Editora: Rocco
ISBN: 978-85-393-0623-7
Tradução, notas,
variantes e seleção de textos: Giorgio
Sinedino
Opinião: ★★☆☆☆
Páginas: 192
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Sinopse: Romance
original, desprovido das características próprias do gênero, A paixão segundo G.H. conta, através de
um enredo banal, o pensar e o sentir de G.H., a protagonista-narradora que
despede a empregada doméstica e decide fazer uma limpeza geral no quarto de
serviço, que ela supõe imundo e repleto de inutilidades.
Após recuperar-se da frustração de ter encontrado um
quarto limpo e arrumado, G.H. depara-se com uma barata na porta do armário.
Depois do susto, ela esmaga o inseto e decide provar seu interior branco,
processando-se, então, uma revelação.
G.H. sai de sua rotina civilizada e lança-se para fora do
humano, reconstruindo-se a partir desse episódio. A protagonista vê sua
condição de dona de casa e mãe como uma selvagem. Clarice escreve: “Provação
significa que a vida está me provando. Mas provação significa também que estou
provando. E provar pode se transformar numa sede cada vez mais insaciável.” A paixão segundo G.H., como os demais
títulos de Clarice Lispector relançados pela Rocco, recebeu novo tratamento
gráfico e passou por rigorosa revisão de texto, feita pela especialista em
crítica textual Marlene Gomes Mendes, baseada em sua primeira edição.
“Só
posso compreender o que me acontece mas só acontece o que eu compreendo – que
sei do resto? O resto não existiu.”
“Em
mim qualquer começo de pensamento esbarra logo com a testa.”
“(...)
Ou estarei apenas adiando o começar a falar? por que não digo nada e apenas
ganho tempo? Por medo. É preciso coragem para me aventurar numa tentativa de
concretização do que sinto. É como se eu tivesse uma moeda e não soubesse em
que país ela vale.
Será
preciso coragem para fazer o que vou fazer: dizer. E me arriscar à enorme
surpresa que sentirei com a pobreza da coisa dita. Mal a direi, e terei que
acrescentar: não é isso, não é isso! Mas é preciso também não ter medo do
ridículo, eu sempre preferi o menos ao mais por medo também do ridículo: é que
há também o dilaceramento do pudor. Adio a hora de me falar. Por medo? E porque
não tenho uma palavra a dizer.
Não
tenho uma palavra a dizer. Por que não me calo, então? Mas se eu não forçar a
palavra a mudez me engolfará para sempre em ondas. A palavra e a forma serão a
tábua onde boiarei sobre vagalhões de mudez.”
“Vou
criar o que me aconteceu. Só porque viver não é relatável. Viver não é vivível.
Terei que criar sobre a vida. E sem mentir. Criar sim, mentir não. Criar não é
imaginação, é correr o grande risco de se ter a realidade. Entender é uma
criação, meu único modo. Precisarei com esforço traduzir sinais de telégrafo –
traduzir o desconhecido para uma língua que desconheço, e sem sequer entender
para que valem os sinais. Falarei nessa linguagem sonâmbula que se eu estivesse
acordada não seria linguagem.
Até
criar a verdade do que me aconteceu.”
“Tenho
que fazer o esforço de pelo menos me dar uma forma anterior para poder entender
o que aconteceu ao ter perdido essa forma.”
“Tomar
consciência da falta de um sentido teria sido sempre o meu modo negativo de
sentir o sentido?”
“– Sei, é ruim segurar minha mão. É ruim ficar sem ar nessa mina desabada
para onde eu te trouxe sem piedade por ti, mas por piedade por mim. Mas juro
que te tirarei ainda vivo daqui – nem que eu minta, nem que eu minta o que meus
olhos viram. Eu te salvarei deste terror onde, por enquanto, eu te preciso. Que
piedade agora por ti, a quem me agarrei. Deste-me inocentemente a mão, e porque
eu a segurava é que tive coragem de me afundar. Mas não procures entender-me,
faze-me apenas companhia. Sei que tua mão me largaria, se soubesse.
