segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Dao De Jing (Parte III), de Laozi

Subtítulo: Escritura do Caminho e Escritura da Virtude com os comentários do Senhor às margens do Rio

Editora: Unesp

ISBN: 978-85-393-0623-7

Tradução, notas, variantes e seleção de textos: Giorgio Sinedino

Opinião: N/A

Páginas: 630

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Sinopse: Ver Parte I



“Poupando o uso da força

 

Quem emprega o Dao para auxiliar o Senhor de Homens1

Comentários

[Este verso] propõe que o Senhor de Homens é capaz de usar o Dao para ajudar a si próprio.

 

Não pega em armas para se impor diante de Tudo sob o Céu;

Comentários

O Senhor de Homens que usa o Dao para apoiar a si próprio não precisa de armas, nem de couraças: por se submeter ao Céu e carregar em si a Virtude, seus inimigos rendem-se de bom grado.

 

Pois assim é fácil gerar retaliações.

Comentários

Atos [de violência] não raro causam arrependimento [em quem os] exerceu, [visto] não desejarem ser odiados pelos outros.2

 

Espinheiros crescem onde param as tropas;

Comentários

A lavra jaz em abandono; os campos não são cultivados.

 

Grandes exércitos deixam anos de calamidade em seu rasto.3

Comentários

O Céu responde [à malícia dos homens] com energia vital maléfica;4 é isso que fere os cinco grãos. Quando estes murcham, começam as dores da gente.

 

O bom [guerreiro] é determinado, mas não vai além disso:5

Comentários

[Quem se] sobressai no manejo de tropas deve ter coragem e determinação, tão somente. Ele não deve encontrar beleza naquilo que faz.

 

Não ousa tomar [Tudo sob o Céu] à força.

Comentários

Ele não ousa explorar a coragem e determinação que tem para granjear fama de poderoso.

 

É decidido, mas sem vanglória.

Comentários

Corajoso, determinado, sim. Vangloriar-se da própria grandeza, não.

 

É decidido, mas sem bravata.

Comentários

[Pessoas] corajosas e determinadas aquiescem; [elas] não bravateiam de sua beleza.

 

É decidido, mas sem arrogância.

Comentários

Arrogância [é um tipo de] fraude. [O praticante do Dao] não deve se valer dela para ludibriar os outros.

 

É decidido, mas por não ter outra escolha.

Comentários

[Sua] coragem e decisão precisam advir da mais [autêntica] sinceridade; não são [atitudes] produzidas pela força das circunstâncias.6

 

É decidido, mas não [ostenta] sua força;

Comentários

Coragem e decisão não [implicam] desfilar armas poderosas e armaduras impérvias no [simples] intuito de invadir e aviltar a gente.

 

[Pois quando] as coisas [chegam ao ápice de seu] vigor, [começa a sua] decrepitude.

Comentários

Ervas, árvores alcançam o ápice de seu viço e secam, perdendo suas folhas. [Da mesma maneira,] as pessoas atingem a robustez [de sua maturidade], vindo-lhe [pois] decadência e decrepitude. [Este verso assinala que] quem ostenta sua força é incapaz [de manter supremacia] por muito tempo.

 

Dessas, diz-se que “não seguem o Caminho”.

Comentários

O que murchou e envelheceu senta-se [à margem do caminho], não [tem forças para] seguir o Dao.

 

Se “não seguem o Caminho”, cedo fenecem.

Comentários

Quem não segue o Dao morre cedo. Fenecer significa morrer.”

1 “Quem emprega o Dao para auxiliar o Senhor de Homens”. Yu Yue (俞樾, 1821-1906) propõe substituir “auxiliar” (佐, zuo) por “tornar-se” (作, zuo). Nesse contexto é possível compreender-se a incoerência flagrante entre o comentário de Heshang Gong e o texto de Laozi. Enquanto Laozi atribui ao Sábio praticante do Dao a tarefa de auxiliar de seu superior, Heshang Gong reforça a figura do Rei Sábio.

2 Retribuição (Justiça Divina): este verso exemplifica a crença num castigo reservado aos maus (em chinês 報應, baoying). À maneira de outras culturas, na China também existe a crença numa punição “natural” para aqueles que prejudicam os outros. A esse respeito, o texto de Laozi fala da retaliação como um fato – a violência gera violência; o Senhor do Rio psicologiza o problema, argumentando que a retribuição começa na própria consciência do malfeitor, que não deseja ser odiado pelos outros. Um texto muito popular sobre a retribuição é o Opúsculo do altíssimo sobre a retribuição natural (太上感應篇), que em suas primeiras linhas lê: “Não há portas que levam à fortuna ou à desgraça, é o ser humano que atrai uma ou outra. A retribuição do bem e do mal parece-se com a sombra que segue seu corpo. Sendo assim, há um espírito entre o Céu e a Terra, o Juiz da Vida (司命, Siming), encarregado de avaliar os erros das pessoas. De acordo com a gravidade das falhas de cada um, ele diminui os anos que teríamos nesta vida”. Mas havia também recompensas: “Os antigos falavam sobre o bem, contemplavam o bem, praticavam o bem; a cada dia, estes eram o bem com que se ocupavam. Passados três anos, o Céu sempre dadivava-lhes boa sorte”.

