quinta-feira, 6 de outubro de 2016

A Bíblia sem mitos: uma introdução crítica (Parte III) – Eduardo Arens

Editora: Paulus
ISBN: 978-85-349-2770-3
Tradução: Celso Márcio Teixeira
Opinião: ★★★★☆
Páginas: 416
Sinopse: Ver Parte I



“Há importância em conhecer o que o autor quis dizer, ou basta o que o texto nos diz, independentemente do que o autor pretendeu dizer, como afirmam filósofos como Hans-Georg Gadamer e Paul Ricoeur? A resposta está implícita em toda a discussão que até aqui expus e pode resumir-se em uma frase: Deus não inspirou nem inspira textos, mas pessoas. Os textos são produtos de pessoas; as interpretações são as pessoas que as fazem. Por outro lado, a fidelidade ao sentido literal (à mensagem básica originária) plasmado pelo escritor inspirado, cujo texto foi canonizado, coloca em jogo nossa própria fidelidade à mensagem que qualificamos como “Palavra de Deus”. É questão de identidade e de continuidade. Daqui a importância da exegese e da hermenêutica: saber o mais precisamente possível o que se quis dizer no momento de sua redação, e o que o texto diz nos contextos e nas conjunturas atuais. Ignorar o que o escritor bíblico quis comunicar arrisca desembocar na leitura fundamentalista da Bíblia.”


“Não posso sublinhar suficientemente a importância que têm os escritos bíblicos como testemunhas da revelação histórica, mediante a qual Deus se deu a conhecer e expressou sua vontade salvífica para os homens. Evidentemente, nós não temos sido testemunhas dessa revelação histórica (por exemplo, do êxodo, da conquista, das vozes proféticas, até da vida histórica de Jesus). É somente mediante os testemunhos bíblicos que temos acesso a essa revelação, cuja importância radica não somente no fato de ser revelação divina, mas também no fato de ser fundacional: tanto a fé judaica como a cristã se fundamenta nessa revelação histórica dos tempos bíblicos.”


“Mas pontualmente, o que é próprio da inspiração bíblica? É a capacidade de reconhecer, compreender e interpretar a Revelação como tal e de transmiti-la fielmente. Dito em outras palavras, Deus guiou algumas pessoas, das que viveram as experiências às quais a Bíblia se refere, a reconhecê-las, compreendê-las e interpretá-las como manifestações da presença orientadora de Deus, e a transmiti-las como tais. É assim que Deus inspirou, quer dizer, iluminou e guiou as capacidades mentais de determinadas pessoas para que reconhecessem que o êxodo do Egito revelava que Iahweh é um Deus libertador e da liberdade, e não simplesmente que era resultado da astúcia desse grupo de hebreus ou da fraqueza dos egípcios. Inspirou a certos profetas a falar em seu nome, de modo que orientassem seu povo pelo caminho da Aliança. Inspirou a outros para que se dirigissem a ele por meio de Salmos. Igualmente, o Espírito inspirou algumas pessoas em particular para que colocassem por escrito essas tradições, guiando-as em sua tarefa redacional. O mesmo espírito, além disso, guiou seu povo a reconhecer a normatividade dos escritos que constituem a Bíblia, e eventualmente a tomar a decisão a respeito do cânon. Se não fosse assim, como poderemos estar seguros de que o relato do Êxodo, escrito vários séculos mais tarde, preservou seu verdadeiro significado revelador? Igualmente, como podemos estar seguros de que a decisão sobre o cânon bíblico foi correta, de que não excluíram escritos que deveriam ter sido incluídos, e vice-versa? São perguntas medulares. A única resposta que podemos dar nos vem da fé: “Deus os inspirou”, estava com eles, guiando-os de um modo especial.
Em poucas palavras, a inspiração bíblica é (1) um carisma ou dom de Deus aos “autores” (desde a tradição oral até a fixação da Bíblia), (2) que os guiava de tal modo que reconhecessem, compreendessem e interpretassem determinados acontecimentos e vivências, bem como determinadas comunicações, em sua dimensão reveladora (a respeito de Deus e de sua vontade), e (3) os transmitissem correta e adequadamente a seu auditório, (4) para sua edificação e orientação na fé ao longo do tempo, pelo caminho que conduz à salvação.
Todo carisma é um dom gratuito de Deus a certas pessoas para a edificação de sua comunidade (veja ICor 12 e 14). O carisma da inspiração é, além disso, para a orientação futura dessa comunidade: para guiá-la pelo caminho que conduz à salvação, à qual Deus chama as pessoas de todos os tempos. Não se limita, então, à comunidade imediata, já que os testemunhos bíblicos, ao ser postos pós-escrito, adquirem uma objetividade que se projeta além da comunidade do momento de sua composição escrita: atraem outras pessoas alheias a ela e às gerações futuras: “falam” a todas as pessoas de boa vontade. Intuíram isto as gerações que atualizaram as tradições antes de ser fixadas por escrito, da mesma maneira que aquelas que continuaram atualizando essa Palavra de Deus depois de sua escritura. A inspiração bíblica, que é uma forma excepcional do carisma geral da inspiração, fez com que a mensagem que o texto encerra se estendesse além da intenção imediata do autor. Deus previu que servisse de guia para o futuro. Isso não significa que expressamente respondesse a todos os problemas de todos os tempos, ou que as intuições ali expressas fossem perfeitas. Deus, que inspirou a determinadas pessoas nos tempos bíblicos, concedeu esse carisma com o fim de guiar outros para ele. Por isso, a inspiração bíblica desembocou na fixação por escrito da Revelação que, historicamente, Deus concedeu a seu povo até sua máxima expressão que foi o acontecimento-Jesus Cristo. Recordemos que a Bíblia é, entre outros, um conjunto de testemunhos de vivências reveladoras, e não a Revelação mesma. Deus não se revelou em livros, mas em acontecimentos. E a inspiração bíblica inclui a decisão sobre o cânon, pois apenas com essa decisão se teve a “Bíblia”.”


“Destaquei que Deus deu-se a conhecer em acontecimentos que foram vividos por indivíduos, acontecimentos que (por inspiração divina) foram compreendidos e interpretados como manifestações de Deus e de seus desígnios para os homens. Deus não se deu a conhecer nos relatos, mas nos acontecimentos, quer dizer, na história vivida. Na Bíblia temos os testemunhos de vivências reveladoras fundamentais e fundantes, mas não a Revelação mesma, que é anterior à composição dos diversos relatos e discursos que encontramos nos escritos bíblicos.
De que falamos?
Não se deve confundir Revelação e inspiração. Revelação é a manifestação da presença de Deus na história humana, mediante a qual ele se dá a conhecer e concede às pessoas reconhecer a ele e seu desígnio. Não houve uma, mas muitas revelações ao longo da história – que para simplificar chamamos de “Revelação”. A Revelação mais clara e explícita aconteceu mediante a vinda histórica de Jesus Cristo. A inspiração, ao contrário, é o dom (carisma) divino que guia as pessoas a reconhecer, compreender, interpretar e transmitir corretamente as manifestações reveladoras de Deus na história. A inspiração bíblica manifestou-se eminentemente na formação da Bíblia. A Bíblia aponta para a revelação divina, e definitivamente para o próprio Deus. Se a Revelação não fosse reconhecida e compreendida como tal, seria estéril. E se os testemunhos sobre a Revelação não houvessem chegado até nós (Bíblia), não saberíamos dela. Em outras palavras, Revelação e inspiração se complementam.”


“Nós, cristãos, confessamos que, quanto à identidade e à vontade de Deus, todo o essencial foi dito nos tempos bíblicos, cuja culminância foi a vinda de Jesus de Nazaré. Desse ponto de vista, do conteúdo essencial para a salvação, não haverá nada novo que Deus já não tenha revelado. Deus deu a conhecer tudo o que é necessário para que as pessoas possam chegar até ele. O que resta é ir compreendendo e aprofundando o significado e as implicações do que (conteúdo) Deus revelou e se encontra na Bíblia. No entanto, isso não significa que Deus já não fale à humanidade, que se tenha ausentado. Dito de outra maneira, enquanto novidade, informação, não haverá nada de novo até nosso encontro com Deus. Quanto à sua presença, esta não cessou, mas continua renovando-se: “Eu estou convosco todos os dias até o final dos tempos” (Mt 28,20). E seu espírito inspira as pessoas a continuarem comunicando-se com ele, a continuarem aprofundando e adaptando sua mensagem, a escutá-lo, a responder-lhe, tanto por meio dos testemunhos bíblicos como por meio dos acontecimentos e encontros que vivemos.”


“O coração da Revelação é a mensagem, que foi reconhecida graças ao dom da inspiração divina. Por isso, o esquema clássico “Deus -> Revelação - > Escritura” deve ser modificado para: “Deus -> acontecimento -> compreensão e interpretação -> tradição -> Escritura”.”


“Ao ler a Bíblia, especialmente seguindo a ordem cronológica da composição de seus escritos, se tem a impressão de que Deus foi-se dando a conhecer pouco a pouco. No entanto, o fato de que a Revelação foi acontecendo em acontecimentos e vivências que os homens deviam compreender, assim como a observação de que um mesmo acontecimento ocasionalmente se encontre interpretado na Bíblia em diferentes níveis de profundidade ou adaptado a diferentes circunstâncias, leva-nos a tomar consciência de que os homens foram lentamente compreendendo a Revelação e sua significação, segundo suas capacidades e seus condicionamentos. Em outras palavras, não é Deus que se tem revelado lenta e paulatinamente – Deus revela-se sempre como uma totalidade, como o próprio Deus –, mas os homens foram compreendendo e descobrindo lentamente o significado dos acontecimentos e as experiências reveladoras. E esse processo não terminou.
Não foi Deus que deu a conhecer aos homens, primeiramente, que é um Deus entre outros deuses (veja Gn 28,13; 35,1ss; Ex 3,6.15; 4,16; Jz 11,24, onde se reconhece a existência de outros deuses como tais), depois que é o Deus supremo (veja Ex 15,11; 20,2ss) e finalmente que é o único Deus (Is 43,10ss; 44,6 etc), mas antes foram os homens que foram descobrindo quem realmente é Deus. Igualmente, observamos nos textos mais antigos um desconhecimento de uma vida depois da morte (veja Is 38,18; Jó 14,13-22; Eclo 14,16ss; 17,22ss; assim como os Salmos), em textos mais tardios se fala já de um castigo depois da morte para, finalmente, tomar consciência de uma ressurreição. Dificilmente se poderá explicar por que Deus teria deixado a humanidade, durante séculos, na ignorância de algo tão importante como o destino depois da morte – algo sobre o qual os egípcios já tinham ideias claras muitos séculos antes! Não é que Deus se tenha revelado aos homens pouco a pouco, mas os homens o foram compreendendo lentamente. E a Bíblia contém a história da compreensão da Revelação por parte dos homens crentes em um processo de diálogo com seu Deus. E este processo de compreensão e aprofundamento não terminou.”