Como te compensar? Pelo menos também usa-me,
usa me pelo menos como túnel escuro – e quando atravessares minha escuridão te
encontrarás do outro lado contigo. Não te encontrarás comigo talvez, não sei se
atravessarei, mas contigo. Pelo menos não está sozinho, como ontem eu estava, e
ontem eu só rezava para poder pelo menos sair viva de dentro.”
“Se a pessoa não estiver comprometida com a
esperança, vive o demoníaco.”
“E não me esquecer, ao começar o trabalho, de
me preparar para errar. Não esquecer que o erro muitas vezes se havia tornado o
meu caminho. Todas as vezes em que não dava certo o que eu pensava ou sentia –
é que se fazia enfim uma brecha, e, se antes eu tivesse tido coragem, já teria
entrado por ela. Mas eu sempre tivera medo de delírio e erro. Meu erro, no
entanto, devia ser o caminho de uma verdade: pois só quando erro é que saio do
que conheço e do que entendo. Se a “verdade” fosse aquilo que posso entender –
terminaria sendo apenas uma verdade pequena, do meu tamanho.
A verdade tem que estar exatamente no que não
poderei jamais compreender.”
“O erro é um dos meus modos fatais de
trabalho.”
“Não sou adulta bastante para saber usar uma
verdade sem me destruir.”
“– Então – então pela porta da danação, eu
comi a vida e fui comida pela vida. Eu entendia que meu reino é deste mundo. E
isto eu entendia pelo lado do inferno em mim. Pois em mim mesma eu vi como é o
inferno.”
“Toda a parte mais inatingível de minha alma
e que não me pertence – é aquela que toca na minha fronteira com o que já não é
eu, e à qual me dou. Toda a minha ânsia tem sido esta proximidade
inultrapassável e excessivamente próxima. Sou mais aquilo que em mim não é.
E eis que a mão que eu segurava me abandonou.
Não, não. Eu é que larguei a mão porque agora tenho que ir sozinha.
Se eu conseguir voltar do reino da vida
tornarei a pegar a tua mão, e a beijarei grata porque ela me esperou, e esperou
que meu caminho passasse, e que eu voltasse magra, faminta e humilde: com fome
apenas do pouco, com fome apenas do menos.
Porque, ali sentada e quieta, eu passara a
querer viver a minha própria remotidão como único modo de viver a minha
atualidade. E isso, que é aparentemente inocente, isso era de novo um fruir que
se parecia com um gozo horrendo e cósmico.
Para revivê-lo, solto a tua mão.
Porque nesse fruir não havia piedade. Piedade
é ser filho de alguém ou de alguma coisa – mas ser o mundo é a crueldade.”
“O mistério do destino humano é que somos
fatais, mas temos a liberdade de cumprir ou não o nosso fatal: de nós depende
realizarmos o nosso destino fatal. Enquanto que os seres inumanos, como a
barata, realizam o próprio ciclo completo, sem nunca errar porque eles não
escolhem. Mas de mim depende eu vir livremente a ser o que fatalmente sou. Sou
dona de minha fatalidade e, se eu decidir não cumpri-la, ficarei fora de minha
natureza especificamente viva. Mas se eu cumprir meu núcleo neutro e vivo,
então, dentro de minha espécie, estarei sendo especificamente humana.
– Mas é que tornar-se humano pode se
transformar em ideal, e sufocar-se de acréscimos... Ser humano não deveria ser
um ideal para o homem que é fatalmente humano, ser humano tem que ser o modo
como eu, coisa viva, obedecendo por liberdade ao caminho do que é vivo, sou
humana. E não preciso cuidar sequer de minha alma, ela cuidará fatalmente de
mim, e não tenho que fazer para mim mesma uma alma: tenho apenas que escolher
viver.”
“O inferno é o meu máximo.
Eu estava em pleno seio de uma indiferença
que é quieta e alerta. E no seio de um indiferente amor, de um indiferente sono
acordado, de uma dor indiferente. De um Deus que, se eu amava, não compreendia
o que Ele queria de mim. Sei, Ele queria que eu fosse o seu igual, e que a Ele
me igualasse por um amor de que eu não era capaz.”
