segunda-feira, 19 de outubro de 2026

A paixão segundo G. H., de Clarice Lispector

Editora: Rocco

ISBN: 978-85-393-0623-7

Tradução, notas, variantes e seleção de textos: Giorgio Sinedino

Opinião: ★★☆☆☆

Páginas: 192

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Sinopse: Romance original, desprovido das características próprias do gênero, A paixão segundo G.H. conta, através de um enredo banal, o pensar e o sentir de G.H., a protagonista-narradora que despede a empregada doméstica e decide fazer uma limpeza geral no quarto de serviço, que ela supõe imundo e repleto de inutilidades.

Após recuperar-se da frustração de ter encontrado um quarto limpo e arrumado, G.H. depara-se com uma barata na porta do armário. Depois do susto, ela esmaga o inseto e decide provar seu interior branco, processando-se, então, uma revelação.

G.H. sai de sua rotina civilizada e lança-se para fora do humano, reconstruindo-se a partir desse episódio. A protagonista vê sua condição de dona de casa e mãe como uma selvagem. Clarice escreve: “Provação significa que a vida está me provando. Mas provação significa também que estou provando. E provar pode se transformar numa sede cada vez mais insaciável.” A paixão segundo G.H., como os demais títulos de Clarice Lispector relançados pela Rocco, recebeu novo tratamento gráfico e passou por rigorosa revisão de texto, feita pela especialista em crítica textual Marlene Gomes Mendes, baseada em sua primeira edição.



“Só posso compreender o que me acontece mas só acontece o que eu compreendo – que sei do resto? O resto não existiu.”

 

 

“Em mim qualquer começo de pensamento esbarra logo com a testa.”

 

 

“(...) Ou estarei apenas adiando o começar a falar? por que não digo nada e apenas ganho tempo? Por medo. É preciso coragem para me aventurar numa tentativa de concretização do que sinto. É como se eu tivesse uma moeda e não soubesse em que país ela vale.

Será preciso coragem para fazer o que vou fazer: dizer. E me arriscar à enorme surpresa que sentirei com a pobreza da coisa dita. Mal a direi, e terei que acrescentar: não é isso, não é isso! Mas é preciso também não ter medo do ridículo, eu sempre preferi o menos ao mais por medo também do ridículo: é que há também o dilaceramento do pudor. Adio a hora de me falar. Por medo? E porque não tenho uma palavra a dizer.

Não tenho uma palavra a dizer. Por que não me calo, então? Mas se eu não forçar a palavra a mudez me engolfará para sempre em ondas. A palavra e a forma serão a tábua onde boiarei sobre vagalhões de mudez.”

 

 

“Vou criar o que me aconteceu. Só porque viver não é relatável. Viver não é vivível. Terei que criar sobre a vida. E sem mentir. Criar sim, mentir não. Criar não é imaginação, é correr o grande risco de se ter a realidade. Entender é uma criação, meu único modo. Precisarei com esforço traduzir sinais de telégrafo – traduzir o desconhecido para uma língua que desconheço, e sem sequer entender para que valem os sinais. Falarei nessa linguagem sonâmbula que se eu estivesse acordada não seria linguagem.

Até criar a verdade do que me aconteceu.”

 

 

“Tenho que fazer o esforço de pelo menos me dar uma forma anterior para poder entender o que aconteceu ao ter perdido essa forma.”

 

 

“Tomar consciência da falta de um sentido teria sido sempre o meu modo negativo de sentir o sentido?”

 

 

“– Sei, é ruim segurar minha mão. É ruim ficar sem ar nessa mina desabada para onde eu te trouxe sem piedade por ti, mas por piedade por mim. Mas juro que te tirarei ainda vivo daqui – nem que eu minta, nem que eu minta o que meus olhos viram. Eu te salvarei deste terror onde, por enquanto, eu te preciso. Que piedade agora por ti, a quem me agarrei. Deste-me inocentemente a mão, e porque eu a segurava é que tive coragem de me afundar. Mas não procures entender-me, faze-me apenas companhia. Sei que tua mão me largaria, se soubesse.

Como te compensar? Pelo menos também usa-me, usa me pelo menos como túnel escuro – e quando atravessares minha escuridão te encontrarás do outro lado contigo. Não te encontrarás comigo talvez, não sei se atravessarei, mas contigo. Pelo menos não está sozinho, como ontem eu estava, e ontem eu só rezava para poder pelo menos sair viva de dentro.”

 

 

“Se a pessoa não estiver comprometida com a esperança, vive o demoníaco.”

 

 

“E não me esquecer, ao começar o trabalho, de me preparar para errar. Não esquecer que o erro muitas vezes se havia tornado o meu caminho. Todas as vezes em que não dava certo o que eu pensava ou sentia – é que se fazia enfim uma brecha, e, se antes eu tivesse tido coragem, já teria entrado por ela. Mas eu sempre tivera medo de delírio e erro. Meu erro, no entanto, devia ser o caminho de uma verdade: pois só quando erro é que saio do que conheço e do que entendo. Se a “verdade” fosse aquilo que posso entender – terminaria sendo apenas uma verdade pequena, do meu tamanho.

A verdade tem que estar exatamente no que não poderei jamais compreender.”

 

 

“O erro é um dos meus modos fatais de trabalho.”

 

 

“Não sou adulta bastante para saber usar uma verdade sem me destruir.”

 

 

“– Então – então pela porta da danação, eu comi a vida e fui comida pela vida. Eu entendia que meu reino é deste mundo. E isto eu entendia pelo lado do inferno em mim. Pois em mim mesma eu vi como é o inferno.”

 

 

“Toda a parte mais inatingível de minha alma e que não me pertence – é aquela que toca na minha fronteira com o que já não é eu, e à qual me dou. Toda a minha ânsia tem sido esta proximidade inultrapassável e excessivamente próxima. Sou mais aquilo que em mim não é.

E eis que a mão que eu segurava me abandonou. Não, não. Eu é que larguei a mão porque agora tenho que ir sozinha.

Se eu conseguir voltar do reino da vida tornarei a pegar a tua mão, e a beijarei grata porque ela me esperou, e esperou que meu caminho passasse, e que eu voltasse magra, faminta e humilde: com fome apenas do pouco, com fome apenas do menos.

Porque, ali sentada e quieta, eu passara a querer viver a minha própria remotidão como único modo de viver a minha atualidade. E isso, que é aparentemente inocente, isso era de novo um fruir que se parecia com um gozo horrendo e cósmico.

Para revivê-lo, solto a tua mão.

Porque nesse fruir não havia piedade. Piedade é ser filho de alguém ou de alguma coisa – mas ser o mundo é a crueldade.”

 

 

“O mistério do destino humano é que somos fatais, mas temos a liberdade de cumprir ou não o nosso fatal: de nós depende realizarmos o nosso destino fatal. Enquanto que os seres inumanos, como a barata, realizam o próprio ciclo completo, sem nunca errar porque eles não escolhem. Mas de mim depende eu vir livremente a ser o que fatalmente sou. Sou dona de minha fatalidade e, se eu decidir não cumpri-la, ficarei fora de minha natureza especificamente viva. Mas se eu cumprir meu núcleo neutro e vivo, então, dentro de minha espécie, estarei sendo especificamente humana.

– Mas é que tornar-se humano pode se transformar em ideal, e sufocar-se de acréscimos... Ser humano não deveria ser um ideal para o homem que é fatalmente humano, ser humano tem que ser o modo como eu, coisa viva, obedecendo por liberdade ao caminho do que é vivo, sou humana. E não preciso cuidar sequer de minha alma, ela cuidará fatalmente de mim, e não tenho que fazer para mim mesma uma alma: tenho apenas que escolher viver.”

 

 

“O inferno é o meu máximo.

Eu estava em pleno seio de uma indiferença que é quieta e alerta. E no seio de um indiferente amor, de um indiferente sono acordado, de uma dor indiferente. De um Deus que, se eu amava, não compreendia o que Ele queria de mim. Sei, Ele queria que eu fosse o seu igual, e que a Ele me igualasse por um amor de que eu não era capaz.”