“Resumindo, Deus dá-se a conhecer de muitas maneiras, muitas das quais estão atestadas na Bíblia. De fato, embora se possa conhecer a Deus indiretamente em sua criação e nos acontecimentos da vida, ele é conhecido de forma mais direta na Bíblia, que fala explicitamente dele (Rm 1,18ss). A Bíblia permanece, então, como meio de Revelação (não como a Revelação mesma), porquanto constantemente apresenta a Deus e no-lo dá a conhecer: a Revelação é linguagem, e a Bíblia fala essa linguagem. Por isso, a qualificamos como “Palavra de Deus”. (...)
A Bíblia atesta a Revelação acontecida, remete a ela. Por isso, podemos dizer que é Revelação testemunhada, mas não a Revelação mesma. Portanto, não é correto dizer que a Bíblia é a Revelação. Mas é reveladora: aponta para Deus. É um meio de encontro com Deus, com o Deus da história. Daqui se pode dizer que tem caráter sacramentai. A Dei Verbum afirma que “a Igreja sempre venerou a sagrada Escritura como ao corpo do Senhor..., sobretudo na liturgia” (n. 21). O ponto de encontro é a interpretação. Sua capacidade reveladora significativa se atualiza, quando é entendida e apropriada como manifestação de Deus, como Revelação.”


“Na Bíblia fala-se das experiências e vivências históricas das pessoas em determinados tempos, muitos séculos atrás. Mas estas correspondem, em boa medida, às experiências dos homens através de todos os tempos; são semelhantes. A realidade do leitor e a situação da qual procede o texto bíblico são paralelas ou análogas. A condição humana como tal não muda ao longo dos milênios; confrontamo-nos com as mesmas perguntas e com os mesmos problemas humanos. De fato, as inquietudes, as interrogações, os problemas, as atitudes básicas dos homens são os mesmos ontem e hoje. Dito de outro modo, apesar das diferenças históricas e culturais entre os tempos bíblicos e os nossos, as experiências humanas e a relação dos homens com Deus (sejam ateus ou crentes) são basicamente as mesmas. Deus é o mesmo ontem e hoje; continua dando-se a conhecer aos homens e continua convidando-os a confiar nele. A Bíblia é eminentemente existencial: dirige-se à vida. Por trás das diferentes cenas, personagens e reflexões que encontramos nos escritos da Bíblia, podemos reconhecer-nos a nós mesmos. E a Bíblia é o meio privilegiado mediante o qual Deus “nos fala”; ali estão os testemunhos de suas múltiplas manifestações, as orientações fundamentais para o caminho que conduz à salvação. Podemos concluir que, embora a Bíblia não seja idêntica com a Palavra de Deus no sentido forte do termo, no entanto contém sua palavra (mediada pelo escritor) e “fala” a toda pessoa que tenha os ouvidos abertos. Por isso, é importante tomar consciência de que a Bíblia não se reduz a um conjunto de recordações do passado e convites para homens a que confiem em Deus e sigam seu caminho, que são apresentados mediante esses velhos textos, mas testemunhos cheios de frescor.
Repetidas vezes mencionei que a Bíblia é mediação entre Deus e nós. Convém esclarecer que não é uma mediação a mais, entre tantas outras, mas o é de forma singular: são testemunhos da revelação histórica de Deus, desse mesmo Deus em quem cremos hoje. Esses testemunhos são insubstituíveis, pois são fundamento de nossa fé – mesmo em suas variações históricas e literárias. Por exemplo, podemos crer na ressurreição de Jesus somente através do testemunho que encontramos no Novo Testamento. A Bíblia é o conjunto de mediações que nos fala expressamente desse Deus nosso que se revela historicamente, até chegar à sua manifestação mais objetiva: o acontecimento-Jesus Cristo. E a Bíblia remete-nos a isso, para falar-nos a partir daí.”


“A interpretação não é para contemplar o passado ou admirá-lo, mas para que sirva de orientação para o futuro.”


“O termo “mito” e o qualificativo “mítico” para referir-se a esta linguagem são infelizes, porque para a maioria são sinônimos de fantasioso, de ficção, de conto, do que foi criado pela imaginação. É necessário esclarecer que o termo “mito” se emprega no campo religioso, filosófico, antropológico e sociológico, para referir-se à maneira pré-científica de compreender e de falar a respeito do mundo, que se caracteriza por ser explicações em chave religiosa: intervêm forças “espirituais”, divindades, demônios.
Não se trata somente de maneira de falar, mas também de um modo de compreender, de conceitos. Na base está uma visão do mundo e da vida. Para comunicar os conceitos que se têm, emprega-se uma linguagem que permita compreendê-los. A linguagem é o meio de comunicar os conceitos. Pois bem, os mitos baseiam-se em conceitos pré-científicos, até pré-filosóficos. Seus autores – nos tempos bíblicos e também em muitos povos primitivos hoje – estavam convencidos de que certas “realidades” e fenômenos que se experimentavam e se observavam eram produtos da atividade de Deus ou de demônios. As origens de certas situações ou fenômenos do homem mesmo, de seu destino e de sua relação com “o espiritual”, enfim, tudo o que era importante e não tinha uma explicação natural dentro dos limites da experiência sensível, eles o explicavam em termos míticos. Fenômenos como raios e trovões, que hoje conhecemos pela ciência, naquele tempo eram considerados como produtos do “além”. Quer dizer, havia uma espécie de intercâmbio entre o mundo do “além” e o do “aquém”, e também falavam “Deus” como se fosse um homem, raios e trovões como se viessem de Deus. Basta ver os relatos de Gênesis 1-11, que é uma coleção de mitos, cheios de vivacidade e de colorido, nos quais o próprio do “além”, o mundo transcendente, se entretece com o do mundo da experiência humana. (…)
Os autores bíblicos não eram filósofos, mas gente simples, de mentalidade prática; porém, além disso, com uma visão pré-científica do mundo. Seus conceitos eram expressos por meio de imagens (que passam a ser símbolos) tomadas do mundo de suas experiências. É a linguagem que as crianças empregam, e é a que melhor se presta para a compreensão entre as pessoas simples. Para a mentalidade pré-científica, o pensamento mítico é o único caminho de que dispõe a mente para abordar certos problemas que caem precisamente fora do âmbito da experiência sensível.
Mito costuma ser associado com falsidade, mentira, como se a única narração veraz fosse a história, e para muitos como se a única verdade fosse a demonstrável (científica). Esse juízo obedece à ideia que não corresponde à dignidade de Deus e da Bíblia outro tipo de narração que não seja a história. O fato, no entanto, é que o mito busca expressar uma verdade. É uma maneira de dar expressão compreensível a uma realidade não sensível. Sua verdade é do tipo da poesia, que não é o mesmo tipo de um relato histórico – poesia não representa história, no entanto, tem “sua verdade”, e uma verdade frequentemente mais profunda do que a de um relato histórico.”


“É mítico dizer que Deus nos castiga por nossas culpas. O castigo é a retribuição que damos por uma ofensa, mas a Deus não podemos ofender (definição comum de pecado). Falar assim é projetar sobre Deus (que não é de nosso mundo) um conceito próprio de nossa existência humana. Deus não pode ser ofendido, pois, se fosse, teríamos poder sobre ele, já que poderíamos ofendê-lo ou não ofendê-lo como nos aprouvesse, e estaria sujeito ao que nós fizéssemos.”


“Por um lado, os mitos tinham origens nas experiências humanas e nas reflexões sobre elas. Por outro lado, as perguntas profundas às quais se buscava responder são próprias de toda pessoa que medita sobre sua existência e sobre sua relação com o mundo, com seu destino e com o divino. Por isso, por trás do mito e da linguagem mítica que encontramos na Bíblia, devemos descobrir a experiência-base e as interrogações para as quais buscavam dar uma resposta, quer dizer, a verdade profunda que expressam. Muitos mitos do passado podem ser expressos em outros termos, a linguagem das imagens própria de uma época pode ser substituída por outra mais adaptada, mas a verdade à qual remetem não deve ser descartada automaticamente. A imagem do diabo é substituível, mas a verdade à qual remete essa imagem é a existência de “forças misteriosas” do mal. As imagens que constituem o quadro mítico do juízo final em Mt 25,31ss são discutíveis, quando são tomadas literalmente, mas a realidade à qual o quadro remete não o é: haverá um encontro definitivo com Deus em outro nível que o humano, e passaremos a um modo de existência irreversível que está estreitamente relacionado com nosso comportamento durante nossa vida terrena. O que sempre deve ocupar o centro da atenção é a verdade à qual o mito aponta, verdade que foi a razão pela qual ele foi composto e relatado. O mito e sua linguagem expressam realidades que tocam o homem mais profunda e existencialmente do que aquelas captadas pelas ciências e pela lógica. Por isso, sua verdade é existencial, não científica ou estritamente histórica.”


“É necessário ter presente que a Bíblia é produto de reflexões comunitárias. Os escritos bíblicos foram compostos em uma comunidade e para ela, foram aceitos como normativos por ela e é, por conseguinte, somente dentro do seio da fé de uma comunidade que está em comunhão com a dos tempos bíblicos que a Bíblia poderá ser compreendida corretamente. A Bíblia é um conjunto de testemunhos de vivências comunitárias: “Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, ali estarei eu entre eles” (Mt 18,20). Seus escritos não foram compostos para uso exclusivo de indivíduos isolados, não foram escritos para ser lidos, meditados ou estudados de modo particular, mas para ser escutados e assimilados em comunidade. O fato de que depois existissem textos impressos, de modo que cada um possa ter uma cópia pessoal, é uma vantagem adicional, mas não anula o fato de que os escritos bíblicos foram compostos para ser lidos, comentados e meditados em comunidade.
Somente quem tem experiência de vida comunitária e vive sua fé em uma comunidade poderá compreender os escritos que refletem vivências comunitárias e são produtos delas. Os escritos bíblicos têm como um de seus fins primordiais a vida de fé comunitária, não a pessoal e isolada.”