“Neste instante, agora, uma dúvida me
surpreende. Deus, ou o que És chamado: eu só peço agora uma ajuda: mas que
agora me ajudes não obscuramente como me és, mas desta vez claramente e em
campo aberto.
Pois preciso saber exatamente isto: estou
sentindo o que estou sentindo, ou estou sentindo o que eu queria sentir? ou estou
sentindo o que precisaria sentir?
Porque não quero mais sequer a concretização
de um ideal, quero é ser apenas uma semente. Mesmo que depois, dessa semente,
nasçam de novo os ideais, ou os verdadeiros, que são um nascimento de caminho,
ou os falsos, que são os acréscimos. Estaria eu sentindo o que desejaria
sentir? Pois a diferença de um milímetro é enorme, e este espaço de um
milímetro pode me salvar pela verdade ou de novo me fazer perder tudo o que vi.
É perigoso. Os homens elogiam muito o que sentem. O que é tão perigoso como
execrar o que se sente.
Eu oferecera meu inferno ao Deus. E minha
crueldade, meu amor, minha crueldade parara de súbito. E de súbito aquele mesmo
deserto era o esboço ainda vago do que se chamou de paraíso. A umidade de um
paraíso. Não outra coisa, mas aquele mesmo deserto. E eu estava surpreendida
como se é surpreendido por uma luz que vem do nada.
Entendia eu que aquilo que eu experimentara,
aquele núcleo de rapacidade infernal, era o que se chama de amor? Mas –
amor-neutro?
Amor neutro. O neutro soprava. Eu estava
atingindo o que havia procurado a vida toda: aquilo que é a identidade mais
última e que eu havia chamado de inexpressivo. Fora isso o que sempre estivera
nos meus olhos no retrato: uma alegria inexpressiva, um prazer que não sabe que
é prazer – um prazer delicado demais para a minha grossa humanidade que sempre
fora feita de conceitos grossos.
– Fiz tal esforço em me falar de um inferno
que não tem palavras. Agora como falarei de um amor que não tem senão aquilo
que se sente, e diante do qual a palavra “amor” é um objeto empoeirado? O
inferno pelo qual eu passara – como te dizer? – fora o inferno que vem do amor.
Ah, as pessoas põem a ideia de pecado em sexo. Mas como é inocente e infantil
esse pecado. O inferno mesmo é o do amor. Amor é a experiência de um perigo de
pecado maior – é a experiência da lama e da degradação e da alegria pior. Sexo
é o susto de uma criança. Mas como falarei para mim mesma do amor que eu agora
sabia? É quase impossível. É que no neutro do amor está uma alegria contínua,
como um barulho de folhas ao vento. E eu cabia na nudez neutra da mulher da
parede. O mesmo neutro, aquele que me havia consumido em perniciosa e ávida
alegria, era nesse mesmo neutro que eu agora ouvia outra espécie de alegria
contínua de amor. O que é Deus estava mais no barulho neutro das folhas ao
vento que na minha antiga prece humana.
A menos que eu pudesse fazer a prece
verdadeira, e que aos outros e a mim mesma pareceria a cabala de uma magia
negra, um murmúrio neutro.
Esse murmúrio, sem nenhum sentido humano,
seria a minha identidade tocando na identidade das coisas. Sei que, em relação
ao humano, essa prece neutra seria uma monstruosidade. Mas em relação ao que é
Deus, seria: ser.”
“– Escuta, não te assustes: lembra-te que eu
comi do fruto proibido e no entanto não fui fulminada pela orgia de ser. Então,
ouve: isso quer dizer que me salvarei ainda mais do que eu me salvaria se não
tivesse comido da vida... Ouve, por eu ter mergulhado no abismo é que estou
começando a amar o abismo de que sou feita. A identidade pode ser perigosa por
causa do intenso prazer que se tornasse apenas prazer. Mas agora estou
aceitando amar a coisa! E não é perigoso, juro que não é perigoso.
Pois o estado de graça existe
permanentemente: nós estamos sempre salvos.