3 MWD não traz “grandes exércitos deixam anos de calamidade em seu rasto”.

4 “O Céu responde [à malícia dos homens] com energia vital maléfica”. A edição Cânone taoista lê: “O Céu responde [à malícia dos homens] com energia vital assassina” 天應之以殺氣.

5 A palavra 果 (guo), que o Senhor do Rio interpretou como “corajoso, decidido” (chinês moderno 果斷), Wang Bi leu-a como “obter resultado” 果, 猶濟也 – isto é, vencer os conflitos. Essa leitura tem como autoridade o glossário clássico Er’Ya, em que 果 significa “triunfar” 《爾雅·釋詁》: 果, 勝也. Portanto, a leitura alternativa de Wang Bi é: “Quem é bom guerreiro estaca o pé, uma vez obtenha os resultados [esperados]” 善有果而已 (i.e. para tão logo vença a batalha: não massacra, não saqueia, não humilha o adversário). Wang Bi explica que as armas devem ser usadas apenas para vencer as dificuldades do tempo, não devem ser utilizadas além disso, por exemplo, para hostilizar Tudo sob o Céu.

6 Wang Bi parece ler o texto principal com mais coerência do que o Senhor do Rio: “Atinge seus objetivos [de triunfar pelas armas], mas apenas por não ter outra escolha”. Wang acresce os seguintes Comentários: “Este verso explica que [o Rei] prevalece sobre as dificuldades com grandes feitos. Contudo, ele somente recorreu às armas após ter primeiro ficado sem alternativas. O uso da força somente é correto para extirpar a violência e a desordem, nunca com o fim de se magnificar” 言用兵雖趣功, 果濟難, 然時故不得已當復用者, 但當以除暴亂, 不遂用果以為強也. O Senhor do Rio contraria a literalidade de Laozi para improvisar sobre a índole do praticante do Dao. No parágrafo anterior, a opinião de Wang Bi já esclarecera que não existe contradição ex principio entre a filosofia taoista e a guerra. Há situações em que se é forçado, eventualmente, a lutar: não somente para reagir a uma agressão, mas também enquanto expediente para realizar objetivos maiores – como pacificar o mundo. Num outro plano, o Senhor do Rio sustenta que a coragem é um atributo natural dos praticantes do Dao; já que deflui da Espontaneidade, sua origem não deve ser procurada em situações concretas.”

 

 

“Deitando as armas [no chão]

 

Pulcras armas1 são instrumentos2 de mau agouro;

Comentários

“Pulcro” [é uma metáfora para o que tem] adereços. “Agouros” [em geral são] bons. “Armas” [são uma metáfora para] instrumentos malignos que abalam [o equilíbrio] da energia pura e do espírito original,3 além de infectar a harmonia do Yin-Yang.4 Não se deve apor adereços [aos instrumentos], ornamentando-os.

 

[Todas] as coisas têm um ódio eterno por elas;

Comentários

[Basta] as armas se moverem para que [alguém sofra] dano. Por isso que, dentre as dez mil coisas, não há nenhuma que não as odeie.

 

[Com razão,] quem possui o Dao [em si] evita [as armas].

Comentários

O homem que possui o Dao evita as terras [onde há violência].

 

O Homem Nobre,5 em casa, dá valor ao lado esquerdo;

Comentários

Preza o que é tenro e fraco.

 

[Quando está] em armas, aprecia o lado direito.

Comentários

Estima o que é duro e forte. Estes [versos] propõem que o Dao das armas e o Dao do Homem Nobre opõem-se, já que veneram coisas diferentes.

 

Armas são instrumentos de mau agouro,

Comentários

Armas e couraças são instrumentos malignos.

 

Não são os instrumentos do Homem Nobre.

Comentários

Não são instrumentos que o Homem Nobre dá valor e respeita.

 

Apenas em último caso é que as brande.

Comentários

[O verso] sugere que [o Homem Nobre] somente brande armas para se defender, atacando os dez mil povos em caso de colapso [da ordem, como] insurreição, indisciplina ou catástrofes.

 

[Nessas ocasiões,] prefere [agir] com serenidade,

Comentários

Não cobiça terras, nem se aproveita dos tesouros e posses das gentes.6

 

Triunfa, sem ver beleza [na vitória];

Comentários

Mesmo que triunfe [pela força], não deve ver nem beleza, nem benefício [em seus feitos].

 

Pois, do contrário, encontrará alegria em matar seres humanos:

Comentários

Quem vê beleza na obtenção de um triunfo é o tipo de pessoa que se rejubila com a morte de pessoas.

 

Alegrando-se com mortandade, não poderá ambicionar Tudo sob o Céu.

Comentários

Se um soberano de homens deleita-se com a morte, não se lhe pode permitir que ambicione Tudo sob o Céu. O coração do senhor de homens cinge-se a [querer] regular a vida das pessoas, não podendo abusar das punições.

 

Em ocasiões auspiciosas, honra-se a esquerda.