“Muito mais seriamente, à luz de tudo o que foi exposto, a ideia de perfeição que alguns têm da Bíblia e sua interpretação literal de tudo leva-os a fazer uma caricatura de Deus. Um Deus responsável por todo tipo de erros, incluindo as múltiplas ignorâncias, um Deus que não conhece bem sua criação, que é caprichoso, que se encoleriza e é ciumento, que muda de opinião... Em outras palavras, os que tomam a Bíblia como autoridade máxima, suprema, perfeita e absoluta, assumem e pressupõem demasiadas coisas gratuitamente, baseados em preconceitos que não vêm da Bíblia, mas de dogmas implícitos que para eles são inquestionáveis – mas não têm outra sustentação que certas passagens soltas da Bíblia, o que constitui um círculo vicioso: usa-se para prova o que se quer provar. (…)
Em síntese, a Bíblia é o ponto de partida crítico indispensável, mas não é o ponto final de nossas reflexões e decisões. É ponto de partida, porque inclui as tradições dos testemunhos fundacionais, sobre os quais nos apoiamos. Mas não é ponto final, porque os textos bíblicos não são a apreciação nem a expressão mais perfeita da Revelação histórica. Os escritos bíblicos não contêm a máxima, a mais perfeita, completa e inalterável expressão do que se possa compreender a respeito da Revelação de Deus. São interpretações da Revelação histórica acontecida. Nem todos os conceitos e ideias, nem todas as leis e mandamentos são absolutamente perfeitos na Bíblia, prova disso são as incoerências e as variedades de apreciações e de mandamentos, e as evoluções conceituais na própria Bíblia. A Bíblia é, portanto, uma autoridade limitada, não absoluta.”


“O propósito dos redatores dos escritos bíblicos, com algumas exceções, não foi simplesmente informar nem guardar memórias ou recordações, mas o de comunicar uma mensagem existencial, para a vida. Sua finalidade não era a de contar algo que aconteceu, mas em primeiro lugar dizer algo aos seus leitores através daquilo que aconteceu. Não respondiam à curiosidade, mas a necessidades vitais.”


“O fundamentalismo é a corrente mais extensa e nefasta na atualidade, associado especialmente a certas seitas. Trata-se da atitude mental que sustenta e propaga os “fundamentos” de determinada crença, seja política, social, religiosa ou outra, que pertencem a um passado já não em vigência, e o faz de maneira agressivamente fanática, proselitista, não-crítica e fechada a todo diálogo. Seus “fundamentos” são categóricos e dogmáticos, e são tidos simples e singelamente por inquestionáveis. Não se trata, então, necessariamente de uma seita ou de uma religião, mas de uma atitude mental e emotiva. (…)
O fundamentalista não progride: fica estático, mentalmente paralisado. Sua concepção do mundo, do homem e de Deus é para ele absolutamente segura, inquestionável, verdadeira – assim pensa e assim a propaga. Mas é uma concepção pré-crítica! O fundamentalista teme as mudanças, teme o pluralismo, teme o novo, teme a liberdade, teme o amadurecimento adulto. Não causa estranheza que, quando essa visão é questionada, ele se refugie no passado e que ataque virulentamente tudo o que ameace mudá-la.
O fundamentalismo é expressão de profunda insegurança psicológica. É a resposta não-crítica, simplista, à ânsia de segurança, de estabilidade, de certeza. O fundamentalista compra a segurança a preço da liberdade. Por isso mesmo, é intolerante diante de tudo o que tenha sabor de instabilidade, de ecumenismo, de “relativismo”.”

A Bíblia sem mitos: uma introdução crítica (Parte II) – Eduardo Arens

Editora: Paulus
ISBN: 978-85-349-2770-3
Tradução: Celso Márcio Teixeira
Opinião: ★★★★☆
Páginas: 416
Sinopse: Ver Parte I



“Quando São Paulo se referia às pessoas com suas realidades relacionais, costumava fazê-lo a partir da antropologia semítica. Assim, a carne é a culpável pelo pecado e opõe-se ao espírito. Por isso, a ressurreição será do corpo, não da carne (1Cor 15,35ss). Para Paulo, como para todo semita, a alma é a sede das funções de consciência e deixa de existir com a morte; não é a alma, mas o espírito que sobrevive. A alma, da mesma maneira que a carne, pertence a este mundo transitório e deixa de ser com a morte. Tudo isto nos parecerá estranho, pois pensamos como os gregos, não como os semitas. 
No mundo de ascendência grega, em contrapartida, devido à influência das filosofias aristotélica e platônica em particular, o ser humano era considerado como um composto de corpo e alma, como que com uma totalidade simples. O helenismo supervalorizava a alma, menosprezando frequentemente o corpo; a prática de virtudes era vista como o maior tesouro. O “espiritual”, as essências, era o primordial para o grego. A morte veio a ser entendida como a separação do corpo e da alma – não como a mudança de modo de existência com a permanência do “eu”, como o semita o entende –, e a salvação concerne somente à alma. Esta é a maneira de entender o ser humano que herdamos e que difere do pensamento da maioria dos escritos da Bíblia. Em outras palavras, o semita tem uma visão unitária do ser humano (é um todo, um “eu” em diversas manifestações); o grego tem uma ideia dualista que contrapõe “corpo e alma”.”


“A ideia que os povos têm de seus deuses está marcada por suas experiências com o cosmo, sendo os deuses os que estão “acima” do mundo e o manejam. Não estranha que os hebreus inicialmente tivessem semelhantes ideias sobre seu deus. O mais notório e, às vezes, chocante é a ideia de Deus em termos militares: é o “Senhor dos exércitos”, o que ordena massacres, que julga e fulmina. É um deus que, ao mesmo tempo em que tem compaixão, é vingativo e sem misericórdia com seus “inimigos” (confira Juízes, Sl 58, entre outros). Estas maneiras de entender e apresentar a Deus foram assimiladas de algumas religiões dos arredores, predominantemente cananeias, e só lentamente se foram purificando, embora em termos racistas: é o deus de Israel que age somente a favor deles. O cristianismo rompeu com esta compreensão exclusivista e excludente de Deus.
Por outro lado, com seu temperamento prático e seu sentido comunitário, o hebreu se pergunta: Quem é Deus em relação a nós? Assim, entendia a Deus em termos relacionais, como libertador, pai, criador, juiz, quer dizer, como um Deus para as pessoas. No mundo greco-romano, em contrapartida, inclinado à especulação e à contemplação, se perguntava: Quem é Deus em si mesmo? Qual é a sua essência? O grego entende a Deus em termos filosóficos, como onipotente, onisciente, espírito puro. Para o hebreu, a perfeição de Deus não é ontológica, mas relacional: “faz nascer o sol sobre maus e bons e manda a chuva sobre justos e injustos” (Mt 5,45). O hebreu escuta a Deus e lhe fala; o grego, em contrapartida, o olha e admira.
Como consequência dessa ideia de Deus, a relação com ele era pensada e vivida diferentemente. Para os semitas, era uma relação de confiança, de diálogo, pois é um deus que se preocupa por eles; para os de ascendência grega, era uma relação antes de adoração, de temor, a quem se deve manter satisfeito. Por extensão, a ética também era diferente.
No judaísmo (como no islamismo), vida e religião são inseparáveis: toda conduta está governada pela vontade de Deus; portanto, deve-se estar em graça com ele. No mundo de mentalidade grega, a conduta da pessoa está governada pelo ideal da perfeição pessoal e concentra-se na prática das virtudes. Para o judaísmo, a ética é essencialmente social, pois a religião é vivida comunitariamente. Israel tinha (e tem) forte consciência de ser um povo escolhido por Deus. No helenismo, ao contrário, a ética é predominantemente individual e, até certo ponto, familiar, marcada pela contraposição de vícios e virtudes (cf. Gl 5,19-23; Ef 5,21-6,9).
Nas origens (semíticas), ser cristão significava ser discípulo de Jesus e, como ele, o cristão devia expulsar demônios, curar enfermos, anunciar a proximidade do reino de Deus. Quando entrou a mentalidade grega, o acento foi sendo colocado na imitação pessoal de determinadas “virtudes”, e Jesus passou a ser uma espécie de modelo de homem perfeito. Do seguimento de Cristo se passou à imitação de suas virtudes. É assim que aparecem os catálogos de vícios e de virtudes como essenciais para a ética, por exemplo, em Rm 1,29s; Ef 5,3ss; Fl 4,8. Por conseguinte, enquanto que para uns o pecado tem uma dimensão eminentemente social, para os outros é essencialmente pessoal. Por isso mesmo, a perfeição se adquire, segundo o mundo grego, por meio da ascese, na prática de virtudes pessoais, enquanto que, na mentalidade semítica, é questão de uma práxis, quer dizer, de um comportamento que conduz à vida social harmoniosa, em shalom.
O grego prioriza o espiritual e o abstrato, o hebreu o material e sensível. Por isso mesmo, para o grego a salvação diz respeito à alma, que ele considera imortal e eterna, enquanto que o hebreu fala de ressurreição (inaceitável para o grego, que considera o corpo como o cárcere da alma; cf. At 17,32; ICor 15,12.35), de reavivamento pelo espírito (não pela alma), de vida para sempre (Jo).”