Todo o mundo está em estado de graça. A
pessoa só é fulminada pela doçura quando percebe que está em graça, sentir que
se está em graça é que é o dom, e poucos se arriscam a conhecer isso em si. Mas
não há perigo de perdição, agora eu sei: o estado de graça é inerente.
– Escuta. Eu estava habituada somente a
transcender. Esperança para mim era adiamento. Eu nunca havia deixado minha
alma livre, e me havia organizado depressa em pessoa porque é arriscado demais
perder-se a forma. Mas vejo agora o que na verdade me acontecia: eu tinha tão
pouca fé que havia inventado apenas o futuro, eu acreditava tão pouco no que
existe que adiava a atualidade para uma promessa e para um futuro.
Mas descubro que não é sequer necessário ter
esperança. É muito mais grave. Ah, sei que estou de novo mexendo no perigoso e
que deveria calar-me para mim mesma. Não se deve dizer que a esperança não é
necessária, pois isto poderia vir a se transformar, já que sou fraca, em arma
destruidora. E para ti mesmo, em arma utilitária de destruição.
Eu poderia não entender e tu poderias não
entender que prescindir da esperança – na verdade significa ação, e hoje. Não,
não é destruidor, espera, deixa eu nos entender. Trata-se de assunto proibido
não porque é ruim mas porque nós nos arriscamos.
Sei que se eu abandonar o que foi uma vida
toda organizada pela esperança, sei que abandonar tudo isso – em prol dessa
coisa mais ampla que é estar vivo – abandonar tudo isso dói como separar-se de
um filho ainda não nascido. A esperança é um filho ainda não nascido, só prometido,
e isso machuca.
Mas sei que ao mesmo tempo quero e não quero
mais me conter. É como na agonia da morte: alguma coisa na morte quer se
libertar e tem ao mesmo tempo medo de largar a segurança do corpo. Sei que é
perigoso falar na falta de esperança, mas ouve – está havendo em mim uma
alquimia profunda, e foi no fogo do inferno que ela se forjou. E isso me dá o
direito maior: o de errar.
Escuta sem susto e sem sofrimento: o neutro
do Deus é tão grande e vital que eu, não aguentando a célula do Deus, eu a
tinha humanizado. Sei que é horrivelmente perigoso descobrir agora que o Deus
tem a força do impessoal – porque sei, oh eu sei! que é como se isso
significasse a destruição do pedido! E é como se o futuro parasse de vir a
existir. E nós não podemos, nós somos carentes.
Mas ouve um instante: não estou falando do
futuro, estou falando de uma atualidade permanente. E isto quer dizer que a
esperança não existe porque ela não é mais um futuro adiado, é hoje. Porque o
Deus não promete. Ele é muito maior que isso: Ele é, e nunca para de ser. Somos
nós que não aguentamos esta luz sempre atual, e então a prometemos para depois,
somente para não senti-la hoje mesmo e já. O presente é a face hoje do Deus. O
horror é que sabemos que é em vida mesmo que vemos Deus. É com os olhos abertos
mesmo que vemos Deus. E se adio a face da realidade para depois de minha morte
– é por astúcia, porque prefiro estar morta na hora de vê-Lo e assim penso que
não O verei realmente, assim como só tenho coragem de verdadeiramente sonhar
quando estou dormindo.
Sei que o que estou sentindo é grave e pode
me destruir. Porque – porque é como se eu estivesse me dando a notícia de que o
reino dos céus já é.
E eu não quero o reino dos céus, eu não o
quero, só aguento a sua promessa! A notícia que estou recebendo de mim mesma me
soa cataclísmica, e de novo perto do demoníaco. Mas é só por medo. É medo. Pois
prescindir da esperança significa que eu tenho que passar a viver, e não apenas
a me prometer a vida. E este é o maior susto que eu posso ter. Antes eu
esperava. Mas o Deus é hoje: seu reino já começou.
E seu reino, meu amor, também é deste mundo.
Eu não tinha coragem de deixar de ser uma promessa, e eu me prometia, assim
como um adulto que não tem coragem de ver que já é adulto e continua a se
prometer a maturidade.