Comentários

O lado esquerdo [representa] a vida.7

 

Em ocasiões ominosas, honra-se a direita.

Comentários

O dao8 [das energias] Yin [realiza-se com] a morte das pessoas.9

 

O vice-comandante fica à esquerda.

Comentários

De patente menor, o vice-comandante ocupa a posição correspondente a Yang, pois matar os inimigos não é atribuição exclusiva sua.

 

O comandante em chefe fica à direita.

Comentários

Da mais respeitada patente, o comandante em chefe ocupa o lado direito. [Isso] esclarece que é ele a liderar a mortandade.

 

Isso quer dizer que se dispõem conforme os Ritos funerários.

Comentários

O comandante em chefe fica à direita, os Ritos funerários estimam a direita. Os mortos honram [a energia] Yin.

 

Quando põem à morte uma multidão de pessoas, [devem] chorar com tristeza e aflição por elas.

Comentários

[Este verso sugere que o comandante em chefe] lamenta-se de não possuir Virtude10 suficiente, de ser incapaz de usar o Dao para transformar11 [moralmente] as pessoas, findando por ferir o povo inocente.

 

Quando triunfam na guerra, [devem] realizar os ritos funerários [pelos que tombaram].

Comentários

Em eras passadas, o comandante em chefe posicionava-se no lugar do celebrante dos Ritos funerários depois de triunfar na guerra. Com vestes brancas, chorava pelos mortos, donde o fato de que o Homem Nobre valoriza a Virtude e despreza as armas. É somente após ficar sem alternativas que põe outros à morte, [mas o que fez mesmo assim] não deixa de ser coisa agourenta. Seu coração não encontra alegria [na matança], donde compará-la à perda dos seus. Ao se lembrar que as gerações vindouras também voltarão a pegar em armas inúmeras vezes, sente [ainda maiores] tristeza e dor.”

1 HSG e WB trazem “pulcro” (佳, jia). FY traz “belo” (美, mei). MWD traz “armas”, sem qualificação alguma.

2 Instrumento: 器 (qi) possui dois sentidos principais. O primeiro deles é sociopolítico. Etimologicamente, o ideograma representa um cão guardando objeto(s) precioso(s) (SWJZ). No sistema social da China arcaica, determinados objetos possuíam o papel de emblemas do status de uma pessoa. Dado que os Ritos possuíam uma dimensão religiosa, os objetos em questão estavam sacramentados por crenças de tempos imemoriais. A perda ou cessão deles equivalia à perda de poderes políticos e até mesmo ao desaparecimento do clã. Portanto, o termo indicava uma classe de objetos dos mais desejados pela sociedade. Nesse contexto, “Instrumento” é utilizado pelos pensadores chineses para conotar uma pessoa de talento, que se põe a serviço de uma potestade. É famosa a citação dos Analectos (5.13): “Zigong perguntou: ‘[E o que o Mestre acha de] Ci, [este seu discípulo]?’. O Mestre disse: ‘És [como] um instrumento’. [Zigong] perguntou: ‘Que tipo de instrumento?’. [O Mestre] disse: ‘[És como um vaso cerimonial] hulian’” 子貢問曰: “賜也何如”。子曰: “女器也”。 曰: “何器也”。曰: “瑚璉也”. Não obstante, há uma certa dubiedade na expressão, que pode ser intuída em português: um instrumento não é um fim em si, existindo meramente para cumprir uma função a que se destina. Confúcio está consciente desse problema, como ilustra Analectos (2.12): “O Mestre disse: ‘O Homem Nobre não é uma ferramenta’” 子曰: “君子不器”. Com essa frase, o pensador expressa um ideal de sapiência, em que o grande homem não pode ser reduzido às funções que exerce – não pode ser reificado. Tudo indica que Confúcio não resolveu a contradição ínsita à noção de Instrumento, possivelmente porque ele mesmo ansiava por tornar-se o maior deles. Laozi, todavia, por vislumbrar um Dao além da sociedade e além da política, podia colocar o problema em seus devidos termos. O verso “se a tábua é trabalhada, torna-se um mero instrumento” significa que todo aquele que deseja tornar-se alguém importante na sociedade terá que sacrificar sua Naturalidade – seja por sacrificar valores para progredir na carreira, seja por limitar-se ao trabalho que exerce na burocracia. Para Laozi, o ideal de desenvolvimento humano é preservar a Naturalidade original, próxima da Espontaneidade do Dao. Por conseguinte, “Dao” e “Instrumento” formam uma dicotomia. Nesse ponto, percebe-se que Instrumento também possui um sentido cosmológico. Os “Comentários anexos” ao Livro das mutações confirmam-no: “O que está além das formas é chamado de Dao; o que está aquém das formas é chamado de ‘instrumentos’” 形而上者謂之道, 形而下者謂之器. Este é um ensinamento compatível com certas cepas do pensamento taoista, que fixam seus olhos além da sociedade e do mundo tangível. No mundo de “aquém da forma” somente há o dia a dia, a vida familiar e as relações entre governantes e governados. Os indivíduos somente podiam ser compreendidos a partir dos papéis que exercem na sociedade – metaforicamente, dos instrumentos que são ou que possuem. O Dao, contudo, estabelece um novo referencial, fora do que cada um representa respectivamente à coletividade. Resgatada, a Naturalidade exprime um conceito absoluto, “além da forma”, podendo ser valorizada como um tipo primordial de perfeição objetiva. Nesse sentido, os capítulos cosmológicos de Laozi (10, 14, 40, 42, 51, entre outros) subsidiam a realidade superior, fundamentando sua visão de homem e de sociedade.”