“Jesus empregou a parábola da ovelha perdida como um meio de pregação com o propósito de chamar à conversão os seus compatriotas (fariseus) que se sentiam demasiadamente seguros do favoritismo de Deus. Mateus, que se dirigia aos cristãos, não aos judeus, empregou esta parábola, adaptando-a a um contexto (vital) de instrução, e situou-a no cap. 18, dedicado a instruções para a vida em comunidade, de modo que lhe serviu de exemplo para ilustrar a conduta que os cristãos devem observar com relação ao irmão que facilmente se escandaliza (18,10-14): por isso, ele a situou nesse contexto. Lucas, ao contrário, escrevendo para uma comunidade composta majoritariamente por convertidos do paganismo, que precisamente por isso era criticada pelo ambiente judaico (contexto vital), empregou essa mesma parábola com uma finalidade apologética: defender sua comunidade, justificando a aceitação de pagãos convertidos. Para isso, Lucas construiu um contexto literário para a parábola da ovelha perdida, que é apologética: leia 15,1ss. No tempo de Lucas, essa introdução (contexto) traduzia o fato de que os judeus (= fariseus e escribas da introdução) criticavam (= murmuravam), porque as autoridades cristãs no tempo de Lucas (= Jesus) aceitavam na comunidade (= acolhiam) pagãos (= pecadores). Parte do contexto literário em Mt e em Lc não é somente o que precede a parábola, mas também a “lição moral” que se encontra em cada um no final: Mt 18,14 (“Da mesma maneira seu Pai que está nos céus não quer que se perca um só destes pequenos”), diferente de Lc 15,7 (“Igualmente, haverá mais alegria no céu por um só pecador que se converte do que por noventa e nove justos”).”


“O que foi exposto até aqui sobre a Bíblia nos ajuda a entender por que nela se diz que Deus ordenou massacres impiedosos como os que lemos nos livros de Josué e de Juízes. Igualmente, esclarece a impressão que se tem de que o deus do Antigo Testamento é iracundo e malvado, contrastado com o deus do Novo Testamento tido por misericordioso e amoroso – como já havia observado e objetado Marcião no séc. II d.C. De fato, quando se tomam os relatos bíblicos de massacres como reportagens jornalísticas, como ordens literalmente dadas por Deus, são escandalosos e inaceitáveis para nossa sensibilidade humana, e um deus dessa espécie é um tirano. Uma leitura fundamentalista deste tipo serviu de justificação para as matanças de negros na África do Sul (equiparados aos cananeus bíblicos) nas mãos dos imigrantes holandeses (que se imaginaram ser o povo de Deus), por exemplo. Mas, quando se conhece a origem da Bíblia, o assunto resulta diferente, e podemos compreender corretamente os relatos de massacres. Comecemos por ter presente que os relatos são posteriores aos próprios acontecimentos. Os acontecimentos que o povo de Israel viveu foram interpretados por ele como ordens divinas.
O grupo de semitas que saiu do Egito foi conquistando por sua astúcia e força muitos povos em seu ingresso nas terras de Canaã. Suas vitórias (e também suas derrotas), que provavelmente eles não esperavam, os levaram a interpretá-las como intervenções divinas. Como explicaram que pudessem tomar este ou aquele povoado, e depois outro, sendo eles um grupo amorfo? Como intervenção divina! E como interpretar suas derrotas? Como castigos divinos! Em outras palavras, séculos mais tarde, os hebreus viram sua história em termos de bênçãos e de maldições de Deus, de recompensa e de castigos (veja Dt 30,15-20). Fizeram o mesmo que muitos outros povos, que viam sua história nos mesmos termos, por isso buscavam aplacar a seus deuses. Eles interpretaram essa história como vontade ou desígnio divino e, ao relatá-la, o fizeram como se Deus tivesse ordenado os massacres. Mais ainda, para ressaltar a suposta intervenção divina, exageravam as descrições e as cifras: a cidade estava cercada por muralhas, os inimigos eram milhares etc. Não é que tenha sido assim na realidade (por exemplo, Jericó), mas sim que, mediante o exagero, o relato sublinhava a intervenção divina: sem sua ajuda não teriam tido os impressionantes êxitos, pensavam eles. Se por curiosidade computarmos os números de inimigos mortos, segundo os relatos bíblicos (bem como as cifras no curso do êxodo), ficamos surpresos, pois supõe uma população em Canaã muitas vezes superior à que essas terras tiveram. Mas a matança de um inimigo tinha a importância que teria ter matado a mil, como a vitória do minúsculo Davi (= Israel) sobre o gigante Golias (= Filisteia). É uma avaliação subjetiva.
Para sublinhar a importância da tomada de Jericó, ponto estratégico fundamental, ela foi pintada como grande cidade cercada de muralhas, com milhares de soldados que caem ao toque de trombetas etc. Igualmente, fizeram com relação à cidade de Hai (Js 6-8). Com isso, os narradores queriam produzir um impacto em seu auditório. Os trabalhos de arqueologia ajudaram a compreender isto. Ao se desenterrarem as supostas cidades gigantescas, descobriu-se que, na realidade, eram pequenas, que sua população era muito inferior à que a Bíblia menciona e que, além disso, no tempo da conquista nem Jericó nem Hai existiam como cidades povoadas, mas eram pequenos vilarejos junto às ruínas do que séculos antes tinham sido respeitáveis cidades, coisa que os cantores de gestas não supuseram séculos mais tarde. O que os relatos bíblicos põem em relevo não é a impiedade e a vingança de Deus, sua aparente sede de sangue, mas antes a convicção de que Iahweh foi guiando esse povo em sua conquista da terra de Canaã, que eles levaram a cabo “a sangue e fogo”. São épicas epopeias militares, com as típicas acentuações nacionalistas que colocam Deus como agente principal dessas “glórias”, porque assim legitimam sua posse de Canaã e afirmam sua identidade judaica como povo da “aliança” (conceito político), como o povo favorecido por Iahweh, seu Deus.”


“Os apócrifos dão a impressão de ser Escritura, tanto pela linguagem que eles empregam como pelos temas que tratam. Muitos se apresentam como obras de algum personagem importante: um patriarca, um profeta, um apóstolo. Apresentam-se como obras, cujas mensagens haviam sido escondidas por tratar-se de “revelações secretas”, reservadas a um círculo fechado de privilegiados e que, por isso, somente agora saem à luz. Na realidade, os apócrifos são, em sua maioria, composições tardias, muito distantes do tempo em que supostamente teriam sido escritas. Quanto ao seu conteúdo, alguns são dogmaticamente não-ortodoxos, quando não francamente heréticos, outros são simplesmente novelescos, fantasiosos. Costumam ser ampliações ou complementos mais ou menos piedosos ou filosóficos da informação ou da revelação que se encontra nos escritos canônicos, cuja existência eles conhecem e supõem.
Alguns apócrifos são coleções de lendas (por exemplo, a respeito da infância de Maria e de Jesus), outros são apocalípticos (muitos dos apócrifos judaicos) ou são obras que pretendiam justificar uma visão teológica diferente da tradicional e oficial, isto é, se propunham expressar a identidade de um grupo herético. Por exemplo, o famoso Evangelho de Tomé, remontando-se a um suposto testemunho desse apóstolo, serviu para justificar ou validar a posição de uma corrente gnóstica. Alguns apócrifos são produtos da ficção piedosa, outros de determinada corrente teológica ou de um interesse pedagógico edificante. (…)
Os apócrifos judaicos notáveis, segundo seu gênero literário, são: (1) Narrativos: Jubileus, carta de Aristéias, 2 Esdras, 3 Macabeus, Vida de Adão e Eva, Ascensão de Isaías, Testamento de Jó, José e Asenet, 4 Baruc, Vida dos Profetas. (2) Sapienciais: 4 Macabeus e Achicar. (3) Testamentos: Testamentos dos Doze Patriarcas, de Abraão, de Isaac, de Jacó, de Salomão, de Jó. (4) Apocalípticos: 1 e 2 Enoc, Oráculos Sibilinos, Apócrifo de Ezequiel, Apocalipse de Abraão, de Elias, de Sofonias, de Esdras, 2 e 3 Baruc, 4 Esdras. (5) Orações: Salmos de Salomão, Odes de Salomão, Oração de Manasses.
Os apócrifos cristãos são mais numerosos do que os escritos canônicos; são quase uma centena. Os mais antigos datam do séc. II, e os mais recentes datam da Idade Média. Entre os evangelhos apócrifos, destacam-se os de Tiago (sobre os pais de Jesus e seus primeiros anos) e de Pedro (com detalhes sobre a Paixão e a Ressurreição). Em sua maioria, esses evangelhos são novelescos, com o claro propósito de encher o “vazio histórico” deixado pelos canônicos. Outros são de franca tendência herética, dos quais o mais conhecido é o Evangelho gnóstico de Tomé (coleção de sentenças de Jesus), popularizado em novelas e no cinema. As cartas apócrifas mostram claro interesse em legitimar a fundação de alguma comunidade. Algumas se apresentam como cartas “perdidas”. Finalmente, entre os apocalípticos se destacam os de Pedro e o de Tomé.
Os apócrifos cristãos mais notáveis são: (1) Evangelhos de Tiago, de Pedro, de Matias, de Judas, de Bartolomeu, de Maria, de Nicodemos, de Gamaliel, dos Nazarenos, dos Egípcios, dos Ebionitas, dos Hebreus. A estes se devem acrescentar os Evangelhos gnósticos, entre eles o Evangelho de Tomé, de Filipe, da Perfeição, o da Verdade, a Pis-tis Sofia, o de João (gnóstico). (2) Atos de André, de João, de Paulo, de Tomé, de Pedro, de Pedro e dos Doze, de Pedro e de Paulo, Atos de Pilatos. (3) Cartas: 3 Coríntios, aos Laodicenses; Carta dos Apóstolos, de Paulo a Sêneca, Pregação de Pedro, os Kerigmata Petrou, e a gnóstica carta de Pedro a Filipe. (4) Apocalipses: de Pedro, de Tomé, de Paulo, da Virgem, de João, de Estêvão, e os gnósticos de Tiago e de Paulo. Muitos destes, os conhecemos somente por referências ou por alguns fragmentos.”


“Depois de tudo, o próprio Jesus havia relativizado, mudando, declarando nula ou radicalizando, a revelação anterior que se encontra atestada nos escritos judaicos, como pertencentes a um período “imperfeito” (cf. Mt 5,21-48).”