 

 

“Neste instante, agora, uma dúvida me surpreende. Deus, ou o que És chamado: eu só peço agora uma ajuda: mas que agora me ajudes não obscuramente como me és, mas desta vez claramente e em campo aberto.

Pois preciso saber exatamente isto: estou sentindo o que estou sentindo, ou estou sentindo o que eu queria sentir? ou estou sentindo o que precisaria sentir?

Porque não quero mais sequer a concretização de um ideal, quero é ser apenas uma semente. Mesmo que depois, dessa semente, nasçam de novo os ideais, ou os verdadeiros, que são um nascimento de caminho, ou os falsos, que são os acréscimos. Estaria eu sentindo o que desejaria sentir? Pois a diferença de um milímetro é enorme, e este espaço de um milímetro pode me salvar pela verdade ou de novo me fazer perder tudo o que vi. É perigoso. Os homens elogiam muito o que sentem. O que é tão perigoso como execrar o que se sente.

Eu oferecera meu inferno ao Deus. E minha crueldade, meu amor, minha crueldade parara de súbito. E de súbito aquele mesmo deserto era o esboço ainda vago do que se chamou de paraíso. A umidade de um paraíso. Não outra coisa, mas aquele mesmo deserto. E eu estava surpreendida como se é surpreendido por uma luz que vem do nada.

Entendia eu que aquilo que eu experimentara, aquele núcleo de rapacidade infernal, era o que se chama de amor? Mas – amor-neutro?

Amor neutro. O neutro soprava. Eu estava atingindo o que havia procurado a vida toda: aquilo que é a identidade mais última e que eu havia chamado de inexpressivo. Fora isso o que sempre estivera nos meus olhos no retrato: uma alegria inexpressiva, um prazer que não sabe que é prazer – um prazer delicado demais para a minha grossa humanidade que sempre fora feita de conceitos grossos.

– Fiz tal esforço em me falar de um inferno que não tem palavras. Agora como falarei de um amor que não tem senão aquilo que se sente, e diante do qual a palavra “amor” é um objeto empoeirado? O inferno pelo qual eu passara – como te dizer? – fora o inferno que vem do amor. Ah, as pessoas põem a ideia de pecado em sexo. Mas como é inocente e infantil esse pecado. O inferno mesmo é o do amor. Amor é a experiência de um perigo de pecado maior – é a experiência da lama e da degradação e da alegria pior. Sexo é o susto de uma criança. Mas como falarei para mim mesma do amor que eu agora sabia? É quase impossível. É que no neutro do amor está uma alegria contínua, como um barulho de folhas ao vento. E eu cabia na nudez neutra da mulher da parede. O mesmo neutro, aquele que me havia consumido em perniciosa e ávida alegria, era nesse mesmo neutro que eu agora ouvia outra espécie de alegria contínua de amor. O que é Deus estava mais no barulho neutro das folhas ao vento que na minha antiga prece humana.

A menos que eu pudesse fazer a prece verdadeira, e que aos outros e a mim mesma pareceria a cabala de uma magia negra, um murmúrio neutro.

Esse murmúrio, sem nenhum sentido humano, seria a minha identidade tocando na identidade das coisas. Sei que, em relação ao humano, essa prece neutra seria uma monstruosidade. Mas em relação ao que é Deus, seria: ser.”

 

 

“– Escuta, não te assustes: lembra-te que eu comi do fruto proibido e no entanto não fui fulminada pela orgia de ser. Então, ouve: isso quer dizer que me salvarei ainda mais do que eu me salvaria se não tivesse comido da vida... Ouve, por eu ter mergulhado no abismo é que estou começando a amar o abismo de que sou feita. A identidade pode ser perigosa por causa do intenso prazer que se tornasse apenas prazer. Mas agora estou aceitando amar a coisa! E não é perigoso, juro que não é perigoso.

Pois o estado de graça existe permanentemente: nós estamos sempre salvos.

Todo o mundo está em estado de graça. A pessoa só é fulminada pela doçura quando percebe que está em graça, sentir que se está em graça é que é o dom, e poucos se arriscam a conhecer isso em si. Mas não há perigo de perdição, agora eu sei: o estado de graça é inerente.

– Escuta. Eu estava habituada somente a transcender. Esperança para mim era adiamento. Eu nunca havia deixado minha alma livre, e me havia organizado depressa em pessoa porque é arriscado demais perder-se a forma. Mas vejo agora o que na verdade me acontecia: eu tinha tão pouca fé que havia inventado apenas o futuro, eu acreditava tão pouco no que existe que adiava a atualidade para uma promessa e para um futuro.

Mas descubro que não é sequer necessário ter esperança. É muito mais grave. Ah, sei que estou de novo mexendo no perigoso e que deveria calar-me para mim mesma. Não se deve dizer que a esperança não é necessária, pois isto poderia vir a se transformar, já que sou fraca, em arma destruidora. E para ti mesmo, em arma utilitária de destruição.

Eu poderia não entender e tu poderias não entender que prescindir da esperança – na verdade significa ação, e hoje. Não, não é destruidor, espera, deixa eu nos entender. Trata-se de assunto proibido não porque é ruim mas porque nós nos arriscamos.

Sei que se eu abandonar o que foi uma vida toda organizada pela esperança, sei que abandonar tudo isso – em prol dessa coisa mais ampla que é estar vivo – abandonar tudo isso dói como separar-se de um filho ainda não nascido. A esperança é um filho ainda não nascido, só prometido, e isso machuca.

Mas sei que ao mesmo tempo quero e não quero mais me conter. É como na agonia da morte: alguma coisa na morte quer se libertar e tem ao mesmo tempo medo de largar a segurança do corpo. Sei que é perigoso falar na falta de esperança, mas ouve – está havendo em mim uma alquimia profunda, e foi no fogo do inferno que ela se forjou. E isso me dá o direito maior: o de errar.

Escuta sem susto e sem sofrimento: o neutro do Deus é tão grande e vital que eu, não aguentando a célula do Deus, eu a tinha humanizado. Sei que é horrivelmente perigoso descobrir agora que o Deus tem a força do impessoal – porque sei, oh eu sei! que é como se isso significasse a destruição do pedido! E é como se o futuro parasse de vir a existir. E nós não podemos, nós somos carentes.

Mas ouve um instante: não estou falando do futuro, estou falando de uma atualidade permanente. E isto quer dizer que a esperança não existe porque ela não é mais um futuro adiado, é hoje. Porque o Deus não promete. Ele é muito maior que isso: Ele é, e nunca para de ser. Somos nós que não aguentamos esta luz sempre atual, e então a prometemos para depois, somente para não senti-la hoje mesmo e já. O presente é a face hoje do Deus. O horror é que sabemos que é em vida mesmo que vemos Deus. É com os olhos abertos mesmo que vemos Deus. E se adio a face da realidade para depois de minha morte – é por astúcia, porque prefiro estar morta na hora de vê-Lo e assim penso que não O verei realmente, assim como só tenho coragem de verdadeiramente sonhar quando estou dormindo.

Sei que o que estou sentindo é grave e pode me destruir. Porque – porque é como se eu estivesse me dando a notícia de que o reino dos céus já é.

E eu não quero o reino dos céus, eu não o quero, só aguento a sua promessa! A notícia que estou recebendo de mim mesma me soa cataclísmica, e de novo perto do demoníaco. Mas é só por medo. É medo. Pois prescindir da esperança significa que eu tenho que passar a viver, e não apenas a me prometer a vida. E este é o maior susto que eu posso ter. Antes eu esperava. Mas o Deus é hoje: seu reino já começou.

E seu reino, meu amor, também é deste mundo. Eu não tinha coragem de deixar de ser uma promessa, e eu me prometia, assim como um adulto que não tem coragem de ver que já é adulto e continua a se prometer a maturidade.

E eis que eu estava sabendo que a promessa divina de vida já está se cumprindo, e que sempre se cumpriu. Anteriormente, só de vez em quando, eu era lembrada, numa visão instantânea e logo afastada, de que a promessa não é somente para o futuro, é ontem e é permanentemente hoje: mas isso me era chocante. Eu preferia continuar pedindo, sem ter a coragem de já ter.