3 Energia Pura/Espírito Original: cf. cap. Imagem primordial, nota 9.

4 Harmonia do Yin-Yang: Na cosmogonia de Laozi (cf. cap. 42) e do Clássico das mutações, as energias Yin-Yang (cf. cap. 1 nota 20) provêm de uma harmonia original, além do tempo e do espaço, em que se encontravam irmanadas e em perfeito equilíbrio. É a “energia original” (元氣, yuanqi) anterior à divisão do Céu e da Terra. A harmonia referida pela passagem, no entanto, sucede à separação dos dois. Diferentemente da harmonia cosmogônica, é um estado temporário e precário, que o praticante taoista deve manter. Dentro do corpo, essa harmonia promove uma vida longa; fora do corpo, garante a estabilidade e paz no mundo. Por conseguinte, ao sentido original (cosmológico) somam-se duas dimensões – medicinal e política. Embora na passagem haja sido grafado como 和氣 (heqi), o conceito possui sinônimos como “mistura de energias” (沖氣, chongqi) ou “energia moderada” (中氣, zhongqi) – que têm por base o mesmo princípio.

5 Homem Nobre: Esta é a única aparição de 君子 (junzi) em Laozi. O termo possui dois sentidos, tal como em português. Por um lado, é o homem de estirpe, aristocrata de sangue. Por outro, é o homem de elevados valores morais, da mais distinta virtude. Em Confúcio, representa o ideal do homem erudito, instruído, porém não necessariamente sem linhagem ou distinções sociais. Para Laozi, “quem possui o Dao em si” está além da complexa etiqueta da China antiga. Seus elevados valores morais e Virtude também se definem como acima do apego confuciano à reputação e convenções sociais. Mas isso não implica recusa do ideal ortodoxo de Homem Nobre, apenas o reconhecimento de seus limites.

6 “Não cobiça terras, nem se aproveita dos tesouros e posses das gentes”. A edição impressa Song lê: “traz benefícios ao patrimônio do povo, [permanecendo] indiferente [às vantagens que poderia obter,] tal como fora desde o início” 利人財寶, 惔一本作然. Este último trecho possivelmente é uma intercalação.

7 Outras versões do texto de HSG especificam o significado da glosa “o lado esquerdo representa a vida”. A edição Qushan Ji diz: “a esquerda corresponde a Yang, autor da vida”. A edição Qiang diz: “o lado esquerdo é auspicioso, autor da vida”. Com “auspicioso” e “ominoso”, Laozi possivelmente refere-se a duas dentre cinco divisões dos Ritos citadas pelos Ritos de Zhou em seu terceiro capítulo “Funcionários da Primavera” 《周禮·春官》. De um lado, havia os Ritos Auspiciosos (吉禮, jili), rotina aplicada às cerimônias de sacrifícios religiosos em geral. De outro, havia os Ritos Ominosos (凶禮, xiongli), reservados para momentos de crise, como cerimônias funerárias, catástrofes naturais e fracassos militares. Segundo observação de Zheng Xuan (鄭玄, 127-200), os Ritos Auspiciosos valorizavam a esquerda, enquanto os Ominosos prezavam a direita – posições em correspondência com Yang e Yin, respectivamente.