“É um fato que os cristãos geralmente não outorgam grande importância ao Antigo Testamento, até se sentem incomodados com ele, exceto por certas passagens. Consideram-no como algo superado e sem atualidade, totalmente superado pelo Novo Testamento. De fato, raras vezes se prega com base no Antigo Testamento. Costuma-se pensar que a importância que o Antigo Testamento possa ter é a de simples história que preparava o caminho para a vinda de Jesus. Ainda se ensina o Antigo Testamento como “história sagrada”, sem consideração de gêneros literários (mitos, lendas, sagas, anedotas, são tratados como história), e se omitem os livros proféticos e os didáticos e sapienciais. Quando se consideram os livros proféticos, estes costumam ser apresentados mediante seleções de textos que supostamente antecipavam ou prediziam diferentes facetas da vida de Jesus. No entanto, admitimos que todos foram inspirados e são Palavra de Deus, como de fato o cristianismo o reconheceu ao decidir sobre sua canonicidade.
A pouca aceitação que o Antigo Testamento costuma ter entre a maioria dos cristãos deve-se tanto ao fato de que não estão familiarizados com a natureza da própria Bíblia como ao fato de que ela é considerada quase exclusivamente em função do Novo Testamento ou, mais concretamente, em função de Jesus Cristo. No entanto, o Antigo Testamento tem valor em si mesmo.”


“Considerar o Antigo Testamento como testemunhos das promessas ou como preparação para a vinda do messias é só parcialmente correto. Esta maneira de ver o Antigo Testamento corre o risco de não levar a sério os momentos e as vivências exclusivamente históricas daqueles tempos. Mais ainda, considerar o Antigo Testamento exclusivamente como a preparação para a vinda do messias implica considerar o messianismo como o coração do Antigo Testamento, e isso não concorda com os próprios textos, pois a maioria não faz referência alguma a um messias. Em outras palavras, ver o Antigo Testamento em chave de preparação, de promessa ou de messianismo leva a ver os profetas como essencialmente anunciadores de acontecimentos futuros, distantes, e não como aquilo que foram, isto é, porta-vozes de Iahweh para seu povo em seu aqui e agora concretos. Esta ideia leva a ver a própria história de Israel como simples recordações que prefiguram ou preparam a hora do messias, e os escritos didáticos ou sapienciais como acessórios de pouca importância. No entanto, reconhecemos que todo o Antigo Testamento foi inspirado por Deus e é Palavra de Deus, e não somente os textos que, de alguma maneira, se relacionam com Jesus Cristo ou com o Novo Testamento. (…)
Do ponto de vista da história, os acontecimentos e as experiências vividas pelo povo de Israel não ocorreram para que servissem de prefiguração, com a finalidade de ser modelos ou mesmo como preparação para a vinda de Jesus de Nazaré. Deus não alimentou os hebreus no deserto com o maná, por exemplo, com a finalidade de prefigurar a eucaristia, mas simplesmente para salvar esse povo da fome. Da mesma maneira, Deus não inspirou a Moisés para guiar seu povo e dar-lhe um código de leis para que Jesus mais tarde tivesse um modelo, ou com o fim de que pudesse relativizar ou reinterpretar esse código de leis, mas para o bem do povo hebreu naquele tempo.”


“É um fato que o Antigo Testamento é parte do cânon cristão. E o é porque foi valorizado como Palavra de Deus e não como mudas recordações. Segundo os Evangelhos, o próprio Jesus se referiu em diversas ocasiões ao Antigo Testamento como Palavra de Deus (Mc 7,6-13; 10,2-9; 12,25s). Para ele, como para os primeiros cristãos, essa era sua “Bíblia”. Sua maneira particular de entender o Antigo Testamento como Palavra de Deus sempre atual, dinâmica, que expressa a vontade de Deus mesmo, levou Jesus, e depois a seus seguidores, a reinterpretar esses velhos textos, seja ab-rogando alguns ou corrigindo outros, seja aprofundando-os (veja Mt 5,21-47). A tudo isto se deve acrescentar que o Deus de Jesus foi o mesmo que o de Abraão, de Moisés e dos profetas, apesar da diferente maneira como cada um o entendeu. E tanto Jesus como seus discípulos empregaram a linguagem do Antigo Testamento: suas imagens, termos e alusões, símbolos e títulos honoríficos; eles se referiam à criação, a determinados momentos históricos, a promessas, bênçãos e pecados, a esperanças e anúncios expressos em textos do AT, além de citá-los expressamente em certas ocasiões.
A Igreja primitiva entendeu e valorizou o Antigo Testamento especialmente (mas não exclusivamente) como anúncio e promessa salvífica. Por isso, ela destaca as referências aos textos de caráter profético e messiânico do Antigo Testamento, tanto nos escritos do Novo Testamento como nos dos Padres da Igreja. Se o Antigo Testamento era venerado como a Palavra de Deus, e o acontecimento-Jesus Cristo era expressão viva e máxima da Palavra desse mesmo Deus, era natural que no seio do cristianismo se prestasse especial atenção à relação do Antigo Testamento – que era sua Bíblia e que se lia em suas reuniões – com o acontecimento-Jesus Cristo.”


“Sabemos que, quando se absolutizam certas passagens da Bíblia, podem-se justificar a escravidão, a poligamia, a vingança, o genocídio, o racismo etc. Em seus conflitos e discussões com autoridades religiosas de seu tempo, Jesus repetidas vezes relativizou certos aspectos da Lei, declarou nulos outros e ressaltou a maneira de entender a vontade de Deus, tomando como princípio fundamental o princípio do amor (veja Mt 5,21-47). Jesus não era fundamentalista em sua maneira de interpretar a Palavra de Deus, nem se limitava ao que estava escrito nas Escrituras, tampouco o eram os autores do Novo Testamento.”


“A autoridade da Bíblia tradicionalmente tem sido explicada com a afirmação de que foi inspirada por Deus. A preocupação com a inspiração divina surgiu durante o Renascimento e acentuou-se durante o Iluminismo, conforme os estudos da Bíblia e de seu mundo colocavam a descoberto suas origens humanas.
Segundo alguns, a menção de “inspiração” com relação à Bíblia lança um halo de sacralidade sobre o texto e, segundo outros, abre as portas para discussões. Por um lado, o tema da “inspiração”, que no passado foi uma consideração fundamental ao se falar da Bíblia, hoje em dia parece esquecido, a tal ponto que apenas é mencionado. Esse “esquecimento” não se deve a que já esteja resolvido de todo ou porque não se deseje continuar discutindo sobre ele, mas pela multiplicidade e complexidade dos fatores envolvidos, particularmente com relação à origem dos textos bíblicos e por seu grau de subjetividade – em última instância é uma afirmação de fé. Isto se observa também no documento vaticano, intitulado A interpretação da Bíblia na Igreja (1993). Mas o tema da inspiração foi relegado ou, mais corretamente, “deslocado”, também devido à intensidade com a qual os estudos bíblicos se têm aproximado aos aspectos literários e filosóficos (hermenêuticos), em particular. Isso não significa que se negue sua origem em Deus. Mas significa, sim, que não é fácil explicá-lo. Por isso, a autoridade da Bíblia já não se afirma em razão de uma inspiração divina, e menos ainda em razão de uma suposta inerrância, mas em razão de sua capacidade inspiradora, razão pela qual se constituiu em cânon.”


“Exceto no caso da composição de certas cartas e de alguns poemas, considerar como “autor” único a pessoa responsável da redação final de um escrito bíblico, como é tradicional fazer, é incorreto. Sob o termo “autor” é necessário incluir todos os que contribuíram na formação do texto bíblico: o que formulou a tradição pela primeira vez, os que a transmitiram, reformulando-a, o que a colocou por escrito mais tarde, e também o que lhe deu o toque final (que temos). O “autor” do livro de Isaías, por exemplo, não é somente o profeta, mas também seus discípulos que preservaram e transmitiram suas profecias (orais) e os que eventualmente as colocaram por escrito. Sem a voz do profeta não se teria começado, e sem a tradição e os escritores (que foram vários) não teríamos aquilo que está incluído no livro de Isaías. Em outras palavras, a inspiração não se reduz ao privilégio de uma só pessoa. Portanto, o modelo profético como explicação da inspiração bíblica é insuficiente.
É fácil falar da inspiração, utilizando como modelo o profeta, sempre que se trata da inspiração de sentenças, de pronunciamentos, de discursos. Mas quando se fala da inspiração bíblica, é necessário e indispensável incluir os escritos onde se trata de relatos, de narrações de acontecimentos, de diálogos, todos eles fazendo parte da Bíblia. O modelo profético não serve para explicar a inspiração dos relatos. Será que Deus inspirou da mesma maneira os discursos do profeta e o narrador dos acontecimentos relatados na Bíblia, quer dizer, cada palavra do relato? Existe um problema adicional com o modelo profético: tomou-se literalmente a expressão “Deus disse a...”, interpretando-a como se Deus literalmente tivesse pronunciado as palavras em questão, como se afirma quando se trata de um “ditado” por parte de Deus. Caso tivesse sido assim, como veremos, Deus se teria equivocado muitas vezes: seria responsável pelos erros que estão na Bíblia, começando pelos erros linguísticos. Mas a expressão “Deus disse a” ou qualquer uma de suas variantes, deve ser entendida em sentido figurado, não literal, empregada para sublinhar a autoridade de Deus no que seu porta-voz diz; Deus não falou como falamos nós, humanos. “O que o profeta disse” é o que vem de Deus, a mensagem, e não as palavras como tais – o conteúdo, não a forma. Por isso mesmo, podemos acrescentar que Deus também “falou” através de diversos acontecimentos e vivências e, muitas vezes, mais claramente. E por isso, para maior clareza, deveríamos dizer que os textos são “Palavra de Deus em palavras de homens”.”