E eu tenho. Eu sempre terei. É só precisar, que eu tenho. Precisar não acaba nunca pois precisar é a inerência de meu neutro. Aquilo que eu fizer do pedido e da carência esta será a vida que terei feito de minha vida. Não se colocar em face da esperança não é a destruição do pedido! e não é abster-se da carência.

Ah, é aumentá-la, é aumentar infinitamente o pedido que nasce da carência.”

 

 

“Não é para nós que o leite da vaca brota, mas nós o bebemos. A flor não foi feita para ser olhada por nós nem para que sintamos o seu cheiro, e nós a olhamos e cheiramos. A Via-Láctea não existe para que saibamos da existência dela, mas nós sabemos. E nós sabemos Deus. E o que precisamos Dele, extraímos. (Não sei o que chamo de Deus, mas assim pode ser chamado.) Se só sabemos muito pouco de Deus, é porque precisamos pouco: só temos Dele o que fatalmente nos basta, só temos de Deus o que cabe em nós. (A nostalgia não é do Deus que nos falta, é a nostalgia de nós mesmos que não somos bastante; sentimos falta de nossa grandeza impossível – minha atualidade inalcançável é o meu paraíso perdido.)

Sofremos por ter tão pouca fome, embora nossa pequena fome já dê para sentirmos uma profunda falta do prazer que teríamos se fôssemos de fome maior. O leite a gente só bebe o quanto basta ao corpo, e da flor só vemos até onde vão os olhos e a sua saciedade rasa. Quanto mais precisarmos, mais Deus existe. Quanto mais pudermos, mais Deus teremos.

Ele deixa. (Ele não nasceu para nós, nem nós nascemos para Ele, nós e Ele somos ao mesmo tempo.) Ele está ininterruptamente ocupado em ser, assim como todas as coisas estão sendo, mas Ele não impede que a gente se junte a Ele e, com Ele, fique ocupado em ser, numa intertroca tão fluida e constante – como a de viver. Ele, por exemplo, Ele nos usa totalmente porque não há nada em cada um de nós de que Ele, cuja necessidade é absolutamente infinita, não precise. Ele nos usa, e não impede que a gente faça uso Dele. O minério que está na terra não é responsável por não ser usado.

Nós somos muito atrasados, e não temos ideia de como aproveitar Deus numa intertroca – como se ainda não tivéssemos descoberto que o leite se bebe. Daí a alguns séculos ou daí a alguns minutos talvez digamos espantados: e dizer que Deus sempre esteve! quem esteve pouco fui eu – assim como diríamos do petróleo de que a gente finalmente precisou a ponto de saber como tirá-lo da terra, assim como um dia lamentaremos os que morreram de câncer sem usar o remédio que está. Certamente ainda não precisamos não morrer de câncer. Tudo está. (Talvez seres de outro planeta já saibam das coisas e vivam numa intertroca para eles natural; para nós, por enquanto, a intertroca seria “santidade” e perturbaria completamente a nossa vida.)

O leite da vaca, nós o bebemos. E se a vaca não deixa, usamos de violência. (Na vida e na morte tudo é lícito, viver é sempre questão de vida-e-morte.) Com Deus a gente também pode abrir caminho pela violência. Ele mesmo, quando precisa mais especialmente de um de nós, Ele nos escolhe e nos violenta.

Só que minha violência para com Deus tem que ser comigo mesma. Tenho que me violentar para precisar mais. Para que eu me torne tão desesperadamente maior que eu fique vazia e necessitada. Assim terei tocado na raiz do precisar. O grande vazio em mim será o meu lugar de existir; minha pobreza extrema será uma grande vontade. Tenho que me violentar até não ter nada, e precisar de tudo; quando eu precisar, então eu terei, porque sei que é de justiça dar mais a quem pede mais, minha exigência é o meu tamanho, meu vazio é a minha medida. Também se pode violentar Deus diretamente, através de um amor cheio de raiva.

E Ele compreenderá que essa nossa avidez colérica e assassina é na verdade a nossa cólera sagrada e vital, a nossa tentativa de violentação de nós mesmos, a tentativa de comer mais do que podemos para aumentarmos artificialmente a nossa fome – na exigência de vida tudo é lícito, mesmo o artificial, e o artificial é às vezes o grande sacrifício que se faz para se ter o essencial.

Mas, já que somos pouco e, portanto só precisamos de pouco, por que então não nos basta o pouco? É que adivinhamos o prazer. Como cegos que tateiam, nós pressentimos o intenso prazer de viver.

E se pressentimos, é também porque nós nos sentimos inquietamente usados por Deus, sentimos inquietantemente que estamos sendo usados com um prazer intenso e ininterrupto – aliás, a nossa salvação por enquanto tem sido a de pelo menos sermos usados, não somos inúteis, somos intensamente aproveitados por Deus; corpo e alma e vida são para isso: para a intertroca e o êxtase de alguém. Inquietos, sentimos que estamos sendo usados a cada instante – mas isso acorda em nós o inquietante desejo de também usar.

E Ele não só deixa, como necessita ser usado, ser usado é um modo de ser compreendido. (Em todas as religiões Deus exige ser amado.) Para termos, faltanos apenas precisar. Precisar é sempre o momento supremo. Assim como a mais arriscada alegria entre um homem e uma mulher vem quando a grandeza de precisar é tanta que se sente em agonia e espanto: sem ti eu não poderia viver. A revelação do amor é uma revelação de carência – bem-aventurados os pobres de espírito porque deles é o dilacerante reino da vida.

Se abandono a esperança, estou celebrando a minha carência, e esta é a maior gravidade do viver. E, porque assumi a minha falta, então a vida está à mão. Muitos foram os que abandonaram tudo o que tinham, e foram em busca da fome maior.

Ah perdi a timidez: Deus já é. Nós já fomos anunciados, e foi a minha própria vida errada quem me anunciou para a certa. A beatitude é o prazer contínuo da coisa, o processo da coisa é feito de prazer e de contato com aquilo de que se precisa gradualmente mais. Toda a minha luta fraudulenta vinha de eu não querer assumir a promessa que se cumpre: eu não queria a realidade.

Pois ser real é assumir a própria promessa: assumir a própria inocência e retomar o gosto do qual nunca se teve consciência: o gosto do vivo.”

 

 

 

“Fui expulsa do paraíso quando me tornei humana.”

 

 

“A humildade é muito mais que um sentimento, é a realidade vista pelo mínimo bom-senso.”

 

 

“Ah, meu amor, não tenhas medo da carência: ela é o nosso destino maior. O amor é tão mais fatal do que eu havia pensado, o amor é tão inerente quanto a própria carência, e nós somos garantidos por uma necessidade que se renovará continuamente. O amor já está, está sempre. Falta apenas o golpe da graça – que se chama paixão.”

 

 

“Existe a trajetória, e a trajetória não é apenas um modo de ir. A trajetória somos nós mesmos. Em matéria de viver, nunca se pode chegar antes. A via-crucis não é um descaminho, é a passagem única, não se chega senão através dela e com ela. A insistência é o nosso esforço, a desistência é o prêmio. A este só se chega quando se experimentou o poder de construir, e, apesar do gosto de poder, prefere-se a desistência. A desistência tem que ser uma escolha. Desistir é a escolha mais sagrada de uma vida. Desistir é o verdadeiro instante humano. E só esta é a glória própria de minha condição.

A desistência é uma revelação.”

Dao De Jing (Parte IV), de Laozi

Subtítulo: Escritura do Caminho e Escritura da Virtude com os comentários do Senhor às margens do Rio

Editora: Unesp

ISBN: 978-85-393-0623-7

Tradução, notas, variantes e seleção de textos: Giorgio Sinedino

Opinião: N/A

Páginas: 630

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Sinopse: Ver Parte I



“Como governar?

 

O Dao nunca age,1 mas não há nada que não realize.

Comentários

“Inação” é a permanência2 [que caracteriza] o Dao.