8 Dao (com minúscula) significa a forma de ser ou agir; neste caso, das energias Yin.

9 A edição Qushan Ji entra em contradição com Laozi ao afirmar que “esquerda é Yin, autora da morte”.

10 Virtude: Junto com “Caminho” ou “Dao” (道, Dao), “Virtude” (德, de) compõe o par de conceitos mais importante do Livro de Laozi. “Virtude” é um tipo de índole que se obtém – no original chinês, “Virtude” e “obter” são sinônimos, já que os ideogramas de “virtude” (德, de) e obter (得, de) possuem o mesmo som e estrutura. Trata-se de uma definição amplamente compartilhada na literatura anterior à dinastia Qin. No dicionário SWJZ, o ideograma atualmente redigido como 德 é composto de duas partes: 直, que significa “direto”, “franco”, e 心, que significa “coração”. SWJZ explica o termo, dizendo que “Virtude é o que, de fora, obtém-se de outras pessoas; e, de dentro, obtém-se de si próprio” 外得於人, 內得於己. Isso quer dizer que se pode obter a virtude “fora de si”, aprendendo-a com outras pessoas, e também “dentro de si”, por meio de instrução formal sobre as tradições escritas e de contínuo escrutínio da consciência. Em que pese a evidência de textos mais antigos do que SWJZ, como o Clássico dos documentos e Clássico dos poemas, “virtude” parece ter tido um sentido mais restrito socialmente e seu papel seria “sacramental”, na perspectiva das relações de dominação. Dessa forma, a “virtude do rei” ou “a virtude do sábio” serviria para distingui-lo das pessoas que governa e também para legitimar seu mando sobre elas. Essa virtude manifesta-se em vários aspectos: aparência, forma de falar, comportamento, reputação, moralidade e “sabedoria” – compreendida como o conhecimento de precedentes, da tradição escrita ou, simplesmente, de uma prudência política singular. Em termos “sacramentais”, a “virtude”, por um lado, é a base do respeito devido pelo povo à alta nobreza de sangue e, por outro, serve como garantia de que esses governantes não abusarão de seu poder. Tal garantia carece daquilo que, no Ocidente, desenvolveu-se em leis ou constituições escritas. Na China, o controle ao abuso de poder imprimiu-se levemente sobre a tradição, devido a uma moralidade não de todo desprovida de sanção religiosa: a virtude do rei é aferida pelo Mandato do Céu e seus vícios são punidos como má reputação. Com o esfacelamento da ordem política de Zhou, o conceito de “virtude” parece ter sido ampliado para abranger um grupo de pessoas mais marginalizadas das estruturas tradicionais de poder; por exemplo, Zixia (um dos mais importantes discípulos diretos de Confúcio) e Mêncio discriminam entre “grande virtude” e “pequena virtude”, tacitamente reconhecendo que “virtude” de certa forma independia de classe ou situação social. No que se revelou uma mudança ainda mais importante e decisiva para o curso da história das ideias na China, a partir do período da Primavera e Outono, “virtude” vem cada vez mais associada ao “aprendizado” ou “estudo” das escolas que se formaram em torno dos primeiros mestres, dentre os quais se conhece Confúcio, Laozi ou Mozi. É nesse período em que Laozi lança o debate sobre a relação entre “Virtude” e “virtudes”, no qual, como fica evidente neste capítulo, argumenta haver uma “Virtude” acima de suas variedades, tais como humanidade, senso de dever, propriedade ritual etc. A “Virtude” de Laozi mantém claro paralelismo com a sua ideia “transcendente”, de “Dao”, o que também parece ser uma inovação de sua obra. Esse novo entendimento reforça a dimensão cosmológica do termo, que é recebida por pensadores taoistas de gerações posteriores, como Zhuangzi《莊子·天地篇第十二》: “Chama-se de Virtude aquilo que as coisas [precisam] obter para nascer” 物得以生, 謂之得; ou Guanzi 《管子·心術上》: “A Virtude é a paragem do Dao, as coisas [precisam] obtê-la para produzir vida” 德者道之舍, 物得以生生. Tal insight será explorado e aprofundado por gerações sucessivas de escolas e garantirá uma certa preeminência filosófica do taoismo até a chegada do budismo na China.

11 Transformação (Política): O termo 化 (hua) já havia aparecido no cap. 1, nota 16, com sentido cosmológico. Dessa vez, “transformação” possui uma conotação político-moral, significando a criação de amplo consenso na sociedade a respeito do que é certo e errado, justo e injusto. Não se trata, todavia, de um consenso estabelecido horizontalmente: a passagem enfatiza o protagonismo do soberano, notadamente, em incutir valores e formas de pensar no povo, seja mediante sua conduta pessoal, seja por meio do aparato de governo – trabalho de “doutrinação” (cf. cap. 2, nota 9). Não se deve, todavia, separar radicalmente os dois tipos de “transformação”. No pensamento chinês, especialmente no taoismo, postula-se que a ordem política deve espelhar uma ordem natural idealizada. Da mesma maneira que o Céu conduz o processo de “transformação” cosmológica, tendo a Terra como o elemento passivo, também o soberano (e as classes superiores) devem “transformar” o povo, política e moralmente. Além disso, em decorrência da “Natureza inata” (cf. cap. 8, nota 1) do homem, existe também uma moralidade congênita, de modo que a “transformação” moral dos indivíduos não se pretende um trabalho exclusivamente de fora para dentro, mas sim a criação de condições para que as pessoas possam seguir suas inclinações. Subjacente a essa visão, há um forte determinismo dos valores e tradições coletivos.

 

 

“Discriminando virtudes

 

Quem conhece os homens1 possui [um tipo de] sabedoria;

Comentários

Distinguir o que os homens têm de bom e de mau, eis o que [usualmente] se chama de sabedoria.

 

[Mas só] quem conhece a si próprio é iluminado.2

Comentários

[Ou seja,] alguém que consegue discriminar o que tem de valoroso ou de abjeto. A isso se chama de “quem se ouve dispensa sons”, “quem se vê dispensa formas”. Nisso consiste a iluminação.

 

O homem que supera os outros possui [uma espécie de] poder;

Comentários

Quem vence os outros somente tem autoridade ou força.

 

[Mas] apenas quem vence a si próprio é forte.

Comentários

Se alguém for capaz de conquistar seus próprios desejos e impulsos, não haverá outra pessoa capaz de competir contra si em Tudo sob o Céu. Nisso consiste a força.

