidade do conhecimento dela – tal é o estado em que, parece-me, deve decorrer, para consigo mesma, a vida íntima intelectual dos que não vivem sem pensar. Pertencer – eis a banalidade. Credo, ideal, mulher ou profissão – tudo isso é a cela e as algemas. Ser é estar livre.”


      “Possuir é ser possuído, e portanto perder-se (...) Sentir sem possuir é guardar, porque é extrair de uma coisa a sua essência.”


      “Que seria do mundo se fôssemos humanos?”


      “A acção é uma doença do pensamento, um cancro da imaginação. Agir é exilar-se. Toda a acção é incompleta e imperfeita. O poema que eu sonho não tem falhas senão quando tento realizá-lo. No mito de Jesus está escrito isto; Deus, ao tornar-se homem, não pode acabar senão pelo martírio. O supremo sonhador tem por filho o martírio supremo.”


      “Não há felicidade senão com conhecimento. Mas o conhecimento da felicidade é infeliz; porque conhecer-se feliz é conhecer-se passando pela felicidade, e tendo, logo já, que deixá-la atrás. Saber é matar, na felicidade como em tudo. Não saber, porém, é não existir.”


      “Viver do sonho e para o sonho, desmanchando o Universo e recompondo-o, distraidamente conforme mais apraza ao nosso momento de sonhar. Fazer isto consciente, muito conscientemente, da inutilidade e ____________ de o fazer. Ignorar a vida com todo o corpo, perder-se da realidade com todos os sentidos, abdicar do amor com toda a alma. Encher de areia vã os cântaros da nossa ida à fonte e despejá-los para os tornar a encher e despejar, futilissimamente.
     Tecer grinaldas para, logo que acabadas, as desmanchar totalmente e minuciosamente. Pegar em tintas e misturá-las na paleta sem tela ante nós onde pintar. Mandar vir pedra para burilar sem ter buril nem ser escultor. Fazer de tudo um absurdo e requintar para fúteis todas as nossas estéreis horas. Jogar às escondidas com a nossa consciência de viver.
     Ouvir as horas dizer-nos que existimos com um sorriso deliciado e incrédulo. Ver o Tempo pintar o mundo e achar o quadro não só falso mas vão.
     Pensar em frases que se contradigam, falando alto em sons que não são sons e cores que não são cores. Dizer – e compreendê-lo, o que aliás é impossível – que temos consciência de não ter consciência, e que não somos o que somos. Explicar tudo isto por um sentido oculto e paradoxo que as coisas tenham no seu aspecto outro-lado e divino, e não acreditar demasiado na explicação para que não hajamos de a abandonar.
     Esculpir em silêncio nulo todos os nossos sonhos de falar. Estagnar em torpor todos os nossos pensamentos de acção.
     E sobre tudo isto, como um céu uno e azul, o horror de viver paira alheadamente.”


      “A leitura dos jornais, sempre penosa do ponto de ver estético, é-o frequentemente também do moral, ainda para quem tenha poucas preocupações morais.”


      “Os homens são fáceis de afastar: basta não nos aproximarmos.”


(Não foi inserido por questões de espaço, mas recomendo a “Marcha fúnebre para o rei Luís Segundo da Baviera”)


      “A arte é um isolamento. Todo o artista deve buscar isolar os outros, levar-lhes às almas o desejo de estarem sós.”


      “Para mim uma criatura não tem alma. A alma é só com ela mesma.”



      “G. Junqueiro? Tenho uma grande indiferença pela obra dele. Já o vi... Nunca pude admirar um poeta que me foi possível ver.”

3 comentários:

Doney disse...

Esta foi uma das obras mais difíceis que já li e com certeza a que mais tive dificuldade em selecionar os trechos postados no blog.
Poderiam ser escolhidos outros fragmentos, absolutamente diversos destes que aqui estão, e a qualidade seria similar.

raph disse...

Este é um livro que deve ser ler com muita calma e a mente leve, do contrário seria melhor não haver lido :)

Abs
raph

joao Em Decomposição disse...

Na minha opinião este é o melhor livro da língua portuguesa. Disputa, pau a pau, com A DESCOBERTA DO MUNDO, de Clarice.
A admiração por estes grandes livros foi o ponto de partida para o livro de Jaraus Arvoredo - PROCURE JOÃO EM DECOMPOSIÇÃO. Meio romance, meio ensaio, ele conta a história de um homem que gostava tanto de ler filosofia que acabou se apartando da realidade cotidiana. Recomento. É uma pancada na cabeça, mas a gente só cresce com a dor. Ou não?