 

[Basta que] reis e senhores feudais o preservem para que as dez mil coisas se transformem3 por si sós.

Comentários

[O verso] propõe que se reis e senhores feudais forem capazes de preservar o Dao, as dez mil coisas transformar-se-ão por si sós: [isso significa] que o efeito [da transformação] está nelas próprias.

 

Se, [contudo, o que foi] transformado se insurgir, eu tomarei [em minhas mãos] a simplicidade [da tábua rasa]4 que não tem nome5 para esmagá-lo.

Comentários

“Eu” [quer dizer fá-lo-ei] pessoalmente. “A simplicidade que não tem nome” [se refere ao] Dao. Quando as dez mil coisas se transformam, é porque [exercem] um efeito sobre si próprias. Se elas ainda desejarem produzir [qualquer forma de] artifício ou falsidade, o rei e senhores feudais devem usar o Dao e sua Virtude para contê-los6 pessoalmente.

 

[Portanto,] a simplicidade do que não tem nome conduz à supressão dos desejos. Cessando os desejos, chega-se à quietude.

Comentários

[O verso] sugere que uma vez reis e senhores feudais o pacifiquem, o povo também deixará de ter desejos. A partir de então, [os superiores] deverão usar da pureza e silêncio para orientar [a plebe] em sua transformação [moral].

 

[Com isso,] Tudo sob o Céu se firma [por si].7

Comentários

Se o descrito acima [ocorrer], Tudo sob o Céu retificar-se-á, firmando-se espontaneamente.

Notas

 

1 Lit. “o Dao constantemente pratica a Inação”. Inação: cf. cap. Retorno à pureza, nota 10.

2 Permanência: cf. cap. A Fonte do Nada, nota 5.

3 Transformação (Política): cf. cap. 3, nota 6.

4 Simplicidade da Tábua Rasa: 樸 (pu) alusão à madeira ainda não trabalhada, símbolo da simplicidade original dos seres.

5 Nome: cf. cap. Assumindo grandes feitos, nota 6.

6 Eis um exemplo de como o glosador é capaz de imprimir nuanças sobre o texto principal, apropriando-se dele: Laozi utiliza 鎮 (zhen), um termo violento, que quer dizer “esmagar”, “subjugar”. O Senhor do Rio atenua essa ênfase, com o binômio 鎮撫, que sugere “sustentar”, “conter”. Especialmente na língua chinesa, as palavras revestem-se de um sentido ideológico e moralizante – neutralidade é um fato raro. Na história da China imperial, é comum usar o verbo “apaziguar e estabilizar” (平定, pingding) para definir a supressão de revoltas e sedições contrárias aos interesses do poder central. Há aí um claro sentido legitimador de corrigir indivíduos em falta, de restabelecer a paz e a harmonia regulares em uma sociedade.

7 “[Portanto,] a simplicidade do que não tem nome conduz à supressão dos desejos. Cessando os desejos, chega-se à quietude. [Com isso,] Tudo sob o Céu se firma [por si]”. Os textus recepti HSG, WB e FY são, para todos os efeitos, idênticos. Já os textos não transmitidos trazem importantes diferenças. GD lê: “a simplicidade do que não tem nome fará com que fiquemos satisfeitos [com aquilo que temos]; estando satisfeitos, encontraremos a quietude e assim as dez mil coisas firmar-se-ão espontaneamente” 無名之樸, 夫亦將知足, 知足以靜, 萬物將自定. MWD traz: “a simplicidade do que não tem nome fará com que não soframos humilhações; não as sofrendo, encontraremos a quietude e assim as dez mil coisas corrigir-se-ão por si sós”.

 

 

“Palavras de advertência

 

Tua reputação ou tua vida: o que é mais caro?

Comentários

Oculta-se, tão logo granjeie fama.

 

Tua vida ou teus pertences: o que vale mais?

Comentários

Quando os pertences são muitos, [grandes] serão os danos ao corpo.

 

Obter algo ou perdê-lo, o que gera mais preocupações?

Comentários

A pessoa que cobiça vantagens apresenta mazelas em sua conduta.

 

Excesso de apego conduz a grossos dispêndios;

Comentários

A pessoa que tem apego excessivo à beleza [feminina] despenderá largamente do seu espírito puro;1 quem tem apego a riquezas, incorrerá em vicissitudes. [Mesmo que] nosso apego seja dirigido a poucas coisas, grande será nosso desperdício, donde [Laozi falar de] “grossos dispêndios”.

 

Exagero de parcimônia finda em grandes perdas.

Comentários

Se durante nossa vida guardamos muito em nossas tesourarias e armazéns, na morte preservá-lo-emos em nossos túmulos ou criptas.2 Se em vida somos tomados por preocupações de quem nos assaltará e roubará, na morte também há o temor daqueles que cavam túneis para entrar nas tumbas e dos que abrem sarcófagos [em busca de riquezas].

 

Quem sabe se dar por satisfeito não sofre humilhação,

Comentários

A pessoa que sabe [quando] se dar por satisfeita [é capaz de] abrir mão das vantagens e de livrar-se dos desejos, [pois] não [deseja] que humilhações [recaiam sobre] seu corpo.

 

Quem sabe quando parar não cai em desgraça:

Comentários

Para quando sabe que deve parar. É dessa forma que suas posses não se tornam um fardo e que sons [de música] e beleza [das mulheres] não põem seus ouvidos e olhos em desordem. Por derradeiro, viverá até o fim de seus dias sem correr perigo nem cair em desgraça.

 

[E é por isso que] logra a sua longevidade.

Comentários

O homem que sabe quando parar e quando se dar por satisfeito possui em si [o caminho para obter] sorte3 e títulos. Quem cultiva o corpo não afaina o espírito, quem governa o país não importuna o povo, logo é capaz de preservar sua longevidade.”

1 Espírito Puro: cf. cap. Imagem primordial, nota 9.

2 Dentre as práticas funerárias da China pré-unificação, a mais notável é a construção de mansões subterrâneas, onde as potestades guardavam seus mais queridos tesouros, animais e servos humanos. Essas tumbas eram cobertas com montes de terra, sendo digno de nota o alto monte construído sobre o túmulo do primeiro imperador, nas imediações da atual cidade chinesa de Xian.

3 Sorte: cf. Nutrindo o corpo, nota 12.

 

 

“Palavras de advertência

 

Tua reputação ou tua vida: o que é mais caro?

Tua vida ou teus pertences: o que vale mais?

Obter algo ou perdê-lo, o que gera mais preocupações?

Excesso de apego conduz a grossos dispêndios;

Exagero de parcimônia finda em grandes perdas.

Quem sabe se dar por satisfeito não sofre humilhação,

Quem sabe quando parar não cai em desgraça:

[E é por isso que] logra a sua longevidade.

Comentário: não trouxe os comentários nesse capítulo.

 

 

“Não há ruína maior do que [a da pessoa que] não sabe se dar por satisfeita.”

 

 

“Oh, os reveses! Sobre eles se firmam as fortunas.

Comentários

“Firmar-se” [é uma metáfora para] “ter origem em”. As fortunas têm origem nos reveses. É quando as pessoas sofrem tribulação que começam a se arrepender dos próprios erros e culpar-se. Se cultivam o Dao e praticam boas ações, os reveses se vão e as fortunas vêm.

 

Oh, as fortunas! Nelas [jazem] os reveses, à espreita.

Comentários

Os reveses escondem-se, à espreita, em meio às fortunas; quando as pessoas têm sorte, tornam-se alvo da arrogância e do desregramento – consequentemente, as fortunas se vão e os reveses vêm.

 

Quem sabe [onde] culminará [essa alternância]?4

Comentários

Reveses e fortunas alternam-se, gerando-se uns aos outros; quem será capaz de vislumbrar o momento em que [tal alternância] se esgotará, atingindo sua culminância?”