 

Rico é aquele que se dá por satisfeito [com o que tem];

Comentários

Quando uma pessoa sabe se dar por satisfeita,3 ela preservará por um longo tempo a sorte que tem e [o patrimônio que] possui, [como] suas terras e títulos. Nisso consiste a riqueza.4

 

[E] quem age com empenho5 possui ideal.6

Comentários

Se alguém for capaz de empregar todas as suas forças para praticar o bem, essa pessoa buscará o Dao como ideal seu. [Nessa hipótese,] o Dao também buscará [esse] homem como ideal.

 

Perdura a pessoa que não perde seu lugar;7

Comentários

Se um homem for capaz de agir com reflexão e comedimento, nunca desperdiçará a energia pura8 que recebera do Céu.

 

[E] quem morre sem se perder9 é longevo.

Comentários

Quando os olhos não espiam o que não devem; quando ouvidos não escutam o que não devem; quando a boca não fala o que não deve: essa pessoa não será objeto de ódios em Tudo sob o Céu. Assim garantirá sua longevidade.”

1 Conhecer os Homens: (知人, zhiren) o termo tem duas leituras possíveis; tanto pode significar a pessoa que tem erudição e siso, como, numa acepção peculiarmente chinesa, o homem que tem o talento especial de reconhecer valor em terceiros, recomendando-os para que se coloquem ao serviço de uma potestade. Wang Bi emprega o termo no primeiro sentido; o Senhor do Rio, no segundo.

2 Laozi prossegue em sua crítica aos valores tradicionais. Dessa vez, seu alvo é a Sabedoria propalada pela ortodoxia – o estudo, prática e culto de obras canônicas e a imitação de figuras exemplares reputadas como fontes da tradição. Como verdadeira sabedoria, Laozi propõe “conhecer a si próprio”, termo que não deve ser apressadamente relacionado ao Γνῶθι σαυτόν socrático. Os projetos intelectuais de Laozi e Sócrates são diversos: em Laozi não há dialética, não há maiêutica, não há dúvida, nem ironia. Laozi tampouco poderia ser visto como o produto de uma sociedade similar à Atenas do século quinto antes de Cristo. E, talvez mais importante, Laozi empenhou-se para realizar um valor qualitativamente diverso do que a profunda reflexão sobre a legitimidade das leis e o destino da alma – obra socrática, em que pese o testemunho de Platão. Em Laozi, percebe-se que a contemplação do Dao, a iluminação silenciosa e a autarquia são mais preciosas, no contexto de um projeto político tipicamente chinês de unificação do país sob um Rei Sábio.

3 “Quando uma pessoa sabe se dar por satisfeita”. A edição impressa Song lê: “Estar satisfeito com algo significa alguém poder dar-se por satisfeito”.

4 É interessante assinalar a distância entre o texto original de Laozi, que aparentemente enfatiza o ideal “monástico” de vida, e o comentário do Senhor do Rio, muito mais pragmático – já que não dispensa títulos, terras e relações pessoais privilegiadas. Seriam visões diferentes ou Laozi não disse tudo que tinha em mente? Na história chinesa, há um número de tipos heterogêneos que se declaram “taoistas”. Se por fim confirmar-se que só os eremitas praticantes das técnicas de longevidade merecem o título, talvez a questão se resolva em favor da literalidade dessa passagem. Entretanto, na China, raramente há coerência de princípio entre uma obra e o que supostamente é sua doutrina. Dessa forma, à falta de um esclarecimento do próprio Laozi, só é possível fechar a questão nos limites de uma leitura particular do texto.

5 Agir com empenho: literalmente, “agir com esforço” (强行, qiangxing), que talvez possa ser comparado ao 力行 (lixing) de máxima notória da Doutrina do Meio《中庸》: “Gostar de cultivar o Estudo aproxima-se da Sabedoria; esforçar-se para preservar sua conduta aproxima-se da Humanidade; ter senso de vergonha aproxima-se da coragem” 好学近乎知, 力行近乎仁, 知耻近乎勇. Embora critique essas três virtudes, Laozi não nega sua importância, especialmente se forem harmonizadas ao plano maior do Dao e sua Virtude.

6 Ideal: (志, zhi) uma breve análise do ideograma revela o que há de especificamente chinês nesse termo. Ele compõe-se de duas palavras 士 (Shi: cf. cap. 15, nota 1) e 心 (Coração: cf. cap. 3, nota 9). Quando se fala de ideais em português, via de regra tem-se em mente as aspirações do indivíduo. Não é o caso do termo chinês – etimologicamente vinculado aos interesses e valores de uma elite intelectual homogênea.