“A maioria dos Salmos, o livro de Jó, as epístolas, os apocalipses são criações de compositores. Em contrapartida, o Pentateuco, os livros históricos, Provérbios, os Evangelhos, entre outros, são obras de redatores: são coleções de tradições orais de outros “compositores” (obras daqueles que pela primeira vez as narraram e que continuaram sendo transmitidas até que o redator as escreveu). Cada um daqueles que transmitiram oralmente o texto em questão foi também “autor”, pois interpretou e adaptou o que ele por sua vez transmitia. O último redator é também o último “autor”. A que vem tudo isto? Simplesmente pelo fato de que, quando se diz que o “autor” foi inspirado por Deus, deve-se cuidar de não limitá-lo exclusivamente ao redator, quando se trata de obras que tiveram um percurso mais ou menos longo de tradição oral, ou quando o texto atual é resultado de mais de uma redação profusa. Se falarmos do “autor” do quarto Evangelho (João), deveremos perguntar-nos se nos referimos àquele que fez o primeiro esboço escrito do Evangelho (o apóstolo), ou ao que realizou a composição mais extensa ou talvez ao redator final (que incluiu o cap. 21, por exemplo).
Costuma-se afirmar, sem mais nem menos, que “Deus é o autor da Bíblia”. Esta inocente afirmação, tomada literalmente, passa por cima da comunidade onde se viveu o escrito na Bíblia, não faz menção alguma de um autor humano – e menos ainda do papel que desempenharam a tradição oral ou as fontes escritas que foram usadas – e emprega para Deus um termo “autor” no mesmo sentido em que se emprega correntemente para os seres humanos. Deixa-se a impressão de estar afirmando que Deus, e somente ele, é responsável por todo o texto bíblico, com o qual ele é responsabilizado pelos erros na Bíblia! Seria correto somente se “autor” significasse “a origem” do que está comunicado na Bíblia. Deus não pegou a caneta nem ditou os textos! E quando se afirma, como é válido fazê-lo, que “Deus inspirou o autor humano”, a quem realmente se refere? Somente ao redator e – no caso de vários – ao último? (...)
Consciente dos aspectos humanos na redação dos textos bíblicos, como vimos, a teologia escolástica, quando falava de Deus, o fazia figuradamente, não no mesmo sentido que quando se fala de humanos. Aplicado a Deus, o termo “autor” emprega-se para dizer que ele é o inspirador, o que está na origem da escritura, e não que ele é o escritor ou que ditou as palavras. Deus é o autor intelectual, não material, diríamos hoje.
A teologia escolástica fala de dois autores, Deus e o homem. A referência a Deus como “o autor principal” revela uma concepção simplista da inspiração, pois dá ao autor humano somente um pequeno lugar na responsabilidade pelo texto, quase instrumental, “secundário”. Ao se falar de Deus como “autor principal”, se lhe atribui implicitamente a responsabilidade pelos erros e incongruências que encontramos na Bíblia; além disso, ou se dá uma imagem distorcida de Deus (inconsistente consigo mesmo, ignorante etc), ou se descarta a liberdade e a participação plenamente humana na formação da Bíblia.
Para compreender de que maneira Deus “está na origem da Escritura”, deve-se ter presente que os escritos da Bíblia são testemunhos de vivências ou de experiências da presença ativa do espírito de Deus, e não meras reportagens ou ditados. Somente assim se pode legitimamente aplicar o termo inspiração aos escritos históricos, didáticos e poéticos, e não somente aos proféticos. Se não for assim, como se poderia falar de inspiração, referindo-se a relatos de acontecimentos e de experiências humanas? Como se poderia aplicar o termo inspiração aos Salmos, nos quais são as pessoas que se dirigem a Deus, e não ao contrário? Valha a redundância: deve-se evitar reduzir o conceito de inspiração ao modelo do profeta e limitá-lo aos discursos, deixando de lado os relatos.
Sintetizando tudo o que até agora foi dito, a inspiração é essencialmente presença e comunicação divina, e esta se dá a pessoas, não a escritos. Os escritos podem qualificar-se como inspirados, somente na medida em que seus autores o estiveram.”

A Bíblia sem mitos: uma introdução crítica (Parte I) – Eduardo Arens

Editora: Paulus
ISBN: 978-85-349-2770-3
Tradução: Celso Márcio Teixeira
Opinião: ★★★★☆
Páginas: 416
Sinopse: A Bíblia como documento fundacional da comunidade cristã (e, antes dela, da comunidade hebraica), a Palavra de Deus como manifestação do Espírito a partir do fundamento do texto, o problemático texto, antigo, de centenas de anos, a mensagem nova pra cada pessoa e para cada dia; esses são os aspectos sobre os quais esta obra centra sua atenção. A abordagem dos problemas de contexto cultural e religioso dos textos bíblicos, com senso crítico e apoio das ciências históricas, permite respeitá-los e valorizá-los com aquilo que são: testemunhos de vida e de fé que procedem de numerosas comunidades de crentes, capazes de alimentar hoje nossa própria vivência.



“A Bíblia é um livro vivo, e o estudo de suas origens não pretende fixar sua estrutura fundamental, assim como as origens de uma pessoa não podem determinar toda a sua história, embora a condicionem.”
(Horacio Simian-Yofre)


“Afirmar a origem divina da Bíblia em forma estrita e absoluta, como se tivesse caído do céu ou como se Deus mesmo a tivesse escrito, utilizando certas pessoas como instrumentos seus, e assim negar a dimensão humana, é um indício da incompreensão da natureza da Bíblia. Por outra parte, reconhecer e afirmar a humanidade dos escritos bíblicos não é negar seu caráter divino, mas antes situá-los cabalmente dentro das coordenadas de onde surgiram: a história dos homens.”


“O termo “testamento é uma tradução equívoca do original hebraico berit, que significa “aliança”, “pacto”. Não se referia à última vontade, mas ao conceito de aliança, aquela aliança feita com Moisés, que é o coração do Antigo Testamento e, depois, aquela que foi selada com a morte de Jesus (Lc 22,20; 2Cor 11,25). Traduzido este vocábulo para o grego (diatheke), começou-se a entender em sua acepção de última vontade, de testamento, e assim se traduziu para o latim (testamentum).”


“Há algo mais que nunca devemos esquecer: os compositores dos diversos escritos da Bíblia escreveram para um grupo de pessoas concretas, para seu povo ou sua comunidade de então, daquele tempo. Isto significa que não escreveram pensando em nós. Quando Isaías falou e escreveu, o fez para os judeus do séc. VIII a.C., e quando Paulo escreveu sua carta aos Romanos, foi para os cristãos de Roma da década de 50, respondendo a seus problemas e necessidades de esclarecimento que nem sempre são os nossos. Hoje em dia, falariam e escreveriam de outra maneira e a respeito de outros problemas. Mas o que escreveram é em certa medida aplicável ainda hoje, a mensagem central continua válida, pois o ser humano é basicamente o mesmo: suas perguntas, atitudes, angústias, alegrias, esperanças continuam acontecendo hoje.”


“O normativo ou autorizado, obviamente, não é a linguagem empregada, mas o que por meio dela se quer comunicar: a mensagem. A própria mensagem pode ser comunicada com diferentes linguagens, e cada cultura o faz em sua linguagem. Frequentemente se confunde o meio (linguagem) com o fim (mensagem), e a linguagem se torna mais importante do que a mensagem, tomando-a ao pé da letra (literalismo). Por exemplo, quando se quis afirmar que Deus é o criador do homem, o povo de Israel usou a imagem do oleiro, e assim em Gn 2,7 lemos que “Deus modelou o homem da argila da terra, soprou em seu nariz alento de vida, e o homem tornou-se um ser vivente”. O importante não é como Deus fez o homem (o que leio em uma linguagem de imagens empregadas), mas o fato de que Deus é seu criador (a mensagem). Por isso, em Gn 1,26s, onde também se fala da criação do homem (e da mulher!), Deus não se apresenta como oleiro, mas simplesmente se afirma que “Deus fez o homem à sua imagem; à imagem de Deus o fez, homem e mulher”. Consequentemente, é ingênua e fora de lugar toda discussão sobre a maneira como Deus teria feito os seres humanos, baseando-se em Gênesis: não era essa sua mensagem, mas o fato de que é Deus, e nenhum outro, que está no “ponto inicial”. Explicar-nos o como se deu é uma questão que compete aos cientistas; não é assunto de fé teológica.
Os fundamentalistas tomam ao pé da letra a linguagem, consideram-na sagrada e não levam a sério o fato de que é somente um meio e que, portanto, não deve ser absolutizada. Tampouco levam a sério o fato de que a linguagem empregada na Bíblia é de uma cultura e de um tempo distantes. Repito: o importante é compreender o que é que mediante essa linguagem se queria comunicar. Por isso, é necessário ter um mínimo de familiaridade com a maneira de pensar, com as imagens, com o vocabulário e com a maneira que os autores dos escritos bíblicos tinham de entender o homem e o mundo. (...)
Os escritos da Bíblia comunicam experiências e acontecimentos, não simples informação histórica ou outra (o que se passou); são produtos de reflexões sobre algo vivido ou acontecido (o que significa o que se passou). O que se comunica nos escritos bíblicos não é somente o que talvez se passou, mas a importância ou significação daquilo que se comunica; não tanto o “dado”, mas sua interpretação. Precisamente por isso se comunica, porque é significativo para o emissor. É importante recordar isto, porque se tende a pensar mais na informação como tal do que se passou, e se esquece que o que se queria comunicar era o seu significado. Assim, por exemplo, a recorrente pergunta “por que não se relatou nos Evangelhos algo a respeito dos anos de juventude de Jesus”? deve-se à incompreensão do que acabo de sublinhar. Não se relatou, porque não se considerou importante ou significativo, pois os evangelistas não pretenderam escrever uma biografia de Jesus (e menos ainda em sentido moderno), mas antes destacar a significação de sua pessoa e da missão que cumpriu – sua atenção era teológica, não cronística.”


“No transcurso de sua transmissão, algumas tradições se mesclaram com outras semelhantes ou relacionadas. Um claro exemplo é o relato do “sacrifício de Isaac”, em Gênesis 22: é o resultado da fusão de duas tradições e uma ulterior reinterpretação. Originalmente, existia uma tradição que explicava a origem do nome de certo monte que era o centro de sacrifícios religiosos, lugar chamado Iahweh-yreh (“Deus proverá”: v. 8 e 14). Outra tradição (diferente) explicava por que em Israel não se sacrificam os primeiros nascidos (e as pessoas humanas em geral), como em outros povos, mas se substituem pelo sacrifício de algum animal (cf. v. 13). Ambas as tradições se fundiram em algum momento com base em um denominador comum: o sacrifício a Deus de uma vítima – de Isaac substituído por um carneiro no monte de culto Iahweh-yreh (veja v. 2 e 14). Posteriormente, pela natureza mesma do relato, foi acrescentado o tema da fé de Abraão, o pai do povo, e por conseguinte ele foi convertido em fundamento e modelo para Israel: projetou-se sobre a pessoa de Abraão a fé de todo um povo (do qual é pai). “Atualizou-se” o relato, centrado agora em Abraão, não em Isaac. Para isso, foram introduzidos os vv. 1-11s e 15ss (note-se como o anjo fala como se fosse Deus mesmo), e se retocou o relato. Isto aconteceu provavelmente no tempo do exílio babilônico: por falta de uma fé como a de Abraão, sofreram as perdas das promessas feitas por Deus a ele; se agora têm uma fé como a sua, serão merecedores outra vez dessas promessas: veja v. 15-18 (cf. Gn 12,1 3; 17,4-8).”