4 Frequentemente, trechos de Laozi são citados fora de contexto e, tornando-se provérbios, distorcem seu sentido original. Por exemplo, este e os dois versos anteriores propõem que, na vida humana, há uma sucessão infinita de reveses e fortunas. “Onde culminará?” é a questão central para o indivíduo, diretamente interessado em seu destino. No entanto, é importante colocar a questão no contexto do poema como um todo. Os quatro primeiros versos definiram-lhe uma tese clara, que reitera o ensinamento fundamental de Laozi, segundo quem o Sábio que adotar a Inação para governar Tudo sob o Céu é capaz de se perenizar no cargo. Portanto, “onde culminará” é uma pergunta retórica. Fortuna ou revés não é um resultado aleatório: depende apenas de o Rei praticar ou não a Inação. O capítulo deixa claro que, mesmo sem se impor aos seus subordinados, o Rei taoista terminará por liderar pelo exemplo, conquistando os corações de Tudo sob o Céu.

 

 

“A origem da gratidão

 

Age sem agir,1

Comentários

Ao terminar [sua obra], volta ao [seu estado] original; não há nenhum tipo de operação ou artifício [que realize a título próprio].

 

Serve sem servir,

Comentários

Não antecipa, nem toma precauções; retira o que há em excesso e diminui o número de obrigações [que se deve prestar].

 

Saboreia o que não tem sabor.2

Comentários

Ao refletir profundamente e ponderar sobre coisas distantes, ele é capaz de intuir o significado do Dao.

 

Grande ou pequeno, muito ou pouco,3

Comentários

Apresente todas as suas ordens e advertências [ao povo, sabendo que quem] deseja algo grande, finda por obter algo pequeno; desejando muito, recebe pouco: eis o Dao da espontaneidade.4

 

Retribui ódio com Virtude.5

Comentários

Ao cultivar o Dao e praticar a bondade,6 erros e excessos extinguem-se antes de nascer.

 

Planeja [feitos] difíceis enquanto ainda são fáceis;

Comentários

Quem quiser planejar feitos difíceis, que aja enquanto ainda está fácil, isto é, enquanto [as tendências] ainda não se perfizeram [em fato].

 

Executa grandes [realizações] enquanto ainda são pequenas.

Comentários

Quem almeja realizar grandes façanhas, precisa começar com coisas pequenas. Pois as tragédias surgem de pequenos [detalhes].

 

As mais difíceis proezas de Tudo sob o Céu surgem de [inícios] simples; as maiores façanhas de Tudo sob o Céu têm [princípios] modestos.

Comentários

[Do fácil nasce o difícil; do pouco visível, o que salta aos olhos].7

 

[Atento para tal fato,] o Sábio nunca se esmera em algo grandioso – e é por essa razão que é capaz de realizar sua grandeza.

Comentários

Comporta-se de maneira modesta, vazio de si; e Tudo sob Céu submeter-se-lhe-á, conjuntamente.

 

[Aquele que] se compromete levianamente finda por perder sua confiabilidade;

Comentários

Não dá valor à palavra.

 

[Aquele que] encontra facilidade em tudo termina esbarrando em muitas dificuldades;

Comentários

Não tem cautela diante das agruras.

 

[Sabendo disso,] mesmo o Sábio vê dificuldades [nas coisas],

Comentários

Ao mover-se ou ao tomar qualquer atitude, o Sábio é comedido, avançando ou não. Se busca dificuldades no que faz, é porque deseja eliminá-las na origem.

 

E por fim não há dificuldades.

Comentários

O Sábio não se depara com obstáculos ao longo de sua existência: isso porque [mantém atenção] profunda para evitar [todo] dano.”

1 A melhor tradução desse verso seria “pratique a inação” (cf. cap. 1, nota 8), mas preferiu-se a tradução literal, para preservar o paralelismo sintático dos três primeiros versos.

2 Cf. cap. 35: “Ao sair da boca, o Dao é mais insípido do que não sabe a nada” 道之出口, 淡乎其無味. O Senhor do Rio explora um dos sentidos derivados da palavra 味 (wei), que é o de “sentido”, “significado”. O comentário de Wang Bi: “aquilo que acha sabor e sentido no que é sereno e insosso é o sumo da ordem” 以恬淡為味, 治之極也. O soberano ideal para Wang Bi (e de certa forma para a tradição política chinesa) é muitas vezes impassível.

3 Esse verso, considerado de difícil compreensão por especialistas modernos, possui uma redação alternativa em GD: “quem considera pequeno o que é grande, encontrará muitas dificuldades no que deveriam ser coisas fáceis” 大小之, 多易必多難. Entretanto, os comentaristas mais antigos parecem ter associado “grande, pequeno; muito, pouco” ao verso “retribua ódio com Virtude”, p.ex. Han Fei《韓非子·喻老》explica que “o que é grande nasce do que é pequeno; o que é muito, do que é pouco” 大生於小, 多生於少. Wang Bi também associa-o ao ódio em sua lição.

4 Espontaneidade: cf. cap. Imagem primordial, nota 23.

5 Retribuição (Misericórdia): É importante enfatizar que a mensagem cristã de “amar os inimigos” não encontra correspondência alguma na cultura chinesa, mesmo se comparada com a noção budista de 慈悲 (maitri-karuna) ordinariamente traduzida como “misericórdia”. Essa “misericórdia” possui um sentido eminentemente teológico; colocando-a nos termos mais simples, trata-se de um atributo exclusivo das boddhisattvas, as quais, disseminando a doutrina budista, podem “transmitir alegria” aos fiéis (“maitri” significa “conceder alegria”: 與樂, yu le) e também “aliviar seu sofrimento” (eis o que significa “karuna”: 拔苦, ba ku). No contexto da revelação budista, o conteúdo de “alegria” e “sofrimento” está condicionado a que se quebre o apego à noção de “eu”, já que o que entendemos por indivíduo é uma ficção do intelecto. Logo, também é absurda a ideia de “amar o inimigo”, pois os laços que nos ligam uns aos outros são reflexo do mesmo tipo de apego que temos em relação a nós mesmos – algo que, segundo o budismo, devemos nos livrar. Em outras palavras, o que se chama ordinariamente de “amor” e “perdão” remete a um tipo de realidade, social e política, pela qual o Budismo não tem interesse – já que são doutrinariamente irrelevantes para sua epistemologia e soteriologia transcendentes. No que diz respeito ao pensamento chinês autóctone, essa frase de Laozi é o mais próximo que se pode chegar de uma crítica ao princípio da retribuição (cf. cap. 30, nota 2), claramente defendido por Analectos, 14.36: “Alguém disse: ‘retribuir o ódio com virtude, que tal?’. O Mestre disse: ‘[Sendo assim,] como retribuir a virtude? Retribui-se o ódio com retidão; retribui-se a virtude com virtude’” 或曰: “以德報怨, 何如 ”。子曰: “何以報德 以直報怨, 以德報德”. Não é necessário dizer que Confúcio define justiça como estrita proporcionalidade; um ato bom deve ser recompensado com outro ato bom, enquanto um ato ruim deve ser punido conforme as convicções sociais vigentes. Nesse contexto, embora seja incapaz de compreender o ideal cristão, Laozi consegue perceber com clareza as vantagens de contar com a gratidão de alguém que sabe que deveria ter sido punido, mas não foi. O título dado a esse capítulo, com muita propriedade, é 恩始, “a origem da gratidão”. Essa gratidão assenta-se na boa consciência de cada indivíduo, tendo uma força política redentora – se as pessoas forem capazes de se comover com tal favor. Aliás, “favor” é uma tradução possível do termo 恩, sem equivalente perfeito em português. Se, por um lado, 恩 significa a “gratidão” que se dedica a quem nos beneficiou, por outro, significa o “favor” ou a “benesse” que alguém nos concede. Portanto, não há nada em comum com a “graça” cristã que, como explica sua etimologia, é gratuita.

6 “Ao cultivar o Dao e praticar a bondade”. A edição Yi Lin traz “ao cultivar seu corpo” 修身行善.

7 Na maior parte dos manuscritos de HSG esse verso não possui glosa. Esta, provavelmente espúria, foi retirada do manuscrito Anotações Reunidas.

 

 

“Protegendo a tenuidade1

 

Onde há estabilidade, é fácil de mantê-lo;

Comentários

Se ao governar o país ou o corpo há estabilidade e calma, será fácil preservá-lo.