7 Não Perde Seu Lugar: O destinatário original de Laozi era o homem ambicioso, egresso de um grande clã, que buscava crescer numa carreira política dentro da burocracia. Portanto, seja para obter um cargo, seja para não perdê-lo, era necessário um intenso trabalho de gestão de relações humanas, selando-se alianças matrimoniais, buscando-se apoio de patronos, oferecendo proteção a clientes etc. ZQZ (p.134) cita uma passagem de Hanfeizi que menciona dois animais lendários, o dragão voador e a cobra alada. Sem o apoio das nuvens e da névoa de que dependem para deslocar-se, não são diferentes das criaturas mais ordinárias. Essa metáfora conota o homem de valor, incapaz de ter êxito se exclusivamente baseado nas próprias forças. Ele tanto depende de suas circunstâncias como de seu senso de oportunidade. Contudo, “senso de oportunidade” na sabedoria de Laozi é o oposto do que se compreenderia hoje. Ao contrário de aceitar riscos, Laozi propõe satisfazer-se com o que se tem, preservar as posições que se ocupa, pensar no resultado de longo prazo. A sabedoria chinesa valoriza “saber quando parar”. Nesse ensejo, Zhu cita o hexagrama 艮 (gen) do Clássico das mutações, que toma uma montanha como símbolo. O comentário chamado “Julgamento” ao hexagrama 艮《易·艮·彖》ensina: “艮 [aconselha] ‘parar’. Para quando deve parar; age quando deve agir; ação e descanso, cada qual no momento propício, o teu Dao é de puro brilho” 艮, 止也。時止則止, 時行則行, 動靜不失其時, 其道光明. Dessa forma, a grandeza e força da montanha reside em sua prudência, manifestada através de sua imobilidade. Eis como preservar a posição que se tem.

8 Energia Pura/Espírito Original: cf. cap. Imagem primordial, nota 9.

9 Morrer sem se Perder: (死而無亡, si er wu wang/wu) é uma expressão de sentido controverso, podendo ser traduzida de diversas formas, cada qual servindo a um entendimento particular do texto. O motivo das disputas é o termo 亡, que pode significar: 1) perecer; 2) desaparecer; 3) desordenadamente (como cognato de 妄, wang). Os taoistas que creem em imortalidade adotam a leitura “morre sem perecer”, no sentido de que o Sábio perde seu corpo mas permanece no mundo como um Imortal (神仙, shenxian). Uma leitura mais “confuciana” seria a de que o homem de valor morre, mas sua boa reputação e suas contribuições à sociedade não desaparecem, a exemplo da citação do Comentário de Zuo《左傳襄公廿四年》: “o corpo morre, mas a reputação não se desfaz” 死而不朽. A terceira e última leitura, baseada no texto de algumas edições, como Yilin, afirma que 亡 é redação antiga de 妄, que significa “desordenado”, “descomedido”. Esta é a interpretação empregada pelo comentário do Senhor do Rio, que nega a olhos, ouvidos e boca serem descomedidos, isto é, atentarem para o que não devem. Portanto, “morrer sem se perder” significaria nunca tergiversar seu comedimento e moderação, mesmo sob o maior dos riscos. Isso garantiria a sobrevivência do praticante taoista.

 

 

“Assumindo grandes feitos

 

Oh! [Como] transborda o Grande Dao;

Comentários

O Grande Dao é como uma torrente de águas caudalosas: ora sobe, ora desce; ora está [diante de nós], ora não mais. Se observarmos o Dao, não conseguiremos vê-lo [com nossos olhos]; se tentarmos discursar sobre ele, será difícil discerni-lo.

 

Pode [fluir] para a direita ou para a esquerda.

Comentários

O Dao pode estar à direita ou à esquerda, nada lhe é inapropriado.1

 

As dez mil coisas dependem dele para haurir vida;

Comentários

[No verso,] “depender” significa “esperar por”. Todas as dez mil coisas esperam pelo Dao para [obter] vida.

 

Mas nunca [sofrem] recusa [sua].2

Comentários

O Dao nunca declina [seus obséquios], contrariando [as dez mil coisas].

 

Sua obra se completa, mas não tem renome;3

Comentários

[O praticante que] possui o Dao [em si] não dá nome aos feitos que realizou.

 

Cuida das dez mil coisas, nutre-as – mas não se torna dono [delas].4

Comentários

Apesar de cuidar e nutrir as dez mil coisas, o Dao não se parece com o Senhor de Homens, que obtém [vantagens] e toma [tributo de seus subordinados].

 

Sempre livre de desejos, podemos denominar-lhe de pequeno.

Comentários

O Dao oculta sua Virtude5 e esconde seu Nome;6 cheio de cautela, pratica a Inação.7 É como se fosse algo minúsculo.

 

As dez mil coisas se lhe submetem, porém [o Dao] não se apossa delas;

Comentários

Todas as dez mil coisas submetem-se ao Dao para dele receber energia vital.8 O Dao não é como o Senhor de Homens, que lança mão de proibições e restrições.

 

[Portanto, também] podemos denominar-lhe grande.

Comentários

As dez mil coisas vêm e vão num burburinho tamanho, mas [o Dao] faz com que cada Nome permaneça em seu lugar.9 Por tal motivo pode ser denominado de grande.

 

[Sabendo] disso, o Sábio10 nunca [busca] realizar grandes [feitos], até o fim [de sua existência];

Comentários

O Sábio modela-se no Dao, ocultando sua Virtude e escondendo seu nome, não [ousa] agir como um grande personagem, cheio de si.