E eis que eu estava sabendo que a promessa
divina de vida já está se cumprindo, e que sempre se cumpriu. Anteriormente, só
de vez em quando, eu era lembrada, numa visão instantânea e logo afastada, de
que a promessa não é somente para o futuro, é ontem e é permanentemente hoje:
mas isso me era chocante. Eu preferia continuar pedindo, sem ter a coragem de
já ter.
E eu tenho. Eu sempre terei. É só precisar,
que eu tenho. Precisar não acaba nunca pois precisar é a inerência de meu neutro.
Aquilo que eu fizer do pedido e da carência esta será a vida que terei feito de
minha vida. Não se colocar em face da esperança não é a destruição do pedido! e
não é abster-se da carência.
Ah, é aumentá-la, é aumentar infinitamente o
pedido que nasce da carência.”
“Não é para nós que o leite da vaca brota, mas nós o bebemos. A flor não
foi feita para ser olhada por nós nem para que sintamos o seu cheiro, e nós a
olhamos e cheiramos. A Via-Láctea não existe para que saibamos da existência
dela, mas nós sabemos. E nós sabemos Deus. E o que precisamos Dele, extraímos.
(Não sei o que chamo de Deus, mas assim pode ser chamado.) Se só sabemos muito
pouco de Deus, é porque precisamos pouco: só temos Dele o que fatalmente nos
basta, só temos de Deus o que cabe em nós. (A nostalgia não é do Deus que nos
falta, é a nostalgia de nós mesmos que não somos bastante; sentimos falta de
nossa grandeza impossível – minha atualidade inalcançável é o meu paraíso
perdido.)
Sofremos
por ter tão pouca fome, embora nossa pequena fome já dê para sentirmos uma
profunda falta do prazer que teríamos se fôssemos de fome maior. O leite a
gente só bebe o quanto basta ao corpo, e da flor só vemos até onde vão os olhos
e a sua saciedade rasa. Quanto mais precisarmos, mais Deus existe. Quanto mais
pudermos, mais Deus teremos.
Ele
deixa. (Ele não nasceu para nós, nem nós nascemos para Ele, nós e Ele somos ao
mesmo tempo.) Ele está ininterruptamente ocupado em ser, assim como todas as
coisas estão sendo, mas Ele não impede que a gente se junte a Ele e, com Ele,
fique ocupado em ser, numa intertroca tão fluida e constante – como a de viver.
Ele, por exemplo, Ele nos usa totalmente porque não há nada em cada um de nós
de que Ele, cuja necessidade é absolutamente infinita, não precise. Ele nos
usa, e não impede que a gente faça uso Dele. O minério que está na terra não é
responsável por não ser usado.
Nós
somos muito atrasados, e não temos ideia de como aproveitar Deus numa
intertroca – como se ainda não tivéssemos descoberto que o leite se bebe. Daí a
alguns séculos ou daí a alguns minutos talvez digamos espantados: e dizer que
Deus sempre esteve! quem esteve pouco fui eu – assim como diríamos do petróleo
de que a gente finalmente precisou a ponto de saber como tirá-lo da terra,
assim como um dia lamentaremos os que morreram de câncer sem usar o remédio que
está. Certamente ainda não precisamos não morrer de câncer. Tudo está. (Talvez
seres de outro planeta já saibam das coisas e vivam numa intertroca para eles
natural; para nós, por enquanto, a intertroca seria “santidade” e perturbaria
completamente a nossa vida.)
O
leite da vaca, nós o bebemos. E se a vaca não deixa, usamos de violência. (Na
vida e na morte tudo é lícito, viver é sempre questão de vida-e-morte.) Com
Deus a gente também pode abrir caminho pela violência. Ele mesmo, quando
precisa mais especialmente de um de nós, Ele nos escolhe e nos violenta.