 

O que não tem indícios, é fácil de planejá-lo;

Comentários

Quando os desejos e inclinações, catástrofes e sofrimentos ainda não se revelaram, nem tomaram forma, é fácil planejar como evitá-los.

 

Onde há fragilidade, é fácil de quebrá-lo;

Comentários

Quando as sedições ainda não efervesceram dentro da corte,2 quando os desejos ainda não se manifestaram num corpo, é como se fossem algo quebradiço, fácil de se desfazer.

 

O que é sutil, é fácil de dispersá-lo.

Comentários

Quando [o resultado de uma] situação ainda não se tornou evidente3 aos olhos, seus pequenos e magros inícios são fáceis de dispersar.

 

Age enquanto nada há;

Comentários

Quem deseja evitar um [resultado determinado], deve fazê-lo enquanto ainda não começou a distinguir-se, obstruindo os seus inícios antecipadamente.

 

Impõe ordem antes da desordem.

Comentários

Quem governa um feudo ou o próprio corpo deve fechar as suas portas4 preventivamente, enquanto a desordem ainda não se instalou.

 

Um tronco de uma braça cresce de delgado caniço;

Comentários

O que é grande produz-se do que é pequeno.

 

Um terraço de nove andares ergue-se duma pá de terra;

Comentários

O que é alto ergue-se do que é baixo.

 

Uma jornada de mil li5 começa sob o pé do viajor.

Comentários

O que é longe estende-se do que está perto.

 

Quem [tenta] realizar [algo] fracassa;

Comentários

Quem age por intenção ou forçosamente prejudica a Espontaneidade.6 Quem o faz [movido pelo] senso de dever7 prejudica a humanidade8 e o carinho paterno;9 quem o faz [movido pela] beleza exterior10 prejudica o espírito puro.11

 

Quem se agarra [a algo] perde-o.

Comentários

O homem que se agarra a vantagens passa por transtornos, mas quem se agarra ao Dao resguarda sua vida.12 A pessoa que persiste obstinadamente não tem êxito, mas aquele que transige em favor de outrem por fim recebe [concessões] de volta.13

 

O Sábio pratica a Inação,14 por isso nunca fracassa;

Comentários

O Sábio não produz insígnias sofisticadas, não se entrega a volúpia nem a vantagens, não comete crueldades ou vilanias. Eis a razão para que nunca fracasse ou se corrompa.

 

Não se agarra [a nada], por isso nada perde.

Comentários

O Sábio utiliza sua Virtude15 para doutrinar os estultos; utiliza suas posses para dar aos pobres. Não há nada a que se apegue, nada que entesoure; por tal motivo, não tem nada que possa perder para os outros.

 

É da maneira do povo tratar de seus assuntos que, faltando pouco para alcançar seus desígnios, não raro fracasse.16

Comentários

“Tratar” [sugere] agir [intencional ou forçosamente]. Quando o povo realiza uma obra, muitas vezes [há situações em que estão] prestes a consolidar seus méritos e Virtude; contudo, tomados pela cobiça de altas posições e pelo amor à fama, enchem-se de si, [entregam-se] ao luxo e à ostentação, trazendo fracasso para si próprios.

 

Se dedicares ao fim a mesma atenção que destes ao início, não haverá nada em que fracasses.

Comentários

Deve-se terminar as coisas da mesma forma com que se as começou. Nunca se deve [ceder] à indolência.

 

Com esse fito, o Sábio só deseja não ter desejos:

Comentários

O Sábio deseja o que as pessoas não almejam para si. As pessoas querem estar em evidência, serem ilustres; o Sábio anela encobrir seu brilho. As pessoas ambicionam insígnias e adereços de distinção; o Sábio aspira à Naturalidade17 e à simplicidade [da madeira não trabalhada]. As pessoas têm volúpia pela beleza;18 o Sábio só tem olhos para a Virtude.

 

Não dá valor a objetos raros;

Comentários

O Sábio não se ilude com roupas, petrechos, brinquedos... Ele não despreza a pedra e estima o jade.

 

Estuda o não estudo;19

Comentários

O Sábio estuda aquilo que as pessoas são incapazes de aprender: as pessoas aprendem conhecimentos e artifícios; o Sábio imita20 a Espontaneidade. As pessoas aprendem a governar sua geração; o Sábio aprende a governar a si próprio. [O segredo do Sábio é que ele] preserva [em si próprio] o Dao genuíno.

 

Reverte os excessos da multidão.

Comentários

Os estudos a que a multidão se dedica são todos o inverso [do que é próprio]. A multidão passa [desapercebida] pela raiz para se ocupar com os ramos,21 passa [desapercebida] pelos frutos para se ocupar com a flor.22 “Reverter” [significa] fazer que as pessoas voltem à sua raiz, à Naturalidade.23

 

Dessa forma auxilia a espontaneidade das dez mil coisas

Comentários

Doutrina as pessoas para que retornem à sua raiz, ao fruto; pois deseja dar apoio à natureza íntima,24 [inerente] à espontaneidade das dez mil coisas.

 

E jamais ousa agir.

Comentários

Os movimentos e ações do Sábio seguem o fluxo [da Espontaneidade do Dao], seguindo-a. [Por tal motivo], não ousam agir causal ou intencionalmente, temendo [assim] afastar-se da raiz.

1 GD traz apenas a segunda metade deste capítulo, reproduzida com leves diferenças de redação em dois grupos diferentes.

2 “Quando as sedições ainda não efervesceram dentro da corte”. O manuscrito Qiang lê: “ainda não arrebentaram [do solo]” 未動於萌. Os manuscritos Anotações reunidas e Gu trazem “ainda não se moveram em meio às audiências do Rei” 未動於朝夕.

3 “Não se tornou evidente” parafraseia 微 (wei), “tênue, sutil” (cf. título do capítulo). GD traz “Quando as coisas se encontram num estado de extrema sutileza, é fácil que se dispersem” 其幾易散.

4 Cf. caps. 52 e 56: “Sela os orifícios [de tua face]; fecha as portas [de teu ser]”.

5 Medida chinesa de extensão; atualmente conta cerca de 500m.

6 Espontaneidade: cf. cap. Imagem primordial, nota 23.

7 Dever: cf. cap. Retorno à pureza, nota 13.

8 Humanidade: cf. cap. Retorno à pureza, nota 12.

9 Carinho Paterno: cf. cap. Retorno à pureza, nota 14.

10 Beleza Exterior — Cor/Forma/Beleza exterior: as Cinco Cores 五色 (wuse) são azul (ou verde), vermelho, branco, preto e amarelo – conforme o sistema de classificação dos Cinco Elementos: cf. cap. 28, nota 12. 色 é um conceito importante na história do pensamento chinês. SWJZ explica que, etimologicamente, 色 é “a cor que a energia vital manifesta no rosto das pessoas” 顏氣也. Analogamente, as expressões portuguesas “branco de medo”, “roxo de inveja”, “vermelho de ódio” etc. O sentido básico de “cor” é alargado para incluir tudo aquilo que se vê, donde a acepção “forma” ou “imagem”. Especialmente com a entrada do budismo na China, 色 torna-se um jargão filosófico, como tradução do sânscrito “rúpa”, isto é, “forma”. “Rúpa” é a primeira das cinco “skandhas” (em chinês 蘊, yun), ou seja, “monte” (no sentido de “aglomeração”). As “skandhas” são grupos de elementos por meio dos quais se analisa a realidade. Afora o sentido de “cor” e “imagem”, em certas ocasiões, 色 pode significar também “mulher”, particularmente a “beleza feminina” e, ainda, somente “beleza”. O Senhor do Rio explora essa associação em suas glosas, de modo que a passagem “quem cobiça belas imagens termina por prejudicar sua essência, fazendo com que perca sua pureza” pode ser subentendida como “quem cobiça belas mulheres termina por desperdiçar seu sêmen, fazendo com que perca sua pureza” (“essência” e “sêmen” são expressos pelo mesmo termo chinês, 精, jing).