 

Eis como logra realizar sua grandeza.

Comentários

O Sábio comanda [seus subordinados] pelo exemplo. Não precisa falar para transformá-los [moralmente],11 [todas] as dez mil coisas governam-se [por si sós], por isso que é capaz de realizar sua grandeza.”

1 Laozi usa esquerda e direita para expressar o ângulo das águas de uma torrente que, em seu vigor, podem virar para um lado ou para o outro. O Senhor do Rio expande esse sentido para significar a organização hierárquica do espaço conforme os Ritos – cuja importância ficou patente no cap. 31 “O Homem Nobre, em casa, dá valor ao lado esquerdo” etc. Portanto, “esquerda” e “direita” em chinês arcaico significam mais do que dois lados ou direções: expõem também a base de uma hierarquia abrangendo cosmologia (Yin-Yang), política (rei-servo) e a família (marido-mulher, pai e filho).

2 Outra tradução possível desse verso seria: “As dez mil coisas dependem dele para haurir vida, Mas nunca se expressa”.

3 Há duas sintaxes possíveis para esse verso, que resultam nas seguintes traduções literais: 1) “sua obra se completa, mas não tem nome ou fama”; 2) “sua obra se completa, mas não se lhe pode dar o nome de ‘existente’”. FY apresenta uma redação alternativa: “sua obra completa-se, mas não lhe tem apego”.

4 Esse verso possui redações diferentes nos manuscritos principais. WB: “veste e cuida das dez mil coisas, mas não se torna dono delas” 衣養萬物而不為主. FY: “como uma veste, cobre as dez mil coisas, mas não se torna dono delas” 衣被萬物而不為主. MWD: “as dez mil coisas submetem-se [ao Dao], mas não se torna dono delas”.

5 Virtude: cf. cap. “Deitando as armas [no chão]”, nota 10.

6 Nome: atribuir nomes (名, ming) às coisas é a contrapartida humana da transformação cosmológica, tendo profunda sacralidade no pensamento chinês. Neste patamar, o sagrado e o político unem-se numa mesma coisa, pois as narrativas tradicionais atribuem aos “reis sábios” de tempos imemoriais o trabalho civilizador de instruir o povo sobre os Nomes das coisas. Há um interessante locus classicus nos “Comentários Anexos” ao Livro das Mutações mostrando que cada geração de soberanos contribuiu de modo crescente e substancial para essa obra: alimentação, moradia, vestuário, ferramentas, instituições etc. Além disso, o capítulo 36 da obra Guanzi (管子) 《管子·心術上》 (p.776) tenta mostrar que o trabalho de nomear as coisas reveste-se de uma importância política permanente. Segundo esse autor, o poder de denominar as coisas imparcialmente distingue o soberano de seus súditos. Autores modernos citam uma glosa ao poema “Sete Exortações” (七發, qifa), escrito pelo intelectual-burocrata Mei Sheng (枚乘, ?-140 a.C.), para esclarecer que os nomes têm um papel organizador. A glosa supostamente leria: “atribui-se ‘nomes’ às coisas e eventos do mundo para comandá-los” 名者, 所以命事也. Isso significa que somos capazes de “manusear” verbalmente uma coisa quando lhe definimos um termo ou definição específica, ordenando-a conforme nossas intenções. Na glosa, os ideogramas de “Nome” (名, ming) e “comandar” (命, ming) possuem pronúncia similar; portanto, pareceria natural aos intelectuais chineses associá-los. “Comandar” é uma das traduções possíveis de uma palavra cujo sentido mais eminente na história das ideias na China é “Mandato do Céu” ou “Destino” (cf. cap. 16, nota 8). O capítulo 32 explora o surgimento dos nomes a partir de sua dimensão cosmológica; por meio da “metáfora da carruagem”, o final do cap. 39 problematiza a relação entre nomes e coisas.

7 Inação: cf. cap. Retorno à pureza, nota 10.

8 Energia Vital: cf. cap. 1, nota 15.

9 O Dao é descrito como promotor de ordem no mundo, já que denominar implica classificar coisas em gêneros, criando um “mapa conceitual” da realidade – o que propicia a comunicação entre pessoas. Por trás do ato de atribuir nomes está um tipo de compreensão do mundo e da realidade. Nesse contexto, se a nossa reação com o mundo carecer de verbalidade, não haverá coerência entre as coisas, embora seja possível interagir com o mundo e existir nele. Quando, no entanto, somos capazes de denominar e verbalizar, digamos, uma paisagem em que há animais, há pedras, há árvores, há terra, há água, há nuvens etc., essa compreensão do mundo autonomiza-se, destacando-se das coisas “originais” que ora estavam presas ao tempo e ao espaço. “As dez mil coisas vêm e vão num burburinho tamanho, mas [o Dao] faz com que cada Nome permaneça em seu lugar”. As edições Anotações reunidas, Gu e Cânone taoista leem: “faz com que cada coisa permaneça em seu lugar”.

10 Sábio: cf. cap. Nutrindo o corpo, nota 8.

11 Transformação (Política): cf. cap. 3, nota 6.

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