Só
que minha violência para com Deus tem que ser comigo mesma. Tenho que me
violentar para precisar mais. Para que eu me torne tão desesperadamente maior
que eu fique vazia e necessitada. Assim terei tocado na raiz do precisar. O
grande vazio em mim será o meu lugar de existir; minha pobreza extrema será uma
grande vontade. Tenho que me violentar até não ter nada, e precisar de tudo;
quando eu precisar, então eu terei, porque sei que é de justiça dar mais a quem
pede mais, minha exigência é o meu tamanho, meu vazio é a minha medida. Também
se pode violentar Deus diretamente, através de um amor cheio de raiva.
E Ele
compreenderá que essa nossa avidez colérica e assassina é na verdade a nossa
cólera sagrada e vital, a nossa tentativa de violentação de nós mesmos, a
tentativa de comer mais do que podemos para aumentarmos artificialmente a nossa
fome – na exigência de vida tudo é lícito, mesmo o artificial, e o artificial é
às vezes o grande sacrifício que se faz para se ter o essencial.
Mas,
já que somos pouco e, portanto só precisamos de pouco, por que então não nos
basta o pouco? É que adivinhamos o prazer. Como cegos que tateiam, nós
pressentimos o intenso prazer de viver.
E se
pressentimos, é também porque nós nos sentimos inquietamente usados por Deus,
sentimos inquietantemente que estamos sendo usados com um prazer intenso e
ininterrupto – aliás, a nossa salvação por enquanto tem sido a de pelo menos
sermos usados, não somos inúteis, somos intensamente aproveitados por Deus;
corpo e alma e vida são para isso: para a intertroca e o êxtase de alguém. Inquietos,
sentimos que estamos sendo usados a cada instante – mas isso acorda em nós o
inquietante desejo de também usar.
E Ele
não só deixa, como necessita ser usado, ser usado é um modo de ser
compreendido. (Em todas as religiões Deus exige ser amado.) Para termos,
faltanos apenas precisar. Precisar é sempre o momento supremo. Assim como a
mais arriscada alegria entre um homem e uma mulher vem quando a grandeza de
precisar é tanta que se sente em agonia e espanto: sem ti eu não poderia viver.
A revelação do amor é uma revelação de carência – bem-aventurados os pobres de
espírito porque deles é o dilacerante reino da vida.
Se
abandono a esperança, estou celebrando a minha carência, e esta é a maior
gravidade do viver. E, porque assumi a minha falta, então a vida está à mão. Muitos
foram os que abandonaram tudo o que tinham, e foram em busca da fome maior.
Ah
perdi a timidez: Deus já é. Nós já fomos anunciados, e foi a minha própria vida
errada quem me anunciou para a certa. A beatitude é o prazer contínuo da coisa,
o processo da coisa é feito de prazer e de contato com aquilo de que se precisa
gradualmente mais. Toda a minha luta fraudulenta vinha de eu não querer assumir
a promessa que se cumpre: eu não queria a realidade.
Pois
ser real é assumir a própria promessa: assumir a própria inocência e retomar o
gosto do qual nunca se teve consciência: o gosto do vivo.”
“Fui expulsa do paraíso quando me tornei
humana.”
“A humildade é muito mais que um sentimento,
é a realidade vista pelo mínimo bom-senso.”
“Ah, meu amor, não tenhas medo da carência:
ela é o nosso destino maior. O amor é tão mais fatal do que eu havia pensado, o
amor é tão inerente quanto a própria carência, e nós somos garantidos por uma
necessidade que se renovará continuamente. O amor já está, está sempre. Falta
apenas o golpe da graça – que se chama paixão.”
“Existe a trajetória, e a trajetória não é
apenas um modo de ir. A trajetória somos nós mesmos. Em matéria de viver, nunca
se pode chegar antes. A via-crucis não é um descaminho, é a passagem única, não
se chega senão através dela e com ela. A insistência é o nosso esforço, a
desistência é o prêmio. A este só se chega quando se experimentou o poder de
construir, e, apesar do gosto de poder, prefere-se a desistência. A desistência
tem que ser uma escolha. Desistir é a escolha mais sagrada de uma vida.
Desistir é o verdadeiro instante humano. E só esta é a glória própria de minha
condição.
A desistência é uma revelação.”