11 Espírito Puro: cf. cap. Imagem primordial, nota 9.

12 “O homem que se agarra a vantagens passa por transtornos”. O manuscrito Gu possui redação alternativa: “o homem que não releva suas inimizades (lit. “quem se agarra aos próprios inimigos”) perde a vida” 執敵失身.

13 Reciprocidade: O Senhor do Rio toma a reciprocidade 推讓返還 como um axioma, e não deixa de ter razões para tanto. De fato, a reciprocidade é o principal elemento da noção chinesa de justiça, que carece do “elemento transcendente” encontrado na tradição greco-cristã. Não é necessário dissertar a fundo sobre a importância de Deus como juiz imparcial, onisciente (e misericordioso); nem da justiça como pura proporcionalidade – Platão recusou a ideia logo no primeiro livro da Politeia. No Ocidente, a justiça extrapola o limite das relações humanas em particular, e facilmente põe em cheque as instituições políticas, os valores e mesmo a concepção da realidade. No caso da China, a justiça está condicionada a um puro elemento de equivalência de trocas; afinal, como podemos perceber em Laozi, há um sistema implícito de correspondências biunívocas, hierárquicas, unindo desde Céu e Terra, até a relação política de subordinação entre pai e filho, soberano e servo.

14 Inação: cf. cap. Retorno à pureza, nota 10.

15 Virtude: cf. cap. “Deitando as armas [no chão]”, nota 10.

16 “É da maneira do povo tratar de seus assuntos que, faltando pouco para alcançar seus desígnios, não raro fracasse”. Em GD, primeiro grupo, esta frase aparece como “ao tratar de teus assuntos, a norma é que (...)” 臨事之紀.

17 Naturalidade/Refinamento: Um dos temas mais importantes do debate intelectual chinês encerra-se na dicotomia entre “Naturalidade” (質, zhi) e “Refinamento” (文, wen). Por Naturalidade, entende-se a constituição moral, intelectual e emocional do indivíduo antes de ser transformada pela educação clássica, decalcada pela tradição literária. Refinamento corresponde ao ideograma 文, que aparece na palavra chinesa para “cultura” (文化, wenhua) e expressa “o poder de transformação que a tradição escrita possui”. Dessa forma, o debate concerne ultimamente aos limites da influência de uma cultura escrita – e suas instituições sociais. Sobre esse debate, dois pontos merecem ser ressaltados. Primeiro, há amplo consenso entre as diversas escolas de pensamento chinesas de que a cultura escrita não deve exceder o que foi sacralizado por uma “moralidade natural”, chamada pelos pensadores chineses de “Dao-De” (道德) ou “Caminho e Virtude”. É digno de nota que os pensadores chineses em geral são moralistas estritos, advogando a posição de que há noções naturais de certo ou errado. Segundo, aceita-se a possibilidade de que a “cultura escrita” se legitima a partir do momento em que se torna veículo de “Dao-De”. Simbólico das contradições inerentes à tradição chinesa, os mesmos intelectuais que advogavam o retorno às origens (i.e. advogavam a primazia da Naturalidade) eram literatos consumados. Por isso não parece contraditório aos chineses que Laozi se permitisse compor um poema, reconhecido como um feito literário, para exortar os homens superiores a praticarem o estilo de vida taoista. O termo 文 aparecerá mais uma vez com a tradução “virtudes literárias” num binômio composto com as “virtudes marciais” 武 (wu). Cf. cap. 47, nota 9.

18 “As pessoas têm volúpia pela beleza”. O manuscrito Gu lê “a multidão anela riquezas e mulheres” 眾人欲於財色.

19 Estudo: cf. cap. 48, nota 1. “Estuda o não estudo”. Em GD, primeiro grupo, há: “doutrine a não doutrina” (教不教).

20 Com a mesma palavra, 學 (xue), a língua chinesa significa “estudar”, “aprender” e “imitar”. Os três sentidos aparecem nesta única frase do Senhor do Rio.

21 Raiz/Ramos: é uma dicotomia importante nos embates entre as diversas doutrinas e escolas chinesas – cada uma delas reclamava para si a única ou mais genuína atenção ao principal, enquanto criticavam seus adversários por se aterem apenas ao acessório. Os ideogramas chineses utilizam a metáfora de uma árvore; “principal” é, literalmente, “raiz/tronco” (本, ben) da árvore e “acessório”, seus “ramos” (末, mo). Nessa passagem, percebe-se que o taoismo emprega o termo “principal” para denotar algo diverso do confucionismo, vituperando-o. Enquanto nessa escola importância maior é atribuída ao estudo dos Ritos, o taoismo afirma que se trata de algo puramente acessório, já que os Ritos são meras formalizações de um tipo genuíno de perfeição. Esta deve ser perseguida pela prática do Dao, da Naturalidade, da Inação. Ao longo de todo o período imperial, nos debates econômicos, “principal” referia-se normalmente à produção de riqueza – sinônimo da produção de grãos. No linguajar chinês, “valorizar o principal” (重本, zhongben) significava adotar uma política de austeridade de gastos, contendo a exação de impostos que, em última instância, recaíam sobre os ombros de quem trabalhava na lavoura. Previa, também, uma certa atenção à infraestrutura produtiva, que representava um contraponto ao “consumo conspícuo” das elites governamentais – destinado à manutenção de um estilo de vida ostentativo – e também às políticas de Estado aventureiras, como certas guerras de expansão sem um sentido político ou econômico evidentes. O taoismo contribuiu decisivamente para essa atitude, estando por trás do que se convencionou chamar de “laissez-faire chinês”. A intervenção governamental na vida econômica da população é tradicionalmente muito reduzida, repassando ao clã uma série de poderes e responsabilidades que, na Europa, historicamente estavam sob a tutela de instituições jurídicas ou organizações civis. Considerando o caráter “holístico” do pensamento chinês antigo, mesmo questões políticas hoje consideradas técnicas remetiam à cultivação moral do indivíduo. Por exemplo, a adoção de impostos elevados ou a decisão de ir para a guerra numa fronteira vulnerável, uma vez percebidas como erro, tendiam a ser criticadas não como decisões estratégicas falhas, mas como resultado de imperfeições éticas das personalidades ou grupos por trás dessas empreitadas. Daí um segundo sentido do termo “principal”, ainda mais relevante para o pensamento chinês: o de atribuir importância central à reputação ética do indivíduo, como critério para a organização política do Estado. Por esse motivo, o pensamento chinês ortodoxo muitas vezes reduz-se a receitas de “aperfeiçoamento moral” que findam por se imbricar – deterministicamente – com outros campos. Um exemplo definitivo desse fenômeno é a sequência de oito termos que dá estrutura ao “Grande Aprendizado” (大學, Daxue), uma das quatro obras essenciais da educação política chinesa nos cerca de seicentos anos que se concluíram em 1911. Sob a orientação geral de que “todas as coisas possuem aspectos principais e acessórios” 物有本末, o “Grande Aprendizado” expõe, em oito itens, como um membro da elite cultural e política chinesa deveria agir para governar bem seu país. Na base dessa cadeia de oito termos está a contínua autoperscrutação moral do indivíduo, cuja perfeição comunica-se ao todo que governa, seja ao seu clã, seja ao seu país.

22 Flor/Fruto: a relação entre flor e fruto é análoga à que existe entre raiz e ramos. O original chinês utiliza a palavra 華 (hua), cujo sentido literal é flor, mas que também possui uma série de conotações. A flor é uma etapa efêmera no desenvolvimento da planta. Ela não tem qualquer valor prático, qualquer finalidade, qualquer sentido. A beleza que “tem” – na verdade, a beleza que lhe atribuímos – reflete sua falta de substancialidade: é uma beleza exterior, parcial e precária. Já o fruto (實, shi, que também significa “cheio”) é o inverso da flor: “cheio” por dentro, possui substância. Não apenas há uma utilidade para o fruto, mas ele ainda carrega vida em si. Embora não tenha beleza “por fora”, ele esconde dentro de si o poder de nutrir-se e desenvolver-se. Eis uma boa alegoria para o Dao.