“Como se pode observar, as tradições não foram consideradas como uma espécie de verdades eternas, mas como expressões de vida e sobreviviam à medida que foram significativas para a vida. O interesse não estava tanto no passado, mas no presente, não tanto na recordação, mas naquilo que o narrado tem de relevante para o hoje daquele que fala ou escreve ao seu auditório, e esse “hoje” pode mudar. A tradição sobre o êxodo do Egito foi retomada e reinterpretada à luz da experiência da deportação para a Babilônia no séc. VI por Isaías (43,14-21; 48). A Babilônia tomou o lugar do Egito, país de escravidão para o povo de Deus. No séc. IV, o autor de Crônicas reinterpretará a história de Israel a partir do ponto de vista da importância que agora tinham o culto e a Lei: Crônicas é uma reflexão piedosa da história narrada nos livros de Samuel e Reis. Os Evangelhos segundo Mateus e Lucas são reinterpretações e adaptações do Evangelho segundo Marcos, que lhes serviu como fonte principal.”


“Mais ainda, enquanto um grupo pequeno não está firmemente estabelecido e não toma consciência de sua “identidade”, não se interessará em escrever seu passado, sua história e experiências: vive mormente ocupado com o presente. Enquanto o grupo não se projeta para um futuro mais distante do que o de seus filhos, tampouco se interessará em escrever sua história. Assim sendo as coisas, as tradições que se encontram em Gênesis, aquela sobre Moisés, as gestas heroicas dos Juízes, de Josué e de outros personagens, as atividades de Jesus de Nazaré, foram relatadas primeiro oralmente em pequenos grupos, e começaram a ser escritas somente quando o grupo tomou consciência de sua identidade própria, e com isso se interessou por sua história pretérita como fundamento de seu presente e de sua projeção para o futuro. Enquanto os cristãos eram poucos e dispersos e sua identidade estava bastante clara, e não se projetavam para um futuro distante (pois esperavam o pronto retorno de Jesus e com isso “o fim do mundo”), não se escreveram os Evangelhos – o mais antigo é o Evangelho segundo Marcos, escrito por volta do ano 70.
Somente quando um grupo humano cresceu, está firmemente assentado e se projeta para o futuro, então começa a ser importante para ele a questão de sua identidade. Isto é mais certo, quando este grupo trata de distinguir-se de outros, para o que destaca aquilo que o caracteriza seja como povo ou raça, seja como cultura ou religião. Consciência de identidade própria e história são aspectos inseparáveis: a identidade, aquilo que o distingue de outros, deve-se à própria história do grupo em questão. Portanto, não se deve estranhar que a história de Israel – baseada em suas tradições e nas recordações mais próximas – começa a ser escrita somente quando o povo está firmemente estabelecido na Palestina e já é um reino, sentindo a necessidade de destacar sua identidade em contraste com os povos e reinos que o rodeavam. Esta necessidade tomou especial força quando os Assírios destruíram e dispersaram os habitantes do reino de Israel (Norte) – foi então que se colocaram por escrito oráculos de profetas como Amos, Oséias, Miquéias e Isaías (cap. 1-39) –, e muito mais ainda quando, século e meio mais tarde, o caos foi completo devido à aniquilação do reino de Judá (Sul) sob os Babilônios, com o que se havia perdido o total domínio sobre a terra prometida. A capital e o Templo foram destruídos, dois símbolos de identidade. Muitos foram deportados, e outros mais se dispersaram, de modo que se perdeu a unidade como povo. O povo entendeu a deportação para a Babilônia como um exílio, não como deportação, trazendo à memória e revivendo espiritualmente a situação de antigamente no Egito. É assim que os elementos mais estáveis, como a escritura, códigos firmes de conduta e formalização de instituições e estruturas sociais (sinagoga?), e graças ao fato de que os deportados eram a elite intelectual e culta, incluídos profetas, afirmaram sua identidade como povo escolhido de Deus. Eram o povo “de Judá” em exílio e serão conhecidos como “judeus”. Sentiram imperativo afirmar e assegurar sua identidade agora quando muitos viviam dispersos em terras estrangeiras. De fato, a partir do exílio no séc. VI a. C., começaram a ser escritas as grandes obras do Antigo Testamento: a história (Samuel, Reis), que fazem remontar às origens do mundo (Gn 1-11), passando pelos pais do povo (Gn 12-50), para deter-se em uma recordação do êxodo e das leis fundamentais (Êxodo-Juízes). Ao mesmo tempo, foram colocados por escrito oráculos e discursos dos profetas importantes (especialmente Isaías, Jeremias, Ezequiel), assim como textos que ajudassem a manter viva a religião como tal (Salmos). Em Jeremias 36, lemos que o profeta chamou Baruc para que aja como secretário de um extenso texto que lhe vai ditar, texto que se leu no Templo; depois de ser queimado o rolo por ordem do rei, Jeremias voltou a ditar o texto.”


“Como vemos, não somente foram alteradas as tradições orais, mas também as fontes escritas. De fato, quando um texto escrito é usado por outra pessoa, toma-se da mesma maneira que o material herdado em forma oral, quer dizer, volta de certo modo à sua oralidade. De fato, os textos bíblicos foram escritos para ser escutados, não para ser lidos em particular. Em poucas palavras, o redator é emissor de uma mensagem para sua comunidade em seu tempo. (...)
Não nos esqueçamos de que cada livro foi composto independentemente dos outros: os autores não escreveram com o propósito de que suas obras fizessem parte de uma coleção (que se fez somente muito mais tarde). Cada livro era uma unidade completa e autônoma. Quando Jesus foi à sinagoga em Nazaré, lhe passaram somente o rolo de Isaías (Lc 4,17), que existia como obra independente das demais, e não toda uma biblioteca. Quando Paulo escreveu suas cartas, ele não tinha ideia de que mais tarde elas seriam juntadas e que nós as iríamos ler, dois mil anos mais tarde, como parte da Bíblia. (...)
A fixação escrita de tradições orais, embora se tenha convertido em uma comodidade para a liturgia, para o transporte e para o estudo pessoal, entre outros, foi também uma perda para muitas tradições orais. A transmissão viva, a partir do coração e da mente do comunicador, que mantém vivas as tradições em um perene “hoje”, o do emissor do texto, viu-se recortada ao ser fixada por escrito. A forma escrita permitia referir-se ao texto com caráter de norma, o que o rodeava de uma sacralidade que a forma oral não tinha; por isso, o texto era lido nas assembleias e estudado. No entanto, a comunicação oral manteve a primazia durante muito tempo. De fato, os textos que foram fixados por escrito deviam ser lidos em voz alta, o mais possível diante da comunidade, e comentados, quer dizer, atualizados. Jesus nem escreveu nem mandou escrever, e fica por demonstrar-se que os apóstolos tivessem feito diferentemente: a pregação e as memórias eram transmitidas oralmente. E a fixação escrita, como vimos, não significava de maneira alguma para eles o fim da oralidade. Como São Paulo com suas cartas, a escritura era uma maneira de comunicar-se pela impossibilidade da presença física e pela comunicação oral direta (cf. 1Cor 11,34; 2Cor 13,10; Gl 4,20). Os rabinos mantinham o caráter oral da maioria de suas tradições, e quando as fixaram por escrito foi em forma abreviada, para obrigar seu retorno à comunicação viva oral e provocar a interação com a mensagem à luz do momento atual, e em sintonia com outras tradições. Por isso, o rabinismo não se restringe ao texto bíblico, mas o faz “avançar” com as tradições orais vivas.”


“Eu interpreto a Bíblia desde o momento em que a leio. E ela também me interpreta! Mas a Bíblia mesma já vem interpretada, pois o texto que leio é produto de um autor que interpretou o que recebeu como tradição ou, pelo menos, os acontecimentos ou circunstâncias sobre as quais escreveu. Quando os hebreus pensavam que Deus era como um rei ou como um chefe de um clã, falavam dele nesses termos. E com esse modelo, quando estavam em guerra, falavam de Deus como se fosse um líder vingador, até sanguinário, tal como se lê em Juízes e em Josué. Por sua parte, Jesus tinha uma ideia diferente de Deus; falava dele predominantemente como pai. São Paulo interpretou o que acontecia em Corinto segundo a informação que lhe trouxeram os de Cloé (1Cor 1,11s) e, com base nisso, escreveu sua carta. Lucas interpretou Marcos quando escreveu, anos depois deste, sua própria versão do Evangelho, usando-o como uma de suas fontes de informação. Já antes, a pessoa de Jesus e o que ele fazia e dizia era interpretado de diferentes maneiras por seus discípulos (favoravelmente), por seus adversários (negativamente) e pelas multidões, cada um segundo suas ideias, preconceitos e interesses inconscientes. (...)
A execução de Jesus, por exemplo, pode ser interpretada como produto de inveja (Mc 15,10), como resultado da “segurança do Estado” diante de um revolucionário (Jo 11,48ss; 18,30), como vontade de Deus (At 2,23; 4,28) ou por causa de nossos pecados (Rm 4,25). Sua morte pode ser interpretada como absurda, como trágica, como salvífica, como redentora, como expiatória, como sacrifical. As diferenças devem-se ao prejulgamento daquele que interpreta, à sua ideologia, ao seu nível cultural, às suas experiências de vida, à sua teologia etc. Um enfermo, por exemplo, pode interpretar seu sofrimento como um castigo de Deus, mas o médico o interpretará como resultado de algum mau funcionamento, ou de uma deficiência, ou de um agente externo. Um mesmo acontecimento ou discurso é interpretado diferentemente segundo os modelos políticos, sociológicos, filosóficos, religiosos ou outros que os intérpretes possam ter.”