23 Naturalidade: cf. cap. Protegendo a tenuidade, nota 17.

24 Natureza: cf. cap. Imagem primordial, nota 24.

 

 

“Correspondendo ao Céu1

Aqueles que no passado2 se distinguiram como [grandes] shi3 não [veneravam] as virtudes marciais,4

Comentários

[Laozi] propõe que [os shi de tempos passados] prezavam o Dao e sua Virtude, não lhes aprazia utilizar a força em campanhas militares.

 

[pois] quem sabe guerrear não [cede à] cólera.

Comentários

Quem sabe como utilizar o Dao na guerra proscreve sentimentos incorretos de seu peito, de seu coração; ele elimina as tragédias antes que comecem a se manifestar: não executa ninguém [sob arroubo de] fúria.5

 

Quem sempre triunfa sobre seus inimigos não se confunde [com eles],6

Comentários

Quem é hábil em empregar o Dao para vencer seus inimigos assimila [as forças dos que lhe estão] perto através de sua humanidade7 e, com sua virtude, faz vir os que estão ao longe. Ele não luta com o inimigo, que se rende espontaneamente.

 

[pois] o hábil gestor de homens [sabe] descer [de sua posição].

Comentários

Quem é hábil em dar bom uso às pessoas que podem servi-lo e auxiliá-lo sempre tem uma atitude modesta e discreta.

 

Isso é o que chamo de “a Virtude de quem não contende”;

Comentários

[Estes versos] recomendam que as pessoas superiores sempre se rebaixem em suas ações. Estes são os poderes morais8 de quem não entra em conflito com os outros.

 

Isso é o que chamo de “o poder de gerir pessoas”;

Comentários

Do homem capaz de se colocar abaixo dos outros, diz-se que tem força para dar bom uso a seus servos.

 

Isso é o que chamo de “corresponder ao Céu”;

Comentários

Quem for capaz de praticá-lo, tem uma Virtude que se combina à do Céu.

 

Eis o sumo da antiguidade.

Comentários

Esta é a culminância do que há de mais importante no Dao da antiguidade.

 

1 Corresponder Ao Céu: (配天, peitian) significa agir conforme os desígnios do Céu ou se igualar em Virtude a ele. A história do conceito segue um padrão usual: na mais remota antiguidade, a noção era exclusiva dos reis e potestades; logo, 配天 significava qualificar-se para receber o mandato do Céu. Ilustra-o um dos cantos da década “Santuário Puro”, recolhida nos “Cânticos da Casa Real de Zhou”, parte do Clássico dos poemas 《詩經·周頌·清廟之什》. O canto, chamado de “Lembrando a Bela Virtude”《思文》, explica como Hou Ji 后稷, ancestral do clã de Zhou, conquistou as graças do Céu. A primeira parelha de versos lê: “Lembremo-nos da Bela Virtude (文) de Hou Ji; De como ele pôde corresponder ao Céu”. Em seguida, o poema descreve as contribuições do nobre, que transmitiu conhecimentos e técnicas agronômicas ao povo, alimentando-o. Além de estar vinculado ao conjunto de contribuições para a sociedade, “corresponder ao Céu” também prevê à observância de deveres religiosos, por exemplo, sacrificar para o Céu – tudo realça o caráter exclusivo da relação entre a deidade e as poucas pessoas titulares desse privilégio. No momento de transição histórica em que viveu Laozi, contudo, “corresponder ao Céu” parece ter sido estendido a qualquer Shi, não como um prêmio por alguma obra política, nem mesmo como uma insígnia de sua Virtude. É suficiente praticar o Dao para que a Virtude, a autoridade política e a chancela divina sejam concedidas, cada uma a seu turno, conforme o progresso na autocultivação.

2 “No passado”. Ausente do texto de Wang Ka, incluiu-se-o com base em FY, MWD e nos seguintes manuscritos de HSG (Cânone taoista, P2639 e S3926). É importante também preservar o paralelismo com o cap. 15.

3 Shi: cf. cap. 15, nota 1. O comentário de Wang Bi a este verso de Laozi é esclarecedor: “os shi eram os comandantes da infantaria leve (卒, zu). As virtudes marciais veneram quem primeiro esmaga seu inimigo”.

4 Virtudes Marciais: Virtudes Literárias/Virtudes Marciais: 武 (wu) definiam o ideal de perfeição dos “shi” chineses, quando aliadas às “virtudes literárias” 文 (wen) (termo que havia sido traduzido como “refinamento” no cap. 3; cf. nota 2). É possível traçar um paralelo entre os dois conceitos e uma experiência histórica fundadora da cultura chinesa. Logo na dinastia Zhou, os dois primeiros reis receberam, curiosamente, os títulos de 文 (wen) e 武 (wu). Durante o período em que permaneceu preso sob suspeita de crime de sedição – supostamente uma arbitrariedade do último rei da dinastia Shang –, a tradição reza que o pai, Ji Chang (姬昌), elaborou o sistema de 64 hexagramas que compõe o Clássico das mutações. Isso fez dele o autor de um dos principais textos fundadores da cultura chinesa. Seu filho, postumamente conhecido como rei Wu (姬發, Ji Fa), consolidou uma grande coalizão militar contra a dinastia decadente dos Shang e, por força das armas, estabeleceu a casa de Zhou como os novos donos de Tudo sob Céu por mais de 700 anos. Na dinastia Zhou, ambas as virtudes literárias e marciais parecem ter estado referendadas por um “currículo escolar” eminentemente prático, cujo objetivo era preparar os membros da elite política para guerra e também para exercer funções (burocráticas) de governo. O ensinamento de Confúcio de certa forma reconhece o valor de ambos – enquanto distingue uma ordem para os dois: Analectos (3.25) “O Mestre disse a respeito da [música] Shao: ‘[Ela consegue] alcançar o que há de mais belo e o que há de melhor’. Da [música] Wu, ele disse: ‘[Ela consegue] alcançar o que há de mais belo, mas não o que há de melhor’” 子謂韶: “盡美矣, 又盡善也”。謂武, “盡美矣, 未盡善也”. A música “Shao” é a do Rei Sábio Shun, representando uma sociedade em que imperavam os valores civis e as virtudes literárias; já a música Wu é a do Rei Wu de Zhou – que, para todos os efeitos, conquistou Tudo sob o Céu com um golpe de Estado. À medida que essa antiga ordem política deixou de responder às necessidades de uma sociedade mais complexa e de uma vida econômica mais diversa, assinalou-se uma tensão cada vez maior entre os elementos marcial e literário. É por esse motivo que, em pensadores do período da Primavera e Outono, já se pode identificar reservas a virtudes guerreiras – comumente confundidas como “pacifismo”. Entretanto, por a guerra ser uma realidade inelutável nessa época, as “virtudes guerreiras” ainda são valorizadas, ensinadas e praticadas, mesmo que somente sob forma de mal necessário. A julgar os capítulos sobre pensamento e estratégia militar, Laozi, sem dúvida, é membro desse consenso. A história da China a partir da unificação sob o imperador Shi da dinastia Qin assinala o início de um longo processo em que os elementos “literário” e “militar” se separam em dois corpos burocráticos distintos, com o resultado esperado de que as “virtudes militares” caem em desgraça sob a desconfiança de pessoas que, por meio de sua erudição, chegaram ao poder ou adquiriram evidência social. Cada vez mais os militares são vistos como rudes, incultos e oriundos de famílias bárbaras (eis a origem de porção substancial dos militares na história da China antiga).

5 “Não executa ninguém [sob arroubo de] cólera”, a edição “Yilin” traz “não possui ódios, nem explode com fúria” 怨怒。

6 “[Pois] quem sempre triunfa sobre seus inimigos não se confunde [com eles]”. FY redige “não luta com eles” 善勝敵者不爭.

7 Humanidade: cf. cap. Retorno à pureza, nota 12.

8 Poderes Morais: é uma das leituras possíveis da palavra composta 道德 (daode), particularmente onde são um apanágio do indivíduo. Quando se refere abstratamente ao Dao, pode ser vertida como “Dao e sua Virtude”.