“As interpretações que se oferecem na Bíblia sobre os diversos acontecimentos estão diretamente relacionadas ao nível de conhecimento e ao grau de cultura dos diversos intérpretes. Enfermidades mentais e neurológicas eram interpretadas como resultado de possessões demoníacas. Em Mc 9,14-29, narra-se a cura de um jovem que, segundo seu pai, “está possuído de um espírito mudo e, quando se apodera dele, o lança por terra, e o menino lança espuma e range os dentes e fica rígido” (v. 17s). Quando vê Jesus, “o espírito imediatamente agitou o jovem com violentas convulsões, o qual, caindo por terra, se revolvia lançando espumas” (v. 20). Trata-se do que agora conhecemos como epilepsia. Qualquer tipo de deficiência visual era qualificado como “cegueira”, e o que chamamos de “lepra” não era outra coisa que alguma enfermidade cutânea contagiosa (varicela, varíola, sarampo, sarna). Por isso mesmo, as diferentes leis que se encontram, por exemplo, no Pentateuco provêm do nível cultural de um povo nômade, das experiências acumuladas ou da influência de diversas culturas. Não causa estranheza, então, que bom número de leis se assemelhem, por exemplo, ao famoso código de Hamurabi. Mas não somente as enfermidades eram interpretadas segundo o grau de cultura e de conhecimentos, mas também a vida mesma em sua relação com Deus se entendia segundo sua ideia de Deus, suas experiências religiosas, sua antropologia. Por isso, a visão do “reino de Deus” que Jesus pregava chocava com a ideia de Deus que especialmente os fariseus tinham. E, não por último, a apreciação (interpretação) de Jesus por parte de Marcos é diferente da que teve o autor do Evangelho segundo João – e continua reverberando a pergunta de Jesus: “Quem dizem vocês que eu sou?” (Mc 8,29).
Tudo isto implica que nem tudo o que se encontra na Bíblia deve ser absolutizado e considerado indefectivelmente correto e válido para todos os tempos. A interpretação é relativa à medida que depende do nível cultural e cognitivo, tanto do emissor como do receptor.
Por isso mesmo, a interpretação das passagens da Bíblia está orientada pela ideia que se tem dela mesma, de sua origem, de sua natureza, de seus alcances e limites, além da ideia que se tem a respeito de Deus, do mundo, do homem e da relação entre estes. Distinta será nossa interpretação de narrações, se as entendermos como reportagens históricas imparciais ao invés de entendê-las como interpretações religiosas por parte de seus narradores. Igualmente acontece com as partes de corte legal: se entendermos as leis, mandatos e preceitos que estão na Bíblia como ordens de origem diretamente divina, as interpretaremos e aplicaremos como leis eternas, mas se os entendermos como ordens surgidas de determinados momentos culturais e históricos, compreenderemos seus alcances, sua atualidade e suas eventuais limitações (até sua vigência), como fez Jesus com relação à lei de Moisés e as tradições.”


“De fato, um dos graves problemas do fundamentalismo e da leitura literalista é que simples e redondamente ignora o que isso implica, ou reduz os gêneros literários existentes na Bíblia a uns poucos, especialmente considera qualquer narração como sendo do gênero literário histórico, de modo que tomam tudo ao pé da letra, confundindo os gêneros literários lenda, mito, epopeia e história e reduzindo-os a história; profecia e apocalipse são reduzidos a vaticínios sobre o futuro, preceitos e exortações são tomados como sendo do gênero jurídico etc. Leem a Bíblia como leem as notícias e informações dos jornais.
Sabemos diferenciar os gêneros literários que são correntes em nosso meio e, por isso, sabemos também qual é seu propósito. Sabemos distinguir uma fatura de uma receita, uma novela de uma biografia, e sabemos qual é o propósito típico de cada um destes gêneros literários. Mas, quando nos encontramos com gêneros literários que não conhecemos bem, como acontece com certa frequência quando lemos a Bíblia, instintivamente tendemos a pensar que esse gênero deve ser semelhante a algum que conhecemos, pensamos que é daqueles correntemente usados hoje. Por conseguinte, pensamos que a mensagem (e propósito) do autor bíblico deve ser esta ou aquela, quando na realidade é outra. Assim, por exemplo, o fato de não conhecer o gênero apocalíptico (pois não é dos empregados hoje) conduz a pensar que se trata do gênero de vaticínios ou anúncios futuristas que conhecemos pelo gênero moderno de ciência-ficção e, consequentemente, se pensa que o propósito do Apocalipse é o de informar a respeito dos acontecimentos que sucederão antes do fim do mundo. No entanto, este gênero literário era comum quando seu autor o empregou e teria por finalidade animar os perseguidos por sua fé a permanecer fiéis a Deus até o final, porque, embora pareça que Deus os abandonou, no final os premiará; não triunfarão as forças do mal, mas Deus e os seus. Para comunicar esta mensagem, os autores do livro de Daniel (caps. 7-12) e do Apocalipse empregaram um gênero literário muito conhecido em seu tempo, mas em desuso hoje. O mesmo acontece com o livro de Jonas, o qual costuma ser tomado como história, quando, na realidade, é um grandioso relato pedagógico. Outro tanto ocorre com os escritos dos profetas: o gênero profético, apesar de sua aparência de vaticínios, não se propõe revelar o que sucederá em um futuro distante (para seus autores), mas antes para advertir que, se não se converterem a Deus, ele os castigará – seu fim é exortar à conversão, não vaticinar.”


“A confusão de gêneros literários observa-se claramente na maneira como muitos interpretam o relato da tentação de Eva no paraíso, em Gn 3. Trata-se de um mito, mas costuma ser tratado como se fosse história – como fazem com os dois relatos da criação. Nele, se relata em linguagem de imagens a origem da tendência dos seres humanos a erigir-se em divindade e em juiz único de suas ações (árvore do conhecimento do bem e do mal), quer dizer, querer ser “como Deus” (v. 5). Mas tudo isso foi frequentemente interpretado como se fosse história, como se se tratasse de duas pessoas reais que cometeram um pecado em um tempo e em um lugar igualmente reais, e que a partir deles todos estamos condenados a sofrer, a trabalhar, a morrer e tudo por culpa alheia, por culpa de Adão e de Eva. São Paulo, como todo judeu de seu tempo, acreditava assim: Rm 5,12ss. No entanto, a realidade é que não se trata de história (quem o teria relatado? Desde quando uma serpente fala? Etc.), mas de uma explicação dessa atitude de soberba dos homens que se explicita nos mitos que seguintes de Caim e Abel, de Noé e da torre de Babel.”


“O que hoje se explica em termos de leis da natureza antigamente explicava-se como intervenções divinas. O que em uma época parecia extraordinário hoje não o é, e tem uma explicação natural. A epilepsia antigamente era considerada produto de possessão demoníaca; hoje sabemos que é uma desordem neurológica.
Para os hebreus (e isso inclui os cristãos), Deus é o criador, o Senhor do universo, e tudo está em suas mãos. Portanto, a Providência rege o curso da natureza. Deus pode intervir quando desejar, e isso nada tem em si de sobrenatural. O admirável é o momento preciso e o efeito de sua intervenção. Por isso, não falavam de milagres, mas de sinais e de portentos. Sinais, porque evidenciam a presença salvífica de Deus; portento, porque são expressões impressionantes do poder divino. E isso é questão de fé; não é demonstrável objetivamente. Milagres não se demonstram: acredita-se neles. É o crente que vê “milagres”. Portanto, não são “provas”, mas sinais (para o que crê) da presença divina. É assim que Jesus entendia a história de Jonas: como um “sinal” (Lc 1,29). E é assim que João apresenta e designa em seu Evangelho os “milagres” de Jesus: como sinais (semeia; cf. 2,11.24; 4,54).
Nós perguntamos: “O que é isto?”. Na antiguidade, perguntavam antes: “O que significa isto?”. Nós cotejamos o fato com a ciência; na Antiguidade era com a mensagem. Quer dizer, nós colocamos em primeiro plano o sobrenatural do fato, enquanto antigamente a atenção estava fixada na experiência da presença ou proximidade divina que, por ser mais intensa e explícita, produz admiração. O milagre era entendido como sinal dessa presença divina.”


“O gênero profético com frequência é mal-entendido, pois ingenuamente costuma-se definir em termos de vaticínios sobre algo que acontecerá. Para compreender este gênero, deve-se entender qual era o papel dos profetas, em cuja boca aparecem as profecias. O profeta falava em nome de Deus, como seu porta-voz, e também fazia as vezes da consciência de Israel. Os profetas falavam com base em suas observações de determinadas situações que seu povo vivia, e as interpretavam a partir de sua fé e das exigências da aliança com Deus. Por isso, com frequência referiam-se às injustiças que se cometiam, às idolatrias, às alianças feitas com povos pagãos, quer dizer, às infidelidades para com a aliança com Deus. Ao deduzir as consequências fatais que a conduta infiel a Deus traria, os profetas chamavam a atenção desesperadamente à conversão. Esse era seu tema constante: conversão, fidelidade absoluta a Deus. Os profetas falavam a partir do presente e para o presente de seu auditório, não para além de vinte séculos adiante. Quando se referiam ao futuro, anunciando catástrofes, não era para predizer o que de qualquer maneira haveria de acontecer, mas para pressionar a uma conversão: era o método da intimidação, que não tinha outra finalidade que a de alcançar a conversão agora, já, como um pai faria com seu filho desobediente: “Se não fizeres isto (se não te converteres)... então cairás”. Isso não quer dizer que de qualquer maneira cairá sobre ele o castigo – por isso muitos “vaticínios” não se cumpriram – ou que, por ser desobediente, não lhe fale outra vez, em lugar de castigá-lo (por isso, se repetem as advertências e as ameaças). Em outras palavras, os profetas não eram anunciadores ou vaticinadores do que irremediavelmente aconteceria por predeterminação divina e, menos ainda, muitos séculos adiante (a quem interessa o que acontecerá muitos séculos mais tarde?). O propósito de grande proporção dos pronunciamentos proféticos era denunciar os males existentes e exortar à conversão a Deus; para isso ameaçavam com algum castigo divino possível ou prometiam a salvação. Certamente, também encontramos expressões de paz e de libertação, de reconstrução e de esperança, mas sempre se referiam a um futuro imediato, não distante.”